Parece mentira. Mas os maiores campões mundiais do Brasil e da Argentina nunca se enfrentaram pela Libertadores, embora o cartel entre eles seja generoso nas outras competições da Conmebol. O duelo pelas quartas-de-final da Sul-Americana 2026 é uma ótima oportunidade para relembrar o que mais aproxima os dois gigantes saudodos dos anos 2000. Como os muitos homens que, como Calleri acima, defenderam o manto azul y oro e o tricolor, nunca rebaixados (não há respaldo jurídico sobre o estadual de 1990, ao menos) em seus países.
Para começar, algo que antecede as próprias duas fundações do São Paulo, criado em 1930 a partir de dissidentes do Paulistano descontentes com o encerramento do futebol competitivo desse clube, o mais vitorioso da era amadora do futebol brasileiro. Em 1925, tanto o Boca como o Paulistano realizaram a primeira excursão europeia de clubes de seus respectivos países. Enquanto Friedenreich e colegas goleavam até as seleções de França (7-2) e Portugal (6-0), os xeneizes causavam comoção nos dois lados do Atlântico: apenas três derrotas em dezenove jogos fizeram com que a associação argentina proclamasse o Boca como campeão argentino “honorário” daquele ano, em que a longa viagem (por navio e, uma vez na Europa, por trem) fez o clube não participar do torneio doméstico.
Foi também naquela empreitada que nasceu a figura do “jogador número 12” como sendo a torcida, na figura de um playboy (Victoriano Cafferena) entusiasmado pela equipe e que teve tempo e dinheiro para acompanhar a delegação e então se empenhar como um faz-tudo além do papel propriamente de apoiador. A repercussão dos resultados impulsionou a popularidade do clube, que ainda tinha menos títulos argentinos do que o Racing.
Em 1931, o recém-fundado São Paulo venceu pela primeira vez o estadual, enquanto o Boca obteve um título argentino especialmente histórico – foi o primeiro da era oficialmente profissional, o que, ainda para boa parte de público e mídia, significa como o da primeira edição do torneio. Foi a primeira temporada de títulos em comum à dupla; a seguinte, também com o campeonato argentino para um e o paulista ao outro, foi a de 1943, década em que o tricolor realmente se consolidou no cenário estadual.
O Boca chegou a passar dez anos sem títulos argentinos entre 1944 e 1954 e depois oito entre 1954 e 1962, ao passo que o São Paulo iniciou jejum longo depois de 1957. O ano seguinte de voltas olímpicas às duas torcidas coincidiu justamente com o fim da seca são-paulina, com o título paulista de 1970, ano em que o Boca venceu o Torneio Nacional. Em 1977, os bosteros venceram pela primeira vez a Libertadores; também ganharam o Mundial Interclubes válido por aquele ano, embora precisasse aguardar até agosto de 1978 para ser finalizado. Já o São Paulo venciam pela primeira vez o Brasileirão, que curiosamente também atravessou longamente o ano seguinte (até março de 1978).
Em 1981, o título paulista da “Máquina Tricolor” coincidiu com a conquista maradoniana do Torneio Metropolitano. Mas o grosso dos anos 80 seria uma década perdida ao Boca, que só voltou a ganhar troféu em 1989, com a Supercopa Libertadores – ano de outro título estadual do São Paulo. A extinta Supercopa, criada em 1988, era uma competição que reunia somente os vencedores da Libertadores. Não satisfeita, a Conmebol criou algum tempo depois a Copa Master, que reunia somente os vencedores da própria Supercopa.
O Boca a venceu a tal Copa Master em 1992, meses antes de encerrar no Apertura um jejum de títulos argentinos que perdurava desde aquele com Maradona em 1981. No mesmo ano, a torcida são-paulina fez barba (Libertadores), cabelo (Mundial Interclubes) e bigode (estadual). Em 1993, a Conmebol então colocou em disputa a Copa Ouro, um quadrangular entre os vencedores de 1992 na Libertadores, na Supercopa, na Copa Master e na Copa Conmebol. Sem se preocupar com conflitos de calendário com a Copa América de seleções, a confederação sul-americana colocou Boca e São Paulo para jogarem pelas semifinais em 7 e em 10 de julho.
Os esquecidos duelos pela Copa Ouro foram os primeiros jogos entre Boca e São Paulo por alguma competição sul-americana; até então, os duelos se resumiam a amistosos em 1947, 1948 (duas vitórias argentinas por 1-0, ambas dentro do Pacaembu), 1956 (São Paulo 4-0 no Pacaembu), 1960 (Boca 5-2, no estádio do Huracán) e uma verdadeira série em 1961: o São Paulo sapecou um 5-1 em La Bombonera em janeiro. Voltou em maio e segurou 1-1, placar também de revanche oferecida em junho no Morumbi. Já em 1993 os brasileiros haviam faturado o bicampeonato seguido da Libertadores dois meses antes da Copa Ouro, mas acabaram eliminados pelo futuro campeão dela. Em compensação, os tricolores venceriam no restante do semestre a Supercopa e, principalmente, um novo Mundial Interclubes.
Os encontros foram uma constante pelo resto dos anos 90: em 1994, fizeram as semifinais da Supercopa (deu Boca, com 2-0 em casa e derrota de 1-0 fora) e se reencontraram nesse torneio em 1995, em uma fase de grupos. Caio Ribeiro se sobressaiu nesses jogos, marcando em três deles – no duelo em casa em 1994, em novo 1-0 em casa no jogo de ida em 1995 e também no da volta. Com os argentinos já eliminados por antecipação, o recém-regressado Maradona foi poupado e La Bombonera teve noite vazia na vitória tricolor por 3-2. Amarildo fez os outros dois gols, mas eles parariam logo no primeiro mata-mata. O resto dos anos 90 realmente não foi tão aos dois clubes, em que até realizaram em 1997 seu último amistoso (São Paulo 3-1 no Morumbi).
Depois de 1993, os dois times precisaram aguardar até 1998 para serem campeões de novo: o São Paulo com um estadual célebre, marcado pelo regresso de Raí justamente para a decisão contra o Corinthians, e o Boca com seu primeiro título argentino invicto – o Apertura 1998. Esse título credenciou o Boca para a Copa Mercosul de 1999. Não era a maior prioridade de Carlos Bianchi, mas permitiu um impiedoso 5-1 no estádio do Ferro Carril Oeste, seguido de 1-1 no Morumbi.
Aquele Apertura da temporada argentina de 1998-99 garantiu o Boca, sobretudo, na Libertadores de 2000. O São Paulo deixou escapar a Copa do Brasil, mas pôde faturar o estadual em tempos ainda especialmente valorizados do certame. A torcida bostera, é claro, sorriu em maior quantidade e qualidade: reconquistou a Libertadores depois de 22 anos, reconquistou o Mundo junto e então encerrou seu ano de (azul e) ouro faturando o Apertura. A mesma espinha-dorsal logo tratou de vencer a Libertadores também de 2001, ano em que os tricolores encerraram em alto estilo uma sina: nunca haviam vencido o Torneio Rio-São Paulo, especialmente valorizado naquele momento. A taça veio e batizou Kaká e Luís Fabiano.
Mas nada se comparou à soberania reiterada dos meados da década, com quatro temporadas seguidas de taça. Em 2005, o Boca não disputou a Libertadores, mas seu centenário foi três vezes contemplado: Recopa Sul-Americana, Copa Sul-Americana e Apertura, nessa ordem cronológica. O São Paulo também teve três pôsteres diferentes, por estadual, sua última Libertadores e seu último Mundial – especialmente comemorados tanto por encerrar o jejum internacional como por se isolar como brasileiro mais vezes vencedor nessas duas competências.
O Apertura da temporada 2005-06 não classificou o Boca à Libertadores de 2006, mas sim à de 2007. O futebol vistoso sempre deixou dúvidas do que aquele relojinho de elenco poderia ter feito se jogasse o torneio em 2005 e 2006, simplesmente porque vencia todo o resto que se via em disputa: ganhou no primeiro semestre de 2006 o bicampeonato argentino seguido, vencendo o Clausura. O técnico Alfio Basile acabou recontratado pela seleção argentina, mas antes de dedicar-se integralmente a ela pôde por algumas semanas conciliar os dois cargos. E vencer no começo de setembro nova Recopa Sul-Americana: o 2-1 na Bombonera podia dar dúvidas. O 2-2 no Morumbi, não.
Embora seja visto como troféu menor, aquela Recopa foi ansiada em especial porque naquele momento isolou o Boca como maior vencedor a nível mundial em copas internacionais – o calcanhar de aquiles da Era Muricy Ramalho como técnico são-paulino. Mas, nos pontos corridos, ele reinou como ninguém antes ou depois. O título brasileiro de 2006 a princípio “só” encerrava quinze anos de seca nacional, mas abriu um tricampeonato seguido. Enquanto o São Paulo vencia em 2007 novo Brasileirão, os xeneizes ergueram no primeiro semestre sua sexta e ainda última Libertadores; já o segundo semestre forneceu o último tira-teima entre os dois clubes, pelas quartas-de-final da Copa Sul-Americana. Um gol providencial de Borges aos 44 minutos do segundo tempo na Bombonera recolocou o tricolor no páreo e a classificação veio pelo critério do gol fora de casa mesmo: derrotados em Buenos Aires por 2-1, os brasileiros avançaram com 1-0 em casa.
Em 2008, o São Paulo encaminhou seu tricampeonato seguido no Brasileirão enquanto o Boca levou a Recopa Sul-Americana e um Apertura emocionante, tanto pela necessidade de triangular final depois de empate tríplice na liderança como pelo próprio triangular ser definido por critério de desempate nos gols marcados – e pela alegria vir em meio ao luto pela morte do presidente boquense Pedro Pompilio, a quem Riquelme dedicou o troféu. Uma entressafra se viu mais ou menos 2012. Riquelme triscou a Libertadores, mas precisou se contentar com a relançada Copa Argentina. O meia até interferiu na Sul-Americana, facilitando que a Bombonera fosse usada pelo time de infância, o Tigre, na decisão contra o São Paulo, sem evitar o desfecho pró-tricolor daquele torneio.
Em 2021, enquanto o Tricolor desfez o jejum no estadual, o Boca levantou dois troféus ainda válidos pelo ano de 2020 e de conclusão postergada pela pandemia – a Copa Argentina e a Copa da Liga. Por fim, em 2023 o Boca levantou a Supercopa Argentina, enquanto o São Paulo obteve pela primeira vez a Copa do Brasil. Passemos a quem esteve nos dois clubes:
Rubén Barrios: paraguaio que já jogava na Argentina, a serviço do Huracán, Barrios chegou em 1942 ao Boca. Foi seu único ano como titular e, embora o time acabasse de vice de La Máquina do River, esse meia-direita produziu muito – 14 gols em 27 jogos naquele ano. As coisas se inverteram em 1943, integrando um Boca campeão, mas participando de só três jogos. Em 1944, chegou a defender o Fluminense em uma partida, mas o tricolor que o contratou foi o paulista. Com louvor: permaneceu até 1947, sendo bicampeão estadual em 1945 e 1946. Até hoje, Barrios é o paraguaio é o quinto maior artilheiro estrangeiro do São Paulo, com 40 gols marcados em 98 jogos, incluindo-se aí em 5-1 no Corinthians.
Yeso Amalfi: talvez o brasileiro mais internacional antes do futebol globalizado, acabou privado da seleção em tempos em que ir ao exterior privava o jogador de defender seu país. Chegou do São Paulo ao Boca, onde esteve sobretudo em 1948, no tumultuado ano da longa greve de jogadores. Saiu no início de 1949, tendo estadias rápidas por Millonarios (destino de muitos dos grevistas), Peñarol e Palmeiras antes de se enraizar no futebol europeu, sobretudo no francês.
Gustavo Albella: era admirado por um jovem Che Guevara no Sportivo Alta Gracia, no interior cordobês, quando foi incorporado ainda aos 17 anos pelo Talleres. Tornou-se tallarin em abril de 1943 e em duas temporadas marcou 29 gols em 36 jogos oficiais. Campeão cordobês em 1944, ano em que o time também chegou às semifinais da Copa de la República (uma Copa Argentina da época), destacou-se naquele ano sobretudo ao desequilibrar um amistoso mesmo: foi contra o Boca, campeão argentino naquele mesmo ano, mas surrado por 7-3 em outubro – com o jogo ainda em 2-2, Albella marcou o terceiro e o quarto de La T, nos dez minutos finais do primeiro tempo.
Assim, El Atómico terminou contratado no ano seguinte pelo próprio Boca, mas não sobrepujou o concorrente Jaime Sarlanga, já estabelecido como ídolo ali – Sarlanga, afinal, foi o segundo maior artilheiro profissional boquense no século passado. Albella só veio a ganhar destaque no campeonato argentino como jogador do Banfield: é o maior artilheiro desse clube e com ele quase foi campeão de 1951 (a equipe terminou empatada com o Racing e perdeu o jogo-extra, ficando muito perto de furar o oligopólio estabelecido de 1930 a 1967 em que só os “cinco grandes” argentinos venciam o campeonato).
Na esteira daquela campanh histórica do Banfield, Albella e seu colega Nicolás Moreno foram então contratados pelo São Paulo. Moreno não vingou, mas Albella engatou boa dupla com Gino: como tricolor, também acumulou mais de meio gol por jogo (47 em 81) em passagem que durou de 1952 a 1954 – incluindo um no jogo decisivo pelo Estadual de 1953, na vitória de 3-1 sobre o Santos; curiosamente, o triunfo teve também outro gol argentino (nacionalidade que também pertencia ao treinador, Jim Lopes), de alguém também presente nessa lista.
Rinaldo Martino: um dos maiores ídolos do San Lorenzo e capaz de defender as seleções de Argentina e Itália, El Mamucho também reluziu na Juventus, mas foi patinho feio no Boca e no São Paulo. Ele já havia sido um dos craques da geração que a Segunda Guerra impediu de jogar Copas do Mundo e acabou abrindo mão de jogar a de 1950 pela Azzurra ao buscar retornar ao Rio da Prata cedo demais. O Boca o contratou junto a Juventus, mas, com o prazo de inscrição já encerrado para a temporada argentina, inicialmente lhe emprestou ao Nacional. O meia-atacante brilhou no tricolor de Montevidéu, mas não manteve o pé calibrado quando enfim pôde ser aproveitado como xeneize; foram só três golzinhos. Mas seguia com renome a ponto de chegar ao São Paulo na expectativa de que fosse um novo Antonio Sastre (ídolo contratado já veterano junto ao Independiente na década anterior).
Martino chegou ao Canindé (que era o estádio são-paulino na época) como contratação experimental para o Torneio-Rio São Paulo de 1953. Não pôde reclamar da ambientação, com uma panelinha de argentinos, como o nome acima. Mas não tinha mais físico – e ainda lesionou-se, logo saindo. O historiador Alexandre Giesbrecht, editor das Anotações Tricolores, já havia contado em detalhes esse fracasso: acesse aqui. Vale uma curiosidade de que o argentino tem parentesco com o capitão do Newell’s vice do São Paulo na Libertadores de 1992, Gerardo Tata Martino. Já dedicamos esse outro Especial para Rinaldo.
Juan José Negri: outro argentino da temporada de 1953, embora chegasse já após Martino ter saído. Ídolo mesmo, esse meia-direita foi no Estudiantes, pelo qual chegou a ser testado na seleção em 1943. Assim, chegou com algum cartaz ao Boca em 1948. Mas os dois gols em quatro amistosos de pré-temporada se mostraram ilusórios: no campeonato argentino, marcou um mísero gol (1-1 com o San Lorenzo) em 14 partidas.
Curiosamente, virou a casaca para defender o River em 1949 antes de fazer disso um costume no futebol paulista – já havia defendido Portuguesa e o Juventus quando foi incorporado pelo São Paulo. Ele e Albella marcaram gols nos 3-1 sobre o Santos que garantiram o título estadual de 1953 ao Tricolor. Negri veio a defender o próprio Santos pouco depois, onde teria sido referência inicial a Pelé no quesito cobrança de faltas. Já dedicamos a ele esse outro Especial.
Vicente Feola: um orgulho que Boca e São Paulo têm em comum é o de serem os times com mais técnicos vencedores de Copa do Mundo, ao menos enquanto treinadores mesmo. Juventus? Só teve Lippi e Deschamps. Real Madrid? Del Bosque e ninguém mais. Bayern? Beckenbauer e olhe lá – o Kaiser também esteve no Olympique de Marselha, assim como Deschamps. Pois bem: Feola inaugura essa linhagem entre xeneizes e tricolores, sucedido no Boca por Menotti (1987 e 1993-94), técnico vencedor de 1978, e Bilardo (1996), técnico campeão de 1986; e por Aymoré Moreira (1953, 1962 e 1966-67), treinador que faturou a Copa de 1962, e Parreira (1996), à frente do tetra em 1994, no São Paulo.
A camisa azul y oro é justamente a única que Feola em que dirigiu além de outras duas: a da seleção brasileira, notadamente pela Copa de 1958, e a do São Paulo, clube no qual teve diversas passagens entre 1937 e 1957. O Mundial da Suécia não foi o único chamariz para o Boca ir atrás dele: em 1960, o Brasil treinado por Feola teve resultados expressivos contra a Albiceleste na Copa Roca e na Taça do Atlântico. Em 4 de janeiro de 1961, o técnico já dirigia sua primeira partida à frente do Boca, em amistoso contra o Nacional uruguaio (0-0 em Montevidéu).
Nunca o Boca foi tão brasileiro. Já tinha um dos três nomes seguintes dessa lista e contratou outros dois – além do zagueiro Orlando Peçanha, outro vencedor da Copa de 1958. Mas a impressão final foi aquém do esperado, especialmente porque o Boca sentia um jejum expressivo de títulos desde 1954. Feola já não era o treinador quando a seca terminou, precisamente na temporada seguinte; seu grande aporte ao clube veio a ser a indicação à contratação de Orlando, ironicamente o único que não teve vínculo com o São Paulo na carreira.
Maurinho: egresso do Guarani, passou quase todos os anos 50 no São Paulo, como um segundo atacante em dupla com Gino Orlando. Defendeu o Brasil na Copa de 1954 na esteira daquele título de 1953 conquistado com Albella e Negri. Maurinho também fez o gol do título de 1957, humilhando o então corintiano goleiro Gylmar na jogada. Apareceu em 1961 em La Bombonera em meio àquele um boom de brasileiros importados naquele início de década pelos bosteros. Das novidades trazidas por Feola, foi o primeiro a estrear – em 4 de março, em 2-0 amistoso sobre o Colón. Chegou a estampar a capa da revista El Gráfico, sinal de prestígio. Mas momentâneo: como a maioria, ele não se ambientou. Durou um ano e meio, com nove de seus dez gols como xeneize saindo em amistosos, em contraste aos 40 gols em 123 partidas como tricolor. Em 1962, temporada em que clube encerrou oito anos de jejum na liga argentina, Maurinho figurando em só dois jogos.
Dino Sani: jogou no trio de ferro paulistano, formando-se no Palmeiras. Mas foi como são-paulino que embarcou à Copa do Mundo de 1958, credenciado pelo título paulista de 1957 – o último comemorado por longos treze anos. Ser reserva no Mundial da Suécia foi grife suficiente para o Boca requisita-lo em 1961, junto ao treinador Vicente Feola e outros brasileiros diversos. Dino, que estreou em 5 de abril de 1961 (em 6-0 amistoso contra o Ferro Carril Oeste), não foi mal: marcou 8 gols em 25 exibições pelo quadro bostero, ótimos números para um volante.
O que lhe faltou na Argentina foi justamente um título e/ou mais tempo, já que ficou apenas no ano de 1961, contexto em que a azul y oro chegava à sétima temporada seguida sem títulos. Mas seu desempenho e aquela Copa do Mundo no currículo atraíram o Milan, onde viveu talvez o auge da carreira. Teria em 1984 novo ciclo no Boca, como treinador, mas justamente no pior ano da história xeneize.
Almir Pernambuquinho: pelo São Paulo, foi apenas uma partida, amistosa. Mas para lá de histórico: valeu pelas festas de inauguração do Morumbi. Para a ocasião, ele foi generosamente cedido pelo Corinthians (os palmeirenses Djalma Santos e Julinho Botelho também foram tricolores por um dia naquela tarde, enquanto uma lesão inviabilizou uma histórica participação de Pelé como são-paulino). O temperamental atacante participou do segundo jogo realizado no estádio, em 3-0 sobre o Nacional uruguaio, em 9 de outubro de 1960. Já no Boca ele estreou em 11 de maio de 1961. Teve ali talento reconhecido a ponto de emplacar também a vinda do irmão Ayres para os juvenis xeneizes, mas o desequilíbrio emocional que tanto o caracterizou pesou ainda mais.
Ambiente familiar até havia, com a famosa panelinha brasileira a envolver os nomes seguintes dessa lista. Almir somou bons 11 gols em apenas 20 partidas e o site Historia de Boca o avalia como “muito dotado tecnicamente”, mas seu temperamento fez esses números se resumirem basicamente a amistosos – pois, no campeonato argentino, registrou um único gol em seis partidas, sobre o Independiente. Na vitoriosa temporada de 1962, atuou somente na 5ª rodada. Quando o título foi garantido, o brasileiro já estava no Genoa após trilhar uma passagem-relâmpago pela Fiorentina.
Del Vecchio: se os argentinos aduzem que Negri teria tempo para ensinar algo a Pelé, Emanuele Del Vecchio foi quem ainda retardou um pouco a explosão do Rei: fez excelentes 105 gols em 180 jogos como santista. Era a estrela da casa que, vendido ao Verona em 1957, abriu de vez espaço para o adolescente se sobressair no time adulto. Ainda teve tempo de enfrentar os argentinos na Copa Roca de 1957, que marcou justamente a estreia de Pelé com a canarinho, mas a transferência ao exterior privou-o de um lugar no Mundial da Suécia, por não se convocar quem atuasse fora do país. Estava recém-chegado ao Milan quando o Boca o adquiriu, em 1963. Não foi mal: foram quatro gols em dez jogos e, retirando os amistosos, foram três em seis.
Mas, apesar de elogiado pela potência e bom cabeceio, Del Vecchio não superou a concorrência com o conterrâneo Paulinho Valentim (de quem logo falaremos), não sendo usado na campanha vice da Libertadores. Acabou voltando ao Brasil, repatriado pelo São Paulo, onde estreou em 14 de março – portanto, um mês antes do nome seguinte ingressar nessa lista. Teve bons números em meio ao famoso jejum tricolor no estadual, com 34 gols em 69 jogos. Mas rumou já no segundo semestre de 1965 ao Bangu.
Cecílio Martínez: paraguaio formado no Nacional de Assunção, intercalou São Paulo e Boca entre 1963 (ano em que estreou como tricolor, em 28 de abril) e 1965 (ano em que se despediu do Morumbi, curiosamente também em um 28 de abril). Na historiografia são-paulina, ele é lembrado praticamente pela tarde em que o Santos de Pelé pegou mais cedo o rumo dos vestiários em meio a um 4-1 no clássico. No Boca, Martínez integrou a campanha campeã argentina de 1964, mas em passagem-relâmpago: foi visto em campo somente entre abril e maio. O São Paulo, por sua vez, seguiu vivendo o jejum de 1957 a 1970.
Paulo Valentim: artilheiro no Atlético e no Botafogo, Valentim soube se incluir na seleção recém-vencedora da Copa de 1958; disputou a Copa América de 1959 sediada na Argentina. O título em pleno Monumental foi evitado por um gol polemicamente anulado de Garrincha no instante final, mas Valentim pareceu deixar impressão boa. Chegou ao Boca ainda em maio de 1960, antes dos nomes anteriores. E se o Boca foi atrás de mais brasileiros, muito se deveu ao brilho de Valentim: ele é simplesmente o maior artilheiro do lado auriazul em Superclásicos válidos pelo campeonato argentino. Em jejum, o clube ainda demoraria duas temporadas para se acertar, mas Paulinho se estabilizou individualmente para se consagrar na redenção de 1962: foi dele o único gol em Superclásico histórico na penúltima rodada, na qual a dupla de gigantes travou duelo direto que praticamente definiu o título.
Valentim teria altos e baixos, mas deixou 129 gols em 196 partidas pelo Boca, incluindo-se os amistosos. Em 1965, em um dos momentos de crise, a diretoria estava negociando-o com o Rosario Central. Mas o atacante rebelou-se e voou ao Brasil, com sua boa relação com Feola pesando para forçar negócio com o São Paulo. Não vingou; mais de uma vez, ficou mais tempo do que o anunciado em Buenos Aires, onde retornava ocasionalmente para pendências pessoais; e mesmo no Brasil demonstrava má forma e faltava a treinos. Um primeiro anúncio de dispensa apareceu em novembro até a rescisão ser corroborada definitivamente em janeiro de 1966.
O antigo artilheiro reinstalou-se em Buenos Aires para tentar uma vida de comerciante, embora ainda jogasse pelo mexicano Atlante, em negócio de 15 mil dólares acertado em maio, e pelo Argentino de Quilmes na segunda divisão argentina de 1968. Adotando como lar a capital argentina junto à esposa Hilda Furacão, foi velado no hall do Boca após morrer na pobreza em 1984, levado por uma infecção pulmonar. Já dedicamos a Valentim esse outro Especial.
Jorginho Paulista: seu melhor momento veio no Vasco campeão brasileiro e da Mercosul em 2000 (onde virou “Jorginho Paulista”, na companhia do Jorginho mais famoso, o lateral-direito ex-Flamengo, seleção e Bayern Munique). Os cruzmaltinos ainda realizaram uma primeira fase com 100% de aproveitamento na Libertadores de 2001, ainda que em seguida tenham sido eliminados com duas derrotas pelo futuro campeão Boca, que se interessou por Jorginho desde sua boa exibição em um 4-1 do Vasco para cima do River ainda por aquela Mercosul; as saídas quase simultâneas dos dois laterais (Ibarra e Arruabarrena) para a Europa foi outro fator.
O passe pertencia à Udinese e o brasileiro ficou só no segundo semestre de 2001, sem render: não podia mais ser inscrito na Libertadores e, quando pôde ir a campo, o time já estava com a mente no Mundial Interclubes e se desleixou no tumultuado Apertura do corralito, ao passo que Bianchi pedira que Jorginho se focasse mais nas tarefas defensivas do que nas projeções ao ataque que tanto gostava. O clube italiano repassou o lateral ao São Paulo no segundo semestre de 2002, mas ele não se firmou na titularidade na grande campanha feita pelo clube prévia aos mata-matas.
Marcelo Cañete: enganche que teve seu grande momento na campanha chamativa da Universidad Católica na Libertadores de 2011, de repercussão no Brasil por eliminar o Grêmio nas oitavas-de-final – por sinal, com dois gols de Lucas Pratto no antigo Olímpico Monumental. Cañete estava emprestado pelo Boca, onde não tinha como sair da sombra de Riquelme, e foi comprado sob expectativas pelo São Paulo. Porém, calhou de atravessar seguidas lesões. Terminou continuamente emprestado (Portuguesa, Náutico, São Bernardo) até ser vendido em 2015 ao CRB; sua última partida como tricolor se dera ainda em março de 2014.
Clemente Rodríguez: ícone do Boca supervencedor no início do século e um dos mais ilustres representantes da mestiçagem afro-indígena a chegar aos holofotes do futebol argentino, Clemente teve três ciclos no clube. Foi lançado pela base em dezembro de 2000, já depois do clube ter vencido o Mundial Interclubes. Não demorou a se firmar na posição, ganhando as Libertadores de 2001 e 2003 (ano em que sim ganhou o Mundial) e sendo finalista na de 2004, ano em que esteve no primeiro ouro olímpico da Argentina. Foi negociado com o emergente futebol russo, mas teve uma volta pé-quente no primeiro semestre de 2007: emprestado pelo Spartak Moscou, venceu nova Libertadores, ainda a última do clube. Rodríguez venceu o torneio também pelo Estudiantes, em 2009, cavando lugar na Copa do Mundo de 2010.
Após o Mundial daa África do Sul, Clemente foi recomprado pelo Boca, vencendo então o histórico Apertura 2011: não foi um título lembrado pelo futebol exuberante e sim pela sólida defesa que garantiu uma rara conquista invicta (ainda a última) na liga argentina, e pela volta olímpica se misturar à contrastante estadia do River na segunda divisão. Sem encantar, aquele Boca do treinador Julio César Falcioni ainda chegou a nova final de Libertadores em 2012 e ao título do relançamento da Copa Argentina. Assim, mesmo já veterano, Clemente chegou com prestígio ao São Paulo em julho de 2013. Simbolicamente, foi expulso em plena estreia, a primeira das três únicas partidas em que foi aproveitado pelo time principal ao longo de duas temporadas.
Jonathan Calleri: cria do All Boys (do bairro portenho da Floresta, curiosamente o mesmo nome do local paulistano em que o São Paulo foi fundado), chegou ao Boca em 2014 e teve boa participação na dobradinha caseira de 2015, com títulos tanto no campeonato como na Copa argentinas – e um recordado golaço de letra por cobertura sempre reprisado, contra o Quilmes, ofuscando a reestreia que Tévez fazia naquela mesma data. Em 2016, na esteira da contratação do técnico Edgardo Bauza, Calleri foi uma das outras novidades argentinas no Morumbi. Teve química instantânea com o tricolor, com sua artilharia na Libertadores 2016 lhe colocando na seleção olímpica para os Jogos do Rio.
O argentino (que estreou como são-paulino em 3 de fevereiro de 2016, quinze dias antes do nome seguinte) pertencia ao Deportivo Maldonado, que na sequência o emprestou a meia dezena de outros clubes sem que o atacante conseguisse faro de gol próximo ao exibido como são-paulino. Mesmo assim, a expectativa de sua volta seguiu sendo alimentada pela torcida até se concretizar em 2021. Quem era xodó virou então um inegável ídolo, em especial pela conquista inédita da Copa do Brasil em 2023.
Lucas Pratto: torcedor do Boca na infância e levado por ninguém menos que Martín Palermo ao clube, acabou sendo um de tantos centroavantes tapados pelo próprio Palermo (como Mauro Boselli ou Lucas Viatri), que no fim dos anos 2000 insistia em ser iluminado mesmo quase quarentão. Pratto só fez duas partidas pelo time adulto e foi sucessivamente emprestado enquanto teve seu passe atrelado ao clube. Nessa condição, ele e Cañete se sobressaíram na Universidad Católica de 2011, o que valeu ao atacante negócio com o Genoa. Mas foi no Vélez que Pratto terminou de se lapidar, sendo a referência ofensiva no que por mais de dez anos (até 2024) foram os últimos títulos argentinos velezanos, em 2012 e 2013.
Assim, o Atlético Mineiro apostou nele para 2015, ano da grande temporada de Pratto no futebol brasileiro. A Bola de Prata da Placar por 2015 até fez ele ter em 2016, ainda como atleticano, suas primeiras aparições pela seleção argentina. O São Paulo fechou negócio em 2016 mas, muito embora Pratto tenha feito jogos pela Albiceleste também como são-paulino, minguou em comparação com o nome seguinte dessa lista. Ainda com esperanças de ir à Copa do Mundo de 2018, Pratto arranjou no início de 2018 uma negociação com o River. Demorou para dar certo em Núñez, não conseguindo ir à Rússia. Mas então veio a história conhecida, com El Oso virando talismã na definição catártica da Libertadores de 2018 logo sobre o clube de origem. Não precisou fazer mais nada para ter carinho eterno pelo rival.
Andrés Chávez: normalmente reserva de Tévez e Calleri nos títulos de 2015, deixou seu golzinho na final da Copa Argentina daquele ano. Chegou no finalzinho da estadia de Bauza. Estreou em 31 de julho de 2016 e teve um início promissor com seguidos gols. Então veio uma seca de dez jogos que, mesmo encerrada em 4-0 sobre o Corinthians, acabou se impregnando. O empréstimo não foi renovado e o atacante, oriundo dos povos originários (assim como o nome seguinte), terminou vendido pelo Boca ao futebol grego.
Ricardo Centurión: ponta promissor do Racing campeão argentino em 2014, sendo inclusive dele o gol que assegurou o título (no duelo final com o Godoy Cruz), chegou no início de 2015 ao São Paulo. Não se aclimatou. Após a Libertadores de 2016, terminou emprestado ao Boca, onde estreou em 28 de agosto de 2016. Na Casa Amarilla, recuperou parte do nível na campanha campeã argentina da temporada 2016-17, trampolim para ser renegociado com o futebol italiano.
Julio Buffarini: o lateral entrou para a história do San Lorenzo por integrar em 2014 a primeira Libertadores vencida pelos azulgranas, encerrando décadas de zombarias suportadas pelo único grande clube argentino que não havia levantado La Copa. Seu técnico naquela conquista era Edgardo Bauza, que, seis meses após chegar ao São Paulo, o traria ao Tricolor – embora a estreia de Buffarini ocorresse precisamente no último jogo de Bauza no clube, antes do treinador assumir a seleção argentina. Em um ano e meio no Morumbi, o esforçado Buffarini não virou ídolo, mas tampouco comprometeu; cavando no fim de 2017 uma transferência do Boca. Bauza também fez dele o primeiro são-paulino convocado pela seleção, embora Buffa não tenha chegado a entrar em campo. No Boca, permaneceu até 2021, ganhando dois títulos argentinos, mas também amargando quedas traumáticas para o River na Libertadores em 2018 e em 2019.
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