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Todos os argentinos do Flamengo

Originalmente publicado pelos 120 anos do clube, em 2015 – e revisto, ampliado e atualizado. A versão original pode ser conferida clicando aqui.

Campeão da Supercopa do Brasil, do Estadual, da Libertadores e do Brasileirão em 2025, o Flamengo tetracontinental começa por Agustín Rossi. Justo representante da nacionalidade forasteira que reúne mais campeões (e também o maior artilheiro estrangeiro) do clube. Hora então de relembrar os vários hermanos da nação para além do quarteto usualmente mais lembrado: Valido, Doval, Mancuso e o próprio Rossi.

O primeiro apareceu em 1937: Agustín Cosso, matador importado do Vélez. Artilheiro do campeonato argentino de 1935, chegara à seleção e deixara ótimos 95 gols em 123 partidas por La V Azulada. No Mengão, o desempenho não foi inferior: marcou 20 vezes em 29 jogos. Dava-se bem nos gramados, mas não se ambientou tanto na nova cidade e já em 1938 regressou à Buenos Aires, acertando com o San Lorenzo. Deu tempo, porém, de hospedar alguns conterrâneos que vieram em 1937 disputar uma série de amistosos. Eram reservas em seus clubes ou astros decadentes, uniformizados pelo combinado batizado de Beccar Varela.

Três dos membros do Beccar Varela acabaram no Mengão: o lateral-esquerdo Arcadio López (que havia ido à Copa de 1934), então no Ferro Carril Oeste; o zagueiro Atmio Luis Villa e o atacante Agustín Valido, ambos do Lanús. Só este último ficaria mais de uma temporada e, curiosamente, foi como aposentado que se eternizou mais. Foi no primeiro tricampeonato estadual. Convencido a atuar nas duas últimas partidas em 1944, Valido fez com febre o gol do título, sobre o Vasco. Se radicaria no Rio de Janeiro, onde faleceu em 1998. Dedicamos-lhe um especial: clique aqui.

Em tempos de I.A, já é possível dar nitidez à panelinha dos pioneiros de 1937: Agustín Valido, Arcadio López, Agustín Cosso e Luis Villa

Valido havia se formado no Boca, de onde o Flamengo pinçou os dois hermanos seguintes: os atacantes Francisco Provvidente e Alfredo González. Provvidente era um reserva com mais de um gol por jogo nos auriazuis, motivo pelo qual estes haviam recusado-se a vendê-lo ao primeiro interessado, o Nacional (com a recusa, os uruguaios escolheram aleatoriamente aquele que viria a ser seu maior artilheiro: Atilio García).

Dos dois, porém, foi González quem melhor rendeu. Provvidente não se firmou e saiu no início de 1939, enquanto o novo reforço deixou 31 gols em 49 jogos – o melhor deles, a tarde de 1938 onde anotou três gols (Valido fez outro) em um 5-0 no Botafogo em pleno campo de General Severiano. A exemplo de Valido, González foi outro que hermano se enraizou no Rio de Janeiro, defendendo ainda Vasco e o próprio Botafogo, além de treinar o Bangu campeão estadual pela última vez (em 1966, justo contra o Flamengo).

González acabaria até apelidado de El Carioca quando voltou ao futebol argentino, como contamos neste outro Especial, dedicado a ele. Aquele título de 1939, aliás, teve uma verdadeira colônia argentina. Além de Valido e de González, haviam, por ordem de chegada, o meia Carlos Volante e os atacantes Arturo Naón e Raimundo Orsi. Todos tinham passagem pela seleção, com El Mumo Orsi tendo mais cartaz: se consagrara na Juventus quando o time alvinegro firmou-se como gigante (penta italiano de 1931 a 1935) e vencera pela Itália a Copa de 1934, marcando gol na final.

O Flamengo “argentino” que encerrou em 1939 o pior jejum estadual do clube, doze anos: os quatro primeiros em pé são Carlos Volante, Agustín Valido, Raimundo Orsi e Arturo Naón. Alfredo González é o penúltimo jogador em pé. O sétimo em pé é Caxambu, brasileiro que jogaria no Gimnasia. O segundo agachado é Domingos da Guia, ídolo no Boca

Antes, pela Argentina, Orsi havia sido medalha de prata nas Olimpíadas de 1928, como contamos no Especial dedicado a ele. Naón, por sua vez, ainda é o maior artilheiro da história do Gimnasia LP. Mas, curiosamente, outra vez foi o nome teoricamente menos badalado que se deu melhor. Volante, a quem também já dedicamos um Especial próprio, jogava no futebol francês e por lá se juntou à seleção brasileira, da qual foi massagista na Copa do Mundo de 1938.

O “intercâmbio” rendeu a Volante a vinda à Gávea ainda naquele ano, para se tornar o estrangeiro que mais vezes jogou pelo Flamengo até então. Seu sobrenome originou a expressão “volante” para designar aquele meia recuado, que oferece uma proteção extra à defesa. Era como atuava. Campeão de outros dois estaduais (1942 e 1943), Volante fez história também no futebol baiano, em especial no Bahia, treinando o tricolor na vitoriosa final da Taça Brasil de 1959: clique aqui.

Naqueles anos de Platinismo, onde abundavam jogadores argentinos no Brasil, o Flamengo adquiriu diversos outros até os anos 50: o meia Julio Castillo, ex-River, prometia em 1940 ao somar seis gols em nove jogos, mas faleceu prematuramente. Havia escondido sua diabetes para não cancelar a contratação e, com a insulina ainda longe da escala industrial, sucumbiu dias depois de sua última partida. Seu gol mais recordado foi sobre o Botafogo, no calcanhar aéreo abaixo desenhado no primeiro volume da obrigatória série de quadrinhos Me Arrebata, a registrar até discurso emocionado de Ary Barroso no sepultamento de Castillo.

O mártir Castillo tratado por I.A. À direita, sua perda precoce nos traços de “Me Arrebata”

Já os atacantes Emilio Reuben (constantemente divulgado como nascido no Canadá, mas na realidade parido no interior da província de Corrientes, vinha do Independiente) e Ricardo Alarcón (jogador de seleção por San Lorenzo e Boca – fez o primeiro gol da Bombonera), o rústico defensor Sabino Coletta (outro ex-Independiente), o atacante Rafael Sanz e o defensor Alfredo de Terán (ambos ex-Banfield) também jogaram pouquíssimo, mas por motivos menos trágicos. Estrelas em seu país, nenhum passou dos dez jogos pelo rubro-negro, embora alguns tenham integrado o tri de 1942-1944.

Quem soube render mais tempo foi o goleiro Eusebio Chamorro, ex-Newell’s e integrante já do segundo tricampeonato carioca (e o primeiro tricampeonato logrado por qualquer clube na “Era Maracanã”), de 1953-55. Vale dizer que o treinador desse tricampeonato, o paraguaio Manuel Fleitas Solich, havia defendido a seleção argentina em quatro amistosos não-oficiais em 1928, contra dois clubes espanhóis de visita por Buenos Aires: derrota de 1-0 para o Celta de Vigo e massacre de 8-0 na revanche; vitória de 3-1 sobre o Barcelona (com dois gols de Orsi, aliás, na primeira vez em que a Albiceleste usou um distintivo no peito) e empate em 0-0 na revanche com os catalães. Como ele nunca defendeu a Argentina em outros jogos, essas estatísticas não costumam ser lembradas, mas vale a menção curiosa. Solich, diga-se, também foi quem lançou Zico pela primeira vez no time adulto, em 1971.

O argentino realmente nativo a ter treinado o Flamengo trabalhou entre 1965 e 1967. Tratava-se de Armando Renganeschi, campeão estadual em 1965, título valorizado em especial por marcar o quarto centenário da cidade do Rio de Janeiro. Renga já vinha de décadas de trabalho no futebol brasileiro, iniciada ainda como o jogador que o Bonsucesso importara em 1940, e ampliada de modo mais notável como treinador exitoso nas divisões de acesso do campeonato paulista – currículo chamativo o suficiente na época para fazê-lo até treinar a maior parte da campanha do Independiente campeão argentino em 1963.

Valido em outra arte do primeiro volume a série “Me Arrebata”. Junto a Rondinelli, autor de outro cabeceio imortalizado em outro tricampeonato estadual. E junto a Zizinho em 1994, nos cinquenta anos do primeiro tricampeonato

Rogelio Domínguez jogou de 1968 a 1969 como um goleiro já consagrado: estivera no Real Madrid de Di Stéfano pentacampeão europeu e colecionara bons momentos também por Racing, seleção (campeão da Copa América de 1957, presente na Copa do Mundo de 1962) e, mais recentemente, Nacional (vice na Libertadores de 1967). Aposentou-se no Mengão, onde começou com grandes atuações, embora terminasse marcado pela expulsão em Fla-Flu decisivo em 1969 – por protestar contra um gol irregular mal validado. Já dedicamos este Especial a Domínguez.

Domínguez foi anfitrião de Narciso Doval, que aportou do San Lorenzo em 1969, indicado pelo técnico Tim (treinador dos azulgranas campeões invictos em 1968, algo então inédito no profissionalismo argentino). Teve altos e baixos no início, a ponto de ser emprestado ao Huracán em 1971, mas firmou-se no retorno como o grande ídolo pré-Zico no início dos anos 70. Virou goleador no Brasil e formou grande dupla com o próprio Zico. Venceu duas vezes o Estadual e foi artilheiro em outra, ainda em tempos de prestígio equilibrado com o do Brasileirão.

El Loco ainda é o maior artilheiro estrangeiro do Flamengo, conseguindo ser ídolo também no Fluminense. Mais um argentino que virou carioca, este grande personagem também já teve dois Especiais dedicados a si: pelos 70 anos que teria feito em 2014 e pelos 30 anos de sua morte precoce completados em 2021. Bem diferente da trajetória dele foi a passagem obscura do zagueiro Jorge Paolino, ex-Racing e seleção que entre 1976-77 jogou apenas nove vezes, desentendido com técnico e direção. Vale lembrar ainda de Ricardo Ibarra, estrela nos anos 70 e 80 no esporte original do clube, as regatas, participando como rubro-negro das Olimpíadas de 1984; o Flamengo, diga-se, venceu seguidamente os torneios de remo entre 1972 e 1981.

Doval, ainda o estrangeiro com mais gols pelo Flamengo: virou capa de quadrinhos (é o loiro no segundo volume de “Me Arrebata”) e documentário

Ubaldo Fillol tornou-se o primeiro (e único) que a seleção argentina chamou do Mengão, entre 1984 e 1985. Consagrado no River e seleção, o campeão da Copa de 1978 fora contratado ainda recém-chegado ao Argentinos Jrs para tentar suprir de uma vez a aposentadoria de Raul e a lacuna de idolatria deixada pela venda de Zico ao Udinese. Deu azar de estar nos anos de entressafra entre a primeira e segunda passagens de Zico pelo Flamengo, não ganhando títulos. Começou muito bem, mas declinou e ao fim a torcida já chegava a pedir nova chances a Cantarelli. Detalhamos neste outro Especial.

Outro campeão do mundo que veio nos anos 80 foi o atacante Claudio Borghi, único que talvez supere Diego Maradona como maior ídolo do Argentinos Jrs: presente em todos os títulos do modesto clube (como jogador no bi argentino de 1984-85 e na Libertadores de 1985, como técnico em 2010), foi justamente o primeiro apelidado de “novo Maradona” e venceu com ele a Copa de 1986. El Bichi Borghi, porém, entrou em rápido declínio, decepcionando no Milan e no River antes de não render também na Gávea, em 1989, como contamos no Especial dedicado a ele. Seu sucessor foi o último com passagem pela seleção a vir ao clube: o volante Alejandro Mancuso, que também tem Especial próprio.

Honroso reserva do craque Fernando Redondo na Copa do Mundo de 1994, Mancuso veio do Palmeiras e conquistou a massa pela raça e os títulos em 1996 (estadual, invicto, e a Copa Ouro Sul-Americana, primeiro título continental desde a Libertadores de 1981). Até a vez de Rossi, foi o último a ter maior destaque: os seguintes, já no século XXI, vinham sendo no máximo razoáveis. O volante Hugo Colace veio em 2007 sob indicação do próprio Mancuso, mas se queimou em expulsão precoce contra o Vasco. O meia-atacante Maxi Biancucchi veio do Paraguai como o folclórico primo de Messi também em 2007, na grande campanha que levou o Flamengo da zona de rebaixamento a um 3º lugar.

Antecessores de Rossi no gol: o tricampeão Chamorro, atrás de Paulinho (brasileiro que defenderia River e Estudiantes). Domínguez, atrás de Doval e ao lado de Rodrigues Neto (brasileiro que defenderia Ferro Carril Oeste, Boca e seleção portenha). E o astro Fillol

Maxi virou xodó especialmente após marcar o gol da vitória sobre o Fluminense e até esteve no plantel campeão brasileiro em 2009, mas também não se firmou e no futebol baiano é que conseguiu luz própria. Em 2008, o meia Rubens Sambueza sequer chegou aos dez jogos. Já Darío Bottinelli, da boa Universidad Católica de 2010-11, foi quem mais conseguiu uma sequência na Gávea, entre 2011 e 2013. Como Maxi, teve seu momento de glória em um Fla-Flu, virando para 3-2 (ainda em 2011) com dois gols após os 40 minutos do segundo tempo. Mas não conseguiu uma regularidade de boas partidas.

O meia Lucas Mugni, promessa do Colón, e o volante Héctor Canteros, ex-Vélez, chegaram em 2014 e não convenceram a massa; Mugni, curiosamente, seria adversário (pelo Ceará) no jogo que assegurou matematicamente o título brasileiro de 2025, rendendo suspiros de quem desfruta como rubro-negro atualmente em comparação aos anos em que era o basquete quem melhor sabia aproveitar argentinos: nesse esporte, o Flamengo foi campeão mundial em 2014 no embalo de Nicolás Laprovíttola e reforçado pelo veterano Walter Herrmann, medalha de ouro nas Olimpíadas de 2004 (nelas, foi colega de outro futuro flamenguista, Federico Kammerichs).

Em 2016, chegaram o meia Federico Mancuello e o zagueiro Alejandro Donatti, outros que não deixaram tantas saudades na Gávea. Mancu vinha credenciado por testes na seleção argentina após ser peça-chave em 2014 na complicada volta do Independiente à primeira divisão no primeiro semestre e pela luta séria pelo título da elite já no segundo. Desde então, teve lampejos inconstantes e foi vendido em 2018 ao Cruzeiro.

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Mancuso com a taça estadual de 1996, ficou ídolo. Biancucchi e Bottinelli, marcados por Fla-Flus, foram xodós momentâneos

Donatti, vindo de um Rosario Central vice tanto na liga como na copa argentinas em 2015, acabou ainda mais obscuro: só dois joguinhos e repasse ao futebol mexicano em 2017, ano em que o craque Darío Conca apareceu igualmente pouquíssimo. Lesionado e em fim de carreira, estava emprestado pelo futebol chinês e só entrou três vezes em campo. Escaldado pelos flops ou não, fato é que foram seis anos sem hermanos no Flamengo, ao menos no futebol. No basquete, o armador Franco Balbi ganhou três cariocas (2018, 2019, 2020), dois NBBs (2019 e 2021) e, sobretudo, os títulos sul-americanos de 2021 e 2025 e o segundo mundial rubro-negro no básquet, em 2022.

O ano de 2023 marcou então a (demorada) vinda de Agustín Rossi para suprir a posição em que ninguém vinha se consolidando entre o declínio de Diego Alves, a irregularidade de Hugo Souza e a falta de empolgação com Santos ou Matheus Cunha. Contratado em janeiro, Rossi precisou aguardar até julho para ser regularizado; antes, em abril, o técnico Jorge Sampaoli chegou como resposta da diretoria à sequência de vice-campeonatos com o incensado Vítor Pereira.

Quando o clube parecia se acertar na briga pelo título brasileiro, uma desastrada briga de vestiário no fim de julho se sucedeu por sequência de somente duas vitórias nos sete jogos seguintes, eliminação para o Olimpia na Libertadores e vice-campeonato na Copa do Brasil. Foi o fim da linha para Sampaoli, mas não para Rossi, que em 2024 foi brevemente acompanhado pelo garoto Carlos Alcaraz. Meia profissionalizado pelo Racing e um dos carrascos do próprio Flamengo na Libertadores 2020, Charly esteve emprestado (pelo Southampton) no segundo semestre.

Ibarra, Kammerichs, Laprovíttola, Herrmann e Balbi: destaques em outros esportes

Alcaraz ganhou a Copa do Brasil e cavou sua imediata volta à Premier League. Já um xodó, Rossi virou ídolo de vez em 2025. Formado no Chacarita, tinha como cartaz os seis anos de Boca, ainda que seu desempenho fosse errático: perdera a titularidade para Esteban Andrada na reta final da traumática Libertadores 2018, foi sucessivamente emprestado (Antofagasta em 2018, Lanús entre 2019-20) e no segundo semestre de 2022 a diretoria preferiu recorrer ao experiente Sergio Romero.

Como se não bastasse, até mesmo no Al-Nassr, onde passara o primeiro semestre de 2023, Rossi amargou reserva noticiada com pejorativo humor entre os argentinos. Rotina que não mudou de imediato no Rio: Sampaoli preferia Cunha e foi o criticado Tite quem passou a usar regularmente o goleiro argentino. A volta por cima começou em 2024, primeiramente com o recorde de jogos seguidos sem tomar gols; a retomada da fama de bom pegador de pênaltis, salvando três em cinco no Brasileirão; e a Copa do Brasil, pontapé inicial para a temporada mais emblemática da carreira de quem chega a ser visto como potencial convocável pela seleção brasileira tão logo conclua a naturalização.

Já dedicamos diversos especiais relacionando o Flamengo aos principais clubes argentinos. Clique em cada um para conferir quem jogou nele e por Boca Juniors, River Plate, Racing, Independiente, San Lorenzo, Vélez Sarsfield e Estudiantes de La Plata. Sobre argentinos nos outros grandes cariocas, clique para conferir os de America, Bangu, Botafogo, Fluminense e Vasco.

Há quem queira Rossi com outra amarelinha. Será?

Caio Brandão

Advogado desde 2012, rugbier (Oré Acemira!) e colaborador do Futebol Portenho desde 2011, admirador do futebol argentino desde 2010, natural de Belém desde 1989 e torcedor do Paysandu desde antes de nascer

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