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Entre a Furia e a Albiceleste: os argentinos que defenderam o outro lado da Finalíssima do Mundo

Originalmente publicado em 6 de setembro de 2010 em função de amistoso entre as duas seleções, com o título “Espanhóis, pero no mucho” – e revisto, atualizado e ampliado

Mais do que uma final, a decisão da Copa do Mundo de 2026 terá ares de Finalíssima. Nunca o torneio foi decidido entre o campeão vigente da Copa América e o campeão vigente da Eurocopa. O tira-teima abortado em março acabou, por linhas tortas, reprogramado do jeito mais certo possível. Como se não bastasse, no mesmo mês em que Alfredo Di Stéfano teria completado cem anos. Ele não foi o único que defendeu as duas seleções, tampouco o primeiro hermano aproveitado pela Roja. Vale relembrar outros nomes da relação hispano-argentina.

A história começou há mais de cem anos, com a única atuação de Eduardo Arbide pela seleção espanhola – um 3-1 sobre Portugal em 18 de dezembro de 1921, no campo de O’Donnell, antigo estádio do Real Madrid. Nascido em Rosario e filho de bascos, Arbide defendeu a Real Sociedad em tempos em que ela, tal como o rival Athletic Bilbao, admitia apenas jogadores de origem basca (a Real só começaria a abrir-se em 1989), ainda que não nativos da região.

Assim como Arbide, Juan Errazquín também era filho de imigrantes bascos nascido no interior argentino – no caso dele, na cidade cordobesa de Leones. Destacou-se defendendo o então poderoso Real Unión de Irún, clube campeão de quatro Copas do Rei entre 1913 e 1927. Errazquín, inclusive, ainda é quem mais gols marcou sobre o Boca Juniors em uma só partida: em 1925, anotou os quatro em vitória de 4-0, rara derrota da gloriosa excursão europeia dos auriazuis (a primeira de qualquer clube argentino).

Eduardo Arbide (por Real Sociedad), Juan Errazquín (por Real Irún) e Emili Sagi Barba, trio dos anos 20: eram considerados todos espanhóis natos, por serem filhos de nativos

Naquele mesmo ano, Errazquín estreou pela Espanha – e já com recorde. Fez os três gols de 3-0 dentro de Berna sobre a Suíça, em 1º de junho, cerca de três semanas antes de completar 19 anos de idade. Isso rendeu por quase cem anos um recorde a ele, o de mais jovem a marcar gol pela seleção espanhola. Essa marca foi quebrada primeiramente em 2020 por Ansu Fati, por sua vez superado em 2024 por Lamine Yamal.

Errazquín ainda conserva, porém, o feito de ser o único a lograr um hat trick em plena estreia pela Espanha. Ao todo, jogou seis vezes por ela, até 1928, quando era nome aguardado para as Olimpíadas daquele ano. Contudo, possuía apenas o passaporte argentino e não o espanhol, entrave que o impediu de participar dos Jogos de Amsterdã. Tinha idade e bola para figurar na primeira Copa disputada pelo país, em 1934, mas falecera precocemente três anos antes, vitimado por tuberculose.

Um dos jogos de Errazquín, contra Portugal, em 19 de dezembro de 1926, teve outro argentino em campo pela Espanha. Essa foi a estreia de Emili Sagi Barba pela seleção, e por décadas, também considerada sua única partida por ela – até um jogo dele em 29 de maio de 1927, também contra os portugueses, ter seu caráter oficial reconhecido.

Sagi Barba no Barcelona: primeiro ídolo argentino do clube

Na realidade, o jogador se chamava Emili Sagi Liñán, mas ficou mais conhecido pelo sobrenome composto do pai, um famoso barítono do final do século XIX e começo do século XX. O artista chegou à Argentina em 1895 e fez sucesso no país inteiro. Em 1900 se casou e Emili nasceu na cidade de Bolívar, no interior da província de Buenos Aires. Poucos anos depois a família voltou a Barcelona, e o filho do barítono começou sua carreira de jogador. Em 1917, o argentino entrou na equipe principal do Barcelona, mas dois anos depois largou o futebol. Voltou em 1921 e jogou até 1932, participando do primeiro título espanhol do clube – e de vários no então valorizado campeonato catalão.

No total, Sagi Barba disputou 434 jogos e marcou 136 gols pelo Barça, sendo considerado até hoje um dos melhores extremo-esquerdos da história blaugrana. Com a Guerra Civil Espanhola, o atacante acabou perseguido por suas ligações com a maçonaria, chegando mesmo a ser preso. Em coincidência mais triste com o destino de Errazquín, Sagi Barba também foi levado precocemente pela tuberculose, que teria contraído na prisão em que a guerra lhe encarcerou.

O conflito, aliás, fez Buenos Aires receber largo contingente de refugiados. O clube Hispano Argentino havia sumido do futebol ainda nos anos 10, ao integrar uma série de fusões que deu origem ao atual Almagro, ao passo que o Deportivo Español (apelidado de Los Gallegos, por sinal), equipe cascuda nos anos 80, ainda não havia sido fundada. Essa lacuna de representeção oficial somada ao San Lorenzo ter abrigado uma panelinha de jogadores bascos exilados da Guerra Civil – notadamente o superartilheiro Isidro Lángara e o volante Ángel Zubieta – fez os azulgranas serem abraçados pela comunidade espanhola radicada em Buenos Aires.

Héctor Rial e Alfredo Di Stéfano, colegas de Real Madrid e de seleção

O San Lorenzo seria justamente o clube de formação do argentino seguinte a jogar pela Espanha. Foi Héctor Rial, igualmente filho de espanhóis como seus antecessores, o que pela lei lhe fazia ter cidadania nata. Seu pai era de Vigo, na Galiza, parte ancestral de contingente expressivo de imigrantes espanhóis a ponto da expressão Gallego ser usada na Argentina como sinônimo coloquial a todo e qualquer espanhol. A mãe era de Checa, povoado nos arredores da Guadalajara castelhana.

Diferentemente dos antecesssores, Rial iniciou a carreira ainda em Buenos Aires, mas não a tempo de integrar a campanha campeã argentina de 1946. Mas pôde participar da excursão histórica que o clube fez pela península ibérica, com direito a golear a própria seleção espanhola de Lángara. As estatísticas de Rial pelo Ciclón indicam vinte gols em quarenta jogos, mas ele acabou pouco marcante no bairro de Boedo tanto pela não-participação no título de 1946 como pela estadia curta demais. El Nene foi um entre tantos argentinos que rumaram ao Eldorado Colombiano diante da intransigência dos cartolas portenhos em ceder à famosa greve de 1948.

Rial, a quem já dedicamos este Especial, destacou-se em Bogotá com o Santa Fe a ponto de ser prospectado pelo Nacional uruguaio, então uma equipe das mais poderosas do mundo. Dali, foi contratado pelo Real Madrid, juntando-se ao também argentino Alfredo Di Stéfano – por sua vez, astro do Millonarios naquela lucrativa liga colombiana.

Di Stéfano enfrentou duas vezes a Argentina: à esquerda, antes de derrota por 2-0 em 1960, no Monumental de Núñez. À direita, no 2-0 com gol dele em 1961, em Sevilha

Quando os dois chegaram à capital espanhola, era o Atlético a equipe local mais vitoriosa, ao passo que os merengues atravessavam jejum de vinte anos em La Liga. A dianteira do Atleti era obra de um técnico argentino, Helenio Herrera, comandante do último bicampeonato espanhol dos colchoneros, nas temporadas 1949-50 e 1950-51 e de quem logo voltaremos a falar. Rial e Di Stéfano logo conseguiram um bicampeonato para o Real Madrid, revertendo esse quadro com os títulos nas temporadas 1953-54 e 1954-55.

Foi na esteira do segundo título espanhol seguido que Rial estreou pela Espanha, em 17 de março de 1955, contra a França – e até conferiu passe em profundidade o placar se abrir, embora os Bleus acabassem virando para 2-1. Na temporada seguinte, os blancos faturaram a primeira edição da Liga dos Campeões, sendo justamente de Rial o gol do título. Rial e, sobretudo, Di Stéfano embalaram a dinastia madridista pelo restante da década, encerrada com um pentacampeonato seguido no torneio. Como Di Stéfano não possuía ancestrais espanhóis (seu pai era filho de italianos e a mãe, de um francês com uma irlandesa), só pôde obter a cidadania espanhola após cumprir o requisito de anos e anos de residência.

Essa ancestralidade italiana, francesa e irlandesa de Di Stéfano em nada ajudava em época na qual não existia passaporte europeu e nem Lei Bosman: o objetivo original de sua naturalização era justamente liberar no Real Madrid uma vaga de estrangeiro para algum outro reforço, mas serviu também para que a Furia logo se aproveitasse da “Flecha Loira”.

Di Stéfano é o nome mais célebre que defendeu os dois países e faria cem anos nesse julho de 2026

Di Stéfano estreou pela Espanha em 30 de janeiro de 1957 (em amistoso contra a Holanda), quase dez anos depois do último dos parcos seis jogos que disputara pela seleção argentina – que simplesmente não convocava quem atuasse no exterior, medida só alterada a partir dos anos 70. Depois de sua naturalização, o mitológico ícone-mor do Real Madrid participou de 31 jogos pela Espanha, marcando 23 gols, inclusive sobre a Argentina. Ele até duelou com ela duas vezes, em amistosos em 1960 e 1961. Perdeu de 2-0 no Monumental no primeiro e devolveu o placar no segundo, com direito a gol, em Sevilha.

Di Stéfano pôde jogar algumas vezes junto a Rial também na seleção, em que este foi aproveitado até 1958, ano em que começou a perder espaço no clube. Contudo, por fatores que talvez só o destino possa explicar, Di Stéfano, considerado um dos melhores jogadores da história do futebol, nunca pôde jogar uma Copa do Mundo. Além do fator político que o fazia ser ignorado pela Argentina, em 1958 a Espanha não conseguiu se classificar, surpreendentemente superada pela Escócia nas eliminatórias.

A reação inicial da Real Federação Espanhola de Futebol foi solicitar os serviços do citado Helenio Herrera para novo treinador, permitindo-lhe conciliar o cargo de técnico da seleção ao emprego que tinha no Barcelona. Nas eliminatórias à Eurocopa de 1960, a primeira da história, a seleção de Herrera sacudiu a Polônia em vitórias de 4-2 a 3-0, restando passar pela União Soviética para assegurar a vaga na primeiríssima Euro. Herrera chegou a viajar a Moscou para tomar notas do adversário.

Di Stéfano e o treinador Helenio Herrera, também nascido na Argentina, nos treinos da seleção espanhola em 1962

Mas, embora não criasse problemas com os poloneses, a ditadura de Francisco Franco vetou os encontros com os soviéticos e assim a Furia foi eliminada por W.O. Naqueles dias, o Barcelona, embora bicampeão espanhol foi eliminado pelo Real Madrid nas semifinais da Liga dos Campeões e a diretoria catalã acabou dispensando Herrera, prontamente contratado pela Internazionale, em transferência que inviabilizou por um tempo cumulação de cargos; o treinador de Di Stéfano nas eliminatórias à Copa de 1962 foi Pedro Escartín e a classificação foi mais dura do que o esperado contra o País de Gales.

Em março de 1962, a Inter, sem chances de título italiano, liberou que Herrera voltasse a trabalhar com a seleção espanhola em tempo integral até o fim da Copa do Mundo. Mas o toque de Midas que ele tinha nos clubes não se viu no torneio. Ele e Di Stéfano embarcaram ao Chile, mas o veterano astro contraiu uma lesão inoportuna, com diagnóstico de que só estaria apto para jogar a partir dos mata-matas. Considerado um dos melhores jogadores da história do futebol, ele acabou nunca podendo entrar em campo em uma Copa do Mundo, pois a seleção de Herrera acabou eliminada ainda na fase de grupos. O técnico inclusive recebeu críticas por não lançar Di Stéfano ainda que sem as condições ideais, alimentando rumores de que não se davam bem – a linguagem corporal da foto acima apenas reforça o boato.

Ainda sobre Di Stéfano vale destacar que ele foi, até 1990, o maior artilheiro da seleção espanhola, sendo superado por Butragueño. E que só não foi além porque a FIFA estabelecera que, após a Copa de 1962, não se permitiriam mais que seleções empregassem naturalizados que já houvessem atuado por seus países de origem, uma medida que também encerrou as passagens dos húngaros László Kubala e Ferenc Puskás, do recém-falecido uruguaio José Santamaría e do paraguaio Eulogio Martínez (estes três últimos, também presentes na Copa de 1962) como jogadores da Furia. Por conta dessa proibição,nenhum deles figurou na vitoriosa Euro 1964, embora houvessem ao fim da temporada chegado a nova final de Liga dos Campeões; muito menos na Copa 1966.

Espanha com três argentinos juntos nas eliminatórias à Copa de 1974: Roberto Martínez (primeiro agachado), José Eulogio Gárate (terceiro) e Óscar Valdez (quinto). Gárate foi o primeiro a estrear, em 1967

Na virada dos anos 60 para os 70, La Liga viu três artilharias seguidas de José Eulogio Gárate, neto de bascos exilados em Sarandí e crescido em Eibar. Formado no próprio Eibar, se consagraria no Atlético de Madrid, defendendo-o por mais de dez anos a partir de 1966. Fez sua primeira partida pela Espanha em 22 de outubro de 1967, contra a Tchecoslováquia, pelas eliminatórias à Eurocopa, e a última deu-se ainda em 1975.

Gárate calhou de ter seu auge em meio a uma entressafra da seleção, ausente de qualquer torneio entre as Copas de 1966 e 1978. Seu Mundial particular foi na curiosa conquista de 1974 do Atleti: com a recusa do Bayern Munique de enfrentar o Independiente, os rojiblancos aceitaram disputar a Intercontinental contra o RojoO Atlético valorizou o tira-teima e levou: afinal, seu elenco naquele período era recheado de argentinos e também de outros sul-americanos (como o brasileiro Heraldo Bezerra, ex-Newell’s, e até mesmo do galego José Ufarte, crescido no Brasil), a ponto de ser até apelidado de Los Indios.

Outros argentinos também defenderam a Espanha naqueles anos inglórios. Em 12 de janeiro de 1972, Juan Carlos Touriño (um dos melhores zagueiros do Quilmes e do Real Madrid) fez sua única partida, um curioso 1-0 em que os espanhóis, treinados pelo húngaro Kubala, venceram justamente a Hungria em amistoso. O atacante Óscar Valdez, ex-Platense e já ídolo do Valencia, atuou por nove jogos, entre 23 de maio de 1972 e 13 de fevereiro de 1974. Um deles, inclusive, contra a Argentina, derrotada por 1-0 em 11 de outubro de 1972 pela “Copa Hispanidad”, no Bernabéu. Também atacante, Roberto Martínez, pinçado do Banfield por um forte Espanyol (e depois com boa passagem pelo Real Madrid), realizou cinco jogos entre 21 de fevereiro de 1973 e 20 de novembro de 1974.

Mesmo com destaque no Real Madrid, Touriño só defendeu uma vez a Espanha, em 1972

Os três primeiros jogos de Martínez se deram ainda como jogador espanyolista: estava credenciado pela fantástica temporada de 1972-73, a última em que as vitrines do Sarrià quase receberam o título de La Liga. Os alviazuis chegaram a lidera-la em março após a primeira vitória dentro do Camp Nou (inaugurado em 1958) sobre o rival Barcelona, a partir de um pênalti sofrido pelo argentino. Mas tropeços nas duas rodadas finais fizeram a outra equipe catalã terminar em 3º, três pontos abaixo do campeão, precisamente aquele “argentino” Atlético de Madrid.

Os dois jogos seguintes de Martínez pela seleção foram já como madridista. Não houve mais porque, derrotada com gol dele nas eliminatórias à Eurocopa 1976, a Dinamarca suscitou investigação sobre os documentos do argentino, a quem a cidadania havia sido concedida não por tempo de residência e sim por uma questionada hereditariedade. A UEFA não reverteu o resultado, mas “recomendou” que a Espanha deixasse de convoca-lo.

Antes da confusão, a Espanha chegou a ter simultaneamente o trio Gárate, Valdez e Martínez nas eliminatórias à Copa de 1974 – os três formaram o ataque no duelo direto em que a Iugoslávia, segurando um 0-0 em Zagreb, acabou tomando a única vaga do grupo.

Martínez, quase campeão de La Liga com o Espanyol. Gárate, com a camisa vermelha do Independiente, comemora o Mundial Interclubes do Atlético de Madrid junto aos argentinos Ayala e Heredia (ambos de casaco branco). Valdez no Valencia com o técnico Di Stéfano

O troco veio já nas eliminatórias seguintes. E graças ao argentino seguinte: Rubén Cano, que, como goleador do Atlanta, até defendera a Argentina em 1974, em amistosos pré-Copa contra clubes e seleções provinciais.

Os jogos de Cano pela Argentina não eram partidas consideradas oficiais e ele não convenceu por um lugar na Albiceleste convocada ao Mundial da Alemanha, embora seu nome estivesse entre os sondados a ponto de render figurinhas. De todo modo, sua ascensão à seleção serviu de vitrine para ele rumar à Espanha, inicialmente ao Elche.

Em 1976, Cano se tornou então mais um hermano naquele “argentino” Atlético de Madrid, logo faturando La Liga de 1976-77 (sendo inclusive dele o gol que garantiu o título, em pleno dérbi de Madrid), título que deixava o Atleti a apenas um troféu de igualar o Barcelona em títulos espanhóis. Como não defendera oficialmente a Argentina, ele, uma vez naturalizado, pôde começar a defender a Espanha a partir de 16 de abril de 1977.

Rubén Cano por Argentina e Espanha, seleções que defendeu entre 1974 e 1979

O mais recordado gol da vida de Cano veio naquele novo duelo direto contra a Iugoslávia, nas eliminatórias à Copa de 1978 – em jogo que ganhou ares épicos por ter sido disputado numa fechada Belgrado ante a hostilidade de quase 70 mil pessoas.

Ao todo, foram doze jogos de Cano (o último, em 1979) e quatro gols pela Furia, mas uma lesão o limitou a uma só partida na Copa do Mundo realizada “em casa” – a derrota de 2-1 para a Áustria, no estádio do Vélez. Ele não tem parentesco com Germán Cano e já recebeu este outro Especial.

Outro argentino que poderia ter ido ao Mundial era o cordobês Juan Carlos Heredia, El Milonguita, então destaque no Barcelona após consagrar-se no Belgrano. Ele chegara a ser incluído em lista preliminar de 40 nomes da seleção argentina, mas jogar na Europa naquela época, embora já não fosse um empecilho absoluto, ainda mais ajudava do que atrapalhava.

Dois momentos do famoso gol de Rubén Cano sobre a Iugoslávia: recuperando o equilíbrio logo após marcar e então disparando a comemoração com Juanito

O ponta, porém, acabaria de fora também da convocação espanhola ao pedir dispensa, receoso da ditadura que acometia a terra natal: seu pai, também chamado Juan Carlos Heredia (El Milonga) e ele próprio ex-jogador da seleção argentina, havia quase sido sequestrado por engano pelos militares ao ser confundido com um “subversivo” de mesmo nome.

Saber da quase tragédia dos Heredia teria inclusive pesado para o astro Johan Cruijff também desistir de jogar o Mundial. O argentino só viria a estrear pela Espanha já após o torneio – em 15 de novembro de 1978, em 1-0 sobre a Romênia pelas eliminatórias à Eurocopa 1980. Naquelas eliminatórias, chegou a curiosamente ser substituído por Rubén Cano em duelo com o Chipre.

A seleção se classificou à Euro, mas Heredia optara por voltar à Argentina ainda no início de 1980 para cumprir o sonho de defender o River Plate, clube do coração e, com isso, não passou de três jogos pelos espanhóis (o último, ainda em 1979, contra a Iugoslávia). Já dedicamos este outro Especial para contar a trajetória de Milonguita Heredia.

Rubén Cano marcando pelo Atlético o gol do título espanhol de 1977 em pleno dérbi de Madrid. À direita, Juan Carlos Heredia no Barcelona com os holandeses Neeskens e Cruijff

O sucessor de Heredia foi outro atacante, Juan Antonio Pizzi, goleador que começou sua carreira no Rosario Central no final dos anos 80 e que teve seu auge no Tenerife e (como coadjuvante de luxo) no Barcelona, em meados da década seguinte. Com o Tenerife, formou panelinha argentina que fez o modesto time das Canárias chegar às suas melhores campanhas em La Liga e na Copa do Rei. Elas ficaram marcadas também por fazer a equipe ser carrasca por duas vezes seguidas do então líder Real Madrid na rodada final do campeonato, permitindo que o Barcelona acabasse campeão.

Componente daquele elenco dos chamados Tenerifazos, o volante Fernando Redondo logo foi contratado pelo próprio Real Madrid. Ele já era presença assídua na Albiceleste ainda como jogador do Tenerife, mas Pizzi calhava de ter concorrência das mais qualificadas – primeiramente contra Batistuta, Caniggia, depois com a súbita aparição de Ortega e com o fim de ostracismo a Abel Balbo. Esses quatro, mais Ramón Medina Bello, foram os atacantes chamados à Copa de 1994.

Cansado de aguardar alguma chance, Pizzi, com tempo suficiente de residência na Espanha para adquirir a cidadania local, fez já em 30 de novembro de 1994 sua estreia como espanhol. E, em 20 de setembro de 1995, marcou um dos gols de vitória por 2-1 sobre a Argentina.

Heredia, Pizzi e Pernía

Pizzi figuraria ao todo em 22 partidas pela seleção adotiva, deixando oito gols, participando da Eurocopa 1996 e da Copa do Mundo de 1998 – onde seu único jogo, o 0-0 com o Paraguai, também foi seu último pela seleção, em parte por ter vindo em seguida jogar no River Plate.

O último jogador argentino a atuar com a camisa espanhola é o lateral Mariano Pernía. Revelado pelo Independiente (sendo reserva no último título argentino do clube, o Apertura 2002), seus gols de falta jogando pelos modestos Recreativo Huelva e pelo Getafe lhe valeram uma vaga de última hora para a Copa do Mundo de 2006. Convocado originalmente, Asier del Horno se lesionou e foi cortado do elenco comandado por Luis Aragonés.

O argentino “chegou chegando”, tomando rapidamente a titularidade que se esperava para Antonio López, o reserva de Del Horno: estreou com direito a gol, cobrando falta sobre a Croácia no último amistoso pré-Copa.

Foi pelo que fizeram pelos modestos Tenerife e Getafe que Pizzi e Pernía, respectivamente, chegaram à seleção (e depois para Barcelona e Atlético de Madrid, respectivamente)

Assim, Pernía curou um trauma familiar: seu pai, o também lateral Vicente Pernía, brilhara nos anos 70 nos dois primeiros títulos de Libertadores do Boca, mas uma expulsão em amistoso contra a Escócia na Bombonera lhe marcou negativamente e terminaria de fora da Copa de 1978. Curiosamente, Pernía precisou adiar sua cerimônia de casamento diante da convocação inesperada à Copa.

Após o Mundial, o argentino cavou transferência ao Atlético de Madrid, onde curiosamente jogava o concorrente Antonio López. Mas isso ainda tempos modestos pré-Simeone; fez sua 12ª e última partida pela Furia ainda em 2007, antes que a seleção passasse a ser a forte Roja (com o insistente Joan Capdevila, convocado de modo esporádico desde 2002, enfim se firmando no ciclo vitorioso iniciado em 2008 como novo dono da lateral-esquerda).

Na via inversa, a seleção argentina já aproveitou um bom número nativos de solo espanhol. Pedro Suárez, ídolo no Ferro Carril Oeste e no Boca, inclusive foi titular da Albiceleste na primeira Copa do Mundo, em 1930 – e, anos depois, chegou a desperdiçar de propósito um pênalti contra o Brasil ao saber que a penalidade não havia existido.

Outras imagens de Pizzi: enfrentando a própria Argentina, no dia em que marcou gol nela em 1995; com o também naturalizado Donato (brasileiro); e na Copa do Mundo de 1998

Arico Suárez, como era mais conhecido, também foi por muito tempo o único nativos das Ilhas Canárias a disputar uma final de Copa do Mundo, até ser igualado por David Silva em 2010. Manuel de Saá, por sua vez, foi figura no Vélez e utilizado em duas partidas contra o Uruguai em 1935 – curiosamente, seu irmão Eduardo de Saá acabaria defendendo o Chile em 1941. Depois houve o caso de Antonio García Ameijenda, galego que a seleção sub-20 utilizou no Sul-Americano de 1967, o último vencido por ela até 1997.

Os casos seguintes, por sua vez, são de filhos de argentinos nascidos na Espanha. Giovanni Simeone veio ao mundo em Madrid enquanto o pai Diego defendia o Atlético. Fez carreira nas seleções argentinas de base e demonstrava méritos próprios como artilheiro do Sul-Americano sub-20 de 2015. Participou das Olimpíadas de 2016 e então estreou em 7 de setembro de 2018 pela seleção principal, já depois da Copa da Rússia.

Simeone filho teve chances esparsas até 2023, sem conseguir se firmar; não foi ao Qatar e quem iria a uma Copa do Mundo seria seu irmão Giuliano (presente nesse Mundial 2026), também nascido na Europa, mas em Roma, nos tempos de Lazio do seu pai. O madrilenho Alejandro Garnacho, por sua vez, é filho de pai espanhol e mãe argentina, enquanto Nicolás Paz, nascido em Tenerife, tem mãe espanhola e pai argentino – um ex-jogador da Albiceleste, o zagueiro Pablo Paz, que disputara ao lado de Diego Simeone a Copa de 1998.

Alguns dos nativos da Espanha que vestiram Albiceleste: Arico Suárez, García Ameijenda (este, somente nas seleções de base), Gio Simeone e Nico Paz

Garnacho chegou a defender os espanhóis na seleção sub-18, mas em 2022 anunciou preferência pela Argentina. Ele e Nico Paz receberam em março de 2022 suas primeiras convocações à seleção principal, mesmo ainda juvenis em seus clubes (Manchester United e Real Madrid, respectivamente).

A pré-lista de Lionel Scaloni ao Qatar incluiu o trio de nativos da Espanha: Gio Simeone ainda era o único que já havia jogado pela seleção adulta da Argentina. Garnacho e Paz ficaram de fora também e precisaram aguardar mais tempo para serem usados. O primeiro estreou somente em junho de 2023, em amistoso contra a Austrália em Beijing. Pôde integrar a seleção vencedora da Copa América de 2024, mas como um dos patinhos feios da conquista, e perdeu o embalo na sequência.

Paz demorou mais, mas conseguiu timing melhor. Sua estreia veio em outubro de 2024, contra a Bolívia pelas eliminatórias, mantendo-se como opção de banco ao demonstrar no bom momento recente do Como habilidade promissora no meio-campo.

A outra face de moeda: nascido na Espanha, Garnacho a defendeu nas seleções de base. Deixou-a para trás ao adotar a Argentina da mãe, mas acabou de fora da Copa 2026

Alexandre Leon Anibal

Analista de sistemas, radialista e jornalista, pós-graduação em Jornalismo Esportivo e Negócios do Esporte. Neto de argentinos e uruguaios, herdou naturalmente a paixão pelo futebol da região. É membro do Memofut, CIHF, narrador do STI Esporte (www.stiesporte.com.br ) e comentarista do Esporte na Rede, programa da UPTV (www.uptv.com.br ).

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