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Afro-argentinos no futebol

Originalmente publicado em 2012 e revisto, atualizado e ampliado. Na imagem acima, o trio Alejandro de los Santos, Rinaldo Martino e Héctor Baley

No dia em que o Brasil celebra a consciência negra, relembraremos (em uma nota assumidamente especulativa, ressaltamos) os mais conhecidos jogadores afro-argentinos. Sim, eles sempre existiram e, se hoje parecem bem raros, não é nada improvável que várias peles claras, cabelos lisos e sobrenomes italianos de hoje tenham alguma ascendência africana.

O uruguaio Loco Abreu, que tem uma avó negra (veja aqui), bem demonstra uma possibilidade dessas, assim como o galês Ryan Giggs, de pai mulato (clique aqui); enquanto o caso mais notório no futebol brasileiro talvez seja entre Domingos e Ademir da Guia, um loiro de olhos azuis filho de um pai negro que decerto já era mestiço nos genes. Recentemente, Cole Palmer, um branquelo de cabelo loiro e liso, saiu dos EUA como campeão mundial com o Chelsea diretamente para ser condecorado em São Cristóvão e Névis, país caribenho onde nasceu seu avô negro. Mas é sabido que a Argentina tem uma minúscula população negra, ao menos na concepção brasileira. Tanto é que a cultura vizinha emprega de forma diferente a palavra.

Muitos foram os jogadores apelidados de El Negro, termo na Argentina generalizado mesmo aos de pele não tão escura (novamente: para a concepção brasileira). Também se usa a gíria Grone, criada no fenômeno do vesre, revés com sílabas invertidas. É o mesmo costume que faz amigo virar gomía, mujer virar jermu e hotel se tornar telo, mas como sinônimo de motel; o tango batizar o grupo musical Gotan Project; maestro virar troesma enquanto ponja, o inverso de japón, ser o equivalente ao nosso “japa”.

Domingos e Ademir da Guia. O galês Giggs, ainda criança, com o pai, que tem origens em Serra Leoa. O inglês Cole Palmer com o pai mulato, o primeiro-ministro de São Cristóvão & Névis e o avô negro, nascido nesse país caribenho. Abaixo, o uruguaio Loco Abreu e suas duas avós

Só que muito dos apelidados de Negro ou Grone têm mais fenótipo indígena do que propriamente africano: Juan José López e Héctor Enrique, ídolos do River; Omar Palma, maior ídolo moderno do Rosario Central; Julio Zamora e Fernando Gamboa, dupla defensiva do Newell’s de Marcelo Bielsa; Hugo Ibarra, lateral-direito do Boca de Carlos Bianchi; Óscar Ortiz, ponta titular da Argentina na Copa 1978; bem como o ex-corintiano Sebá Domínguez, destacado por Newell’s e Vélez, ou Fernando Cáceres – raro nome recente que defendeu o trio Boca, River e Independiente.

Mesmo os de pele e/ou olhos claros, mas que tenham traços rústicos, podem receber o apelido – a exemplo do cronista Roberto Fontanarossa, do antigo xerife velezano Marcelo Gómez e de outro ícone do River, Leonardo Astrada, que esclareceu risonhamente à revista El Gráfico em 2007 que parece estar sempre com barba por fazer porque seus pelos faciais começam a crescer já depois de “meia hora” de aparados. Apesar de inapropriada tanto etnicamente como politicamente, a palavra chega a ser usada sem malícia consciente nesses casos, similarmente ao emprego de Turco para referir-se a qualquer argentino com origem árabe; inclusive é com viés carinhoso (ainda que se possa/deva discutir a adequação do uso diante de um racismo ainda mais estrutural do que o do Brasil) que usam a expressão quando pretendem destacar El Negro Enrique, El Negro Palma, El Negro Ortiz, El Negro Astrada e etc.

O termo Negro, por outro lado, também é, sim, usado como xingamento bem consciente. Contudo, dada a baixa quantidade de afros no país, esse uso pejorativo é mais comum para designar de modo politicamente superincorreto qualquer pessoa de classe social baixa, mesmo que tenha pele branca.

O segundo e o penúltimo em pé, respectivamente Cáceres e Astrada, são ambos apelidados de Negro, mesmo sem conhecida ancestralidade africana. Leia o porquê nos parágrafos acima

Quem conferir falas originais de O Segredo dos Seus Olhos, para ficarmos em filme argentino oscarizado, perceberá: é como negritos de mierda que o funcionário público inescrupuloso se refere, na cena de bate-boca em pleno corredor forense, aos operários inocentes (nenhum deles negro na nossa acepção da palavra) que, sob coordenação dele, haviam sido detidos e torturados pelo crime que move a trama.

Também indicado ao Oscar e igualmente estrelado por Ricardo Darín, Relatos Selvagens contém mais de uma esquete para retratar a “luta de classes”. A que tem pincelada racial explícita é do jardineiro caboclo que aceita assumir uma responsabilidade criminal que não era dele. Mas é em outra delas que se usa o termo negro resentido: uma briga de trânsito crescentemente explosiva começa quando um temperamental sujeito de classe baixa, e que seria considerado branco nos padrões brasileiros, é chamado assim ao dificultar ultrapassagem de alguém bem menos humilde. A infância favelada de Maradona também o fazia ser considerado um negrito del conurbano, como é chamada pejorativamente a zona que engloba as cidades pobres da Grande Buenos Aires.

Mas e os negros enquanto afro-argentinos propriamente ditos, afinal? Hoje tão raros, eles chegaram a ser mais da metade da população – normalmente escravizados, como no Brasil. Começaram a ser dizimados nas guerras de independência, para as quais seus homens foram convencidos a lutar em troca de liberdade em caso de vitória contra a Espanha.

Retratos oficiais modernos do Sargento Cabral e da “mãe da pátria”, María Remedios del Valle, heróis da independência argentina

Um dos ancestrais do próprio Maradona estava entre estes escravos negros libertos após servirem o exército pela independência. Sabe-se que era chamado de Luis e que, embora livre, não recuperou a identidade originária: por ter pertencido ao fidalgo Francisco Fernández de Maradona, ficou com o mesmo sobrenome dele; tratava-se de costume comum na América escravagista, sendo também como Clarence Seedorf (nascido no Suriname) herdou um sobrenome alemão.

Diego Armando Maradona Franco veio ao mundo com sua ascendência afro já diluída em sangue guarani, italiano e até croata. O pai, Diego Maradona Vallejos (1927-2015), apelidado Chitoro, nascera na província de Corrientes, fronteiriça ao Paraguai, como filho de um certo Saturnino Maradona Martínez e de Lucía Vallejos. Saturnino nascera em 1888 de mãe solteira, Victorina Maradona Martínez (1862-1913), filha de Juan Evangelista Maradona Videla e María Martínez. Juan, nascido em 1812, era por sua vez um dos filhos do soldado Luis Maradona com Agustina Videla. Tal como o pai, nascera na província de San Juan, fronteiriça ao Chile; eventualmente se instalou na de Corrientes, repleta de descendentes dos guaranis. A mãe de Dieguito, apelidada de Doña Tota, se chamava Dalma Salvadora Franco (1929-2011), filha de Román Edisto Franco (1904-1932) e de Salvadora Cariolichi Ferreira, nascida em 1895 do casal formado pelo imigrante croata Matej Kariolić (suposto descendente do aventureiro veneziano Marco Polo) e de Trinidad Ferreyra, filha por sua vez de Juan Ferreyra e Juana González.

Diferentemente de Luis Maradona, pouquíssimos daqueles negros combatentes sobreviveriam: embora Domingos Sosa até chegasse à patente de coronel, os soldados libertados da escravidão normalmente eram peões na linha de frente, naturalmente sendo os que mais pereciam no fogo cruzado. O sargento Juan Bautista Cabral (um zambo, como os cafuzos, mestiços afro-indígenas, são ali chamados), ou simplesmente Sargento Cabral, foi a mais ilustre vítima fatal naquelas guerras – que também dizimaram toda a família de outra liderança negra do movimento independentista, María Remedios del Valle. Ironicamente, o primeiro presidente eleito na Argentina independente, Bernardino Rivadavia, tinha origem africana, suavizada nos retratos oficiais elaborados em tempos eugênicos. Virou nome de rádio a museu de história natural em Buenos Aires e, em Mendoza, rendeu o nome do atual campeão da Copa Argentina, chamado precisamente de Independiente Rivadavia.

O gradual embranquecimento da família Da Graca, todos ídolos no Los Andes. Filho do negro Manuel, o mulato Abel é pai do branco Hernán

O uso desproporcional na infantaria em guerras civis no século XIX; a ausência de maior fomento estatal à prosperidade pós-libertação, sujeitando os sobreviventes a uma precariedade sanitária (o que por sua vez propiciava que fossem mais suscetíveis a epidemias em tempos pré-vacina) e financeira maiores; e, por outro lado, até a ausência de leis de segregação como as dos EUA ou da África do Sul (fato sempre enfatizado por quem nega ou minimiza o racismo argentino) contribuíam em combo para que a descendência dos negros locais fosse gradualmente embranquecendo – à medida em que iam cada vez mais procriando filhos com brancos, a crescente maioria da Argentina, especialmente nas principais cidades. Se não segregou explicitamente, o Estado sim forneceu estímulos de toda ordem (diferentemente da política adotada com os escravos libertos) para atrair levas e levas de imigrantes europeus ainda que não necessariamente espanhóis. Mais da metade da população atual tem origem italiana, o país abriga a sexta maior comunidade judaica do mundo e os britânicos que se instalaram lá atrás criaram ainda na década de 60 do século XIX os primeiros clubes argentinos do football, por exemplo.

Como mostramos com Loco Abreu, o embranquecimento poderia chegar em duas gerações. Quem melhor demonstra isso é uma peculiar família ligada ao nanico Los Andes, da cidade de Lomas de Zamora, na Grande Buenos Aires, e rival original do Banfield. Manuel Da Graca esteve no título da terceira divisão de 1938 de Las Mil Rayitas (“As Mil Listrinhas”, apelido do clube em alusão à sua camisa). Seu filho Abel Da Graca foi mais longe: participou do elenco que subiu à elite em 1967. Em 1994, mais de meio século depois de 1938, houve nova promoção do Los Andes à segundona, desta vez com o neto Hernán Da Graca marcando até o gol do acesso.

Abel, mulato filho de um negro e pai de um branco, relatou sobre aquele momento que “nesse dia fui ao campo com meu pai e ambos nos abraçamos chorando quando Hernán fez o gol e essa foi a alegria maior que me deu o futebol; em pouco tempo o velhinho nos deixou, mas pôde ver seu neto ganhar um acesso igual ao que eu e ele ganhamos”. A família Da Graca (corruptela de Da Graça) também retrata os curiosos luso-argentinos.

O Brasil realmente vestiu esse uniforme quando enfrentou Laguna na primeira Copa América, em 1916. Nas outras imagens, ele como jogador do Huracán e como treinador desse clube, onde também foi fundador e presidente

Já um primeiro afro-argentino de destaque no futebol fora José Laguna, fundador e primeiro presidente do tradicionalíssimo Huracán. Jogou pela Argentina na primeira Copa América, em 1916, sob curiosa circunstância: ia assistir a partida contra o Brasil, mas foi “convocado” desde a plateia para substituir alguém e até marcou gol no 1-1.

No fim dos seus tempos de jogador, Laguna conseguiu participar do primeiro título argentino do seu Huracán, em 1921, e venceria o de 1928 como treinador do clube – é o único a conseguir troféus como jogador e técnico por lá em torneios da primeira divisão. Como treinador, Laguna também esteve na primeira Copa do Mundo, em 1930, comandando o Paraguai.

Outro dos primeiros nítidos representantes da minoria na seleção de fato era apelidado de Negro: foi Miguel Dellavalle, também o primeiro usado por ela do futebol cordobês – berço de muito dos jogadores proximamente listados, a propósito. Dellavalle jogava no Belgrano, onde naturalmente é um dos maiores ídolos. Foi volante titular no primeiro título da Argentina na Copa América, em 1921. Demoraria mais de meio século para outro atleta ser usado jogando em algum time de Córdoba: foi ninguém menos que Mario Kempes, em 1973, então no Instituto. Em 2015, o inserimos no time dos sonhos do Belgrano.

Dellavalle no Belgrano e entre seus colegas de seleção na primeira Argentina campeã de Copa América

Alejandro de los Santos foi outro daqueles primórdios na seleção. Este meia-esquerda atuou cinco vezes pela Argentina entre 1922 e 1925, ano em que foi campeão da Copa América, apenas a segunda da Albiceleste. Curiosamente, porém, nunca venceu pelo país: foram três empates e duas derrotas, sempre vindo do pequeno El Porvenir. Ele logicamente é um dos maiores ídolos do Porve.

Em Buenos Aires, De los Santos atuou pelos rivais San Lorenzo e Huracán, respectivamente em 1921 e 1931. El diccionario azulgrana, lançado em 2008 nas comemorações do centenário sanlorencista, afirma que ele foi primeiro negro no clube e que era filho de uruguaios. Em 2022, contudo, três filhas ainda vivas dele – todas próximas dos 90 anos – esclareceram ao La Nación que a origem africana do pai era angolana.

Elas, a propósito, também passaram pelo processo de embranquecimento. Conforme conta a matéria do La Nación, De los Santos desposara uma espanhola, que insistiu na relação mesmo a contragosto inicial dos pais, eventualmente conquistados pelo jogador. A reportagem contém registros de época que demonstram que ele não deixou de sofrer o chamado racismo condescendente, sendo elogiado praticamente como um “negro de alma branca” em relatos de época da revista El Gráfico.

De los Santos com sua esposa branca e duas das filhas. À direita, três filhas dele, já menos retintas que o pai

Julio Luis Benavídez, nascido em Córdoba, teve boa participação no título argentino de 1934 do Boca Juniors. Mesmo normalmente na reserva das estrelas Roberto Cherro, Francisco Varallo e Delfín Benítez Cáceres, atuou vinte vezes e marcou onze gols. Ficou mais dois anos no Boca, mas com continuidade bastante inferior: foram outros doze jogos, a maioria amistosos, e apenas um gol. Também foi técnico, em 1948, mas o êxito não foi muito maior.

No Book of the Xentenary, o livro em inglês lançado pelo centenário xeneize, Benavídez foi lembrado em uma sessão de curiosidades onde escalou-se um time só com jogadores negros que passaram pelo Boca. Era o único argentino do plantel hipotético, a saber: Walter Ormeño (peruano), Luis Perea (colombiano), Domingos da Guia (brasileiro), Julio Meléndez (peruano), Jorginho Paulista (brasileiro), Orlando Medina, General Viana (uruguaios), Carlos Gómez Sánchez (peruano), Maurinho, Paulo Valentim e Lima (brasileiros) como titulares; os brasileiros Édson dos Santos e Edílio, os colombianos Arley Dinas e John Tréllez, o uruguaio Raúl Cardozo Crespo, o camaronês Alphonse Tchami e Benavídez no banco.

Rinaldo Fioramonte Martino foi um dos maiores ídolos do San Lorenzo e da seleção. Excelente cabeceador e ambidestro com os pés, foi um dos maiores jogadores do país nos anos 40. Seu trio com René Pontoni e Armando Farro, que deu o título argentino de 1946 aos azulgranas, ficou conhecido como Terceto de Oro.

Benavídez como jogador e como técnico do Boca. Martino no San Lorenzo e em card da seleção italiana

Pela seleção, chegou a deter o recorde de gols marcados em um único ano, com seus 11 em 1945; só Batistuta e Messi o superaram. Também em 1945, foi campeão da Copa América (fazendo o gol do título, sobre o Uruguai), da qual foi bi outro ano depois. Terceiro maior artilheiro do San Lorenzo (142 gols), em 1949 foi jogar na Juventus, descoberto no Velho Continente após marcar 17 gols em uma excursão de dez jogos que os cuervos fizeram por lá. Foi campeão e utilizado também pela seleção italiana.

Martino, inclusive, foi possivelmente o primeiro afro da Azzurra, embora haja quem aponte para um dos próximos nomes dessa lista. El Mamucho poderia ter ido à Copa de 1950 pela Itália, mas à altura do torneio ele havia trocado a Bota pelo Uruguai – onde também fez sucesso, no Nacional. Passou ainda por Boca e São Paulo, nos quais já não rendeu tanto. Dedicamos a ele este outro Especial.

Manuel Miranda foi um lateral-direito ligado essencialmente ao Gimnasia, que o lançou no time adulto em junho de 1951, meses após ele consagrar-se ainda como jogador amador com a seleção olímpica (então restrita a amadores) vencedora da primeira edição dos Jogos Pan-Americanos. Pôde vencer a segunda divisão em 1952, mas uma lesão no joelho limitou-o a menos de quinze jogos por ano até pendurar de vez as chuteiras em 1957. Foi técnico tanto do time principal do Lobo, como em 1968, como dos juvenis, nos anos 70.

Miranda no Gimnasia e cumprimentado por Evita e por Perón nos Pan-Americanos de 1951

Ernesto Picot tinha mãe uruguaia segundo o Diccionario Azulgrana. El Negro foi um insinuante ponta-direita que defendeu o San Lorenzo de 1947 a 1954. A falta de títulos o fez não se eternizar tanto, mas em sua época era uma das figuras a ponto de ser testado no Santos (em amistosos feitos pelos praianos em visita à Argentina) mas ter a contratação negada por ser considerado intransferível pelo presidente sanlorencista. Ironicamente, já em 1955 acabou trocando de clube, mas para o Newell’s.

Alberto Arcángel Britos Ramos é considerado um dos maiores ídolos do Independiente mesmo sem ter ganho títulos no clube de Avellaneda. Nascido na cidade, surgiu nas categorias inferiores do rival Racing, e ainda juvenil cruzou a avenida Bartolomé Mitre. Versátil na defesa, começou como zagueiro e terminou como lateral-direito, formando recordado trio recuado com Emilio e José Varacka (irmãos de origem eslovaca) nos anos 50. Desconsiderando-se amistosos, Britos jogou 156 vezes entre 1952 e 1959 pelos diablos.

Miguel Ángel Montuori não fez história no futebol argentino, mas sim no italiano. Veio da Universidad Católica, do Chile, para brilhar na Fiorentina. Foi vice-artilheiro da campanha viola campeã pela primeira vez da elite do calcio, em 1956, integrando também o elenco vice para o Real Madrid de Di Stéfano na Liga dos Campeões de 1957.

Picot no San Lorenzo. Britos com os irmãos Varacka (José e Emilio) no Independiente. Montuori pela Fiorentina e pela Itália

Um deslocamento na retina abreviou a carreira de Montuori, mas ele teve tempo de, como Martino, jogar pela Itália. Se radicou em Florença e lá faleceu em 1998. É ele quem é mais usualmente considerado como o primeiro negro da Azzurra, como apontado pelos amigos da Calciopédia na matéria que dedicaram a ele.

José Manuel Ramos Delgado é bem conhecido do futebol brasileiro, sendo considerado um dos maiores zagueiros da história do Santos. O detalhe é que só chegou à Baixada após ser considerado decadente na terra natal, adquirido junto ao Banfield em 1967. Surgira no Lanús (que curiosamente virou o rival principal do Banfield a partir dos anos 80, “substituindo” o Los Andes dos Da Graca), em um celebrado elenco apelidado de Los Globetrotters.

Como Granate, Ramos Delgado foi incluído no elenco da Copa do Mundo de 1958, que marcou o retorno da Argentina a mundiais depois de 22 anos. Em 1959, passou para o River Plate, onde havia sido recusado no início da carreira. Colocando ordem na defesa com berros mas em desarmes limpos, fez sucesso também em Núñez, que só não foi maior por conta da falta de títulos que viveu-se lá entre 1957 e 1975.

Ídolo também no Santos de Pelé, Ramos Delgado brilhou no Lanús, foi capitão da seleção e técnico no River.

Como millonario, Ramos Delgado manteve-se na seleção, esteve na Copa de 1962 e participou também da conquista da Copa das Nações, em 1964, maior logro da Albiceleste até 1978. Em 25 jogos pela Argentina, foi capitão 16 vezes, boa amostra de sua liderança. Seu pai, de sobrenome Ramos, era um imigrante de Cabo Verde. Como treinador, teve estadias no Belgrano e no River. Dedicamos a ele este outro Especial.

Outro zagueiro com possível origem afro-portuguesa foi Alberto Dopacio, caso seu sobrenome seja corruptela de Do Passo. Teve passo (sem trocadilho) de sete anos e cerca de 150 jogos pelo Huracán, entre 1964 e 1971, quando transferiu-se ao Deportivo La Coruña. Em 1974, El Beto reforçou o San Lorenzo de Mar del Plata no Torneio Nacional. Depois também esteve no Once Caldas.

Como huracanense, Dopacio chegou a conviver com Oscar Nogueira, atacante que não se firmou: foram só quatro joguinhos pelo Globo entre 1970 e 1971. Manteve-se ativo sobretudo no futebol da província de La Pampa, com o Racing de Castex ou o All Boys de Santa Rosa.

Dois registros de Dopacio no Huracán. À direita, está ao lado de Nogueira (o segundo da fileira do meio) no elenco de 1970

Dopacio se lançava no Huracán na mesma época em que o versátil Roberto Telch aparecia no rival San Lorenzo. O sobrenome alemão acompanhava pele parda e cabelos cacheados que lhe rendiam apelidos que variavam entre Oveja (“Ovelha”) e Cordero. No início da carreira, Telch era um ponta, posição na qual foi talismã daquela Argentina que, com Ramos Delgado, surpreendeu o Brasil ao vencer a Copa das Nações em 1964: foram dele dois gols da vitória da Albiceleste dentro do Maracanã.

Ele então integrava Los Carasucias (“Os Cara-Sujas”, gíria argentina para moleques), quinteto ofensivo jovem e irreverente que teve ao menos dois jogadores no futebol brasileiro: Héctor Veira (que, figura também virando a casaca com o Huracán, aparece atrás de Nogueira na foto acima!) e Narciso Doval. Gradualmente, Telch foi sendo recuado para volante. Integrou os quatro títulos argentinos que o Ciclón levantou em fase áurea, entre 1968 e 1974, ano em que também se tornou o único daqueles Carasucias a ir a uma Copa do Mundo.

Os quatro títulos fizeram dele o profissional com mais troféus no século XX com a equipe azulgrana. Telch também seria ídolo no Unión: integrou o melhor torneio dos alvirrubros de Santa Fe, o vice-campeonato nacional em 1979. Dedicamos a ele este outro Especial.

Telch por San Lorenzo, seleção e Unión

Assim como Ramos Delgado, Héctor Rodolfo Baley também foi a duas Copas do Mundo. Foi um goleiro que, embora considerado inconstante, capaz de defesas das mais difíceis e de deixar passar gols bobos, é o que tem a menor média de gols sofridos na seleção entre os arqueiros que a defenderam ao menos dez vezes: 8 em 13 partidas. É também um dos poucos que jogaram por ela vindo de três clubes de províncias diferentes cada: chegou à ela vindo do Colón de Santa Fe, em 1975, na “seleção do interior” experimentada por César Menotti, e despediu-se em 1982, já como jogador do Talleres de Córdoba.

Mas foi no Huracán que Baley, apelidado de El Chocolate quando ainda era o terceiro goleiro do Estudiantes tricampeão da Libertadores nos anos 60, fez mais sucesso. Chegou ao bairro portenho de Parque Patricios em 1976, em que o time ficou oito pontos à frente do campeão metropolitano (torneio mais valorizado que o próprio nacional), o Boca, na fase inicial. Aquele ano também é lembrado no clube pela vitória nos cinco clássicos realizados contra o San Lorenzo.

O ano de 1977 foi o que o goleiro mais jogou pela Argentina; em revezamento com o boquense Hugo Gatti desde 1976, atuou sete vezes. Foi campeão mundial em 1978 na reserva de Ubaldo Fillol. No mesmo ano, foi o goleiro titular do Independiente campeão nacional. Também foi para a Copa de 1982, onde outra vez só Fillol jogou. Dedicamos a Baley este outro Especial.

Contrates: o black power dos tempos do goleiro Baley como jogador não se transmitiu à neta, com quem posa à direita. Outro retrato do embranquecimento que chega em duas gerações – muitos argentinos de ancestralidade africana talvez até a desconheçam

Por ser campeão mundial e pelo tom da pele, Baley, neto de senegalês, costuma ser o mais conhecido negro do futebol argentino. Ele, mais exatamente, seria mulato: sua mãe, filha de dois imigrantes espanhóis, era uma loira de olhos verdes. Colega do goleiro naquelas duas Copas, o volante Américo Gallego tem feições afros mescladas a indígenas, aquela mestiçagem que os argentinos chamam de zambo.

El Tolo Gallego, a quem já dedicamos este outro Especial, é o jogador do Newell’s que mais vezes defendeu a Albiceleste. E consagrou-se também no River, sendo o veterano capitão do elenco enfim vencedor pela primeira vez na Libertadores e no Mundial, em 1986. Naquele River de 1986, Gallego foi colega de ao menos dois jogadores pardos: o volante Néstor Gorosito e o ponta Luis Amuchástegui.

Ainda jovem reserva, El Pipo Gorosito viraria ícone principalmente nos anos 90, já no San Lorenzo e na Universidad Católica, até vencendo a Copa América de 1993 com a seleção. La Araña Amuchástegui chegara a seleção ainda como jogador do surpreendente Racing de Córdoba vice argentino de 1980 e, embora com interessante início no River, iniciava a curva descendente da carreira.

Américo Gallego no Newell’s, na seleção de 1978 e no River de 1986, junto a Francescoli e ao pardo Amuchástegui

El Tolo Gallego conseguiria feitos notáveis também como técnico: é o único a conseguir no River um título argentino invicto, no Apertura 1994; e um dos únicos vencedores da primeira divisão argentina com três clubes, junto a José Yudica. No caso de Gallego, com o Independiente no Apertura 2002, ainda o último do Rojo, e com seu Newell’s no Apertura 2004.

Como Baley e Gallego, o zagueiro Jorge Trezeguet atuou nos anos 70, mas teve menos glórias na carreira. Na Argentina, limitou-se a rivalidades de clubes pequenos, passando por Estudiantes de Buenos Aires e Almagro (do Clásico de Tres de Febrero) e também por Deportivo Español e Sportivo Italiano, o dérbi dos imigrantes.

Poderia ter dado um salto quando foi sondado pelo super Independiente da época, tetra seguido na Libertadores, mas a transferência foi melada por um antidoping positivo, o primeiro do país. Jorge seria anistiado, mas ficou com reputação manchada para sempre na primeira divisão argentina.

Figurinha de Jorge Trezeguet com o Rouen. E seu filho David nos infantis, juvenis e time adulto do Platense

Sua distante ancestralidade francesa propiciou que fosse prospectado pelo Nice, time treinado por um argentino ídolo localmente, César González. Mas foi com o Rouen que ele teve certo sucesso, contribuindo ativamente no acesso do time da Normandia à Ligue 1 em 1977. Eram meses de redenção a Jorge, que em outubro daquele ano festejou o nascimento do filho David Trezeguet.

O Rouen não soube estabilizar-se na elite e a família logo voltou à Argentina. Antes de ostentar cabeça raspada, o filho usava penteado black power no início da carreira, no Platense. Neste outro Especial, falamos mais dos Trezeguet e de como o filho se diz mais argentino do que francês.

Miguel Ángel Ludueña foi um volante de personalidade: em sua Córdoba, defendeu os rivais Belgrano e Talleres. E repetiu a dose em Avellaneda, com o feito de ser um raro campeão titular por Racing e Independiente. Na Academia, integrou os vencedores da Supercopa de 1988, sobre o Cruzeiro, primeiro título racinguista em mais de vinte anos. Virou a casaca em seguida para vencer o campeonato argentino de 1988-89 pelo Rojo. Jogou uma vez pela seleção, em 1991, estreando veterano nela, já aos 34 anos. Já dedicamos a El Negro Ludueña este outro Especial.

Cheio de personalidade, Ludueña defendeu sem escalas a dupla cordobesa Belgrano e Talleres e, em seguida, Racing e Independiente. É raro campeão pelas duas forças de Avellaneda

Nos anos 90 em diante, os afros mais presumíveis do futebol argentino foram basicamente pardos (na concepção brasileira do termo), seja em mestiçagem com brancos, seja com indígenas ou com ambos. É o que se pode inferir de um volante ídolo no Belgrano e bem recordado na dupla River e San Lorenzo, Roberto Monserrat; do meia José Albornoz, o último a jogar por quatro dos cinco grandes argentinos (El Pepe defendeu San Lorenzo, River, Racing e Independiente, mas foi pelo forte Gimnasia vice do Clausura 1996 que ele chegou à seleção); e de José Luis Villarreal, raro nome que a seleção chamou tanto do Boca, onde Villita foi mais exitoso, como do River. Detalhe: todos cordobeses, como Ludueña ou Amuchástegui.

Já os anos 2000 viram em especial Clemente Rodríguez e o folclórico atacante Antonio Barijho, dois dos ícones da Era Bianchi; o volante Cristian Ledesma, filho pródigo de Argentinos Jrs, River e Colón (El Lobo não deve ser confundido com o jogador de mesmo nome que defendeu Lazio, Santos e seleção italiana); o meia Daniel Rolfi Montenegro, camisa 10 clássico querido no Huracán (curiosamente, seu irmão Ariel Montenegro integrava na mesma época o rival San Lorenzo) e no Independiente, tendo ainda bons momentos no River; e Daniel Cata Díaz, xerife do Boca campeão de quase tudo entre 2005 e 2007; ou ainda Fernando Tissone, que trotou por diversos times médios e pequenos de Itália, Espanha e Portugal.

Os anos 2010, por sua vez, apresentaram o colorado Gabriel Mercado, o cruzeirense Ramón Wanchope Ábila, Marcos Díaz (a quem elegemos como goleiro do time dos sonhos do Huracán, em 2018), o campeão mundial Cristian Cuti Romero e o botafoguense Alexander Barboza. Sem intenção de dar lugar ao que se chama de colorismo, é fato que nenhum desses nomes listados desde os anos 90 possui pele retinta feita a de Daniel Ludueña, embora ele próprio seja igualmente mestiço. Daniel não tem parentesco com Miguel Ángel, apesar de serem ambos cordobeses.

Ninguém jogou nos cinco grandes. O pardo Pepe Albornoz foi o último a defender ao menos quatro, nessa ordem: San Lorenzo, River, Racing e Independiente. Só faltou o Boca, mas ele ainda defendeu a dupla Talleres e Belgrano!

O Ludueña do século XXI é filho de um dos anos 70, ainda mais ilustre com a bola. Seu pai é o ponta Luis Ludueña, um dos maiores ídolos do Talleres. Membro da geração dourada dos anos 70, Luis foi o artilheiro do Torneio Nacional de 1976. Um de seus gols nesse campeonato entrou para a história do futebol mundial: foi o único gol na partida célebre como estreia profissional de Maradona, cujo Argentinos Jrs perdeu em casa por 1-0 em outubro daquele ano.

De ancestralidade visivelmente nos povos andinos originários, o honroso primeiro “carrasco” de Maradona era apelidado de El Hacha, razão para seu filho Daniel, de pele ainda mais escura que a de Luis, ser apelidado com um diminutivo: o Hachita Ludueña esteve no River campeão argentino em 2003 e 2004, mas nunca se firmou por completo. Segundo o pai, por ser negro. Fato é que a concorrência era forte: competia com Ortega, Gallardo, D’Alessandro, Lucho González… e o mesmíssimo Daniel Montenegro acima mencionado.

El Hachita terminou por se firmar no futebol mexicano, notadamente no Santos Laguna; duas vezes campeão da Liga MX (nos Clausuras de 2008 e 2012) por uma equipe historicamente pouco vencedora, foi eleito também o melhor jogador dela no Apertura 2007.

Daniel Ludueña é mestiço afro-indígena: junto ao pai (o primeiro carrasco de Maradona!) e entre D’Alessandro e Lucho González no River campeão de 2003

Na década atual, as peles retintas – em fenótipos visivelmente mestiços – que se sobressaem começam pela de Héctor David Martínez. A bem da verdade, ele fora profissionalizado ainda em 2017 pelo River, mas foi somente em 2020 que ele, emprestado ao Defensa y Justicia, ganhou reconhecimento; integrou o elenco vencedor da Sul-Americana e acabou aproveitado entre 2021 e 2022 pela seleção do Paraguai, terra de sua mãe; chegara a defender a Argentina na categoria sub-17. Entre 2024 e 2025, Martínez foi colega de Messi no Inter Miami, mas atualmente está emprestado pelo River ao Olimpia.

Batizado em homenagem a Senna, bastante reverenciado pelos argentinos, o zagueiro Ayrton Costa também tem origem paraguaia (possivelmente guarani), diluída pela ancestralidade paralela em Cabo Verde. Profissionalizado pelo Independiente em 2020, chegou ao Boca no início desse ano e logo se firmou na titularidade.

Profissionalizado pelo próprio Boca em 2021, o volante Cristian Medina se deu ao gosto de, em 2024, marcar no Superclásico e servir a seleção olímpica nos Jogos de Paris. Já vinha servindo a Albiceleste desde a sub-17, mas justamente ao voltar das Olimpíadas teve uma queda acentuada de desempenho quando a negociação que aguardava ao futebol europeu acabou não concretizada. A diretoria acabou negociando-o com o Estudiantes na mesma época em que o lateral Braian Aguirre trocava o Lanús pelo Internacional: esteve em 2025 no título estadual valorizado por impedir que o Grêmio igualasse o recordista octa seguido dos colorados.

Medina e Costa, nomes recentes do Boca

Caio Brandão

Advogado desde 2012, rugbier (Oré Acemira!) e colaborador do Futebol Portenho desde 2011, admirador do futebol argentino desde 2010, natural de Belém desde 1989 e torcedor do Paysandu desde antes de nascer

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