A história do Superclássico começa em La Boca, onde os dois nasceram, e atravessa goleadas, títulos e um 6 a 0 que a torcida do River nunca esqueceu.
Entre outubro de 2009 e novembro de 2010, o Futebol Portenho publicou 22 textos nas semanas que antecediam dois Superclássicos. Este especial reúne todos eles, na íntegra, organizados por tema.
A origem e a importância do Superclássico
A origem do Superclássico
Qualquer brasileiro medianamente informado sabe que o Boca Juniors nasceu e ainda é sediado no bairro portenho de La Boca. Menos comum é encontrar quem saiba que o mesmo bairro gerou outro clube argentino mundialmente famoso: o River Plate.
La Boca del Riachuelo, ou simplesmente La Boca, é um bairro situado logo ao sul do porto e da área central de Buenos Aires. A localidade bucólica se transformaria radicalmente com a chegada de levas de imigrantes europeus, em sua maioria italianos da região de Gênova.
E essa multidão de trabalhadores braçais logo começaria a praticar o futebol em sua nova terra. Como conseqüência, nasceriam as pequenas agremiações de bairro. Entre elas, o Club Atletico River Plate (25 de maio de 1901) e o Club Atletico Boca Juniors (3 de abril de 1905).
Até aí nada demais. La Boca apenas presenciava o mesmíssimo fenômeno que acontecia por toda a cidade. Impulsionada pela riqueza trazida pelas exportações de carne e trigo, a economia argentina se industrializava, levando o país a ser o sexto mais rico do mundo. Com isso, atraía grandes levas de imigrantes (italianos, espanhóis, portugueses, alemães, russos, judeus, turcos), fazendo com que a capital, Buenos Aires, deixasse de ser um simpático porto para se transformar na mais importante cidade latino-americana.
Esse crescimento fez com que o povoamento deixasse de se restringir à área central. Novos bairros nasciam a cada dia para acomodar a multidão de recém-chegados. Esses bairros tenderam a construir identidades próprias, até por serem muitas vezes formados por moradores de uma mesma origem nacional.
Com isso esses bairros tinham cada um sua característica, e seus clubes de futebol eram parte disso. Nascia a paixão dos moradores de cada bairro por seu clube e o ódio pelo vizinho rival. Isso aconteceu em toda a capital argentina, e La Boca não ficou de fora do processo.
Há informações pouco confiáveis de encontros anteriores, mas o primeiro confronto cuja existência há mais registros ocorreu em 2 de agosto de 1908. Se deu no campo de Darsena Sur, bairro vizinho a La Boca onde os xeneizes mandavam seus jogos à época. Desse enfrentamento só se sabe o placar: Boca Jrs. 2 x 1 River Plate.
Como tudo o que envolve o superclássico, há controvérsia sobre esse primeiro encontro. Muitos preferem apontar o encontro de 24 de agosto de 1913 na cancha do Racing como a primeira vez comprovada em que ambos se enfrentaram. Vitória de 2 a 1 do River Plate. Essa versão é a preferida dos torcedores milionários, até porque ela faz com que a primeira vitória do Boca no confronto só tenha ocorrido a 18 de setembro de 1918, na oitava partida disputada entre ambos.
Como era comum à época, nenhuma das duas equipes tinha patrimônio (estádios, terrenos, clube social) que lhes permitisse se fixar em um mesmo local. A idéia, muito difundida, de que o Boca Juniors nunca saiu de La Boca, simplesmente não é verdadeira. A equipe rodou pelos bairros da zona sul de Buenos Aires até se fixar em definitivo em seu bairro original, em 1916.
Já o River tem uma história mais variada geograficamente. O clube fez um deslocamento semelhante ao do Boca em seus primeiros anos. Rodou por outros bairros vizinhos até conseguir se fixar no bairro onde nasceu. Mas em 1923 teve de novamente abandonar seu bairro, desta vez em definitivo. Nascia uma nova etapa da rivalidade.
O River Plate optou por não apenas deixar seu bairro de origem, como mudou-se para uma zona totalmente diferente da cidade. Sua escolha foi pela parte norte da cidade, primeiro em Palermo, depois em Nuñez. Ao contrário das vizinhanças de La Boca, esses bairros do norte eram (e ainda são) espaço de um público mais elitizado, que passou a adotar o clube recém-chegado.
O que havia nascido como rivalidade entre vizinhos agora assumia um ar de confronto social. O Boca Juniors, à medida que consolidava seu papel de time vencedor, se transformava no clube favorito das classes trabalhadoras argentinas. Já o River, que também rumava ao topo, passava a contar com a especial admiração dos setores mais elitizados da cidade.
Tudo isso pode parecer muito distante de nós, mas os argentinos são um povo que preza sua história. E na identidade dos clubes e de seus hinchas, ainda se localizam facilmente os ecos daquele passado. Chamamos o Boca de "xeneizes", quase sempre sem saber que a palavra significa "genoveses", no dialeto daquela região ao norte da Itália, de onde vieram grande parte dos fundadores do clube.
Quando pensamos nos hinchas do Boca como "bosteros", devemos lembrar que a Bombonera está edificada sobre um terreno onde há 100 anos havia várias olarias, que fabricavam tijolos misturando argila a fezes de bois e cavalos. Essas duas referências mostram a continuidade histórica na mesma região da cidade e também seu caráter popular.
Já o apelido dos hinchas do River é ainda mais explícito: millionários. O termo surgiu nos anos 1930, quando a equipe, já situada na parte norte da cidade, investia fortunas para reforçar sua equipe.
Também usado para se referir à hinchada do River (ainda que de forma pejorativa), o termo "gallina" é bem posterior, e foi cunhado quando o River perdeu uma final praticamente ganha de Libertadores para o Peñarol em 1966. Mas dificilmente se pode esquecer que esse tipo de alusão à falta de "huevos" aparece de formas variadas em clubes associados à elite aqui no Brasil.
De toda forma, o que é importante lembrar é que o Superclássico já foi algo muito diferente de hoje. Quando pensamos nele, nos vêm a mente um dos confrontos mais importantes do planeta, que mobiliza milhões de pessoas e uma infinidade de dinheiro, mexe com a paixão de todos e rende com freqüência jogos espetaculares.
Mas houve um dia em que isso foi muito diferente. Em humildes campos suburbanos na zona sul de Buenos Aires, tudo começou como jogos entre operários imigrantes que praticavam desafios entre vizinhos. E até hoje os hinchas de ambos os lados não se cansam de reencenar esse duelo a cada encontro entre os dois gigantes argentinos.
A importância do Superclássico
O que pode transformar duas pequenas equipes de um humilde bairro operário de uma cidade latino-americana em gigantes do futebol mundial? Afinal, há 100 anos Boca e River não eram diferentes de tantas outras equipes humildes espalhadas por Buenos Aires. O que as elevou tão acima das outras?
Há quem diga que a melhor receita para o sucesso de um clube é ter um rival forte. As conquistas do inimigo obrigariam o rival a ter de se esforçar ao máximo para não ficar para trás. Aceitar essa teoria nos levaria a algo que nem xeneizes nem millionários gostariam de pensar: que sua grandeza em boa parte depende do arquirrival. Será verdade?
Boca e River começaram a se destacar ainda nos tempos do amadorismo. O primeiro a conquistar um título foi o Boca Juniors, em 1919. Mas já em 1920 o River também conseguiria o feito. Em todo o período amador (1891-1930), o xeneizes levam vantagem: conquistaram seis títulos, contra apenas um do rival. Mas na verdade, quando se olha a história do futebol amador argentino, fica claro que nenhum dos dois era maior, por exemplo, do que Racing ou Huracán.
O profissionalismo mudaria as coisas. E isso já se anunciava no primeiro confronto entre ambos na era profissional. O River havia trazido o ponteiro Peucelle, destaque da albiceleste vice-campeã mundial de 1930. O Boca havia respondido com a contratação de Pancho Varallo (acima), também titular do mundial anterior, e que viria a ser um dos maiores artilheiros da história do clube.
A 20/09/31 os dois se enfrentaram no antigo estádio do Boca. Peucelle colocou os Millionarios na frente, mas o juiz anotou um penalti para o Boca. Varallo bateu, o goleiro rebateu, Varallo chutou para nova defesa, e só marcou no terceiro arremate. O gol deu início a protestos do River, e a briga se generalizou para as arquibancadas. O primeiro superclássico da era profissional não chegaria ao fim.
Esse jogo acabaria sendo um prenúncio do que seria futebol argentino profissional, com as duas equipes brigando cabeça a cabeça pelos melhores jogadores para conquistar os títulos mais importantes. A década de 1930 ainda seria equilibrada, mas em breve chegaria o melhor momento da história do River.
Esse foi o tempo de La Maquina, de Labruna (abaixo), Pedernera, Moreno, Peucelle, Di Stefano, Muñoz e outros. Graças a esse supertime, o River venceria 9 nacionais nos anos 40/50, contra apenas 3 do Boca. Que reagiu, conquistando 6 nacionais entre 1957/75, período em que o River sofria o maior jejum de sua história.
Mas os millionarios reagiram e quebraram o jejum vencendo os dois torneios da época, o Nacional e o Metropolitano, em um mesmo ano. O equilibrio seria a tônica da segunda metade dos anos 70, com ambos os clubes formando ótimas equipes que alimentaram a albiceleste no título mundial de 1978. O Boca teve a vantagem nesse período por finalmente vencer a Libertadores (1977/78). Mas isso em breve iria mudar.
Os anos 1980 e 1990 são de domínio do River. O Boca chegou a ficar 12 anos sem títulos (1981-1993), enquanto via o rival chegar à sua primeira Libertadores (1986, repetindo a dose em 1996) e montar grandes times, tendo ídolos como Enzo Francescoli. Mas no fim dos anos 1990 o jogo mudou de novo. As conquistas da Libertadores de 2000/01/03/07 deram a supremacia ao Boca novamente.
Como se vê, a história mostra uma permanente alternância no que se refere ao duelo particular entre os dois gigantes (muitos outros clubes participaram dessa história, mas este texto é específico do confronto Boca-River). Por certo houve inúmeros momentos em que um dos dois teve supremacia a ponto de parecer que deixaria o inimigo definitivamente para trás.
Mas o rival não descansava enquanto não pudesse entrar de novo no jogo. Graças a isso, a eterna alternância de poder entre os doid gigantes argentinos. Sempre havia um em momento melhor, e outro necessitando desesperadamente equilibrar o jogo. Talvez a mesmice atual seja fruto de os dois se conformarem com o mau momento, já que o rival está na mesma situação.
E se a rivalidade é uma das causas do crescimento das duas maiores equipes argentinas, o que dizer do superclássico? É o momento em que essa rivalidade se materializa e em que todo o sentimento construído por 100 anos de rivalidade acumulada explode num só lugar. O superclássico é o lugar onde se vê muito do que há de melhor no futebol do país vizinho. É o momento em que essa eterna luta de gigantes ganha vida e movimento.
Os clássicos que entraram para a história
1928: Boca 6 a 0, a maior goleada do confronto
Véspera da véspera de Natal de 1928 e o Papai Noel se vestiu de azul e ouro. As pessoas presentes naquele jogou não imaginariam que iriam assistir um feito ainda não superado, a maior goleada em um Superclássico. Em seu campo, o Boca Juniors fez 6 a 0 no seu maior rival, o River Plate.
A partida valia pela 27ª rodada da enorme Primeira Divisão da Asociación Amateurs Argentina de Football com 36 equipes. 15 partidas aconteciam simultaneamente, a maioria em Buenos Aires.
Logo aos 3 minutos de jogo Tarasconi abre o placar para os xeneizes. Aos 20 minutos, em uma situação insólita, Giglio e Uriarte, ambos do River Plate, saem de campo lesionados em um tempo onde não havia substituições.
A partida prossegue com o River Plate com nove jogadores e termina o primeiro tempo com o placar de 3 a 0, Kuko fizera aos 30 minutos e Tarasconi completara aos 40 minutos.
Começou o segundo tempo e aos 10 minutos, Kuko fez o seu segundo gol, o quarto na partida. Aos 25 minutos foi a vez de Cherro marcar o quinto gol. Dez minutos mais tarde, Gondar, do River Plate, saiu lesionado deixando River com oito.
Dois minutos mais tarde, Cherro faz o sexto gol. O capitão do River, antes do recomeço do jogo, pede gentilmente ao árbitro Forte que termine a partida mais cedo. Pedido concedido e o Superclássico com a maior goleada da história terminou sete minutos mais cedo. Tal como se diz no Rio de Janeiro, “virou três, terminou seis” (ou seria “River Plate, nós gostamos de vo6”?).
Curiosamente, esse não foi o gol com mais gols no dia 23 de dezembro de 1928. Em um jogo de 12 gols, o dobro do Superclássico, o Quilmes venceu em casa o Chacarita Juniors por 7 a 5.
O feito do Boca Juniors também não deu muita sorte para a equipe. Mesmo com 100 gols marcados, apenas 17 sofridos, 57 pontos somados em 28 vitórias e um empate, o Boca Juniors ficou com o vice-campeonato, perdendo apenas por 1 ponto para o campeão Huracán. Já o River Plate ficou com a sétima colocação e 46 pontos. O 6 a 0 foi uma exceção para uma defesa que sofreu apenas 1,2 gols por jogo.
No entanto, o onze xeneize – formado por Merello; Bidoglio e Mutis; Médici, Fleitas Solich e Moreyras; Pnella, Kuko, Tarasconi, Cherro e Evaristo – ficará sempre lembrado na história do Superclássico. Principalmente naquelas contadas em azul e ouro.
1941: River 5 a 1, o baile com música
O dia 19 de outubro de 1941, um dia da Banda Roja. Jogando no Monumental de Nuñez, o River Plate vence o Boca Juniors por 5 a 1. Essa é a maior goleada já aplicada pelo River em Superclássicos.
A Primera Divisão Argentina de 1941 sempre ficará na memória do El más Grande. Muito mais do que essa goleada histórica válida pela 29ª rodada, a equipe do River Plate venceu o campeonato com 4 pontos (2 vitórias, na época) de diferença para o San Lorenzo e marcou os princípios da melhor linha atacante ( delantera ) do futebol mundial:
1941 foi o ano da aposentadoria de Carlos Peucelle considerado o maestro
de La Máquina. Além de ganhar o seu quarto título argentino, ele prepara a o caminho para a formação da delantera.
Explico: na partida contra o Estudiantes de La Plata que decidiu o título, ele jogou na delantera formada por Muñoz, Moreno, Pedernera, Labruna e ele. Assim, em 1942, bastou el maestro sair para a entrada do jovem estreante de 20 anos, Félix Loustau, para que La Máquina fosse montada em toda sua maestria: Muñoz, Moreno, Pedernera, Labruna e Loustau.
No entanto, por uma ironia do destino, Peucelle não jogou o Superclássico de 5 a1 de 1941. O onze do River Plate foi composto por uma outra delantera primordial. A escalação completa da Banda Roja daquele dia é: Barrios; Vaghi e Cadilla; Yácono, Rodolfi e Ramos; Muñoz, Moreno, Pedernera, Labruna e Deambrosi.
No 5 a 1, todos os gols sairam da delantera pré-Máquina. Muñoz não fez, mas Labruna abriu o placar aos 11 minutos, Moreno fez aos 39, Deambrosi fez dois (um em cada tempo, 43 do 1º tempo e 11 do 2ºtempo) e Pedernera fez o 5º aos 30 minutos do 2º tempo. Quase no acréscimo, Boyé descontou para o Bcoa Juniors.
No entanto, mesmo com esse gol, a torcida do Boca Juniors teve que escutar uma linda canção dos hinchas de River: “¡ Qué linda manita que tengo yo!” (“Que linda mão eu tenho”, uma música de ninar clássica em espanhol), mostrando os cinco dedos. O baile dos 5 a 1 do River Plate em 1941 tinha até música.
1962: quando dois brasileiros decidiram um clássico histórico
No dia 9 de dezembro de 1962 a mítica Bombonera estava abarrotada. E não havia como ser diferente: era dia de Superclássico. Mais do que isso, era um superclássico numa verdadeira decisão, já que Boca e River chegaram empatados à última rodada do campeonato nacional daquele ano. Quem vencesse o confronto se sagraria campeão. E dois brasileiros tiveram atuação decisiva naquele dia.
O que não chegava a ser surpreendente, já que naquele tempo os dois gigantes argentinos possuíam vários jogadores do nosso país. Pelo Boca passaram grandes nomes do futebol brasileiro, como Dino Sani, Orlando Peçanha (campeões mundiais em 1958), Maurinho e o lendário Almir Pernambuquinho. O River não ficou atrás, e também teve sua cota de brasileiros (o mais famoso por aqui era Moacir, ex-Flamengo, reserva de Didi na copa de 1958). Mas dois deles se destacaram acima dos demais, se transformando em mitos do futebol argentino.
Paulinho Valentim não chegou a disputar nenhuma copa do mundo, mas marcou época no Botafogo, anotando cinco gols na decisão do campeonato carioca de 1957 contra o Fluminense. Encantou os argentinos no sul-americano de 1959, quando marcou todos os gols da vitória brasileira sobre o Uruguai (3 x 1), partida que terminou numa briga generalizada que entrou para a história. No ano seguinte chegava a Buenos Aires, contratado pelo Boca.
O atacante acabou se transformando em lenda do clube. Ainda é o jogador xeneize que mais marcou no superclássico, e atuou por toda a primeira metade da década de 1960 na equipe da Bombonera. Boêmio, morreu pobre em Buenos Aires, em 1984. Mas era tão querido que a torcida tinha um canto especial para ele: "tchin, tchin, tchin! gol de Valentim!". Quem vai ao museu do Boca Juniors pode testemunhar sua importância na história do clube.
Pelo lado do River a lenda brasileira atendia pelo nome de Vladem Quevedo, ou mais simplesmente Delém. Campeão carioca em 1958 pelo Vasco, o camisa 10 chegou ao River Plate em 1961, ficando na equipe millionária até 1967. Embora tenha atuado em um período difícil da história do clube (o jejum de títulos que se estendeu de 1957 a 1975, o maior da história do River), Delém se consagrou. Ficou na Argentina, onde se transformou num dos maiores descobridores de talentos da história do país. Morreu em Buenos Aires, em 2007.
E os dois brasileiros estavam em campo naquele 9 de dezembro. Tinham como objetivo vencer dois goleiros que talvez tenham sido os maiores da história do país. Pelo Boca vinha Antonio Roma, filho de La Boca e titular nos mundiais de 1962 e 1966. Pelo River havia Amadeo Carrizo, titular da copa de 1958. Passar por esses legítimos frutos da lendária escola de goleiros argentinos era a função de Delém e Valentim.
Logo aos 14 minutos de partida, penalti para o Boca. Antecipando o gol, a torcida xeneize se põe a cantar "tchin, tchin, tchin! gol de Valentim!". O brasileiro não decepciona a massa. Sua potente cobrança venceu Carrizo e colocou os auriazuis em vantagem. A equipe da casa conseguiu manter a vantagem, e a dez minutos do fim, quando o título parecia definido, o árbitro Nai Foino marcou outra penalidade, agora para o River.
O cobrador era o brasileiro Delém. Que tomou distância e bateu com muita força, no canto direito. Mas Roma se adiantou de tal maneira que quase dividiu a bola com o meia brasileiro. A bola explodiu no corpo do goleiro xeneize e saiu. Os jogadores do River reclamavam desesperados, enquando Foino dizia que "se a cobrança fosse boa a bola teria entrado" (posteriormente se arrependeu e declarou que deveria ter mandado a cobrança se repetir).
A torcida do time da casa, ensandecida, invadiu o campo, e a partida teve de ser interrompida por 15 minutos. O Boca terminou campeão, e Valentim e Roma se consagraram definitivamente. Delém nunca deixou de ser ídolo do clube, tanto pelo que fez como jogador quanto pelos craques que passaram pelas suas mãos nas categorias de base do River. Mas ficou marcado por aquele lance. Dizia, magoado, que não importava o que fizesse pelos millionários, sempre haveria quem lembrasse daquele lance.
Como é fácil imaginar, aquela partida entrou para a história do superclássico. E não apenas por ter sido uma grande partida, repleta de grandes jogadores, e que decidiu um campeonato. Também por mostrar o significado mais profundo de um superclássico: naqueles 90 minutos se constroem heróis e vilões, que terão seu nome inscrito na eternidade pelo que fizerem naquele intervalo de tempo. E naquele dia, dois brasileiros conheceram os dois lados da moeda.
Boca Juniors: Roma, Simeone, Silvero, Orlando Peçanha e Marzolini; Menendez, Rattín e Pezzi; Pueblas, Paulinho Valentim e Gonzalez. DT: José D'Amico.
River Plate: Carrizo, Saenz, Ditro, Varaga e Etchegaray; Sarnari, Cap e Delém; Pando, Artime e Roberto. DT: Jorge Kirstenmacher.
1972: River 5 x 4 Boca, o mais emocionante de todos
Não chegou a decidir título algum, pois era a epoca dourada do San Lorenzo campeão de tudo. Nem mesmo foi no Monumental de Nuñez, palco do próximo Superclásico. Todavia, este é, para alguns, o River x Boca mais emocionante de todos os tempos.
O lendário confronto de 9 gols, quando tanto Xeneizes quanto Millonários saíram do estádio do Velez Sarsfield aplaudindo os jogadores de ambas as equipes, agradecendo pelo espetáculo maravilhoso que tinham visto.
Um clássico que começou com ilusões de goleada do River Plate. Afinal, em menos de 9 minutos, as gallinas conseguiram vantagem de 2 x 0 no placar, na base do puro futebol bonito e ofensivo, ensinado pelo técnico Didí. Além disso, ainda conseguiram impedir um gol de pênalti do Boca, graças a elasticidade do arquero Perez.
Eis que o excesso de confiança traiu os millonários. Aos 24 minutos, o Boca diminuiu e, aos 42, empatou numa linda cobrança de falta de Ponce. Carregados com o espirito de raça que não foge a aqueles que disputam um Superclásico, os Xeneizes seguiram pressionando, até que num cruzamento da direita, Oswaldo Potente se antecipa ao goleiro e marca nos acréscimos. Ao final do primeiro tempo, o Boca Juniors se viu na frente do placar com uma virada fantástica.
Uma alegria que só cresceu após a volta dos vestiários, com outro gol de Potente, aos 6 minutos da etapa final. Entretanto, o 4 x 2 se tornou uma faca de dois gumes. O Boca também teve seu momento de superconfiança, e o espírito de luta trocou de camisa. Passou a acompanhar o jogo dos millonários, que só precisaram de seis minutos para reagir, com gol de Oscár Más.
Mas o grande herói foi mesmo Carlos Morete. O artilheiro daquele Nacional 1972 fez explodir o orgulho de ser River Plate ao marcar, aos 17 e aos 45, tal qual fez o Boca no primeiro tempo. Para duas torcidas que sofriam com uma sequía de títulos altamente incômoda, nada como o Super mais emocionante de todos os tempos para anestesiar as dores, principalmente da torcida millonária.
Eis o vídeo de River Plate 5×4 Boca Juniors, no dia 15 de Outubro de 1972. Aproveitem!
Os anos 2000: Libertadores e decisões diretas
2000: Palermo de uma perna só, na Libertadores
Quem teria a insanidade de relacionar um jogador que está se recuperando de uma cirurgia no joelho para uma partida decisiva de Libertadores da América? Só um treinador como Carlos Bianchi, um dos maiores do Boca Juniors nos últimos tempos, para fazer isso. Diferente de Marcelo Bielsa, ele não é louco. Mas, teve a audácia de relacionar Martín Palermo, que só poderia voltar aos gramados em três meses, para fazer história na Libertadores de 2000.
Antes de relembrar a partida em questão, um pouco do que aconteceu dias antes. Da partida de volta das quartas de final daquele dia 24 de maio de 2000. Era uma supersemana com três partidas. No domingo, dia 14, o primeiro duelo pelo Torneio Clausura, que ficou num empate em 1×1 em que o Boca Juniors merecia a vitória, mas o paraguaio Nelson Cuevas decretou um empate sofrido na Bombonera. Três dias depois, foi a vez da partida pela Libertadores da América.
Na época, Boca e River tinham nível internacional mais equivalentes: ambos com duas Libertadores, um mundial, uma Supercopa. Se o Boca tinha mais vitórias nos dérbis (incluindo uma recente invencibilidade de nove anos em pleno Monumental, quebrada em 1999), o River tinha mais campeonatos argentinos e troféus em quantidade e qualidade mais recentes. E venceu por 2×1 no Monumental, com uma partida memorável de Javier Saviola, Pablo Aimar e do zagueiro Mario Yepes, considerado o melhor jogador da partida. A vitória dava uma vantagem mínima para a partida de volta.
E foi nesse hiato que o Boca começou a vencer o superclássico. Na segunda-feira, dia 21, logo após a rodada do Clausura, o técnico Carlos Bianchi concedeu uma entrevista coletiva e admitiu que convocaria 19 jogadores e que estaria Palermo, que se recuperava de uma cirurgia. O atacante, apesar dos três pênaltis perdidos na Copa América um ano antes e da assumida tosqueira, era uma máquina de gols, com cerca de 80 em 100 jogos já feitos pelo Boca. Mas não jogava havia seis meses, após estourar o joelho em jogo contra o Colón – do qual só aceitou ser substituído após, mesmo lesionado, conseguir marcar um gol (!).
O efeito psicológico fez resultado. Os jogadores do River Plate se mostraram um tanto quanto incômodos. Mas, Américo Gallego, até então técnico do River, fez um desdém que pode ter lhe valido a classificação: “Palermo não me preocupa. Se eles podem colocar Palermo no banco, eu coloco o Enzo”, se referindo ao ídolo millonario Enzo Francescoli, que havia se aposentado três anos antes.
No dia seguinte, Biachi decidiu por levar Palermo para a partida, mesmo não estando 100% (estaria 20% no máximo sendo relatos extra-oficiais). Na plateia, um ex-jogador dos dois rivais, Gabriel Batistuta, curtindo as férias após sua multimilionária transfência da Fiorentina para a Roma. Dentro das quatro linhas, com Martín no banco de reservas, o Boca dominava o River Plate, como tinha feito dias antes. Chegou até a sofrer pênalti não-marcado em Gustavo Barros Schelotto (ele mesmo, não Guillermo). Mas o tempo passava rápido. Roberto Bonano era uma muralha. O primeiro tempo terminava no 0x0 junto a várias dúvidas.
A resposta veio na segunda etapa. Riquelme começou a explicar o porquê de ser, para muitos, ídolo máximo do clube. Com uma tranquilidade que poucos têm, carregou o time nas costas. Depois de uma jogada fenomenal, encontrou Marcelo Delgado, que emendou de canela mesmo. O 1×0 parcial levava a partida para os pênaltis, já que não havia a regra do gol fora de casa daquela situação.
A vitória veio logo após a entrada de Martín Palermo em campo. A promessa foi cumprida. Mas o atacante pouco tocou na bola, sequer conseguia correr. Mas só a presença do jogador foi suficiente para deixar a partida mais tensa do que o normal. O lance que originou o pênalti do 2×0 (gol de Riquelme) não foi com ele, mas foi como se tivesse. Foi, aliás, outra mudança certeira de Bianchi: o pênalti foi sofrido por Sebastián Battaglia, que o técnico colocara no lugar de Gustavo Barros Schelotto.
Depois de tal gol, o Boca só administrou a partida. Com a posterior expulsão de Lombardi, a classificação estava assegurada. Riquelme começou a dar dribles desconcertantes, como uma caneta de costas em Yepes. O time da casa tocava a bola, apenas esperando o fim do jogo. A dez segundos do fim, eis que a estrela de Bianchi brilhou novamente, duas vezes. Battaglia recebeu de Riquelme quase pela lateral, entrou na área e quase da linha de fundo tocou para um manco Palermo.
A dificuldade do atacante era tamanha que ele demorou mais de cinco segundo para dominar, girar e chutar fraco, no canto direito de Bonano. Tempo suficiente para humilhar o adversário. Palermo, em seus únicos minutos naquela vitoriosa campanha na Libertadores (não voltaria a ser usado nela), chorava de dores e de emoção. Bianchi tinha um sorriso de orelha a orelha.
Era o Boca vencendo e humilhando o rival em plena Libertadores, que, após 22 anos, viria a ganhar em 21 de junho de 2000. Mas os festejos auriazuis datam desde 24 de maio, data daquele jogo de cinema e considerado Día de la Paternidad (literalmente, "paternidade", mas no sentido de freguesia) pelos boquenses. Um presentaço à altura da mítica e mística La Bombonera, cuja inauguração completou 60 anos exatamente no dia seguinte.
2004: o grande confronto de Libertadores
No dia 17 de junho de 2004 Boca Juniors e River Plate protagonizaram aquele que talvez tenha sido o maior confronto entre ambos no século XXI. Assim como o próximo jogo, era uma partida à noite, no Monumental de Nuñez. Mas o confronto era pela semifinal da Libertadores daquele ano. E os times eram bem diferentes.
O Boca Juniors chegava àquele confronto histórico em alta. A equipe comandada por Carlos Bianchi havia vencido as edições de 2000, 2001 e 2003 do torneio continental e tinha como destaque um ataque formado por Carlitos Tevez e Guillermo "El Melizo" Barros Schelloto.
O River Plate não vinha muito atrás. Buscando reconquistar o terreno perdido para o rival nos anos recentes os Millionários tinham Marcelo Salas, Lucho Gonzalez, Gallardo, Mascherano e Cavenaghi, entre outros. Na Argentina e em todo o continente, o clássico era ansiosamente aguardado.
O medo dos confrontos entre os barra-bravas fez com que cada clássico só tivesse torcida do clube mandante nas arquibancadas. E no primeiro jogo o zagueiro Schiavi (que depois atuou no Grêmio, e atualmente joga pelo Newell's Old Boys) marcou o gol único que dava os xeneizes a vantagem do empate na segunda partida.
As duas equipes entraram em campo desfalcadas, já que a partida de ida tinham ocorrido três expulsões: Gallardo e Garcé pelo River e Cascini pelo Boca. Mas isso não impediu a torcida que lotava o Monumental de Nuñez de ver uma partida épica, das mais emocionantes que a Libertadores já viu.
O primeiro tempo teve poucas emoções. O lance mais comentado foi um possível pênalti cometido por Schiavi em Maxi Lopez, não assinalado pelo árbitro Hector Baldassi. O jogo era nervoso, e ambas as equipes tinham medo de dar espaço ao adversário. Bianchi conseguira anular o River por 45 minutos.
Mas a segunda etapa seria diferente. Logo após a saída da bola o Boca perdeu Vargas, expulso. E a situação xeneize ficou dramática com o gol de Lucho Gonzalez para o River. Faltavam 40 minutos para o fim da partida. O River havia igualado o confronto, tinha toda a torcida a seu favor e um adversário com dez jogadores.
O restante da partida foi bastante nervosa, como convém a um clássico decisivo. O River tentava pressionar o Boca, mas criava pouco. Os visitantes tampouco conseguiam contra-atacar, até que a quatro minutos do fim do jogo, Sambueza foi expulso, deixando a equipe da casa com um a menos.
E as coisas viraram de vez para o lado do Boca, quando Tevez aproveitou boa jogada de Cangele para empatar. Eram 45 minutos do segundo tempo. O Boca havia revertido o placar desfavorável e agora jogava de igual para igual. A torcida do River, desanimada, via Tevez humilhá-los ao comemorar seu gol decisivo imitando uma galinha.
Carlitos foi expulso pela comemoração, mas pouco importava. A história parecia definida. Mas em um clássico dessa dimensão, só o apito final decide uma partida de vez. E isso foi provado mais uma vez quando aos 50 minutos do segundo tempo o zagueiro Nasuti aproveitou um escanteio para colocar o River novamente em vantagem.
Delírio total no Monumental. O Boca havia revertido uma situação totalmente desfavorável para colocar a mão na classificação. Tevez havia humilhado a torcida millionaria na comemoração. Mas tudo havia ficado para trás com o gol providencial de um zagueiro no último lance da partida.
A classificação para a grande decisão seria resolvida nos penaltis. Nas primeiras oito cobranças ninguém errou (Salas, Montenegro, Cavenaghi e Gonzalez para o River; Schiavi, Alvarez, Ledesma e Burdisso para o Boca). Mas a sequencia foi interrompida quanto Abbondanzieri defendeu a cobrança de Maxi Lopez, permitindo que Villarreal desse a vitória ao Boca na última cobrança.
Relembrar aquele jogo do ponto de vista atual traz algo de amargo. Os dois gigantes ainda conseguiriam manter um bom nível por alguns anos, mas hoje parecem muito decadentes e incapazes de produzir um jogo histórico como aquele.
E mesmo a torcida do Boca, a grande vencedora daquela noite, teve a alegria interrompida pela metade, quando deixou escapar um título que parecia certo na grande decisão. A taça, ao contrário de todas as previsões, acabou ficando com os colombianos do Once Caldas.
Mas nada disso era real naquela noite fria de 2004. As equipes haviam escrito uma das páginas mais importantes da história de um dos maiores clássicos do mundo. Eis os protagonistas:
River Plate: Lux, Husain, Amelli (Fernandez), Nasuti e Rojas; Mascherano (Salas), Montenegro, Gonzalez e Coudet (Sambueza); Cavenaghi e Maxi Lopez. Treinador: Leonardo Astrada.
Boca Juniors: Abbondanzieri, Perea, Schiavi, Burdisso e Clemente Rodriguez; Villarreal, Ledesma, Vargas e Cagna (Cangele); Tevez e Schellotto. Treinador: Carlos Bianchi.
2004: River 2 (4) x (5) 1 Boca, a semifinal nos pênaltis
Quem dera aquela fosse a final da Libertadores 2004. A bem da verdade, no coração do hincha Xeneize, passar pelo River da forma com a carga de drama que veio com aquela semifinal foi mais fantástico do que qualquer volta olímpica. E na própria casa dos millonários. Não só um dos melhores Superclásicos, mas também um dos mais emocionantes duelos da história da América do Sul.
A situação era a seguinte: o Boca tinha a vantagem do empate por ter vencido o primeiro jogo na Bombonera por 1×0, com gol do Flaco Schiavi. Era o suficiente para Carlos Bianchi jogar com o regulamento debaixo do braço, segurando o ímpeto ofensivo dos anfitriões. Além disso, ele confiou no fato de que Maxi Lopez estava no ataque deles.
Eis que Vargas recebe o segundo amarelo no comecinho da etapa final e deixa o Boca tremendamente vendido. Foi questão de 5 minutos para Lucho Gonzalez acertar um belo chute, que ainda bateu na trave antes de morrer nas redes. E o Monumental explodiu em êxtase.
O técnico da época era o mesmo de hoje no River, Leo Astrada. Tentando compensar a falta de gols por conta de Maxi, ele colocou Salas sem ritmo de jogo no lugar de Mascherano. Isso, somado a expulsão de Sambueza, deixou o meio livre para Cangele tocar e o Apache Tevez marcar aos 44.
Inexplicável a emoção de conseguir chegar as finais com tal gol, e ainda comemorando como 'gallina'. Pena ter visto Carlitos expulso, e Nasuti fazendo 2×1 logo em seguida. Mas a noite ainda guardou heroísmo suficiente nas mãos de Pato Abbondanzieri, pegando o penal de Maxi Lopez.
Uma sensação de hexacampeonato não só pela vitória em si, mas por saber que o Once Caldas seria o adversário na final. Infelizmente o hexa parou na retranca mais triste que a Libertadores já viu. Mas, quem lembra dessa humilhação sujeita as gallinas nos próprios domínios, nem se entristece tanto.
Pela Libertadores, River 2×1 Boca, 5×4 nos pênaltis. Aproveitem!
[youtube]http://www.youtube.com/watch?v=N8XKaocfkak[/youtube]
2004 e 2006: Boca 0 x 1 River e Boca 1 x 1 River
Para você que sentiu falta da Super Semana ontem, eu explico. Para que tanto hinchas Millonários quanto Xeneizes se sintam ingualmente satisfeitos (ou ao menos para que não fiquem furiosos), o especial agora fala de dois jogos ao mesmo tempo, em vez de um só por dia. Ainda jogos na Bombonera, mas dois resultados positivos para cada lado.
Diferentemente de segunda-feira, lhes apresento agora memórias de quando o Superclásico ainda era decisivo para o topo da tabela. Jogos recentes, com ídolos que muitos devem se lembrar, seja ainda com as camisas dos maiores da Argentina, ou por alcançar glória na Europa.
O primeiro é a vitória do River Plate por 1 x 0, no Clausura 2004. O time com Mascherano, Maxi Lopez, Lucho Gonzalez e Gallardo em plena forma, Cavenaghi marcou de cabeça após cobrança de escanteio, vencendo um clássico que foi determinante para manter o time na rota do título, apesar da eliminação na Libertadores diante do próprio Boca.
O segundo pode até ser um empate. Mas as circustâncias dele são totalmente favoráveis ao lado auriazul. No Clausura 2006, Schelotto havia entrado na etapa final do jogo. Queria mostrar serviço para Alfio Basile, e nessa gana conquistou um pênalti vital, aos 43 minutos, cometido (curiosamente) por Cáceres. Na cobrança, Martin Palermo. Um especialista em Superclásicos, mas que não havia marcado contra o River desde sua volta, em 2004. Não perder naquele dia foi vital para o Bicampeonato xeneize.
2006: River 3 x 1 Boca, a tarde de Higuaín
Recopa 2005, Apertura 2005, Sudamericana 2005, Clausura 2006, Recopa 2006. Eram tempos de hegemônia incontestável do Boca Juniors. Ainda que o técnico na época do Superclásico fosse o Bigoton La Volpe em vez do vitorioso Coco Basile, a expectativa era forte do lado Xeneize. Naquele mesmo Apertura 2006, na 3ª rodada, a goleada histórica de 7×1 sobre o Ciclón justificava isso.
Contudo, aquela tarde no Monumental de Nuñez serviu para lembrar a Argentina e o mundo de que o Super é inimigo jurado da razão. Um duelo regido completamente pela emoção e dominado por aqueles com raça superior a do adversário. Embora, logicamente, a marcação no campo de ataque e o poder de decisão do ataque gallina fizeram uma diferença ainda maior.
Um jogo que também serviu para direcionar os holofotes dos olheiros em cima de Gonzalo Higuaín. Numa atuação de gala, o Pipita, que na época tinha 18 anos, mostrou seu faro artilheiro ao marcar duas vezes. Tambem esbanjou habilidade nos contragolpes. Daí, para ele se transferir ao Real Madrid e ser cotado até para jogar na seleção francesa foi um salto.
Do ponto de vista do Boca, não só foi Superclásico trágico, onde somente Palacio se salvou. Era quase que um presságio de que aquele não seria um semestre feliz. Sem contar que os pontos perdidos naquele confronto ajudariam na conquista do inédito tricampeonato, que escapou no incrível jogo desempate contra o Estudiantes.
Pelo Apertura 2006, River 3×1 Boca, 08/10/2006. Aproveitem!
River: Carrizo; Tuzzio, Lussenhoff, Nasuti e Fede Dominguez; Domingo, Ferrari, Zapata e Belluschi; Higuain e Farias. Técnico: Daniel Passarella
Boca: Bobadilla; Calvo, Silvestre, Cata Diaz e Morel; Ledesma, Gago, Neri Cardozo e Dátolo, Palacio e Palermo. Técnico: Ricardo La Volpe
2007: o show do Burrito Ortega
Até a presente data, o River Plate 2 x 0 Boca Juniors no Apertura 2007 foi a última vitória do El más Grande em Superclássicos realizados em jogos oficiais da Primeira Divisão Argentina. De lá para cá, o River Plate só ganhou dois amistosos de começo de ano, um em 2008 e outro em 2010.
No entanto, o jogo de 2007 foi um show digno de entrar para a história. Em partida válida pela 13ª rodada do Apertura 2007, realizada em 7 de outubro, o River Plate recebeu o Boca Juniors no Monumental de Nuñez, sob o apito de Héctor Baldassi.
O River Plate, treinado por Daniel Passarella, entrou em campo com: Carrizo; Ferrari, Sánchez, Tuzzio e Ponzio; Fernández, Ahumada, Belluschi e Ortega; Buonanotte e Falcão García.
Já o Boca Juniors entrou com Caranta; Ibarra, Maidana, Paletta e Morel Rodríguez; Ledesma, Banega, Cardozo e Gracián; Palacio e Palermo. A equipe era treinada por Miguel Angel Russo.
Jogando melhor, o River Plate logo fez aos 23 minutos com Falcão García. O 1 a 0 saiu de uma jogada de pintura. Bola roubada da defesa do Boca Juniors por Fernández, que lança do meio de campo, da direita para a esquerda, para Belluschi que, sem deixar a bola cair toca para o meio da área. Falcão García deixa a bola dar uma leve quicada e fuzila Caranta.
Aos 30 minutos, Buonanotte sofre pênalti. Ortega vai cobrar, mas Caranta se adianta e defende. Baldassi, vendo a infração, manda retornar o tiro que, na segunda vez, Ortega concretiza. River Plate 2 a 0, placar que seria final.
No entanto, nos sessenta minutos restantes de jogo, o River Plate – em especial, o Burrito Ortega – proporcionou um espetáculo em campo. Toques de letras, passes de primeira, um verdadeiro olé que pode ser visto em vários vídeos presentes no YouTube.
E a torcida da Banda Roja só cantando – até hoje, quando lembra do baile de 2007 – a canção que diz: “ Siga el baile, Siga el baile ”.
Os últimos capítulos da série
2008: River 0 x 1 Boca, o fim do tabu em Núñez
Estamos nos aproximando de assisir, pela 10ª rodada do Apertura, um dos maiores clássicos do planeta. Um jogo de proporções gigantescas, capaz de atrair a atenção de cada simples habitante na Argentina, mesmo com uma semana de antecedência.
Por conta disso, o Futebol Portenho vai relembrar dos grandes jogos feitos entre River Plate e Boca Juniors no palco do duelo deste domingo. A cada dia, um Super diferente.
O desta segunda pode não ter sido uma partida das mais agradáveis aos olhos dos fãs de futebol. Contudo, foi emblemático para a reação do Boca Juniors rumo ao título do Apertura 2008, com direito a quebra de um tabu de 5 anos sem vitórias xeneizes em Nuñez.
Exatamente um ano atrás, River 0 x 1 Boca, gol de Viatri. Aproveitem.
2009: Boca 1 x 1 River
Está de volta a Super Semana! Ainda que não seja por clamor popular (mas também não foi vaiada), ela regressa pela necessidade de alimentar as expectativas naturais de Xeneizes, Millonários e todos os outros torcedores do futebol argentino. Afinal, todos são "obrigados" a desviar as atenções para o maior clássico do país, nem que seja simplesmente das 15h as 17h deste domingo.
O especial passado tratava dos jogos em Nuñez, de maneira que este fala dos confrontos na Bombonera. E o primeiro confronto da semana trata-se justamente do último disputado na mítica caixa de bombons. Não só pela proximidade temporal. Na verdade, muito mais pelo nível de futebol. O Boca amarga o pior início de ano na história do profissionalismo. O River luta por pontos para que não sofra da temporada que foi a pior de todas, em 2008. Não quer nem ouvir falar no descenso.
Desta forma começamos a Super Semana de 2010. Sem esquecer da importância de uma das maiores rivalidades no planeta. Entretanto, sem se iludir com tamanha história diante de um presente tao tenebroso como o futuro de Boca Juniors e River Plate, caso não reajam o mais rápido possível.
2009: a prévia do 324º Superclássico
O jogo regido pela emoção, cada dia mais distante da razão. Capaz de congelar a atenção da Argentina. Um duelo que vale mais do que qualquer Copa. Todas são belas definições para o Superclásico, mas se prender só a elas é fugir da realidade, que diz que Boca Juniors e River Plate podem até mexer com o sentimento dos hinchas, mas irão mesmo buscar a auto-afirmação amanhã, em Nuñez.
Algo que, para os Xeneizes, está bem mais próximo no caso de triunfar em terras inimigas. Chega com moral de vencer os três últimos jogos, contando com belas atuações dos homens de frente: Roman, Gaitan e Palermo. Definitivamente uma calmaria para Coco Basile, técnico que chegou a deixar seu cargo a disposição.
Do lado Millonário, apenas uma vitória em nove partidas, exatamente do mesmo jeito que no ano passado. Ignorar essa má campanha do elenco do River não seria sábio, mas há de se admitir que o jeito de jogar do time mudou após a entrada de Leo Astrada. Ainda não venceu, porém, nada mal se a primeira glória fosse num Super.
Para tentar descobrir o destino do 324º duelo entre River x Boca, uma análise tática.
O time de Astrada mostra suas diferenças já na escalação. Decidiu por jogar sem uma referência de área, já que Fabbiani não mostrou até hoje a que veio. Além disso, se fortaleceu consideravelmente na defesa de forma incrível, pois ninguém achou que o ex-atleta Almeyda fosse ajudar tanto na segurança da zaga Millonária.
Quanto aos 11 de Basile, ele tenta criar uma escalação "de memória" desde a pré-temporada. Contudo, sofre com o problema das lesões, que incomodam Riquelme e Battaglia e deixaram Morel e Mouche fora de combate. Desde a saída de Forlin para o Espanyol, a zaga vem sofrendo com erros de segurança e lentidão para enfrentar contra-ataques, mas o ataque vai bem, aproveitando boa fase de Riquelme e Palermo.
Ainda assim, não seria espantoso se o ataque do River tiver o melhor aproveitamento. Ele é composto de atacantes rápidos e criativos, batendo de frente no ponto fraco Xeneize. É claro que Roman, El Loco e Gaitán são melhores tecnicamente, e enfrentam uma dupla de zaga que ainda é falha, mas são mais inconstantes do que Ortega, Buonanotte e Gallardo, esse último especialista em clássicos.
Na guerra do meio-campo, entretanto, a vantagem tende a ser do Boca. Domingo, Almeyda e Abelairas devem tentar parar Riquelme numa marcação por zona. Só que mesmo obtendo sucesso, Basile ainda contará com Insúa e Battaglia para dar apoio, além dos descidas de Gaitán e das subidas de Monzón, enquanto os meias de Nuñez não contam com a mesma força para atacar.
Em suma, apesar do bom momento do Boca Juniors, creio que o resultado mais provável no estádio do River Plate será o empate.
Contudo, estes são os aspectos da razão falando num jogo que, indiscutívelmente, também anda lado a lado com a emoção.
Posso citar Astrada, quando disse que "mesmo com Boca e River longe da ponta, será um clássico jogado na mesma intensidade de sempre". Ou também Basile, comentando que "esses clássicos são distintos de tudo". Mas prefiro destacar Iarley, protagonista do Super do Apertura 2003.
"Cada dividida, cada carrinho, cada jogada é disputada como se fosse a última da carreira, já que todos sentem a cobrança e a pressão passada pelo torcedor nas arquibancadas". Então que venha o Superclásico!
Vega; Ferrari, Cabral, Sánchez e Villagra; Almeyda, Domingo, Abelairas e Gallardo; Ortega e Buonanotte
Abbondanzieri; Ibarra, Cáceres, Paletta e Monzón; Battaglia (Medel), Rosada, Federico Insúa e Riquelme; Nicolás Gaitán e Palermo
2010: vale mais do que parece
Depois de uma série de reportagens do Futebol Portenho (a Supersemana), enfim, chegou o momento grande duelo. E apesar de não valer absolutamente nada na classificação, a partida é uma final para ambas as equipes. E com estádio cheio, com ingressos esgotados (ou só nas mãos dos cambistas), a esperança dos torcedores que pagaram caro por uma entrada e de um bom duelo para salvar o semestre.
Por mais uma vez, nem Boca e nem River estarão na próxima edição da Copa Libertadores. As chances de título são mais do que remotas. Uma vitória hoje para o time de Núñez colocaria o time com 21 pontos. Já o Boca alcançaria os 20 pontos. Bem distantes dos 30 pontos de Vélez e Estudiantes. Um sonho mais do que distante, mas que ainda permanece para alguns fanáticos torcedores.
E esse atual momento tem um culpado. Os principais ídolos atuais no plantel são remanescentes do início da década e porque não do século passado. Martín Palermo, Juan Román Riquelme pelo lado do Boca e Almeyda e Ortega por parte do River Plate. As revelações ainda não conseguiram deslanchar de vez. Caso de Buonanotte (que já chegou a decidir um Super) e Pablo Mouche, por exemplo, ainda precisam demonstrar um pouco a mais para serem ídolos e não apenas mais um no clube.
Para o duelo de hoje, a expectativa não é de um grande duelo, como muitos dos que lembramos na Supersemana. Muito aquém disso. A partida, que começa as 20h no Monumental de Núñez para um público de quase 50 mil torcedores, não deve ser das melhores. Mas isso não tira a paixão dos torcedores de Boca e River Plate, que colocarão o coração em jogo para ver o arquirrival. Até porque, vencer o rival, é mais do que especial. Ou melhor, é mais do que uma obrigação.
Juan Pablo Carrizo; Paulo Ferrari, Jonatan Maidana, Alexis Ferrero e Adalaberto Román; Walter Acevedo, Matías Almeyda, Roberto Pereyra e Erik Lamela; Ariel Ortega e Mariano Pavone
Javier García; Christian Cellay, Matías Caruzzo, Juan Manuel Insaurralde e Clemente Rodríguez; Jesús Méndez, Sebastián Battaglia, Matías Giménez e Juan Román Riquelme; Pablo Mouche e Martín Palermo
Os brasileiros no Superclássico
Domingos da Guia
O ano de 1934 terminava e mais uma vez o Boca Juniors faturava o campeonato argentino. Com um ataque formado por grandes jogadores como Varallo, Cherro e Cusatti, a equipe comandada por Mario Fortunato marcou naquele ano 101 gols. No entanto, sofreu 62. Para o técnico, aquele número era muito alto.
A dupla de zaga do Xeneize era composta pelos brasileiros Moisés e Bibi. Para Fortunato, era essencial que o time não tomasse mais tantos gols e, por isso, os dois brasileiros foram dispensados. Assim, o Boca iniciou a procura por zagueiros que dessem mais tranquilidade ao time. Logo após a dispensa dos zagueiros, o promissor Valussi foi contratado junto ao Chacarita, por indicação de Roberto Cherro, que apesar de ainda atuar como jogador, era uma espécie de braço-direito de Fortunato.
Desde os tempos mais remotos, era comum que times argentinos e uruguaios viessem ao Brasil para realizar algumas partidas de preparação para a temporada. Em uma dessas excursões, o Boca Juniors veio ao Brasil no começo de 1935. E obteve importantes vitórias, como um 4 x 0 no Botafogo e um 6 x 1 no São Cristóvão, então vice-campeão estadual. Mesmo assim, o treinador ainda não estava totalmente satisfeito com a defesa da equipe.
Novamente Cherro entrou em ação e indicou Domingos da Guia. O “Divino Mestre” havia atuado pelo Nacional do Uruguai nos últimos dois anos e encantava a todos pelo modo elegante com que jogava, ainda que tivesse somente 22 anos. Naquele ano Domingos jogava pelo Vasco e, logo após um empate com o Boca por 3 x 3, toda a comissão técnica ficou maravilhada com o que viu. E contratou Domingos para ser o companheiro de Valussi na zaga.
O zagueiro brasileiro estreou no time no primeiro jogo do campeonato de 1935, numa vitória do Boca por 2 x 1 contra o Vélez. E já na quinta rodada do torneio a equipe se encontraria com seu mais duro rival, o River Plate, no primeiro super-clássico da temporada. A equipe vinha de uma derrota por 1 x 0 para o Gimnasia La Plata.
A tarde de 21 de abril de 1935 estava ensolarada. O antigo estádio do Boca, de arquibancadas de madeira, recebia cada vez mais gente que queria ver o “fenômeno Boca”, a equipe que em quatro anos de profissionalismo já havia ganho dois títulos argentinos. O Boca vinha de uma série de três vitórias seguidas contra o River.
O jogo começou acelerado, com ataques de ambos os lados. Na primeira descida pela esquerda, o veloz ponta Pedro Lago tentou algo mas foi desarmado por Domingos. Depois, Zatelli levou perigo por duas vezes contra o gol do “Millo”. Aos cinco minutos de jogo, Cherro abriu o placar para o Boca.
Faltando três minutos para o fim do primeiro tempo, Domingos aparece na partida decisivamente. Depois de um lançamento de Minella, Moyano ganhou uma dividida com Valussi e saiu na cara de Yustrich. De repente, Domingos apareceu na frente do atacante e tomou-lhe a bola de forma limpa. Porém ao invés de dar um chute para a frente, como todo zagueiro costuma fazer, Domingos dominou a bola na área e saiu para o jogo tranquilamente. Foi o suficiente para que a torcida aplaudisse o jogador prolongadamente, até o final do primeiro tempo. Domingos timidamente retribuiu levantando seu braço. E o jogo terminou 1 x 0 para o Boca.
Ainda naquele ano Domingos também foi titular no outro super-clássico, realizado em 1º de setembro no antigo estádio do River, localizado no bairro de Palermo. Num jogo muito equilibrado, as equipes empataram por 1 x 1. E o River mais uma terminava o ano sem saber o que era ganhar de seu maior rival. Em 1935, o Boca se sagraria bi-campeão argentino e o número de gols sofridos caiu de 62 para 29. Com 23 anos, Domingos era campeão na Argentina e no Uruguai. Mas ainda não era no seu país de origem.
Em 19 de abril de 1936, quase um ano depois da estreia de Domingos em super-clássicos, novamente os dois gigantes se enfrentariam no estádio do Boca. Havia vários tabus em jogo naquela tarde. O River estava há dois anos sem vencer o grande rival, nunca tinha vencido o adversário no seu estádio desde o início do profissionalismo e estava há 21 anos sem ganhar do Boca fora de casa.
Se o Boca tinha Varallo, Domingos, Cherro e Valussi, o River tinha Minella, Bernabé Ferreyra, Peucelle e Moreno. E em mais um clássico de arrepiar, o River vence o Boca por 3 x 2, com grandes atuações da Fiera Ferreyra e de Carlos Peucelle. O “Millo” chegou a vencer o jogo por 3 x 0 ainda no primeiro tempo.
Nesse jogo Domingos não foi bem e poderia ter contribuído para um placar mais elástico. No final do primeiro tempo Ferreyra apareceu sozinho na frente de Yustrich. No momento em que ia concluir foi empurrado por Domingos. Porém o árbitro Tomás Galli não viu o pênalti e mandou Ferreyra se levantar, para indignação dos jogadores do River. Um erro que no entanto não tirou o brilho da grande vitória do River no campo do maior rival.
Menos de um mês após essa derrota, Domingos se envolveria numa confusão num jogo contra o Atlanta, que termina empatado por 2 x 2. O gol de empate do Atlanta foi marcado quando faltavam dois minutos para o término, o que deixou Domingos enfurecido. O zagueiro agrediu o árbitro da partida e depois pegou nove meses de suspensão. Com isso, obteve uma autorização do Boca para voltar ao Brasil e assim defender o Flamengo.
Finda a suspensão, Domingos ainda voltou à Argentina e jogou mais um super-clássico, no dia 8 de agosto de 1937.
O Boca venceu a partida por 2 x 1, mas Domingos já não estava mais satisfeito com a Argentina. Assim, rescindiu seu contrato com o time xeneize e voltou ao Brasil para jogar novamente pelo Flamengo, onde atuaria até 1943. No clube da Gávea ganhou os campeonatos estaduais de 1939, 1942 e 1943. Tal feito conferiu a Domingos o status de ser o único jogador brasileiro a sagrar-se campeão atuando por clubes da Argentina, do Brasil e do Uruguai. “O maior (jogador brasileiro) foi Domingos, completo. Campeão lá, aqui e na Argentina”, elogiou-lhe Obdulio Varela em 1972 em entrevista à Placar em Montevidéu.
No ano seguinte Domingos se transferiu para o Corinthians, pelo qual enfrentou outras vezes o River, segundo Alfredo Di Stéfano em depoimento reproduzido no livro oficial do centenário do próprio River: "sempre me lembro do dia em que joguei contra Domingos da Guia. Era um cavalheiraço. Mas naquele jogou deu uma patadona fenomenal em Loustau e se armou um bate-boca bárbaro. Todos nos amontoamos e el negro tirou o que tinha guardado dentro há vários anos: 'nunca vou perdoar este senhor Loustau que ridicularizou Domingos…'. Ficamos olhando-o e nesse momento me veio à memória um jogo de 1945, no campo do River, quando Félix (Loustau) foi reluzir todo o seu repertório e fez coisas de cinema. Eu estava na tribuna e saltava de felicidade. No Domingos, para ser sincero, deu um baile incrível… Essas eram questões de honra que todos respeitávamos muitíssimo nesses tempos".
Ficou no Corinthians até fevereiro de 1948, sem conquistar títulos no clube paulista. À época com 37 anos, chegou ao Bangu para encerrar sua gloriosa carreira. E seu último jogo como jogador foi uma derrota para o Flamengo por 4 x 2, em 12 de dezembro do mesmo ano.
Domingos da Guia fez 25 jogos pela seleção brasileira entre 1931 e 1946. Disputou a Copa do Mundo de 1938, na França, quando o Brasil fez uma boa campanha, terminando em terceiro lugar. Faleceu aos 87 anos na tarde em 18 de maio de 2000, no Rio de Janeiro, vítima de um acidente vascular cerebral. A passagem breve pelo Boca não o impediu de ser considerado um dos cem maiores ídolos do clube, segundo o livro oficial do centenário xeneize, de 2005, e edição temática da El Gráfico (a principal revista esportiva argentina, cuja imagem que abre a matéria veio de capa sua) deste ano.
Moacyr
No início de 1960, os presidentes do River, Antonio Vespucio Liberti, e do Boca, Alberto Jacinto Armando, decidiram investir pesado na importação de jogadores, o que gerou altas expectativas entre os jogadores sul-americanos. No começo dessa década, o futebol argentino passava por uma fase terrível, já que dois anos antes a equipe alviceleste fizera sua pior participação em Copas do Mundo.
Como a atual campeã mundial era a seleção brasileira, os jogadores daqui estavam altamente cotados em todos os mercados futebolísticos. E tanto Liberti quanto Armando comentavam sobre o “futebol-espetáculo” que deveriam oferecer ao contratar brasileiros. Foi nessa época que Liberti proferiu uma de suas mais célebres frases: “O River não pode comprar jogadores baratos. Este clube é como o Teatro Colón: não é para qualquer um”.
O Boca trouxe o zagueiro Edson dos Santos, Paulo Valentim, Orlando Peçanha, Dino Sani e Maurinho. Para não ficar atrás, o River contratou Paulinho de Almeida, Décio de Castro, Delém, Moacyr e Roberto Frojuello. À exceção de Valentim, Edson e Paulinho, todos outros jogadores vieram em 1961. E, exceto Décio, todos os demais eram jogadores recentes da seleção brasileira, com Edson a defendendo inclusive como jogador do America-RJ e Sport.
Moacyr chegou com status de estrela em Buenos Aires. Nos cinco anos em que jogou no Flamengo, disputou 233 partidas e marcou 57 gols. Além disso, fez parte do elenco que havia sido campeão mundial na Suécia em 1958, ainda que sem ter entrado em nenhum jogo. O jogador estreou em 16 de abril num jogo contra o Lanús, onde o River venceu por 5 a 2. E quatro meses depois, no dia 6 de agosto, o River se encontraria com o Boca no Monumental.
Este super-clássico é histórico devido ao fato de que nada menos que dez estrangeiros atuaram nele. Até hoje, é o clássico que teve mais jogadores de fora da Argentina. Pelo lado do River, além de Moacyr, jogaram Delém e Roberto, o espanhol Pepillo e o uruguaio Domingo Pérez. No Boca, entraram em campo os brasileiros Dino Sani, Orlando Peçanha, Paulo Valentim e Maurinho, além do peruano Benítez. E o técnico do Boca era o campeão mundial de 58, Vicente Feola.
O jogo começou corrido e Benítez abriu o marcador para o Boca, aos 11 minutos. O River só tem Moacyr jogando de forma mais avançada, e este sentiu a falta de Onega, que não entrou em campo por conta de uma contusão. Mesmo após o gol, o jogo continuou corrido e o River não conseguia encontrar espaços para finalizar no gol de Roma. Até que o grande Rattín fez uma falta em Moacyr, aos 22 minutos.
A falta aconteceu perto da linha de fundo. Seria um “escanteio em mangas curtas”, caso o clássico fosse narrado pelos locutores brasileiros. O próprio Moacyr se preparou para fazer a cobrança da falta. Muitos jogadores do River foram para a área, o que fez quase todo o estádio supor que o brasileiro faria um cruzamento para a área.
Quase todo o estádio pensou nisso pois tanto o técnico Jim Lopes quanto o restante da equipe sabiam que Moacyr poderia chutar direto a gol. E Roma não pareceu tão preocupado com isso, já que além de ter visto muitos jogadores do “Millo” na área, colocou apenas dois homens na barreira.
O árbitro Luis Ventre autorizou e Moacyr chutou direto a gol, empatando a partida, para desespero de Roma e delírio do público, que lotava o Monumental. Porém, a reação do Boca foi instantânea e dois minutos depois Paulo Valentim desempatou novamente o clássico. Quando o jogo já caminhava para o final, outra cobrança de falta deu o empate ao River. Ao invés de Moacyr, Pepillo bateu e marcou um golaço e o resultado final foi o empate por 2 x 2. Com os quatro gols marcados por estrangeiros. O “futebol-espetáculo” mostrava sua cara.
Atualmente com 74 anos, Moacyr jogaria apenas mais um super-clássico pelo River, onde o time de Núñez perdeu por 3 x 1. No ano seguinte, se transferiu para o Peñarol e depois jogaria no Equador, onde jogou pelo Everest e pelo Barcelona. Após encerrar a carreira, fixou residência em Guayaquil, onde atualmente passa por dificuldades financeiras e convive há dois anos com um câncer de próstata.
Pelo pouco tempo em que ficou na Argentina, Moacyr foi um dos lembrados no conto do grande cartunista e escritor Roberto Fontanarrosa, um apaixonado por futebol. Morto em 2007, Fontanarrosa escreveu “El 8 era Moacir”, que traz um grupo de amigos conversando sobre jogadores que não se firmaram nos seus times. Clique aqui para ler o conto na íntegra.
Didi
Talvez o dia 31 de agosto de 1969 foi um dos mais tristes na história do futebol argentino. Na tarde daquele dia, a seleção precisava de uma vitória contra o Peru para ir à Copa do Mundo do México. O jogo, realizado na Bombonera, terminou empatado em 2 x 2 e classificou os peruanos para a máxima competição do futebol mundial.
O técnico daquela seleção peruana, que avançou às quartas-de-final da Copa e parou na seleção brasileira, era Waldir Pereira. Popularmente conhecido como Didi, foi um dos mais importantes jogadores brasileiros em todos os tempos e ficou conhecido pela grande técnica com que batia na bola, dando um efeito nela batizado de “folha seca”.
Logo após a grande campanha peruana no Mundial, Didi foi contratado pelo River Plate para dar um fim ao jejum de 12 anos sem títulos. O clube passava por uma fase terrível, com derrotas históricas mesmo contando com jogadores consagrados como Ramos Delgado, Ermindo e Daniel Onega, Amadeo Carrizo e outros. No entanto, esses jogadores ou haviam saído ou se aposentaram. E o River se viu sem grandes nomes para fazer frente aos seus rivais no começo da década de 70.
Didi recebeu uma valiosa ajuda na comissão técnica. Delém, grande jogador brasileiro que pendurara suas chuteiras no começo de 1970, foi contratado para ser o auxiliar técnico de Didi. E a dupla percebeu que a melhor saída seria investir nas categorias de base do clube, que sempre revelaram grandes talentos. Assim, Didi começaria o Nacional de 1970 apostando nos jovens para quebrar o incômodo jejum. Entre esses jovens estaria Reinaldo “Mostaza” Merlo, que estreara no elenco profissional no ano anterior.
O técnico brasileiro quase conseguiu. Ficou em terceiro lugar na sua chave, perdendo os jogos decisivos para o Chacarita e o Gimnasia y Esgrima de Mendoza. Apesar das derrotas, a torcida do “Millo” se animou em ver o jogo proposto por Didi, que consistia no refinado toque de bola, nos lançamentos precisos e nas estratégias pensadas para cada adversário. Ainda em 70, estreariam no time principal J.J. López e Carlos “Puma” Morete.
No ano seguinte, Didi consegue um modesto 6º lugar no Metropolitano. E chega ao Nacional mais pressionado. Mesmo assim, Didi segue com seu pensamento de lançar mais jogadores jovens. Assim, Norberto Alonso faria sua estreia pelo River, num jogo contra o Atlanta.
Ainda em 1971, houve uma greve que afetou todo o futebol argentino. Por conta disso, várias equipes usaram os juvenis para que o campeonato pudesse continuar. Após o término da greve e das negociações para que os jogadores profissionais voltassem a seus times, Boca e River se enfrentariam no Cilindro, estádio do Racing. A diretoria do River havia suspendido seus principais jogadores, como Daniel Onega e Carlos Della Savia por ter aderido à greve. Já a diretoria do Boca fez com que todos os seus jogadores voltassem ao trabalho imediatamente. Com isso, o Superclássico de 27 de novembro de 1971 seria disputado por um time praticamente juvenil contra um time profissional.
Naquela noite de sábado o jogo começou quente, como todos os Superclássicos. E aquele teria um tempero a mais: os jogadores profissionais estavam com raiva dos juvenis, pois eles não haviam aderido à greve e obedeceram aos interesses dos dirigentes dos clubes. Logo aos três minutos Medina faz uma falta violenta em J.J. López, o que acirra ainda mais os ânimos dos dois times.
Os juvenis pareceram não se incomodar com as intimidações, criando várias chances de gol. Aos 21 minutos, Alonso recebe um passe na intermediária do ataque e lança em profundidade o ponta Joaquín Martínez. Ele se livra do veterano Marzolini e de Rogel, vê o goleiro Sánchez e coloca suavemente nas redes. O River saiu na frente. Após o gol, Martínez passa por Marzolini e murmura: “Cara, você terá uma péssima noite e mal sabe o que te espera”.
Mal o jogo recomeçou e o ataque do Boca obrigou o goleiro Barisio a realizar duas ótimas defesas. E dois minutos após o gol de Martínez, Ponce empatou a partida cobrando pênalti. Os meninos do River levaram um golpe que poderia deixá-los sem moral. Mas, ao contrário do que se poderia supor, o Boca não pressionou o River e o primeiro tempo terminou empatado.
No vestiário, fumando um cigarro atrás do outro, Didi chama seus jogadores:
– Merlo, você vai sair… – Joaquín, você vai sair…
– Por que, professor? Fiz um gol, deixei o Marzolini para trás…
Didi olha para o ponta e responde calmamente:
– Vocês todos vão sair para que entrem Davicce, Kent e todos os cartolas. Este jogo está muito fácil…
Didi brincou com seus jogadores para tirar-lhes a pressão. Sabia do potencial deles e esperava que no segundo tempo eles pudessem mostrar tudo o que sabiam, conforme o próprio técnico disse a J.J.López quando ele começou a carreira.
O River voltou para o segundo tempo com o domínio total do jogo. J.J. López distribuía o jogo como um veterano, Alonso passava como queria pelos marcadores e Morete sempre levava perigo ao gol adversário com seus chutes fortes. Aos seis minutos da etapa final, há uma falta para o River. Alonso levantou a bola e J.J. López pegou de primeira, fazendo a bola subir por cima da barreira e morrer no fundo do gol do Boca.
Mesmo após o gol a equipe de Didi seguiu mandando no jogo. E chegou ao terceiro gol aos 31 minutos, após uma falha do goleiro Sánchez. O arqueiro dominou uma bola que veio de um arremesso lateral e quis sair jogando. Porém errou fantasticamente e entregou a bola nos pés de Morete. Mesmo com apenas 19 anos, o “Puma” já sabia o que fazer gols e empurrou a bola mansamente para dentro da meta. O River fazia 3 x 1 e dava muitos motivos para a comemoração de sua torcida no Cilindro.
Até o final da partida, a equipe de Didi controlou o ritmo e esperou o apito final para dar início a uma grande festa no gramado. Os meninos do River derrotaram os profissionais do Boca e entraram para a história. Morete chora sem parar. Alonso vai ao banco para se abraçar com os companheiros de juvenis.
Conta Diego “Chavo” Fucks, autor do livro “Duelo de Guapos”: “Foi uma vitória histórica. Foi um dos jogos que se todos que disseram que estiveram lá de fato estivessem, teria sido o clássico com maior presença de gente. Foi um jogo em que os jogadores contarão a seus netos que estavam lá”.
Apesar da épica vitória, o River terminou em 4º lugar no Nacional de 1971, que foi ganho pelo Rosario Central. E Didi saiu do clube em 1972, cansado das pressões impostas pelos dirigentes do River. E o “Millo” quebrou o jejum somente em 1975, quando Labruna assumiu o time.
Iarley
O jogo era duríssimo entre Boca e River no Monumental. O Boca vencia por 1 x 0, com um gol de Battaglia no primeiro tempo. O “Millo” pressionava no começo do segundo tempo e levava muito perigo, principalmente com Cavenaghi e Husaín. No entanto, era presa fácil para Schiavi, Burdisso e Clemente Rodríguez. Na frente, Donnet, Barijho, Cángele e Iarley apavoravam a defesa do River.
Aos oito minutos do segundo tempo, Iarley cercou o lateral Rojas na linha lateral pela esquerda e tomou-lhe a bola. Foi à frente, entrou na área, driblou Ameli com uma “bicicleta” (forma como os argentinos chamam a nossa pedalada) e quando viu Rojas à frente definiu com um chute cruzado e forte, não dando chances de defesa para o goleiro Costanzo. Era o segundo e último gol do Superclássico de 9 de novembro de 2003.
Com esse lance, Pedro Iarley Lima Dantas entrou para o hall dos jogadores amados pela torcida do Boca, embora tenha tido rápida passagem pela equipe xeneize. Duas semanas após esse lance, Iarley fez o gol da vitória contra o San Lorenzo, que deixou a equipe muito perto do título de campeã do Apertura 2003, feito confirmado logo depois. E no mês seguinte, o brasileiro novamente entraria para a história do Boca ao conquistar o título mundial contra o Milan de Dida, Maldini, Seedorf e Costacurta. Dois títulos importantíssimos para o Boca, que fechava o que talvez foi o ano mais glorioso de sua história e para o jogador de 29 anos.
Iarley foi notado da pior forma pelo Boca. Foi dele o gol da histórica vitória do Paysandu em plena Bombonera, pela Libertadores de 2003. Na partida de volta, o Boca fez valer sua tradição e venceu os paraenses por 4 x 2 em Belém. Mas tanto Carlos Bianchi quanto a diretoria do Boca puseram o olho no cearense de Quixeramobim e começaram a se mobilizar para trazer o brasileiro como opção para substituir Carlos Tévez. Antes do Paysandu, Iarley passou por Ferroviário, Quixadá, Real Madrid B, Ceuta, Melilla, Uniclinic e Ceará.
Em agosto do mesmo ano Iarley estreou. Com a camisa 10. No jogo contra o Gimnasia La Plata teve uma atuação pálida, o que fez com que a torcida desconfiasse dele. Mas já no segundo jogo, contra o Rosario Central, iniciou a jogada de dois gols e a equipe venceu bem por 4 x 0. Ao ser substituído, Iarley escutou pela primeira vez o aplauso da torcida do Boca. A camisa 10 do Boca, outrora vestida por jogadores do quilate de Maradona, Riquelme, Márcico e Ménendez, parecia estar em boas mãos.
Mesmo assim, era criticado pela imprensa e por uma parte da torcida do Boca pelo fato de não substituir Tévez à altura. As rodadas foram passando e o Superclássico contra o River estava cada vez mais perto. Iarley era escalado por Bianchi como titular em um jogo e em outro entrava no decorrer da partida. Até que Tévez se machucou e o departamento médico do Boca deu o veto. O “Apache” estava fora do jogo contra o River.
Iarley começou o jogo como titular ao lado de Barijho, que se contundiu durante a partida. Do início ao fim levou perigo à defesa do River e, após o gol era ovacionado pela torcida do Boca a cada toque na bola. A ponto de a apaixonada torcida criar um canto para ele no decorrer do jogo:
“Y ya lo vé, es el hermano de Pelé”. Ao final do jogo, todos os meios foram unânimes: Iarley havia sido o grande destaque do jogo e fez com que ninguém desse pela falta de Tévez.
Em 39 jogos que fez pelo Boca, marcou 6 gols e ganhou dois títulos. Em 2004 continuou na equipe, mas sofreu com algumas contusões e em junho daquele ano acertou sua saída do clube. O destino foi o México, onde defendeu o Dorados. Após um ano por lá, voltou ao Brasil e jogou pelo Internacional por três temporadas. Em 2008 veio ao Goiás e desde o início desse ano atua pelo Corinthians.
Iarley conta como é jogar um Superclássico
Aquele ano de 2003 foi sublime para a torcida Xeneize. Me arrisco a dizer, o ano mais vitorioso da história do Boca Juniors. Calar um Morumbi em êxtase com Diego e Robinho na Libertadores. Triunfar sobre o todo-poderoso Milan, ainda que na sufocante emoção nos pênaltis. E, claro, mostrar que mandamos no próprio país também, até mesmo na casa do grande rival.
E o grande personagem daquele Superclásico em Nuñez é brasileiro, cearense de Quixaramobim. Tinha o peso de ter que suprir a ausência de Carlos Tevez. Algo do qual ele se livrou no primeiro drible em Ameli. Tuzzio também ficou na saudade, assistindo de camarote o golaço do camisa do 10 auriazul.
Pedro Iarley falou com o Futebol Portenho sobre aquela memorável vitória, que lhe rendeu comparações com o Rei Pelé após a brilhante atuação.
Futebol Portenho: Como é a sensação de jogar um Superclásico?
Iarley: É algo extraordinário. Um clássico com rivalidade tamanha a ponto de realmente parar a Argentina inteira. E aquele, em particular, me ajudou bastante, pois depois daquele gol a torcida passou a me tratar com muito mais carinho. Me senti muito honrado por fazer parte da história de um jogo dessa magnitude.
FP: Essa rivalidade de que falou, como ela aparece dentro do campo?
Iarley: Pela importância do duelo, os jogadores vão para cima de forma bastante ríspida. Cada dividida, cada carrinho, cada jogada é disputada como se fosse a última da carreira, já que todos sentem a cobrança e a pressão passada pelo torcedor nas arquibancadas.
FP: Tem saudades dessa época de Boca Juniors? Algum dia voltaria a vestir a camisa xeneize?
Iarley: Tenho muitas saudades sim de jogar lá, e hoje com certeza aceitaria voltar a defender as cores do Boca. Sempre que posso eu acompanho o time, inclusive. Na época eu saí pois o clube não andava muito bem financeiramente para me manter lá. Só que hoje, na situação em que me encontro, jogaria no Boca até de graça.
Assistam então o gol de Iarley na vitória contra o River Plate por 2×0, 09/11/2003. Aproveitem!
A tragédia do Portão 12
Às vésperas do Superclássico entre River Plate e Boca Juniors, a série de especiais do Futebol Portenho lembra um episódio triste no maior clássico futebolístico da Argentina: a tragédia da Puerta 12, o Portão 12 do Monumental de Nuñez. Acontecido em 23 de junho de 1968, o evento vitimou 71 pessoas, jovens na maioria e torcedores do Boca Juniors.
No Monumental de Nuñez, tinha acabado um empate sem gols entre River Plate e Boca Juniors em partida válida pelo Metropolitano de 1968. Era uma parte intergrupos pertencente à rodada 17.
Boca Juniors e River Plate lutam pela classificação em seus grupos já que faltavam apenas 6 jogos para o fim. O Boca Juniors, no grupo 1, tinha como adversários outras 10 equipes: San Lorenzo, Estudiantes de La Plata, Lanús, Racing, Colón de Santa Fe, Newell’s Old Boys, Banfield, Atlanta, Ferro Carril Oeste e Platense.
Já o River Plate enfrentava os dez restantes: Vélez Sarsfield, Rosario Central, Huracán, Independiente, Los Andes, Chacarita Juniors, Argentinos Juniors, Quilmes, Gimnasia y Esgrima La Plata e Tigre.
Após o jogo, os torcedores do Boca Juniors, que ocupava a tribuna que dá para a Figueroa Alcorta, quiseram sair rápidamente tal como os demais 90 mil torcedores do Monumnetal. Fazia frio e o jogo não fora um dos melhores protagonizados pelas duas equipes.
No entanto, como do nada, uma avalanche de pessoas aconteceu no pequeno corredor que dava na puerta 12 (atual porta L) do Estádio. 71 pessoas morream, pistoeadas e asfixiadas.
Duas hipóteses são levantadas por testemunhas. A primeira que o portão fora fechado por pessoas (ou torcedores) do River Plate. O clima estava tenso entre as duas equipes e os torcedores do Boca Juniors tomaram atitudes desagradáveis no pré-jogo tal como queimarem bandeiras e camisas do River, bem como jogar copos de urina nos torcedores do River presentes nas plateias baixas.
A segunda é a hipótese de crime político. A torcida do Boca entoara gritos de apoio ao ex-presidente Juan Domingo Perón, arqui-inimigo do então ditador argentino, Juan Carlos Onganía.
Era tempo de forte repressão policial aos peronistas na Argentina e o ex-presidente do River Plate, William Kent, lembrou que os torcedores do Boca Juniors também jogaram urina no corpo policial presente no estádio. Nessa teoria, há relatos de que, no fim do jogo, quem fechou os molinetes e obstruia a passagem fora a polícia com o seu setor montado em clara atividade de repressão.
Os parentes das vítimas buscaram indenização e punição aos culpados, mas nada conseguiram na Justiça. Em 1969, desistiram do processo e as indenizações conseguidas foram um pouco mais de 150 mil dólares.
O Metropolitano 1968 se revelou uma tragédia futebolística para o próprio Boca Juniors que não se classificou para as semifinais e, ocupando a 5ª colocação em seu grupo, quase teve que jogar o Torneio Promocional. Já o River Plate se classificou em segundo, mas perdeu na semifinal para o San Lorenzo, o campeão do Metropolitano daquele ano.
Nota de edição
Este especial reúne as duas temporadas da série Supersemana, publicadas em 2009 e em novembro de 2010, em um texto único. O conteúdo de cada parte foi preservado na íntegra; foram retiradas apenas as chamadas para os capítulos seguintes.