Cinco anos do último título do San Lorenzo Caio Brandão - 10/06/2012 - 03:31

Os onze cuervos que começaram jogando em 10 de junho de 2007: Tula, Orión, Hirsig, Bianchi Arce e J. Bottinelli; Lavezzi, Ledesma, Fernández, Silvera, Rivero e Ferreyra

Atualmente, a situação do Club Atlético San Lorenzo de Almagro é desesperadora, com o clube correndo sério risco de rebaixamento. Ele, que já foi o primeiro dos cinco grandes argentinos a cair (em 1981), seria também o primeiro deles a ter uma segunda queda para a Primera B Nacional. Nesta temporada 2011-12, não é nada improvável que não consiga chegar sequer às repescagens (a Promoción) contra o terceiro ou quarto colocados da segunda divisão.

Trata-se de uma situação bem diferente de exatos cinco anos atrás. Em 10 de junho de 2007, os azulgranas, mesmo com um elenco sem maiores estrelas, conseguiam aquele que continua a ser o seu último título, que relembraremos neste especial.

Antecedentes

No início do novo milênio, o San Lorenzo viveu um de seus raros momentos de conquistas em série: foi o primeiro campeão argentino do século XXI, ao faturar o Clausura 2001, e obteve ainda seus primeiros títulos internacionais na era profissional: a Copa Mercosul de 2001 (retratada pelo Futebol Portenho aqui) e a Copa Sul-Americana de 2002.

Contudo, em 2003, quando ainda chegou a vices na Recopa Sul-Americana e no Apertura, já sofria com as altas despesas oriundas da falência da parceira ISL, o que decretaria nova época de vacas magras: desde o segundo lugar no Apertura 2003, as posições finais oscilaram entre a quinta e a décima sexta, sendo a nona a mais comum.

Descenso não chegava a ser uma ameaça, daí haver como bom consolo a situação mais desanimadora do arquirrival Huracán, a ser rebaixado duas vezes na década passada (e outra em 2011). A temporada argentina de 2006-07 já seria saborosa para os lados de Boedo justamente pelo fato de marcar uma dessas voltas do vizinho à segundona. Mas a primeira metade não foi das mais memoráveis para o Ciclón em si: outro daqueles nono lugares. Naquele Apertura 2006, chegou até a perder, dentro do Nuevo Gasómetro, por vergonhosos 1 a 7 para o Boca Juniors, uma das maiores goleadas envolvendo dois dos cinco grandes do futebol argentino.

O técnico sanlorencista era o antigo ídolo Óscar Ruggeri, o terceiro que o time teve apenas em 2006. Ele não resistiria a outra derrota em casa, na última rodada do Apertura, para o fraco Quilmes, ameaçado ali por um rebaixamento que se consumaria ao fim daquela mesma temporada. Naquele dia, a delegação cuerva precisou ser escoltada pela polícia para deixar o Estádio Pedro Bidegain.

Principais figuras

Lavezzi comemorando o segundo gol sobre o Arsenal

Para o lugar de Ruggeri, os dirigentes contrataram alguém não exatamente ligado ao CASLA: Ramón Díaz, uma personalidade do River Plate, tanto como jogador quanto como treinador. E acabaria se repetindo o que ocorrera em 2001, com o sucessor do popular Cabezón sendo campeão.

Para melhorar, se daria um troco no Boca, que teve de ficar no bivice-campeonato na temporada mesmo tendo somado mais pontos na tabela agregada; e se encerraria o campeonato vencendo fora de casa, já com o Clausura na galeria, o mesmo e rebaixado Quilmes.

Naquele elenco sem maiores medalhões, quem já era ídolo era Ezequiel Lavezzi. Desde quando chegara com 19 anos do Estudiantes de Buenos Aires, em 2004, vinha liderando plantéis das decepcionantes campanhas da entressafra entre o período 2001-2002 e o daquele momento.

Tanto era o cartaz dele que, para afastar uma grande tentação do River Plate antes do início do Clausura 2007 para cima do meia-atacante, o próprio recém-chegado Ramón Díaz estabeleceu um valor de 20 milhões de dólares para El Pocho.

O San Lorenzo já havia feito um esforço enorme para adquirir em definitivo, em 2005, o passe de Lavezzi junto ao Genoa, que o comprara do Estudiantes menos famoso e o havia repassado por empréstimo para o Ciclón. O jogador só partiria para a Itália (para o Napoli, sendo um dos pilares celestes desde então) no segundo semestre de 2007 – ou seja, somente após o título nacional.

Quem assim pôde ser bem servido por ele na campanha foi a dupla ofensiva formada por Andrés Silvera e Gastón Fernández. O atual atacante do Estudiantes de La Plata era uma ex-promessa não-lapidada do River, sendo trazido ao bairro de Bajo Flores sob a afirmação de Díaz de que tratava-se de um jogador mais eficaz que Leandro Romagnoli, o maestro daquele período 2001-2003 e que não conseguira na época acertar sua volta ao CASLA (estava no Sporting Lisboa e só regressaria em 2009).

Gastón Fernández enfrentando o River Plate, onde “La Gata” surgira: contra os grandes, o artilheiro do time campeão só não marcou diante do antigo clube

Fernández acabaria artilheiro do campeão, com nove gols. Contra os grandes, só não fez diante do ex-clube. La Gata entendeu-se muito bem com Lavezzi e o volante Cristian Ledesma (não confundir com o argentino da Lazio e seleção italiana), outro ex-River recém-chegado (agora, está novamente nos millonarios) e quem seria a grande referência do meio-campo do vencedor do Clausura.

Já Silvera, ex-jogador do arquirrival Huracán (1998-99; o meia Santiago Hirsig era outro que passara pelo Globo, entre 2001 e 2003), tinha a credencial de ter sido o artilheiro do Apertura 2002, em que marcara 16 vezes, protagonizando aquele que ainda é o último título nacional do Independiente (para onde voltaria em 2009). El Cuqui soube dividir os gols com Fernández, marcando sete tentos. Com outros dezoito gols na conta, o campeão do primeiro semestre de 2007 teve o segundo melhor ataque do torneio.

Outras figuras importantes foram o meia Diego Rivero (o mesmo que atualmente está no Boca Juniors), que conquistou a torcida sobretudo pela raça; e o goleiro Agustín Orión, outro que neste momento é boquense. As boas atuações dele na época – menos vazado do Clausura, com 17 gols em 19 jogos – fariam a diretoria sentir-se confiante para preterir, no segundo semestre, o retorno de Sebastián Saja, apesar de este (outro vencedor em 2001 e 2002) ter ido muito bem no Grêmio, onde estava emprestado e onde foi vice-campeão da Libertadores daquele ano.

Parte da segurança defensiva deveu-se também ao bom momento do zagueiro Jonathan Bottinelli, ainda hoje uma das últimas revelações das canteras azulgranas. Teve seu valor reconhecido mesmo perdendo parte da reta final por conta de uma lesão (seu irmão mais novo, o meia Darío, integrava o grupo, mas sem participação ativa na campanha). Seu companheiro na zaga, Sebastián Méndez – multicampeão com o Vélez Sarsfield dos anos 90 -, também portou-se muito bem, embora também tenha se lesionado no fim. E o lateral Osmar Ferreyra, um dos bodes-expiatórios do Apertura 2006, soube recuperar-se, sendo o único do elenco que conseguiu ter 100% de passes certos.

Deste San Lorenzo campeão pela última vez, Lavezzi, Ledesma e Jonathan Bottinelli fariam a primeira partida pela seleção principal da Argentina em abril de 2007, em amistoso com atletas caseiros contra o Chile. E Orión acabaria convocado por ela para a Copa América daquele ano, em julho, torneio que também contou com o paraguaio Aureliano Torres e o peruano Roberto Jiménez.

Desenrolar

Em 2001, Ruggeri dera lugar ao chileno Manuel Pellegrini, que seria campeão do Clausura (como Ramón seis anos depois) e, mais ainda, da Mercosul. O time de Pellegrini sofrera apenas duas derrotas no Clausura daquele ano. O de Díaz não ficou muito abaixo, também perdendo só duas vezes. A diferença é que teve uma vitória a menos e um empate a mais nos outros dezessete compromissos.

Seria o suficiente para ficar na frente do Boca e do Estudiantes de La Plata (o vencedor do Apertura 2006): estes também perderam dois jogos do Clausura 2007, mas ganharam respectivamente onze e dez encontros, enquanto o campeão venceu quatorze. Contra os outros quatro grandes, teve um retrospecto invicto: se não conseguiu chegar perto de devolver o vexame perante o Boca, ao menos o venceu por 3 a 0 dentro da Bombonera, na quarta rodada.

Festejos após os 3 a 0 sobre o Boca Juniors na Bombonera (à direita), desentalando um pouco os 1 a 7 sofridos contra ele dentro do Nuevo Gasómetro no semestre anterior (à esquerda)

Os demais duelos contra os grandes foram um eletrizante 4 a 3 em casa sobre o Independiente (sétima rodada); um empate caseiro sem gols contra o River Plate (na décima quarta); e, também no Nuevo Gasómetro, 3 a 0 sobre o Racing na décima sexta, já deixando ali uma mão na taça a três rodadas do fim. Os bons resultados incluíram também duas vitórias por 1 a 0 em Rosario sobre a dupla local, Rosario Central e Newell’s Old Boys. Godoy Cruz e Quilmes foram outros derrotados como anfitriões.

Mesmo ocupado também com a Libertadores de 2007, o Boca vinha forte na disputa do Clausura, irritado com o título que conseguira perder para o Estudiantes no Apertura anterior (venceria se somasse um ponto nas duas últimas rodadas, o que lhe renderia seu primeiro tricampeonato seguido. Mas perdeu em ambas, acabando por ter a pontuação igualada pelos platenses e ainda caiu de virada no posterior tira-teima contra eles).

A disputa vinha empatada até a décima rodada, quando o San Lorenzo, após vencer o Gimnasia y Esgrima La Plata e ver o Boca empatar contra o River, conseguir ficar de vez sozinho na liderança. Uma série de vitórias do Estudiantes (uma, sobre o próprio CASLA) o fez entrar na briga também. Na décima quinta rodada, a diferença era de três pontos para os 32 que tinham os alvirrubros de La Plata e o Boca. Um empate em 4 a 4 em casa contra o Newell’s Old Boys em seguida deixou os pincharratas mais distantes e centrou outra vez a disputa entre cuervos e xeneizes, para os três confrontos derradeiros.

O líder poderia até ser campeão na antepenúltima peleja se vencesse o Argentinos Juniors em La Paternal e o Boca perdesse para o Colón em Santa Fe. Por pouco não foi o que aconteceu: os auriazuis saíram derrotados para os rubronegros, mas o primeiro colocado apenas empatou. Ainda assim, bastaria ao Sanloré no penúltimo jogo que lograsse uma vitória em seus domínios (onde estava invicto sob Ramón Díaz, com oito vitórias e um empate) sobre o Arsenal para obter antecipadamente a taça e voltar a ser campeão nacional depois de seis anos, independentemente do que o Boca conseguisse.

Os auriazuis pareciam não ter tanta fé em uma reviravolta, resolvendo priorizar a Libertadores (que conquistariam semanas depois sobre o Grêmio) e escalar reservas contra o Belgrano, oponente xeneize naquela décima oitava rodada. Se o título sanlorencista se confirmasse, cumpriria um curioso intervalo de seis anos entre cada conquista argentina desde a inauguração do Nuevo Gasómetro, em 1993; o Clausura 2001 fora precedido pelo Clausura 1995.

O jogo do título

O capitão Tula comemorando o primeiro gol sobre o Arsenal, e “La Gata” Fernández, o terceiro

O onze inicial que em duas horas seria campeão foi formado por Agustín Orión; Cristian Tula, Nicolás Bianchi Arce (na vaga do contundido Sebastián Méndez), Jonathan Bottinelli (já recuperado da lesão) e Diego Rivero; Cristian Ledesma, Santiago Hirsig e Osmar Ferreyra; Gastón Fernández, Ezequiel Lavezzi e Andrés Silvera. Os visitantes estavam escalados com Mario Cuenca; Javier Gandolfi, Carlos Ruiz, Carlos Castiglione e o ugandês Ibrahim Sekagya; Pablo Garnier, Andrés San Martín, Andrés Pérez e Cristian Llama; Santiago Raymonda e Mauro Óbolo.

De fato, pouco acabou importando a vitória boquense por 1 a 0. Já aos 7 minutos, o zagueiro e capitão Tula cabeceou bola levantada por Lavezzi para abrir o placar, marcar pelo terceiro jogo seguido e deixar o título ainda mais perto. Aos 17, o próprio Lavezzi fez o seu, em chute de fora da área após acidental tabela com um zagueiro adversário. Mas o campeonato não voltaria a ser festejado para os lados dos bairros de Flores e Boedo sem sustos.

O Arsenal tinha um conjunto bem ajeitado. Chegara a liderar o Clausura no início, e naquele mesmo ano surpreenderia ao vencer a Sul-Americana. Se saísse do Nuevo Gasómetro com um empate, se classificaria para a Libertadores de 2008. Conseguiu-o ainda antes de meia hora de jogo: o atual velezano Óbolo, aos 27, em rebote de bola salva em cima da linha por Bottinelli; e aos 30, cabeceando bola cruzada por Llama, marcou os dois gols rubrocelestes em um frenético primeiro tempo para os dois quadros.

Assim, no intervalo, a vantagem do San Lorenzo caía parcialmente para bem reversíveis dois pontos, pois aos dez minutos saíra o solitário gol de Boca 1 x 0 Belgrano. Quem esvaziou a tensão para os líderes foi La Gata Fernández. E ele não demorou: logo aos 45 segundos da segunda etapa, meteu o pé na hora certa para desviar bola cruzada por Ferreyra e interceptá-la das mãos de Cuenca. Aos cinco minutos, Lavezzi sofreu pênalti após triangulação com Rivero e Fernández, que, usando uma paradinha para deslocar Cuenca, converteu a cobrança.

O técnico Ramón Díaz: identificado com o River Plate, “El Pelado” saiu de um ostracismo para ser adotado também pelo San Lorenzo, após o vitorioso Clausura 2007

Desta vez, os mandantes souberam segurar qualquer reação dos de Sarandí. Tamanha foi a tranquilidade que Díaz se permitiu a substituir algumas de suas principais peças, todas aplaudidas ao se retirarem: Rivero por Aureliano Torres, Fernández por Adrián González e Lavezzi pelo hoje flamenguista Darío Bottinelli. Já adotado pelos jogadores ao ofertar-lhes uma caminhonete Volkswagen a ter seu valor de revenda a ser partido entre todos do elenco, El Pelado Díaz conquistava também os hinchas: “Ramón, querido, Boedo está contigo”, entoavam boa parte das 40 mil vozes no Estádio Pedro Bidegain

Ramón, no te vayas, quiero la Libertadores”, também foi declarado nas arquibancadas em meio ao festivo banho-maria que se seguiu aos 4 a 2, tão grande que o árbitro pediu a bola ainda faltando alguns segundos para que se integralizassem os 45. Realmente, a décima taça nacional cuerva (décima terceira se considerado o período amador) ainda tinha esse plus: com ela, vinha naturalmente a vaga na edição de 2008 do principal torneio interclubes sul-americano, no ano em que a instituição completaria 100 anos.

Epílogo

D’Alessandro: talvez o reforço mais badalado para o projeto “Libertadores no centenário”, ajudou a eliminar o seu antigo River (de “Loco” Abreu, por sua vez ex-CASLA, ao fundo), mas naufragou junto com o sonho cuervo

A sofrida massa azulgrana, frequentemente alvo de chacota dos rivais por apoiar o único clube grande na Argentina que ainda não venceu a Libertadores, já erguida pelos outros quatro grandes e até por equipes de projeção menor no país (Estudiantes, Vélez Sarsfield e Argentinos Juniors têm mais expressão externa do que nacionalmente), poderia ter o especial êxtase de dar essa volta por cima no ano do centenário do CASLA. Apadrinhado pelo apresentador de televisão Marcelo Tinelli, o San Lorenzo, até para suprir as saídas de Lavezzi e Fernández, correu atrás de grandes nomes para o projeto, o que incluiu a repatriação de Bernardo Romeo (o goleador do mágico 2001).

Daniel Bilos, Diego Placente, Andrés D’Alessandro e Gonzalo Bergessio foram outros nomes que chegaram para alimentar a pretensão continental. Bergessio inclusive marcou os dois gols de uma das noites mais épicas do time: enfrentava-se o River Plate no Monumental de Núñez pelas oitavas-de-final da Libertadores de 2008. O empate sanlorencista veio nos últimos vinte minutos, após os visitantes estarem sofrendo derrota parcial por 0 a 2 com dois jogadores a menos, terminando ao final classificados uma vez que, na ida, haviam vencido por 2 a 1.

O encanto, porém, não durou na fase seguinte: a futura campeã LDU levaria a melhor nos pênaltis em Quito, após duas igualdades em 1 a 1 nas quartas-de-final. Foi o fim do bom período de Ramón Díaz à frente dos cuervos: quando eles estiveram firmes em busca do Apertura 2008, em seu último bom momento antes da ladeira abaixo que se seguiu, o técnico já era Miguel Ángel Russo. Díaz chegou a voltar em 2010, mas não conseguiu novamente reerguer o clube. Aquele Apertura 2008 foi decidido em um triangular final com Boca e Tigre, justamente o adversário deste domingo e um concorrente direto na luta contra o rebaixamento.

 

Caio Brandão

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Advogado desde 2012, rugbier (Oré Acemira!) e colaborador do Futebol Portenho desde 2011, admirador do futebol argentino desde 2010, natural de Belém desde 1989 e torcedor do Paysandu desde antes de nascer


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