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Ferro Carril Oeste, um clube argentino premiado pela UNESCO

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A nova camisa do Ferro tem o “carimbo” da UNESCO na parte inferior esquerda. Na imagem, o carimbo em detalhe no canto inferior direito

Conhece o Ferro Carril Oeste? Trata-se de um dos clubes mais tradicionais de Buenos Aires e da Argentina. Pouquíssimos clubes do país têm tantas vitórias quanto a instituição do bairro portenho de Caballito. Seus tempos áureos foram os anos 80, relembrados em camisa dos verdolagas recém-lançada, a fazer referência à ocasião em que foram premiados pela UNESCO.

Bom, a UNESCO é a Organização das Nações Unidas para a Educação, Ciência e Cultura. A partir de 1985, ela passou a oferecer um prêmio por “notáveis serviços à educação física e esporte”. O anúncio de que o Ferro seria agraciado completa um jubileu de prata neste 2013; foi em 28 de março de 1988. Naquela década, o futebol do FCO ganhou seus dois únicos títulos argentinos, em 1982 e 1984, e foi vice três vezes.

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À esquerda, um dos 4-0 que o Ferro impôs no Vélez na casa rival; à direita, o último Clásico del Oeste, em 2000 (ao contrário de Palmeiras e Juventude, a Parmalat não fez sucesso no alviverde portenho…)

Mesmo com um estilo lembrado mais como eficiente para obtenção de resultados do que por jogar bonito (só um jogador iria à vitoriosa Copa do Mundo de 1986, o zagueiro Oscar Garré, reserva), o clube teve tardes memoráveis, como um 3-0 sobre o River de Francescoli em pleno Monumental no jogo de ida da vitoriosa final de 1984, a praticamente garantir a taça; sair invicto do Rio de Janeiro na Libertadores 1985, onde venceu o Vasco e empatou com o Fluminense, só sendo eliminado pelo campeão Argentinos Jrs; ou as goleadas sobre o arquirrival, o Vélez Sarsfield.

Aos mais novos: sim, o rival do Vélez é tradicionalmente o Ferro. Eles travam o Clásico del Oeste. Ou travavam. O dérbi sempre foi marcado pela superioridade velezana e não ocorre desde 2000, quando os verdolagas foram rebaixados; até hoje não voltaram e até pela 3ª divisão já passaram. Mesmo antes, na década de 90, o encontro já era visto como “um jogo normal” pela geração velezana mais nova. Ela prefere jogos contra Boca e River, pelo tamanho da dupla, e os também grandes Racing e San Lorenzo, contra quem há luta pela dianteira em números de títulos profissionais.

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Festa do 3-0 no River em pleno Monumental na final argentina de 1984

Os que não sentem indiferença contra o Ferro, ficam em geral com piedade, tamanha a decadência: isto pode ser avaliado em um post em fórum de fãs do Vélez no facebook, quando um afirmou que sente falta de ir a jogos no Arquitecto Ricardo Etcheverri, estádio do FCO. Por conta da localização de Caballito, no centro geográfico de Buenos Aires, o campo não raramente é usado também por outros clubes, incluindo no passado o Vélez, sediado no bairro próximo (daí a rivalidade) de Liniers.

A maioria concordou com o post: clique aqui e veja – a visibilidade é pública, mesmo aos que não têm conta na rede social. Outra demonstração está no livro que o Clarín fez do centenário velezano, em 2010: “sem importar se é mais grande ou pequeno que outro, (…) sem invejar nada nem ninguém, sendo feliz com o triunfo próprio”, no editorial, pode ser interpretado como uma perda de necessidade da rivalidade. O livro ainda lista aqueles que seriam os principais 22 jogos nacionais do clube. Só dois Clásicos del Oeste foram incluídos. Um, mais pela história que Chilavert fez: o goleiro marcou três gols em um 6-1 em 1999.

Ferro exaltado em edição de maio de 1987 da revista El Gráfico, um ano antes do reconhecimento da Unesco. O representante do futebol, Oscar Garré, esteve na seleção vencedora da Copa de 1986

Incrível é relembrar o quão exceção foram os anos 80. Não foi só a única década em que o Ferro teve mais vitórias no clássico, com direito a pelo menos dois 4-0 no estádio do Vélez; com seus dois títulos, os verdolagas ficaram à frente dos vizinhos por quase dez anos no ranking dos campeões argentinos. La V Azulada havia sido campeã só uma vez, em 1968. O Vélez só se reigualou em 1993 ao vizinho. Mas, desde então, se catapultou meteoricamente: até 2000, já havia sido campeã nacional outras três vezes (até 2013, outras nove). E, principalmente, levantou uma Libertadores, uma Intercontinental, uma Supercopa, uma Recopa…

Bom, mas a UNESCO não premiaria o Ferro só pelo futebol da época. Mais do que um clube “de” futebol, ele era e ainda é um clube “com” futebol. Produziu alguns dos principais atletas argentinos do tênis, natação, squash, beisebol, xadrez, ginástica, handebol, vôlei, artes marciais, atletismo em geral… muitos seriam representantes nacionais nas Olimpíadas. Da imagem direita abaixo, dois futuros carrascos do Brasil nas Olimpíadas de Sydney: na seleção de vôlei que surpreendeu o rival nas quartas-de-final, Getzlevich era o treinador e Conte (o mesmo deitado na imagem acima), o veterano que seguia jogando para liderar a geração seguinte: era o remanescente da Argentina bronze nas Olimpíadas de 1988.

Maretto e Uranga festejam a Liga Nacional de basquete de 1985. À direita, vôlei campeão de 1986-87: Getzelevich, Lukach, Ruiz, Conte, Eduardo Martínez, Grunaver, técnico Raúl Lozcano, Longo, Posternak, Fesole, Jorge Lescano e o dirigente Daniel Fanego

Em 1984, o título de handebol foi uma festa para todo o clube: ele tornou-se ali campeão ao menos uma vez em todas as suas atividades federadas. Já a mais brilhante modalidade do período foi o basquete (que tinha até torcida organizada própria). Um de seus jogadores nele, Sebastián Uranga, afirmou: “Nunca houve uma organização desportiva como o Ferro nos anos 80. Isto era sempre uma festa, inclusive até quando havia problemas”.

Bem antes de revelar o astro Luis Scola, campeão olímpico em 2004 e cestinha da Copa do Mundo de 2010, foi três vezes campeão continental no baloncesto, em 1981, sobre o Tênis Clube de São José; 1982; e 1987, sobre o Monte Líbano. O patrono da liga argentina de basquete, León Najnudel, era do Ferro, que na década foi vice mundial em 1986 por míseros 6 pontos. “Ferro era o clube dos sonhos, em que todos queriam jogar”, assinalou outro membro do basquete verdolaga, Gabriel Darrás.

Vôlei feminino do período de um hexacampeonato seguido, entre 1980 e 1985

Já falamos duas vezes do sucesso poliesportivo do FCO: clicando aqui (ao fim) e aqui. Foi aliás Najnudel quem recomendou a contratação de Carlos Griguol, técnico do futebol campeão em 1982 e 1984.

O sucesso se associava ao Ferro mesmo nos esportes que não praticava. O rúgbi, por exemplo, foi desativado do clube em 1960. E justo no final dos anos 60, seu estádio passou a ser a casa habitual da seleção argentina da bola oval, Los Pumas. Foi ali que ela conseguiu sua única não-derrota para a superpotência Nova Zelândia, em empate com os All Blacks em 1985, mesmo ano (e local) onde venceu pela primeira vez outro peso-pesadíssimo, a França. Mas não joga lá desde 2001: passou a preferir justamente o campo do Vélez para jogos em Buenos Aires e, secundariamente, o do River.

Rúgbi: foi nessa tarde no estádio do Ferro que a Argentina conseguiu empatar com os All Blacks em 1985, única vez que não foi derrotada pela Nova Zelândia

O que houve? Resumidamente, aquilo que provoca a derrocada de grandes potências, em que pese a concorrência: sucessores que se habituaram a uma administração de sucesso não souberam geri-la ao assumirem a vez. Especialmente no caso do Ferro, em que o poder ficou nas mãos de um mesmo presidente, Santiago Leyden, por tanto tempo, de 1963 a 1992. Dois dados simbólicos: a última campanha boa, um 4ª lugar, veio exatamente em 1992, com o goleiro Burgos e o zagueiro Ayala; já em 1993, o Vélez iniciou a ultrapassagem, sendo campeão pela primeira vez desde 1968.

Esteban Bekerman é um dos maiores jornalistas do futebol argentino e, em que pese ser velezano assumido, fala com muita propriedade de quem ironicamente sempre morou em Caballito. Segundo ele, o Ferro no auge era um “clube elitista”, que se permitia a encher-se de restrições a novos associados; estes teriam que ser indicados por um sócio com anos e anos de clube. Atualmente, a decadência teria imposto maior abertura: “já hoje, quase imploram para que sejas sócio”.

Miguel Cortijo (eleito o melhor armador da Copa do Mundo de Basquete de 1986) e Alberto Márcico: os dois que faziam a torcida do Ferro mais vibrar nos anos 80

O livro oficial do centenário verdolaga, em 2004, admite no editoral: “não são épocas de vacas gordas (…). Mas quando parecia que o projeto [de escrever o livro] desfalecia, nos inspiramos naqueles 95 operários que do nada construíram o clube. Naqueles esportistas que deixavam até a última gota de suor na cancha para pôr a bandeira verde no mais alto do pódio”. Os operários trabalhavam na ferrovia (ferrocarril, em espanhol) Oeste. Os rivais surgiram justamente na estação Vélez Sarsfield dessa ferrovia.

Um quarto de século depois de receber na União Soviética um reconhecimento mundial que nenhum outro clube argentino teve, o FCO, ainda na 2ª divisão, tenta se reafirmar. A nova camisa é muito parecida, por sinal, com a nova do Huracán, outro nobre decadente, também feita pela Joma e com o mesmo patrocínio do Banco Ciudad.

Sucesso até na pelota basca, com a federação argentina inclusive proibindo os irmãos Moss de jogarem juntos para que os torneios voltassem a ser equilibrados. À direita, o basquete de Maretto

Abaixo, seguem na íntegra as palavras da UNESCO naquele 1988, em tradução livre do inglês de documento que pode ser conferido clicando aqui.

“Este clube fornece um exemplo de solidariedade e ideais internacionais, porque apesar de ter sido fundado como uma entidade privada, um de seus objetivos institucionais é a difusão da educação física e do desporto. Ele está constantemente envolvido em atividades práticas para melhorar os recursos humanos disponíveis, para fazer educação física e esporte mais difundidos e promover formas de esporte e programas que fazem esporte acessível a todos.

Oscar Garré (vencedor da Copa de 1986), Héctor Cúper (futuro técnico de relevo), Adolfino Cañete, Victorio Crocco, Alberto Márcico e Mario Gómez: foi nos anos 80 que o futebol do Ferro pediu passagem

Seu programa para ensinar natação a todos é uma forma de reduzir o número de mortes por afogamento entre as crianças. Este programa está disponível a todos, e serve para, pelo menos, 40 mil crianças de todas as regiões durante o período de verão. Os membros do Clube também têm participado de encontros desportivos internacionais e suas performances bem sucedidas têm mostrado que o esporte pode ser uma atividade competitiva assim como uma forma de recreação.

Instalações desportivas também são usadas ​​para alojamento de modo a proporcionar o acesso a atividades esportivas para as delegações do interior do país e do exterior. A experiência adquirida por esta instituição para a educação física e do desporto a coloca em uma posição de liderança no que diz respeito a ideias para a elaboração de atividades esportivas.”

Caio Brandão

Advogado desde 2012, rugbier (Oré Acemira!) e colaborador do Futebol Portenho desde 2011, admirador do futebol argentino desde 2010, natural de Belém desde 1989 e torcedor do Paysandu desde antes de nascer

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