Boca Juniors x Vasco da Gama: os elementos em comum entre os clubes

A Copa Sul-Americana 2026 marca, após 25 anos, o retorno de um duelo que teve aura de clássico naquele ano de 2001. Vasco e Boca poderiam até ter feito uma Recopa naquele ano, como campeões da Mercosul (a antecessora da Sul-Americana) e da Libertadores 2000, respectivamente. O tira-teima esteve descontinuado entre 1999 e 2002, mas tanto a Libertadores como a Mercosul em 2001 renderam ao todo quatro encontros. O intercâmbio entre Bombonera e São Januário, porém, é bem mais antigo. Vamos ver o que une xeneizes e cruzmaltinos?

Origens e a listra diagonal do Boca

As origens de ambos estão nas águas e em imigrantes. Além de homenagear o navegador Vasco da Gama, os cruzmaltinos nasceram como uma equipe de regatas, como até hoje é indicado no nome completo do clube criado por luso-brasileiros. Já o bairro portenho de La Boca tem esse nome por ali o Riachuelo ter sua foz (a boca) no Rio da Prata, cenário propício para o porto de Buenos Aires ter docas por ali.

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Os fundadores eram da numerosa comunidade genovesa que habitava aquela zona (daí o apelido de xeneize, “genovês” no dialeto dela), mas a influência britânica pesou para um nome inglês: os “filhos de La Boca”. Dois anos depois da fundação, os criadores precisavam de uniformes novos e o combinado foi de que as cores seriam as da bandeira do primeiro navio que aparecesse naquele porto. Foi o Drottning Sophia, embarcação que homenageava a princesa Sofia da Suécia.

Curiosamente, outro fator em comum poderia ter sido a listra diagonal. Acreditem: o Boca já a usou, e antes mesmo do Vasco – e antes também do River, diga-se. Foi o primeiro desenho pensado para a adoção das cores suecas, ocorrida em 1907, e persistiu até 1913, a temporada de estreia da camisa azul y oro na primeira divisão argentina.

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Quadro “Origem de la bandera de Boca”, de Benito Quinquela Martín, célebre por retratar o bairro de La Boca

O rival usara pontualmente o desenho em 1908. Deu sorte, com o título da segunda divisão; como ela foi criada ainda em 1899, todos os futuros gigantes do futebol argentino, fundados já no século XX, precisaram começar nela. Mas o River praticamente o esqueceu a faixa diagonal até retoma-la já em 1932; vinha usando desde 1909 como manto principal o estilo que veio a se tornar o reserva (uma camisa que lembra uma fusão de Flamengo e Fluminense, com finas listras pretas separando vermelho e branco).

A cruz de malta do Vasco, por sua vez, foi emblema de uma camisa totalmente preta até o início dos anos 40 colocarem a listra diagonal, que pelo restante do século XX se tornou emblema dele e do River de tal modo que a torcida boquense não se agradou com um reconhecimento histórico prestado pelo centenário do Boca: em amistosos contra Racing e Independiente no início de 2005, a diretoria xeneize se permitiu pôr em campo uma camisa que emulava a original.

Foi vestindo a diagonal que Rodrigo Palacio, uma das novidades apresentadas naqueles amistosos, fez sua estreia e conseguiu seu primeiro golzinho pelo clube. Também foi com ela que Baiano, um dos diversos nomes que defenderam Boca e Vasco, debutou no time argentino.

O Boca com a diagonal: Francisco Taggino (primeiro jogador do clube na seleção) em 1908. Rodrigo Palacio contra o Racing e Víctor Galarza contra o Independiente, nos amistosos de 2005. E uma camisa no museu do Boca, em La Bombonera

Logo chegaremos em quem mais, como Baiano, defendeu os dois times. Antes, vale pontuar os anos em que a dupla foi campeã.

Os anos de títulos em comum

A exemplo do Boca, o Vasco também precisou começar nas divisões de acesso. É que, embora o clube fosse fundado em 1898, seu departamento de futebol só veio a ser criado em 1915, disputando mesmo a terceira divisão carioca em 1916 e vencendo em 1922 a segunda para enfim começar a integrar a nata do futebol da então capital federal.

Daí porque o título imediato da primeira divisão em 1923 causou tanto rebuliço: para além do preconceito de classe e racial, a conquista pelos estreantes foi vista com diversas lupas pela concorrência e atribuída a um profissionalismo por baixo dos panos enquanto os demais clubes ainda eram essencialmente amadores. Naquele ano, o Boca venceu pela terceira vez o campeonato argentino. E, em 1924, ambos lograram um bicampeonato seguido, entre o torneio carioca e o da então Asociación Argentina de Football.

Mas as coincidências rarearam depois. Foi só em 1934 que houve novo título argentino aos xeneizes e novo estadual aos cruzmaltinos. E o clube mais popular da Argentina então veio a passar por relativa seca de voltas olímpicas na maior parte dos anos 40 e 50, exatamente na primeira fase dourada na Colina. Já ela teve sua primeira década perdida nos anos 60, justamente um período de seguidas conquistas do Boca. Em 1970, o Vasco encerrou doze anos de jejum no torneio carioca enquanto o Boca faturava seu Torneio Nacional.

O segundo encontro dos dois clubes, em 1947: mesmo com dois expulsos aos 30 minutos, o Boca venceu por 3-1 no estádio Centenário o pessoal do Expresso da Vitória

O estadual demorou até 1977 para voltar às vitrines de São Januário. Essa temporada especialmente mágica para o Boca: nela a torcida azul y oro festejou pela primeira vez a Libertadores e também o Mundial Interclubes (finalizado somente em agosto de 1978, é verdade). Em 1989, o Boca faturou a Supercopa, torneio que reunia somente os vencedores da Libertadores – e encerrou oito anos sem qualquer troféu. Já a “SeleVasco” faturava o segundo Brasileirão da história cruzmaltina.

Em meados de 1992, o Boca inicialmente levou a Copa Master, que por sua vez unia somente os vencedores da Supercopa. Apesar da conquista dela e daquela Supercopa em 1989, a torcida seguia ansiando pelo fim do pior jejum do clube no campeonato argentino: os onze anos entre 1981 e 1992 seguem sendo a maior lacuna xeneize em torneios da AFA. Terminaram no fim daquele 1992.

Em paralelo, o Vasco vencia naquele fim de 1992 um estadual simbólico, tanto por ser o último troféu de Roberto Dinamite como por iniciar o único tricampeonato seguido do clube no torneio carioca. O bicampeonato estadual seguido, em 1993, coincidiu com a conquista boquense da Copa Ouro, outra presepada da Conmebol, mas oficial: foi um torneio de vida curta que reunia os campeões de 1992 na Libertadores, na Supercopa, na Copa Master e na Copa Conmebol.

Mesmo resgatando Maradona em 1995 e unindo-o a Caniggia, o Boca falhou em ser campeão novamente enquanto os dois seguiram no clube. Na primeira temporada sem a dupla de estrelas, um jogo mais coletivo sob as rédeas do recém-chegado Carlos Bianchi deu muito caldo: na temporada 1998-99, o time faturou tanto o Apertura (invicto) como o Clausura, estabelecendo um recorde de jogos invictos no campeonato argentino profissional. Foram quarenta, enquanto o Vasco celebrava o centenário vencendo a Libertadores em 1998, emendada no Torneio Rio-São Paulo no comecinho de 1999.

Hugo Perotti no duelo europeu de 1980: o Vasco abriu o placar em Valencia já aos 35 minutos do segundo tempo, mas perdeu de virada

Em 2000, então, o Boca teve sua primeira tríplice coroa: levantou, nessa ordem, a Libertadores (a primeira desde 1978), o Mundial Interclubes e então o Apertura da temporada 2000-01, ao passo que Romário conduziu o Vasco ao Brasileirão e à Copa Mercosul. É de se pensar a aura que uma eventual Recopa entre os dois times teria se o Vasco também houve vencido o outro Mundial de 2000, parado pelo Corinthians.

A final do último Brasileirão vascaíno se deu já no começo de 2001, na verdade. Desde então, o clube entrou em uma espiral descendente. Foram só quatro títulos relevantes nesse primeiro quarto de século. Três valem nota: o estadual em 2003 coincidiu com nova tríplice coroa do Boca (Libertadores, Apertura e o último Mundial Interclubes do futebol argentino). A Copa do Brasil em 2011 saiu no mesmo ano em que os xeneizes venceram pela última vez de modo invicto o torneio argentino, no Apertura.

Os títulos seguintes do Vasco foram o bicampeonato estadual em 2015 e 2016. O primeiro se deu no ano em que o Boca fez uma dobradinha entre o campeonato nacional e a Copa Argentina.

Os duelos

A ausência de uma Recopa em 2001 foi recompensada com simplesmente quatro jogos naquele ano entre os campeões da Libertadores e da Copa Mercosul, a antecessora da Sul-Americana. Mesmo assim, não houve como fazer Romário enfrentar Riquelme. Pena: os vascaínos faziam uma Libertadores assombrosa, com vitórias em simplesmente todos os oito jogos até então (os seis da fase de grupos e os dois das oitavas-de-final). Mas uma contusão na perna direita tirou o Baixinho das quartas-de-final contra o Boca, iniciadas em 23 de maio.

Ricardo Gareca fez os dois gols argentinos no 2-2 de 1983, na Venezuela

O Baixinho já não havia jogado três dias antes, e mesmo assim o quarteto ofensivo de Pedrinho, Juninho Paulista, Euller e Viola foi suficiente para virar nos quinze minutos finais o jogo de ida do estadual para cima de um Flamengo esforçado. Mas não deu para segurar um Boca que sabia ser copeiro longe da Bombonera: Guillermo Barros Schelotto anotou o único gol na tarde em São Januário e ruiu uma longa invencibilidade vascaína. Com oportunismo – Riquelme cobrou um escanteio que passava direto pelo bolo de jogadores até El Mellizo, mesmo marcado, usar o corpo para fazer a bola entrar de algum jeito aos 24 minutos do segundo tempo.

Antes da volta pela Libertadores, se deu a volta pelo Estadual, com o traumático trivice-campeonato ocorrendo no dia 27. Em 30 de maio, então, o Vasco deixou claro a súbita destruição psicológica ao levar na primeira meia hora de jogo os três gols do jogo de volta por La Copa. Com direito a placar aberto com gol de bicicleta do inábil Aníbal Matellán, na sobra de uma falta cobrada por Riquelme aos 11 minutos, sem que Helton saísse para interceptar. Aos 20, o bom goleiro já não teve culpa: ao procurar impedir gol de Marcelo Delgado, este se jogou e convenceu a arbitragem a marcar um pênalti. Schelotto não cobrou tão bem colocado e Helton até pulou no canto certo, mas o tiro foi forte demais.

Precisando virar para 3-2, o Vasco deixou a defesa aberta e, em um dos primeiros contra-ataques, Delgado deu impressão de que tentaria um chute cruzado. Serviu de cruzamento rasteiro para Schelotto emendar e terminar os trabalhos. O Boca, adiante, seria bicampeão seguido na Libertadores mesmo com seu gênio demonstrando publicamente como estava às turras com a presidência de Mauricio Macri: o célebre Topo Gigio de Riquelme já havia sido exibido no mês anterior.

Em 29 de julho, na indefinição se Riquelme permanecia ou não na Casa Amarilla, ele é que acabou figura ausente no reencontro pela fase de grupos da Copa Mercosul. Romário sim jogou, em partida que o Vasco utilizou Brasília como sede. Mesmo com uma escalação essencialmente reserva, o Boca conseguiu um pontinho com dois gols de Omar Pérez. Antes de ser um veterano maestro no Santa Fe, o então honroso reserva de Riquelme mostrou sua qualidade ao acertar um tiro de falta para empatar aos 42 minutos do primeiro tempo o placar aberto por Pedrinho.

Schelotto, o jogador mais à direita, abraçado pelos colegas após encerrar dentro de São Januário a invencibilidade vascaína nas quartas-de-final da Libertadores 2001

Pérez chegou a virar o marcador aos 14 minutos do segundo, concluindo livre uma jogada bem tabelada por Mauricio Serna e Schelotto, que gingou pela ponta-direita antes de efetuar um cruzamento certeiro ao carequinha. Patrício igualou. Nenhum dos times levou mesmo a sério aquela Copa Mercosul: foram eliminados juntos na primeira fase, com Cerro Porteño e Universidad Católica avançando naquele grupo.

A queda conjunta se concretizou na revanche em La Bombonera, já em 25 de setembro. Riquelme já tinha sua permanência assegurada por mais um ano, com vistas ao Mundial Interclubes, mas foi poupado como quase todo o time titular, enquanto o Vasco não fazia muito diferente: Ely Thadeu e Léo Lima é quem completaram o ataque junto a Euller ao invés de Romário ou Pedrinho.

Do lado argentino, novamente Omar Pérez foi o meia-armador, enquanto Schelotto deu um tempo – rodando o elenco, Carlos Bianchi usou como titular Roberto Colautti, normalmente uma terceira opção de banco antes de virar titular como naturalizado pela seleção de Israel. Aquela pelada até se movimentou na meia hora final. Odvan, Joel Barbosa, Ariel Carreño e Euller, nessas ordem, marcaram os gols de novo 2-2.

Antes dos duelos continentais de 2001, os clubes já reuniam respeitável quantidade de amistosos. No primeiro, em 27 de janeiro de 1935, foi um movimentado 3-3 em São Januário, com seis gols argentinos. É que Hugo Lamanna, um dos diversos argentinos que o Vasco tinha – como falaremos logo a seguir – marcou os três gols da casa, arrancando aos 40 minutos do segundo tempo um empate muito comemorado; o Boca chegou a estar vencendo por 3-1, com dois gols do barrigudinho Roberto Cherro e outro do longevo Francisco Varallo (os dois maiores artilheiros que o clube teve no século XX).

Não deu para o zagueiro-zagueiro na Bombonera: com 30 minutos de jogo, o time de Riquelme construiu 3-0 sobre Odvan

Entre janeiro e fevereiro de 1947, Montevidéu hospedou um hexagonal com Vasco, Palmeiras e as duplas Nacional & Peñarol e Boca & River. A chamada Copa del Atlántico viu uma grande superação boquense contra o Expresso da Vitória, pela penúltima rodada. Um cabeceio de José Vázquez abriu o placar logo no segundo minuto, mas uma confusão fez o lateral-direito Carlos Sosa e o meia-armador Jaime Sarlanga serem expulsos aos 30.

Mesmo com dois jogadores a menos, o Boca simplesmente conseguiu ampliar duas vezes a vantagem: o ponta-artilheiro Mario Boyé, alguém sugestivamente apelidado de El Atómico, anotou o segundo aos 41 e o terceiro aos 8 minutos do segundo tempo. Até mesmo o elegante Danilo saiu do sério e foi expulso aos 10. Nestor marcou o gol de honra aos 18. Em uma década pouco vencedora, o Boca adiante bateu o Peñarol e sagrou-se o campeão daquele esquecido torneio amistoso, em tempos em que torneios amistosos como esse viravam verso e prosa.

Em 1º de setembro de 1948, o Vasco já campeão sul-americano teve direito a revanche. E, em São Januário, levou de 5-3. Boyé foi novamente carrasco por duas vezes: no primeiro minuto e também aos 21, altura em que o jogo já estava em 3-1: Eduardo Ricagni fizera o segundo aos 13 e Dimas descontara aos 17. Maneca e Dimas, com gols-relâmpago aos 36 e aos 37, até igualaram o marcador. Mas o segundo tempo viu Federico Geronis marcar duas vezes para o time do brasileiro Yeso Amalfi – seu conterrâneo Heleno de Freitas não jogou.

O Vasco teve sua forra em 24 de novembro de 1951. Simbólica, pois o Boca era treinado por Emilio Baldonedo, até hoje o homem que mais gols fez sobre a seleção brasileira. Dois gols de Ipojucan e outro de Friaça construíram o placar visto no Maracanã. Em 25 de janeiro de 1953, ele foi palco de um chamativo 4-4. Roberto Rolando e Elio Montaño construíram no primeiro tempo uma parcial vitória argentina de 2-0. Ademir e Vavá empataram com dez minutos de jogo no segundo tempo, mas Rolando recuperou a vantagem com gols quase seguidos aos 12 e aos 14. Mas, nos dez minutos finais, Ademir e um pênalti convertido por Ipojucan reigualaram.

Abbondanzieri interceptando na Bombonera pela Copa Mercosul em 2001

Os três amistosos seguintes foram todos na Bombonera. Em 21 de janeiro de 1958, o Boca treinado pelo ex-vascaíno Bernardo Gandulla (e com outro ex-cruzmaltino, o atacante Silvio Parodi) abriu o placar com Júpiter Crescio, mas Rubens e Vavá viraram ainda no primeiro tempo. Roberto Bellomo virou. Uma semana depois, novo empate, agora em 1-1, gols de Ángel Nardiello e de Neto.

Em 14 de janeiro de 1961, o Boca fez contra o Vasco o quarto jogo sob o comando técnico do brasileiro Vicente Feola. E, talvez em homenagem, entrou em campo parecendo uma fusão da seleção brasileira com o São Paulo, as duas equipes tão associadas ao técnico: foi usada uma camisa amarela com duas listrinhas horizontais azuis. O Boca do também brasileiro Paulo Valentim venceu por 2-0 com dois gols no segundo tempo, de Ernesto Grillo e de Antonio Rattín.

Dali até os duelos de 2001, os encontros se limitaram a amistosos em 27 de agosto de 1980 e em 11 de fevereiro de 1983. O primeiro foi pelo Troféu Naranja, em Valencia. O mesmo Rattín era então o treinador em um maluco 2-1 no Mestalla, pois Orlando abriu o placar em cobrança de falta a dez minutos do final. Mas, aos 41 minutos do segundo tempo, o empate foi alcançado com um cabeceio de Carlos Veglio e Sergio Robles virou aos 43 em chute rasteiro de fora da área. O arremate foi até fraco, mas Mazarópi não alcançou e a bola cinematograficamente ainda acertou a trave antes de entrar.

O outro jogo foi na Venezuela, pelo Troféu Feria del Sol, em Barquisimeto. Paulo César e Marco Antônio colocaram o Vasco por duas vezes na frente do placar, mas Ricardo Gareca buscou duas vezes a igualdade de um jogo que terminou do jeito clássico: com três expulsões nos cinco minutos finais, de Roberto Mouzo, Marco Antônio e José Berta.

Kuko e Domingos defenderam o Vasco antes da adoção da listra diagonal

Quem defendeu os dois?

Esteban Kuko: meia-esquerda do Boca na maior parte dos anos 20, venceu três vezes o campeonato argentino com o clube – em 1926, em 1930 e no torneio de 1931, histórico por oficializar de vez o profissionalismo no futebol argentino. Em meio a isso, jogou uma vez pela seleção, em amistoso contra o Uruguai em 16 de junho de 1929. O livro Quién es Quién en la Selección Argentina relata que Kukito era “pequeno, movediço, habilidoso e com bom oportunismo, mas extremamente frágil, o que fazia com que perdesse chances quando o jogo se tornava mais físico (…). Depois jogou no Brasil”.

A chegada de Kuko ao Brasil coincidiu com a primeira temporada em que clubes cariocas apostaram largamente em argentinos. O America, que então rivalizava com o Vasco em número de títulos cariocas, causou estardalhaço ao trazer gente que havia até jogado a final da Copa de 1930. Mas o campeão seria os cruzmaltinos. Kuko era o representante do Boca no plantel que reuniu ainda Roque Calocero, Salvador D’Alessandro (ambos ex-Ferro Carril Oeste), Valentín Navamuel (ex-Estudiantes) e Hugo Lamanna (ex-Independiente). Kuko e Calocero não foram tão presentes, mas seriam os únicos que ainda estavam na Colina para o título estadual seguinte, em 1936. Após 1937, o meia reforçou o Bahia.

Domingos da Guia: considerado o maior zagueiro do Brasil, Domingos teve duas passagens pelo Vasco rápidas e brilhantes. Na primeira, em 1933, acabou requisitado pelo Nacional, sinal de prestígio imenso: nas palavras do próprio Domingos, estava indo à terra “dos tricampeões do mundo”, como era visto o futebol do país detentor da Copa e do bi olímpico. A qualidade já era reconhecida a ponto de a CBD tentar leva-lo à Copa de 1934 mesmo com a condição de profissional adquirida pelo “Divino” no futebol do Uruguai. Ele não foi à Copa, mas foi eventualmente repatriado pelo Vasco.

Scarone em registros como técnico vascaíno: de óculos à esquerda e de branco na foto da direita

Em paralelo, o Boca era campeão argentino de 1934 tendo como ponto baixo uma defesa brasileira, formada pelos zagueiros Bibi e Moisés. Para 1935, a diretoria recorreu a Domingos. Bingo: se a conquista de 1934 viera apesar dos 62 gols sofridos, em 1935 o bicampeonato foi assegurado com os gols sofridos se reduzindo literalmente pela metade, pois foram 31. As “domingadas” também deslumbraram os hermanos; porém, em 1936 ele foi culpado por uma confusão generalizada e foi suspenso por nove meses, o que propiciou sua primeira passagem pelo Flamengo.

Carlos Scarone: foi um dos maiores jogadores do futebol uruguaio. O apelido de manya (a leitura é “mândja”, não “mânia”) para o Peñarol teve origem em Scarone, descontente como jogador do time aurinegro, adorado por seu pai. O meia-atacante, misturando espanhol e o italiano patriarcal, se levantou contra seu velho sob o argumentação de que não continuaria a “mangiare mierda“. E seguiu carreira de sucesso pelo rival Nacional e na seleção celeste, ainda que sua figura depois tenha sido ofuscada pelo irmão caçula Héctor Scarone, ainda melhor na técnica e no currículo, estando em todo o “tricampeonato mundial” das Olimpíadas de 1924 e 1928 com a Copa de 1930.

Entre as idas e vindas na dupla de gigantes uruguaios, Scarone ainda teve breves passagens pela Argentina: fez o primeiro gol do Racing na primeira divisão, em 1911, e somou quatro golzinhos em seis jogos entre março e abril de 1916 pelo Boca. Chegou ao Vasco em 1938 já como treinador. A mídia chegou inclusive a confundi-lo com o irmão Héctor, seja usando expressamente o nome do irmão ou por saudar ocasionalmente a chegada do “tricampeão” (Carlos deixara a seleção ainda antes daquele ciclo, em 1922) à Colina. Estreou com tudo, em um 6-1 no America, quando esse duelo tinha aura de clássico – afinal, os rubros tinham na época o dobro de títulos dos alvinegros. Mas não pôde ir além de um quarto lugar no estadual daquele ano, trabalhando até a quinta rodada do campeonato de 1939, após empate em 1-1 com o Madureira.

Gandulla e Emeal juntos por Vasco e Boca

Bernardo Gandulla e Raúl Emeal: integravam nova panelinha platina no Vasco, a de 1939. Eram respectivamente o camisa 10 e o ponta de La Pandilla (algo como “A Gangue”), como foi apelidado um marcante ataque que o modesto Ferro Carril Oeste tinha nos anos 30. Emeal esteve na Argentina vencedora da Copa América de 1937 e Gandulla, por sua vez, estava na lista de chamados à Copa do Mundo de 1938 se a AFA não preferisse abrir mão de participar, em protesto por não sediar o evento.

Gandulla, Emeal e outros colegas de Ferro – o zagueiro José Agnelli e o volante José Dacunto – já estavam jogando sem contrato havia dois anos, mas isso não tinha consequências práticas aos clubes, em tempos de forte lei do passe. O jeito que arrumaram foi forçar a ida a São Januário, estádio que Gandulla se ambientou ao integrar a delegação da Argentina na Copa Roca de 1939. Como em paralelo o Ferro negociava Gandulla e Emeal com o Boca, o cenário do imbróglio estava feito, com o Vasco se abstendo por um tempo de usar os dois para não correr risco de perder pontos no tapetão. Isso fomentou muito a versão de que Gandulla, apanhando as bolas que saíam de campo para participar de algum modo, teria gerado a palavra “gandula” no Brasil. Historiadores do próprio Vasco já esclareceram que a palavra existia antes, mas não negam que ela pode ter se popularizado por causa do atacante.

O fato é que Vasco e Boca fizeram um acordo que permitiu em dado momento de 1939 o uso dos hermanos pelos cruzmaltinos, contanto que Gandulla e Emeal fossem cedidos aos auriazuis em 1940. E assim foi feito. Assim, o passo deles nos campos cariocas foi bem fugaz: nos clássicos, por exemplo, Gandulla anotou apenas em um 2-2 com o Botafogo, já Emeal não deixou nenhum. Mas eles integrou o título do primeiro torneio internacional de clubes realizado no Brasil, o Luiz Aranha (Gandulla até marcou em um 5-2 no Independiente, campeão argentino daquele ano). E ambos sorriram juntos no Boca campeão de 1940, temporada marcada pela inauguração da Bombonera. Gandulla venceria também o de 1943 e contribuiria no Boca sobretudo como técnicos dos juvenis, polindo mais de um vencedor das Copas do Mundo de 1978 e 1986. Já dedicamos a ele este outro Especial.

Alfredo González e Heleno de Freitas chegaram a fazer dupla de ataque, mas só no Botafogo

Alfredo González: hoje pouco lembrado, é o argentino que mais clubes trabalhou no Rio. Esse meia-direita chegou em meados de 1936 ao Boca, vindo do Talleres de Escalada – não confundir com o de Córdoba. González foi produtivo especialmente no campeonato de 1937, com 15 gols em 27 jogos, mas ainda sem títulos. Acabou negociado com o futebol francês, mas abortou tudo com o estouro da Segunda Guerra Mundial e, na conexão carioca da viagem naval que o levaria à Europa, acabou sendo autorizado a manter-se ativo no Flamengo; campeão carioca em 1939, até foi rapidamente repatriado em 1940 pelo Boca, sendo inclusive apelidado de El Carioca González. O Rio já era mesmo a sua casa: vestiria também as camisas de Vasco e Botafogo nos anos 40.

O Vasco seguia sendo treinado por Scarone e matinha o restante da colônia platina de 1939, a incluir os uruguaios Segundo Villadóniga e Emanuel Figliola. González não conseguiu o título, mas fez sua parte, com gols nos clássicos contra America (2-1; o time da Tijuca ainda tinha um título estadual a mais do que o da Colina) e Flamengo (1-1) no torneio estadual de 1940; e contra Flamengo (derrota de 2-1) e Botafogo (dois em um 4-0 e outro em um 2-2) em 1941. Seguiu no Rio com o Botafogo em 1943. Como treinador, esteve ainda por Volta Redonda e Madureira, além de comandar o Bangu campeão de 1966, ainda o último estadual que escapou dos quatro grandes, trampolim para que em 1967 treinasse rapidamente o Fluminense. Já dedicamos a González este Especial.

Heleno de Freitas: embora o filme com (o vascaíno) Rodrigo Santoro narre que problemas disciplinares do temperamental ídolo botafoguense fizesse a diretoria de General Severiano vendê-lo ao Boca, trata-se de uma liberdade poética, com a negociação com os argentinos partindo do próprio astro segundo jornais da época. É o que detalhamos neste Especial voltado justamente sobre os dias xeneizes de Heleno de Freitas. Ele estreou com tudo, mas perdeu gás muito por conta de fatores extracampo alheios a ele, como a famosa greve deflagrada naquele ano, fazendo com que o brasileiro acabasse rodeado por juvenis para cumprir tabela. Se no Botafogo ele já não conseguia ser um salvador da pátria, tampouco pôde em Buenos Aires e aproveitou as férias concedidas pela diretoria no início de 1949 para forçar uma repatriação pelo Vasco.

O paraguaio Silvio Parodi só reluziu no Vasco

Como cruzmaltino, ele enfim pôde levantar o Estadual que tanto perseguia pelo Botafogo (que, por ironia ou não, conseguira em 1948, logo na primeira tentativa sem o craque-problema, o primeiro título estadual desde 1935). Mas não chegou a se firmar de modo duradouro na Colina, nem ter chances palpáveis de ir à Copa do Mundo de 1950 mesmo com o “Expresso da Vitória” sendo a base da seleção: o filme de Santoro ilustra bem a relação “no mínimo” conturbada que o atacante tinha com o treinador do escrete, Flávio Costa. Heleno preferiu um pé-de-meia no atrativo futebol colombiano da época, repleto de estrelas argentinas como Di Stéfano, ainda que não conservasse o patrimônio e nem o físico ao voltar ao Brasil em 1951.

Silvio Parodi: atacante que integrou o histórico título de seu Paraguai natal na Copa América de 1953 – sob o comando de um antigo caudilho do Boca, Manuel Fleitas Solich. Enquanto o Flamengo prospectou Solich, o Vasco pegou Parodi de um Sportivo Luqueño campeão, vencendo concorrência até com a Juventus. Foi o segundo estrangeiro com mais gols pelo Vasco no século XX: deixou três gols no Flamengo (incluindo em 3-0 em 1955), dois no Fluminense (incluindo em 4-2 em 1955) e cinco no Botafogo, como ambos de vitória por 2-1 em 1956.

Parodi só não conseguiu títulos. A Wikipédia costuma incluir o estadual de 1956, mas ele saiu antes da campanha começar: uma turnê de sucesso pela Europa rendeu uma negociação com a Lazio para a temporada italiana de 1956-57. Não vingou e no início de 1958 ele foi testado na pré-temporada do Boca. Estreou com gol, em 3-2 sobre o First Viena. Mas não marcou nenhum nos oito jogos seguintes que teve, todos amistosos, que incluíram dois reencontros com o Vasco. Não é verdadeira a sugestão, também da Wikipédia, de que teria feito 37 gols e 94 partidas pelo clube.

Orlando venceu uma Copa do Mundo como vascaíno. E foi o capitão do primeiro Boca finalista de Libertadores

Orlando: lançado pelo Vasco na entressafra vivida com o fim do “Expresso da Vitória”, participou ativamente das primeiras alegrias vascaínas do ciclo seguinte. Campeão estadual em 1956, já era titularíssimo nas voltas olímpicas pela Europa em 1957 (na recordada vitória sobre o Real Madrid pelo Torneio de Paris, e no título do prestigiado Teresa Herrera). Sua dupla com Bellini foi aproveitada pela seleção na Copa de 1958. O título mundial rendeu expectativa extra a quem seria o campeão da capital do Brasil, que ainda era o Rio de Janeiro. Em tempos pré-Brasileirão, os estaduais também se desenrolavam por todo o segundo semestre. E o cariocão de 1958 acabaria tendo outro condimento, com três times empatados na liderança, o que forçava na época um triangular extra.

Não foi o suficiente, como se sabe. O “supercampeonato” também terminou empatado, forçando o “supersuper”, cujo relevo cresceu nos anos seguintes por também ser o último título estadual do Vasco pelas doze temporadas seguintes. Quando esse jejum ainda não era sentido, cartaz não faltava a Orlando em 1961. O Boca montou uma panelinha brasileira a incluir até mesmo o técnico da CBD naquela Copa de 1958. A recomendação pela vinda de Orlando seria mesmo a principal marca deixada por Vicente Feola no Boca, pois somente o zagueiro vingou; o outro brasileiro a firmar-se naqueles anos, Paulinho Valentim, já se encontrava na Casa Amarilla desde o ano anterior.

Em 1962, Orlando foi simplesmente o capitão auriazul no fim em alto estilo de um jejum de oito anos, em uma concorrência direta com o River resolvida em um Superclásico histórico na penúltima rodada, cheia de protagonismo brasuca. Os argentinos reconhecem nele um defensor “de perfeito sentido de antecipação, com tranquilidade para sair jogando e rápido para os cruzamentos”, um “jogador-chave, cobrindo as subidas de [Silvio] Marzolini, simplificando cada jogada e estando sempre bem posicionado”. Em 2015, nos 110 anos do Boca, o Futebol Portenho elegeu o brasileiro para a zaga do time azul y oro dos sonhos.

Orlando como capitão: tentando apaziguar a célebre confusão de Almir Pernambuquinho (que salta) contra o Chacarita em 1962 liderando o Boca no Maracanã na final da Libertadores 1963

Almir Pernambuquinho: o primeiro Pelé Branco ficou mais conhecido pelo temperamento problemático, ofuscando o grande craque que era. Prospectado em 1957 pelo Vasco junto ao Sport Recife através dos também pernambucanos Ademir Menezes e Vavá, ele não chegou a entrar em campo nos títulos “europeus” com Orlando; começou mesmo a se destacar a partir da temporada seguinte. Naquela maratona que foi o torneio carioca de 1958, Almir teve como principal momento o gol na vitória sobre o Flamengo na abertura do primeiro triangular. Na esteira do título do “supersuper”, encerrado somente em janeiro de 1959, foi uma das primeiras novidades pós-Copa na seleção: integrando a equipe na Copa América sediada em Buenos Aires entre março e abril.

Já com fama de temperamental demais, foi negociado midiaticamente com o Corinthians em 1960: os 6,5 milhões de cruzeiros eram um recorde nacional e, segundo Almir, se voltaram contra ele pelo ciúme despertado nos novos companheiros. Boicotado ou não, seus momentos de brilho no Parque São Jorge foram aquém do esperado, mas suficientes para o Boca incluir o meia no pacotão de brasileiros de 1961.

Almir começou bem, com gols nos dois primeiros jogos: 1-1 com o São Paulo em amistoso em 11 de maio, outro no 2-0 três dias depois sobre o Independiente pela 5ª rodada do campeonato; e, no mês seguinte, em 2-2 fora de casa no Superclásico com o River (em 4 de junho), além de dois em inapelável 5-0 em amistoso com o Corinthians (no dia 11).

A panelinha brasileira no Boca de 1961: Almir Pernambuquinho, Paulo Valentim, Dino Sani, Orlando, Maurinho e o treinador Vicente Feola

Almir teve na Argentina talento reconhecido a ponto de emplacar também a vinda do irmão Ayres para os juvenis xeneizes, com o site Historia de Boca o reconhecendo como “muito dotado tecnicamente”. Só que a personalidade dele logo pesou mais do que o talento. Depois daquele mesmo mês de junho suficiente para consagrar xodós, o Pernambuquinho deu motivos para ser usado somente outras nove vezes pelo Boca pelos doze meses seguintes – a maioria, em amistosos. Integrou aquela redentora campanha campeã argentina de 1962, mas somente na estreia, quando protagonizou briga generalizada que se desdobrou em outras cinco expulsões nos dez minutos finais contra o Chacarita. Com renome suficiente para receber aposta de times italianos, não demorou a ser negociado.

Maurinho: egresso do Guarani, passou quase todos os anos 50 no São Paulo, como um segundo atacante em dupla com Gino Orlando. Defendeu como são-paulino o Brasil na Copa do Muno de 1954. O ponta-direita trocou em 1959 de Tricolor, chegando em junho para a primeira de suas duas passagens pelo Fluminense; campeão carioca de imediato por 1959 e do Rio-São Paulo de 1960, apareceu em 1961 em La Bombonera naquele boom de brasileiros importados naquele início de década pelos bosteros.

Maurinho durou um ano e meio, com nove de seus dez gols como xeneize saindo em amistosos; no desjejum de 1962, Maurinho figurou em só dois jogos, ambos ainda em abril. Seguiu o restante do ano em esquecida passagem pelo Vasco antes de rumar a em 1963 a um segundo ciclo no Fluminense.

O goleiro Errea fazia o estilo “ousadia e alegria” que Carlos Bianchi impediu que Jorginho Paulista aplicasse no Boca

Néstor Errea: goleiro arrojado que surgiu no auge do sumido Atlanta, vencendo em 1960 a “Copa Suecia”, espécie de antecessora da Copa Argentina. Errea seguia a linha de Amadeo Carrizo e Hugo Gatti, o de goleiros-líberos, que não se inibiam em se adiantar para longe das traves, algo ainda incomum na época. Os sustos que isso causava e o jeito sincerão de Errea lhe custaram mais espaço na seleção e nos clubes ao mesmo tempo em que sua qualidade lhe rendeu um currículo que teve Boca, Peñarol e Estudiantes nos dourados anos 60 desse trio. No Boca, ele foi habitualmente escanteado pela onipresença do concorrente Antonio Roma, mais sóbrio e simplesmente o jogador do Boca mais vezes usado pela seleção. Mas era Errea o titular na Libertadores de 1963, a primeira campanha finalista que o futebol argentino teve em La Copa.

Emprestado ao Colón em 1966 e negociado com o Peñarol (então campeão do mundo, diga-se) em 1967, foi emprestado ao Vasco em 1968. Mas o estilo espalhafatoso demais aos padrões de então não caiu bem na Colina, onde Pedro Paulo seguiu como opção mais confiável no gol. Com renome na terra natal, Errea foi repatriado pelo Estudiantes, sendo o goleiro titular na conquista da Libertadores de 1970. Já dedicamos a ele este outro Especial.

Jorginho Paulista: cria do Palmeiras, seu melhor momento veio no Vasco campeão brasileiro e da Mercosul em 2000 (onde virou “Jorginho Paulista”, na companhia do Jorginho mais famoso, o lateral-direito ex-Flamengo, seleção e Bayern Munique). Os cruzmaltinos ainda realizaram uma primeira fase com 100% de aproveitamento na Libertadores de 2001, ainda que em seguida tenham sido eliminados com duas derrotas pelo futuro campeão Boca, que se interessou por Jorginho desde sua boa exibição em um 4-1 do Vasco para cima do River ainda por aquela Mercosul; as saídas quase simultâneas dos dois laterais (Ibarra e Arruabarrena) para a Europa foi outro fator.

O carisma de Baiano não bastou. Escudero teve um bom pai

Jorginho estava emprestado pela Udinese ao Vasco. O clube italiano direcionou o empréstimo ao time de Carlos Bianchi. Mas o brasileiro ficou só no segundo semestre de 2001, sem render: não podia mais ser inscrito na Libertadores por já ter participado dela como vascaíno; e, quando pôde ir a campo, o time já estava com a mente no Mundial Interclubes e se desleixou no tumultuado Apertura do corralito. Isso se somou às ordens de Bianchi para que Jorginho se focasse mais nas tarefas defensivas do que nas projeções ao ataque que o brasileiro tanto gostava. Sem ambiente, teve o empréstimo girado para o Cruzeiro no começo de 2002.

Baiano: revelado pelo Santos a partir de 1996 após anos difíceis como retirante nordestino e órfão que se sustentava como camelô na Baixada, Demival Almeida de Lima era um coringa volante e lateral-direito. Projetou-se mais no empréstimo ao Vitória semifinalista do Brasileirão de 1999, chegando à seleção; e no Palmeiras campeão da segunda divisão em 2003, mantendo o bom momento no ano seguinte. O Boca estava à procura de um substituto do ídolo Hugo Ibarra e no início de 2005 importou El Café, como ele foi apelidado na Argentina. Era o ano do centenário xeneize e Baiano teve um início interessante que, segundo ele, não se manteve por reação contra si dos argentinos após o escândalo racial entre Grafite e Leandro Desábato naquela época; os hermanos, por sua vez, contestavam-lhe o excesso de ímpeto ofensivo que ao mesmo tempo desguarnecia a retaguarda. O site Historia de Boca questiona suas qualidades defensivas. Fato é que ele não deu certo também nos seus times seguintes – o que incluiu seis partidas no primeiro rebaixamento do Vasco, em 2008.

Damián Escudero: filho de Osvaldo Escudero, ex-jogador do Boca e ex-colega de Maradona no mundial sub-20 de 1979, El Pichi formou-se no Vélez mesmo e, como o pai, também venceu um mundial sub-20 (o último da Argentina, em 2007). Já no quinto ano de carreira é que chegou à Bombonera. Padeceu não só com a concorrência com os intocáveis Riquelme e Palermo nas posições ofensivas, mas com uma banter era que o clube teve entre 2008 e 2011. Escuderou jogou somente quinze vezes, basicamente todas no segundo semestre de 2010. Mesmo sem demonstrar alto nível, cavou empréstimo ao Grêmio.

O colombiano Guarín e o chileno Medel, que mesmo defensor marcou duas vezes no River em 2010

Em 2012, o empréstimo de Escudero foi repassado ao Atlético, onde o argentino foi razoável (e campeão estadual) a ponto de a diretoria pleitear uma compra definitiva. A negociação não avançou e Escudero foi reutilizado no Boca uma única outra vez, na pré-temporada de 2013 – para ser vendido ao Vitória antes de defender também Vasco e Cuiabá. Sua estadia na Colina durou por sete jogos e zero gols entre 2017 e 2018.

Fredy Guarín: em toda essa lista, é quem menos jogou pelo Boca. Foram cinco vezes, sendo três em amistosos, entre janeiro e fevereiro de 2006. Vinha do Envigado, de sua Colômbia natal, para integrar os juvenis xeneizes. Não teve espaço no timaço vencedor do Clausura 2006, mas teve no Saint-Étienne em seguida, seu trampolim para uma carreira europeia consolidada no Porto e na Internazionale. Veio veterano ao Vasco, em 2019, tendo sua contribuição na fuga contra um rebaixamento que parecia certo. Mas problemas pessoais (ele admitiu depressão) limitaram sua presença em 2020 a só três partidas antes que rescindisse para voltar ao futebol colombiano.

Gary Medel: ícone da geração dourada que o futebol chileno teve entre 2010 e 2017, o cão-de-guarda foi à Copa do Mundo de 2010 (a primeira do Chile desde 1998) como xodó no Boca. É que em meio às péssimas campanhas domésticas que o clube realizou entre 2009 e o primeiro semestre de 2011, coube a essa defensor marcar dois gols em pleno Superclásico, em tarde de glória que Medel teve em 25 de março de 2010. Não ficou ainda melhor marcado por ter saído logo antes dos meses em que o time virou um reloginho tedioso mas supereficiente na temporada 2011-12 (campeão argentino invicto e vice na Libertadores).

Outro chileno, Palacios é o nome mais recente

Medel trotou pelo futebol europeu entre 2011 e 2023, chegando a ser colega de Guarín na Internazionale. A trajetória vascaína do chileno guarda semelhanças com ele: Medel chegou em 2023 em meio a um Brasileirão que já sinalizava uma nova luta vascaína contra o rebaixamento. Chegou com o clube em penúltimo e logo se tornou o capitão de fuga exitosa, mas uma sucessão de problemas extracampo na temporada seguinte fez o veterano ir de maior a menor em São Januário. A boa relação de Medel com Riquelme, desde os idos da primeira passagem pelo Boca, permitiu-lhe um rápido regresso para o segundo semestre de 2024. Mas, sem a mesma aura daquele tempo, acabou logo voltando ao seu time de origem, a Universidad Católica.

Carlos Palacios: outro chileno, Palacios já estava no Brasil (no Internacional) quando o Vasco buscou em 2022 o passe do meia junto à Unión Española. A equipe carioca estava pela última vez na segunda divisão e Palacios contribuiu com o acesso ao mesmo tempo em que chegou a ser preso por violência doméstica ao fim da temporada. Os cruzmaltinos trataram de repassa-lo ao Colo-Colo.

Destacando-se no título colocolino de 2024, Palacios foi contratado em 2025 por um Boca que deixou claro em 2026, ao recontratar Sebastián Villa, vista grossa a episódios como o praticado pelo chileno. Quanto ao jogo, o meia vem sendo imprevisível: tanto já foi elogiado pela inegável qualidade técnica como alvo de questionamentos por certa irregularidade de boas partidas.