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San Lorenzo

Escudo do San Lorenzo

O Club Atlético San Lorenzo de Almagro é um dos clubes mais tradicionais do futebol argentino, com uma origem que foge do padrão dos outros grandes: nasceu nas ruas, não numa fábrica ou faculdade, e encontrou abrigo no pátio de uma paróquia salesiana. Fundado em 1º de abril de 1908, o clube deve o nome ao padre Lorenzo Massa, que cedeu o espaço da igreja para afastar os jovens do perigo dos bondes que cruzavam a cidade. Dessa origem eclesiástica veio o apelido Los Cuervos, provocação de rivais em referência às batinas dos padres, que a torcida abraçou como identidade própria.

O San Lorenzo é um dos cinco grandes do futebol argentino e disputa com o Huracán o Clásico de Barrio, rivalidade entre dois clubes da própria cidade de Buenos Aires, diferente dos clássicos que envolvem Avellaneda. Também é conhecido como El Ciclón, apelido que remete a um futebol ofensivo capaz de varrer qualquer adversário.

A ferida da ditadura e o exílio do Gasômetro

O San Lorenzo teve por décadas seu estádio, o Viejo Gasómetro, no bairro de Boedo, inaugurado em 1916 e capaz de reunir dezenas de milhares de torcedores. Em 1979, sob a ditadura militar argentina, o clube foi despojado do terreno, oficialmente para um projeto de reurbanização que nunca existiu. O espaço acabou vendido para a construção de um supermercado.

Sem estádio próprio, o clube viveu anos difíceis, incluindo um rebaixamento em 1981. Mesmo assim, na temporada seguinte, mandando seus jogos sempre fora de casa, o San Lorenzo vendeu mais de 1,6 milhão de ingressos, média de quase 18 mil por jogo, recorde de público da categoria, a ponto de a confederação argentina exigir que os adversários usassem estádios de pelo menos 30 mil lugares para recebê-lo. O acesso veio em 6 de novembro de 1982, contra o El Porvenir. Só em 1993 o clube teria casa própria de novo, o Nuevo Gasómetro, no bairro de Bajo Flores.

O papa torcedor e a redenção continental

Apesar de 15 títulos nacionais, o San Lorenzo viveu por décadas um vazio no plano continental. Foi um dos primeiros representantes argentinos na Copa Libertadores, em 1960, mas passou mais de cinquenta anos sem conquistar o torneio.

Isso mudou depois de um episódio que uniu futebol e fé. Em 2013, o cardeal argentino Jorge Bergoglio, sócio número 88.235 do clube e torcedor assumido, foi eleito papa, com o nome de Francisco. No ano seguinte, o San Lorenzo venceu o Nacional, do Paraguai, e conquistou sua primeira Copa Libertadores, com gol decisivo de Néstor Ortigoza.

A Vuelta a Boedo

A conquista esportiva não apagou a ferida da perda do terreno em Boedo. Ao longo dos anos, a torcida organizou o movimento Vuelta a Boedo, exigindo a devolução do espaço tomado durante a ditadura. Em 2012, uma marcha até a Praça de Maio reuniu grande parte da torcida, e a pressão terminou numa lei de restituição histórica, que abriu caminho para o clube recomprar o terreno, financiado pelos próprios sócios.

Hoje o San Lorenzo trabalha para construir um novo estádio no mesmo endereço de onde foi expulso há mais de quatro décadas, fechando um ciclo que combina memória, fé e organização popular como poucos clubes no mundo conseguem contar.

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