Títulos argentinos no Mundial Interclubes (VII): River Plate 1986 Joza Novalis - 23/02/2012 - 00:41

Após o inédito triunfo de conquistar a América pela primeira vez, restava ao River Plate a conquista do mundo. Ninguém questionava o marco que significou o triunfo da Libertadores, porém, ainda assim, pairava sobre o Millonario a desconfiança de que o seu sucesso havia chegado ao fim, após triunfar sobre o América de Cali, um mês antes, em Núñez. De onde vinha tal desconfiança? Em parte, do lado reacionário do futebol, que não admite que um novo clube ascenda ao cenário das grandes conquistas. Em parte, vinha do fato de que se uma equipe desconhecida bateu no Barcelona bateria também no River.

Disto resulta que a ordem normal das coisas voltaria a seu devido lugar: na Europa, mais um clube entraria no rol dos campeões mundiais, e, na Argentina, continuaria a pairar sobre o River o fato de que seus três principais rivais havia conquistado um título mundial que ele não tivera a mesma competência de conquistar. Neste cenário, o triunfo sobre o clube colombiano atenuaria sua história de perdedor, mas, tida como acidente de percurso, não seria suficiente para dar cabo às históricas provocações que o time e seus apaixonados torcedores sofriam na Argentina.

A face enigmática do rival

Dissemos aqui que o time do River era fabuloso e encontrava paridade local somente no Argentinos Juniors. Um ano antes, contudo, aquele timaço de La Paternal havia ido a Tóquio e mesmo tendo feito um partidaço contra a Juventus, ficara apenas com o vice-campeonato. Esse fato equilibrava bem, em Núñez, a visão de que por dispor do tal time fabuloso o Millo era o favorito à conquista em Tóquio. Essa visão assombrava, aumentava as expectativas e, se por um lado fazia o elenco focar apenas a decisão no Japão, por outro, gerava enorme tensão na comissão técnica e no elenco do Millo. A saída para isso seria um processo de racionalização que levasse em conta as lacunas, os defeitos e a fragilidade psicológica do adversário. Só havia um problema: ninguém sabia quem era o esquisito clube romeno chamado Steaua Bucareste.

E não era para menos. Não era comum o envio de olheiros à Europa para ver o rival em ação. Se alguém fosse, tampouco teria sucesso na empreitada, já que as portas da Romênia não estavam abertas para visitantes. Lembremos que o país fazia parte da chamada Cortina de Ferro e que seu sistema social não permitia nenhuma interação com o Ocidente. Ainda que a equipe tenha feito ótima campanha na Champions, até a final, raro foi se deparar com qualquer pessoa que não tivesse convicção de que o Barcelona seria o campeão. Não foi. Da mesma forma, por aqui, fosse qual fosse o rival europeu, clube nenhum da América do Sul pensava nele, já que suas preocupações se ligavam somente ao difícil processo de se sagrar campeão continental. Assim que chegou lá, o River tinha um mês para desembarcar no Japão. A última coisa que podia fazer, então, era se dedicar a um estudo mínimo do que significava o seu adversário.

A enigmática face fora de campo

No plano sociológico, o Steaua Bucareste era uma grande contradição na Romênia. Seu auge coincidiu com o processo mais agudo do regime repressivo de Nicolae Ceaușescu. Bom ou mal, moralmente correto ou não, o fato é que qualquer regime fechado tende a ficar ainda mais repressivo quando a crise chega. A Romênia de 1986 era o retrato de um país sem saídas. A aposta de Ceaușescu em ter investido numa base fortemente industrial não havia resultado no pronto-socorro ideal com o qual ele contava para se safar nos momentos de crise. O planejamento que resultara em algo insuficiente era ainda mais prejudicado pela sucção dos frutos econômicos pelo aparelho de estado. Nas ruas, as pessoas passavam necessidades e até racionamento de pão, alimento sagrado na Romênia, denunciava o fundo da crise e sinalizava para os eventos dramáticos que culminariam na queda do ditador, três anos depois.

Neste contexto, curiosamente o Steaua, espécie de equipe oficial do regime, era amada e cultuada como poucas outras coisas no país. Seus jogadores eram santos, idolatrados de maneira cega por grande parte do povo e vistos como a única válvula de escape para uma felicidade possível. Não bastasse isso, o clube chegava naqueles idos dos anos 80 ao seu grande momento histórico. O que poucos sabem é que aquilo não era coincidência.

Aproveitar-se da imagem de um o clube não era novidade; muitos já faziam isso no passado e são muitos os que ainda o fazem no presente. Os altos investimentos na estrutura do Steaua criaram uma máquina capaz de fabricar em casa as suas estrelas. O complexo desportivo do clube contava com 900 atletas na base, muitos com sete anos de idade e para os quais era feito um planejamento específico que levava em consideração suas vidas escolares. O complexo desportivo era tão gigantesco que abrigava também mais 23 modalidades esportivas. Crianças eram recrutadas em todos os cantos do país e o resultado, em especial quanto ao futebol, era a formação de equipes configuradas para o triunfo. Depois de triunfar exaustivamente em casa, os Militares assustaram o mundo com o triunfo sobre o Barcelona na final da Champions League – em decisão realizada na própria Espanha (em Sevilha). A mesma equipe-base, já reforçada por Hagi, seria ainda vice-campeã três anos mais tarde, parada somente pelo Milan de Gullit e Van Basten.

A face enigmática dentro de campo

Dentro de campo, se tratava de uma ótima equipe e com uma característica especial: um futebol mesclado com um lado latino e outro oriental. Ao lado latino estavam ligados o toque curto e habilidoso, articulação de jogadas com a bola no pé, a gana de vencer e o espírito quente dentro da cancha. Ao estilo oriental estavam relacionados a lentidão com o que armava as jogadas, a paciência e a frieza de saber a hora exata de dar o bote ou de tentar colocar a pelota no arco. No aspecto físico, prevalecia o lado oriental com jogadores altos e fortes fisicamente; o que dava uma opção para jogadas de bola parada.

Essa equipe por vezes parecia dispor bem pouco da profundidade necessária de um time vencedor. Porém, isto era compensado pela incrível capacidade de encontrar espaços e chegar com firmeza à frente da área rival. A individualidade por vezes parecia desaparecer diante de uma disciplina tática que saltava aos olhos. Porém, era indiscutível que Balint, Lăcătuş e Piţurcă fossem acima da média. Se conhecesse o time romeno, Bambino Veira certamente pensaria numa marcação mais pesada sobre Marius Lăcătuş. O artilheiro tinha o hábito de irromper pelo flanco direito e quando todos imaginavam que cruzaria a pelota, costumava arrematar cruzado e surpreender o arqueiro rival. Tratava-se daquela típica jogada que todos conhecem, mas que ninguém consegue bloquear. Dos 370 gols feitos na carreira, quase um terço foram marcados dessa forma.

Presa indefesa de seu lado latino, essa habilidosa equipe era capaz de catimbar como poucos e como, certamente, “el Bambino” Veira jamais havia cogitado. Além disso, praticava a violência e a provocação como mecanismos de desestabilização de seus adversários. Gostava de ter o controle das ações e, se tivesse a felicidade de sair à frente do placar, as pequenas pedras no caminho do River se transformariam em grandes montanhas a serem superadas.

O Jogo em si: o espetáculo da tensão e da busca do domínio psicológico do rival

Como não conhecia o adversário, o elenco do River e sua comissão técnica esperavam por quase tudo. Só não imaginavam que seriam surpreendidos por um “toque y me voy” típico dos melhores momentos do futebol argentino. Toque para lá, toque para cá e nada do River pegar na pelota. A proposta era clara: a de desestabilizar os argentinos, conseguissem o gol rapidamente ou não. Do lado do River, a ideia era a de buscar um gol rapidamente para ter a tranquilidade necessária para que seu jogo de raça prevalecesse. No elenco, pérolas da garra e da velha raça sul-americana: Alzamendi, El Beto Alonso, El Búfalo Funes, El Cabezón Ruggieri, Tolo Gallego e outros.

No banco, o experimentado Bambino Veira, figura de honra na sala-de-estar em que se pensou a formação daquela equipe vencedora. Sob seu comando, um elenco de homens voltados para a causa do clube, dedicados, disciplinados, contundentes e de forte personalidade dentro e fora de campo. Na forma de atuar, uma equipe perigosíssima, cuja destacada força física do elenco o permitia se deslocar por todos os setores do campo. E o principal: uma máquina configurada como poucas para o contra-ataque letal aos avisados e desavisados rivais. Em uma palavra: o melhor representante sul-americano possível para aquele encontro. Porém, aquele time era vítima, no início do cotejo, do inesperado domínio exercido pelo jogo psicológico e pelo “toco y me voy” dos europeus.

De repente, o susto. Após tocar a bola para lá e para cá, o Steaua chega à frente de Pumpido e o zagueiro Belodedici guarda a pelota no arco do porteiro millonario. Por sorte, o assistente viu um controverso impedimento na jogada e anulou o gol. Isso foi o suficiente para o River mordiscar ainda mais na marcação. Contudo, pouco adiantava a proposta, pois a pelota girava de um lado para outro sem que nenhum atleta argentino fizesse sequer uma falta. Para se ter ideia, na jogada que originou o gol anulado, foram vinte passes à frente da área de Pumpido, sem que alguém pudesse interceptar. Um assombro.

Aos 28 minutos, contudo, o River encaixou um contragolpe, para o qual o excesso de confiança romeno foi determinante para o sucesso argentino. As tentativas de interceptação da jogada já demonstravam que os europeus não botavam muita fé na capacidade millonaria de mudar o destino do jogo. Foi então que Alzamendi irrompeu pelo meio e tocou para Búfalo Funes, que sofreu a falta. Enquanto o adversário se recompunha, também lentamente, Beto Alonso tocou rápido para Alzamendi que, a frente do porteiro Stângaciu tentou duas vezes até ver a pelota no arco. Um gol que se não ocorresse naquele momento, a história do embate poderia ter sido outra. Um gol que teve a função de reverter o domínio psicológico do embate. E o efeito disso foi que o River Plate pode finalmente apostar no seu jogo fechado e preparado para o contragolpe.

Alzamendi se estica para guardar a pelota no arco dos Militares

Daí até o final, o embate foi para “cachorro grande”. Do lado do River, a calma sobrevivia à tensão e falava mais alto. Com ela, os jogadores apareciam para as divididas com confiança e com a certeza de que ganhariam as jogadas. Nisso, o destaque vai para Tolo Gallego e para o uruguaio Gutiérrez. Do lado do Steaua, a tranquilidade do início havia sido substituída inicialmente pela tentativa, ainda serena, de igualar o marcador; depois, pelo desespero em chegar ao empate a qualquer custo.

Para a desgraça dos romenos, eles se deram conta de que tinham em campo um rival forte e determinado. E esse simples fato, por si só, penetrava nos seus raciocínios e fragmentava ou dinamitava qualquer tentativa de articular mentalmente uma jogada. Quando ela saía, surgia precipitada, desarticulada ou grosseira. Em outras palavras: com uma natureza diferente das típicas jogadas de classe e elegância que compunham o repertório da forte equipe dos Montes Cárpatos. Diante desse cenário, assombrado por ele e vítima de uma circunstância que não parecia previamente calculada, o conjunto romeno não era sequer sombra da sábia equipe que ignorou o Barcelona, em plena Espanha, meses antes.

Com o passar do tempo, à medida que os europeus se descaracterizavam em campo, o River era cada vez mais o retrato de uma equipe planejada. E se o jogo dos romenos não aparecia, distante que estava do toque de bola e do planejamento tático, os argentinos retratavam o que tinham de melhor: um futebol compacto, raçudo e configurado, feito uma serpente traidora, para o contragolpe. Em um deles, no fim do cotejo, Beto Alonso foi o nome que tocou na bola para perder um gol incrível diante do porteiro Stângaciu. O gol não aconteceu, mas não foi necessário. O placar final ficou mesmo no 1×0 do primeiro tempo. E o Club Atlético River Plate se tornava campeão do mundo. Uma glória justa para o futebol, pois ela fazia justiça a uma das maiores instituições futebolísticas do planeta. Um ajuste na ordem das coisas, que acontecia para restabelecer o equilíbrio no mundo do futebol. Gigante como era, o River jamais poderia viver sem esse título, e por sua conquista, o futebol até os dias de hoje lhe rende homenagens e agradece.

Bambino Veira abraça seus jogadores campeões

Formação titular campeã

Nery Alberto Pumpido; Jorge Manuel Gordillo, Nelson Daniel Gutiérrez, Oscar Alfredo Ruggeri, Alejandro Alfredo Montenegro; Héctor Adolfo Enrique, Américo Rubén Gallego, Norberto Osvaldo Alonso, Roque Raúl Alfaro (Daniel Adolfo Sperandío); Antonio Alzamendi e Juan Gilberto Funes. Técnico: Héctor “el Bambino” Veira.

Suplentes: Sergio Javier Goycochea, Rubén Darío Gómez, Claudio Morresi e Néstor Raúl Gorosito.

 

 

Mestrando em Teoria Literária e Lit. Comparada na USP. Formado em Educação e Letras pela USP, é jornalista por opção e divide o tempo vendo futebol em geral e estudando o esporte bretão, especialmente o da Argentina. Entende futebol como um fenômeno popular e das torcidas. Já colaborou com diversos veículos esportivos.

 
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