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10 anos das notas 10: o bicampeonato argentino do Lanús, o Grená Mecânico

Essa é uma história que viraria até final de Libertadores. É a história do maior baile das finais em jogo único já realizadas na primeira divisão argentina, a ponto de ser até enganoso o 4-0 do Lanús para cima do San Lorenzo. É a história do segundo título argentino do maior clube de bairro do mundo, como autoproclamado pelos grenás, torcida que curiosamente tem mais títulos de relevo fora do que dentro do próprio país. É a história de fidelidades poucas vezes reunidas de uma só vez em clubes médios, pois quatro dos campeões remanesciam do título anterior de nove anos antes. É a história de muitos nomes familiares a brasileiros, seja como adversários do Grêmio na decisão continental de 2017, seja pela presença do ícone palmeirense Gustavo Gómez naquele Granate Mecánico

O time

E para começar essa(s) história(s), é preciso partir de José Sand. Pepe, apelido comum nos países de língua espanhola a quem se chama José (não por acaso Pepe, o ídolo santista, se chama José e é filho de espanhóis), voltava a La Fortaleza exatamente naquele semestre. Regressava após sete anos dando cabeçadas por La Coruña, Racing, Tigre e Argentinos Jrs sem, na maior parte do tempo, justificar a grife adquirida com naquele Apertura 2007 – onde sua explosão desenfreada no primeiro título grená na primeira divisão não dava espaços a um jovem Germán Cano. Sand fora bem nos distantes Emirados Árabes tão logo partira. Mas sua constante vinha sendo fracassar, salvo um período como importante em um Tijuana que brigara para não cair no México, ainda em 2012. Em 2013, por exemplo, ele desabafava com ironia autopiedosa que “talvez eu seja jogador para time pequeno”.

Entre 2014 e 2015, então, sua aparente curva descendente de fim de carreira veio a se tornar mais digna, ao menos no poder de fogo: o Boca Unidos, de sua província natal de Corrientes, e o Aldosivi de Mar del Plata não chamavam atenção no currículo, mas serviram para ele retomar média aceitável de gols. Assim, foi acolhido novamente no Lanús para aportar experiência e, pensavam todos, encerrar um ciclo. Só que deu certo demais. Sand, assim, somou história àquelas que iniciamos este texto: a do mais velho jogador a terminar na artilharia da primeira divisão argentina.

Além de Sand, outra figurinha do título de 2007 também voltava no timing certo, ainda que sem o mesmo protagonismo: o meia Agustín Pelletieri já tinha 34 anos e, “repatriado” do Tigre, só veio a somar um joguinho como titular, além de quatro saindo do banco para atuar normalmente nos quinze minutos finais. Timing que outro remanescente perdeu, pois Matías Fritzler calhou de acertar com o Huracán logo para aquele semestre. Quem sim acabou titular tanto em 2007 como em 2016 junto a Sand foi o lateral-esquerdo Maxi Velásquez, cujo tempão de casa fazia dele o recordista de jogos pelo Granate (ainda que saísse rapidamente para vencer a Sul-Americana 2010 com o Independiente) e o ainda jovem, mas já veterano Lautaro Acosta. Adolescente em 2007, Laucha ainda tinha 28 anos e pôde acrescer na sua galeria a Sul-Americana de 2025, quando enfim pendurou as chuteiras.

Depois de 2016, os quatro venceram também a Supercopa Argentina, o troféu segurado por Pelletieri, o jogador mais à direita. Sand (o mais à esquerda) levanta o Apertura 2007, com a camisa da época. Velásquez está com a taça argentina de 2016 e a Sul-Americana 2013, enquanto Acosta (campeão da Sul-Americana 2025 também) segura a Copa Bicentenário

O técnico era Jorge Almirón, que, quando jogava, tivera no sumido Deportivo Español seu clube de maior expressão na Argentina – eram tempos em que os Gallegos ainda disputavam a primeira divisão, possibilitando que o então volante fosse prospectado pelo olho clínico de Ricardo La Volpe e levado ao México. Foi na Concacaf que El Negro Almirón se graduou no futebol, vindo à Argentina em 2013 como um técnico ainda semidesconhecido na própria terra, em aposta do Godoy Cruz, então no auge histórico. Almirón veio a se sair bem ali e assim subiu degraus como contratado pelo Independiente em 2014. O Rojo acabava de voltar de modo bem acidentado da segunda divisão, apenas como 3º colocado.

Almirón pegou aquele Independiente recém-ascendido e o fez brigar a sério já na reestreia na elite, a campanha que fez de Federico Mancuello um breve jogador de seleção argentina. Só que o 4º lugar acabou ofuscado pelo título do Racing naquele Transición 2014 e esquecido de vez quando os resultados de 2015 não mantiveram o ritmo. Muito melhor organizado institucionalmente do que o decadente clube de Avellaneda, o Lanús seguiu vendo capacidade e lhe contratou em 2015 em substituição ao excelente trabalho da dupla Guillermo e Gustavo Barros Schelotto. Campeões da Sul-Americana 2013, os gêmeos haviam partido ao Boca tão identificado com eles, mas deixaram legado.

Não que o time de 2016 se assemelhasse muito à onzena que bateu a Ponte Preta naquela final de Sul-Americana. Dos titulares, remanesciam somente Velásquez na lateral-esquerda o paraguaio Víctor Ayala e Oscar “Junior” Benítez na armação. O goleiro, por exemplo, já não era Agustín Marchesín, mas sim Fernando Monetti. Na lateral-direita, saiu Carlos Araujo para a melhor fase da vida de José Luis Gómez, desprezado por um Racing que lhe emprestava. Na zaga, nada de Paolo Goltz ou Carlos Izquierdoz (ambos no México, como Marchesín), e sim o experiente Diego Braghieri (aquele que, pelo Arsenal de Sarandí, quase rachou em duas a perna de Ronaldinho Gaúcho em 2013) e o jovem Gustavo Gómez, incorporado ainda em 2014 e conhecido de Gustavo Barros Schelotto desde os tempos de Libertad – clube em que conviveram em 2011 quando este era auxiliar técnico.

A dupla de volantes empregada com Diego González e Leandro Somoza foi suprida na maior parte de 2016 por Iván Marcone e no veterano Román Martínez, talhados nas boa fases vividas em comum respectivamente por Arsenal de Sarandí e Tigre entre 2008 e 2012. Ayala não tinha a mesma titularidade de outrora Se alternava com Miguel Almirón, sem parentesco com o treinador: esse meia completava a panelinha paraguaia e viria a se tornar o jogador da MLS mais caro a ser comprado por um clube europeu, participando de parte da conquista do Newcastle na Copa da Liga Inglesa de 2025 (primeira taça que os alvinegros ganhavam desde os anos 60). Ou ainda com Nicolás Aguirre. No fim das contas, eles três participaram de 13 dos 17 jogos.

Banfield no chão e para trás: o lateral José Luis Gómez ajudou o Lanús a superar o rival em títulos argentinos e iria naquele 2016 à seleção argentina olímpica

Acosta e Benítez se revezavam entre o meio e o ataque, conforme a situação. Na frente, o intocável Sand recebeu, além deles, companhia frequente também do esforçado Pablo Mouche, sob empréstimo do Palmeiras. Mouche esteve em 15 jogos contribuindo mais como pivô ao deixar um único golzinho. Mas escolheu bem em quem marcar, em um dos dois clássicos com o Banfield realizados no espaço de duas semanas, outro condimento da campanha: abrindo vitória fora de casa por 2-0 sobre o rival que, treinado por Julio César Falcioni, alinhava Giovanni Simeone, Santiago Silva e Walter Erviti. Aliás, a conquista de 2016 serviu para desempatar algo no Clásico del Sur, que havia vivido o auge em anos ainda recentes. Cada um tinha um título argentino antes daquele 29 de maio de 2016 e, a despeito da vitrine internacional do Granate, o Taladro contra-atacava com mais número de vitórias no dérbi. Ainda usa esse argumento, mas há dez anos não tem como relevar a inferioridade também em títulos na primeira divisão.

À edição especial pós-título lançada pela El Gráfico, o capitão Velásquez assim opinou: “Jorge e seu corpo técnico nos deslumbraram pelo modo de trabalhar, e nós captamos rápido o que queriam. E mais, graças a essa ideia muitos jovens do plantel se potencializaram. Ao obter resultados desde o começo, talvez chamamos atenção. Ainda por cima, metemos dois ou três gols muito lindos, pelo nosso jogo associado. A equipe faz a diferença em todo o campo. Como dizia, saímos jogando deste abaixo; os primeiros passes são fundamentais para nosso sistema, e obviamente que tiramos vantagem com os habilidosos, os que terminam as jogadas, os que convertem. Pepe Sand meteu muitos gols, mas nosso ás de espadas é o Laucha Acosta. Não vou me cansar de dizer que resulta no único jogador insubstituível do elenco”.

A revista também teve opiniões próprias. Segundo ela, “desde o incandescente do jogo, se observam aspectos positivos: saída limpa desde a retaguarda, bom tratamento da bola, precisão para passa-la em velocidade, jogo curto e associado, agilidade para tocar e ir buscar, mobilidade a ritmo vertiginoso, transições rápidas para causar dano e determinação para definir. O Granate pressiona de maneira ordenada e retrocede com prolixidade. Ataca mais por fora até adentro. Tem laterais que passam cada vez que a jogada pede e pontas que engenham para transbordar e machucar. Os volantes criativos geram volume de futebol, e todos alimentam o centroavante, o experiente José Sand, que pagou com bastante gols sua volta ao clube no começo deste ano”.

Ainda nas palavras da El Gráfico, “Fernando Monetti terminou com a vala menos vencida. El Mono teve grandeza de fazerem esquecer de Agustín Marchesín e reflexos para que não lhe caísse a trave abaixo. Contou, ademais, com a contribuição de seus companheiros. De fato, os Gómez, Gustavo e José Luis, se desalojaram para salvar duas bolas com destino de gol e sustentar o triunfo parcial no primeiro dos cruzamentos diante do Banfield. A defensa foi um bastião: José Luis Gómez reciclou sua carreira nesse semestre, Gustavo Gómez andou tão bem que é pretendido pelo Boca, Diego Braghieri aportou firmeza e Velázquez se transformou em lenda pela mão de seus bons rendimentos. Marcone resultou figura subterrânea; o volante central auxiliou, recebeu e entregou a domicílio. Ou seja: arrebentou; Román Martínez recriou sua melhor versão e fez sua arte: jogar, fazer jogar e chegar ao gol. O volante ofensivo destravou partidas duríssimas e converteu gols-chave. E mais, cravou cinco em quatro partidas diferentes. Cada vez que marcou, o Lanús ganhou. Miguel Almirón somou explosão e sutileza; Pablo Mouche, desequilíbrio por fora; e Lautaro Acosta significou um pesadelo para seus rivais. O Laucha brilhou tanto que esteve próximo de ficar entre os 23 convocados da Argentina para a Copa América Centenário. E o que escrever de Sand? 12 gols para encaminhar a história”.

Junior Benítez vence disputa com Mercier a abre o placar na final. À direita, Mouche (outro com passagem pelo Palmeiras) e Román Martínez

Essa mesma espinha-dorsal bem dosada por Almirón chegaria em 2017 a uma final de Libertadores, com mudanças bem pontuais – a chegada do paraguaio Rolando García Guerreño para suprir a lacuna deixada pela saída do conterrâneo Gustavo Gómez ao Milan, a ascensão de Esteban Andrada (que não chegou a entrar em campo no título argentino, sendo ainda o terceiro goleiro) no lugar de Fernando Monetti no gol, enquanto o emprestado Pablo Mouche foi substituído no trio de ataque pelo uruguaio Alejandro Silva. A própria classificação para aquela Libertadores já era algo histórico. Isso representou doze anos seguidos do Granate como clube argentino participante em torneios da Conmebol, algo que nenhum dos “cinco grandes” (Boca, River, Racing, Independiente e San Lorenzo) conseguia fazer, como salientamos na época. Feito coroado por Sand ser o mais velho artilheiro de uma Libertadores, naquela edição de 2017.

A trajetória até a final

Entre 1991 e 2014, o futebol argentino implementou temporadas de calendário europeu, mas com dois campeões ao ano – inicialmente com os nomes Apertura e Clausura (de 1991 a 2012) e depois com os nomes Inicial e Final. A ideia era de retomar um campeão por temporada e em calendário de janeiro a dezembro. Assim, houve no segundo semestre de 2014 um campeonato argentino ainda semestral, denominado Transición e vencido pelo Racing. Em paralelo, a segunda divisão argentina promoveu o acesso simultâneo de nada menos que dez clubes. Assim, houve ao longo de 2015 um campeonato em pontos corridos envolvendo trinta clubes, mas em turno único.

A AFA logo desistiu da ideia e optou por readotar o calendário europeu a partir de 2016, utilizando o primeiro semestre para um novo torneio de transição. Mas se no segundo semestre de 2014 era viável fazer em pontos corridos por haver vinte equipes, a saída para o primeiro semestre de 2016 foi dividir os trinta times em dois grupos de quinze. Não ia haver segundo turno, mas os clássicos (ou o jogo com o clube mais geograficamente próximo) teriam rodada extra. Com o calendário espremido pela antessala da Copa América Centenário, os líderes de cada grupo fariam a final em jogo único ainda antes do mês de junho. Vice-líderes não teriam sobrevida de uma semifinal, mas se garantiam na Libertadores 2017.

A emoção ficou mais concentrada no grupo B. Se hoje a província de Mendoza vê o Independiente Rivadavia dar as caras junto do Gimnasia local, dez anos atrás era o Godoy Cruz quem reluzia. O Tomba chegou a liderar a chave e sonhar com um título ainda inédito à região, enquanto o Independiente também se colocava no páreo. Mas quem iria à final, por um pontinho a mais do que o Godoy Cruz, seria o San Lorenzo. O time do então Papa mantinha a espinha-dorsal vencedora da Libertadores dois anos antes, reforçada com gente de renome local como Marcos Angeleri e Fernando Belluschi. Já o grupo A chegou a ver uma liderança do Atlético Tucumán, mas o Lanús nadou de braçada nos metros finais. O Estudiantes ficou em segundo, seis pontos abaixo, e muito por conta da escolha lanusense em usar reservas na rodada final, em que eles foram derrotados.

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O técnico Jorge Almirón, comandante do segundo título argentino do Lanús

Foi justamente o Estudiantes o primeiro adversário da campanha, em 8 de fevereiro. O hoje ícone flamenguista Agustín Rossi levou justamente o primeiro gol do Granate Mecánico. A cinco minutos do fim, a partir de escanteio cobrado por Nicolás Pasquini, Román Martínez fez o único gol do duelo com o Estudiantes – que, ainda reformando seu estádio em La Plata, alugou a cancha do Arsenal para exercer-se como mandante. Martínez, que defendia precisamente o Estudiantes até o ano anterior, optou por não comemorar enquanto era abraçado pelos grenás.

Em 14 de fevereiro, então, Sand fez sua reapresentação de gala em La Fortaleza, marcando os dois gols da vitória de virada sobre um Defensa y Justicia que hoje chama atenção no papel – o Halcón alinhava Guido Rodríguez, futuro vencedor da Copa de 2022, bem como outras caras que ficariam conhecidas dos brasileiros: o técnico era Ariel Holan; a zaga tinha o futuro botafoguense/palmeirense Alexander Barboza; no meio, Guido Rodríguez era acompanhado por Tomás Pochettino, desde 2023 no Fortaleza; ao passo que o goleiro Gabriel Arias daria mais de uma dor de cabeça ao Flamengo em duelos pelo Racing.

No primeiro gol, destaque ao desarme limpo com o qual José Luis Gómez iniciou contra-ataque, ao passo que o segundo reviveu os tempos de 2007: Laucha Acosta gingou para cima de dois, pela ponta-esquerda, e terminou sofrendo o pênalti que viria a ser convertido por Sand. Já na visita ao Temperley em 18 de fevereiro, foi o próprio Sand quem sofreu pênalti. El Pepe recebera na medida passe longo de Román Martínez e, quando ia concluir, foi calçado pelo goleiro adversário. Que até acertou o canto escolhido pelo veterano, mas o disparo foi forte demais.

Fevereiro seguiu e Sand não se mostrava cansado de gerar gol. No dia 23, na recepção ao Atlético Tucumán, a súmula constou que foi gol contra de Nicolás Romat. Na prática, foi de Sand: a bola lhe sobrou após um escanteio e ele estavas prestes a mostrar oportunismo mesmo para cima de dois marcadores quando a tentativa de afastamento pelo pobre Romat acabou balançando as redes tucumanas.

O primeiro do Sand: festeja o empate parcial contra um Defensa y Justicia já chamativo

Ainda em fevereiro, no dia 28, o San Martín abriu os trabalhos em San Juan. Mas, sem afobação, os visitantes viraram: aos 40 minutos, Nicolás Aguirre, com acrobacia, encobriu o goleiro ao emendar cruzamento de Velásquez ao fim de uma bela troca de passes de meio time grená. Aos 15 do segundo tempo, a arbitragem deu vantagem e o raçudo Mouche prosseguiu jogada. Após troca de passes com Acosta, o ex-palmeirense cruzou pela ponta-esquerda para Sand anotar os 2-1, ainda que os sanjuaninos buscassem o empate. O 2-2 não foi um resultado de todo ruim, arrancado fora de casa e com a necessidade de jogar com um a menos nos quinze minutos finais, pelo segundo cartão amarelo dado a Aguirre.

Uma primeira exibição de campeão talvez tenha sido a de 4 de março, para cima do Newell’s de Scocco, Maxi Rodríguez, Advíncula e Sebá Domínguez. Román Martínez só teve o trabalho de concluir às redes ao fim de troca de passes rápidas do Grana, que naquela noite jogou de branco mesmo. O segundo pareceu chorado, mas foi tão fulminante quanto: Velásquez cruzou pela direita. Mouche, marcado e de costas para o gol, fez o pivô para ajeitar a Sand, que encheu o pé. O goleiro rojinegro espalmou e a bola sobrou a Acosta, que também chutou com fúria. A bola explodiu no caído zagueiro adversário Emanuel Insúa, dando impressão de ter tocado em sua mão. O Lanús não quis saber: a bola calhou de espirrar na medida para Martínez dar a fuzilada final.

O pênalti ficou para outro lance envolvendo Insúa, a dez minutos do fim. Román Martínez arrebentou de vez as quebradas linhas do Newell’s com um passe sagaz a Acosta, empurrado por um Insúa prontamente expulso, sem ímpeto para reclamar. Sand deslocou o goleiro, que não alcançaria nem se acertasse o lado, com a bola roçando no ângulo.

Em 11 de março veio a única derrota dos titulares campeões, na visita ao Racing do garoto Rodrigo de Paul, do veterano goleiro Diego Saja e do habilidoso Oscar Romero, autor do primeiro gol enquanto o veterano Diego Militou causou a segunda tristeza grená. A Academia venceu por 2-1 em Avellaneda, ofuscando o belo gol de Miguel Almirón, que empatava a partida até então. Sua conclusão até foi fraca, mas encerrou uma bela combinação de passes  dele com todo o ataque do tal Granate Mecánico. Apelido que se fez valer sobre o Boca, contra quem um Lanús de branco construiu nos quatro primeiros minutos de jogo o placar de 2-0 em La Fortaleza, em 20 de março.

Velásquez e Miguel Almirón na primeira goleada do campeão, sobre o Newell’s

No primeiro minuto, Acosta tentou cruzar pela ponta-direita, mas a defesa boquense rebateu. O mesmo Acosta pegou a sobra, deu mais uns passos rumo ao centro da área e então arriscou ele mesmo o chute no primeiro pau, surpreendendo Agustín Orión. Ex-jogador do Boca, Laucha saiu em euforia para as bandas da La Barra 14. E, antes do ponteiro chegar ao quarto minuto, Velásquez cobrou um escanteio em jogadinha ensaiada com Miguel Almirón, que por sua vez colocou na pequena área para Sand apenas emendar e dar precoces números finais para cima do time de Tévez, Gago, Bentancur e Pablo Osvaldo.

Em 4 de abril veio então um retumbante 4-0 fora de casa, especialmente por ter sido construído todo dentro do primeiro tempo. Logo aos 13, Acosta triangulou com Sand e concluiu livre o primeiro em Santa Fe para cima do Unión. Aos 17, Pasquini e Miguel Almirón trocaram passes pela esquerda até que o paraguaio cruzou. Sand foi prensado pelo goleiro Nereo Fernández e pelo zagueiro adversário Jonathan Fleita, que acabou marcando contra em uma bola que entrou devagarzinho, mas sem que Fernández se recuperasse a tempo para tira-la antes de cruzar a linha. No terceiro, Almirón, dessa vez pelo centro, novamente colocou Sand na cara do gol. E El Pepe concluiu com categoria, encobrindo com um toque sutil o goleiro Fernández. Eram 31 minutos.

O quarto gol veio aos 39. Sand recebeu de Pasquini, que se mandou para a área. O veterano aplicou um elástico no marcador e devolveu a Pasquini, logo acossado por dois defensores do Unión. Aplicou um drible de vaca em um deles para manter a posse da bola. Perdeu ângulo para concluir, mas teve a sagacidade para cruzar a um Sand, que já estava na pequena área para cabecear.

Ocorreu então o primeiro dos dois clássicos. Em 11 de abril, na cancha banfileña do Florencio Sola, Sand e Acosta trocaram passes pelo meio. Laucha então buscou Mouche na ponta esquerda. O passe não foi bem, com um zagueiro do Banfield se habilitando para interceptar… para dormir no ponto. Mouche recebeu, acreditou e arriscou dali mesmo, acertando de fora da área um chute rasteiro para balançar as redes de Hilario Navarro. Eram 32 minutos do primeiro tempo.

Contra o Boca, Sand e Acosta construíram 2-0 antes de quatro minutos de jogo

E, conforme o segundo tempo avançava sem que os comandados de Julio César Falcioni empatassem, começaram a perder a cabeça. Santiago Silva, que revirava a casaca (o carequinha uruguaio fora o homem-gol do Banfield campeão de 2009, rumara ao Lanús para vencer a Sul-Americana 2013 e estava outra vez no Banfield), foi o primeiro expulso, aos 31 minutos do segundo tempo. Aos 37, foi a vez de Claudio Pérez ser ordenado pelo árbitro Germán Delfino a ir mais cedo ao chuveiro. Contra nove rivais, o Granate matou de vez o jogo aos 43: Mouche fez passe elevado para José Luis Gómez se habilitar pela ponta-esquerda. Gómez então cruzou dali para Sand anotar os 2-0 na placa.

Em 16 de abril, o Lanús recebeu o Atlético de Rafaela, que abriu o placar no fim do primeiro tempo. O empate veio já aos 22 do segundo. Gonzalo Castellani cobrou uma falta na cabeça de Gustavo Gómez. Axel Werner, o goleiro rafaelino, defendeu sem encaixar, com a bola sobrando. Sand logo ficou na espreita, mas Román Martínez chegou antes para aproveitar aquele rebote. A virada veio bem no fim: Acosta cruzou para Castellani e a arbitragem assinalou mão do marcador deste. No pênalti, Sand repetiu a cobrança forte e no ângulo, indefensável.

A rodada extra dos clássicos reservou para 23 de abril um novo Banfield x Lanús, dessa vez em La Fortaleza. A animosidade rendeu expulsões precoces a cada lado: Iván Marcone e o banfileño Walter Erviti receberam cada um o segundo cartão amarelo logo aos 17 minutos. Aos 39, Sand teve chance de ouro para tirar o zero do placar, mas Hilario Navarro, carrasco do Goiás na decisão por pênaltis que definiu para o Independiente a Sul-Americana 2010, defendeu pênalti cobrado pelo Pepe. Mas, em compensação, levou um gol muito mais defensável, aos 14 minutos do segundo tempo: Víctor Ayala ia cobrar uma falta distante, com o Lanús se perfilando na grande área do rival. O paraguaio preferiu tocar a Velásquez, a seu lado, e receber de volta enquanto buscava mais ângulo para arriscar de longe mesmo. Navarro, talvez sem acreditar na ousadia, nem se mexeu.

Aos 49 minutos do segundo tempo, Giovanni Simeone e quase todos os seus colegas de Banfield, exceto Navarro, se mandaram à grande área para tentar um empate, diante de cobrança de falta que surgiu. O desdobramento da jogada lembrou o gol final do River sobre o Boca na final de Madrid: a defesa grená afastou e iniciou com liberdade um contra-ataque. Mas foi ainda mais bonito: Almirón, recebendo já no círculo central, recebendo de Velásquez e galopou até e meia-lua, quando encobriu magistralmente Navarro para marcar o segundo. O Clásico del Sur via um agregado de 4-0.

Ao fundo, a torcida já comemora: Miguel Almirón prestes a encobrir o goleiro do Banfield no lance final dos 2-0 em casa no segundo clássico

Em 2 de maio, na visita ao Tigre, o golzinho foi um só, e de pênalti. Sand, dessa vez preferiu um chute rasteiro, mas foi o suficiente para deslocar Javier García, aos 20 minutos. Mas o 1-0 se mostrou mais valioso do que parece: o Grana foi ao intervalo com simplesmente dois expulsos, após José Luis Gómez receber um segundo cartão amarelo aos 41 minutos e com o treinador Jorge Almirón sendo ordenado a se retirar ao entrar sem autorização no gramado no minuto 45.

Sem suspensão automática, o técnico Jorge Almirón pôde dirigir regularmente o compromisso seguinte, em 8 de maio. Era ainda a antepenúltima rodada do grupo, mas já ali o líder se garantiu na final. O Aldosivi resistiu por todo o primeiro tempo, mas ruiu logo no primeiro minuto da etapa complementar. Habilitado por Miguel Almirón, Acosta cruzou rasteiro pela esquerda e, quase da marca do pênalti, Román Martínez encheu o pé. Aos 34 minutos, o líder liquidou os marplatenses: Aguirre cruzou e Sand, literalmente no peito e na grama, colocou o Lanús na final.

Em 15 de maio, Jorge Almirón ainda usou titulares para o compromisso contra um Argentinos Jrs que, a despeito de contar com Braian Romero e com os veteranos Federico Insúa e Cristian Ledesma (além de Francis, o outro do irmãos Mac Allister), seria o rebaixado do torneio. Se tudo parecia dar errado aos colorados (que usaram o branco naquela tarde fria em La Paternal), o gol que sofreram dentro de casa foi sintomático: Velásquez quis cruzar pela esquerda, mas acertou um gol com ares de olímpico nas redes do Argentinos.

O time da casa ainda não estava rebaixado e arrancou o empate em um jogo brusco, que veria naquele segundo tempo as expulsões do próprio Velásquez e do Lobo Ledesma. O descenso do Argentinos, na rodada seguinte, viria inclusive com requintes cruéis: escapava com vitória de 2-0 fora de casa sobre o Atlético de Rafaela, mas não contava que o concorrente Sarmiento de Junín vencesse fora de casa com um gol aos 47 do segundo tempo. A rodada final ainda teve como chamativa a despedida de Diego Milito como jogador e a briga férrea pela outra vaga na decisão.

Literalmente “no peito e na grama”, exercendo a lei do ex sobre o Aldosivi: foi de barriga o gol com o qual Sand assegurou de modo antecipado o Lanús na final

Já o Lanús, escaldado do jogo tumultuado com o Argentinos, preferiu ser cauteloso para a rodada final. Dos titulares, Jorge Almirón usou basicamente apenas o trio de ataque titular contra o Huracán do iniciante treinador Eduardo Domínguez, hoje no Atlético Mineiro. O Globo não tinha nada a ver com isso e abriu 2-0 sobre a escalação Matías Ibáñez, Víctor Ayala, Luis Herrera, Diego Braghieri e Nicolás Pasquini, Gonzalo Castellani, Agustín Pelletieri e Nicolás Aguirre, Pablo Mouche, José Sand e Junior Benítez. Foi, por exemplo, o único jogo do veterano Pelletieri como titular (e a única vez de Ibáñez, o goleiro reserva imediato, em campo na campanha); o outro remanescente do Apertura 2007 entrou em outras quatro partidas da campanha, saindo do banco para atuar normalmente nos quinze minutos finais. Pelletieri até iniciou a jogada do gol grená. Em sobra de jogada dele, Benítez cruzou rasteiro e o adversário Hugo Nervo acabou marcando contra. Mas Ramón Wanchope Ábila fecharia o placar, em 3-1.

Apesar da derrota, os 80,39% de aproveitamento construídos terminaram por ser a porcentagem mais alta desde a dos os 82,46% do San Lorenzo de 2001. Não foi pouca coisa: o San Lorenzo, um dos cinco grandes, vencera aquele torneio no embalo de treze vitórias seguidas, ainda um recorde a qualquer clube argentino na era profissional. Foi a semente do elenco que, já regido pelo jovem Leandro Romagnoli (um dos derrotados dez anos atrás pelo Granate Mecánico), levaria também a Copa Mercosul de 2001, sobre o Flamengo. O Granate Mecánico, por sua vez, teve nesse aproveitamento pontuações adquiridas em três jogos em que começaram perdendo começou perdendo e em outros em que demonstram saber jogar mesmo sem gente expulsa.

Essas estatísticas foram realçadas pela El Gráfico na época, da qual vale dar aspas a outra observação: “o Lanús foi um campeão generoso. Desde a fria estatística, se advertem vários dados de ouro ao contemplar as duas zonas: os 38 pontos que conseguiu o transformam na equipe que mais somou; os 12 triunfos que logrou o levam a ser a que mais partidas ganhou; o +18 lhe converte no de melhor saldo de gols; as 10 punhaladas que recebeu lhe consolidam com a vala menos vencida. Se não resulta no que mais gols fez, é por culpa de outro. O Racing cravou 29 gols e o Grana, 28. Muitíssimo! Inclusive, os dirigidos por Jorge Almirón meteram nos 16 encontros que disputaram na fase de grupos”.

Já a final naquele cinzento 29 de maio de 2016, nas palavras do presidente lanusense Nicolás Russo, graduou de vez o Lanús “como grande. Essa equipe é como a Holanda de 74: El Granate Mecánico. É o melhor Lanús que vi em meus 56 anos de vida, uma máquina de jogar”.

A panelinha dos paraguaios: Miguel Almirón (com a bandeira deles), Víctor Ayala e o futuro palmeirense Gustavo Gómez, que também protagoniza a foto que abre essa matéria

A nota pré-jogo do Futebol Portenho para a final pode ser lida clicando aqui. E nosso relato pós-jogo sobre a decisão com o San Lorenzo pode ser acessado clicando aqui. Fiquem abaixo com a crónica feita pela El Gráfico.

Cátedra de futebol

“Foi a melhor equipe deste campeonato rocambolesco. Em jogo e em pontuação, obtendo 4 a mais do que seu rival na final. E coroou isso esmagando um grande como o San Lorenzo. Será difícil encontrar nos últimos tempos uma diferença tão grande entre dois finalistas em um cotejo decisivo. Salvo os últimos 15 minutos do primeiro tempo, nos quais o San Lorenzo teve a bola mais do que sei rival e se aproximou dando algo de inquietude a Monetti, o resto foi todo do Lanús desde o apito inicial.

Repassemos o sucedido na final. A um minuto de jogo, Miguel Almirón meteu um pique de 50 metros pela esquerda, deixando seus ocasionais marcadores como postes e a ação terminou com um chutaço de Sand e uma mãozaça salvadora de Torrico. Desde o arranque, o Lanús mostrou outra velocidade, outro ritmo, outra intensidade, outra facilidade para cascotearle el rancho de seu adversário. Miguel Almirón, o paraguaio de 22 anos que chegou ao Lanús em 2015, graças ao conhecimento que Gustavo Barros Schelotto tem desse mercado por ter sido auxiliar de Gregorio Pérez naquele país, terminou sendo a grande figura em campo. Volante canhoto, muito canhoto, pulsante, atrevido, elétrico, magrinho, a primeira comparação que se convida é a do Fideo Di María. Fez o cruzamento que Junior Benítez transformou no 1-0 antecipando-se de cabeça, meteu o segundo que enterrou o San Lorenzo ao receber no contra-ataque, levantar a cabeça e colocar contra a trave direita do goleiro. Esperou com maestria por José Luis Gómez para lhe dar passe à la Riquelme e que logo Sand só tivesse que empurrar no 3-0. Lhe faltou participar do quarto e era cartão cheio. Mas foi imparável para todo o San Lorenzo.

O pódio do Grana completaram seus companheiros de meio-campo Iván Marcone e Román Martínez. Marcone foi o encarregado de organizar a saída desde o fundo, posicionando-se entre os zagueiros, um clássico destes tempos do meio-campista mais defensivo, mas roubou bolas e passou sempre bem. Um reloginho. E Román Martínez meteu a cadência e deu ao Lanús um salto de hierarquia notável. É o Ortigoza desse Lanús, o Ortigoza que tanto o San Lorenzo sentiu saudades. Vai sempre no trote, sabe qual será o destino da bola antes de recebe-la, não se enlouquece assim que a tem, pensa, vê a fresta e dá sempre a um companheiro, o que segue sendo a fórmula mais efetiva do futebol. Ontem, hoje e sempre. Mas, acima de tudo, foi o segundo goleador da equipe atrás de Sand, com 5 tentos. E em especial meteu um muito importante, o primeiro de todos, no arranque da campanha: o 1-0 no Estudiantes, em La Plata, quase no final, para pôr em marcha esse sonho que se coroa nessa tarde-noite no Monumental.

Ineditismo no Olé: todos do Lanús receberam nota 10, tamanho o baile

Aos 23 minutos de jogo, quando Lautaro Acosta perdeu o 2-0 sozinho desde a marca do pênalti, pegando de primeira mas com as chuteiras postas ao contrário, o Lanús não só havia convertido um gol, também havia gerado outras três situações claras, além dessa do Laucha. Eram cinco contra nenhuma do San Lorenzo. Nem sequer haviam chutado ao gol nem gerado um escanteio os dirigidos por Pablo Guede. O primeiro tempo terminou com domínio de bola a territorial pela parte do San Lorenzo, mas apenas com uma chegada perigosa: um arremate potente de Cerutti, detido por Monetti no primeiro pau.

Com certeza [Jorge] Almirón deve ter repreendido seus rapazes no intervalo. Por terem desperdiçado a chance de liquidar e por entregar a bola, da qual o Lanús havia feito seu apreciado objeto de uso e abuso durante o campeonato. E o Lanús saltou para afrontar o segundo tempo com intenções de repetir o feito na meia hora inicial. E conseguiu, para além do comovente esforço de Fernando Belluschi, o único gaúcho de Boedo que esteve à altura da final: por desenvoltura, jogo e fortaleça espiritual. Aos 14 minutos esse garoto Miguel Almirón, que realmente é coisa séria e não durará muito tempo mais nesse país, liquidou, cravando contra uma trave. E se havia alguma dúvida, aos 29 chegou o gol de José Sand, o que não podia faltar, adiantado notoriamente após o cruzamento deste motorzinho chamado José Luis Gómez, que também tem futuro de Seleção, em um posto onde nos últimos antes vem faltado postulantes (lateral-direito).

Ao Pepe não importou nada e tirou a camisa para ficar com essa espécie de sutiã que são os GPS modernos. No estádio onde desde garoto sonhou em gritar muitos gols e tocar o céu (foi o artilheiro histórico dos juvenis do River), alcançou outra vez a glória com a camisa que mais ama. O correntino de Bella Vista que em julho completará 36 anos chorou na coletiva de imprensa de seu regresso, como pré-anunciando que a história deveria terminar bem, com final feliz. E assim foi. Há quatro anos era insultado no Racing, passou sem pena nem glória pelo Tigre e desceu ao Boca Unidos, no Nacional B, para tomar impulso. Hoje volta a ser goleador e campeão, como no Apertura 2007. Acreditar ou arrebentar.

Mas se a este belo conto grená faltava o gol de Sand, tampouco podia faltar o de Lautaro Acosta. Sem grande continuidade nos 90 minutos, mas com participações esporádicas, havia rondado o gol umas duas ocasiões até que aos 43 do segundo tempo roubou de Angeleri com todo o San Lorenzo no campo rival e correu, correu até definir com comodidade diante de Torrico. O Laucha era um dos homens nascidos no clube na onzena titular (o outro, Junior Benítez, foi o autor do 1-0). Torcedor do Grana, depois de um passo sem maior transcendência pelo Boca, com muitas lesões que não lhe roubaram o sorriso, muitas inclusive já em seu regresso ao Sul, igual ao que ocorre a Sand, Lanús é o seu lugar no mundo. E aqui ressuscitou de tal modo que ganhou um lugar na Seleção. Acosta, agora, está no topo dos que mais títulos ganharam na história do Lanús na primeira divisão: esteve nas consagrações locais e na Sul-Americana 2013. Só lhe faltou levantar a Conmebol 96 com Cúper, mas seria complicado: tinha apenas 8 anos nesse momento.

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Junior Benítez comemora o primeiro gol do jogo

O Laucha converteu o 4-0 e o Monumental se converteu em um bonito espetáculo que lembramos de tempos não tão distantes. A torcida do San Lorenzo, a mais sofrida do país por aquilo de ter sido o primeiro grande a ser rebaixado e pelo espírito cigano após perder seu estádio, resistia a ir embora apesar da humilhação e cantou seu hino, um modo de agradecer esta grande campanha. Todos com as palmas por cimas das cabeças, ao som de “vengo del barrio de Boedo”. Um espetáculo. Os do Lanús, em semelhante estado de gala, beliscando-se, não podendo acreditar no que estava acontecendo ali abaixo. Delirando na surdina, por um momento, porque da emoção não saíam as palavras.

A lista dos que repetem título com o Grana se completa com Maxi Velásquez, o capitão, o que mais vezes vestiu a camisa na história, o que deveria ter sido expulso aos 10 minutos de jogo por uma entrada duríssima e desnecessária em Julio Buffarini, e Agustín Pelletieri.

Dentro de todo esse delírio festivo, o sorriso fresco de Jorge Almirón. Poucos treinadores tão surrados injustamente, castigados pelo seu caráter algo retraído e pouco propenso ao puxa-saquismo com os jornalistas. No Monumental se apresentou ante o grande público a começos de 2014, quando seu Godoy Cruz logrou um ressoante triunfo diante do River de Ramón Díaz por 2-1. Depois desse encontro, o River ganhou todos os seus jogos de mandante e terminou se coroando campeão, mas essa noite surpreendeu o jogo muito bom do Tomba e a qualidade de suas jogadas de bola parada. Hoje, o primeiro gol levou esse selo de Almirón, ao surpreender com uma rápida execução e uma antecipação no primeiro pau. Ali o Lanús começou a ganhar a partida.

El Negro não teve ciumeira nem manias de perseguição: aproveitou a tarefa muito boa realizada pelos Barros Schelotto (inclusive os agradeceu publicamente e lhes atribuiu parte do mérito na conquista) e abriu a porta a Ramón Cabrero, prócer grená [ex-jogador do Lanús nos anos 60 e depois técnico do time campeão de 2007], para que aconselhasse e participasse. Os que estão seguros de si mesmos não veem sombras onde não há, nem utilizou os ciúmes para se proteger de fantasmas que não existem. O mesmo Ramonín confessaria que ele foi um dos que apoiou a escolha de Almirón como técnico porque lhe agradava o futebol que havia desenvolvido no Defensa y Justicia, no Godoy Cruz e até no Independiente. De fato, à frente do Rojo em seu primeiro torneio (o Transición 2014 que o Racing ganhou), o Independiente brigou pelo campeonato até três rodadas do fim, com uma inesquecível goleada de 4-1 no Lanús em Avellaneda como ponto culminante. Hoje, devolveu ao Grana (que também postulava) aquela afronta.

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Miguel Almirón comemora o segundo

Este 29 de maio de 2016 ficará para sempre gravado no coração do povo grená. Este 29 de maio teria completado 27 anos Diego Barisone. Não foi um ídolo do Lanús, nem muito menos, mas morreu em um acidente automobilístico ocorrido em 28 de julho de 2015 quando era jogador do clube. Estava há 9 meses mas havia se tornado querido pelos companheiros. Em 2 de agosto, cinco dias depois de sua morte, o Unión (clube onde Barisone se formou) ganhou de 4-3 do Boca em La Bombonera com um gol de Lucas Gamba no finzinho. Após sua morte, o Lanús utilizou o número 15 no peito das camisas de todo o plantel durante o resto do campeonato. Em 4 de abril desse ano, o Lanús visitou o Unión e passou pelo túmulo de Bari. Foi um momento muito forte desde o emocional. Antes de voltar ao hotel, lhe prometeram ganhar no dia seguinte e lhe dedicar o título. E fizeram isso: na noite posterior, venceram por 4-0 um duro rival como é o Unión. E hoje também voltaram a ganhar de 4-0 nas que foram, sem dúvidas, as duas demonstrações futebolísticas mais importantes da campanha. Acreditar ou arrebentar.

Não há nenhuma dúvida sobre a legitimidade desse título. Lanús foi o melhor do campeonato. No grupo, foi o que mais ganhou (12), o que menos perdeu (2) junto a outras duas equipes, embora uma dessas derrotas fosse com reservas no final, e o segundo que mais gols meteu (28), só superado pelo Racing. E até lhe sobraram duas rodadas para conseguir o primeiro objetivo. E até derrotou o Banfield nos dois clássicos do campeonato. Mais completo, impossível.

Mas para além dos números, será quase impossível encontrar algum boleiro que contradiga o evidente: que o Lanús foi a equipe que desenvolveu o melhor futebol. E se restava alguma prova para superar, aquilo da temperança nas instâncias culminantes frente um rival com meia equipe que acumulava na costa uns dois títulos recentes, pois nesta jornada histórica de 29 de maio terminou de corroborar: liquidou o San Lorenzo sem piedade.

Todas as equipes que se sagram campeãs entram na história. Acumulam na vitrine. Serão motivo de orgulho e de gracejo no vizinho. Mas há equipes que, ao repassar a lista, ficaram ressaltadas acima do resto. São as que transcendem por seu jogo. Por sua obra. E este Lanús do Negro Almirón será recordado também por isso. Por ter sido fiel a sua essência triturando um dos grandes do futebol argentino até coloca-lo de joelhos. Saúde!”

Torrico e Angeleri no chão: Sand marca o terceiro, Acosta seguirá a jogada para marcar o quarto

Epílogo: Sand, o goleador

A El Gráfico também teceu um belo perfil de José Sand. Inserimos abaixo os trechos voltados ao desempenho dele naquela final:

“Aportou pouco na ofensiva durante o primeiro tempo. De fato, o Lanús teve três chances claras e Pepe não participou de nenhuma. Seu jogo se vinculou mais com o trabalho sujo. No retrocesso, foi o defensor número 1. A pressão – às vezes alta, outras, a partir da metade do campo – começava nele. O 9 se pôs o macacão para trabalhar sobre o oponente sem distinguir número de camisa nem sobrenome. As amostras saltaram rápido à vista na tarde de Núñez. Aos 4 minutos, já havia chocado com Marcos Angeleri, Matías Caruzzo e Emmanuel Mas.

Pivoteou, por outra parte, como um leão. Defendeu a bola como se fosse um filho. Inteligente, a jogou rápido e foi lhe buscar. Jamais quis tira-la de cima, nunca a queimou. Ao contrário, sua intenção era impor continuidade no ataque para dar forma a sua busca implacável. Sagaz, malandro, toureou Sebastián Blanco, o volante que se criou no Lanús e que conseguiu, junto ao bom do Sand, o título em 2007. Se viu nítido sobre os 30 minutos: José saiu para tourear Blanco pela metade do campo e, quando o camisa 23 do San Lorenzo soltou, o 9 começou a falar-lhe ao ouvido e trabalhar-lhe a cabeça. Antes que começasse o segundo tempo, ocorreu uma situação parecida: Pepe lhe falava baixinho, e Sebastián tratava de não se envolver.

Fustigou cada vez que pode. Ao minuto e meio do segundo tempo, não conectou um cruzamento desde a direita. Logo falhou, é certo. Porque é mortal. Se equivocou aos 26 minutos do segundo tempo: teve a bola fácil para chutar, de frente ao gol, e passou mal. Mas quem lhe reprovou algo? Se não lhe apontaram com o dedinho acusador quando errou um pênalti contra o Banfield, menos se atreveriam a fazer isso numa finalíssima e com 2-0 a favor. Ademais, sejamos nobres e justos com o goleador. O sujeito regressou ao clube com 35 anos sobre o lombo e rendeu muitíssimo mais do que se esperava. Seus 12 gols na fase de grupos do certame impõe a pauta por si só.

O que acontecia no Monumental? Tinha a pólvora molhada? Não seria sua tarde? Míngua! Antes de pisar os 29 minutos, apareceu para adornar a 9, para cravar outro gol de goleador, para empurrar à rede um cruzamento, um passe, que veio desde a direita. Estava em impedimento. Mas, a essa altura, a quem importava? A 11 minutos do fim do jogo, acabou sua finalíssima. Nicolás Aguirre o substituiu e o pessoal converteu em costume um ato repetitivo: ovaciona-o. A figura da campanha já havia deixado tudo, já havia feito tudo”.

Outro epílogo

Essa também foi a história do nosso primeiro semestre sem Tiago de Melo Gomes, a quem perdemos em 2 de fevereiro – na semana que antecedeu a primeira rodada. Alguém que certamente empatou a 20 segundos do fim o primeiro clássico do seu Huracán contra o San Lorenzo, no dia 27 daquele mês. E que ficou ainda mais “em chamas” vendo o grande rival terminar goleado dez anos atrás… e com outra paixão, o Grêmio, vencer com autoridade, dali a um ano e meio, aquele inesquecível Granate Mecánico.

Junto aos veteranos Velásquez e Acosta, Nicolás Aguirre exibe na camisa branca homenagem ao falecido colega Diego Barisone (zagueiro morto em 2015 como jogador do Lanús), que faria aniversário no dia daquela final

Caio Brandão

Advogado desde 2012, rugbier (Oré Acemira!) e colaborador do Futebol Portenho desde 2011, admirador do futebol argentino desde 2010, natural de Belém desde 1989 e torcedor do Paysandu desde antes de nascer

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