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Helenio Herrera, (muito mais do que) o argentino que treinou as seleções de França e Espanha

“Eu sou imortal, meta isso na sua cabeça. Mas quando chegar a minha hora, quero que me trates bem” – frase atribuída a ele, pressentindo o fim, ao agente funerário de quem era amigo

A frase acima resume bem a autoimagem de Helenio Herrera Gavilán, “o homem que ama a si mesmo”, nos dizeres do título dessa nota publicada em 1964 pela revista argentina El Gráfico. Foi um precursor de José Mourinho e Johan Cruijff no que se refere a técnicos vencedores, inovadores e soberbos por um holofote, atraindo o protagonismo mais para si do que dos jogadores. Os números amparavam H.H: quando ele treinava o Atlético de Madrid, este era o clube madrilenho mais vezes campeão espanhol. Quando ele treinava o Barcelona, este era o clube mais vencedor de La Liga. Fez da Internazionale o primeiro time italiano campeão mundial e bicampeão da Liga dos Campeões. Se houve uma parte menos vencedora da carreira, foi justamente treinando França e Espanha, o foco principal dessa nota, embalada pelas semifinais que Bleus e Roja travam na Copa do Mundo.

Antes de tudo, o Herrera argentino

Sua relação com a Argentina era paradoxal. Na autobiografia, mal dedicou dois parágrafos ao local em que nasceu. Quando dirigia a Inter, não foi uma figura acolhedora com hermanos, dispensando Antonio Angelillo e também limitando as presenças de Humberto Maschio. Ao mesmo tempo, naquela mesma nota de 1964 respondeu de bate-pronto “pátria” à pergunta “o que lhe significa a Argentina?”. É que ele mal viveu até os dez anos de idade na Buenos Aires natal, além de ser filho de estrangeiros.

O Mundo Deportivo colheu as seguintes declarações dele: “nasci em Buenos Aires, no bairro de Palermo. Mas atenção: nasci em um 10 de abril e não no dia17. Fui registrado, isso sim, no dia 17, porque meu pai estava ausente e não pôde cumprir pontualmente com esse requisito. Para não pagar multa, me registraram como nascido uma semana depois. E escolheram um nome original e inédito, tirando-o de um livro de botânica: Helenio. Meus pais eram andaluzes, da província de Málaga. Ele, Francisco, de Estepona. Ela, María Gavilán, de Gaucín. Se conheceram em Gibraltar. Meu pai era carpinteiro do arsenal do Peñón e minha mãe era empregada doméstica em uma casa inglesa. Emigraram desde Algeciras à Argentina, onde meu pai seguiu trabalhando de carpinteiro e mamãe se improvisava como costureira. Éramos pobres, mas pobres de verdade”.

Quando seus pais já tinham dado ao mundo também Aurora, a irmãzinha de Helenio, a família se reestabeleceu em 1919 nos subúrbios de Casablanca, no Marrocos francês – não sem antes um susto com a matriarca: “o porto de Casablanca estava em construção e tivemos que efetuar o desembarque em barcos a remo. Minha mãe, que pesava 100 quilos, caiu na água ao tentar passar de um bote ao outro. Ao invés de pularem rapidamente para salva-la, os mouros ficaram discutindo com meu pai o preço do salvamento. Lhes deu a propina que pediam e o incidente só teve como consequência o encharcar e o susto”.

No futebol parisiense pré-PSG: último em pé no Red Star vencedor da Copa da França de 1942 e primeiro junto ao Stade Français do pós-Guerra – do qual levaria o goleiro Domingo e o astro negro Benbarek ao Atlético de Madrid

Após dar os primeiros chutes em latinhas e em bolas de meia, teve no Roches Noires de Casablanca uma primeira equipe séria. Segundo ele, pelo menos, “ganhamos o campeonato de Casablanca e o do Marrocos, em Rabat. Jogava de atacante e me caracterizava por meu ímpeto e resistência física”. Dali galgou ao Racing de Casablanca, ainda conciliando o futebol com escola técnica – seu trabalho paralelo era o do torneio mecânico. Se sua carreira de jogador não foi digna de maior nota, alguma qualidade havia: foi prospectado por equipes parisienses após enfrentar a seleção da França a partir de uma seleção colonial das possessões francesas na África do Norte.

O Herrera dos Bleus

Ainda conciliando o futebol com o trabalho de torneio, agora em uma fábrica de motos, ele seguiu galgando por diferentes clubes da Paris pré-PSG: Club Français, CASG e então Stade Français e Red Star. Por esta equipe, pôde vencer a Copa da França de 1941-42 em plena Segunda Guerra Mundial. O troféu segue sendo até hoje o último do clube de Jules Rimet, ainda a quarta equipe mais vencedora do torneio. É o momento retratado na foto esquerda da colagem acima.

Mas foi mesmo como técnico que ele se destacou, inicialmente pelas manhas como psicólogo – primeiramente, ainda como jogador-treinador no Puteaux, do futebol parisiense amador, onde já ensaiava sua tática retranqueira (pioneirismo que ele, claro, atribuía a si). Pôde chamar nova atenção do Stade Français e não economizou esforço: se conta, somente para prospectar o goleiro Marcel Domingo, teria se infiltrado entre doentes de um trem carregado de prisioneiros de guerra que vinha da Alemanha a Lyon. Domingo jogava então no Nice e seria aproveitado por H.H também no Atlético de Madrid – clube onde seria campeão espanhol também como treinador, em 1970.

Herrera também pôde convencer um jogador de seleção feito Larbi Benbarek (também egresso do Marrocos) a topar a empreitada de tirar da segunda divisão aquele Stade Français. Entabulava boa relação também com Gabriel Hanot, depois célebre como mente pensante por trás da criação da Liga dos Campeões e da Bola de Ouro. Hanot chefiou de abril de 1945 a agosto de 1949 a comissão técnica da seleção francesa, integrando o argentino como preparador físico.

Primeiro em pé junto da seleção francesa, em virtual dupla técnica com Gabriel Hanot, o último

A presença de Herrera nas fotos acima e abaixo dá a entender, contudo, que ele não se contentou apenas com os bastidores. E estava com moral apra tanto: conciliando clube e seleção, ele conseguiu na primeira temporada pós-Guerra, a de 1945-46, o acesso do Stade Français. O time foi segundo colocado no grupo Norte da segundona, o suficiente para aparecer na Ligue 1 de 1946-47. E os estreantes deram o que falar, terminando em um 5º lugar a apenas três pontos do vice.

Ironicamente, o próprio sucesso de Herrera no clube pareceu se voltar contra os Bleus. Em 1948, seu Stade Français visitou o Atlético de Madrid e venceu por 4-2 em pleno Metropolitano. Herrera recebeu oferta do Espanyol, mas preferiu fechar com o próprio Atlético mesmo precisando se sujeitar a algo que soaria vexatório: de modo pitoresco, houve um empréstimo de treinador, com o argentino repassado ao Real Valladolid em temporada com ares de estágio para ele em La Liga.

O Stade Français, que havia repetido o 5º lugar na Ligue 1 na temporada 1947-48, despencou para o 10º sem seu mago – e também sem Domingo e Benbarek, também contratados pelo Atleti. A ladeira foi cada vez mais baixo e nos anos 60 o clube largou de vez o futebol profissional, focando-se em outro esporte bretão: desde os anos 90 se consolidou como uma potência nacional no rúgbi, não raramente com argentinos junto.

A mudança à Espanha também fez Herrera deixar a seleção francesa: em outubro de 1948, ele já não integrava mais o quadro técnico. A falta de uma Copa do Mundo de 1946 e a inexistência da Eurocopas inviabilizaram marcas mais duradouras; o triênio teve como primeiro resultado expressivos um 2-2 dentro de Londres contra a Inglaterra do astro Stanley Matthews em 26 de maio de 1945, embora os Three Lions não considerem o evento (com ares festivos pela guerra encerrada cerca de duas semanas antes na Europa) como jogo oficial – mesmo que ocorrido em Wembley. Vale o contexto de que os ingleses seguiam invictos contra não-britânicos para se ter dimensão do que representava o empate logrado no minuto final pelos visitantes.

A foto original colorizada pela IA na imagem anterior

Os outros três jogos de 1945 foram todos fora de casa também, com derrotas: 1-0 para a Suíça em Lausanne em 8 de abril, com a guerra ainda por terminar; 4-1 para a Áustria em Viena, em 6 de dezembro, e 2-1 para a Bélgica em 16 de dezembro. Mas as perspectivas ao fim de 1946 foram boas: vitórias em Paris por 3-0 em 8 de abril na Tchecoslováquia do superartilheiro Josef Bican, por 3-1 em 5 de maio sobre a Áustria e, sobretudo, por 2-1 em 19 de maio sobre os ingleses – que outra vez desconversaram sobre a oficialidade dada ao encontro, embora alinhassem novamente Stanley Matthews, além de Billy Wright e Tommy Lawton. O único revés foi fora de casa, no 2-1 para Portugal em Lisboa em 14 de abril.

Em 1947, a Inglaterra venceu por 3-0 em Londres (em 3 de maio) e, aí sim, o resultado “valeu” como oficial para a federação rival. Em compensação, os outros cinco jogos foram apenas vitórias, inclusive fora de casa: 1-0 sobre Portugal em Paris em 23 de março, 4-0 na Holanda em Paris em 26 de maio, 4-2 no dérbi com a Bélgica em Paris em 1º de junho, 2-1 dentro de Lausanne sobre a Suíça em 8 de junho e então 4-2 dentro de Lisboa sobre Portugal em 23 de novembro.

O primeiro semestre de 1948 teve resultados razoáveis: derrota de 3-1 para uma Itália repleta dos craques do lendário Grande Torino em 4 de abril, surra de 3-0 para cima da Escócia em 23 de maio (tempos em que o prestígio dessa era equiparável ao da Inglaterra, sobre quem ainda levava vantagem no confronto direto), derrota de 4-2 fora de casa para a Bélgica em 6 de junho e o sacode de 4-0 dentro de Praga sobre a Tchecoslováquia em 12 de junho.

No segundo semestre de 1948, Herrera então rumou ao futebol espanhol, ainda antes de começarem as eliminatórias europeias para a Copa do Mundo de 1950. Os números amparam H.H: a França começou o ano de 1949 com mal presságio, perdendo de 4-1 da Holanda, de 3-1 dentro de Paris para a Inglaterra e, também em Paris, foi humilhada por 5-1 pela Espanha. As eliminatórias se resumiram a duelos com a Iugoslávia e se o 1-1 em Belgrado no jogo de ida soava bem, a aguardada classificação não se viu em Paris – os comunistas devolveram o 1-1 e venceram o jogo-extra na neutra Florença.

Sentado entre os jogadores do Atlético campeão de La Liga em 1950 – ali, o clube superou o Real Madrid em número de títulos espanhóis. Se pode distinguir Benbarek e o goleiro Domingo lado a lado na fileira superior

Enquanto os Bleus pela primeira vez ficavam de fora de uma Copa do Mundo, Herrera fazia, naquela temporada de 1949-50, o Atlético de Madrid superar o Real Madrid em número de títulos espanhois.

O Herrera da Roja

Herrera primeiramente fez um reconhecido trabalho em seu “estágio” no Real Valladolid: o clube era candidato ao rebaixamento e o objetivo da permanência foi assegurado mesmo com “arbitragens horrorosas”, segundo o técnico. Uma vez enfim exercendo o cargo de técnico do Atlético, o sucesso foi instantâneo. Um dos resultados obtidos na campanha campeã de La Liga inclusive voltou aos holofotes nesse 2026: é que o 4-1 sobre o Barcelona viu os quatro gols colchoneros ocorrerem ainda no primeiro tempo, um feito que somente na Copa do Rei da última temporada o Atleti conseguiu repetir.

O argentino também foi campeão espanhol na temporada seguinte, no que segue sendo o último bicampeonato seguido do Atlético na primeira divisão. Não foi o suficiente para seguisse por muito mais tempo na capital, com seu genioso temperamento lhe empurrando para clubes menores pelo resto da década. Em abril de 1958, porém, o Barcelona apostou nele: os catalães eram até então o time mais vencedor do campeonato espanhol, mas haviam acabado de serem igualados pelo emergente Real Madrid de Di Stéfano; cada um tinha seis. Herrera estava no futebol português com o Belenenses e, de acordo com o Mundo Deportivo, se tornou o primeiro técnico por quem foi paga uma multa rescisória. Detalhe: ao Belenenses e também ao Sevilla, o clube espanhol anterior do argentino.

Pelo “primeiro craque do banco“, pioneiro em aspectos táticos, físicos e mentais do jogo, foi pago 1 milhão de pesetas, enormidade para aquele tempo. Tão logo chegou na Catalunha, Herrera foi campeão – primeiramente, na Copa das Feiras (precursora da atual Liga Europa), em maio de 1958, sobre a seleção de Londres. O aguardado sétimo título espanhol do Barça veio em alto estilo, com um recorde de gols até então (96) para recolocar o clube como máximo vencedor isolado. A cereja foi a conquista paralela da Copa do Rei.

No Barcelona, houve mais de uma passagem: à esquerda nos anos 50, à direita com a Copa do Rei de 1981. Sempre mais protagonista do que os jogadores

O Barcelona foi bicampeão espanhol seguido na temporada 1959-60, na qual Herrera deixou encaminhada nova conquista na Copa das Feiras mesmo deixando polemicamente cada vez mais de lado o ídolo local László Kubala. Assim, ao longo de 1959 ele voltou a conciliar clube e seleção, tal como fizera com França e Stade Français. Poderia ter dirigido os espanhóis na primeiríssima Eurocopa da história: as eliminatórias eram em mata-mata e a então Furia começou sapecando um 4-2 sobre a Polônia dentro de Katowice, complementados com 3-0 na volta.

Se atravessar a Cortina de Ferro para os duelos com os poloneses não foi um problema, criou-se para quando dos duelos com a União Soviética, o adversário seguinte: Francisco Franco inviabilizou os confrontos e, por W.O, o adversário classificou-se para ser o futuro campeão. Mas a principal decepção a Herrera acabou sendo clubística: entre novo título espanhol e a decisão da Copa das Feiras, houve a eliminação nas semifinais da Liga dos Campeões de 1959-60 justo para o Real Madrid.

A queda causou uma decisão impulsiva da diretoria blaugrana em demitir o treinador. Pois a torcida, pelo menos, estava com o argentino – carregado pelas ramblas de Barcelona na reação popular à demissão. De fato, ele seguiu empregado pela seleção espanhola, chegando mesmo a visitar  a URSS, nos dias que antecederam a proibição de Franco, para tomar notas do adversário que imaginava que enfrentaria. Foi justamente ao voltar de Moscou que, descendo em Bruxelas, Herrera tomou o caminho para Milão, acertando com a Internazionale.

Ao menos no início, a ida ao exterior inviabilizou que ele seguisse treinando a seleção espanhola, mas ela pôde se classificar à Copa do Mundo de 1962 mesmo sem Herrera – o treinador nas eliminatórias acabou sendo Pedro Escartín. Se o tempo fez de H.H um técnico lendário em Milão, ao menos de início o sucesso imediato visto por Atlético e Barcelona não se reproduziu na Inter. Foi justamente pelo título italiano de 1961-62 já parecer inviabilizado apesar da liderança inicial que o clube chegara a usufruir é que o cartola interista Angelo Moratti permitiu que o treinador voltasse pontualmente à seleção espanhola apenas para a Copa do Mundo; Moratti o liberou a partir de março.

Na seleção espanhola com o também argentino Di Stéfano, por sinal filho de uma franco-argentina

Faltou sorte. A Espanha entrou precisamente no grupo dos futuros finalistas e chegou ao Chile com Alfredo Di Stéfano lesionado. E viu uma arbitragem desastrada no duelo decisivo com o Brasil, na rodada final da chave, seja pelo pênalti convertido em falta pela malandragem do infrator Nilton Santos, seja pelo gol de bicicleta resultante da cobrança dessa mesma falta ser anulado por jogo perigoso. Herrera ainda esbravejava, naquela nota dada à El Gráfico em 1964: “no próprio Brasil publicaram que o árbitro que dirigiu a partida decisiva com a Espanha havia recebido dinheiro. Nesse dia devíamos ganhar do Brasil”.

Depois das seleções: o Herrera que voltou à Argentina

Apesar dos asteriscos que pudesse colocar na queda na Copa de 1962, a reputação de Herrera esteve bem arranhada naquele momento; foi mesmo ventilado que a ausência de Di Stéfano em campo também se deveu a certa antipatia mútua pelas rivalidades clubísticas que tinham. Herrera, que já não havia levado Kubala ao Chile, se cansaria de declarar que via Di Stéfano acima de Pelé. E tratou de se reerguer imediatamente, encerrando ao fim da temporada pós-Copa um jejum de novo anos da Inter na Serie A, credenciando-a à Liga dos Campeões de 1963-64. E venceu-a, em desfecho que decretou o fim da Era Di Stéfano no Bernabéu.

O Real Madrid foi o vice do ex-treinador de Atlético e Barcelona e, naquele momento, o maior ídolo da história madridista saiu pelos fundos, defenastrado sem sutilezas ao Espanyol. Já a equipe de Milão, adiante, bateria o Independiente na decisão do Mundial Interclubes de 1964, evento que propiciou aquela nota da El Gráfico. Altura em que Herrera já chegava com a banca de dizer que “teria preferido ir à final com o Santos, incluindo Pelé. Os conheço bem. Seus jogadores são lentos e sei como freá-los”, em referência à eliminação santista para o Rojo de Avellaneda nas semifinais da Libertadores. Herrera ainda seria bicampeão da Europa e, novamente sobre o Independiente, do Mundo em 1965. E, em 1966, foi o treinador nerazzurro na conquista da primeira estrela na camisa, representando o marco do décimo scudetto.

Ele quase voltou a Avellaneda em 1967 para decidir, dessa vez com o Racing, o Mundial Interclubes. Mas sua Grande Inter perdeu para o Celtic a final europeia, que soube vencer de virada por 2-1 apesar da catenaccio que Herrera elevava a arte. Cada vez mais visto como um tirano implacável, não durou muito mais em Milão e teve um resto de carreira com glórias mais modestas. Foi preciso se contentar com a Copa da Itália de 1969 com a Roma (tempos em que Cidade Eterna tinha dois técnicos argentinos, com a Lazio sendo treinada por Juan Carlos Lorenzo, que muito bebera da fonte de Herrera) e com a Copa do Rei de 1981 na segunda passagem pelo Barcelona – com a conquista de La Liga se atrapalhando pelo sequestro para cima do artilheiro Quini.

Primeiro em pé nos treinos da Espanha para a Copa de 1962, logo ao lado de Di Stéfano

Apesar da longa decadência dele, as comparações com José Mourinho eram inevitáveis já em 2008, com o português recém-chegado (para encerrar em 2010 um jejum pendente desde os tempos de Herrera). Para mais detalhes da carreira italiana de H.H, recomendamos a nota dos amigos da Calciopédia. Agregamos que ele segue sendo o técnico argentino com mais títulos no futebol europeu e o segundo no geral, abaixo de Ramón Díaz. Em 2015, estatísticos cravaram ele como o melhor técnico da história do campeonato espanhol.

Herrera teve um fim ao seu estilo. Problemas cardíacos lhe levaram em 9 de novembro de 1997, quando morava em Veneza, cidade que lhe trazia lembranças praianas da juventude em Casablanca. Seu Deus era ele mesmo: ateu convicto, não recebeu cerimônia religiosa a não ser dos tifosi que se aglomeraram para fazer as despedidas finais mais parecerem uma festa de scudetto do que um velório. Um desejo dele próprio, que queria ser lembrado com vitalidade, declarando preferir bandeiras das torcidas que o amaram ao invés de flores – detalhes que poderão ser conferidos clicando no link disponível no início da nota.

Curiosamente, dois dias depois de sua morte, faleceu, aos cem anos de idade, Pablo Hernández Coronado, com quem Herrera dividira o cargo de técnico da Espanha na Copa de 1962. Enquanto a morte de Coronado virou um único parágrafo em jornal, a de Herrera seguiu noticiada por dias a fio. Por toda uma semana, dedicou-lhe um capítulo sobre os principais momentos de sua carreira, muito utilizados nessa nota.

O Mundo Deportivo jurou que a notícia doeu mais na torcida do que uma derrota no mesmo dia para o Real Valladolid por La Liga. Tratou de informar que o velório se deu junto às tumbas dos doge venezianos. E que ele, além de pedir que suas cinzas repousassem “onde der o sol” na ilha-cemitério de San Michele (entre Veneza e Murano), deliberara pela doação de seus órgãos. Não para salvar vidas, mas sim para “estudos científicos”. Helenio Herrera foi Helenio Herrera até depois de morto.

Na Copa de 1962: o loiro ao meio é José Santamaría, falecido nesse 2026. Curiosamente, as duas seleções de Santamaría (Espanha e Uruguai, onde nasceu e pelo qual já havia jogado a Copa de 1954) também se enfrentaram nessa Copa

Epílogo

Abaixo, algumas das perguntas & respostas daquela nota de 1964 feita por El Gráfico sobre o franco-hispano-argentino:

Um técnico? Helenio Herrera.

Um preparador físico? Não os conheço. Sempre trabalhei sozinho.

O que lhe significa a Espanha? Carinho. Propostas para trabalhar da parte dos maiores clubes: Atlético de Madrid, Barcelona e etc. Os pequenos não podem pagar por mim.

Quanto ganha? Mais do que qualquer um.

O que lhe significa a Argentina? Pátria.

Se sente europeu ou sul-americano? Mundial.

Qual é o maior elogio que recebeu? Helenio Herrera trabalha 30 horas por dia.

Um livro? Eu, eu sou um livro [nota: de fato, sua autobiografia se chama simplesmente “Yo”].

Uma mulher? A minha.

[O então presidente americano Lyndon] Johnson ou [o então líder soviético Nikita] Khrushchev? [Francisco] Franco!

Um medo? Não temo nada.

O que lhe significa a palavra egolatria? Confiança em mim.

As despedidas finais a Helenio Herrera em Veneza
Caio Brandão

Advogado desde 2012, rugbier (Oré Acemira!) e colaborador do Futebol Portenho desde 2011, admirador do futebol argentino desde 2010, natural de Belém desde 1989 e torcedor do Paysandu desde antes de nascer

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