Em meio a uma semana no mínimo conturbada, o Corinthians visita hoje o Rosario Central. E luta para encerrar um jejum que data desde 2012, ano do último gol feito fora de casa na Libertadores – curiosamente, contra aquele outro time argentino auriazul. O duelo entre Itaquera e Arroyito é um bom gancho para lembrarmos que já foi corintiano e também canalla na vida.
Comecemos, antes, pelos anos de títulos em comum. E aqui cabe um contexto histórico: apesar do nome, nos primórdios o campeonato “argentino” era na prática um torneio mais ou menos municipal. Somente clubes da Grande Buenos Aires e La Plata eram admitidos em todas as divisões. Mesmo equipes da província de Buenos Aires situadas longe demais da capital federal precisavam se manter ativas em ligas locais, quiçá então as de Córdoba, Santa Fe ou Rosario – cada uma com seus próprios torneios citadinos.
A liga rosarina foi criada em 1905, e embora nem sequer fosse um certame provincial (pois Rosario está dentro da província de Santa Fe, cuja capital Santa Fe fazia à parte a liga santafesina), representou por décadas o principal calendário anual da dupla Newell’s e Rosario Central, pois somente em 1939 é a que eles foram enfim admitidos no torneio “argentino”.
O primeiro título paulista do Corinthians se deu em 1914, ano da segunda vez em que o Central ganhou o torneio rosarino. Entre o Paulistão e a liga de Rosario, os anos conjuntos de comemorações se repetiram em 1916, 1923, 1928, 1930, 1937 e 1938; em 1916, os canallas também comemoram a Copa Honor, valorizado torneio que opunha times das ligas “argentina”, rosarina e uruguaia. Em 1939, como dito, a dupla Central e Newell’s deixou então o torneio local para disputar o campeonato argentino.
Os auriazuis demoraram mais a se aclimatar, sofrendo um primeiro rebaixamento logo em 1941. O retorno foi imediato, mas nova queda veio em 1950. O título da segunda divisão argentina de 1951 coincidiu com novo título paulista do Timão. Em 12 de janeiro de 1957, veio um primeiro encontro dos dois clubes, em amistoso no Pacaembu. E deu Central, por 2-1.
A realidade canalla na primeira divisão argentina seguiu modesta na maior parte do tempo até os tempos dourados dos anos 70 e 80, que concentraram a totalidade dos quatro títulos do Central, justamente o primeiro clube do interior a sagrar-se campeão (e bicampeão) da divisão máxima. O clube, inclusive, venceu quebra de braço com o rival Newell’s também para ser a sede rosarina na Copa do Mundo de 1978, tal como se veria no Brasil para a Copa de 2014, na qual o Morumbi parecia cantado como o representante paulista no evento.
Nenhum dos títulos argentinos na época dourada do Central coincidiu com voltas olímpicas do Corinthians. Foi preciso aguardar até 1995 para novo ano especial às duas torcidas: os alvinegros celebraram o estadual e a Copa do Brasil, enquanto os auriazuis protagonizaram uma epopeia na decisão da Copa Conmebol para cima do Atlético Mineiro.
Apesar do jejum na primeira divisão argentina, o Rosario Central se aproveitou da expansão da Libertadores a partir de 2000 para marcar presença naquela edição. Entre o amistoso de 1957 e os duelos da Libertadores 2026, aquela Libertadores 2000 propiciou os outros únicos encontros com o Corinthians. E emoção não faltou naquelas oitavas-de-final. O 3-2 em Arroyito foi devolvido a custos no Pacaembu, onde os visitantes chegaram a estar vencendo por 2-1. Na decisão por pênaltis, Edu Gaspar chegou a desperdiçar sua cobrança, mas Dida salvou a Fiel ao salvar a de Equi González enquanto Rafael Gordillo mandou para fora a cobrança final.
Glória daqueles anos 80, Edgardo Bauza era o treinador do elenco de 2000, que sob o mesmo Bauza foi ainda mais longe na Libertadores 2001, parando nas semifinais. Os troféus, porém, insistiam em não voltar a Arroyito. Se resumiram a três: em 2013, o título paulista do Corinthians coincidiu com o da segunda divisão argentina; em 2018, o Paulistão de um veio na mesma temporada da Copa Argentina do outro. E, em 2025, a Copa do Brasil foi comemorada em Itaquera enquanto a AFA entregava de modo bastante polêmico uma taça para premiar o Central como dono das melhores campanhas pré-mata-matas dos dois torneios do ano, encerrando na caneta o jejum na primeira divisão (seca que, no campo, vigora desde 1987).
Central e Corinthians também se aproximam pelo fanatismo incomum de suas massas. A Fiel só fez crescer ao longo do famoso jejum de 23 anos até 1977, enquanto os canallas estão no Guinness pelo gol mais comemorado da história: a palomita de Aldo Poy em 1971, que se desdobra em comemorações anuais com o próprio Poy reencenando seu célebre cabeceio… e até a preservação do apêndice do rival que o marcava no lance, Ricardo De Rienzo. O médico que operara a apendicite de De Rienzo calhou de ser torcedor auriazul e doou o órgão (por ser o “mais próximo do gol”) à torcida organizada ao invés de descartar como lixo hospitalar!
Poy, aliás, já se elegeu vereador em Rosario tal como os paulistanos já fizeram com Biro-Biro. Enfim, passemos à quem esteve nos dois lados do duelo:
Jim Lopes: ele na verdade se chamava Alejandro Galán e adotou o pseudônimo Jim Lopes como seu nome de guerra nos tempos de pugilista. Ainda no boxe, fez carreira no Brasil e criou raízes em São Paulo; o conhecimento de educação física adquirido nos ringues lhe levou a ser prospectado como preparador físico de diferentes clubes paulistas desde os anos 30. O que era informalidade foi virando coisa séria: o argentino foi galgando de patamar até chegar em 1950 ao Palmeiras como treinador. Na nova vida, venceu um Rio-São Paulo com a fortíssima Portuguesa dos anos 50 e um Paulistão com o São Paulo. As notícias repercutiram na terra natal e Lopes conseguiu em 1958 contrato com o Independiente.
Essa curiosa carreira teve então uma passagem discreta pelo Corinthians em 1960. Mas ele conseguiu entre 1962 e 1963 dirigir não só a própria seleção argentina (já após a Copa do Mundo no Chile) como conciliar o cargo com o de técnico do Rosario Central. Teve um desempenho honroso em Arroyito: os canallas haviam sido o 13º de um torneio de dezesseis times em 1961, antes da chegada do ex-boxeador. A temporada 1962 foi encerrada com um 6º lugar, salto ainda mais significativo considerando que na Argentina os grandes são cinco – o quinteto formado por Boca, River, Racing, Independiente e San Lorenzo. Aquela também foi a melhor campanha até então do Central na 1ª divisão. Jim Lopes passaria o resto dos anos 60 no vaivém entre o futebol argentino (foi novamente técnico da seleção em 1967, na Copa América) e no paulista, falecendo na pauliceia em 1979.
Mário Sérgio: chutado pelo Botafogo no início de 1979, o ponta passou basicamente um semestre no futebol argentino. Não se aclimatou ao ritmo de treinos e sua introversão foi um entrave para que se enturmasse com os colegas, piorando a solidão do “Vesgo”: sua esposa precisara ficar no Brasil para cumprir compromissos acadêmicos. Some-se a isso que aquele Rosario Central gestava o timaço campeão de 1980, sugestivamente apelidado de La Sinfónica. Mário Sérgio reconheceria a validade daquela experiência ainda assim, ao julgar-se como mais “combativo” ao voltar ao Brasil – pois fez tanta força para rescindir o contrato que os rosarinos toparam lhe liberar ainda em 1979, a tempo de ele integrar o famoso Internacional campeão brasileiro invicto.
O parágrafo acima é um resumo dessa nota dedicada à passagem de Mário Sérgio pelo Central. Nos anos 80, ele soube se destacar por São Paulo e Palmeiras, com os quais esteve na seleção brasileira. Sua estadia no Corinthians se deu no Brasileirão de 1993, como técnico. A história é conhecida: seu time permaneceu longamente invicto na competição e perdeu uma única partida na campanha inteira, mas ela custou essa derrota custou a vaga na final. Era um campeonato com duas fases de grupos e, sem que a pontuação colhida na primeira fase ajudasse na segunda, o Vitória levou a melhor para decidir aquele Brasileirão com o Palmeiras.
Alex Rossi: esse gaúcho foi prospectado pelo futebol paraguaio, que por sua vez foi seu trampolim ao Rosario Central. Vinha do Cerro Porteño campeão nacional de 1992 para liderar um pacote de reforços brasileiros atraídos pelo boom ilusório que havia em uma economia argentina em que um peso ainda equivalia a um dólar. No caso específico de Rossi, seus duelos pelo Cerro contra o Newell’s na Libertadores de 1993 o fizeram ser observados pela outra força rosarina. Conseguiu ser um xodó momentâneo a ponto de emplacar para 1994 testes de Márcio Peres, ex-colega dele no Inter de Santa Maria, e de gerar lamentação na Argentina a divulgação de que teria desenvolvido dependência química.
Treinado por Valdyr Espinosa naquele Cerro Porteño campeão paraguaio de 1992, Rossi foi requisitado por ele para reforçar o Corinthians no segundo semestre de 1996. Começou bem: no então valorizado Troféu Ramón de Carranza, contribuiu com um gol na semifinal e uma assistência na decisão. Mas foi embora ao fim do ano sem deixar saudades na Fiel.
Germán Herrera: se profissionalizou no próprio Rosario Central, em 2002, jogando o mundial sub-20 no ano seguinte. Não foi um matador, mas era visto como promessa e interessou ao San Lorenzo, que o levou em 2004. Não decolou e foi emprestado ao Grêmio em 2006, onde teve bom momento. Foi campeão estadual e saiu-se bem na campanha 3ª colocada no Brasileirão, com o clube rescém-ascendido da segundona. Curiosamente, declarou na época à Placar que sonhava em adquirir no Brasil o mesmo prestígio do então corintiano Tévez, seu ex-colega naquela seleção sub-20.
A oportunidade de jogar no Corinthians veio em 2008, como reforço da temporada alvinegra na segunda divisão brasileira, emprestado pelo Gimnasia. Se converteu no goleador da campanha, mas não permaneceu para 2009: o Gimnasia lhe vendeu ao Grêmio, que voltou a se interessar por Herrera. O esforçado atacante ainda defenderia Botafogo e Vasco antes de voltar ao Central em 2016. Foi opção de banco no título da Copa Argentina de 2018, o principal troféu canalla no século XXI até o momento.
Carlos Tévez: sua trajetória no Corinthians dispensa comentários. O protagonista máximo do título do Brasileirão 2005 disputou a Copa do Mundo de 2006 ainda como corintiano, mas a ressaca da eliminação na Libertadores apressou sua saída rumo à Europa. Heroi em uma arracanda memorável do West Ham contra um rebaixamento quase certo em 2007, conseguiu jogar pela Argentina tanto pelo Manchester United como pelo Manchester City em meio à relação de amor e ódio com as duas torcidas. Se estabilizou enfim na Juventus supervencedora da Serie A, causando surpresa sua decisão em voltar ao Boca em 2015 diante da impressão de que o atacante seguia com mercado forte no futebol europeu.
Família foi um fator preponderante na carreira de Tévez. Ele conta que seu primeiro salário no Corinthians propiciou que tirasse das favelas do Fuerte Apache todos os familiares. Em nome dela, largou o Boca pela China em 2016. E, nesses dias de repercussão da morte do pai de Messi e da carta aberta publicada por Lionel, muitos se relembraram da declarações de Carlitos dadas em 2022, quando justificou o fim da carreira: não encontrava mais ânimo em jogar desde que perdera “o fã número 1”, seu pai, levado pelo Covid um ano antes.
Tévez parou de jogar em 2022, mas não deixou o futebol. Ainda naquele ano, teve no Rosario Central seu primeiro clube como treinador. Foram cinco meses no cargo, em carreira que ainda segue muito abaixo da trajetória como atacante que mesclava arte e raça como poucos.
Vale ainda menção a uma família: Eduardo Coudet, de diversas passagens pelo Rosario Central (como volante naquele time campeão da Copa Conmebol 1995, ainda como jogador entre 2004 e 2007 e como técnico vice-campeão argentino de 2015), se declara sobrinho de Nelson Filpo Núñez. Este teve longa carreira de treinador nos mais diversos clubes paulistas entre os anos 50 e 90, o que incluiu ciclos no Corinthians em 1966 e em 1976.
Sem resolver o jejum alvinegro, Don Filpo Núñez ficou mais associado ao rival Palmeiras, especialmente por isso lhe render a tarde que fez de Filpo o único argentino a treinar a seleção brasileira – em 1965, quando todo o elenco palmeirense vestiu a amarelinha para a inauguração do Mineirão.
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