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Rodrigues Neto, o brasileiro que defendeu a seleção portenha

O brasileiro em sua segunda partida pelo Boca, combatendo o ex-gremista Oscar Ortiz, do Independiente e contra quem duelara na Copa do Mundo de 1978

A Argentina já foi representada por alguém nascido no Brasil: foi o caso de Aarón Wergifker, apenas nascido na terra brasilis – era filho de judeus russos que logo se radicaram em Buenos Aires, onde cresceu e virou ídolo do River nos anos 30, sequer tendo documentação de brasileiro, e sim de russo. De todo modo, o mais perto que a história esteve de se repetir deu-se com José Rodrigues Neto: figura de destaque em três grandes cariocas, ele defendeu o Brasil na Copa de 1978 antes de voltar a solo argentino para defender Ferro Carril Oeste, Boca e… a seleção portenha, isto é, da cidade de Buenos Aires. Infelizmente, Rodrigues Neto faleceu ontem. Fica nossa singela homenagem póstuma.

O amigo Emmanuel do Valle destrinchou nessa matéria à Trivela a trajetória de um jogador polivalente quando o termo era xingamento: Rodrigues podia atuar nas duas laterais, na zaga, nas pontas e na armação, um verdadeiro curinga que apenas buscava jogar, exatamente por inicialmente não se firmar em nenhuma posição. Havia sido descoberto pelo Flamengo em excursão dos cariocas ao Espírito Santo, onde o mineiro atuava, ainda com idade de juvenil, no Vitória capixaba. Em anos de relativa seca prévios à Era Zico, pôde chegar à seleção brasileira em 1972.

Os primeiros intercâmbios com argentinos se deram no próprio Flamengo, onde foi colega dos hermanos Rogelio Domínguez (ex-goleiro do Real Madrid de Di Stéfano); e, sobretudo, do ponta Narciso Doval, quem criou-lhe o apelido de “Toribio”, nome de um conhecido que seria semelhante a Rodrigues. Houve ainda o técnico Manuel Fleitas Solich, que antes de consagrar-se na história rubro-negra havia sido um xerife no Boca da virada dos anos 20 para os 30 – e até defendido a própria seleção argentina, em esquecido amistoso não-oficial contra um Barcelona em turnê.

Em pé no Flamengo, com os argentinos Domínguez (o goleiro) e Doval (o loiro). No Fluminense, à frente do mesmo Doval e de Carlos Alberto Torres. E último em pé antes do Brasil x Argentina na Copa de 1978: três intercâmbios prévios de Rodrigues Neto com os hermanos

Um pedido de dispensa da seleção deixou Rodrigues no ostracismo canarinho por alguns anos, mas sua boa fase em rivais lhe devolveu à seleção: primeiramente, brilhou na Máquina Tricolor do Fluminense campeão estadual de 1976 (onde reeditou a parceria com Doval após ambos serem inclusos no famoso “Troca-Troca” entre a dupla Fla-Flu); depois, esteve entre 1977 e 1978 em um Botafogo que, mesmo sem taças, emendou um recorde nacional ainda hoje vigente – o de 52 jogos invictos seguidos.

Rodrigues ganhou de Edinho a titularidade na lateral-esquerda na maior parte da Copa de 1978, inclusive no tenso clássico com a Argentina, onde saiu lesionado. Mas deixou boa impressão. Em tempos em que o nível de futebol (e de vida) de argentinos e uruguaios não deviam ao europeu e em que ir à Europa chegava a ser até mesmo um empecilho para seguir na seleção, não era incomum bons jogadores brasileiros preferirem um exterior mais próximo de casa – na geografia e no idioma.

Se a dupla Peñarol e Nacional importou naqueles anos respectivamente Jair e Marcelo Oliveira (na época, o técnico bicampeão brasileiro com o Cruzeiro em 2013-14 ainda era apenas “Marcelo”), André Catimba tornou-se em 1980, no Argentinos Jrs, o primeiro brasileiro a ser colega de Maradona; o Talleres teria em 1981 um xodó em Júlio César “Uri Geller”; Toninho Cerezo flertou seriamente com o River e, ainda em 1979, um colega de Rodrigues Neto no Botafogo foi brevemente incorporado pelo Rosario Central: Mário Sérgio.

A revista Placar retratando em 1979 a boa fase de Rodrigues Neto no Ferro Carril Oeste, matéria que pode ser lida aqui. Vale notar o “vi Maradona e concordo: é fora-de-série”

Também em 1979, o lateral foi recebido pelo Ferro Carril Oeste, que, se possuía um histórico modesto no futebol, era um clube institucional dos mais elitistas e prestigiados do país. E que já tinha algum retrospecto com brasileiros, do goleiro Jurandyr em 1940 (vindo do então Palestra Itália paulista, seria ídolo no Flamengo depois) aos atacantes Rudymar em 1961, contratado junto ao Huracán após títulos por Santa Cruz e Grêmio, e Araras (ex-Santos) em 1962.

Juntamente do ídolo local Gerónimo Saccardi, que voltava após carreira espanhola, o Rodrigues Neto era o grande reforço para um elenco que, por sinal, recém-voltava à elite após vencer a segundona de 1978. E estreou já com um raro gol: cobrando falta, liquidou no último minuto um 3-1 em visita ao Independiente (que, semanas antes, havia se sagrado campeão do Torneio Nacional de 1978), na rodada inaugural do Torneio Metropolitano. El Negro também seria eleito o melhor em campo em uma virada por 2-1 sobre o Boca nesse mesmo campeonato. 

Ao todo, Rodrigues Neto, seja na lateral-direita ou na esquerda, atuou 63 vezes como verdolaga e deixou dois gols, mas que gols: vitimou simplesmente a dupla de Avellaneda. Além daquele sobre o Independiente, anotou sobre o Racing, já pela 11ª rodada do Metropolitano de 1980 – em uma das partidas mais recordadas pela torcida do FCO. O oponente vencia por 3-1 ao fim do primeiro tempo e ampliaria para 4-1 no início do segundo. Novamente cobrando falta, o brasileiro já coroava uma senhora reação, empatando em 4-4 aos 31 minutos para já desatar loucura em Caballito. Duelo que ganhou ares mais épicos com a incrível virada para 5-4, aos 42.

De verde-e-amarelo para verdolaga, a cor lhe caiu bem

Além da montanha-russa, o jogo serviu para dar um respiro ao treinador Carlos Griguol, que tinha até então somente duas vitórias em dez jogos no cargo; o comandante de 1979 havia sido Carmelo Faraone. Seria com Griguol e aquele mesmo time-base que o clube logo iniciaria sua melhor época no futebol, a partir do segundo semestre de 1980, primeiramente com um 3º lugar em seu grupo no Torneio Nacional. Em 1981, então, a equipe saltaria para vice tanto no Metropolitano como no Naconal – e respectivamente para o Boca de Maradona e para o River de Kempes.

O título inédito ao clube enfim viria no Nacional de 1982, e outro se daria na edição de 1984. O “Ferro de Griguol” também pôde brigar até a rodada final pelos Metropolitanos de 1983 e 1984. O brasileiro, contudo, não permaneceu para aquela fase mais mágica: fizera ainda em 16 de novembro de 1980 sua última partida “oficial” no Ferro, deixando ainda assim grata recordação. E, de certo modo, uma contribuição nada indireta ao ciclo, dada a importância daquele gol no Racing para a permanência de Griguol no cargo. Amostra disso é que, naquele ano de 1980, foi ele inclusive o mais ilustre “intruso” de uma seleção da capital federal.

A cidade de Buenos Aires comemorou quatrocentos anos em 1980 e isso resgatou uma esquecida tradição de jogos entre “capital” e “interior”, duelos bastante comuns até o início do profissionalismo. Em tempos em que a liga argentina não ia muito além da Grande Buenos Aires, a seleção do interior era então um combinado normalmente baseado nos clubes de Avellaneda e La Plata, além de um ou outro alguém de Lanús, Banfield ou Quilmes. Mas, com a vitrine angariada pelos clubes rosarinos (admitidos em 1939 no torneio argentino), santafesinos (admitidos nos anos 40) e cordobeses (com boom desde os anos 70), estaria reforçada com craques também dessa procedência. 

Euforia na tarde em que derrota de 4-1 para o Racing virou vitória de 5-4, em 3 de abril de 1980. Claudio Crocco, sem camisa, fez o gol da virada e o brasileiro, o do empate

Naquela ocasião, Rodrigues Neto também era junto de Maradona o único titular da “capital” vindo de um time ainda sem título na elite argentina na escalação Ubaldo Fillol (River), o brasileiro, Hugo Pena (San Lorenzo), Daniel Passarella (River) e Vicente Pernía (Boca, pai de Mariano Pernía, da seleção espanhola da Copa de 2006); Reinaldo Merlo (River), Carlos Babington, Miguel Ángel Brindisi (ambos Huracán) e Norberto Alonso (River); René Houseman (Huracán) e Dieguito (ainda no Argentinos Jrs). No decorrer do jogo, os portenhos acionaram outro estrangeiro, o goleiro uruguaio Walter Corbo, do San Lorenzo, assim como Francisco Sá (Boca) e Juan Rocchia, colega do brasileiro no Ferro.

Aquele jogo beneficente de 11 de junho de 1980 foi histórico também por outras razões: aquela foi a única partida em que Maradona e Beto Alonso jogaram juntos. Alonso era outro canhoto genial a vestir a camisa 10, uma espécie de Zico do River, embora fora da Argentina seja mais conhecido exatamente como um dos jogadores que “roubaram” vaga que poderia ter sido de Diego na Copa de 1978 – supostamente por pressão dos militares. Mas a seleção do interior venceu, com a escalação Nery Pumpido (Unión); Jorge Olguín (Independiente), José van Tuyne e Victorio Ocaño (ambos Talleres), Julio Olarticoechea (Racing), Américo Gallego (Newell’s) e Ricardo Bochini (Independiente); Santiago Santamaría (Newell’s), Edgardo Di Meola (Colón) e Miguel Juárez (Platense). Em negrito, quem venceu Copa do Mundo, valendo destacar que Van Tuyne e Santamaría iriam ao Mundial de 1982.

Também jogariam Alberto Vivalda (Racing), Jorge García (Rosario Central), Omar Roldán (Racing), Patricio Hernández (Estudiantes) e Fernando Alí (Unión), nos lugares de Pumpido, Van Tuyne, Gallego, Bochini e Juárez, respectivamente. Hernández, inclusive, foi o autor do único gol – e, embora até disputasse a Copa do Mundo de 1982, com o tempo ficaria menos famoso no país do que um casal de sobrinhos: Juan Martín Hernández e María de la Paz Hernández brilharam respectivamente pelos Pumas (a seleção masculina de rugby) e pelas Leonas (a seleção feminina de hóquei) nas valorizadas gerações que a Argentina desfrutou nos anos 2000 nesses outros gramados.

Rodrigues Neto, pelo Boca, até enfrentou o Ferro, mas sem exercer a lei do ex. Os velhos colegas o golearam

Apesar da derrota portenhoa mesmo dentro do Monumental de Núñez, ficou o curioso registro de um brasileiro envergando o distintivo da AFA no peito (ainda que de um uniforme todo branco; o adversário usou, por sua vez, um todo azul). Em 1981, Rodrigues Neto permaneceu nos pampas para defender o Internacional, faturando ao fim do ano dentro do Olímpico o estadual sobre um Grêmio que havia pela primeira vez ganho o Brasileirão. No segundo semestre de 1982, após o Brasileirão, foi então requisitado novamente por seu antigo técnico no Ferro, Carmelo Faraone, que agora treinava o Boca.

O brasileiro, porém, calhou de rumar a um gigante que se via drenado economicamente: o dólar, moeda usada para contratar em 1981 o astro Maradona, havia se valorizado em 240% com os desmandos da ditadura agravados pelo fator Malvinas. O time, que precisara se desfazer de Diego ainda antes da Copa do Mundo de 1982, iniciou uma longa década perdida. Rodrigues Neto, que já tinha 33 anos incompletos, também foi atrapalhado por lesões e não lembrou o jogador insinuante dos tempos de Ferro, atuando só doze vezes de julho a dezembro como xeneize. No reencontro com o ex-clube, os ex-colegas de Ferro não tiveram dó, aplicando um 3-0 sobre os auriazuis.

Em fim de carreira, Rodrigues Neto rumou ao São Cristóvão para uma experiência de jogador-treinador antes de uma excursão de veteranos a Hong Kong render um contrato com um clube do então território sino-britânico, cuja liga vivia relativa pujança em atrair ocidentais veteranos tal como a J-League faria nos anos 90 e a liga chinesa na década passada. No Eastern, o brasileiro foi campeão e até artilheiro da copa local de 1983-84, pendurando então as chuteiras. Diabético, foi vitimado por uma trombose. Que possa descansar em paz.

Passarella, Pernía, Merlo, Pena, Rodrigues Neto e Fillol; Houseman, Brindisi, Alonso, Maradona e Babington. A seleção da cidade de Buenos Aires reunida em 1980

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Caio Brandão

Advogado desde 2012, rugbier (Oré Acemira!) e colaborador do Futebol Portenho desde 2011, admirador do futebol argentino desde 2010, natural de Belém desde 1989 e torcedor do Paysandu desde antes de nascer

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