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Elementos em comum entre Estudiantes e Racing, os primeiros campeões mundiais da Argentina

A semifinal argentina que o Flamengo abortou na Libertadores 2025 se converteu na final do Clausura. Racing e Estudiantes resgatam em 13 de dezembro um duelo que teve faíscas sobretudo no final dos anos 60, período que marcou o auge conjunto tanto de La Academia como dos Pincharratas. Afinal, tratam-se precisamente dos dois primeiros clubes argentinos a se coroarem campeões do mundo – o que ocorreu em anos seguidos, rendendo ensaio humorado da imagem acima, entre os saudosos Juan Ramón Verón (pai de Juan Sebastián e igualmente craque) e Juan Carlos Cárdenas, autores dos gols decisivos nos respectivos Mundiais Interclubes ganhos pela dupla. Mas é possível inclusive relacionar também os primeiros anos de times que têm, por sinal, distintivos quase gêmeos.

O Estudiantes foi fundado em 1905 e, embora seu escudo homenageie nitidamente o próprio Racing, inspirou suas vestes no bicho-papão da época, o Alumni, que somou nada menos que dez títulos argentinos entre 1900 (quando ainda se chamava English High School) e 1911. A camisa alvirrubra com calções pretos e meias igualmente pretas vestia então basicamente membros da comunidade britânica na Argentina, sobretudo a escocesa, caso da família Brown. Ela forneceu nada menos que cinco irmãos, além de um primo dos cinco, aos primórdios da seleção argentina. Sete décadas depois, o próprio Estudiantes teria o seu Brown de seleção, embora sem parentesco com aquela dinastia – chegaremos nele.

Instituto de Córdoba, Unión de Santa Fe, San Martín de Tucumán, Talleres de Escalada (clube que profissionalizou Javier Zanetti e Germán Denis, além de polir Fernando Redondo nos infantis) e o polêmico Barracas Central foram os outros times mais proeminentes na primeira divisão cujos uniformes se inspiraram na equipe engendrada pelo professor escocês Alexander Watson Hutton, considerado o “pai do futebol argentino”. A Seleção Uruguaia também deve sua icônica camisa celeste ao Alumni, por ter sido com ela que este clube foi derrotado pelo antigo River Plate de Montevidéu, o que sinaliza como o prestígio ia além das fronteiras. Muitos daqueles Brown, por exemplo, estavam na escalação que surrava fora de casa por 6-3 a Seleção Paulista e por 4-0 a Seleção Carioca já em 1912, em visitas da Albiceleste ao Brasil. Àquela altura, defendiam o Quilmes, outro clube originalmente britânico.

Os anglo-saxões do Alumni, time dominante que inspirou a roupa do Estudiantes. E o Racing, apontado na legenda legível no canto superior esquerdo como “o sucessor do Alumni”

Mesmo campeão em 1911, o Alumni preferiu não prosseguir suas atividades naquele 1912. O historiador Esteban Bekerman deu recentemente no Twitter explicações mais do que esportivas: “foi um clube elitista e anglófilo em um contexto que ponderava essas características como valores. Por isso durou somente 10 anos em que pese os múltiplos títulos que ganhou. Nunca teve nem quis ter apelo popular. E assim perdeu rapidamente a corrida contra o tempo quando o futebol oficial começou a refletir ações e políticas inclusivas (…). Essa inclusão repugnava o Alumni e por isso se dissolveu sem maiores trâmites em 1912. Foram claramente os melhores de sua época não só na Argentina, mas também em toda a América do Sul. E deixaram um legado importante ao contribuir na popularização do jogo no país. O tema é que conseguiram isso a contragosto. Não buscavam isso. E, quando começaram a alternar com hispânicos não surgidos de seu mesmo ambiente, preferiram dissolver o clube, por não estar de acordo com essa popularização. (…) Em 1911, já não era um clube só para ex-alunos do colégio de Watson Hutton. Seu último goleiro foi efetivamente Emilio Bolinches, fundador do Atlanta e filho de espanhóis. O incorporaram porque não tinham ninguém para o posto. Mas não os agradava nada disso de alternar com gente que não fosse da sua classe”.

Enquanto o Alumni fora campeão em 1911, o Quilmes fora lanterna, tendo seu rebaixamento sido cancelado exatamente pela retirada do Alumni para 1912. Reforçado com os irmãos Brown, os Cerveceros foram simplesmente os campeões de 1912, primeiro e por muito tempo único título quilmeño (só houve mais um, em 1978) na primeira divisão. Mas não é exagero cravar que o vácuo deixado pelo Alumni foi preenchido pelo Racing. É que o time de Avellaneda venceria simplesmente os sete torneios seguintes, entre 1913 e 1919, período que originou o apelido de Academia. O goleiro racinguista mais assíduo naquela era inclusive era outro latino que o Alumni havia tolerado em seus quadros, Marcos Croce.

O Estudiantes, por sua vez, também foi campeão argentino em 1913. Dando algum respaldo à má vontade do Alumni, os órgãos diretivos do futebol argentino já davam sinais da bagunça tão associada à atual AFA: fato é que precisamente em 1912 houve uma cisão, com equipes dissidentes dela criando uma federação alternativa. Foi como consequência do motim que tanto Boca como Independiente, então clubes de segunda divisão, estrearam na primeira, promovidos “via escritório”: o Rojo, no campeonato criado pela federação rebelde; o Boca, na retomada do certame original, que supriu a debandada de diversos clubes renegados incluindo quem estava na divisão inferior.

O 1º título argentino da dupla foi em 1913. O Estudiantes sagrou-se em 23 de novembro na sua liga, então dissidente. O Racing, em outra liga, sagrou-se em 28 de dezembro e venceria também os seis torneios seguintes. Já o time de La Plata precisou esperar até 1967

Em 1913, o Racing ganhou a liga mais tradicional enquanto o Estudiantes venceu a dos revoltosos. Como as duas ligas se reunificaram em 1915, os títulos de ambas foram reconhecidos como oficiais. Desde então, em somente outros dois anos os dois clubes terminaram campeões: inicialmente, porque o Pincha tornou-se pelas cinco décadas seguintes um time apenas médio, sem novos troféus no campeonato. Depois, por La Acadé ter cada vez mais se acostumado à mediocridade. Sofreu entre 1925 e 1949 um primeiro jejum na liga nacional. Outro, ainda maior, viria entre 1966 e 2001, período que também viu o time de La Plata não consolidar a longo prazo a fase áurea vivida entre 1967 e 1970.

O Racing disputou a Libertadores de 1967 classificado como campeão argentino de 1966, sem desconfiar que essa taça seria por 35 anos a última no torneio doméstico. Até então, somente o rival Independiente havia vencido La Copa. Inicialmente, o elenco racinguista soube dividir o foco tanto na Libertadores como no campeonato argentino de 1967, a ponto de se classificar à final dos dois torneios. Como o espaço entre as duas decisões foi curto, a outra força de Avellaneda não teve dúvidas em escalar uma formação mista para encarar o Estudiantes em 6 de agosto, em jogo único no campo neutro do San Lorenzo. O Estudiantes aproveitou muito bem e venceu por 3-0, se tornando o primeiro time a ser campeão argentino profissional (desde 1931) vindo de fora dos cinco grandes, o oligopólio que aqueles anos 30 havia consolidado entre Racing, Independiente, San Lorenzo e a dupla Boca & River.

Nove dias depois, o vice-campeão argentino de 1967 começava a ganhar a América. As finais da Libertadores ocorreram nos dias 15 e 25 de agosto, em dois jogos sem gols contra o Nacional, tendo o time uruguaio sucumbindo já em jogo-extra travado no neutro Chile no dia 29. Em novembro, então, o Racing obteve o primeiro Mundial do futebol argentino. A condição de campeão da Libertadores de 1967 também deu ao Racing o benefício de começar a Libertadores de 1968 já na fase semifinal. E a vitória por 2-0 em Cilindro parecia encaminhar nova final ao campeão do mundo. Só que o troco em La Plata teve juros, um 3-0 pincharrata que, pelo regulamento, forçou um terceiro-jogo, ainda que desse aos alvirrubros a vantagem do empate.

O Estudiantes de Marcos Conigliaro e Felipe Ribaudo comemora em agosto de 1967 o título argentino (o segundo de sua história) em final com um Racing, que, ao fim do mesmo mês, venceria a Libertadores

Os dois duelos iniciais foram ásperos a ponto da AFA e da ditadura argentina se meterem na competição da CONMEBOL: jogadores de ambos os clubes foram comunicados do Édito das Reuniões Esportivas, que estabelecia detenção por quadro dias a quem terminasse expulso de campo por agressão ou jogo brusco. A partida extra, no neutro Monumental de Núñez, teria sido menos truncada, mas viu a nova regra ser aplicada a Alfio Basile e a Néstor Chabay, do Racing, e a Néstor Togneri e Ramón Aguirre Suárez, do Estudiantes. Os quatro foram “pernoitar” na cadeia situada no bairro de Villa Devoto. “A glória ou Devoto” para diferenciar vencedores de vencidos se tornaria inclusive um jargão esportivo na Argentina.

O resultado, em 1-1, classificou o Estudiantes à decisão e seus jogadores fizeram questão de visitar na penitenciária os dois colegas que estavam expulsos. Teriam encontrado por lá quem, do Racing, estava igualmente sendo solidário a colegas detidos. Carlos Bilardo conta que estava preparado para novo round quando, para sua surpresa, os adversários estenderam a mão para cumprimentar os finalistas: a pólvora que preenchia o gramado havia ficado apenas no gramado e os platenses receberam votos de boa-sorte na decisão.

O Estudiantes realmente venceria (sobre o Palmeiras) aquela Libertadores de 1968. Na sequência, levantaria o Mundial de 1968, o segundo festejado pelo futebol argentino. E, diferentemente do Racing, soube aproveitar melhor a benesse que o regulamento da Libertadores dava ao campeão: começando a de 1969 já nas semifinais, foi bicampeão seguido ao fim de quatro partidas. Filme que se repetiu quase à risca em 1970, quando foi preciso um jogo a mais. E que só não ocorreu novamente em 1971 porque terminou em vice-campeonato.

Verón pai e Rubén Díaz na tumultuada semifinal da Libertadores 1968. O Estudiantes passou e seria campeão do mundo com gol decisivo do próprio Verón

Após o desmanche/envelhecimento do elenco tricampeão da América, o Estudiantes até pôde ser vice argentino em 1975 e campeão seguido em 1982 e 1983. Mas, pelo restante do século, foi só: até rebaixado seria, em 1994. O Racing, por sua vez, ainda cheirou o título argentino em 1968 (dividindo com River e o campeão Vélez a liderança) e em 1969 (perdendo nos últimos minutos da semifinal para o futuro campeão Chacarita), mas o mesmo desmanche/envelhecimento se mostrou mais cruel. Também foi preciso suportar rebaixamento, em 1983, permanecendo na segundona enquanto o Independiente ganhava a sétima Libertadores e um segundo Mundial em 1984. Se antes o duelo valia o continente, em 1996 repercutiu mais pelo folclore de render o primeiro gol de cabeça de um goleiro na primeira divisão argentina, do pincharrata Carlos Bossio.

A redenção do Racing em 2001 teve como “exibição de campeão” justamente a partida contra o Estudiantes. Dentro de La Plata, a Academia soube virar derrota de 2-0 para um significativo 3-2 na 11ª de 19 rodadas, mantendo uma invencibilidade essencial para um elenco operário de um clube tão suscetível a despencar animicamente em carnavais anteriores assim que sofria um revés inesperado – como aquele gol de goleiro em 1996. O título, porém, não foi seguido tão cedo de novos e a década terminou muito mais feliz ao Pincha: encerrou em 2006 uma seca de 23 anos no campeonato argentino, foi vice em 2008 na Sul-Americana, campeão em 2009 na Libertadores e, em 2010, venceu mais um Argentinão.

O título de 2010 do Estudiantes, repleto de jogadores com passo pelo Racing, como veremos, segue sendo seu último no campeonato argentino: nos anos 2010, foi a Academia quem foi mais vencedora, com conquistas em 2014 e em 2019 na liga nacional. Essa tônica de jejum conjunto ou de ao menos um time estar em seca contribuiu para que os anos de títulos em comum se reduzam a 1913, 1967 e, enfim, 2023 (Racing no Troféu de Campeões, Estudiantes na Copa Argentina) e 2024 (Racing na Sul-Americana, Estudiantes na Copa da Liga e no Troféu de Campeões). O ano de 2025 se somará a essa lista se o Estudiantes levar a melhor, uma vez que o Racing já conseguiu a Recopa Sul-Americana. 

O gol de goleiro do Estudiantes em 1996 e a virada de 2-0 para 3-2 (dentro de La Plata) do Racing campeão de 2001: outros duelos anedóticos. A comemoração racinguista é de Chatruc, um dos nomes da lista abaixo

La Acadé, é claro, quer mais: se a Libertadores virou fumaça, o título argentino seria um escape nada irrisório para seu treinador Gustavo Costas, torcedor racinguista fervoroso que sofreu na carne a decadência dos anos 80 e 90; pendurou as chuteiras com o profissional com mais partidas pelo Racing, mas nunca pôde ser campeão argentino como jogador.

Feito o contexto, hora de listar os mais proeminentes que passaram pelos dois – considerando quem pôde ser querido ou campeão em pelo menos um dos lados, daí a ausência de um nome como o de Omar Sívori, craque de bola que treinou ambos sem os mesmos êxitos que teve jogando por River ou Juventus, ou de Eduardo Solari (o pai de Santiago, ex- Real Madrid), igualmente técnico em ambos.

Enrique Guaita, Alejandro Scopelli e Alberto Zozaya: três membros do quinteto ofensivo histórico que o Estudiantes teve na virada dos anos 20 para os 30, em ataque apelidado de Los Profesores, em trocadilho evidente com o nome do clube. O Pincha foi 3º em 1928 e foi o principal concorrente em 1930 e em 1931 do campeão Boca, especialmente em 1931, quando aquele ataque passou dos cem gols no torneio, cerca de vinte a mais do que o próprio campeão. Reserva da Argentina na Copa de 1930, o meia Scopelli rumaria à Roma e à seleção italiana, se tornando o primeiro argentino globalizado, em trajetória que incluiu ainda Portugal, França, Espanha, Chile e México. O ponta Guaita, também contratado pela Roma, foi ainda mais longe, vencendo a Copa de 1934 como um dos naturalizados da Azzurra. Os dois, porém, fugiram da Itália para não servirem o exército fascista e foram repatriados pelo Racing.

El Indio Guaita e El Conejo Scopelli não ganharam títulos em Avellaneda, mas conseguiram boa média de gols, inclusive servindo a Argentina vencedora da Copa América de 1937, sobre o Brasil. A expectativa sobre Guaita era tanta que, nos registros da época, sua impressão no Racing foi um tanto morna. Hoje, El Indio seria facilmente ídolo: foram 21 gols em 42 jogos, números chamativos a um ponta. Scopelli fez 44 em 60 jogos e foi incluído em 2011 em edição especial em que a revista El Gráfico elegeu os cem maiores ídolos do Racing, bem como em outra que elegeu em 2013 os 110 maiores.

Scopelli (à esquerda, nos tempos áureos do clássico de La Plata) foi o primeiro ídolo comum à dupla

Quem realmente só reluziu em La Plata foi o centroavante Zozaya. Ele chegou a ser o maior artilheiro do Estudiantes (atualmente, é o segundo, abaixo de Manuel Pellegrina), e ainda como jogador do clube voltou a ser colega dos outros dois naquela seleção vencedora da Copa América de 1937. Chegou ao Racing em 1940 para só dois joguinhos considerados oficiais, sem marcar. Como treinador, venceu com seu Estudiantes a Copa da República de 1945, espécie de Copa Argentina que foi o principal troféu pincharrata entre 1913 e 1967.

Roberto Bugueyro: veloz e driblador, foi um ponta de fôlego notável para a época. Em 1932, por exemplo, seus sete golzinhos saíram todos no segundo tempo, aproveitando-se do cansaço dos oponentes em tempos em que não haviam substituições. Foi a temporada em que o Racing esteve mais próximo do título argentino nos anos 30, um pontinho abaixo de River e Independiente – que teria sido o campeão se não fosse derrotado em Clásico de Avellaneda na rodada final. O mesmo elenco pôde vencer no início de 1933 a Copa Beccar Varela, espécie de Copa da Liga da época. Bugueyro esteve rapidamente em 1937 no Estudiantes, pintando em 1938 no Brasil como contratação chamativa de um America-RJ ainda potente.

Guillermo Stábile: o artilheiro da primeira Copa do Mundo se associou mais à Seleção. E não somente pelo desempenho no Mundial de 1930: El Filtrador foi o longevo técnico que a Argentina teve de 1939 a 1958. Sem contrato de exclusividade com a AFA, ele conciliava o cargo na Albiceleste com o de treinador dos mais diversos clubes. O Estudiantes foi um deles, em 1941. Seu melhor trabalho clubístico se deu no Racing: permaneceu ali de 1946 a 1953, mais do que qualquer outro técnico em La Acadé. Era o comandante do histórico tricampeonato seguido de 1949-50-51, encerrando com sobras aquele jejum que perdurava desde 1925. Os três títulos fazem Stábile ser até hoje o treinador mais vezes campeão argentino com o Racing.

Saúl Ongaro: zagueiro histórico no Estudiantes, clube que serviu entre 1937 e 1946, integrou formações campeãs em 1944 na Copa Adrián Escobar (equivalente argentino ao Torneio Início, com jogos-relâmpago de 20 minutos entre os primeiros colocados do certame) e em 1945 na Copa da República, aquela Copa Argentina da época. Stábile, que o havia treinado tanto no clube de La Plata como na seleção, o requisitou para o Racing. Ongaro venceu os dois primeiros títulos do tricampeonato. Seria técnico mais de uma vez tanto no Estudiantes (1956, 1962-63) como no Racing (1955, 1957 e 1961). Tanto venceu o campeonato de 1961, com seu Racing sendo líder em todas as rodadas, como não desatolou o Estudiantes dos últimos lugares em 1962 ou 1963.

Stábile como técnico nos dois – é o primeiro em pé na foto da direita. Ongaro também está nas duas fotos, em pé junto a Stábile na alvirrubra e como último em pé na alviceleste. O pincharrata agachado é Gagliardo, reserva no Racing campeão em 1949

Julio Gagliardo: ponta profissionalizado em 1940 pelo Estudiantes, acumulou setenta gols em 199 jogos disputados até 1948, fazendo-se presente nos títulos copeiros da década – a Copa Adrián Escobar de 1944 e a Copa da República de 1945, ano de sua tarde mais lembrada em La Plata. É que Gagliardo marcou o primeiro gol e forneceu assistência ao terceiro na virada de 3-1 em Clásico Platense válido pela rodada final, resultado que decretou o segundo rebaixamento do Gimnasia. Reforçou o Racing em 1949 e, embora tenha perdido a titularidade, marcou o recordado gol de vitória dentro do Monumental sobre o então líder River na 22ª rodada. O resultado colocou La Acadé na liderança (da qual não mais saiu) e encerrou longa invencibilidade caseira do concorrente, em repercussão que fez o próprio Gagliardo criar cartões de apresentação descrevendo-se como autor do gol. No fim da carreira, defendeu o Gimnasia entre 1953 e 1954, sem o mesmo pique.

Luis Carrizo: goleiro que o Estudiantes trouxe em 1958 do ignoto Deportivo Verónica, jogou uma única vez em duas temporadas com o clube. Se talhou nas divisões de acesso por El Porvenir e All Boys, clube do qual chegou ao Racing em 1963. Carrizo permaneceu até 1968, usualmente como reserva de Agustín Cejas, tendo como grande temporada a de 1966: Cejas fraturou um dedo ainda no início do torneio e, mesmo recuperado, custou a retomar o posto, participando de somente oito jogos do título argentino daquele ano. Foi com Carrizo (sem parentesco com o também goleiro Amadeo Carrizo) em 32 jogos que o Racing levantou aquele título no embalo de invencibilidade seguida de 39 partidas e um recorde de pontuação nos anos 60.

Juan Carlos Rulli: volante daqueles que correm por si e pelos outros, foi outro que o Estudiantes trouxe em 1958 do interior, desde sua Santa Rosa natal. Demorou para ganhar assiduidade; somente na temporada 1962 é que passou dos vinte jogos, sendo reconhecido como oásis de brilho no penúltimo colocado: aos 33 minutos do segundo tempo em duelo direto como visita ao Lanús, Rulli marcou o gol que assegurou a permanência platense às custas do rebaixamento grená. Saiu assim do vice-lanterna diretamente para o campeão Boca. Não se firmou no novo clube, mas pôde seguir carreira no Racing a partir de 1965.

Titularíssimo na equipe campeã de tudo entre 1966 e 1967 (sendo inclusive apontado em registros de época da El Gráfico como o melhor em campo na glória mundial), permaneceu até 1970 no Cilindro. É um dos últimos sobreviventes dos titulares campeões do mundo em 1967, e foto sua segurando como mascote o garotinho Gustavo Costas vêm viralizando a cada êxito que Costas consegue com o Racing. Rulli também é primo em segundo grau do goleiro Gerónimo Rulli (os pais de ambos são primos e, pela grande diferença de idade, Juan Carlos se considera um tio postiço de Gerónimo), formado no Estudiantes e reserva de Dibu Martínez na Copa do Mundo de 2022.

Rulli salvou o Estudiantes do rebaixamento em 1962. Campeão do mundo com o Racing, carrega de mascote nessa foto o futuro treinador Gustavo Costas, técnico racinguista em 2025

Oscar Malbernat e Osvaldo Zubeldía: o capitão e o técnico do Estudiantes tri da América entre 1968-70 tiveram ambos passagens pelo Racing na década seguinte, sem o mesmo toque de Midas. El Cacho Malbernat até foi capitão também em Avellaneda, em 1973, vindo do Boca. Mas durou somente aquela temporada, preferindo parar de jogar. Ele eventualmente voltou ao Estudiantes como técnico, na temporada 1987-88 e na de 2002-03.

El Mago Zubeldía, sem parentesco com o atual técnico do Fluminense, chegou ao Cilindro em meados de 1975. Estava credenciado pelo recente título com o San Lorenzo no Nacional de 1974 e teve como ponto alto um maluco 5-4 sobre o Independiente, em Clásico de Avellaneda que carimbou a faixa de tetracampeão seguido que o arquirrival tivera no mês anterior na Libertadores. Mas foi desligado no início de 1976, na primeira vez em que o Racing precisou lutar contra o rebaixamento. Recuperou seu prestígio no futebol colombiano e é reconhecido como mentor da filosofia empregada pela seleção de 1986.

Carlos Leone: goleiro que durou no Estudiantes entre 1969 e 1975. Embora tenha tido uma sequência de jogos basicamente em 1972, está aqui como reserva de dois títulos na Libertadores. Passou ao Racing no segundo semestre de 1975, sem integrar o vice-campeonato do ex-clube no Torneio Nacional. Era ele o goleiro da Academia naquele histórico 5-4 sobre o Independiente, mas era também ele o arqueiro racinguista que lutou contra o rebaixamento em 1976.

Hugo Gottardi: entre 1973 e 1976, notavelmente conseguiu cerca de meio gol por jogo por um Racing fragilizado. Seu clube seguinte foi o Estudiantes onde, como outros nomes dessa lista, foi uma das figuras do time bicampeão seguido em 1982-83, quando então buscou pé de meia no lucrativo narcofútbol colombiano: pelo Santa Fe, foi artilheiro já em 1983 e também em 1984 na liga cafetera. Após parar de jogar, Gottardi se tornou figurinha carimbada nas comissões técnicas de Miguel Ángel Russo, outro nome dessa lista, como um de seus fiéis auxiliares.

Malbernat e o técnico Zubeldía foram ambos bem mais felizes no Estudiantes

Carlos Ángel López: ponta talentoso em um forte time do Colón, dali cavou transferência ao Estudiantes para o Torneio Nacional de 1975, onde integrou o elenco vice-campeão. Ainda vestiria bem a camisa do Racing. Em tempos de vacas magras no Cilindro, era um dos principais nomes das festejas classificações aos mata-matas no Torneio Nacional, em 1978 e em 1979. Foi como racinguista que López chegou à seleção, simplesmente brigando por uma vaga com Maradona na Copa América de 1979.

Guillermo Trama e Alberto Benítez: Trama foi um ponta prospectado em 1977 pelo Racing desde o futebol de Mar del Plata. Seus melhores lampejos se deram no Nacional, em que a equipe calhou de ter um regulamento duríssimo em que somente o líder de cada grupo ia aos mata-matas – na sua chave, o Racing foi segundo colocado do futuro finalista Talleres. Trama seguiu para o Rosario Central, onde realmente se consolidou. Veio como campeão argentino em 1980 por este clube ao Estudiantes, em 1981. Fez a dupla de ataque com Gottardi no elenco campeão do Metropolitano de 1982 e adiante venceu também o Nacional de 1983, embora já menos calibrado. Um de seus colegas foi Benítez, que chegara a La Plata exatamente para o Nacional de 1983, após sete anos de Deportivo Cali. Fora goleador na Colômbia, mas no Pincha sua contribuição ao bicampeonato se limitou a dois golzinhos. Reforçaria o Racing na segunda divisão de 1984, com acesso perdido justamente em final com o Gimnasia.

José Raúl Iglesias: revelado no San Lorenzo e com passagens até pelo Barcelona B, El Toti Iglesias foi um atacante tosco mas efetivo e carismático dos anos 80. Apareceu no Estudiantes somente no ano de 1985, com bons onze golzinhos em 28 jogos por uma equipe de meio de tabela. Reforçou o Huracán para a metade final da temporada 1985-86 e foi com seus gols que o clube, fadado ao rebaixamento, se permitiu sonhar com a salvação até o último jogo possível. A queda veio, mas o Totigol migrou ao Racing para uma única temporada, mas certeira. Deixou 19 gols entre 1987 e 1988, brilhando em especial em 6-0 sobre o Boca. Integrou o início do título da Supercopa 1988.

José Luis Brown: zagueiro sem cerimônias que o Estudiantes teve de 1975 e 1983, Tata Brown foi reserva no elenco vice de 1975, mas um dos ícones do bicampeonato seguido de 1982-83 – com direito até a gol nas finais. Acabou apadrinhado por Carlos Bilardo, seu técnico no clube tanto em 1975 como em 1982: Bilardo assumiu a seleção em 1983 e fez o povo argentino ter que engolir o pupilo, um dos nomes mais questionados na convocação à Copa de 1986. Brown vinha de temporadas decepcionantes por Boca e Deportivo Español, mas a escolha paneleira de Bilardo acabou premiada quando aquele líbero marcou na final da Copa do Mundo o único gol de sua carreira com a seleção.

Gottardi, que comemora com Brown na segunda foto, foi bem nos dois. Brown, com Fabbri na terceira foto, foi muito melhor no Estudiantes. Fabbri foi ídolo só no Racing

O defensor esteve no Racing para a temporada 1989-90. Era desfalque seguido por lesões, mas Bilardo seguia confiando na mística, aguardando até o último momento por alguma recuperação do filho postiço. Curiosamente, a última partida de Brown foi um Racing x Estudiantes, em abril de 1990. A ligação com o técnico era tanta que, mesmo com Bilardo se rendendo aos fatos, levou-o do mesmo jeito ao Mundial de 1990, convertendo-o em assistente técnico.

Néstor Fabbri: chegou em 1986 do All Boys para ser um defensor que compensava a lentidão com boas noções de antecipação e cabeceio, inclusive no ataque; fez sete golzinhos em 198 jogos até 1992 – no mais lembrado, para a classificação no finalzinho do duelo com o River pela Supercopa 1988, a única volta olímpica de La Acadé entre 1967 e 2001. La Tota acabou contemplado com convocação à seleção para a Copa de 1990. Após carreira vitoriosa na França, Fabbri apareceu no Estudiantes para a temporada 2003-04 antes de pendurar as chuteiras no mesmo All Boys onde começara.

Ignacio González: ícone do Racing noventista, Nacho González apareceu em 1991 para só sair em 1997. Foi quem levou aquele gol de goleiro em 1996. Mas também marcou ele próprio outros, cobrando pênaltis (foram oito gols assim), inclusive sendo o primeiro goleiro racinguista a marcar gols na era profissional. Mas foi querido sobretudo por dar alguma segurança ao elenco finalista da Supercopa 1992, do time que ficou a um pontinho do título no Apertura 1993, da formação vice-campeã no Apertura 1995 e da equipe-base semifinalista da Libertadores 1997. Faltaram as taças e sobrou temperamento explosivo, mas ele pôde até almejar a testes na seleção, chamado à Copa América de 1997. Sua saída, para o Newell’s em 1998, foi conturbada na época, mas o tempo curou: Nacho foi incluído naquela revista El Gráfico que elegeu em 2011 os cem maiores ídolos do clube. Também reapareceu em outra que elegeu os 110 maiores, em 2013. No Estudiantes, sua carreira se resumiu ao Clausura 2003.

Diego e Rubén Capria: irmãos que tiveram repercussões díspares na Argentina e no Brasil. Por ter jogado no Atlético Mineiro em 2000, marcando de falta gol de uma rara classificação brasileira sobre um Boca de Carlos Bianchi naqueles anos (na Copa Mercosul), e ter sido carrasco final do Flamengo pelo San Lorenzo campeão da Copa Mercosul 2001, o zagueiro Diego Capria é o mais lembrado por aqui. Na terra natal, a estrela da família é Rubén Capria, apelidado de El Mago pelo talento que exibia no meio-campo. Ambos foram profissionalizados no Estudiantes, sofrendo juntos o rebaixamento de 1994 e festejando juntos o imediato acesso como campeão da Primera B de 1994-95.

Os irmãos Capria. Na imagem racinguista, Rubén é o agachado da esquerda e Diego está em pé à direita

Sem titularidade em La Plata, Diego continuou na segundona como membro do Huracán Corrientes, até conseguindo raro bicampeonato seguido. Rubén, por sua vez, foi catapultado ao Racing para virar xodó instantâneo no time vice do Apertura 1995, se eternizando pelos três gols no 6-4 dentro da Bombonera sobre o então líder Boca de Maradona e Caniggia. Com moral, propiciou que Diego também fosse contratado para o Cilindro, em 1997. Enquanto era semifinalista da Libertadores, o clube também enfrentava recuperação judicial. Décadas de irresponsabilidade financeira fizeram o Racing ter falência decretada em 1999 e os Capria acabaram seguindo carreira no Chacarita.

Hugo Pérez: o nome mais polêmico da lista. Filho de pais torcedores do Independiente, mas convertido ao racinguismo por um tio, El Perico começou no Racing e teve ascensão meteórica. Volante de boa bola parada, venceu em 1988 aquela redentora Supercopa com a Academia, embarcando em seguida com a seleção olímpica aos Jogos de Seul – em tempos em que o futebol olímpico não era um torneio sub-23, bastando que profissionais não houvessem jogado Copa do Mundo ainda. Pérez eventualmente chegou a capitão do Racing, mas desentendimentos com a direção levaram-no ao Ferro Carril Oeste. O problema é que ele seguiu carreira justamente no Independiente. Seguia corajosamente se declarando torcedor racinguista, mas teve mais troféus pelo rival, a ponto de ir à Copa do Mundo de 1994. Pendurou as chuteiras ao fim de um único semestre no Estudiantes, em 1998, e disputa atualmente showbol tanto pelo Racing como pelo Independiente.

Gastón Sessa: o segundo nome mais polêmico da lista, por razões similares ao acima. Sessa foi profissionalizado pelo Estudiantes precisamente na temporada do último rebaixamento, a de 1993-94, como goleiro reserva. O ponto é que não escondia de ninguém no clube que sempre havia torcido pelo Gimnasia, ingressando no Pincha como convidado do instrutor com quem convivia num clubinho infantil com os gêmeos Barros Schelotto. Seguiu na reserva no título da segunda divisão de 1994-95, mas, a exemplo de Diego Capria, foi repassado ao Huracán Corrientes – para vencer a segundona de 1995-96, seu efetivo trampolim na carreira.

El Gato chegou ao Racing em 2000, fugindo da reserva eterna no River. A torcida o reconhece como alguém que deu a cara a tapa na época falimentar do clube, sendo essencial para evitar o rebaixamento ao fim da paupérrima temporada 2000-01. Só não ficou ídolo inquestionável por sair em seguida ao Vélez, perdendo a redenção do Apertura 2001. Ao fim da carreira, pôde enfim defender o Gimnasia do coração.

Chatruc (esquerda) e Bastía (direita) se imortalizaram no Racing campeão de 2001, sem ter o mesmo êxito em La Plata

Adrián Bastía, José Chatruc e Reinaldo Merlo: três ícones do Racing campeão argentino após 35 anos. Desde 1997 no time adulto do clube, El Polaco Bastía era o xerife. Adquirido junto ao Platense em 1999, o meia Chatruc dava algum brilho que resplandecia até na Ucrânia, terra de sua ancestralidade e cuja seleção até sondou naturaliza-lo. El Mostaza Merlo era o técnico boleirão e barato que sabia motivar um clube tão mal assombrado, desenhando o “passo a passo” da campanha vencedora com um elenco limitado. Quando assumiu em 2005 o Estudiantes, Merlo trouxe para si Bastía e Chatruc, que havia sido autor de dois gols naquela memorável virada para 3-2 dentro de La Plata em 2001. Não deram liga, chegando a levar de 4-1 do Gimnasia, no que ainda é a antepenúltima vitória do rival no dérbi.

Os três tiveram novos passos pelo Racing: Bastía já em 2006, Chatruc entre 2007-09. Merlo, precisamente entre 2006 e 2007 e na temporada 2013-14. Em nenhuma delas o time funcionou tão bem como em 2001. Mas o trio cravou lugar entre os 110 maiores ídolos de La Acadé na edição especial de 2013 publicada por El Gráfico; Bastía e Chatruc já haviam figurado na lista dos 100 feita em 2011, restrita a jogadores.

Diego Simeone: torcedor assumido do Racing, El Cholo fez questão de penduras as chuteiras no time do coração. Chegou em 2005 e liderou um elenco esforçado que terminou vice-campeão. A perda do Clausura derrubou o mental. O time caiu para 11º no Apertura 2005 e, no Clausura 2006, terminou em antepenúltimo. Nesse Clausura, após derrota justamente para o Estudiantes, Simeone decidiu parar de jogar para ser o novo técnico bombeiro. Não tirou leite de pedra, mas foi reconhecido a ponto de ser empregado pelo próprio Estudiantes para o torneio seguinte. E foi com ele de treinador que o Pincha encerrou jejum de 23 anos na primeira divisão, em reviravolta das maiores que a liga argentina já teve.

Simeone voltou ao Racing em 2011 para desatolar a Academia de um promedio péssimo. Saiu melhor do que a encomenda: o time não disputou seriamente o título, mas terminou vice-campeão e o treinador, contratado pelo Atlético de Madrid, iniciando o resto da história conhecida. Foi incluído entre os 110 maiores ídolos do Racing naquela El Gráfico de 2013.

Simeone pendurou as chuteiras no Racing e teve no Estudiantes o primeiro título como treinador, no Apertura 2006

Pablo Lugüercio: sua inclusão pela El Gráfico tanto na lista dos cem maiores (em 2011) como na dos 110 maiores do Racing (em 2013) foi das mais polêmicas. Havia decididamente atacantes com melhores estatísticas goleadores do que El Payaso, autor de somente 12 em 115 jogos. O “atacante que não faz gols” ficou de Avellaneda entre 2008-11, sem títulos, sendo reconhecido em contrapartida pelo esforço e raça que exibia; o corintiano que adore Ángel Romero entenderá. Lugüercio vinha de sete anos de suor com o Estudiantes, entre 2001-08, voltando na temporada 2017-18. Pôde dar a volta olímpica do Apertura 2006, inclusive deixando o golzinho dele no histórico 7-0 para cima do Gimnasia. Além de maior goleada do Clásico Platense, o resultado iniciou o desequilíbrio que tanto aflige o arquirrival. Ambos tinham até 2005 o mesmo número de vitórias no duelo direto. Nesses vinte anos, porém, o vizinho só venceu duas vezes o Pincha.

Gastón Fernández: formado nos juvenis do River, nunca conseguiu se firmar plenamente em Núñez. Ainda como millonario, foi emprestado ao Racing para a temporada 2003-04. La Gata não era exatamente um matador, mas deixou boa impressão, sobretudo pelos dois gols em plena Doble Visera em Clásico de Avellaneda em maio de 2004 – resultado que teve relevância reforçada com o tempo: foi a última vitória do Racing na antiga casa do arquirrival, e a última visitando o Independiente até 2015. Sem decolar no River, foi cedido ao San Lorenzo em 2007, brilhando como artilheiro do elenco vencedor do Clausura. Mas foi no Estudiantes que ele realmente recebeu adoração. Fez o valioso gol de empate dentro do Mineirão para cima do Cruzeiro na decisão da Libertadores 2009. E diversos outros em meio a quatro passagens diferentes pelo Pincha (que também incluíram a conquista do Apertura 2010), onde pendurou as chuteiras em 2020.

Mauro Dobler: ele era somente o quarto goleiro na hierarquia do Estudiantes vencedor do Apertura 2006, abaixo do titular Mariano Andújar, do reserva imediato Martín Herrera e também de Damián Albil. Nem ele e nem Albil entraram em campo, mas são justamente eles dois quem podem tocar uma Copa do Mundo: eram os dois treinadores de goleiros na comissão técnica liderada por Lionel Scaloni campeã no Qatar (e também na Copa América de 2021). Ainda enquanto jogador, Dobler passara três temporadas no Racing, entre 2009 e 2012, sem nunca ir além de terceiro goleiro nos tempos de Gatito Fernández ou Sebastián Saja. Integrou assim o elenco vice da Copa Argentina em 2012, valorizada por ser o primeiro troféu que uma torcida maltratada aspirava desde 2005. E foi no Racing que, em 2017, iniciou a trajetória de treinador de goleiros, função que hoje exerce no Inter Miami.

Leandro González, Matías Sánchez e Gabriel Mercado: em comum, todos estiveram no Racing em 2008, sobrevivendo ao quase-rebaixamento, quando La Academia precisou superar uma repescagem contra o Belgrano. O meia Sánchez e o lateral Mercado eram justamente promessas, integrando a panelinha racinguista campeã mundial com a seleção sub-20 em 2007, ano em que o ponta González vencera a segundona com o Olimpo de Bahía Blanca. Gradualmente, foram reforçando o time de La Plata: Sánchez veio ainda em 2008, sendo reserva na Libertadores 2009; González chegou em 2009, já depois da Libertadores; e Mercado foi o principal reforço do Pincha para o vitorioso Apertura 2010. Os três estiveram nesse último título argentino do Estudiantes, com Mercado titularíssimo e os outros dois figurando em cerca de metade dos dezenove jogos. Efetivamente, Mercado, recentemente talismã no Internacional, teve a carreira mais reconhecida do trio, vencendo com o River a Libertadores de 2015 e participando da Copa do Mundo de 2018.

Gastón Fernández nos momentos mais lembrados pela dupla: no clássico de Avellaneda de 2004 e no Mineirão em 2009

Miguel Ángel Russo: o Estudiantes foi o único clube de Russo como jogador. Miguelito fora um volante talentoso, mas raçudo ao gosto da torcida, que defendeu os pincharratas entre aquele vice-campeonato de 1975 e a temporada 1988, só se ausentando por lesão na paneleira convocação de Carlos Bilardo para a Copa do Mundo de 1986 (Russo esteve no álbum da Panini, por exemplo). Como técnico, foi um nome querido pelos mais diferentes clubes argentinos, do Rosario Central ao Boca (clube que treinava até perder a batalha para o câncer em outubro) e do Lanús ao Vélez. Em meio a esse cartel, teve duas passagens pelo antigo clube: treinou o Estudiantes primeiramente na arrasadora campanha vencedora da segunda divisão de 1994-95.

Em 2010, Russo foi requisitado pelo Racing após ter livrado com sucesso o Rosario Central do rebaixamento em 2009. Seu Apertura foi razoável: ficou a três pontos do pódio e o time teria ido à Libertadores 2011 se não calhasse da vaga que viria ser cancelada com o inesperado título do Independiente na Sul-Americana. Como tantas vezes na história do Racing, a decepção golpeou animicamente e o mesmo elenco despencou para 15º no Clausura 2011. O treinador optou por encerrar o ciclo ao fim da temporada e voltar ao Estudiantes, que precisava de técnico novo com a saída de Alejandro Sabella para a seleção. Russo já não foi tão bem no regresso a La Plata, durando somente até novembro.

Fernando Ortiz: zagueiro formado no Boca, foi titularíssimo no Apertura 2006, a encerrar em alto estilo o jejum de 23 anos do Estudiantes, clube onde vinha jogando desde 2004. Negociado em seguida com o futebol mexicano, foi repatriado em 2010 inicialmente pelo Vélez. Vice para o próprio Estudiantes no Apertura 2010, conseguiu como velezano o Clausura 2011, chegando em 2012 para o Racing. Apareceu a tempo de disputar a final da Copa Argentina com o Boca e permaneceu por dois anos em Avellaneda, mas lesões de joelho fizeram-no pendurar as chuteiras logo antes do clube iniciar a campanha campeã argentina de 2014.

Mariano González: volante com boa chegada ao ataque (veloz e ambidestro, deixou 14 golzinhos em 74 jogos), calhou de ser profissionalizado pelo Racing somente em agosto de 2002. Se não chegou perto de títulos no clube, representou-o na seleção olímpica vencedora dos Jogos de Atenas, seu trampolim para estadia longa no futebol europeu. González esteve naquelas duas listas de ídolos montadas pela revista El Gráfico, embora nunca mais voltasse ao Cilindro: quando deixou em 2011 o Porto, acertou com o Estudiantes, integrando o elenco que lutou até a rodada final pelo Torneio Final de 2014.

Miguel Ángel Russo, cuja morte em outubro comoveu todas as torcidas argentinas

Mariano Pavone e Pablo Álvarez: ambos integrantes daquele Estudiantes vencedor do Apertura 2006, onde Pavone era a referência ofensiva (marcando inclusive o gol do título, sobre o Boca, além de outro naqueles 7-0 para cima do Gimnasia) e Álvarez, o lateral que até deixou seu golzinho iluminado, na vitória mínima sobre o San Lorenzo. Em comum, passaram pelo Racing cerca de dez anos depois, sem reluzirem tanto. Pavone marcou só três golzinhos entre 2015 e 2016, recuperando em seguida no Vélez o cartaz de outrora. Álvarez jogou oito partidas entre 2016 e 2017.

Agustín Orión: formado no San Lorenzo, onde venceu o Clausura 2007, Orión chegou em 2009 ao Estudiantes para repor a saída de Mariano Andújar, vendido ao Catania após vencer a Libertadores. Foi o goleiro titularíssimo da grande temporada pincharrata em 2010, quando o elenco foi vice do Clausura e vencedor do Apertura. Orión, que já havia ido à Copa América de 2007 como goleiro reserva, ganhou ainda mais assiduidade nas convocações, favorecido pelo olhar paneleiro de Alejandro Sabella – seu técnico naquele 2010 – e por ganhar ainda mais vitrine ao reforçar em 2011 o Boca. Deste clube é que chegou ao Racing, em 2016, para uma só temporada.

Eduardo Domínguez: formou-se no Vélez noventista, onde teve curiosamente mais sorte no amor do que no jogo. É que ele desposou uma das filhas de Carlos Bianchi, mas, nos gramados, vivia na sombra de Federico Domínguez – o irmão mais velho com quem eventualmente rompeu. Também zagueiro, Fede brilhou no Independiente campeão argentino de 2002, ainda o último título doméstico do Rojo. Federico saíra de modo conturbado do Vélez e isso pareceu respingar em Eduardo, emprestado pelo clube ao fraco Olimpo para a temporada 2002-03 e então ao Racing para a temporada 2003-04.

Naquele auge do Vélez, o Domínguez caçula, lançado em 1996 no time adulto (ao passo que o irmão era recém-campeão mundial sub-20 com a Argentina), era somente reserva do reserva. E depois só durou dez joguinhos como racinguista: uma séria lesão ainda em 2003 o deixou de molho por simplesmente dois anos. Foi reintegrado ao Vélez para a temporada 2004-05, mas sem entrar em campo no time vice do Apertura e campeão (sobre o Racing) no Clausura. Uma vez recuperado, foi novamente emprestado, dessa vez ao Independiente, para a temporada 2005-06, tempos em que o irmão chegava a ser capitão de um River semifinalista de Libertadores.

Sim, é a mesma pessoa. Eduardo Domínguez está mais diferente do que os escudos “gêmeos” de Racing e Estudiantes!

Foi no Huracán, tanto como líder ao fim da carreira de jogador (naquele time vice do Clausura 2009) como também como iniciante treinador (naquele vice da Sul-Americana 2015), que Eduardo logrou enfim um tardio protagonismo. Como técnico, ganhou justamente sobre o Racing a Copa da Liga de 2021, maior troféu da história do Colón. Acabou recontratado em 2022 pelo Independiente e, desde 2023, vem devolvendo troféus para as vitrines do Estudiantes. A Copa Argentina de 2023 encerrou treze anos sem taças para a torcida pincharrata. A Copa da Liga e o Troféu de Campões em 2024 são taças menores em importância. Mas esses três torneios já fazem dele o segundo treinador com mais títulos oficiais pela equipe de La Plata, abaixo somente do citado Osvaldo Zubeldía.

Marcos Rojo: profissionalizado em 2008 pelo Estudiantes, o lateral ainda era reserva na Libertadores 2009, mas já uma realidade naquele forte elenco de 2010. Como outros jogadores daquele período, ganhou sequência na seleção tão logo Alejandro Sabella a assumiu em 2011, mesmo que Rojo já estivesse no Spartak Moscou. Era um dos nomes mais questionados, mas mesmo os críticos reconheceram o mundial exemplar feito por ele na Copa de 2014 (eleito para o time ideal do torneio) e a importância do gol salvador sobre a Nigéria para evitar eliminação na fase de grupos na de 2018.

Rojo chegou a voltar ao Estudiantes em 2020, emprestado pelo Manchester United, mas foi efetivamente no Boca que voltou ao país. Indo de maior a menor na Bombonera, Rojo, embora carregue como sobrenome justamente o apelido do principal rival do Racing, reforçou La Acadé no segundo semestre de 2025 como uma aposta do treinador Gustavo Costas para servir de liderança e experiência. A torcida se permitiu sonhar em voltar à final da Libertadores pela primeira vez desde 1967… e vem se permitindo apontar justamente Rojo como bode expiatório da eliminação para o Flamengo nas semifinais.

Curiosamente, Rojo terá pela frente o ex-clube um dia após o aniversário de quinze anos da volta olímpica dada em 2010 – relembre como foi. Haverá lei do ex?

O último Estudiantes campeão argentino, na tarde de 12 de dezembro de 2010, com quatro jogadores aqui listados: Rojo é o segundo em pé, Orión é o goleiro, o ex-gremista Gastón Fernández e o colorado Mercado são os dois últimos agachados
Caio Brandão

Advogado desde 2012, rugbier (Oré Acemira!) e colaborador do Futebol Portenho desde 2011, admirador do futebol argentino desde 2010, natural de Belém desde 1989 e torcedor do Paysandu desde antes de nascer

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