65 anos de Jorge Olguín, campeão da Copa 1978 e maior representante do San Lorenzo na seleção

Nas tribunas do velho Gasómetro: o San Lorenzo perdeu ambos (craque e estádio) em 1979

Quando Mariano Pernía, ex-reserva do Independiente, foi chamado de emergência pela seleção espanhola à Copa de 1978, no lugar do cortado Asier del Horno, fechava uma cicatriz familiar: seu pai, Vicente Pernía, zagueiro ídolo do Boca nos anos 70, ficou de fora do Mundial de 1978, ausência das mais criticadas. Um programa humorístico da época dizia que Pernía era o postulante “triste”, enquanto o concorrente, por contas histórias ao técnico César Menotti, era o “alegre”. Era Jorge Mario Olguín, recordista no San Lorenzo de jogos pela seleção (36) e único jogador de linha e único titular que, ainda como jogador do clube do Papa, ganhou uma Copa do Mundo. Com destaque também no Argentinos Jrs campeão de quase tudo entre 1984-85, o defensor faz hoje 65 anos.

“Dizer ‘Olguín é alegre’ era uma crítica, embora parecesse o contrário. Não me afetou, mas a meu filho no colégio sim. Os outros garotos o zombavam e vinha chorando a casa. Até hoje muitos me seguem perguntando se eu era o alegre ou o triste, porque as pessoas se lembram que eu era achincalhado pela crítica. Uma vez falei com (o humorista) Sapag, era um cara sensacional, que ia lhe dizer, que não fizesse mais? Se era seu trabalho…”, começou Olguín em entrevista à El Gráfico em 2014, tamanha ainda é a repercussão daquela história – da entrevista, extrairemos suas outras declarações.

Olguín nasceu em Dolores, no interior da província de Buenos Aires, mudando-se a Mar del Plata com dois anos em função da profissão de policial do pai. Começou na base de um dos principais clubes do balneário, o Alvarado. Era atacante, talvez daí seu hábito de sair jogando. Entrou no time principal ainda com 13 anos, de improviso para substituir um lateral direito ausente (“Depois, todos criticaram Menotti porque supostamente me havia improvisado de lateral, mas eu joguei de lateral no Alvarado e me testei como lateral no San Lorenzo, conhecia a posição”). Foi descoberto pelo San Lorenzo em um quadrangular que envolveu ainda Rosario Central, Quilmes e a seleção marplatense.

Em Buenos Aires, vivia na pensão do clube: “passava todo o dia jogando bola com as da torcida e também com os garotos do Huracán, convivíamos totalmente, não havia os problemas de agora. A demolição do Gasómetro foi um golpe duro para mim, já havia ido ao Independiente, mas estava atado e uma linda etapa da minha vida, foram 13 anos no clube, a base sobre o que me formei”. Teve a primeira oportunidade no time azulgrana adulto em 1971, na marra: os profissionais haviam aderido a uma greve geral da categoria e o clube precisou cumprir tabela com seus juvenis.

Em 1978, o Alvarado de Mar del Plata jogou o Torneio Nacional. Olguín enfrentou-o pelo San Lorenzo e fez questão de posar com os jogadores do clube que o revelou

Acabou mantido no time principal. O clube do bairro de Boedo, no ano seguinte, tornou-se o primeiro a faturar no mesmo ano os principais torneios domésticos do país, o Metropolitano e o Nacional. Mas sem influência de Olguín, que só atuou quatro vezes no Metro e nenhuma no Nacional. Um pouco porque a defesa titular estava sólida. E também porque, sendo daqueles zagueiros bastante técnicos que se aventuravam a sair jogando, desesperava técnicos resultadistas que teve no time, casos de Juan Carlos Lorenzo (o treinador do mágico 1972) e de Carlos Bilardo (do problemático 1979, ano em que a crise fez o clube vender o estádio Gasómetro e alguns de seus principais jogadores, caso de Olguín).

“Se cortasse e desse um chutão, era o mesmo que nada, porque a bola voltava ao rival”, justificava. “É uma das coisas que El Flaco (Menotti) me respeitou a morte. Lembro que quando cheguei ao Argentinos (como técnico), pedi ao Flaco Schiavi que tentasse sair jogando. ‘Mas si eu não posso driblar um cone’, me disse. ‘Só lhe estou dizendo que pare a bola e a dê a um companheiro’, respondi, porque ele rechaçava tudo o que vinha ou a atirava para cima. Isso lhe serviu e aprendeu muitíssimo”. Hoje trabalhando na própria escolinha, analisou que “se trabalha muito mal nas divisões inferiores. A prioridade de muitos coordenadores é obter resultados, não formar garotos. Em muitas equipes da primeira divisão vejo defeitos conceituais terríveis, sobretudo na defesa, onde joguei”.

Começou a ganhar espaço em 1973, após a saída do técnico Lorenzo. Osvaldo Zubeldía, multicampeão na Libertadores pelo Estudiantes, assumiu e pôs Olguín (cogitado a voltar a Mar del Plata para jogar em outro San Lorenzo, o marplatense) como zagueiro, a posição que mais se identificaria, a ponto de ainda achar-se que seu uso como lateral na Copa de 1978 foi um improviso. O Ricardo La Volpe, o outro único jogador sanlorencista que venceu uma Copa (goleiro reserva em 1978), declararia sobre o colega: “há técnicos que te dizem: atiramos a bola para cima e buscamos o rebote. Outros dizem: saímos jogando rápido pelas laterais. El Flaco Menotti, um maestro para mim, foi desses últimos. Por algo pôs Olguín de lateral no Mundial quando era zagueiro: queria uma saída clara”.

Foi Zubeldía quem indicaria Olguín a Menotti. Eternamente grato, o zagueiro buscou afastar Zubeldía do antijogo associado ao nome do ex-técnico daquele mal afamado Estudiantes. “Te pegava na nuca, mas te pegava porque queria te pegar, não porque Zubeldía mandasse. Ele queria que a equipe jogasse. Falando com muita gente daquela época, estavam de acordo que os que iniciaram essas coisas foram os jogadores. Tudo o que atribuem a Zubeldía, na realidade ocorria com Bilardo: a armadilha, tirar vantagens”. A equipe de Zubeldía, armada “com muito sacrifício”, terminou campeã nacional de 1974, o único título de Olguín como titular absoluto no San Lorenzo. A primeira convocação à seleção veio em março de 1976, entrando literalmente em um fria: Julio Asad precisou ser cortado e Olguín estreou na partida marcada pela neve em Kiev contra a URSS (foi a estreia também de Daniel Passarella).

Capítulos na seleção: na gélida estreia, contra a URSS. Às lágrimas com Menotti (que tanto o bancou) após a final de 1978. E a amarga despedida contra o Brasil em 1982 (é o barbudo)

No espaço de uma semana, foram três jogos no Leste Europeu: 1-0 nos soviéticos no dia 20, 2-1 na Polônia no dia 24 e derrota de 2-0 para a Hungria no dia 27. Início que rendeu histórias da Cortina de Ferro: “não havia tempo para tirar o visto, então me mandaram o visto de Asad. Sabes o que era a Rússia em 1976? Eram todos soldados, não havia civis. Entreguei o passaporte e começaram a ver o visto e minha cara, e com os dedos, me diziam ‘três, dois, três, dois’, eu não entendia. Depois, caí: no passaporte dizia Jorge Mario Olguín e no visto, Julio Asad. Não havia problemas com a foto, o problema era a diferença na quantidade de nomes. Fiquei nesse aeroporto, sentadinho em um banco, com um susto tremendo! Veio o embaixador e resolveu”.

Manteve continuidade e ganhou ainda em 1977 a posição de Pernía, para a fúria da numerosa torcida do Boca (“com a seleção, jogamos a final do torneio de Mar del Plata com o Boca. O estádio era todo do Boca, parecíamos uma seleção estrangeira. Ganhamos de 1-0, mas todo o estádio estava contra, uma coisa de loucos”). Olguín foi irrepreensível durante quase todo o mundial. Na final, sua nota na El Gráfico foi 9. Só não levou 10 por um erro quase crucial: ter hesitado em acompanhar Rob Rensenbrink no célebre lance que resultou em bola na trave argentina no último minuto do tempo normal: “se entrasse, teria que cortar meus testículos”. Eleito para a seleção da Copa do Mundo, por ela jogou um 2-2 contra o Cosmos no famoso amistoso em que Cruijff atuou pela equipe ianque, ao lado de Beckenbauer.

O ápice se contrastou com o pós-Copa: “dez dias depois, lembro que jogamos contra o Argentinos no campo do Atlanta, de noite, cem pessoas nas arquibancadas, um frio… nos convidavam de vinte países diferentes, mas tínhamos que seguir em nossas equipes”. Sem receber salários, processou o San Lorenzo. Ficou sem clube. Sentindo-se ameaçado de perder lugar na posição, fez um acordo com Julio Grondona, recém-empossado presidente da AFA: retirava o processo com o San Lorenzo e acertava com o Independiente, outrora presidido por Grondona. Aceitou a proposta mesmo sendo na infância torcedor do Racing (justamente o clube que mais sofreu gols dele, cinco, dois deles no Clásico de Avellaneda). Deu certo: manteve-se na Argentina e acumulou 24 jogos seguidos, uma das melhores marcas de sempre.

Olguín ainda é o único que defendeu a Albiceleste vindo tanto dos azulgranas como dos rojos. Em Avellaneda, foi campeão argentino em 1983, mas ficou menos reconhecido do que poderia: segundo ele, porque o técnico José Omar Pastoriza preferiria pôr o amigo Enzo Trossero. Saiu antes de jogar a vitoriosa Libertadores (e Mundial) do ano seguinte. Uma transferência para o River se encaminhou e Olguín chegou a fazer fotos com o uniforme millonario, mas jamais foi chamado para assinar o contrato e terminou indo ao Argentinos Jrs. Justamente no clube menos pensado, viveria o esplendor da carreira. Por ter revelado Maradona, o clube agigantou sua expressão internacional, mas sua torcida ainda tem porte de equipe de bairro.

Olguín seria fundamental nos outros feitos que alavancariam a imagem externa do Argentinos. O clube de La Paternal, que convivia com o rebaixamento, resolveu jogar o fino da bola em vez de se preocupar apenas em roubar pontos. Em 1984, foi campeão argentino pela primeira vez, algo distante até nos tempos de Maradona (vice em 1980, mas muitos pontos atrás do campeão River), com Olguín marcando o único gol na partida decisiva, contra o Temperley. Em 1985, veio um bi seguido. E, sobretudo, a Libertadores, com direito no Rio de Janeiro tanto Vasco como Fluminense na primeira fase, com autoridade raramente reconhecida pelos próprios brasileiros (vide vídeo acima), que tanto atribuem insucessos locais meramente à “catimba” portenha.

A qualidade daquele Argentinos seria provada no Mundial Interclubes, que esteve a sete minutos de ser vencido sobre a poderosa Juventus. Os bichos colorados cairiam nos pênaltis (Olguín acertou sua cobrança), momento que o defensor, agora um líbero, considera o mais triste da carreira. O clube ainda esteve no páreo na Libertadores de 1986, só caindo no triangular-semifinal no critério de desempate com o River após serem necessários três jogos contra o Millo. No último deles, com prorrogação e tudo, o 0-0 favoreceu o concorrente, que teve as duas traves salvando uma cobrança de falta de Olguín – que era ótimo na bola parada.

A fase era tão boa que o veterano, ausente da seleção desde a eliminação contra o Brasil na Copa de 1982 (como tantos remanescentes de 1978), teve chances reais de ir à Copa do Mundo de 1986. Mas, desaprovando os métodos de Bilardo (agora técnico da seleção; “era um cara que se preocupava mais com o rival do que com a própria equipe, sua obsessão era defender, te fazia olhar mil vídeos para ver como o outro jogava e não para lhe corrigir”), não retornou as ligações. Ex-colegas daquele Argentinos foram, casos de Pedro Pasculli, Claudio Borghi e Sergio Batista – que, ao ser contestado já na Copa de 1990, declararia que “as pessoas sempre precisaram implicar com alguém: em 1986 com Garré, em 1978  com Olguín. Isso me tranquilizou, porque Olguín era um jogador impressionante”.

As camisas da carreira adulta de Olguín: San Lorenzo, Independiente, Argentinos Jrs e seleção. Foi campeão em todas!

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Caio Brandão
Advogado desde 2012, rugbier (Oré Acemira!) e colaborador do Futebol Portenho desde 2011, admirador do futebol argentino desde 2010, natural de Belém desde 1989 e torcedor do Paysandu desde antes de nascer

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