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Tal pai, tal filho: 55 anos de Luis Fabián “Luifa” Artime, maior artilheiro nacional do Belgrano

Com atualizações após longa entrevista dada por ele ao La Nación em 25 de setembro de 2022, altura em que ele já havia sido eleito (em fevereiro de 2021) presidente do Belgrano

Equiparar a carreira no futebol à de um pai famoso é daquelas missões para poucos. E Luis Fabián Artime, decididamente, não fez tanta história no futebol como o xará – e progenitor – Luis Artime, o grande matador de River, Independiente, Palmeiras e homem-símbolo do primeiro Nacional campeão de Libertadores e Mundial. Mas El Luifa (apelido derivado da contração de seus dois prenomes) soube ter um papel digno: é o maior artilheiro que a apaixonada torcida do Belgrano celebrou na liga argentina. A própria família reconheceu que em Córdoba é Luis Artime quem é “o pai de Luifa”, e não este quem é “o filho de Luis”. Vale relembrar a trajetória do matador celeste, que hoje faz 55 anos.

Luifa formou-se em um ambiente de menor pressão familiar, o do Ferro Carril Oeste – onde no máximo houve em 1933 um outro Artime, que, contudo, só somou duas partidas no time principal verdolaga. Ingressou nas categorias de base convidado por um amigo da família, Carlos Timoteo Griguol, antigo colega de Artime pai no período áureo do Atlanta. De início, conciliava os juvenis do FCO com os estudos, uma exigência tanto dos pais como do próprio Griguol, e até mesmo ao trabalho “paitrocinado” na loja esportiva que seu velho empreendia com outro velho parceiro, Daniel Onega. Inclusive conciliou também seu início universitário também. A respeito desses inícios, detalhou assim ao La Nación:

“Timoteo era muito amigo do meu pai. Íamos de férias juntos muitas vezes a Mar del Plata e Timoteo me via jogar as peladas e insistia com meu pai para me levar ao Ferro, mas meu pai não queria saber de nada até que eu terminasse de estudar. Ao fim, Timoteo insistiu tanto, que meu velho cedeu, e terminei a escola à noite. Timoteo foi um adiantado. Não te ensinava só de técnica e tática, te trabalhava a cabeça, te cultivava coisas para a vida. Te trazia um contador para que soubéssemos cuidar da grana. Te fazia assinar os contratos. Timoteo salvou a vida de muitos companheiros que não tiveram a sorte de fazer uma grande carreira e com essas poupanças puderam comprar uns apartamentos e hoje vivem dessas rendas. Em 1983 nos trouxe uma ginecologista para que desse uma conversa de educação sexual, quando havia companheiros que não sabiam o que era uma camisinha”. Naquele ano de 1983, a propósito, Artime integrou a equipe sub-20 campeã argentina do campeonato da categoria.

“Treinava de manhã no Ferro, almoçava em casa, ia trabalhar umas duas horinhas no negócio [do pai] e daí ia à escola. Vai dizer que não poderia estudar e trabalhar! Fiz as três coisas ao mesmo tempo e meu irmão, o mesmo. Quando comecei a treinar no sub-17 do Ferro, tive que passar à escola noturna. Precisava terminar o segundo grau, com Timoteo e [o auxiliar técnico] o Cai Aimar não se brincava: tínhamos que apresentar os boletins do colégio, ou não jogávamos. [Anos depois] Estava na licenciatura em educação física e me lesionei. Estava no sub-19 do Ferro, então disse a meus velhos que ia deixar de estudar para tratar de ser jogador. O escândalo que meu velho fez! Me dava o argumento lógico, que hoje dou aos garotos dos juvenis: muitos poucos têm sucesso, é preciso estudar e estar preparados. No final, me posicionei com meu velho: ‘tento estes 9 meses, se ao fim do ano não me fazem contrato, me dedico ao estudo’. E ao fim do ano o Ferro me fez meu primeiro contrato. Eram todos craques os dessa turma nascida em 1965. Lembro que um dia me disseram: ‘são uns fenômenos comparados a ti, mas sabe quem vai chegar lá entre todos eles? Você. Porque você treina todos os dias’. E foi assim. Ninguém chegou lá, eu tinha o profissionalismo muito metido na cabeça”.

A partir de 1985, ele começou a frequentar o banco de reservas da equipe adulta, embora sem ainda entrar em campo. “Jogava toda a partida do sub-19, e ao terminar me esperava Aimar com a muda de roupa e me mandava ao banco. Assim foi durante 5 jogos, e estreei em 20 de janeiro [de 1986], um mês depois de completar 20 anos. Ou seja: não queria que eu estreasse com menos de 20. E enquanto isso me sentava ao lado de Márcico, Brandoni, Arregui, Cúper, escutava a preleção técnica, cheirava o vestiário do time principal”. A estreia nele veio pela 25ª rodada do campeonato de 1985-86. De modo auspicioso: marcou o único gol do duelo com o cascudo Deportivo Español da época, time que estava entre os líderes; Los Gallegos, de fato, ficariam com o bronze. Parecia um conto de fadas instantâneo, pois seu pai estava na arquibancada testemunhando. Mas…

Ainda promessa do Ferro, com o quarentão Hugo Gatti, goleiro do Boca que jogara com seu pai no Atlanta e no River; e no time de veteranos, com outra revelação do clube, Roberto Ayala

“No jogo seguinte, [Griguol] não me pôs, não podia acreditar. E assim foi me alternando: um jogo sim, outro não, um sim, outro não. Para me levar de pouco a pouco. Depois dessa minha estreia com gol, fizeram reportagens de mim por todos os lados: ‘o filho do gol estreou com gol’, e coisas assim. Estava numa nuvem deslumbrada e assim fui me levando por seis meses, para que ficasse centrado. Por dentro, o xingava como um condenado, mas tinha razão. Timoteo era um craque até nessas decisões. Vejam hoje como se queimam todos garotos por má adaptação. Nem falar do rol daninho que jogam as redes sociais, graças a Deus nós não as tínhamos. Hoje as redes sociais não só podem frustrar um jogador pelas coisas que se dizem, como também geram problemas a suas famílias”.

O Ferro ficou em um razoável 6º lugar e, no pós-temporada, avançou até as semifinais da liguilla pre-Libertadores. Os outros dois gols do jovem Artime se deram naquele minitorneio, sobre o Güemes de Santiago del Estero (2-1, fora de casa) e em outro duelo contra o Español (4-1). Os números foram similares na temporada seguinte, de 1986-87: Ferro em 6º e semifinalista da liguilla, com Artime já marcando seus primeiros gols sobre a dupla Boca (1-1) e River (derrota de 2-1), além de outro no Español (1-0). Em meio àquele início promissor, ele até defendeu o Nacional uma vez: e em pleno amistoso contra o Peñarol, em 19 de dezembro de 1986, pela “Copa de Oro de los Grandes”. O rival venceu por 2-1.

Além da derrota, a cogitada transferência a Montevidéu não era aprovada pelo patriarca: “é foda, é foda. No Belgrano, ele foi muito bem, eu não queria que jogasse no Independiente, onde por fim jogou, nem no Nacional, que o veio buscar várias vezes. Dizia que não, porque é foda. Eu ganhei tudo no Nacional, o que fazer? Qualquer coisa que fizesse ia ser pouco”, confessou nessa entrevista o octogenário Artime pai com toda sua dificuldade de fala (sofreu derrame há alguns anos, tendo priorizado a total recuperação locomotora, acabando por guardar sequelas fonoaudiológicas embora tenha lucidez plena).

Luifa não oficializou a troca para o Nacional também, segundo ele, por não ter empresários. O que realmente brecou o início de carreira foram reiteradas lesões. Um perfil seu no guia Super Fútbol de 1989, que revela que seu apelido na época ainda era El Toro, descreve-o como “forte, aguerrido. É goleador por uma questão de linhagem. Vai bem à frente e gosta muito da área. Nos últimos tempos, esteve distante dos campos devido a uma série de lesões, por isso seu nome não se ouviu tanto como em seus começos, quando foi considerado um atacante com muito futuro”. Somou somente cinco gols entre as temporadas 1987-88 e 1988-89 (incluindo… em 3-2 no Español em 1987) e o Ferro começou a despencar, finalizando em 14º e 18º respectivamente.

Ainda assim, o garoto estava em alta. Já para a temporada 1988-89, outro antigo colega de seu pai, José Omar Pastoriza, havia sido contratado pelo Boca, clube pelo qual Luifa torcia na infância (“meu pai é Racing e minha mãe, do River, mas eu tinha um tio que vivia ao lado e era do Boca. E como passava muito tempo com ele, me fez Boca. Meu ídolo era Rubén Suñé e as voltas da vida me levaram a casar com Marina, filha dele, a quem conheci nas férias que compartilhávamos em Mar del Plata. Tivemos três filhos: Iván Artime Suñé, Rodrigo Artime Suñé e Lucio Artime Suñé”), e quis leva-lo para lá. Para a de 1989-90, Pastoriza o garoto pôde acertar com o Independiente, onde ironicamente o racinguista que seu pai sempre foi havia sido ídolo.

Seu pai com Gatti e Griguol, mestre inicial que Luifa teve na carreira profissional. À direita, pai e filho

Não bastasse o peso enorme do sobrenome de um pai consagrado no Rojo pelo histórico título de 1967, Luifa, ainda sem gols em Avellaneda, calhou de ser o vilão do vice-campeonato na Supercopa de 1989, em novembro. Foi justamente o pressionado novato o único a perder sua cobrança na decisão por pênaltis que coroou em plena Doble Visera um Boca em jejum (em final realizada a quatro dias do aniversário do pai, também aniversariante em dezembro…). Capitão adversário e ele próprio ex-jogador do Independiente, o elegante Claudio Marangoni, espécie de Redondo dos anos 80, se comoveu a ponto de escrever-lhe uma carta aberta de apoio.

“É provável que se eu convertesse esse pênalti houvéssemos sido campeões e me vendessem à Europa, e era capaz que eu não vestisse jamais a camisa do Belgrano, então não me arrependo nem amaldiçoo o que aconteceu, ao contrário. Minha história estava escrita para que fosse assim. Depois dessa final estive sete dias sem poder me mexer, seguia ligado pelos nervos. No primeiro jogo depois da final, tão logo entrei vindo do banco, a torcida do Independiente gritou meu nome em coro. É algo que vou agradecer ao pessoal do Rojo, ainda que com certeza a maioria não terá uma boa recordação de mim. Por sorte, depois o Independiente pôde ganhar duas vezes a Supercopa”.

Ao fim da temporada, o Independiente também foi vice-campeão do campeonato argentino, mas comendo poeira de um River vencedor com rodadas e rodadas de antecedência. Artime contribuiu silenciosamente com cinco gols, todos já em 1990. Mas, nem assim, se sentia prestigiado, entre a soma do pênalti perdido com as inevitáveis comparações com o pai: “uma vez, ganhamos de 3-1 do Gimnasia, meti dois gols e no outro deixei o Gallego Insúa na cara para que convertesse [na verdade, foi 3-0, em 22 de abril de 1990, com o outro gol sendo de Rogelio Delgado mesmo]. Entrei no meu Fiat Uno no estacionamento, se aproximou um velhote e me disse: ‘foste muito bem hoje, garoto, mas teu pai teria feito cinco gols’. Era muito difícil! O sobrenome ajudou a me dar visibilidade. No Ferro não tive problemas, mas depois no Independiente foi uma cruz que tive que carregar”. Pastoriza, aquele mesmo que o queria no Boca, era novamente técnico no Independiente e respaldou o quanto pôde o filho do antigo parceiro.

Luifa até chegou a ser o artilheiro do elenco na temporada 1990-91, mesmo que com apenas seis gols – um na Supercopa, curiosamente contra o Nacional, na eliminação no estádio Centenário; um no Apertura, no 1-1 com o San Lorenzo, três no Clausura, incluindo em 3-1 no Español, e em outros dois duelos contra o San Lorenzo, já pela liguilla. Mas não bastou para sobreviver a uma entressafra do Rojo, apenas 10º no Apertura 1990, 5º no Clausura 1991 e 11º no Apertura 1991. Esse foi o capítulo final de Artime em Avellaneda, após somente oito jogos, zero gols e até uma expulsão. O destino foi reforçar um novato na primeira divisão argentina. Ou, nas palavras que Artime deu ao La Nación: “em um verão em Mar del Plata, disse a Timoteo [Griguol]: ‘estou para ir embora do Independiente’. E Timoteo me disse: ‘trace uma linha da capital federal e vá o mais longe possível’. Tinha propostas do Gimnasia e do Estudiantes [ambos de La Plata], do Unión e do Colón [ambos de Santa Fe], e do Belgrano [de Córdoba, cidade mais distante de Buenos Aires em relação às outras duas]. ‘Vá ao Belgrano, que além de tudo é uma equipe com tuas características’, me disse o velho, que conhecia bem o futebol cordobês”.

E assim, no Clausura da temporada 1991-92, começou a trajetória de idas e vindas pelo Belgrano. O reforço, entretanto, não foi um sucesso instantâneo por La B: seus gols começaram a sair apenas no Clausura 1992; foram quatro pelo 10º colocado. “Os primeiros sete jogos foram ruins. Contra o Newell’s do Bielsa no [estádio Gigante de] Alberdi, numa sexta-feira à noite, perdemos de 3-1 e [o técnico belgranense] Victorio Cocco me tirou aos 10 do segundo tempo e me xingou todo o estádio. Dois jogos depois, ganhamos de 3-0 do Estudiantes e fiz meus dois primeiros gols. Nesse dia me fizeram uma reportagem ao vivo e, ao terminar, um monstro do jornalismo cordobês, El Negro Víctor Brizuela, disse com estas palavras: ‘algum dia, alguma rua em Alberdi se chamará Luis Fabián Artime, El Luifa‘. Escutei esse final com os fones de ouvido colocados e pensava: ‘veja o que diz esse velho safado, que terá visto mil Copas do Mundo’. Sua opinião era palavra maior”.

Não suportou a pressão de se sobressair no Nacional e no Independiente, onde o pai (curiosamente, torcedor do Racing) fora ídolo. Nem em outro gigante, o San Lorenzo

O jogo seguinte foi precisamente seu primeiro Clásico Cordobés, enfrentado um Talleres treinado justamente por Pastoriza. Seria seu clique. Ele acabou trombando com o adversário Catalino Rivarola (futuro xerife gremista) e, na queda, rompeu os ligamentos do cotovelo, precisando imobilizar o braço. Fez questão de seguir jogando… e foi premiado: “sempre fui um cara metedor, de peitar, de ir de frente, de não arregar. Mesmo nos jogos em que não fazia gol, de igual modo chocava com todos. Errava no gol porque era um burro, ou arrebentava o peito do goleiro porque não sabia colocar rente à trave, mas sempre me entreguei. Eu fui um centroavante que amadureceu tarde; se houvesse maturado antes, talvez nunca pisasse em Córdoba, iria à Europa. Meti os dois primeiros gols no Estudiantes e uma semana depois me calhou de meter um gol incrível no clássico, com o braço imobilizado”.

“Nesse dia escutei pela primeira vez o ‘Luifa, Luifa‘. Me imobilizaram o braço, sinalizei a Victorio Cocco para que não me substituísse e na primeira bola que recebi, girei e meti o 2-0. Saí gritando com um só braço, uma loucura, e em seguida pedi a substituição, não aguentava mais de dor. Ganahmos por 2-1 ao final. Depois desse jogo, fui a um hospital fazer a ressonância e os torcedores me acompanharam, a tal ponto que fecharam a rua. Aqui as pessoas imaginavam meu velho pelas fotos da revista El Gráfico ou por comentários da rádio, não o viram jogar, e isso me ajudou para que não o tivesse presente e me permitisse crescer sem essa comparação permanente”.

Não seria a última vez que ele seria carrasco de um Talleres treinado por Pastoriza, a ponto de contar ao La Nación que em uma dessas vezes o mestre “me agarrou antes de entrar no vestiário, me deu um abraço e me disse: ‘que filho da p…, me arruinaste hoje, mas não sabes como gosto de ti’. No Apertura 1992, Artime enfim explodiu, com dez gols. Além de aplicar a lei do ex em vitória sobre o Independiente por 2-0, vazou ainda os grandes Racing (1-0) e San Lorenzo (3-3), terminando a dois gols da artilharia do torneio, mesmo pelo 8ª colocado. Na sequência, em 1993, a campanha no Clausura foi mais medíocre, em 14º, mas Artime e o Belgrano puderam avançar até a primeira etapa final da Copa Centenário da AFA. Os vencedores da fase de mata-matas foram os cordobeses e o forte Gimnasia LP da época. Os platenses prevaleceram, jogando os celestes para um mata-mata à parte entre os eliminados.

“Sentia que me perdoavam tudo, às vezes errava um pênalti e não me diziam nada; mandava à bandeirinha do escanteio, mesma coisa. Mas me ocorria algo curioso: às vezes o goleiro espalmava o pênalti e desse escanteio eu metia o gol de cabeça, incrível. É para um filme a minha história. O primeiro grito de combate do cordobês, quando alguém chega de Buenos Aires, é ‘portenho filho da p…’, e a mim terminaram adotando. E esse portenho permaneceu aqui e tive filhos cordobeses. Foi um trabalho duríssimo, porque essa pátria interior é orgulhosa. Tive ofertas para ir ao Monaco e ao Betis, mas em Córdoba me sentia Deus, e digo sem acreditar nisso e sem soberba. Minha família estava muito contente, e eu era o cara mais feliz do mundo. E fquei, devo ser um dos últimos românticos do futebol”.

Um desentendimento com o treinador celeste de então, Fernando Areán (“que foi um dos melhores técnicos que tive, um cara que no intervalo te mudava o destino do jogo com duas indicações, mas houve algumas coisinhas que fez e não me agradaram, e que tampouco direi agora por respeito aos mortos”), porém, fez com que Artime deixasse Alberdi pela primeira vez. Acertou com o San Lorenzo, com o Apertura 1993 já em andamento: ainda jogou a 1ª rodada por La B, ao passo que na 3ª já estreava como azulgrana. Não foi auspiciosa: “contra o Boca na Bombonera, joguei uns 25 minutos iniciais impressionantes, mas em uma jogada El Manteca [Sergio] Martínez me deu um carrinho por trás e sem querer me cortou um ligamento do joelho. Estive 45 dias para voltar a jogar, e nesse ínterim apareceu El Bailín [Eduardo] Bennett, meteu um montão de gols e já não tive mais chances”, declarou ao La Nación.

Começando a arrebentar no Belgrano, em 1992. E já ídolo em 1996, carregando o futuro pontepretano Darío Gigena após o clássico que estendeu um pouco mais o tabu de 15 anos para cima do Talleres

Não foi exatamente assim. Artime realmente demorou até a 7ª rodada para voltar a campo, mas chegou a ter uma sequência interessante de gols no San Lorenzo, ao menos a partir da 10ª rodada. Foi em 14 de novembro, ocasião em que ele, saído do banco, pôde aplicou novamente a lei do ex sobre o Independiente, derrotado na 10ª rodada do Apertura por 3-1 no estádio do Huracán – ainda alugado pelo San Lorenzo enquanto não se inaugurava o Nuevo Gasómetro. A inauguração do novo estádio sanlorencista veio em 16 de dezembro e Luifa marcou um dos gols da noite histórica (encerrando 14 anos em que o Ciclón não teve casa própria), no 2-1 amistoso sobre a Universidad Católica, então vice da Libertadores. Cinco dias depois da festa, ele até descontou para 3-2 uma derrota para o River ainda pela Copa Centenário – era a semifinal daquele mata-mata à parte entre os eliminados.

Vieram então os tradicionais amistosos de verão entre os gigantes e Luifa se sobressaiu, anotando no 1-1 com o Racing, no 3-0 sobre o Boca e no 2-0 sobre o Independiente. Esses resultados, somados a um 1-1 com o River, renderam aos cuervos o troféu de campeões simbólicos da Copa Ouro Cidade de Mendoza, que sediou as partidas, e alimentou expectativas quanto à calibragem do pé de Luifa, artilheiro daquela pré-temporada. O problema é que a seca voltou incrivelmente na retomada dos jogos competitivos, pelo Clausura 1994: “um de tantos atacantes que fizeram gols em todos os lados, menos no San Lorenzo”, definiu seu diminuto perfil no Diccionario Azulgrana. Ao todo, seu único gol oficial foi mesmo aquele sobre o Independiente no Apertura (que até pesaria no fim: o ex-clube terminaria a dois pontos daquele título). Em dezessete jogos…

O Belgrano, que já havia despedido àquela altura o desafeto Areán, estava de portas abertas e Artime logo voltou a mostrar que nasceu para vestir mesmo a camisa celeste: assim que voltou, logo fez-se o terceiro jogador na artilharia do Apertura 1994, vazando no caminho o Independiente (em derrota de 3-1), o Racing (1-1), o campeão River (1-1), o freguês Español (3-2) e, sobretudo, o único do clássico com o Talleres. La B foi 6ª colocada, sua melhor colocação na década. No Clausura, a ressaca foi grande: Luifa até se deu ao gosto de marcar o único gol de um triunfo belgranense dentro de La Bombonera sobre o Boca, mas o Pirata despencou para 17º. Não houve maior reação na temporada 1995-96, a resultar no primeiro rebaixamento do clube do bairro Alberdi, lanterna do Apertura e 13º no Clausura.

Ao La Nación, o artilheiro pontuou que o clube sempre estava fadado a lutar contra rebaixamentos naquele período, em que as receitas televisivas eram recorrentemente penhoradas para saldar forçosamente as dívidas da instituição, que conseguia pagar jogadores e demais funcionários basicamente a partir do que conseguia nas bilheterias – sem haver margem para fortalecer satisfatoriamente o elenco. O artilheiro ficou para a Primera B Nacional de 1996-97, vencida pelo tradicional Argentinos Jrs. A outra vaga de acesso seria definida em um mata-mata com os melhores abaixo do líder. Em 5º lugar na temporada regular, o Belgrano deu-se ao gosto de impor ao Talleres nada menos que 15 anos de jejum no Clásico Cordobés (naquele duelo os alviazuis chegaram ao cúmulo de usar supersticiosamente uma camisa reserva grená, em vão) com um triunfo de 2-0 em setembro, embora o rival pudesse ir à forra em novembro com um famoso 5-0.

O dérbi quase voltou a ocorrer na final do mata-mata de 1996-97. Mas La B caiu nas semis para o Gimnasia y Tiro de Salta, que adiante prevaleceu sobre La T. O artilheiro contribuiu com treze gols e seguiu para mais uma temporada na segundona, com um regulamento mais intrincado. Na edição de 1997-98, a fase regular da Primera B Nacional serviria apenas para formar dois grupos e o futebol cordobês mostrou-se forte, com o Instituto em 1º, Belgrano em 2º e Talleres em 3º. Já os grupos terminaram liderados por La B e La T, que então fizeram a final aguardada desde o ano anterior – agora, pelo título e única vaga direta de acesso. O rival venceu a ida e perdeu a volta pelo mesmo placar, revertendo-a ao triunfar na decisão por pênaltis. O bairro de Alberdi não riu melhor, mas riu por último, ao prevalecer nos mata-matas pelo segundo acesso. Já com 32 anos, o ídolo ainda contribuiu com oito gols nessa agridoce volta celeste à elite.

Nos sempre renhidos clássicos cordobeses

O regresso à primeira divisão não foi feliz. O Belgrano foi vice-lanterna do Apertura 1998 e no máximo 9º do Clausura 1999. Luifa anotou seis vezes na temporada inteira e foi visto como dispensável pelos cartolas, não acertando uma renovação de contrato: ele reforçou o Tigre na segunda divisão de 1999-2000, registrando quatro gols pelos rubroazuis enquanto o ex-clube seguia patinando na tabela de promedios da primeira divisão, com o antepenúltimo lugar no Apertura 1999 (enquanto o Talleres se gabava com a Copa Conmebol). O Tigre não ia muito melhor na segundona, sendo rebaixado antecipadamente. Foi a deixa: “queriam limpar 10 jogadores, então falei com o presidente e lhe disse: ‘não limpem 10 jogadores, o clube precisa deles, saio eu e pronto’. Eu sabia que me queriam no Belgrano e era o mais saudável a todos. O certo é que no Tigre eu não rendi”.

Com o Clausura 2000 na reta final, Artime voltou a Córdoba como bombeiro. Marcou só dois gols, mas vitais para a permanência: o primeiro deles, no da vitória por 2-1 sobre o Estudiantes na 17ª rodada, decisivo para garantir a La B a sobrevida de uma repescagem contra o Quilmes. O duelo com o Cervecero guardou um dos momentos mais épicos já festejados pela torcida do Pirata, que jogava por dois resultados iguais. O adversário, na ida em casa, venceu por 3-1, com Artime sendo informado após o jogo que uma de suas avós havia falecido. Na volta, com uma camisa retratando-a por debaixo do manto belgranense, ele tratou de abrir o placar cedo, aos 16 minutos.

O roteiro do que veio depois foi atribuído por ele ao espírito daquela avó: os visitantes empataram e a missão parecia complicada quando o celeste Javier Villarreal foi expulso. O 1-1 seguia no placar do então Estádio Chateau Carreras (o atual Mario Kempes) até os 20 minutos finais. Foi quando Luifa praticamente converteu um segundo gol, ao forçar o oponente Humberto Váttimos a marcar contra. Dez minutos depois, foi a vez do compadre Luis Ernesto Sosa acertar uma falta para decretar o 3-1 suficiente para a heroica salvação.

Com moral, Artime seguiu intocável no bairro Alberdi por mais uma temporada de luta contra o rebaixamento. Aos 35 anos, ele ainda era capaz de marcar seis gols pelo 16º colocado do Apertura 2000, incluindo em mais um Clásico Cordobés (1-1) e no River (vencedor por 4-2). No Clausura, novo 16º lugar empurrou o Belgrano para nova repescagem contra o Quilmes. Os cordobeses outra vez levaram a melhor e, com a missão cumprida, Luifa, também às voltas contra cartolas contra quem batia de frente no clube, buscou no Apertura 2001 mais tranquilidade no Gimnasia. Esse era então a equipe forte de La Plata, e treinada pelo velho mestre Timoteo Griguol. O veterano, porém, chegou justamente em momento de baixa do griguolismo, com o mentor à beira da demissão. Sem espaço, o novato registrou só quatro partidas no Lobo, saindo do banco em todas; em duas delas, teve menos de dez minutos em campo.

A volta do Messias: aos 35 anos, abre o 3-1 sobre o Quilmes em 2000, salvando o Belgrano do rebaixamento

Mas não encontrou espaço no Lobo, registrando só quatro partidas, todas saindo do banco – em duas delas, com menos de dez minutos para o fim. Os gols que não vieram lá, porém, sobrariam no Peru. Carlos Biasutto, o mesmo treinador que o havia prospectado para o Belgrano em 1992, treinava o Melgar. Em resumo: “estavam complicados contra o rebaixamento e disse: ‘com camisa celeste não vamos perder’. Era a terceira camisa, celeste com uma faixa vertical vermelha e preta. E nos salvamos com essa camisa e terminei artilheiro do campeonato. [Mas] me levantava às 6 da manhã, e enquanto tomava uns mates via as notícias pela internet. O Belgrano não passava por um bom momento, estava para cair à terceira divisão, e as pessoas pediam que eu voltasse. Chiche [Luis Ernesto] Sosa e e Jorge Guayón me diziam: ‘Luifa, precisamos de ti’. E voltei, apesar do nojo do meu velho, que não falou comigo por um mês”.

O pai se irritou mesmo com aquele romântico: “vim do Peru ao Belgrano sendo goleador e ganhando 10 mil dólares por mês para ganhar 3 mil recebendo fiado. Nesse dia, meu velho se enojou comigo. Estávamos em casa e me perguntava se ia seguir no Peru e eu me fazia de sonso e não respondia, trocava de assunto, até que meu irmão lhe disse: ‘papai, você conhece Luis Fabián, nunca pensou em dinheiro'”. De fato: Luifa havia conseguido a artilharia peruana com 24 gols em 42 jogos pela Cordilheira, ao passo que, sem o antigo goleador, o Belgrano caíra na lanterna dos promedios no Clausura 2002 para a segunda divisão. No segundo semestre de 2002, estava em queda livre rumo à terceira.

Luifa voltou para casa em janeiro de 2003 para duas temporadas e meia na Primera B, e de início contribuiu para evitar um segundo rebaixamento seguido. Só não tinha mais fôlego para devolvar La B à série A, com o perdão do trocadilho. Sua última partida oficial foi em 13 de março de 2005, derrotado por 4-1 em dérbi local com o Racing de Córdoba. Já o último de seus 86 gols pelo Belgrano por torneios argentinos saíra ainda em 16 de outubro de 2004, descontando de pênalti uma derrota de 2-1 para o El Porvenir em um morno 13º lugar no Apertura da segundona. Os números são inferiores aos 103 de José Reinaldi, artilheiro máximo do clube em estatísticas que consideram também a liga regional cordobesa; Luifa, por outro lado, é quem mais proporcionou gols em Alberdi no campeonato argentino. Rotina que permanece mesmo depois dos 50 anos, por equipes masters do Ferro, do Belgrano e até da seleção argentina, a qual ele nunca pudera defender como profissional.

Em 2015, escolhemos ambos para a dupla de ataque do time belgranense dos sonhos, mas coube a Artime ser o único representante celeste na renomeação de cada uma das quatro tribunas do palco municipal, quando o antigo Chateau Carreras virou o atual Estádio Mario Kempes (Osvaldo Ardiles representa o Instituto, Daniel Willington simboliza o Talleres e Roberto Gasparini, o Racing local). Pudera: sua influência não se limitou ao futebol, respingando até mesmo no basquete de alto nível. Jurou ele ao La Nación que o cestinha Scola passou a ser apelidado Luifa, embora não se chame Luis Fabián e sim Luis Alberto, por causa da idolatria que o atacante despertava em cordobeses que integravam a geração dourada do básquet dos anos 2000. “Inclusive uma vez, há uns 15 anos, se jogou uma partida no [ginásio cordobês] Orfeo e como o Grupo Sancor [onde ele vinha trabalhando como corretor de seguros] era patrocinador, fui ao jantar pós-jogo, e aí me agarrou Manu Ginóbili e disse: ‘hey Scola, este é o verdadeiro Luifa, não um falsificado como você!'”.

https://twitter.com/Belgrano/status/1338871437160034306

https://twitter.com/LaFerropedia/status/1338846273118621696

Caio Brandão

Advogado desde 2012, rugbier (Oré Acemira!) e colaborador do Futebol Portenho desde 2011, admirador do futebol argentino desde 2010, natural de Belém desde 1989 e torcedor do Paysandu desde antes de nascer

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