A Argentina exportadora de jogadores lidera o mercado mundial, em alta desde o fim da década de 2000.
O mercado do futebol argentino segue em alta. Entre 2009 e 2010, os argentinos já davam sinais de sua força no âmbito internacional do futebol, quando cerca de 1.800 jogadores se dirigiram para países estrangeiros, superando inclusive o Brasil, responsável naquele período pela negociação de 1.400 atletas.
Segundo o estudo realizado EuroAmericas Sport Marketing, o Football Player Exports 2014(clique aqui), 2.576 jogadores argentinos deixaram seu país para atuarem em equipes estrangeiras no ano de 2014, afirmando a Argentina como o país que mais exporta jogadores no mundo na atualidade. Além do número, surpreende também o fato de 82,5% destes jogadores terem se dirigido para uma das cinco principais ligas européias: Espanha, Inglaterra, França, Alemanha e Itália.
Com 1.734 jogadores exportados, o Brasil ocupa a segunda posição no ranking do atual estudo. Com base no elenco que esteve presente na Copa do Mundo 2014, a Argentina também possui a Seleção mais cara da América do Sul, levando em conta os últimos dados relacionados aos valores de transferências(saiba mais aqui). Empresário da EuroAmericas, Gerardo Molina já dizia em 2010 que a venda de jogadores é a principal saída para que os clubes combatam suas dívidas, o que de certa forma criar um problema no futebol argentino, devido a saída das jovens promessas. E a tendência é de que o número siga crescendo.
Os retornos de veteranos no futebol argentino nem sempre dão certo, mas alguns viraram história. Diego Milito de volta ao Racing é o caso mais recente.
Belo registro da emoção de Milito após o título, dessa vez como protagonista
O retorno de Diego Milito ao seu Racing, mesmo longe do auge da forma, foi mágico. Nos primeiros meses, liderou o clube do coração a um título ausente havia 13 anos. Milito era o único remanescente do título blanquiceleste anterior, o Apertura 2001, e até nisso resolveu outra pendência: naquela ocasião, não era titular – saiba mais. E há outras razões para ele ser tão ovacionado: nas estatísticas, ele é no time o primeiro bicampeão argentino em mais de 50 anos; no sentimento, ele se criou na Academia, saiu, se consagrou na Europa e escolheu voltar à equipe que tanto ama. Se em 2011 esteve entre os seis racinguistas na capa da revista El Gráfico mais por ser um ídolo recente na edição que elegeu os cem maiores do clube (havia jogadores que mereciam mais, mas longínquos), a escolha hoje seria certeira.
Não é caso isolado. Vamos aqui lembrar outros ídolos que já veteranos tiveram retornos consagradores no clube onde se projetaram na Argentina. Como um critério, escolhemos cinco anos como mínimo entre a saída e a volta – por isso um nome como Martín Palermo não concorreu. Pela mesma razão o maior ídolo do Colón, Esteban Fuertes, também não: El Bichi nunca passou mais de dois anos longe entre suas numerosas passagens pelo Sabalero, entre 1997 e 2011. Priorizamos aqueles que, como Milito, lograram um título na volta (há uma única exceção), e selecionamos um por clube.
10) Carlos Bianchi: poucos sabem, mas o êxito estrondoso da carreira do Virrey como técnico ofuscou como ele foi um goleador espetacular. É justamente ele o argentino que mais fez gols em campeonatos nacionais: saiba mais. É o nono maior artilheiro da história do Argentinão, com 206 gols, todos pelo seu Vélez, e seria seguramente o primeiro se não passasse sete anos no futebol francês. Antes de partir à Ligue 1, havia deixado em seis anos 121 gols por La V Azulada. Voltou em 1980 e ficou até 1984. Já tinha 31 anos a média melhorou, com mais 85 gols de todas as formas possíveis para torna-lo também o maior artilheiro da história do clube. Só faltou-lhe um título – o mais perto foi na campanha semifinalista no nacional 82 (ótimo para os padrões velezanos na época), do qual foi artilheiro.
Carlos Bianchi, Christian Gómez (na direita celebrando seu gol do título em 2014) e Maxi Rodríguez nas idas e nas vindas
9) Christian Gómez: talvez o maior ídolo do Nueva Chicago. Começou a carreira ali, em 1991 e lá ficou até 2002, com um hiato de três anos por Independiente e Argentinos Jrs. Saiu após recolocar o bairro de Mataderos na elite e passou quase dez anos fazendo sucesso nos EUA até voltar ao Torito, em 2011. O time estava na terceirona e Gomito Gómez ajudou-o a subir. Nova queda veio em seguida. Mas logo um novo acesso também. Com ele, aos 40 anos, marcando de falta o gol do título da Primera B Metropolitana de 2013-14. E o Chicago tem chances de subir à elite neste fim de ano! Saiba mais.
*Atualização em 19-12-2014: o Nueva Chicago realmente voltou à elite no fim do ano. E com o eterno Gómez marcando o gol do novo acesso! Saiba mais.
8) Maxi Rodríguez: o dublê de ponta e meia foi revelado pelo Newell’s em uma fase muito decadente do clube, mas deixou bons números antes de ir à Europa: 20 gols em 57 jogos. Dez anos e duas Copas do Mundo depois, ele enfim se sedimentou na galeria dos grandes ídolos da Lepra. Voltou em 2012, com o time ameaçado de rebaixamento, e logo conseguiu um vice, no Torneio Inicial da temporada 2012-13. O título veio em seguida, no Torneio Final. Foi o 6º título dos rubronegros, nove anos depois do último, distanciando-os mais dos quatro do Rosario Central. Maxi manteve-se na seleção, jogando uma terceira Copa em 2014, e enquanto era campeão em 2013 foi também um dos líderes da campanha quase finalista na Libertadores, onde os pênaltis e um corte de energia que se fosse feito na Argentina renderia até hoje a pecha de catimbeiros aos rojinegros impediram-no de ainda mais história.
7) Zoilo Canavery: o Independiente já teve antigos ídolos voltando como campeões. Néstor Clausen e Jorge Burruchaga, dos anos 80, levantaram a Supercopa 1995 sobre o centenário Flamengo no Maracanã. Néstor Silvera, artilheiro do último nacional vencido pelo Rojo, em 2002, foi o único remanescente na Sul-Americana 2010. Mas o uruguaio Canavery contribuiu mais. Após ser vice argentino em 1912 no clube, se especializou em virar a casaca: defendeu e foi campeão no rival Racing e jogou ainda por Boca, River e seleção argentina (duas vezes, e contra o Uruguai natal!). Dez anos após aquele vice, voltou ao Independiente para ser titular no primeiro título nacional dos diablos. Estaria também no segundo, em 1926, ficou até o fim da década e foi o primeiro técnico profissional do clube.
Zoilo Canavery nos anos 20, Omar Palma nos 80 e 90 e Ubaldo Fillol nos 70 e erguendo a Supercopa 1988
6) Omar Palma: “Uma vez Maradona te perguntou quem era teu ídolo e você disse que era El Negro Palma. Qual foi a reação dele?”, perguntou a revista El Gráfico ao brucutu Kily González, fanático pelo Rosario Central. A resposta risonha foi “me mandou à merda”. Palma, afinal, é o maior campeão profissional nos canallas. Esteve nos dois últimos títulos argentinos, em 1980 e 1987, este com o gosto de deixar o rival Newell’s de vice e fazer o gol do título – o Central aliás emendou um raríssimo bicampeonato, pois acabara de vencer a segunda divisão com El Negro lá, claro. Mas ele está na lista porque saiu em 1987 e voltou em 1992 para mais seis anos nos auriazuis, com um título continental (que tanto falta ao rival) incluso: aquela Copa Conmebol 1995, onde na final conseguiu-se devolver na Argentina um 4-0 que havia levado do Atlético-MG no Mineirão e depois vencê-lo nos pênaltis.
5) Ubaldo Fillol: o goleirão do título mundial de 1978 é mais ligado ao River. Mas antes de se eternizar nos millonarios, esteve no Racing no início dos anos 70, já criando fama como pegador de pênaltis (detém recorde dessas defesas na Argentina). Já consagrado, voltou à Academia em 1987 para vencer o primeiro título do clube desde o Mundial 1967: a Supercopa Libertadores 1988, sobre o Cruzeiro. El Pato era o capitão e essa foi a única taça racinguista até 2001. Por conta disso escolhemos ele e não Diego Militou ou ainda o atacante Humberto Maschio, que saiu para a Itália em 1957 (jogou pela Azzurra a Copa 1962) e voltou em 1966 para enfim ser campeão argentino e da Libertadores e Mundial – mas mais como liderança moral do que com gols decisivos.
4) Juan Román Riquelme: se considerássemos o antes e o depois, Riquelme lideraria o ranking fácil sobre os próximos três. Liderou o Boca carrasco da brasileiros e bi na Libertadores em 2000-01 e no Mundial 2000 sobre o Real Madrid. Saiu em 2002 para o Barcelona e só um Loco como Marcelo Bielsa o tiraria da Copa do Mundo naquele ano. Não deu certo na Catalunha, mas foi demais no Villarreal quase finalista da Liga dos Campeões em 2006. Um ano depois, voltou ao Boca para liquidar o Grêmio em novo título de Libertadores, além de outras taças argentinas e um vice na Libertadores 2012. Está em quarto porque o Boca estava acostumado a vencer antes de sua volta (vide a Libertadores e Mundial 2003).
Riquelme garoto e nos 2-0 sobre o Grêmio no Olímpico em 2007; Francescoli e Verón em duas décadas
3) Enzo Francescoli:El Príncipe era um oásis nas decepções do River em meados dos anos 80 até que o título enfim veio em 1986 sob sua batuta. Naquele mesmo ano, o clube enfim venceria pela primeira vez a Libertadores e o Mundial, mas já sem o craque uruguaio. Voltou em 1994 e de cara liderou, no Apertura, o único River campeão invicto, com ele aos 33 anos terminando na artilharia do campeonato. Mas Enzo virou mesmo semideus millonario em 1996. Havia dez anos que o River sequer chegava na final da Libertadores. “Saldei uma dívida comigo mesmo”, já disse ele ao erguer o troféu, que na época igualava o clube com o Boca em títulos. Venceu ainda a Supercopa e o último tri ocorrido no campeonato argentino. Vence de longe o retorno de outros grandes ídolos como Ramón Díaz, Ángel Comizzo, Marcelo Salas, Matías Almeyda, Fernando Cavenaghi…
2) Juan Sebastián Verón: José Luis Calderón esteve no rebaixamento do Estudiantes em 1994, no retorno à elite em 1995, no fim dos jejuns de 23 anos sem títulos argentinos em 2006 (marcando três nos 7-0 sobre o rival Gimnasia LP, maior goleada do clásico platense) e de 39 anos sem Libertadores, em 2009. Mas não dá para associar melhor o renascimento pincharrata que a La Brujita Verón, colega de Caldera em todas essas etapas mas muito mais influente a partir do seu retorno em 2006. O time de La Plata resgatou um prestígio esquecido pelos mais novos e a cereja foi reverter 20 anos de domínio do Gimnasia no dérbi e na luta por troféus.
1) Leandro Romagnoli: se os dois acima quebraram jejuns de Libertadores, El Pipi quebrou um estigma incompatível com a expressão que o San Lorenzo tem na Argentina. Era o talentoso meia-armador dos primeiros troféus internacionais, no bi da Mercosul 2001 com o da sucessora Sul-Americana 2002 até sair em 2004. Voltou em 2009 e permaneceu fiel aos cuervos mesmo com um rebaixamento quase iminente em 2012, revertido com o título nacional um ano depois (o primeiro em seis anos) e o fim da piadinha “Club Atlético Sem Libertadores da América” para a sigla CASLA do seu Club Atlético San Lorenzo de Almagro. É o único presente nas três taças continentais: saiba mais. Seu retorno o faz vencer a disputa com José Sanfilippo, superartilheiro na virada dos anos 50 para os 60 que voltara em 1972 para participar do primeiro elenco a vencer os dois títulos argentinos do ano.
Romagnoli antes das três finais continentais do seu San Lorenzo: Mercosul 2001 (contra o Flamengo), Sul-Americana 2002 e Libertadores 2014. Único no clube em todas
Os desempates no futebol argentino renderam décadas de jogos extras e polêmicas, como a mão de Gallo em 1968 que o árbitro não viu.
Desempate de 1968: a mão na bola de Gallo inacreditavelmente não percebida pelo árbitro Guillermo Nimo
Nos próximos dias a B Nacional assistirá a dois desempates na luta pelo acesso à primeira divisão. Em uma chave, Huracán e Atlético Tucumán disputam a última vaga na elite. Na outra teremos um triangular entre Gimnasia Jujuy, Aldosivi e Nueva Chicago valendo outras duas vagas. Um jogo e um triangular de desempate ao mesmo tempo é algo inusitado. Mas a tradição argentina de não usar critérios de desempate para definir títulos, acessos e descensos é longuíssima.
Na verdade o primeiro campeonato argentino foi decidido numa partida desempate. Era o ano de 1891, e o St. Andrews e o Old Caledonians terminaram a competição com a mesma campanha: seis vitórias, um empate e uma derrota. A possibilidade de um empate entre duas equipes não havia sido prevista no regulamento, de forma que ambos os clubes foram declarados campeões. Mas só havia dinheiro para comprar medalhas para uma equipe, de modo que acabou ocorrendo um jogo extra para definir com quem elas ficariam. O St. Andrews venceu por 3 a 1, sendo hoje visto como o primeiro campeão de futebol da Argentina.
Ao longo das décadas seguintes foram muitos os desempates tanto no topo como na base da classificação. Talvez o mais famoso tenha sido o triangular que definiu o Nacional de 1968. Na última rodada, River Plate e Racing chegaram empatados na liderança e se enfrentavam na última rodada. O vencedor levaria o título. Mas os dois gigantes ficaram no 1 a 1. Pior, foram alcançados pelo Vélez Sarsfield, que bateu o Huracán por 2 a 0. Três equipes definiriam o título num desempate histórico: o Racing sem saber que estava prestes a iniciar um jejum de 34 anos sem títulos de primeira divisão; o River Plate que já amargava 11 anos de jejum; e o Vélez em busca do primeiro título de sua história.
As três partidas foram disputadas em dezembro de 1968 na velha cancha do San Lorenzo. O River bateu o Racing por 2 a 0, e chegaria ao título se vencesse o Vélez. Mas a partida terminou empatada em 1 a 1. O jogo entrou para a história por um crasso erro do árbitro Guillermo Nimo, que não viu uma mão de Gallo, defensor do Fortín, que salvou sua equipe de sofrer o gol. Com isso, graças ao fato de ter a vantagem do empate em pontos, já que foi a equipe que mais fez gols ao longo do campeonato, bastava à equipe de Liniers vencer a já eliminada Academia. Para o River, só restava secar o Vélez. Mas não adiantou. Com três gols de Wehbe, a equipe comandada por Manuel Giúdice venceu por 4 a 2 e chegou ao primeiro título de sua história.
No século XXI, houve vários desempates. Talvez o mais famoso tenha sido o que deu ao título do Apertura 2006 ao Estudiantes, graças à uma monumental bobeada do Boca Juniors. Comandados por Ricardo Lavolpe, os xeneizes seriam campeões se ao menos empatassem em uma das duas últimas rodadas, mas perderam ambas (uma, de virada para o Lanús) e foram alcançados pelos Pinchas. No desempate os boquenses ainda saíram na frente, mas tomaram a virada, no campo do Vélez. Palermo, que havia sido ídolo nos alvirrubros, abriu o placar para o Boca nos primeiros minutos, mas Sosa e Pavone marcaram no segundo tempo, dando um título que o conjunto de La Plata não alcançava há mais de 20 anos.
Outro desempate muito lembrado é o do Apertura 2008. Naquele torneio, um empate sem gols do Boca contra o Gimnasia na penúltima rodada deu a Tigre e San Lorenzo a chance de alcançar o conjunto dirigido por Carlos Ischia na ponta. Os três venceram na última rodada, forçando um triangular desempate. A primeira partida, no campo do Vélez, foi a vitória do San Lorenzo (que sonhava em ser campeão no seu centenário) sobre o Tigre (que por sua vez sonhava com um título inédito até hoje) por 2 a 1. Em seguida, o Boca venceu o Ciclón por 3 a 1 no Cilindro. Graças ao gol de Pochi Chavez já nos descontos, os xeneizes entraram em campo contra o Tigre podendo perder por um gol para levar a taça. E foi exatamente o que ocorreu: o Matador venceu pela contagem mínima e os auriazuis fizeram a festa.
Esse foi o último desempate valendo título que tivemos até o momento na Argentina. Mas houve outros valendo acessos e descensos. Em 2011, o Huracán foi rebaixado após perder para o Gimnasia La Plata por 2 a 0 (ao fim o Lobo também caiu, após perder para o San Martín na extinta Promoción). Na metade de 2014, o mesmo Huracán foi derrotado pelo Independiente em um desempate pelo acesso à elite. E o Atlético Rafaela se salvou na primeira divisão ao vencer o Colón em um desempate contra o descenso. Confira abaixo desempates já ocorridos na elite:
1891: o já citado entre Saint-Andrew’s e Old Caledonians. Saiba mais.
1897 e 1898: maior potência argentina no século XIX, o Lomas Athletic, hoje de futebol desativado, ganhou estes dois campeonatos após tira-teimas com Lanús Athletic (extinto) e Lobos Athletic (hoje, amador), respectivamente, com quem estava igualado na dianteira. Saiba mais.
1911: Maior potência argentina no início do século XX, o Alumni chegou a seu décimo e último título com um 2-1 no co-líder Porteño. Estes dois clubes ainda existem, mas desativaram seu futebol (no caso do Alumni, aquele torneio foi exatamente o último que disputou) pouco depois e hoje se dedicam ao rúgbi, como o Lomas.
1912: Independiente e Porteño ficaram igualados em pontos e havia previsão de que a taça seria do Independiente. Mas por ter enfrentado um time reserva na última rodada e assim goleado, os rojos, naqueles tempos de cavalheirismo ao extremo, fizeram questão de um tira-teima. E se deram mal: insatisfeitos com a anulação de um gol, os quase campeões se retiraram de campo com o jogo empatado em 1 a 1. A federação deu o título ao Porteño. Seria o primeiro título do Independiente, que precisou esperar dez anos para enfim levantar a taça. Saiba mais.
1915: o Racing foi hepta seguido, ainda um recorde, entre 1913 e 1919. O título que deu mais trabalho foi de 1915, que precisou de um 1-0 no desempate com o San Isidro, outro clube sem futebol e focado no rúgbi, no qual é o maior campeão do país.
1923: Nos anos 20, Boca e Huracán faziam um clássico pois eram as principais equipes de uma das associações argentinas: por sete anos teve-se duas. Na que disputavam, o Boca ganhou quatro e o Huracán, três. Em 1923, o desempate foi necessário e deu Boca 3-0. Na outra liga, os dois últimos cairiam e na penúltima colocação ficaram empatados Quilmes, Ferro Carril Oeste e Argentino del Sud, que travaram um triangular. O Quilmes perdeu os dois jogos, mas acabou poupado por uma virada de mesa.
1925: o Huracán foi campeão precisando do desempate com o Nueva Chicago. O jogo terminou em 1-1 e o Chicago não aceitou prorrogação, perdendo nos tribunais a taça. Até hoje o clube de Mataderos não foi campeão da elite…
1931: neste ano os clubes mais populares fizeram outro cisma, criando o campeonato profissional. Até 1934, a associação argentina reconhecida pela FIFA era a amadora (por isso só amadores foram à Copa de 1934) e no torneio dela Almagro e Estudiantil Porteño ficaram nos 23 pontos. Deu Estudiantil, de futebol desativado hoje e onde jogava Atilio Demaría, campeão da Copa 1934, mas pela Itália. O Almagro até hoje não foi campeão de elite alguma.
1932: River e Independiente se igualaram na ponta e no desempate, melhor aos Millonarios, com um 3-0 no campo do San Lorenzo. Foi o primeiro título profissional do River. Saiba mais.
1949 e 1950: anos de desempate contra o rebaixamento, em ambos envolvendo o Huracán. Em 1949, só caía o último e ele e o Lanús terminaram igualados embaixo. Foram necessários quatro jogos, pois houve inicialmente uma vitória para cada lado seguida de empate até o Huracán vencer por 3-2 no último. Em 1950, o penúltimo também cairia e nessa posição ele se igualou com o Tigre. Venceu os dois jogos e só seria enfim rebaixado em 1986. Saiba mais.
1951: Racing, então bicampeão, e o surpreendente Banfield se igualaram na ponta e precisaram de dois jogos-desempate, ambos no campo do San Lorenzo, após o primeiro ficar no 0-0. No segundo, deu Racing 1-0, no primeiro tri seguido do profissionalismo. O Banfield só seria campeão em 2009.
1968: o já citado triangular que deu o título ao Vélez. Saiba mais.
1977: os três últimos do Metropolitano cairiam e Platense e Lanús somaram os mesmos pontos na antepenúltima colocação. No desempate, após um 0-0, o Platense venceu por 8-7 nos pênaltis.
1982: Unión e Quilmes duelaram contra a penúltima colocação do Torneio Metropolitano, que rebaixaria. Os de Santa Fe venceram o oponente, que naquele mesmo ano havia sido vice-campeão do Torneio Nacional (!).
1987: os dois times de pior promedio cairiam. Temperley e Platense se igualaram em penúltimo após polêmica vitória de virada do Platense no River em pleno Monumental após estar perdendo por 2 a 0. Ele levou a melhor no desempate, 2-0. O Temperley teve seu troco em 2014: no primeiro semestre, venceu o algoz nos pênaltis pela última vaga à segunda divisão. E no segundo semestre, no torneio de transição, confirmou sua volta à elite após 27 anos e do qual o Platense está ausente desde 1999. Saiba mais.
1988 e 1990: outros desempates contra a penúltima colocação nos promedios, ambos envolvendo o Racing de Córdoba. Se safou nos pênaltis contra o Unión em 1988, mas levou de 5-0 do Chaco For Ever em 1990 e jamais voltou à elite, estando hoje na quarta divisão.
2006 e 2008: os já citados desempates entre Estudiantes e Boca, e entre Boca, Tigre e San Lorenzo pelo título.
2011 e 2014: os já citados desempates contra rebaixamento entre Huracán e Gimansia LP e entre Atlético de Rafaela e Colón.
As maiores viradas do futebol argentino incluem a bicicleta de Francescoli e placares que pareciam decididos. Este texto reconstrói as dez mais impressionantes, uma a uma.
A bicicleta de Francescoli, tão espetacular que ofusca as circunstâncias fantásticas em que ocorreu nesse jogo contra a Polônia
O que o Atlético Mineiro fez contra Corinthians e Flamengo foi espetacular e nos inspirou a relembrar grandes feitos do tipo protagonizados por clubes argentinos, um deles vitimando o próprio Galo, aliás. Para preparar nossa lista, resolvemos abranger o maior número de times possível, selecionando apenas um triunfo por equipe. Nem todos, na realidade, foram propriamente viradas, mas valem pelas circunstâncias. Priorizamos à frente aquelas que demandaram 90 minutos ou menos em vez de 180, e as travadas em fases eliminatórias sobre as de pontos corridos.
10) Platense 3-2 River, torneio de 1987: o Temperley teve seu grande momento em meados dos anos 80. Foi terceiro colocado nacional em 1983, mas isso havia passado em 1987. Ainda assim, a última rodada parecia de festa. Receberia em casa o Rosario Central e um empate favorecia ambos: dava o título aos rosarinos e garantiria os celestes na elite caso o concorrente direto contra o rebaixamento, o Platense, não vencesse o River no Monumental. Temperley e Central ficaram no 1-1 e as torcidas até confraternizavam: o River vencia seu jogo por 2-0 a meia hora do fim. Só que nessa meia hora para o fim o Platense virou, graças a um reserva: Miguel Ángel Gambier, autor dos três gols. Ao saber disso, o técnico do Temperley, o recém-falecido Roberto Motta, desmaiou.
Os resultados não rebaixavam diretamente o Temperley, mas forçariam um tira-teima entre os dois em que o embalado Platense levaria a melhor. Fica em 10º pois há quem suspeite dos méritos dos calamares: há quem diga que o River se deixou perder para dar um troco no Temperley, que pedira no tapetão os pontos que perdera dele no jogo em que o atacante do Millo Ramón Centurión foi flagrado em antidoping. Suspeita reforçada por um dos gols do Platense, em pênalti após Américo Gallego pôr a mão na bola. O Temperley nunca voltou à elite. Aguardou 27 anos, mas teve revanche: venceu os marrons (tradicionais participantes da elite no século XX embora não a ocupem desde 1999, revelaram Trezeguet) nos pênaltis pela última vaga de acesso à segundona na última temporada. Saiba mais.
*Atualização em 25-11-2014: um semestre após subir à segundona em 2014, o Temperley conseguiu novo acesso, enfim voltando à elite após 27 anos. Saiba mais.
9) Huracán 3-2 San Lorenzo, torneio de 1950: o Huracán já virou para 4-3 sobre o poderoso River de 1998 no Monumental, mas caiu ao fim daquela temporada 1998-99. Assim, escolhemos uma virada menor, mas que, além adiantar para efetivamente salvá-lo de uma queda, foi no clássico. O Globo só não caíra em 1949 por certa ajuda da arbitragem no tira-teima com o Lanús. Em 1950, fez outra campanha pobre onde voltou a precisar de um tira-teima pelo mesmo número de pontos com o penúltimo, o Tigre. Não chegaria lá se não tivesse vencido fora de casa o grande rival na 20ª rodada.
As reações dos técnicos de Temperley (Motta) e Platense (o ex-gremista Chamaco Rodríguez) em 1987. E o obscuro José Vigo no Huracán em 1950. O clube só viria a cair 36 anos depois
A quem não sabe, o retrospecto do Huracán no clássico com o San Lorenzo é dos mais desvantajosos, com menos vitórias até quando joga em casa. Mas soube superar isso e estar perdendo parcialmente por 2-0 na casa rival. Os três gols da virada vieram num espaço de vinte minutos e foram todos anotados pelo obscuro José Vigo. E aí mora outro elemento extra da façanha: na rodada anterior, o Huracán tivera todos os seus jogadores suspensos após briga generalizada com o Vélez. Assim, precisou jogar aquele clássico com os jogadores reservas. Ah, sim: e o San Lorenzo era o líder…
8) Gimnasia LP 3-0 Atlético de Rafaela, Promoción de 2009: o Gimnasia LP foi forte entre 1993-2005, sendo ele no período e não o Estudiantes (que até foi rebaixado) a melhor equipe de La Plata. Isso se inverteu com a volta de Verón aos alvirrubros em 2006. Os alviazuis, na elite desde 1985, passaram a flertar contra a queda até não resistirem em 2011 apesar do esforço do veterano ídolo Guillermo Barros Schelotto, ícone seu naqueles anos 90. Quase caíra dois anos antes: o Lobo, que via o Estudiantes decidir a Libertadores, para não cair precisou jogar uma repescagem, a Promoción.
Extinta desde 2012, a Promoción opunha os dois penúltimos da elite contra 3º e 4º da segundona e era bem desvantajosa a estes: os times da elite jogavam pelo empate no placar agregado e faziam o segundo jogo em casa. O Rafaela então cuidou de “liquidar” o Gimnasia na ida, vencendo por 3-0. Só que, em uma tarde de epopeia em La Plata, os alviazuis devolveram. Detalhe: com nove em campo, com o primeiro gol aos 27 do segundo tempo e os outros dois gols após os 45, ambos de Franco Niell, ex-Figueirense. Fica em oitavo por ser mata-mata contra rebaixamento. Saiba mais.
7) Talleres 3-0 CSA, final da Copa Conmebol 1999: a mais insólita final sul-americana opôs uma potência argentina dos anos 70, mas decadente e jamais campeã de elite; e um clube da terceirona brasileira, que só participou porque os representantes brasileiros eram os campeões regionais e porque Vitória, Bahia e Sport, de campanha melhor no Nordestão, recusaram. A aventura alagoana chegou à final após duas vitórias nos pênaltis, contra Vila Nova-GO e o São Raimundo-AM.
Êxtase gimnasista contra o Rafaela em 2009 e o futuro ponte-pretano Gigena comemorando seu gol sobre o CSA – à direita, o técnico Gareca às lágrimas com o assistente
Já o Talleres começou épico desde o início: em seu primeiro mata-mata, perdeu de 4-1 do Independiente Petrolero na Bolívia mas conseguiu um 3-0 em Córdoba e venceu-o nos pênaltis. A final seguiu roteiro parecido, mas sem a necessidade dos penais. Isso porque, em Maceió, La T descontou para 4-2 no finalzinho. Assim, um novo 3-0 em casa garantiu diretamente a taça. Mas não foi fácil: o placar só foi aberto aos 40 do primeiro tempo, um pênalti foi perdido e o segundo gol, do futuro ponte-pretano Darío Gigena, só veio aos 30 da segunda etapa. E o do título veio aos 45, com o futuro gremista Julián Maidana. O técnico era Ricardo Gareca, que passou recentemente pelo Palmeiras. Fica em sétimo pela desvalorização da Conmebol (encerrada naquele mesmo ano) e do adversário. Saiba mais.
*Atualização em 06-12-2019: clique aqui para ver Especial dos 20 anos dessa final.
6) Rosario Central 4-0 Atlético Mineiro, final da Copa Conmebol 1995: o Galo vivia bom momento há 20 anos. Ainda que por repescagens, foi semifinalista do Brasileirão de 1994 e contratou simplesmente o goleiro campeão do mundo e da seleção, Taffarel. O Rosario Central vinha de alguns anos de sofrimento: até 1987, tinha três títulos argentinos a mais que o rival Newell’s, que, no auge da história rubronegra, igualou essa conta em apenas cinco anos. Com o adicional de ter chegado a dois vices de Libertadores em 1988 e 1992. O Newell’s obtinha expressão internacional acima da do Central, inclusive também por simplesmente contratar Maradona em 1993.
A resposta canalla veio com aquilo que sempre escapou aos leprosos: uma taça continental. No Mineirão, os auriazuis levaram de 4-0, mas havia fé: faziam campanha tranquila até a final, sempre vencendo no placar agregado marcando cinco gols. Os rosarinos conseguiram a façanha de devolver o placar, mas, assim como o Talleres em 1999, também só o inauguraram no fim do primeiro tempo. O quarto veio aos quarenta do segundo tempo. O Central chegou a perder um pênalti na decisão por penais, mas os atleticanos, em frangalhos, perderam dois.
*Atualização em 19-12-2015: clique aqui para ver Especial dos 20 anos dessa final.
5) San Lorenzo 2-2 River, oitavas da Libertadores 2008: era o ano do centenário sanlorencista. O clube do Papa sonhava em encerrar da melhor forma o estigma de único grande argentino sem Libertadores. O sonho pareceu possível naquela ocasião. A ida foi na casa azulgrana, vitória por 2-1 com gol de pênalti aos 42 do segundo tempo. Mas, no Monumental, o River de Falcao García, Loco Abreu e do técnico Simeone abriu 2-0. O segundo, do próprio Abreu, já aos 17 do segundo tempo.
Carbonari celebrando um de seus dois gols sobre o Atlético em 1995, e D’Alessandro no San Lorenzo, festejando os 2-2 com o River (de Loco Abreu, ao fundo) em 2008
O San Lorenzo teria cerca de meia hora para buscar o empate que lhe classificaria e conseguiu. Por ter feito os dois gols, Gonzalo Bergessio foi eleito entre os cem maiores ídolos do clube pela revista El Gráfico em 2011, mesmo com a eliminação já nas quartas pela futura campeã LDU. O que torna o Monumentalazo ainda mais heroico é que a desvantagem em dois não se resumia ao placar: o Sanloré, com dois expulsos, estava com nove em campo quando o River vencia por 2-0.
*Atualização em 08-05-2018: clique aqui para ver Especial dos 10 anos desse jogo, marcado como a noite do “Silêncio Atroz”, na descrição do próprio millonario Oscar Ahumada em crítica à falta de apoio da torcida da casa…
4) Boca 4-1 Newell’s, final da Liguilla de 1986: entre 1986 e 1991, o calendário argentino voltou a apontar um só campeão por ano, que tinha vaga garantida na Libertadores. A outra vaga não ficava com o vice e sim com o vencedor da liguilla, repescagem disputada entre seis ou oito melhores abaixo do campeão. O vencedor dela até se dava ao direito de dar volta olímpica e tudo. O Boca atravessou os anos 80 de forma horrível e o próprio ano de 1986 seria amargo ao torcedor, pois ali o River conseguiria tríplice coroa: venceu o campeonato nacional e, pela primeira vez, a Libertadores e a Intercontinental. Mas a liguilla veio ao estilo raçudo e dramático bem ao gosto auriazul.
O roteiro foi semelhante ao que o Atlético-MG repetiu: derrota de 2-0 no jogo de ida devolvida com um 4-1 na volta. Mas o feito do Boca foi ainda maior, pois os 2-0 foram sofridos em plena La Bombonera, dois gols do atual técnico da seleção e ex do Barcelona, Tata Martino. E os rosarinos ainda abriram o placar em Rosario e em seguida ficaram com um homem a mais em campo após a expulsão do boquense Enrique Hrabina. Se os fãs do Newell’s são gozados de pecho fríos, esse jogo tem muito a ver. E o 3-1 não classificaria o Boca, sendo indiferente os gols fora de casa. Os dois últimos gols, ambos de Gustavo Torres, vieram nos últimos dez minutos.
3) River 5-4 Polônia, amistoso de 1986: poderia estar mais à frente se não fosse um amistoso. No lugar, poderia ser outro 5-4, mas em clássico com o Boca em 1972, onde conseguiu reverter um 4-1 parcial do rival. Só que no jogo contra a forte seleção polonesa da época os millonarios perdiam de 4-2 até os 38 minutos do segundo tempo! O craque Francescoli já havia marcado o que para ele, modesto, foi o melhor gol do dia, após tabela entre toda a equipe. Foi então que marcou outro. Aos 45, o já mencionado Ramón Centurión empatou. E nos acréscimos Francescoli marcou pela terceira vez naquela noite em Mar del Plata. De bicicleta. É o gol mais famoso de sua carreira.
*Atualização em 08-02-2016: clique aqui para ver Especial dos 30 anos desse jogo.
Torres marcando o gol que liquidou a fatura com o Newell’s em Rosario em 1986, e Verón (o pai) cabeceando para fazer o que reacendeu o Estudiantes contra o Platense em 1967
2) Estudiantes 4-3 Platense, semifinal argentina de 1967: batalha de La Plata, contra o Grêmio em 1983? Não. Até 1967 o Estudiantes nem sonhava em vencer três Libertadores seguidas entre 1968-70. Tinha expressão média mesmo na Argentina, não sendo campeão da elite desde 1913. E desde 1930 só cinco clubes vinham sendo campeões, os grandes: Boca, River, Racing, Independiente e San Lorenzo. O oligopólio do quinteto foi quebrado com aquele título de 1967 nada menos que sobre o Racing, que naquele mesmo ano venceu a Libertadores e virou o primeiro argentino campeão mundial.
Mas o ponto alto foi a semifinal. Todos focaram na outra, entre Racing e Independiente, o clássico de Avellaneda. Mas em matéria de emoção a final antecipada foi entre Estudiantes e Platense, treinado pelo mito Ángel Labruna. Em jogo-único na neutra Bombonera, o Platense vencia de virada por 3-1 e jogava com um homem a mais: no fim do primeiro tempo, o zagueiro alvirrubro Barale se lesionou e na época não eram permitidas substituições. O terceiro gol adversário veio já no início do segundo tempo e quase houve o quarto, salvo em cima da linha por Carlos Pachamé. Mas aos 16 da segunda etapa o placar já apontava Estudiantes 4-3. A virada-relâmpago veio com um cabeceio do craque Verón pai aos 8, em chutão de Bilardo aos 14 e em pênalti convertido por Madero aos 16.Saiba mais.
1) Independiente 3-2 Santos, semifinal da Libertadores 1964: o Santos era o bicampeão da Libertadores e da Intercontinental. O Independiente nem sonhava em ser o recordista de taças da Libertadores e na campanha do seu primeiro título precisou destronar o melhor time do mundo na época. E foi em pleno Maracanã, onde os alvinegros costumavam mandar seus jogos graças ao apoio de todas as torcidas cariocas, tamanho o prestígio. O Santos abriu 2-0 mas ainda no primeiro tempo o Rojo empatou. A virada veio aos 45 do segundo tempo. Os santistas podem dizer que Pelé não jogou, mas mesmo sem ele os praianos haviam vencido o Milan pelo mundial de 1963. E, com ele em campo, contra o mesmíssimo Independiente naquele 1964, levou de 5-1 em amistoso em Avellaneda.
Com ou sem Pelé, o feito dos 3-2 foi tamanho que a capa escolhida pela El Gráfico na edição seguinte ao título, sobre o Nacional, não retrata o Independiente celebrando sobre os uruguaios: escolheu-se foto do êxtase nos vestiários cariocas após aquele triunfo nos santistas. Tão histórico que na revista, criada em 1919, foi também a primeira capa com imagem alargada à última página. Saiba mais na nota dedicada ao título, onde se ressalta que a imprensa brasileira e o próprio técnico santista consideraram o resultado justo a despeito de problemas de arbitragem.
Mauro Zárate arrebentou no primeiro ano na Itália, com dezessete gols e títulos, e ainda assim foi esnobado pela Seleção Argentina.
“Me surpreendeu quando Mauro chegou no primeiro ano na Itália, onde arrebentou, meteu 17 gols, 19 assistências, ganhou a Copa da Itália, a Supercopa e na seleção de Diego [Maradona] iam jogadores que haviam metido apenas 3 gols. Isso nos surpreendeu a todos. Mauro estava muito doído porque via que iam jogadores que não mereciam estar, e ele não. Merecia uma chance, não tenho dúvidas.”
A declaração acima foi feita em 2011 por Rolando Zárate, o Roly, em entrevista à quase centenária revista argentina esportiva El Gráfico. Já no ocaso da carreira (ex-Real Madrid, estava prestes a ser rebaixado com o Huracán), mencionou diversas vezes o irmão caçula Mauro, colocando-o inclusive como disparadamente o mais vencedor e talentoso de uma família repleta de outros jogadores: além deles dois, Sergio e Ariel também foram atacantes. Sergio Zárate, um dos primeiros argentinos a desbravar o futebol alemão (confira), e o próprio Rolando tiveram suas chances na seleção argentina principal.
Já o mais novo jamais recebeu chances, seja de Alfio Basile, Maradona, Sergio Batista ou Alejandro Sabella. A gota d’água foi perceber que também não parece estar nos planos do atual técnico da Albiceleste, Gerardo Martino. O Zárate mais jovem foi campeão mundial pela Argentina, mas na categoria sub-20, em 2007, inclusive marcando o gol do título sobre a República Tcheca – a foto que abre a nota é a da comemoração. No torneio, foi colega de Agüero, Romero, Piatti, do desconhecido Di María e até mesmo de Damián Escudero, então seu colega de Vélez. Mauro era a grande joia do clube, que revelou seus irmãos – Sergio esteve em alguns jogos do título argentino de 1993 e Mauro e Rolando foram colegas no de 2005. Mas, em vez de sair para um grande clube europeu, foi ao Qatar.
Rolando simplificou, na mesma entrevista: “apareceu o Benfica, o Spartak Moscou, mas ninguém punha a grana (…). Mauro dizia ao Vélez: ‘o Benfica ofereceu 12 milhões’. E a resposta era ‘não’. ‘O Valencia ofereceu 13’. ‘Não’. ‘Al Sadd ofereceu 20’. ‘Me interessa’, disse o Vélez. (…) Mauro disse aos qatarianos: ‘eu quero isto, isto, isto e isto’. E lhe responderam a tudo que sim. Pediu para acabar o contrato em três anos, que lhe dessem dias para vir à Argentina e cláusulas frouxas para ir a empréstimo a outras equipes interessadas. E lhe saiu perfeito, porque em seis meses foi à Inglaterra, voltou, foi à Lazio, fez um torneio bárbaro e o compraram. (…) Estava claro o tema: nós sabíamos que aos 23 anos terminava o contrato, Mauro ficava com o passe na mão e totalmente salvo no [campo] econômico. Isso tratamos de fazer-lhe entender, porque a princípio ele não queria ir”.
Se o início na Lazio foi bem (neto de italianos por parte da mãe, chegou a ser cogitado para a Azzurra), com o tempo desandou. A própria compra definitiva, em 2009, foi problemática, com o presidente do clube sendo suspenso pela federação por irregularidades no negócio. A média de gols foi caindo, Mauro chegou a ser fotografado supostamente fazendo a saudação fascista entre torcedores e teve uma passagem fracassada na Internazionale. O reencontro com as redes veio na velha casa: voltando ao Vélez em 2013, foi o artilheiro do último campeonato. Dos que já conseguiram mais de uma vez a artilharia na Argentina, as dele foram as mais espaçadas, pois a anterior fora no Apertura 2006, oito anos antes.
A boa fase o fez sonhar com a Copa 2014, mas só lhe rendeu uma transferência ao West Ham. Zárate teria lugar cativo na Copa se aceitasse a oferta do Chile, país de seu pai – seu avô Juvenal foi ex-jogador da Roja. Enfim cansou-se e deve aparecer na Copa América de 2015 pelo país vizinho, que será o anfitrião. Atualmente, não chega a ser exatamente uma pena para uma seleção que conta com Messi, Lavezzi, Higuaín, Agüero e a volta de Tévez, mas é fato que Maurito merecia alguma chance no passado.
Se de fato defender a seleção chilena, Zárate será o 13º argentino a jogar por ela: listamos os outros aqui. Destaque especial ao defensor Rodolfo Almeyda, presente em três Copas América (1955, 1956 e 1957), ao atacante Oscar Fabbiani (artilheiro da rica liga dos EUA em 1979, ano em que também jogou a Copa América. É tio de Cristian El Ogro Fabbiani, ex-River) e ao meia Matías Fernández, o mais duradouro: joga pelo Chile desde 2005, esteve na Copa 2010 e só não foi à de 2014 por lesão – nela, Gustavo Canales e Pablo Hernández estiveram na pré-lista, mas acabaram não confirmados pelo técnico, o também argentino Jorge Sampaoli.
Sergio e Rolando Zárate, irmãos de Mauro, pela seleção argentina. E os argentinos mais exitosos da seleção chilena: Almeyda e Fernández