Perder para o Brasil fora de casa não é algo que envergonhe ninguém. Muito menos uma partida com tais características, em um momento em que a liga brasileira é claramente superior à Argentina. O que cabe avaliar é o que esses amistosos podem dizer sobre o presente e apontar para o futuro da albiceleste.
Sabella fez o que deveria. Tinha zagueiros lentos, cuja possibilidade de aproveitamento na seleção principal é nula (ainda que Sebá Dominguez e Leandro Sesabato sejam bons zagueiros de clube, mas a própria idade joga contra). Corretamente os protegeu, envolvendo-os com dois laterais e uma linha de 3 volantes. No primeiro o tempo o sistema funcionou, e o Brasil pouco ofereceu de risco aos argentinos. No entanto, o contra-ataque era inoperante. Os volantes saíam pouco, e Montillo jogava demasiado à frente, como segundo atacante, e o jogador cruzeirense e Viatri ficavam demasiadamente isolados, longe da linha de meio campo. O que foi frustrante para brasileiros e argentinos que queriam ver Montillo com a camisa da seleção de seu país.
No segundo tempo, Sabella modificou o posicionamento de forma correta. Fernandez foi adiantado, se juntando a Montillo em uma linha de apoio a Viatri. Pillud e Papa viraram alas de verdade, formando uma linha com Canteros e Guinazu, configurando o 3-4-2-1 que o treinador havia utilizado com sucesso no Estudiantes campeão do Apertura 2010. No entanto, antes que o sistema pudesse funcionar, o Brasil saiu na frente, obrigando a Argentina a sair para o jogo, configurando a partida que o Brasil desejava.
De toda forma, Sabella fez um bom trabalho. Tinha em mãos um time inferior com zagueiros lentos, e conseguiu enfrentar uma equipe mais forte e de ataque insinuante em pé de igualdade durante 140 minutos. A grande questão é se o treinador conseguirá fazer o mesmo trabalho de alto nível na seleção principal, quando terá de lidar com zagueiros que não são exatamente rápidos e uma oferta excepcional de jogadores do meio para frente. Afinal, jogar defensivamente quando se tem as opções ofensivas de Sabella é algo impensável.
Individualmente, é pouco provável que muitos atletas que participaram dos confrontos contra o Brasil sejam aproveitados na seleção principal. Canteros esteve muito bem, e deve ser considerado uma opção por Sabella. Burrito Martinez atuou muito bem na primeira partida até se lesionar, mas atua em um setor onde abundam opções de altíssimo nível. Pouco querido pela própria torcida do Vélez, Augusto Fernandez aproveitou bem as oportunidades, e talvez possa brigar por uma vaga. Pillud e Papa não brilharam, mas seguem na luta para se transformar em opções para a lateral. Orión pode sonhar com a vaga de terceiro goleiro.
Os atletas que jogam no Brasil não tiveram sorte. Guiñazu teve atuação fraca, e Bolatti entrou em um momento ruim, quando a Argentina já perdia e era envolvida pela seleção brasileira. A grande dúvida reside em Montillo. A atuação do jogador cruzeirense era aguardada com expectativa, mas resultou em decepção. É seguro que o esquema atrapalhou o jogador, mas a incógnita é em que medida a atuação de hoje atrapalhou suas chances futuras na seleção principal. A resposta reside em saber o quanto da má atuação de Montillo será creditada ao próprio jogador ou à situação adversa.
