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  • Atilio Demaría: campeão e vice por países diferentes

    Atilio Demaría: campeão e vice por países diferentes

    Atilio Demaría contraria a crença de que Luis Monti foi o único a disputar finais de Copa por dois países.

     

    Luis Monti costuma ser sempre relembrado como único jogador a disputar finais de Copa do Mundo por países diferentes, perdendo pela Argentina natal a de 1930 e vencendo pela Itália de adoção a de 1934. O recorde é mesmo exclusivo desse volante no tocante às finais do torneio, mas ainda houve outro jogador com quem compartilha na competição a marca de campeão e vice por seleções distintas: Atilio José Demaría o acompanhou exatamente nas mesmas edições, embora só tenha figurado em uma partida de cada uma delas e nunca nas decisões – apesar da habilidade notabilizada pelo bom drible e precisão nos lançamentos, ainda que fosse mais de entregar a bola com passes curtos. Um dos maiores artilheiros da Internazionale no clássico com o Milan merece ser relembrado especialmente hoje, nos 30 anos de seu falecimento.

    Era filho de dois italianos: o pai era Antonio De Maria, piemontês de Crescentino que emigrou aos 18 anos de idade, em 1895, para tornar-se operário em Lomas de Zamora, ao sul da Grande Buenos Aires; e a mãe era Albina Meola (ou Meda, segundo outras fontes), sete anos mais moça que o marido. Quando Atilio nasceu, o casal já morava no número 333 da rua Castillo, em uma zona chamada Villa Alvear, situada entre os bairros de Almagro, Palermo, Caballito e Chacarita, próximo da fina zona norte da capital federal. Mas não tardaram a se instalar em Haedo, cidade ao oeste de Grande Buenos Aires onde Atilio cresceria e voltaria a radicar-se após parar definitivamente de jogar, nela falecendo naquele 11 de novembro de 1990. Quase vizinha, a cidade de Ciudadela abrigava o Ciudadela Juniors, com Demaría ingressando nos juvenis desse clube em 1925. Outro time de Ciudadela era o Estudiantil Porteño, já com relativa solidez na elite argentina.

    Demaría integrou uma camada histórica do Estudiantil Porteño, fomentada pelo olheiro Enrique Mariani, antigo reserva do River campeão de 1908 da segunda divisão. Com os principais clubes argentinos já se preocupando ainda no amadorismo em formar diversas categorias de base, com equipes sub-20, sub-19, sub-18 e sub-17 (havendo campeonatos argentinos próprios para cada uma delas), Mariani foi além ao criar a equipe sub-16. Foi primeiramente nela que Demaría chegou ao clube. Em 1927, o Estudiantil venceu o campeonato sub-17, com um quinteto ofensivo que gradualmente chegaria por completo ao time principal: Juan Pedevilla, Pedro Martínez, Josué De Marco, Demaría e José Morra. Nem mesmo o célebre quinteto ofensivo de La Máquina do River dos anos 40 conseguiu algo assim – o miolo formado por José Manuel Moreno, Adolfo Pedernera e Ángel Labruna ascendeu desde a equipe sub-17, mas os ponteiros Juan Carlos Muñoz e Félix Loustau já começaram em degraus superiores.

    No Estudiantil Porteño de 1927, quando firmou-se na titularidade do clube de Ciudadela. Primeiro em pé, seu colega Abel Picabéa foi técnico no Santos, Palmeiras e Vasco, dentre diversos outros times brasileiros

    Inicialmente deslocado para a ponta-esquerda, onde seus dribles seriam mais úteis, ele já havia àquela altura estreado na equipe principal; figurou em três partidas do campeonato de 1926. Ele, que preferia jogar na meia-esquerda, conquistou esse posto após fugir da ponta em um jogo juvenil contra o River e marcar cinco gols vindo pelo meio. Em 1927, já se alternava mais vezes entre as várias categorias juvenis e o time adulto (chegando a ocasionalmente disputar duas partidas inteiras em cada dia do fim de semana, uma de manhã e outra à tarde), pelo qual já registrou 27 jogos e oito gols. Em 1928, foram 35 partidas e nove gols pela equipe principal. Se o time adulto ainda falhava em ir longe, os elencos de base eram dos mais vitoriosos, com conquistas seguidas nos torneios sub-19, sub-18 e sub-17. Assim, em 5 de novembro de 1928 o jovem estreou pela seleção, ainda que improvisado na meia-direita. Foi em amistoso não-oficial de 1-1 contra o Boca.

    Em 1929, Demaría esteve um jogo pela seleção B contra o America-RJ em 9 de março, com o campeonato argentino de 1928 ainda em andamento. Em 22 de junho, ele e seu Estudiantil Porteño caíram por honrosos 3-2 em amistoso contra o Chelsea, que visitava a América do Sul. No mês seguinte, um primeiro intercâmbio com o futebol italiano: quem visitava agora eram os dois últimos campeões da Velha Bota – Torino e Bologna, que requisitou cinco jogadores do Estudiantil para duelo com o Independiente em 31 de agosto. O campeonato argentino próprio de 1929 ocupou basicamente o segundo semestre e nele a equipe de Ciudadela fez a melhor campanha de sua história até então; foi um quarto lugar do grupo de 17 times, ainda que pelo regulamento só os líderes das duas chaves seguiriam adiante, para travarem a grande final. Demaría marcou nove gols em quatorze jogos. A taça, levantada apenas em fevereiro de 1930, ficaria com o Gimnasia LP, em seu único título argentino até hoje.

    Apesar da pouca assiduidade na seleção, Demaría estava credenciado a figurar na convocação à Copa do Mundo. No Mundial, contudo, calhou de concorrer pela vaga de meia-esquerda justamente com o capitão da Albiceleste, Manuel Ferreira, e só foi usado uma única vez: Ferreira precisou voltar rapidamente a Buenos Aires para fazer uma prova de seu curso universitário (!) e seu reserva esteve nos 6-3 sobre o México, o segundo jogo da campanha. Humilde, o reserva reconheceu que não fez uma boa partida, já em depoimento dado em 30 de novembro de 1949 à revista La Cancha. Na mesma matéria, revelou que ainda em 1930 recebeu uma oferta generosa do Genoa, então o mais vencedor clube italiano, e que na mesma janela levara o próprio artilheiro do Mundial, Guillermo Stábile. Apesar do sentido desfalque de forças europeias na Copa, a qualidade do futebol argentino já era reconhecida na Itália seja pelo desempenho na Europa na campanha de prata nas Olimpíadas de 1928 ou pelos vinte anos que já havia de emprego de argentinos na própria seleção italiana.

    Argentina antes de seu segundo jogo na Copa de 1930, contra o México, única partida de Demaría na campanha: o técnico Olázar, Peucelle, Orlandini, Zumelzú, Paternoster, Spadaro e Della Torre (que jogaria no America-RJ!); Varallo, Stábile, Bosio, Demaría e Chividini

    Demaría esteve tentado a fechar com o Genoa, mas para ele pesava mais a palavra que já havia dado aos dirigentes do Gimnasia: ainda como mais recente campeão argentino, o time de La Plata se presenteou com uma excursão à Europa, na qual contou com diversos reforços emprestados pontualmente por outros clubes. A viagem ficou marcada por fazer o hoje sofrido Lobo ser a primeira equipe estrangeira a vencer em solo espanhol tanto o Real Madrid como o Barcelona. Demaría forneceu uma assistência para abrir o placar nos 3-2 contra os madrilenhos em Chamartín e forçou o rebote que propiciou o empate prévio à virada de 2-1 sobre os catalães em Les Corts. O meia deixaria gols no 1-0 sobre o Benfica e na abertura dos 3-1 sobre um Sparta Praga que era potência europeia, gerando a manchete “tango argentino” na imprensa tcheca; e, embora não tenha marcado gols no 2-2 contra o Napoli, foi qualificado pelo jornal romano Il Littoriale como um “autêntico fora de série”.

    Demaría somou oito gols na excursão (o último, no 2-2 com um combinado Vasco-America no Rio de Janeiro, já no regresso), sendo o terceiro máximo artilheiro dela, abaixo dos onze de José Minella e dos dez de Ismael Morgada. A turnê rendeu ainda um primeiro contato direto com a Internazionale (ou Ambrosiana, como o clube chamava-se na época) e seu astro Giuseppe Meazza, contra quem os platenses buscaram um 3-3 após derrota parcial de 3-1. Ainda segundo a reportagem de 1949 do La Cancha, um primeiro clube italiano a lhe sondar após a excursão foi o Livorno: “era também uma boa oferta, mas como a do Genoa havia sido melhor, pedi mais. Consequência: tive de esperar que o emissário telegrafasse ao clube, e que lhe chegasse a resposta. Total, nada. Não fizemos acordo”. A volta do Gimnasia à Argentina se deu em um momento de ebulição; o time esteve entre os dezoito rebeldes que naquele 1931, descontentes com a divisão igualitária de renda com clubes de duelos pouco atrativos financeiramente, romperam com a federação já com o torneio em andamento.

    Os dezoito criaram então uma liga própria que, atraindo maior atenção de público e mídia, também escancarou de vez um profissionalismo já praticado sob vista grossa desde os anos 20. O Estudiantil Porteño foi descartado pelo movimento. Nisso, o San Lorenzo fez uma oferta ao meia, que recusou “porque não estava convencido totalmente de que teria de continuar minha carreira aqui. Primeiro, porque me havia forjado sonhos, e segundo por uma razão de amor próprio. Tinha que jogar na Itália!”. Deixado de fora da liga rebelde, o Estudiantil remanesceu no desfalcado torneio oficial, que recomeçou do zero, anulando-se as partidas prévias. Demaría entrou em campo nas duas primeiras rodadas desse reinício, em 28 de junho (vitória fora de casa por 2-1 sobre o Colegiales) e em 5 de julho (4-3 sobre o Barracas Central). Nesse contexto, ele disputou mais dois jogos pela Argentina, cuja seleção reconhecida pela FIFA se resumiria aos amadores até a federação oficial se render aos fatos e deixar-se absorver pela profissional em 1935. Ambos foram contra o Paraguai: 1-1 em 4 de julho e 3-1 em 9 de julho, em Buenos Aires, pelo troféu binacional Copa Chevallier Boutell.

    No Gimnasia LP em plena neve alemã, na celebrada excursão de 1931. O goleiro Bottaso também esteve na Copa de 1930 e Arrillaga passaria pelo Fluminense

    O Gimnasia então reapareceu, oferecendo oito mil pesos e salário de trezentos para que Demaría voltasse a La Plata. Inicialmente resignado com a ausência de novas ofertas italianas, Demaría assinou contrato no sábado de 11 de julho para no dia seguinte já estar em campo no 2-2 contra o San Lorenzo pela oitava rodada da liga profissional. Na volta para casa naquele domingo, deparou-se com representantes da Ambrosiana-Inter, detentora do título italiano de 1930-31. Levaram 40 mil liras para acelerar o trâmite entre compra do passe e despesas de deslocamento. Na segunda-feira seguinte, o jogador foi à sede alviazul devolver os oito mil pesos e expor seus anseios. Em gesto admirável, o presidente gimnasista Arbitti aceitou de bom grado rescindir o contrato recém-assinado com o astro. “Então telefonei desde La Plata e disse à minha namorada que preparasse as coisas para nosso casamento”. Com isso, apesar da boa imagem deixada no Bosque em função da excursão europeia, oficialmente o meia só tem um único jogo contado nas estatísticas triperas.

    Então veio um susto: na escala naval em Montevidéu, ninguém menos que Héctor Scarone subiu ao barco. Era o grande craque uruguaio dos anos 20 (presente no ciclo do bi olímpico com a Copa de 1930 pela Celeste), já tendo passado pelo Barcelona. E Demaría então descobriu que aquele astro havia sido igualmente importado pela Inter, ficando nervoso se conseguiria ter algum lugar no novo clube. Scarone havia sido contratado por 15 mil liras e o argentino, por 20 mil (para receber ainda 2 mil de salário mensal), em informação dada pelo La Cancha em edição de 18 de fevereiro de 1933. O que explicaria essa discrepância seria a sensação de escassez advinda do profissionalismo instalado em 1931 na Argentina, e que ainda tardaria mais um ano para se escancarar no Uruguai.

    É o que sustentou Zachary Bigalke em sua dissertação de mestrado para a Universidade do Oregon (“If they can die for Italy, they can play for Italy!“), que contextualizou duas notas de agosto de 1931 de Il Littoriale: uma destacando que nem Scarone e nem Demaría pareciam ter muita fluência em italiano, embora fossem ambos filhos de imigrantes; e outra destacando que o profissionalismo argentino já encarecia novas contratações portenhas, noticiando que o racinguista Vicente Del Giúdice até encerrara suas negociações com clubes italianos ao ficar satisfeito com o pagamento que receberia em Avellaneda. Se Scarone estava paradoxalmente mais barato, a chegada conjunta de ambos à Itália não deixou dúvidas de que o uruguaio era o reforço mais esperado pelos milaneses. “Apesar disso, tive sorte. Meazza, desde o primeiro momento, simpatizou comigo. Me animou e ajudou o quanto pôde”, explicou Demaría naquela nota de 1949.

    Jornais de Viena e Praga destacando o Gimnasia e Demaría na excursão platense de 1931: “tango argentino”, noticiaram os tchecos sobre o baile de 3-1 aberto pelo meia sobre o poderoso Sparta

    Ainda naquela nota, também detalhou que, no amistoso que testaria a estreia do argentino, Meazza logo propôs-lhe uma troca de passes em velocidade até que o chute a gol coubesse a quem estivesse melhor posicionado. Na segunda vez que seguiram esse plano, Demaría marcou seu primeiro gol como nerazzurro, “forte e alto”, e nos primeiros dez minutos já havia marcado também uma segunda vez. A segunda partida amistosa, em 6 de setembro, foi contra o Real Madrid. Para tanto, novos conselhos de Meazza: “durante um dos treinos, me explicou como tinha que fazer para assinalar gols em [Ricardo] Zamora. E como talvez notasse em mim algo de incredulidade, me tomou por um braço e me conduziu até um extremo da área. ‘O lugar é esse’, me indicou. ‘É preciso chutar de lado… mas não te preocupes, eu o farei primeiro. Veja como faço eu e depois faça você’”. Guarnecidos por aquele lendário Zamora, os espanhóis venceram dentro da Arena Cívica de Milão por 3-2, mas de fato os gols da casa saíram primeiro com Meazza e depois com Demaría.

    Na primeira rodada da Serie A de 1931-32, em 20 de setembro, o argentino já estava entre os titulares da Inter. Inclusive, não se inibiu em um primeiro duelo com o time mais argentino da Itália, uma Juventus que, com diversos hermanos, rumaria a um inédito pentacampeonato – fez um dos gols interistas de honra em derrota de 6-2 no que ainda não era um Derby d’Italia, rivalidade fomentada só a partir dos anos 60. Sua nova equipe ficou apenas em sexto enquanto o Estudiantil Porteño, sem o astro no restante do torneio amador de 1931, seria justamente o seu campeão, embora não escapasse da atrofia tão comum a outros times deixados de fora da liga rebelde (ainda existe como clube social, mas se desvincularia da AFA em 1939, abandonando o futebol competitivo).

    Mas os oito gols em 32 jogos do argentino pareceram bem promissores em Milão: para a temporada seguinte, os cartolas lhe mimaram contratando o irmão Félix Demaría, que viraria o “Demaria II”. O caçula não triunfaria, em contraste com o sucesso de Atilio – ou melhor, de Attilio, grafia italianizada que seu nome adotaria com a dupla cidadania enquanto a do sobrenome perdia o acento. Após doze meses regulamentares e já tendo até um filho nascido em solo italiano, Ezio, “Demaria I” estava apto para estrear pela própria seleção italiana. O jogo seria em Milão e para jogar ele suportou até a dor de um tornozelo inflamado, tamanha que precisou do auxílio da esposa para descer as escadas de casa e entrar no carro. A Azzurra bateu por 4-2 sobre a Hungria em 27 de novembro de 1932, partida que também marcou a estreia de Luis Monti pela Itália, inclusive.

    Com a camisa da Inter de Milão, clube com o qual mais se identificou: entre os maiores goleadores do clássico com o Milan

    Mas Demaría só faria uma segunda partida já em plena Copa do Mundo de 1934. Foi convocado credenciado pelas boas cifras: na temporada 1932-33 foram 30 jogos e treze gols, incluindo dois em 5-4 no clássico com o Milan no primeiro turno e outro em 3-1 de virada no segundo; na de 1933-34 foram 34 jogos e doze gols – pacote que incluiu outro no Milan, batido de virada por 2-1, embora o que entrasse para a história fosse o 9-0 no Casale com um hat trick dele e outro do parceiro Meazza; só em 2017 é que (com os argentinos Banega e Icardi) o clube comemoraria duas tripletas juntas, no 7-1 sobre a Atalanta.

    Naquelas duas temporadas, a Inter foi bivice da poderosa Juventus e em 1933 o argentino brilhou ainda em outra campanha vice-campeã, a da Copa Mitropa, o principal torneio clubístico europeu de então. Em reencontro com o forte Sparta Praga do atacante Oldřich Nejedlý, futuro artilheiro e vice com seu país no Mundial de 1934, anotou quatro gols no placar agregado de 6-3 nas semifinais. Para a Copa do Mundo, a Itália tratou de fortalecer-se com os melhores estrangeiros de sangue italiano à disposição, chamando o brasileiro “Filó” Guarisi e os hermanos Monti, Demaría, Raimundo Orsi (ponta da poderosa Juventus) e Enrique Guaita (artilheiro na Roma), ao passo que a Albiceleste ainda se limitava a chamar apenas amadores – enviando um elenco enganoso da real qualidade disponível nos campos argentinos.

    É que os clubes profissionais, ainda sem chancela oficial da FIFA, temiam com isso perder de graça destaques que fossem eventualmente seduzidos para permanecer na Itália e não liberaram seus astros. Dentre os amadores que foram à Copa do Mundo, houve de fato um do Estudiantil Porteño que acabou logo contratado pela Inter também: Alfredo Devincenzi, autor de um dos gols sobre a Suécia. “Quando fiquei sabendo, me deu um nó na garganta. A Argentina estaria representada por garotos sem nenhuma experiência. Então me aproximei de Pozzo [treinador da Itália] e lhe disse claramente que eu não estava disposto a jogar contra meus compatriotas. Que se chegassem à final, não contasse comigo”, afirmaria Demaría na reportagem de 1949.

    Ambrosiana-Inter em 1933: Félix Demaría, Paolo Agosteo, Alfredo Pitto, Vinicio Viani, Carlo Ceresoli, Pietro Serantoni, Giuseppe Meazza, Atilio Demaría, Virgilio Levratto, Armando Castellazzi e Luigi Allemandi. Demaría e Allemandi venceram a Copa de 1934, Ceresoli e Serantoni ganharam a de 1938 e Meazza, ambas

    A Argentina, que levou ainda outro ex-colega de Estudiantil Porteño, Juan Pedevilla, fez sua pior Copa, caindo logo naquele duelo inicial com os suecos. Mas Demaría, novamente, só foi usado uma vez numa Copa: foi no jogo-desempate contra a Espanha, pelas quartas-de-final, na vaga que foi de Giovanni Ferrari (o único outro além de Meazza a ser titular em 1934 e 1938) no restante do torneio. O duelo anterior, um extenuante empate com prorrogação, havia sido apenas 24 horas antes e com isso o técnico Vittorio Pozzo precisou usar uma equipe mista.

    Na temporada pós-Copa, Demaría anotou dez gols em trinta jogos na Serie A; quatro saíram em uma só partida, 6-1 sobre o Sampierdarenese (um dos times que formariam a Sampdoria em 1946), outro veio em vitória sobre o Milan por 2-0. Os milaneses foram trivices, amargando, tal como na temporada 1933-34, uma derrota na rodada final que encerrou o sonho do scudetto. O título em 1935 para Demaría viria novamente com a seleção, vencedora da Copa Internacional, uma precursora da Eurocopa. Ele esteve em três jogos da Azzurra naquele ano, em campanha contra Áustria, Tchecoslováquia e Hungria. Em paralelo, a convocação ao Exército de Mussolini na invasão à Abissínia (atual Etiópia) afugentou estrelas argentinas, incluindo recém-campeões mundiais, e mesmo europeias. Demaría, por seu lado, aceitou renovar por mais uma temporada, disputando 29 partidas da Serie A de 1935-36 e deixando sete gols (realizando ainda três jogos pela Itália em 1936, em amistosos contra Suíça, Áustria e Hungria, com dois gols marcados). Semifinalista da Copa Mitropa, a Inter ficou só em quarto na Serie A, e ele enfim voltou à Argentina, sob versões discrepantes.

    A Itália com quatro argentinos para o jogo-desempate contra a Espanha, única partida de Demaría na Copa de 1934: o técnico Pozzo, Combi, Ferraris IV, Allemandi, Monti e Guaita; Bertolini, Orsi, Monzeglio, Meazza, Borel e Demaría

    A retrospectiva de sua carreira ao La Cancha em 1949 menciona que ele, tendo apalavrado o retorno à Argentina com os cartolas interistas, terminou ludibriado ao ser retido no porto e separado de sua família, que seguiu viagem naval – levando-o ao extremo de pegar às escondidas um voo a Berlim e de lá cruzar o Atlântico em um zepelim. Já a dissertação de mestrado no Oregon sustenta que Demaría não teria voltado como desertor e sim exatamente para evitar isto, pois seu serviço militar obrigatório no exército argentino era uma pendência. Fato é que sua estadia no Independiente não foi exitosa: só atuou em três jogos oficiais, estreando em 30 de agosto de 1936 contra Platense, deixando sobre o San Lorenzo seu único gol pelo Rojo e por fim pegando o Vélez. Insatisfeito consigo próprio, ele mesmo teria pedido para jogar pela equipe B, com a qual fez outras cinco partidas, com dois gols, no campeonato da categoria. O La Cancha de 1949, porém, afirma que outra motivação para não fazer mais jogos teria sido uma reclamação formal da Inter perante a FIFA causar receio em Avellaneda em possível perda de pontos nos tribunais.

    O Estudiantil Porteño não teve esse receio e acertou o regresso do antigo ídolo para 1937, o ano em que os times deixados de fora da liga rebelde de 1931 foram admitidos no profissionalismo, inscritos na segunda divisão. Demaría reencontrou em Ciudadela velhos colegas em Martínez, Devincenzi (regressado da Inter também), Pedevilla, Juan Betinotti e outros. Embora o campeão e único time a subir viesse a ser o Almagro, Demaría foi eleito o principal destaque da segundona; foram nove gols em dezesseis jogos, com o campeão mundial terminando inclusive por ser convidado no início de 1938 para testes no poderoso Nacional. Figurou no elenco que, em ríspidas partidas de verão, faturou o Torneio Noturno, um dos antecessores da Libertadores. Mas ainda que o argentino só aparecesse na campanha para os duelos contra Boca e River, ambos já após a taça se garantir (os tricolores inclusive perderam ambos), sua contratação ficaria insustentável diante da intransigência da Inter em liberar-lhe o passe. Curiosamente, outro reforço dos tricolores era um Atilio também, argentino que viraria o maior artilheiro do Nacional, do futebol uruguaio e do Superclásico de lá.

    De um lado, aquela nota de 1949 de La Cancha registrou que os italianos souberam vencer Demaría pelo cansaço, mas nela ele também assumiria que se arrependia de ter perdido a chance de vencer a Copa de 1938 pela Azzurra. Ele enfim voltou à Itália para a temporada de 1938-39, na contramão de compatriotas que buscavam fugir do belicoso clima europeu. Sem retaliações, a Inter lhe tornou até o capitão e cobrador de pênaltis do elenco, enquanto a seleção promoveu a reestreia do argentino já em 20 de novembro de 1938, em 2-0 sobre a Suíça. Em dezembro, ele esteve no 1-0 sobre a França. Trégua premiada: na temporada 1938-39, embora só contasse três gols (um deles, em 5-0 na Juventus) em 23 jogos na campanha de bronze na Serie A, Demaría conseguiu seu primeiro título no calcio, erguendo como titular a primeira Copa da Itália nerazzurra.

    A mancha política: Combi, Meazza, os argentinos Orsi, Guaita e Monti, Bertolini, Monzeglio, o brasileiro Filó (de macacão) e Demaría (idem) fazem a saudação fascista na Copa de 1934. À direita, o argentino com uniforme militar italiano na Segunda Guerra

    Com a Segunda Guerra Mundial já estourada, o futebol italiano seguiu normalmente enquanto o conflito não se agravava na Itália. E nesse contexto o time de Milão ganhou a Serie A de 1939-40, já com o argentino aparecendo melhor nas estatísticas: doze gols (incluindo um em 3-1 no Milan) em 29 jogos. Foi também ao longo da temporada do scudetto que ele fez suas últimas partidas pela Itália, em amistosos contra a neutra Suíça e as “amigas” Alemanha e Romênia – com um gol, de pênalti, na derrota de 5-2 em Berlim para a seleção da casa, reforçada desde o Anschluss pela talentosa geração austríaca (três gols foram de Franz Binder, do futebol vienense). Em depoimento que daria já em 1944 ao La Cancha, o jornalista Pedro Luis Rossi diria que, ao ver em 1940 o polivalente craque são-paulino Antonio Sastre desempenhar-se no Independiente, recordava-se do que já havia visto de Demaría na Itália. Destacou inclusive uma tarde contra a Lazio onde os três gols de Meazza surgiram todos de assistências do hermano. Mas mesmo com as batalhas ainda distantes de Milão, o argentino contextualizou ao La Cancha em 1949 que era impossível viver com normalidade.

    A própria idade elevada e a convocação em 1941 às forças armadas também foram gradualmente diminuindo os números de Demaría: na temporada de vice para o Bologna em 1940-41, foram seis gols em 29 jogos, diminuídos respectivamente para três e 22 no medíocre 12º lugar de 1941-42 – quando, em paralelo, a loja que empreendia em Milão virou ruínas após um bombardeio. A ironia é que Demaría estava alistado ao corpo militar italiano dos bombeiros, voltados exatamente no socorro contra incêndios decorrentes das bombas. Se os ítalo-forasteiros, segundo ele, eram protegidos de serem alocados na linha de frente, ele teria outro episódio onde safou-se ao acaso de uma bomba, já durante um turno noturno em que fazia guarda: “à meia-noite, quando sozinho e deixando vagar os pensamentos me encontrava abstraído, me sobressaltei ao escutar a estridência das sirenes de alarme. E me assustei, confesso. No mesmo instante, começaram a cair as bombas. Estrondo, fumaça, terra, destruição, um verdadeiro inferno! Não sei quanto tempo durou aquilo. Para mim, mais de um século…”.

    O depoimento prosseguiu com essas palavras: “ao fim, quando novamente recobrei a calma, observei que a única coisa que ficava em pé era o muro de trás ao qual me havia defendido, um verdadeiro milagre! Apesar de tudo, eu considerava aquilo um trabalho provisório. Confiava que as coisas não haveriam de prolongar-se muito mais. Não sei por que, mas confiava”. A temporada do 4º lugar de 1942-43 foi a última da Serie A durante a Guerra. E a última do argentino na Inter; ele só atuou em dez partidas, marcando duas vezes. O regista despediu-se em derrota de 2-1 para o Vincenza em 11 de abril de 1943. Ao todo, foram 86 gols em 295 partidas oficiais contabilizadas no arquivo estatístico interista

    No Independiente de 1936: Juan Corazzo (avô de Diego Forlán), Fermín Lecea, Fernando Bello, Sabino Coletta (que jogaria no Flamengo), Luis Franzolini e Mario Catuogno; Raimundo Orsi (colega de Demaría na Copa de 1934 e outro futuro flamenguista), Luis Mata, Arsenio Erico, Demaría e José Zorrilla

    Ele segue como o argentino que mais marcou gols no clássico com o Milan: foram seis no Derby della Madonnina e em seu tempo chegou inclusive a ser o terceiro maior goleador geral do duelo, abaixo de Meazza e do belga Louis Van Hege, embora hoje divida o sétimo lugar nesse ranking com diversos outros – incluindo o também argentino Diego Milito e Sandro Mazzola, outros ícones da torcida nerazzurra.

    A suspensão do campeonato não significou, contudo, que o futebol cessasse na prática: torneios de guerra, embora não reconhecidos modernamente pela federação, mantiveram os clubes em atividade na época. Nisso a Inter inclusive deu passe livre para Demaría fechar com o Novara em 1944. Com o fim do conflito no ano seguinte, ele já estava à beira dos 36 anos, considerando-se com as chuteiras penduradas. Quando o Legnano contratou-o para a disputa da terceira divisão italiana (em negócio intermediado por outro argentino, Hugo Lamanna, ex-Vasco, Independiente e Atalanta), foi para ser treinador. Foi uma surra de 7-0 na estreia e a percepção de que não havia um líder em campo que lhe fizeram oferecer-se a ser jogador-treinador. Na nova função, começou empatando com o Como antes de engatar uma invencibilidade de treze partidas seguidas na Serie B-C. A arrancada levou o clube a um quarto lugar, a dois pontos do suposto acesso. Quando a Serie B foi retomada oficialmente na temporada 1946-47, aquela campanha, ainda válida por um torneio de guerra, terminou suficiente para a equipe ser alocada administrativamente na segundona.

    Demaría seguiria na Serie B já como jogador do Cosenza, registrando 31 jogos e seis gols na temporada 1946-47, na luta contra a queda; e respectivamente treze e um na seguinte, onde nem o 10º lugar entre dezoito times impediu o descenso. Ele não se demorou muito mais na Itália pós-guerra; seu retorno à terra natal após praticamente 17 anos fora foi bastante destacada e ele foi procurado a comentar sobre o sistema, revolução tática então em voga no calcio: “é o triunfo da disciplina, do método e de uma tática. Zagueiros marcando os pontas e o volante no centro, recuado. Os laterais, adiante, contra os meias-armadores. O quadro atacante, assim, com sete homens. É assombroso como o Torino o pratica, onde ninguém se move um metro a mais de onde deve estar. Vi jogar vários quadros argentinos ultimamente. Tomemos o exemplo do River, para falar de campeão com campeão. Minha opinião é de que o Torino pode ganhar-lhe. O River lhe poderia fazer gol unicamente pela velocidade fantástica de Di Stéfano. Aqui, as táticas são menos rigorosas, assim como é menos rigoroso o controle do jogador durante a semana”.

    Como técnico, Demaría (de camisa branca) não teve estrela: seu Rosario Central foi rebaixado em 1950. E ele caiu também em 1951, com o Gimnasia

    Infelizmente, o tira-teima entre River e Toro ficaria para jogos beneficentes após a tragédia de Superga. E, apesar do aparente conhecimento tático, Demaría não chegou a desenvolver carreira de treinador digna de nota; foi o comandante do Rosario Central no grosso da temporada do segundo rebaixamento canalla, em 1950; esteve à frente do Gimnasia como um bombeiro no rebaixamento tripero em 1951, sucedendo o demitido Roberto Scarone; e no Almirante Brown em outra luta contra a queda, na segundona argentina de 1973. Também trabalhou nas escolinhas do Estudiantil Porteño.

    Naquele novembro de 1990, já era um dos últimos remanescentes vivos da seleção argentina de 1930 e da italiana de 1934: os ex-colegas Carlos Peucelle e Mario Pizziolo partiram ambos ainda em abril e o artilheiro Angelo Schiavio, em setembro. Aquele ano ainda perderia Rodolfo Orlandini na véspera de natal antes que Mario Evaristo, Guido Masetti, Felice Borel (todos falecidos em 1993) e por fim Francisco Varallo (em 2010, com cem anos de idade) se tornassem os sobreviventes finais.

    Dos demais colegas argentinos de Azzurra, seu coração era o último que ainda pôde bater de modo dividido naquelas tensas semifinais da Copa do Mundo em Nápoles. Em 2014, quando os especialistas da Calciopédia elegeram os maiores argentinos do futebol italiano, Demaría foi considerado o 24º do ranking, à frente de nomes exitosos recentes por lá mais famosos, a exemplo de Ramón Díaz, Julio Cruz, Claudio López, Carlos Tévez, Gonzalo Higuaín e Nicolás Burdisso, dentre outros.

    Muito do material que serviu de fonte a essa matéria foi fornecido pela Entre Tiempos, única livraria de futebol em Buenos Aires, tocada pelo historiador Esteban Bekerman. Conheça-a!

    Demaría aparece nesses registros dos anos 40 com os símbolos da Itália bi mundial: Meazza (antes do primeiro clássico de Milão que o amigo disputou pelo rival Milan) e Silvio Piola, da Lazio
  • Juan José López: muito além do técnico do rebaixamento do River

    Juan José López: muito além do técnico do rebaixamento do River

    Juan José López encerrou a carreira de jogador no River em 1981, e menos de dez anos separaram a idolatria do trauma do rebaixamento.

    Em 1981, seu último ano no River. Foto de jogo contra o Talleres, onde seria ídolo como jogador e técnico

    Nem dez anos se passaram e a diferença é brutal no River em comparação ao time rebaixado em 2011, uma desventura que detalhamos nessa outra nota. E também brutal é resumir Juan José López ao azarado treinador que calhou de estar no lugar errado na hora errada. Pois, por mais que mesmo antes da tragédia houvesse em Núñez quem ainda torcesse o nariz a Jota Jota por ter defendido o Boca (como nos trinta segundos finais dos arroubos viralizados do Tano Pasman), aquele ex-volante sempre permaneceu figurando em qualquer lista de maiores ídolos do River – talvez seu maior camisa 8. E não só: o próprio algoz Belgrano já tinha antes de 2011 capítulos felizes tendo em El Negro um aliado de verdade, apesar de sua imagem se ligar muito bem também nos rivais Talleres e Instituto. Hora de relembrar quem, sendo um dos poucos volantes com mais de cem gols no futebol (só pelo River foram 84, seis deles em Superclásicos), ainda participou do assombroso título do Argentinos Jrs na Libertadores.

    Mais de dez anos de River

    A ligação com o River vem desde a infância. Os pais eram cordobeses, mas tinham no Millo o time do coração, a ponto de irem ainda como namorados ao Monumental assistir La Máquina, o timaço dos anos 40: “Sócrates, meu velho, sempre disse que ia ter um filho varão, que ia se chamar Juan José e que jogaria no River. E tudo aconteceu, até joguei na mesma posição que seu ídolo, [José Manuel] Moreno. Muitos pais alimentam sonhos com seus filhos e não podem cumpri-los, mas meu velho pôde, embora não chegou a me ver campeão porque faleceu de um aneurisma em 1974”. A explicação acima foi dada pelo antigo craque em entrevista à El Gráfico ainda em 2004, de onde tiramos a maioria das aspas dessa nota.

    Sobre o lado torcedor da mãe, comentou que “sempre me chamou a atenção como brilhavam as pernas de Moreno e me contava que ele colocava vaselina. E eu copiei o hábito: nunca me massageei no River, sempre pus vaselina. Todos esses sonhos de River me transmitiram meus velhos, por isso eu troco a seleção pelo River”. Mas alimentar o sonho paterno não foi fácil: El Negro (apelido comum na Argentina mesmo quando a pele relativamente escura parece mais herança indígena, como no caso dele, do que propriamente africana) nasceu em Ciudadela e cresceu no extremo sul da Grande Buenos Aires, em Guernica (por recomendação médica a um problema que afetou os brônquios do garotinho após a família ter se mudado inicialmente para… o bairro de La Boca), enquanto o Monumental se situa no extremo norte da capital. O Racing era consideravelmente mais próximo e Jota Jota foi inclusive primeiramente aprovado por lá.

    “Mas Palomino, o delegado do River, tinha uma irmã em Guernica. E ela sabia de todo o sonho do meu pai. Então, Palomino veio à minha casa, me pediu para eu fazer embaixadinhas e me deu a citação. Ainda a tenho bem guardada”. As embaixadinhas eram uma habilidade estimulada pelo pai, que lhe dava 10 centavos a cada uma que o filho conseguisse acumular – além de lhe forçar desde os 3 anos a chutar com as duas pernas e lhe impor disciplina de atleta desde os 13. A viagem até a escolinha riverplatense era mesmo “muito dura: duas horas de ida e duas de volta. Uma hora do trem Guernica-Constitución, metrô até Retiro, trem até Barrancas e daí, se tivesse grana, pegava o ônibus até o clube. Se não, guardava as moedinhas para uma coca e uma porção de pizza”. López declarou ainda que, curiosamente, chegou ao clube no mesmo dia que seu futuro parceiro na volância, Reinaldo Merlo: “com nove anos, e os dois de centroavante. Depois [Carlos] Peucelle nos trocou de posições. Dizia que tinha muito pique e que correndo desde trás ia andar melhor. Um monstro, Peucelle, mestres como ele se perderam”.

    Jota Jota ainda verde no River de Didi e já experiente com o mentor Ángel Labruna

    Bem, Peucelle fora um antigo craque da Copa de 1930 e que já havia descoberto Di Stéfano. E, inicialmente incrédulo naquele baixinho, foi mesmo sábio. O livro Quién es Quién en la Selección Argentina qualificaria López como “um jogador notável, moderno, refinado, com um desdobramento que hoje seria chamado ida y vuelta“. Ou seja, Jota Jota era o chamado box-to-box, no jargão inglês cada vez mais em uso no Brasil. E de fato, a meia cancha com os “Três Mosqueteiros” do River veria Merlo ser o destrutor, Norberto Alonso ser o construtor e López, “o que corria”, não se inibindo de arriscar seus chutes ou dar assistências diretas quando aparecia no ataque: ainda segundo o livro, era um volante dotado de “bom arremate desde longa distância, profundidade e gol, solidariedade combativa e muito técnico”. A parceria com Merlo criaria em López o hábito até de só conseguir dormir de luz acesa, após o colega ter destruído uma televisão situada entre as camas na concentração ao acordar subitamente de um pesadelo. Mas ela demoraria para ser vista nos gramados:

    “Eu não jogava nunca, e todos os verões ia com meus amigos, pelas costas do meu velho, me testar em outros clubes: Banfield, Temperley, Lanús, Racing. E em todos, ficava. Nessas épocas, os delegados caminhavam muito, iam às casas, mas meu velho sempre os expulsava cagando, porque eu estava inscrito no River. Meu velho até teve que armar uma liga em Guernica para que eu jogasse aos domingos, porque aos sábados no River era reserva do reserva”. Ainda segundo a entrevista, a única lembrança que ele tem de chorar por futebol foi naquele contexto, quando imaginava que jogaria diante do atraso do titular, que acabou chegando a tempo. “Disse que não voltaria mais. Aí apareceu Casal, um delegado, ainda o estou vendo: me disse que não reagisse tremendamente, que eu tinha condições. E voltei”. Apenas com 17 anos é que começou a ser usado, a partir da chegada do ex-zagueiro millonario Vladislao Cap ao cargo de técnico juvenil. Aos 18, “estava Ángel [Labruna] e comecei a jogar no time sub-19. Em 1969, Ángel já queria me fazer estrear, mas estava Daniel, seu filho [precocemente morto pela leucemia], que jogava uma barbaridade”.

    A estreia no time adulto, em 3 de novembro de 1970 (2-1 sobre o Gimnasia de Mendoza), veio já sob o sucessor de Labruna, o brasileiro Didi, notabilizando por bancar a promissora garotada juvenil: “me deixou ensinamentos: a pegar na bola, como para-la com o peito, como te desprender rápido”. E foi já naquele ano que Juan José virou o famoso Jota Jota, apelido criado pelo midiático locutor José María Muñoz (“hoje ninguém me chama por meu nome e até quando falo por telefone tenho que me apresentar como Jota Jota”). Embora promovido em 1970, o garoto ainda era formalmente um juvenil quando atuou na partida que mais desfrutou segundo o próprio: “o 3-1 no Boca, no estádio do Racing, pelo Nacional de 1971. A greve [dos jogadores profissionais] acabara, o Boca jogou com seus titulares, e Didi [por pressão dos próprios cartolas, é verdade] manteve os amadores. Além disso, como havia uma briga de fundo pela greve, nos pegavam para matar”. El Negro marcou o segundo gol daquela vitória histórica, retratada poeticamente pela El Gráfico sob os dizeres “os garotos do River… os duendes, as fadas, os magos… pena que Walt Disney não estava!”.

    López, inclusive, já se dera ao luxo de marcar nos dois Superclásicos do Metropolitano de 1971 (2-1 e 3-3, com o gol no triunfo sendo inclusive o primeiro dele pelo time principal), e fechou o ano com doze gols, ótimos números a um volante. O problema é que Didi, mesmo elogiado pelo jogo vistoso (“ainda hoje me pergunto que teria ocorrido com Alonso, comigo e com tantos outros garotos se ao estrearem na primeira divisão outro técnico nos tivesse cultivado primeiro a obrigação de ganhar antes de dar uma caneta ou de marcar antes de ensaiar um drible… nos teria cortado as asas. Por isso, sempre estarei grato a Didi, quem me deixou ter uma ‘irresponsabilidade’ que me fez muito bem. Labruna, depois, me obrigou a adaptar-me a outra maneira de funcionar. E Ángel esteve bem porque eu já havia deixado de ser garoto. De todos os modos, eu se tivesse um buraquinho ia jogar no ataque. Nesse sentido, Labruna nunca me proibiu nada. Me dizia que eu tinha físico para jogar os 90 minutos em um ritmo intenso e que aproveitasse essa circunstância. Esse respaldo me serviu muito”, contou ao livro do centenário do River), falhava em obter resultados.

    River campeão em 1975 após dezoito anos: Héctor Ártico, Carlos Pintos, Alejandro Sabella, Daniel Crespo, Reinaldo Merlo, Ubaldo Fillol, Hugo Pena, Roberto Carrizo, Carlos Avanzi e Alberto Vivalda; José Reinaldi, Juan José López, Pedro González, Pablo Comelles, Oscar Más, Roberto Perfumo, Miguel Raimondo e Carlos Salinas; Héctor López, Carlos Morete, Luis Landaburu, Norberto Alonso, Pedro Bareiro e Daniel Lonardi

    O time até chegou a liderar aquele Nacional de 1971, mas perdeu gás e ficou de fora dos mata-matas. Nos outros torneios, o River de Didi nunca brigou seriamente pelo campeonato e o brasileiro acabou demitido em uma sucessão de goleadas no Metropolitano de 1972, inclusive para o Boca. E o técnico seguinte à sua saída, Juan Urriolabeitía, já pôs o time de cara na final do Torneio Nacional de 1972 – a contar inclusive com outro Superclásico especial, onde o Boca virou um 2-0 para 4-2 mas terminou perdendo de 5-4. Na campanha, goleadas notáveis: 7-2 no Independiente campeão da Libertadores, 8-0 no Independiente de Trelew e 7-1 no Bartolomé Mitre… Juan José já estava firmado entre os titulares e foi no embalo dessa campanha que ele estreou pela seleção, em 11 de outubro de 1972, uma derrota para a Espanha no Santiago Bernabéu pela amistosa “Copa Hispanidad”. Mas em dezembro a taça acabou perdida já na prorrogação em jogo único contra um San Lorenzo que vivia seus anos dourados.

    Em 1973, veio novo vice no Torneio Nacional, para o Rosario Central, e dois jogos não-oficiais de López pela Argentina, pela chamada “seleção fantasma” (5-1 no Sarmiento de Junín em 29 de julho e derrota de 2-1 para o Huracán de Corrientes em 13 de setembro). O treinador era Omar Sívori, que topou o trabalho apenas até o fim das eliminatórias – foi sucedido então por um desorganizado triunvirato de Víctor Rodríguez, Vladislao Cap e José Varacka que terminou por alterar o time-base e esquecer López (que admitiu ser um fominha em seus primeiros anos até compreender que era mais “útil tocando rápido”, se estabilizando apenas em 1975) da convocação à Copa do Mundo. Até porque em 1974 o River teve mesmo um ano mais apático, enquanto o país se encantava com a quarta colocação da surpresa Talleres no Torneio Nacional. O técnico tallarin era Labruna, logo requisitado para voltar a Núñez.

    Àquela altura, López já residia em Buenos Aires, diante do desejo materno em não voltar mais a Guernica após a perda do patriarca (e o volante viraria pai da própria mãe a ponto de só casar-se aos 47 anos…). E voltou à seleção em novembro, para novo triunfo de 2-0 em Santiago sobre o Chile pela Copa Carlos Dittborn, inclusive marcando um gol, e um 4-2 não-oficial em jogo-treino contra o Lanús. Sua venda junto da de Merlo ao Independiente multicampeão da Libertadores era falada, mas o negócio aparentemente vantajoso não era desejado pelo craque – que foi falar pessoalmente com Labruna. No fim, o troca-troca entre os clubes se resumiu ao goleiro José Pérez pelo volante Miguel Ángel Raimondo, que roubaria a titularidade apenas de Merlo na maior parte do redentor Torneio Metropolitano de 1975: “o River de 1975 não se pode comparar com nada pela pressão com que jogávamos. Houve histórias de bruxarias, psicólogos, de tudo. Essa pressão ninguém nunca teve na história. Os dos outros clubes te chamavam de galinha, então nos agarrávamos a socos em todos os lados. O importante era brigar”.

    Ironicamente, se Jota Jota e outros protagonistas tiveram suas primeiras chances graças à greve das estrelas em 1971, em 1975 a greve que estourou já os envolveu a ponto de o aguardado desjejum de dezoito anos se sacramentar exatamente na rodada em que o River usou juvenis: “assim de esquentado escutei a partida pelo rádio e fui dormir. Por isso, desfrutei mais o Nacional que o Metro”. O fim da seca, de fato, veio em dose dupla: meses depois, o River ergueu também o Nacional de 1975, com direito a gol do título no minuto final. El Negro contribuiu com oito gols entre as duas campanhas e, em um ano marcado pelos testes de jogadores do interior na seleção pelo novo técnico César Menotti, voltou à Albiceleste para dois jogos não-oficiais em fevereiro de 1976: 3-0 no Kimberley de Mar del Plata, com ele abrindo o placar em seu único gol pela Argentina, e 3-1 no Excursionistas de Tandil.

    Injustiçado na seleção (só duas partidas oficiais e um punhado de jogos-treino), López seguiu intocável como um dos Três Mosqueteiros do meio-campo do River (Alonso, Merlo e ele) pelo menos até 1980

    O River seguiria o ano avançando rumo às finais da Libertadores. López inclusive marcou o único gol do triunfo dentro de Avellaneda contra o multicampeão Independiente, a forçar um jogo-extra pela vaga na decisão contra o Cruzeiro – na qual também marcaria o primeiro gol argentino na vitória de 2-1 no segundo jogo, embora também terminasse expulso nessa partida, sendo um dos sentidos desfalques da finalíssima. Menotti não teria sido compreensivo com um pedido de dispensa para enfoque no torneio e abdicou de um jogador que já era ídolo nacional. Para o azar de Jota Jota, pintaram para sua posição nomes com Osvaldo Ardiles e também Omar Larrosa, que acabaram indo à Copa do Mundo de 1978 – mesmo que sob muitas cornetas de público e mídia até o título revisionar-lhes a imagem. Na entrevista, López reconheceu que um de seus erros foi não ter buscado uma nova conversa com Menotti a tempo. “O que digo é que eu nunca renunciei à seleção”, jurou. O passo pela seleção se resumiria a apenas dois jogos oficiais.

    Ainda em 1976, veio um desgosto que para o volante superou o vice na Libertadores: a perda do Torneio Nacional, na única final que Boca e River travaram na história até o movimentado 2018. Especialmente porque López quase foi o herói, quando um toque sutil de fora da área esteve a ponto de encobrir o goleiro Hugo Gatti – que qualificaria mesmo o salto que impediu o golaço como sua maior defesa. “Como sabia que Gatti se adiantava, chutei desde o meio-campo. Ia no ângulo, mas a tirou. Depois, como colegas no Boca, me comentou: ‘foi a vez que mais me doeu o corpo quando saltei’. ‘Se nunca saltavas, idiota’, lhe disse. ‘O que querias? Era uma final’”. O River ainda cairia para o Boca na fase de grupos da Libertadores de 1977, onde só o líder avançava. Para piorar, nela o rival seria, pela primeira vez, campeão.

    Núñez não tardou a se recuperar, vencendo um torneio nivelado por alto como foi o Metropolitano de 1977 (a liderança isolada só viria já na 27ª rodada, havendo gostinho de revanche ao virar sobre o Boca na Bombonera no finzinho da penúltima para pôr uma mão na taça) e acabando por ser a base da seleção que venceria a Copa do Mundo mesmo disputando o Nacional de 1977 sob excessivo relaxamento pós-taça. Jota Jota inclusive marcou ótimos treze gols ao longo daquele ano, mas não foi o suficiente para aparecer sequer na pré-convocação e a coroação de Menotti e seus protegidos manteve o astro de vez afastado da Albiceleste. Ironicamente, em 1978 o River terminaria o ano a ver navios: muito desfalcado, esteve longe da briga pelo Metropolitano. Na Libertadores, até chegou ao triangular-semifinal, com López marcando inclusive o gol do duelo contra o Atlético Mineiro no Monumental. Mas outra vez o Boca apareceu no caminho para prevalecer, rumando ao bicampeonato.

    Com os campeões mundiais de volta aos titulares, o River avançou à final do Torneio Nacional, mas levou a pior contra o Independiente. O ano de 1979, ao contrário, foi glorioso desde a primeira rodada, um 5-2 no Huracán. Tal como em 1975, o River venceu tanto o Torneio Metropolitano (com troco nas semifinais sobre o Independiente, batido nos dois jogos, antes de passar por cima do Vélez com um 5-1 na decisão) como o Nacional. Além de voltar a marcar no Superclásico (1-1, em La Bombonera), El Negro notabilizou-se especialmente nas quartas do Nacional, marcando o único gol no jogo de volta contra o Vélez, forçando a decisão por pênaltis. Nas semis, o time impôs um 7-1 agregado no Rosario Central. Foram ao todo dez gols de López entre as campanhas, mas a história que mais gosta de contar é de uma das inúmeras superstições de Labruna, antes da final:

    Capas da El Gráfico de novembro de 1981 e março de 1983 registrando seu último Superclássico pelo River e seu primeiro pelo Boca. Até marcou um golaço do meio-campo naquele dia contra Maradona e venceu o dia em que foi colega de Ricardo Gareca (outro vira-casaca dos mais polêmicos do dérbi)

    “Vínhamos no ônibus, El Pato [Fillol] me trouxe uma gravata, me disse que era de outro, e eu a joguei pela janela. Quando chegamos em Paraná, Ángel começou a gritar ‘a gravata, filhos da puta, não me façam essas brincadeiras com a gravata, que sabem o que significa para mim’. A bagunça que armou! Eu me lembrava de que a havia jogado assim que saímos do túnel, então fomos com El Beto [Alonso] de táxi e a encontramos”. O bicampeonato contra a surpresa Unión viraria um tri no Metropolitano de 1980, garantido com rodadas de antecedência (9 pontos de vantagem em tempos onde vitórias valiam 2 e não 3, com um 5-2 sobre o Boca na Bombonera incluso) para apaziguar uma eliminação ainda na fase de grupos na Libertadores. Em 1981, o Millo voltou a cair na fase de grupos, mas não pôde se socorrer no desempenho caseiro; caíra no Nacional de 1980 ainda no primeiro mata-mata e esteve longe de acompanhar o ritmo do Boca maradoniano no Metropolitano de 1981.

    A própria torcida, esvaziando o Monumental, se punha contra os dinossauros, a começar por Labruna, demitido sem cerimônias e reposto por Di Stéfano. Em uma campanha ainda acidentada, o River se recuperou vencendo ainda em 1981 o Torneio Nacional, com López conseguindo fazer o golaço de quarenta metros no Boca que não pudera em 1976 – seu gol favorito segundo aquela entrevista, em um empate em 2-2. Mas El Negro, malquisto pela presidência, terminaria sendo outro expulso de Núñez pelos fundos, recebendo passe livre. Foram só sete partidas em vinte da campanha a quem antes buscava jogar mesmo sob infiltrações. Reforços para aquele campeonato, Américo Gallego, Julio Olarticoechea e Enzo Bulleri já tomavam mais a conta de meia cancha riverplatense. Alonso iria ao Vélez e só Merlo seguiria. O parceiro lhe teria dito ao ficar sabendo dessas saídas: “Negro, o que faço agora? Te juro que não deixo entrar ninguém no quarto da concentração. Não vou permitir que ninguém use tua cama”, em outro registro do livro do centenário millonario

    Um veterano de qualidade em camisas rivais e no nanico campeão da América

    O Talleres, que já havia aberto as portas para Labruna, virou refúgio para outras antigas caras millonarias, a exemplo dos atacantes Carlos Morete, José Reinaldi, Pedro Coudannes, Pedro González, Juan Carlos Heredia e do defensor Héctor Ártico. Labruna inclusive motivou a todos antes de um duelo contra o Boca de que aquilo seria praticamente um Superclásico: Morete marcou três e López, outro, em um recordado 4-0 sobre o velho arquirrival no Torneio Nacional de 1982 (além do Boca, o Racing também levou de 4-0, destacando-se ainda o 8-2 sobre o Mariano Moreno), onde La T só parou nas semifinais, mesmo desfalcado em todo o torneio de três craques concentrados com a seleção para a Copa do Mundo – o goleiro Héctor Baley, o zagueiro Luis Galván e o armador José Daniel Valencia. “Graças a Ángel, encontrei o afeto que precisava em um momento muito ruim, depois de me expulsarem do River”, admitiu.

    O astro deixou mesmo uma boa recordação como jogador tallarin, descrita pelo longevo jornal cordobês La Voz del Interior como a de “um volante técnico como poucos e de uma inteligência superior”, capaz de registrar ainda bons oito gols em 38 jogos. Labruna seguiria ao Argentinos Jrs e Jota Jota inicialmente buscou segui-lo, mas não se deu. O destino seria justamente o Boca, que na mesma janela contratou outros três ex-colegas de River: o goleiro Carlos Barisio, o defensor Pablo Comelles e o meia Osvaldo Pérez. Naquela entrevista, López não se dizia arrependido. “O destino te leva a tomar decisões. E eu vinha muito golpeado. Quando fechei o negócio com o Boca, veio [o treinador Roberto] Saporiti me buscar para o Loma Negra: me davam o dobro do Boca e em mãos, mas era tarde. Eu sempre disse que era River. Me lembro que El Abuelo [chefão da torcida La 12 na época] me falou: ‘Negro, te bancamos até a morte porque falaste na cara’”.

    No Talleres semifinalista de 1982, repleto de antiga gente do River (Héctor Ártico, Victorio Ocaño, César Mendoza, Miguel Oviedo, Oscar Cámara, Rafael Pavón; Pedro González, Juan José López, Carlos Morete, Pedro Coudannes, José Reinaldi), e no Argentinos Jrs campeão da Libertadores de 1985

    O Boca de 1983 até começou bem. O Torneio Nacional, agora realizado no primeiro semestre, viu o time chegar aos mata-matas e perder com drama a vaga nas quartas-de-final: vencia por 2-0 o Argentinos Jrs de Labruna até os dez minutos finais, quando sofreu o empate e levou a pior nos pênaltis. No Torneio Metropolitano, os xeneizes já foram mais inconsistentes e ainda foram punidos de usarem La Bombonera por diversos jogos após um rojão da casa atingir acidentalmente e matar o torcedor racinguista Roberto Basile. Jota Jota e colegas até saborearam triunfos nos dois Superclásicos, mas a pobre campanha, seja sob o comando do demitido Carmelo Faraone ou do sucessor Miguel Ángel López, fez o ano ser mais lembrado pela primeira camisa patrocinada do Boca, estampando os Vinos Maravilla, do que por uma maravilha de verdade – além do sétimo lugar já ser medíocre, o time teve a pior defesa do Metro, o que foi compensado pelo ataque tão bem municiado pelo reforço.

    O site estatístico HistoriaDeBoca recorda que foram no geral 44 jogos e sete gols de López pelo Boca, onde mostrou-se “estrategista, hábil, inteligente, armador de jogadas” e foi “respeitado pelos torcedores apesar de seu passado no River”, mostrando “bom nível”, aportando “toda sua experiência”. Ante o caos institucional que deixaria o Boca a um triz da própria extinção em 1984 (na rodada final, já foi preciso o uso de juvenis por uma greve dos titulares), o volante enfim cavou a transferência ao Argentinos na virada de ano, embora o mestre Labruna já houvesse falecido ainda em 1983. Foi ao clube do bairro de La Paternal já como uma opção válida de banco, mas não deixou de fazer história: exatamente em 1984, o Bicho ganhou seu primeiro campeonato argentino, faturando o Metropolitano.

    López esteve em 14 das 36 partidas da campanha histórica, com um gol – justamente sobre o River, em derrota de 2-1 no Monumental. “Ganhou o trabalho de todos. Me fez lembrar o River de 1975, quando arrancamos com Labruna e nos metemos todos na mesma coisa. Esse Argentinos teve a combinação justa: garotos jovens e um grupo de rapazes já experientes para respalda-los. Por isso, embora não tenha entrado, sou o cara mais feliz do mundo”, exaltou na época o jogador mais veterano do elenco. Iluminado, o Argentinos emendaria o bicampeonato com o Torneio Nacional de 1985, onde López apareceu sobretudo com dois gols em triunfo dentro de Córdoba por 4-2 sobre um forte Belgrano. Também foi certeiro nas duas decisões por pênaltis necessárias nas finais contra o Vélez.

    Já classificado à Libertadores de 1985 como campeão em 1984, o clube não fez por menos, faturando-a também um mês depois da volta olímpica caseira e a uma semana do aniversário de 35 anos do ilustre reserva, que já começava a se incomodar em ser usado só nos nos últimos minutos (nas três finais, só foi acionado aos 43 do segundo tempo da segunda delas): “uma vez, contra o Vasco [na fase de grupos daquela Libertadores], me fez entrar no final. Os bancos de reservas estão atrás dos gols. Quando cheguei ao meio-campo, o jogo terminou. Queria mata-lo”, confessou na entrevista de 2004 sobre o técnico José Yudica. No Mundial Interclubes, contra a Juventus, Jota Jota foi acionado no antepenúltimo minuto da prorrogação apenas para se habilitar à decisão por pênaltis. “Três graus abaixo de zero e chuvinha, a água nos chegava acima dos tornozelos. Tinha os pés congelados. Entrei e fiz, mas nunca me inteirei que havia chutado a bola. Não a senti”, relatou. .

    Após ser vira-casaca por Boca e River, López pendurou as chuteiras no rival do Talleres, o Belgrano campeão do interior em 1986: Ariel Ghielmetti, Juan Reyna, Alejandro Chiera, Sergio Céliz, Juan José López (ao lado, na festa dos trinta anos, em 2016) e Juan Ramos; José Villarreal, Ariel Ramonda, Abel Blasón, Edgardo Parmiggiani e Jorge Vázquez

    Apesar da conversão, seus colegas falharam mais que os da Juventus e o Argentinos perdeu um troféu que parecia seu até os sete minutos finais do tempo normal. Para 1986, ele foi buscar mais minutos em um retorno a Córdoba, agora para defender o Belgrano. Por não fazer tanto sucesso no Torneio Nacional, La B era o único gigante cordobês ausente da liga argentina, que já abrigava o Talleres e até os vizinhos Instituto e Racing de Córdoba. Com o fim do Torneio Nacional, a AFA nacionalizaria o antigo Metropolitano, mas a partir de sua segunda divisão, promovendo no primeiro semestre de 1986 um torneio entre clubes do interior para definir os qualificados à Primera B da temporada 1986-87. O Belgrano fez disso uma limonada e foi o campeão, batendo em 20 de abril o Olimpo de Bahía Blanca na decisão para se orgulhar de ser oficialmente o único time da província campeão de um torneio da AFA – especialmente porque Talleres (1977) e Racing (1980) foram no máximo vice-campeões do antigo Nacional.

    O Torneio do Interior, que faria até Maradona vestir a camisa belgranense em jogo festivo logo após a Copa do Mundo, ainda qualificava os celestes à liguilla pre-Libertadores de 1986-87, foi a glória final a uma carreira de jogador vitoriosa, ainda estendida um pouco para a disputa da segundona de 1986-87 – e embora nela o mesmo jornal cordobês La Voz del Interiorrecordasse que a participação de Jota Jota ficaria mais frequente no banco de Julio Villagra e José Villarreal (depois jogador de seleção por Boca e River), também destacou que a impressão que ficara do volante foi a de alguém de 36 anos “com talento intacto” como “peça-chave” naquele título invicto. Os colegas triscaram o acesso, mas perderam a segunda vaga à elite em uma decisão com o Banfield e, sem embalo, cairiam na liguilla logo no primeiro duelo, contra o Newell’s, a encerrar uma invencibilidade de 40 jogos.

    Ao todo, foram 54 jogos e quatro gols do Negro pelo time do bairro cordobês de Alberdi. Ele ainda despendurou as chuteiras em 1989, na segunda edição da Copa Pelé, embora a Argentina passasse longe de repetir o título de 1987.

    Como treinador, um homem de história(s) por toda Córdoba

    López sequer se via como técnico e até negou oferta de Maradona (de quem viraria amigo por serem empresariados pelo mesmo agente) em fazer um curso na Itália em 1987. Mas na volta dessa viagem, já refletia. “Por sorte, me convenceram”, confessou. Um primeiro trabalho se deu em Mendoza, no Independiente Rivadavia. E o primeiro clube de relativo holofote foi o Racing de Córdoba em 1990, pouco após o time do bairro cordobês de Nueva Italia ser rebaixado da primeira divisão. Ainda verde, Jota Jota não o desatolou de lá e seguiu alguns anos como auxiliar de alguém mais rodado na segunda maior cidade argentina, Pedro Marchetta. Trabalhou com ele nas comissões técnicas do Rosario Central entre 1994 e 1995, na do Racing de Avellaneda em 1995 e na do Belgrano em 1996, ocasionalmente figurando em algumas súmulas como técnico interino nesses dois últimos clubes.

    Ele retomou a carreira solo de técnico em seu quarto clube cordobês, o Instituto (tradicional rival do Racing de Nueva Italia, aliás), em 1998. Indagado naquela entrevista à El Gráfico sobre como fazia para sobreviver em Córdoba, foi honesto: “nunca tive uma identificação muito grande com nenhum. O romantismo pelo futebol eu tenho, porque eu amo o futebol. O que não tenho é a paixão do torcedor pela camisa. E jamais me gritaram de mercenário”. Fez um grande trabalho na metade inicial da temporada 1998-99 da segundona, colocando o Instituto na liderança, mas dívidas salariais fizeram com que deixasse abruptamente os alvirrubros – que terminaram mesmo campeões, embora Ernesto Corti já fosse o técnico da equipe armada pelo antecessor. López rumou a Santa Fe para trabalhar no Unión (figurando também, em dupla com Merlo, como técnico de uma das escalações festivas do jogo de times veteranos promovidos pelo River na festa do “campeão do século”, em dezembro), mas foi prontamente resgatado pelos cartolas de La Gloria em 2000.

    Em dois ciclos no Instituto de Córdoba, López (que já havia treinado o rival Racing) tanto bancou um acesso à elite, em 1999, como abandonou o barco em 2000 para ir a outro rival. O trabalho excelente nos números frios deixou amor e ódio entre os alvirrubros

    Pudera: os 15 jogos de invencibilidade contínua sob o comando dele em 1998 foram a maior sequência invicta do clube em qualquer divisão argentina no século XX. De modo promissor, em janeiro de 2000 El Negro comandou um 5-1 dentro do Uruguai em amistoso contra o Nacional, na única partida que o Instituto realizou no exterior em toda a história. E a salvação ao time do bairro de Alta Córdoba parecia vir, com direito a um triunfo ressonante, já em 11 de junho, de um mentiroso 2-0 no último clássico com o Belgrano válido pela elite argentina – ainda que López festejasse de modo contido por ter batido o clube então treinado pelo amigo Reinaldo Merlo. Em campo, a queda até teria sido evitada, mas uma perda de pontos após um torcedor atingir o árbitro com serpentina jogaria o Instituto (que, é verdade, não fez o dever de casa contra o Vélez na penúltima rodada e nem ganhou do já rebaixado Gimnasia de Jujuy na última) para a repescagem. O que a torcida não perdoou no treinador, contudo, foi outra coisa.

    Em plena luta contra a queda, ele começou a negociar com o rival Talleres. Seria Arsenio Benítez o técnico alvirrubro nas tumultuadas repescagens com o Almagro, que acabaria prevalecendo em meio à fúria vândala dos rebaixados por Córdoba. López segue visto como traidor para parte da hinchada institutuense ainda que haja entre os ex-comandados no Instituto quem o colocasse como treinador do time alvirrubro dos sonhos, e algo parecido também viria a se dar no Talleres, onde o ícone Julián Maidana só colocou à frente de Jota Jota o treinador vencedor da Copa Conmebol de 1999, Ricardo Gareca. Sem falsa modéstia, López destacaria nesse 2020 que a participação na Conmebol de 1999 só ocorrera mediante convite, tendo sido ele o único treinador a realmente classificar La T a torneios continentais.

    No Apertura da temporada 2000-01, o Talleres lutou pelo título até a rodada final, em corrida contra a dupla principal do país. Não que a campanha rendesse mares de rosas: López brigara contra a imprensa cordobesa, explicando à El Gráfico em 2004 que “creio que tinham que ter apoiado mais a equipe que brigou mano a mano o torneio com River e Boca como Robin Hood”. A derrota na rodada final derrubou o clube do bairro Jardín para o quarto lugar, mas foi suficiente para classifica-lo pela primeira vez à Libertadores, já para a edição 2002, e também para a Copa Mercosul que ocorreu ainda em 2001. Mas ele deixaria o time bem antes dos dois torneios. Recusando o San Lorenzo no início de 2001 para cumprir o contrato com os cordobeses, não o viu ser renovado por desacerto salarial. Jota Jota seguiria como técnico do Rosario Central, caindo ainda em 2001: “acreditava que lograria armar um projeto sério, mas não houve apoio dos diretores. Não nos davam as coisas básicas e tive que sair após 13 jogos”, resumiu à El Gráfico.

    Os rosarinos, que já vinham de um último lugar no Clausura 2001, ficaram só em 16º de 20 times no Apertura 2001. Mas o Unión, com promedios ainda mais complicados, voltou a apostar em López para a temporada 2002-03. O Tatengue acabou caindo mesmo. López procurou contextualizar: “agarramos o Unión na metade do rio. Eu confiei naquele plantel do Unión, mas não nos esqueçamos que estivemos 26 dias sem treinar pela inundação. Havia familiares dos jogadores que viviam nos tetos das casas e jogadores isolados que não podiam vir. Se renunciasse duas rodadas antes do final, não comia o rebaixamento, mas como sou respeitoso com compromissos, não o fiz. Tem que respaldar o jogador nas boas e nas ruins, e se saísse antes os estaria traindo”. Enquanto isso, o Talleres, focando excessivamente nos torneios internacionais de 2001 e 2002, se desleixou demais na liga argentina e também começou a se afundar nos promedios.

    No Talleres, lutou duas vezes pelo título argentino e levou o time à Copa Mercosul 2001, à Libertadores 2002 e (em campo) à Sul-Americana 2004. Só o promedio dos antecessores pôde rebaixa-lo injustamente ao mesmo tempo, em 2004

    Já com uma imagem de técnico bombeiro contra quedas (“são as possibilidades que me vieram, não é que descartei outras”), López foi recontratado por La T em 2004. E voltou a fazer um grande trabalho por lá. No Clausura da temporada 2003-04, começou as sete primeiras rodadas com seis vitórias e um empate. Novamente, o bairro Jardín brigou contra Boca e River pelo título, embora ao fim da antepenúltima rodada só a dupla pesada seguisse com chances. A grande campanha teria novamente classificado os tallarines a um torneio continental, para a Sul-Americana a ocorrer no segundo semestre de 2004. O problema é que até aquele Clausura o promedio era baixíssimo. A queda direta pôde ser evitada, mas não a necessidade de encarar a repescagem, contra o Argentinos Jrs. O regulamento argentino tirou essa vaga sul-americana e, na repescagem, deu Argentinos.

    Em 2020, López ainda vociferava contra os cartolas alviazuis: “a situação ficou tensa porque estávamos perto de cumprir o objetivo, sentíamos que podíamos ganhar do Argentinos, mas a diretoria não nos respaldou e o plantel se sentiu abandonado. Tivemos muitos problemas na prévia do jogo com o Argentinos, havia problemas com o presidente, os garotos queriam receber. Os dirigentes me complicaram a tranquilidade do grupo”. Na época, El Negro até caiu para cima: trabalhou na Libertadores de 2005 como técnico do Libertad. Mas a equipe paraguaia seria lanterna de seu grupo e o argentino fritou-se ainda mais com o medíocre sétimo lugar no Apertura, não durando até a segunda rodada do Clausura.

    Ainda em 2004, ele já se resignava para a El Gráfico que era descrente de que um dia trabalharia no River: “que digam que não tenho condições de treinar o River, posso aceitar, mas que digam que não posso porque pus a camisa do Boca seria subestimar a inteligência do torcedor do River”. De fato, após o papelão no Libertad Jota Jota teve quase meia década sabática, forçada ou não. Até que em dezembro de 2009 acertou-se a tardia reconciliação: o ex-colega Passarella, na presidência millonaria, convidou-o para treinar o time sub-20. O resto é a história conhecida: o antigo ídolo assumiu interinamente a equipe principal após a demissão de Ángel Cappa no fim do Apertura 2010. E o filme de 2004 se repetiu. Embora parecesse inédito ao restante do mundo, na parte mais conhecida da vida de López.

    O Millo, em campo, teria até vaga na Sul-Americana de 2011, com o trabalho de López no Clausura 2011 dando até ilusões de luta pelo título antes da reta final. Mas os promedios ruins herdados dos antecessores forçou outra vez uma repescagem no caminho. E nela o Belgrano não teria piedade do caos institucional espalhado por Núñez (amargura e passado rival que não impediram que López estivesse nas comemorações celestes de 30 anos da conquista de 1986, em 2016). A inescapável mancha pesou até nos clubes seguintes que sondaram Juan José López: uma sondagem pelo quinto grande cordobês, o General Paz Juniors, até foi feita em 2012, mas sem acordo com um time de quarta divisão. Os trabalhos seguintes se resumiram a cenários de pouco relevo por San Martín de Tucumán em 2014 e Juventud Antoniana de Salta em 2016, ambos na terceirona. Uma pena.

    Em 2017, esse personagem foi eleito pelo Futebol Portenho como o quinto em um ranking dos corajosos que melhor êxito tiveram trabalhando em times rivais no futebol argentino.

    A injusta imagem mais conhecida de Juan José López no exterior: quando seu River caiu contra o Belgrano, em 2011, mesmo com campanha de classificação à Sul-Americana. Outra vez, o péssimo promedio herdado dos antecessores atrapalhou
  • José Luis Calderón: o artilheiro vermelho do Independiente

    José Luis Calderón: o artilheiro vermelho do Independiente

    José Luis Calderón foi artilheiro no Independiente e campeão nacional ou continental por Estudiantes, Arsenal e Argentinos Juniors.

    No Independiente, artilheiro da liga argentina. No Estudiantes, no Arsenal e no Argentinos Jrs, campeão nacional e/ou continental. E ainda faltou o Cambaceres na montagem vermelha…

    Só um jogador rivaliza minimamente com Juan Sebastián Verón como filho pródigo do Estudiantes. É seu ex-colega José Luis Calderón, companheiro de La Brujita tanto no rebaixamento em 1994 e no imediato título de 1995 na segunda divisão como também no desjejum nacional em 2006 e na Libertadores de 2009, capítulos que se espalharam por inúmeras passagens pelo Pincha. Caldera foi “um atacante temível, oportunista, bem posicionado, certeiro, frio para definir”, nas palavras do livro Quién es Quién en la Selección Argentina. Ou, segundo ele mesmo, “um cara que sempre conseguiu o que quis através de trabalho e sacrifício. Um cara que antes era cara-de-pau e agora, tímido. Um cara frontal, reto, com os códigos que muitos perderam”. Um goleador vermelho, seja do nanico Cambaceres ao gigante Independiente, com títulos por Arsenal e Argentinos Jrs, fez ontem 50 anos.

    Caldera nasceu na Favela de La Plata. Literalmente: a zona se chama “La Favela” mesmo, exatamente em referência à palavra brasileira, que na gíria argentina é traduzida como villa. “Hoje ela é como San Isidro, Palermo [respectivamente uma cidade de classe alta na Grande Buenos Aires e um dos bairros grã-fino da capital], na época não entrava nem a polícia, estavam todos armados”, descreveu em entrevista de 2006 à El Gráfico de onde tiraremos a maior parte das aspas dessa nota. Criou-se em uma casa sem lajotas que se resumia a um único quarto “dividido por cortinas. Se meu pai soubesse que a 20 quadras estavam asfaltando, me dizia: ‘Jose, pegue o balde e traga brita’. E depois tapava os buracos do teto. Chovia mais dentro do que fora de casa, ela era um coador. Por sorte o teto nunca nos desabou, meu velho dava muita importância a isso, não sei o que colocava, mas não voava nunca”. O banheiro era “a 30 metros, era um poço. Te sentavas e com um vaso de atiravam água, te ensaboavas e com a mesma água te enxugavas. Água fria. Na favela que vivi até os 11 anos e depois melhorei, aos conjuntos habitacionais até os 20 e poucos”.

    Ele via valia na infância dura. As peladas eram “à morte: jogavas por grana torneios-relâmpagos de oito da manhã à oito da noite no verão. Jogas, tomas uma cerveja, segues jogando, às vezes te pagam o apostado, outras tens que brigar. Eu não era de brigar habitualmente, mas me encheram a cara de dedos mil vezes”. Não titubeou em classificar os jogos de várzea na favela como mais duros que na primeira divisão argentina: “na primeira cuidam mais de ti”. Inclusive porque na várzea ele jogava descalço “com pedrinhas, vidros, de tudo, e nunca me cortei. E se me cortava, nem me dava conta. Tinha um par de sapatos, mas eram para ir à escola”. E os nutrientes muitas vezes vinham do “famoso pão duro que tinhas que deixar vários minutos no chá cozido, esse foi meu jantar muitas noites. Houve dias em que estávamos com minha irmã e perguntava a meus pais: ‘não comem?’. Ele me dizia: ‘depois, agora comam vocês’. Diziam porque não havia. E comiam o que sobrava”. Experiência que faria Caldera, uma vez com a vida feita, promover entregas de cestas básicas aos mendigos de La Plata, sem buscar alarde midiático (“sempre digo que se alguém faz de boa fé, não tem que andar contando. Mas se me perguntam, confirmo”).

    Em um contexto desse, não faltaram tentações ruins ao atacante. Mas as próprias más companhias em potencial lhe protegiam: “me aconteceu muitas vezes de dizer: ‘vão sair? Vou com vocês’. E eles me respondiam: ‘não venhas porque vamos fazer isto e isto, e nós estamos sujos’. Isso é falar na cara. O verdadeiro amigo é o que te diz a verdade, o que não quer te envolver. Lamentavelmente, o ambiente do futebol te leva a ser mentiroso, hipócrita, malandro, falso”. Outra barreira ao mal caminho era feita em casa. Aparentemente, a busca por brita nas obras públicas de asfalto era a única exceção admitida pelo pai: “meu velho em deixou claro desde garoto: ‘se você me trouxer um doce roubado, te corto os dedos e te levo à delegacia”. O desgosto que Calderón daria ao pai iria por outro lado: “minha mãe, eu e minhas irmãs somos Estudiantes. E meu pai era Gimnasia. Mas fanático, doente pelo Lobo. Me levava para ver o Gimnasia nos sábados e com meu padrinho ia nos domingos ver o Estudiantes. E me fiz Pincha. Teve que suportar”.

    O primeiro clube vermelho da carreira adulta de Calderón foi o Defensores de Cambaceres, onde venceu a quarta divisão argentina. Na imagem, contra o Dock Sud, contra quem sua carreira quase foi abreviada…

    Calderón entrou mesmo nas escolinhas do Estudiantes ainda aos 5 anos, mas depois de alguns anos terminou dispensado “não porque jogava mal, e sim porque era baixinho. Há garotos que crescem antes dos outros e eu não era um desses. Foi um chute nos testículos. Meu velho me disse: ‘agora tens que trabalhar, venda fruta comigo ou busque um emprego, porque as coisas não estão bem’. Quinze dias depois um amigo meu me disse: ‘vou deixar de trabalhar na padaria da esquina da 9 com 41 [La Plata surgiu como cidade planejada, tendo as ruas nomeadas com numerais], se queres se apresente na segunda-feira’. Fui e comecei no mesmo dia”. Calderón ficou na rotina de preparar pães e doces na vitrine no início do turno e seguir como entregador a bares e cafés quando um freguês referido como Pochi Mendoza lhe convidou a testes no clube onde treinava – o Defensores de Cambaceres, da cidade vizinha de Ensenada.

    O atacante seria sempre grato ao Cambaceres como um refúgio seguro (“ao invés de ficar jogando no bairro, ia ao Camba. E cada vez que ia, rendia”, mesmo que no clube só houvesse dois chuveiros, ambos de água fria, para 28 jogadores, conforme ele brincou em 2004) quando se decepcionava com a dupla platense. Isto porque, para a alegria do pai, ele chegou a ser admitido nos juvenis do Gimnasia: “me assistiram [Ricardo] Rezza e [Higinio] Restelli, que eram técnicos do Gimnasia, e lhes agradei. Me inscreveram. Meu velho estava enlouquecido”, começou. E até admitiu: “é difícil explicar, minha simpatia pelo Estudiantes não perderei nunca, mas o clássico eu ia querer ganhar e com gols meus. É como uma contradição, por isso digo que este é um dos tantos sonhos cumpridos que tive: jogar no clube que torço e onde entrei aos 5 anos”. Isto porque ele terminou dispensado dos alviazuis também, escutando um “não venhas mais, Cambaceres é filial do Estudiantes e não queremos ninguém que venha dali”.

    Com o tempo, Caldera seria grato pela dispensa, mas na época ela não deixou de ser “uma paulada na cabeça”. Chegou a pensar que não servia para o futebol, mas voltou ao Cambaceres. Clube que seria útil não só para lança-lo ao futebol adulto, mas também para desenvolver mesmo involuntariamente o excepcional condicionamento físico que Calderón exibia já parto dos 40 anos: “quando jovem, trabalhava no centro de La Plata numa padaria, dali ia de bicicleta por dez quilômetros até Ensenada para treinar no Cambaceres, e voltava também de bicicleta. Fiz isso diariamente por três anos. Ou seja: 20 quilômetros por dia, 60 por semana, faça a conta você… sim, havia dias que pensava: tenho que decidir, o trabalho ou o futebol, queria jogar tudo pela janela”. O entrevistador até brincou, comentando que “com essa base, um treino te deve fazer cócegas”. Calderón assentiu: sempre que tinhas pensamentos ruins de um exercício mais exigente ou mesmo de uma carne mal passada, buscava lembrar do passado duro.

    Ainda haveria mais entraves para que ele triunfasse. A própria quarta divisão, onde estava o Cambaceres, seria uma. Nela “jogas mais por amor à camisa: terminas a partida, subias no ônibus e tinhas o sanduíche com o refrigerante e nada mais. Quando comecei a meter gols no Cambaceres, o presidente me disse: ‘pare de trabalhar e eu te pago o soldo que ganhas na padaria, assim te dedicas a isto’. Foi o único salário que recebi. A bola pica para qualquer lado, há um só juiz, sem assistentes, sem câmeras, com dois policiais, se te dão um soco ninguém vê. Todas as cicatrizes que tive foram na série C e na B, e todos por socos”. Orientado pelo próprio técnico na estreia a evitar invadir a área adversária, comentou até que “no primeiro escanteio, fiquei de fora da área e senti o ruído do soco que deram em alguém. Tremendo. O [campo] do Lugano é brava, está num poço atrás da favela. No Argentino de Quilmes, jogando na quinta, houve uma falta que o juiz não cobrou, saltou um, outro, um padre, a polícia, terminamos todos aos socos”.

    Os títulos com Verón: segunda divisão de 1995 (é possível notar Martín Palermo atrás de Verón), Apertura 2006 e Libertadores 2009, quando já pareciam distanciados

    Outro problema foi um joelho estourado, ainda em 1989. E do qual ele preferiu não se operar. “O zagueiro do Dock Sud veio com tudo e me causou distensão de ligamento externo, deslocamento do ligamento cruzado, ruptura dos meniscos e torção no tornozelo, tudo de uma vez. O médico do Cambaceres queria me operar, e eu não queria saber. Imagine: me operar com um médico de terceira divisão, ia ficar com uma perna mais curta do que a outra”. Consultando outro médico, que confirmou que a lesão poderia ser tratada sem cirurgia, dedicou-se então por meses a um ritual que envolveu um mês sem pisar a perna lesionada e apenas movê-la engessada aos lados. “Um mês e pouco depois, com saco de areia: 20 dias fazendo o mesmo. Depois, precisei de uma piscina”. Foram três meses alternando a fisioterapia com musculação até voltar a jogar e perder o medo quando não sentiu problemas no joelho em uma primeira dividida.

    O Camba venceu a quarta divisão de 1990-91 e teve uma segura oitava colocação na terceirona de 1991-92, na qual Caldera foi até o artilheiro do torneio (20 gols). Campanha acompanhada por Daniel Romeo e José Luis Brown (autor do primeiro gol argentino na final da Copa de 1986), que eram técnicos do Estudiantes e convidaram Calderón a voltar – “não podia acreditar…”, suspirou quem enfim defenderia o time do coração na primeira divisão. “Quando acabava de começar, Sergio Vázquez [então jogador da seleção, iria à Copa de 1994] quis me assustar: ‘bebê, pare de correr que te quebro a pata’. Era comum que alguém de experiência falasse assim com um garoto. ‘Mais pancadas que me deram na quarta divisão, não acredito que me deem’, retruquei. E pronto. Hoje fazem mais por cena do que por outra coisa, porque sabem que ante um mínimo encontrão a câmera já te enfoca e vão ver qual dois dois é mais fodão. Quando te expulsam, vai cada um a seu vestiário, se cumprimentam e não passada nada. Pura cena”, comparou.

    Não eram os melhores tempos do Estudiantes, contudo. Os alvirrubros vinham de dois 17º lugares em cada turno da temporada 1991-92. E mesmo uma ligeira melhora no Apertura da temporada 1992-93, com um ainda reserva Calderón marcando seus quatro primeiros gols na elite, mostrou-se efêmera: o 7º lugar ali, em paralelo a uma classificação sobre o Boca na Supercopa, foi sucedido por um 13º no Clausura (Caldera marcou três gols, com destaque ao segundo de um 2-0 sobre o River no Monumental) e pela lanterna no Apertura da temporada 1993-94 – semestre em que o time não foi longe na Copa Centenário, a ser vencida exatamente pelo arquirrival Gimnasia, que se mostrava naqueles anos o clube platense mais forte. Mesmo que, curiosamente, o Estudiantes voltasse a eliminar o Boca na Supercopa da edição 1993, com direito a dois gols de Calderón em um 3-1 em La Bombonera e outro em 2-0 em La Plata, o Pincha não evitou o rebaixamento ao fim do Clausura 1994.

    O 16º lugar foi até enganoso, pois o time era vice-lanterna, mas, já rebaixado e ironicamente mais relaxado, venceu na rodada final o Racing por 4-1, com Calderón marcando dois dos cinco gols anotados na temporada argentina inteira de 1993-94. Se o dia do rebaixamento foi o mais triste da carreira segundo ele próprio, também foi uma boa inflexão. Calderón recusou convite de seu velho treinador Luis Garisto para acompanha-lo no Argentinos Jrs para enfim se firmar no Estudiantes, campeão com sobras da segunda divisão de 1994-95 (a ponto de ter em paralelo até eliminado o Flamengo na Supercopa 1994) tendo em Caldera o artilheiro da campanha. Ainda em 1994, ele já tinha juntado grana suficiente para comprar “um apartamento”. Mas preferiu primeiramente retribuir o pai, que preferia ter um táxi. “Fui, saquei a grana, e lhe comprei o táxi. E ele pôs tudo do Gimnasia lá: almofadas, escudo, bandeirinha…”. Pudera: naquela grande fase, o Lobo por muito pouco não foi campeão do Clausura 1995 um mês depois dos alvirrubros terem vencido o acesso.

    Calderón teve três ciclos no Independiente, com bom saldo nos dois primeiros: fotos com Menotti e Burruchaga no time que cheirou o título em 1997 e comemorando um dos três gols feitos nos 4-0 sobre o Boca no Clausura 1999, onde foi artilheiro

    Mas, em uma das maiores entregadas de sua sofrida história, o Gimnasia perdeu dentro de casa na rodada final uma taça que parecia ganha. E no primeiro Clásico Platense após o retorno pincharrata à elite, Calderón foi cruel, marcando dois gols em um categórico 3-0 no Apertura 1995 em pleno Bosque gimnasista. Foi o dia em que pai e filho realmente brigaram mal. “Em um gol, sacudi a camisa. Meu velho sempre me esperava com chá-mate, torradas, e falávamos da partida. Nessa tarde, cheguei e me disse: ‘te felicito, estás contente?’. E eu: ‘sim, pai, tomamos uns mates?’. Pegou o mate e a garrafa. ‘Tome, tens aqui, prepare você sozinho’. E foi embora. ‘Mas papai, não te esquentes’, lhe disse. ‘Mas pirralho de merda, quem você pensa que é? Como vais sacudir a camisa assim?’. Esteve uma semana sem falar comigo. Sempre ficou em mim uma sensação com ele: nunca me demonstrou a felicidade que ele tinha de eu jogar na primeira divisão. Se eu metia dois gols, me criticava por um passe. Por isso sou assim hoje, muito exigente comigo mesmo, não me conformo com nada”.

    Se a segunda divisão viu florescer uma parceria entre Calderón e Verón, a temporada de reestreia na elite propiciou a afirmação de Martín Palermo, ainda escanteado na campanha da segundona. Eles até marcaram dois gols cada em um 4-1 no Gimnasia de Jujuy, embora o matador-mor fosse mesmo Caldera, artilheiro no Apertura 1995 (com quinze gols) mesmo por um time que terminou apenas em nono – embora dessa vez o Pincha caísse já no primeiro duelo da Supercopa, contra um decadente Nacional uruguaio. Revelação do ano, o atacante foi então contratado na virada de ano por um Independiente que havia acabado de vencer aquela própria Supercopa. O Rojo já vivia uma entressafra mesmo ao longo daquela acidentada campanha campeã e ficou apenas em 12º no Clausura 1995, com Calderón descalibrado; ainda que voltasse a vitimar o Boca e anotasse no arquirrival Racing (em dois 1-1) e até no rival pessoal Gimnasia (vencedor por 3-2), só somou quatro gols naquele primeiro semestre, onde também perdeu-se a Recopa para o Grêmio.

    No segundo semestre de 1996, o Independiente caiu na Supercopa já no primeiro duelo, na revanche do Flamengo, vice dentro de casa na edição anterior. Mas fez um Apertura muito melhor; mesmo longe de alcançar o River, foi vice-campeão, embora vencesse o próprio Millo na rodada final por 3-1, com dois gols de Calderón. No Clausura da temporada 1996-97 é que o Independiente, sob o comando do mítico César Menotti, brigou mais para valer pela taça. Após boas exibições nos torneios de pré-temporada, o Rojo começou sem vencer nas três primeiras rodadas, mas ressurgiu ao triunfar fora de casa no Clásico de Avellaneda pela quarta. Com Calderón marcando os dois gols dos 2-1 sobre o Racing. Fase que lhe rendeu as primeiras convocações à seleção, estreando pela Argentina em 2 de abril de 1997, na tumultuada derrota para a Bolívia em La Paz pelas eliminatórias, substituindo Marcelo Delgado no decorrer do jogo.

    O Independiente, quatro dias depois, viu Calderón marcar os dois gols da vitória fora de casa sobre o Banfield por 2-0, repetiu esse placar sobre o Boca e festejou outros dois gols de Caldera longe de Avellaneda, em categórico 3-0 no Platense. Em grande sequência, o Rojo goleou longe da casa ainda o Gimnasia de Jujuy (4-1, com gol dele), viu ser artilheiro demonstrar profissionalismo contra o Estudiantes (Calderón abriu o placar de um 2-0) e marcar duas vezes na grande exibição do Independiente de Menotti: o 6-0 em plena Santa Fe contra um Colón que liderava o campeonato no pontapé inicial e terminou ultrapassado também na tabela pelos visitantes, os novos dianteiros ao fim daquele 31 de maio. Restavam quatro rodadas, mas houve uma pausa para novo jogo da seleção nas eliminatórias e depois para a Copa América.

    Depois de ser dispensado dos juvenis do Gimnasia, não teve sorte nem no Napoli e nem na seleção. Calderón pareceu não nascer para uniformes alviazuis

    Foi a segunda partida de Calderón pela Argentina, onde ele substituiu Hernán Crespo no finzinho, ocasião que ele considerava na entrevista de 2006 a noite mais feliz da carreira: “entrei por cinco minutos contra o Peru, todo o estádio começou a pedir por mim. Não podia acreditar”. Três dias depois, o jogo já era pela Copa América, para a qual Daniel Passarella usou uma seleção experimental, praticamente caseira, como testes. Calderón saiu do banco contra o Equador e foi titular contra Chile e Paraguai. Livrou-se da eliminação vexaminosa contra o Peru, mas, sem gols, não seria mais levado em consideração por Passarella. O Independiente, por sua vez, perdeu o ponto de bala com a pausa. Menotti deixara o clube para treinar pela primeira vez na Itália, fechado com a Sampdoria. E a Serie A também foi o destino de Caldera, contratado pelo Napoli. Na retomada do Clausura, já em julho, o líder Rojo só venceu o primeiro dos quatro jogos finais e caiu para o quarto lugar.

    Se a vitrine europeia poderia alavancar as chances de Calderón por um lugar na Copa de 1998, a negociação acabou como um tiro no pé. “Me fortaleceu como pessoa. O problema foi que me comprou o presidente nas férias e o técnico não me quis nunca”. Ele, que assumiu nunca ter tido uma alimentação saudável, o que era compensado pelos exercícios frenéticos, chegou mesmo a engordar e precisar pela primeira vez de um custoso acompanhamento nutricional. Sem surpresas, ele foi devolvido ao Independiente já no primeiro semestre de 1998. Se livrou de ficar até o fim de uma temporada em que o Napoli terminaria rebaixado, mas mesmo que os gols voltassem (foram oito no Clausura, incluindo contra River e San Lorenzo) ele não foi levado em conta para a Copa do Mundo. Até porque seu Independiente só ficou em 11º.

    No pobre segundo semestre de 1998, ele foi mais efetivo na Copa Mercosul (cinco gols, mas queda na fase de grupos) do que no Apertura (apenas um pelo 16º colocado). Mas se refez no primeiro semestre de 1999, terminando o Clausura como artilheiro, ainda que pelo quinto colocado. Marcou em especial na vitória fora de casa no clássico com o Racing (2-0) e três vezes em um 4-0 sobre um Boca que acabava de assegurar o título, tirando-lhe a invencibilidade – um dos gols, uma pintura desde o meio-campo. Outros três gols vieram no 4-1 na rodada final, sobre o Huracán. Os 17 gols em 19 rodadas fizeram-no ser chamado a nova Copa América pelo treinador Marcelo Bielsa. Mas o que parecia ser o recomeço na seleção acabou sendo o fim abrupto. El Loco também usou a competição para testar uma seleção caseira, mas nem assim Calderón jogou.

    Caldera enfureceu-se especialmente ao ser chamado pelo treinador no quarto após a eliminação e ouvir que só fora chamado porque o atacante realmente desejado não estava disponível, pois não era visto como o jogador adequado no sistema planejado por Bielsa. Esquentado por ter perdido à toa as férias familiares e a pré-temporada com o Independiente, vociferou na imprensa e acabou crucificado diante de todo o grupo pelo treinador, em discussão pública em pleno aeroporto de Assunção, como alguém que queria limpar a própria barra no fracasso coletivo. Calderón jamais voltou a ser considerado à seleção, mas com o tempo ele se resignou: “tivemos uma briga ou intercâmbio de palavras, mas como treinador, Bielsa é excelente. Posso dizer que comigo se equivocou, mas com outros duzentos mil, não”.

    Um de seus três gols pelo no histórico 7-0 no clássico com o Gimnasia, em 2006. O resultado desequilibrou de vez o dérbi e impulsionou o Estudiantes rumo ao desjejum na elite

    O segundo semestre de 1999 foi ladeira abaixo. Embora deixasse três gols na Copa Mercosul, incluindo na eliminação contra o Flamengo no primeiro mata-mata (um agregado de 5-1…), Calderón minguou para os mesmos três gols no Apertura. E na terceira derrota seguida na reta final (depois de ser goleado por 3-0 em Avellaneda pelo San Lorenzo, o Rojo caiu na visita ao Instituto em Córdoba e então perdeu de 1-0 em casa para o Rosario Central) chegou a ser procurado pelos barrabravas para uma surra. “Foram buscar a mim sozinho. Eu saía para buscar meu filho, que tinha um ano, e começaram a me dizer coisas. Fiquei mal pelo meu garoto, me agarrei com um e por sorte chegou a polícia, porque eles eram mais de dez”. Sem clima, ele acertou com o futebol mexicano.

    Foi pelo América que Calderón enfim estreou na Taça Libertadores, fazendo um bom semestre nela em 2000: cinco gols na fase de grupos, dois deles em um inapelável 8-2 sobre o Olimpia, outro sobre o Bolívar nas quartas-de-final e dois na vitória de 3-1 nas semifinais sobre um velho freguês pessoal, o Boca. Calhou que os mexicanos haviam perdido de 4-1 em La Bombonera no jogo de ida a abriram 3-0 no Azteca – resultado que na época ainda forçava os pênaltis. Em 2006, ele ainda amargava o desfecho: “quando meti o 3-0, olhei o placar eletrônico e faltavam oito minutos. Bermúdez [capitão do Boca] se aproximou de mim e me disse: ‘Caldera, basta, esperemos os pênaltis’. Eu lhe respondi: ‘nada de pênaltis!’. E dois minutos depois [Walter] Samuel mete esse cabeceio bombeado [para diminuir para 3-1 e classificar os argentinos]. Como é o futebol: a final dessa Copa terminou sendo o começo do domínio internacional do Boca. Se tivessem perdido nesse dia…”.

    Apesar do bom papel na Libertadores, o América vivia relativa seca na liga mexicana, que perdurava desde 1989 e só acabaria em 2002. Àquela altura, Calderón já estava no ainda mais mal-assombrado Atlas, sendo o artilheiro do elenco rubronegro na temporada 2001-02. Se nos dois torneios semestrais o time de Guadalajara ainda chegou aos mata-matas, isto não ocorreu no segundo semestre de 2002. Nada que impedisse que o Racing sondasse o veterano em 2003 para o retorno da Academia à Libertadores. Calderón não teria descartado a oferta (“eu trabalho nisso, o clube que esteja interessado em mim e se preocupe por mim e me ofereça trabalho sempre o considerarei. Menos o Gimnasia, claro”). O Vélez também o teria sondado e, sabendo disso, o Independiente atravessou as negociações e repatriou seu velho goleador.

    Não foi um retorno feliz. O técnico do Rojo era Oscar Ruggeri, velho emblema da seleção, e quem pessoalmente tratara de convencer Caldera a voltar. Mas acabou usando-o pouquíssimo sob El Cabezón e também sob o sucessor Osvaldo Sosa, que ao menos foi mais sincero e lhe falou de frente que não o considerava nos planos. Em 2006, Calderón até desmentiu a fama de exigência da torcida por um futebol vistoso: “papo furado. Todos gostam de ganhar e todos gostam de bom futebol. No Independiente, ganhamos jogos todos retrancados e fazendo cera e as pessoas comemoraram igual”. Não foi difícil a ele preferir recomeçar do zero ali nas vizinhanças de Avellaneda, mas em Sarandí, fechando em 2004 com o Arsenal: “este clube me fez lembrar quando arranquei no Cambaceres”. Seus oito gols no Clausura 2004, incluindo um no Racing, deixaram aquele veterano em quarto lugar na artilharia.

    Experiência a serviço do Arsenal campeão da Sul-Americana de 2007 – foto da final contra o América, por sinal ex-clube de Calderón

    O Apertura 2004 foi menos generoso, ainda que Calderón se desse ao gosto de abrir um 3-0 dentro de La Plata sobre o Gimnasia. No Clausura 2005, já esteve de novo como quarto artilheiro do torneio, com nove gols – incluindo dois em um 3-1 do Arse sobre o Boca em La Bombonera. Fase que rendeu-lhe um retorno ao Estudiantes após dez anos. Na quarta rodada do Apertura, Caldera já mostrava a que vinha, marcando o único gol do Clásico Platense – resultado que adiante faria a diferença para o rival terminar deixando outro título escorrer entre os dedos. Com 35 anos, o atacante fez outros nove gols, incluindo o único de duelo contra o River. O Clausura 2006 foi menos impactante, com o time focado no retorno à Libertadores. O veterano foi inclusive um dos artilheiros daquela edição, decisivo especialmente nas oitavas contra o Goiás (marcou nos dois duelos, um no último minuto), e acredita que o time teria melhor sorte contra o São Paulo nas quartas se a Copa do Mundo não interrompesse as quartas-de-final entre um jogo e outro. Mas a redenção não tardaria.

    Verón voltou ao clube para o segundo semestre. E o Estudiantes começou a se ariscar. A entrevista que Calderón deu à El Gráfico em 2006 foi feita pouco depois da oitava rodada, com ele garantindo que a comemoração explosiva em um 2-1 contra o Independiente não guardava nenhum rancor pessoal contra a antiga equipe e sim era um desabafo por um relativo jejum de gols e de vitórias. Em outra declaração sobre seu ritmo de jogo aos 36 anos, explicava que “o corpo te cobra a conta a partir dos 30 anos. Se nessa idade o corpo não te responde, significa que na juventude não fizeste bem as coisas. E o sinal de como te manobraste. Eu jamais recebi esse sinal. Tudo passa pela alimentação, o cuidado pessoal, saber quando se pode sair e quando não”. Destacava uma lição simplória, mas certeira: “o importante não é chegar, e sim manter-se”.

    Não era pose. Após aplicar a lei do ex no Rojo na 8ª rodada, Calderón marcou n 11ª uma tripleta… em um Clásico Platense histórico. O desequilíbrio era descomunal na vitrine de troféus, mas nulo nos confrontos diretos: se vencesse, o Lobo, predominante em La Plata nas duas décadas anteriores, inclusive se igualaria em número de vitórias em duelos pelo campeonato argentino (no geral, estava até à frente). Mas o Estudiantes sapecou um 7-0 que ainda é a maior goleada do dérbi, só vencido pelo rival uma única vez desde aquele massacre. Foi a mola propulsora para que o Estudiantes, treinado por Diego Simeone, superasse de tudo para quebrar naquele Apertura um jejum de 23 anos na elite argentina. Desde uma entrega do enfurecido Gimnasia para o Boca, concorrente dos alvirrubros, até uma vitória de virada sobre o próprio Boca no jogo extra forçado após igualdade na liderança após a rodada final.

    “Sou muito temperamental, então não sou de zombar das pessoas, porque não gosto que me zombem. Sempre respeitei. Depois dos 7-0, muitos quiseram fazer comigo a foto com os sete dedinhos e disse que não. O futebol é uma roda”, desconversava o artilheiro na entrevista, embora não titubeasse ao ser indagado de que acreditaria que o grande rival pudesse ser campeão um dia: “esperemos que não”. E isso que Caldera não enfrenta somente o pai por futebol, descrevendo que a esposa “não dá muita bola ao futebol. Ela é Gimnasia, então não se fala muito. E menos agora”. As ironias da vida renderiam um troco: Lucas Calderón, filho do casal, seria profissionalizado em 2018 exatamente no Gimnasia, embora chegasse a passar pelos juvenis pincharratas. Inclusive chegou a ser notícia a sua relegação à equipe B pelo treinador Maradona, em 2019.

    Celebrando a liderança do Argentinos Jrs garantida na penúltima rodada em um maluco 4-3 no Independiente: o ex-clube de Calderón lutava pela taça também e vencia até os 44 minutos do segundo tempo!

    A ressaca por aquele desjejum em 2006 parece ter pesado em Caldera, que só marcou dois gols no Clausura 2007. Para o segundo semestre, ele acertou uma volta ao Arsenal. E fez história. Calderón já não vivia de gols, embora fosse um exímio aplicador da lei do ex, somando três gols entre os dois duelos com o Independiente na temporada 2007-08. Sobressaiu-se mais como um líder técnico no elenco que, revelando o jovem Papu Gómez, terminou sendo o surpreendente campeão da Sul-Americana de 2007. Mas, ainda em 2006, ele confessava preferir a velha rotina: “às vezes por aí fui pivô, atraí marcações, habilitei meus colegas, tive uma grande partida, mas como não fiz gols, no outro dia me dão nota 4 nos jornais e me questionam”.

    O Estudiantes foi mais sensível e recontratou seu outro grande filho pródigo para o segundo semestre de 2008. O veterano marcou só cinco gols na temporada 2008-09 inteira (um deles, em 2-0 sobre o Arsenal, por sinal), mas pôde saboreá-la em especial; outro daqueles gols foi em 3-1 sobre o Gimnasia. E um outro, sobre o Argentinos Jrs, colocou o Estudiantes na final da Sul-Americana de 2008. A taça escapou para o Internacional, mas já representava o retorno Pincha a uma final continental após 38 anos. Um semestre depois, a final continental já era a da Libertadores 2009. Caldera não registrou gols na campanha redentora, contribuindo no título mais pela cera planejada pela equipe ao substituir o herói Gastón Fernández no minuto final contra o Cruzeiro. No Apertura 2009, somou um único gol, para bater seu velho freguês Boca (2-1). E deixaria La Plata pelos fundos: não foi inscrito ao Mundial de Clubes e boatos de rompimento com Verón e o técnico Alejandro Sabella ecoaram.

    Parecia ter pendurado as chuteiras quando, surpreendendo, acertou com o Argentinos Jrs em 2010. O Bicho começou o torneio relativamente ameaçado de rebaixamento e terminou campeão, pela primeira vez em 25 anos e pela última vez até hoje. E em um torneio em que concorreu justamente contra o Estudiantes e o Independiente. Calderón, para variar, se deu bem em um clube vermelho. E aplicou bem a lei do ex: contra o próprio Estudiantes, derrotado como mandante por 1-0, e ainda sobre o Arsenal. Os ex-colegas em La Plata terminaram amargando o vice-campeonato por exatamente um ponto abaixo da modesta equipe de La Paternal (que encontrou tempo para lhe felicitar nas mídias embora esse 24 de outubro também tenha marcado os 35 anos da conquista colorada na Libertadores). Era o fim glorioso da carreira do quarentão, que ainda se permitiu um epílogo no seu Cambaceres, voltando para uma única partida – e deixando um gol de pênalti.

    Ele ainda trabalharia pelo Gimnasia de Jujuy (2011-12) e no Atlanta (2014) em uma carreira de treinador que não decolou – trabalha hoje no time B do Argentinos Jrs. A contribuição ao futebol foram mesmo com gols, descritos por ele em 2006 como “um passe à rede. Não precisas sempre matar o goleiro. Na área, o atacante sempre tem um tempo a mais; às vezes, parece que o atacante está mais desesperado que o defensor. Quando um goleador entre em seca, em geral é porque você vai para um lado e a bola para o outro lado. Quando estás direitinho, a bola te cai onde estás. E metes”. Ele, inclusive, lamentou a proibição de tirar a camisa na comemoração: “é terrível. Se tiras a camisa, amarelo. Se queres trepar no alambrado, te expulsam. Vai chegar um momento em que vais meter um gol e em vez de desfrutar, vais chorar. Porque se você zomba da torcida rival ou fazes cera, ok, está bem, mas o gol é o mais lindo que há, e não deixam que saia a alegria acumulada”.

    https://twitter.com/EdelpOficial/status/1320101084736720896
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  • Jorge Valdano: o Filósofo da Argentina campeã de 1986

    Jorge Valdano: o Filósofo da Argentina campeã de 1986

    Jorge Valdano marcou na final de 1986 e disse depois que aquilo parecia mentira, como se a mãe fosse acordá-lo para ir ao colégio.

    Após seu gol na final de 1986: “é mentira, agora vem minha mãe, me acorda para ir ao colégio e eu a mato”

    As três finais seguidas de Copa do Mundo entre 1994 e 2002, em contraste com seguidas decepções da Argentina, e os triunfos com cada dose de epopeia sobre a Albiceleste na Copa América de 2004 e na Copa das Confederações de 2005 pareceram reforçar um certo bairrismo na imprensa brasileira naqueles tempos. A Copa de 1986 teria sido erguida por um Maradona Futebol Clube. Mas, no embalo da Copa de 2006, ao menos a Placar soube reconhecer, em edição especial onde escolhia os cem maiores jogadores do torneio, que havia no mínimo mais um talento no bi argentino. Não era Passarella, ausente de todos os jogos embora convocado, e sim Jorge Alberto Valdano Castellano, o outro nome argentino incluído na eleição. Até seu apelido de El Filósofo era destacado no perfil. Mas ele merece mais lembranças no dia em que faz 65 anos.

    Valdano precisou de virar desde cedo, pois aos quatro anos perdeu o pai. “Tive muita necessidade dele aos 16, uma época em que jogava sem referências, não no futebol e sim na vida”, declararia à El Gráfico em 2001. Houve tempo apenas para herdar dele a paixão pelo Racing, embora a residência no interior da província de Santa Fe complicasse uma interação maior: “a primeira vez que o vi ao vivo foi dentro de campo, jogando, porque vivia a 400 quilômetros de Buenos Aires e era um luxo que não podia me dar”, explicou na mesma entrevista. “Se algo recordo de um modo particular da minha infância é o gol de Cárdenas [que rendeu o título mundial à Academia, em 1967), o vi em meu povoado, na casa de um vizinho: tinha que ter muita boa vontade para ver essa bola entrar, na realidade soava o rádio e nós gritávamos diante da televisão”.

    Sem o pai, a grande referência futebolística foi outro craque nativo da mesma cidade de Las Parejas, o maestro riverplatense Ermindo Onega, a quem buscava assistir na várzea a cada retorno deste ao lugar natal. Mas Valdano não sairia da província de Santa Fe para se formar no futebol: na principal cidade da província, Rosario, o Newell’s começava a revolucionar sua categoria de base ao incorporar o olho clínico de seu antigo jogador Jorge Griffa. 

    Embora torcedor do Racing, Valdano só defendeu o Newell’s no futebol argentino. Esteve no primeiro título argentino do clube

    Valdano foi um dos primeiros descobertos pelo projeto de Griffa, juntamente a outros dois futuros campeões mundiais pela seleção – Ricardo Giusti, colega em 1986, e Américo Gallego, vencedor já em 1978. O primeiro a estrear no time adulto seria justamente aquele atacante que, mesmo grandalhão e potente (diferente do modelo consagrado na chamada “escola rosarina”), sabia ser ágil. A estreia se deu exatamente na rodada final da fase de grupos do Torneio Nacional de 1973, contra o All Boys. Valdano conseguiu uma estreia promissora, pois saiu do banco nos 20 minutos finais e conseguiu arranjar nesse tempo já um primeiro gol, aos 42 do segundo tempo, encerrando os 4-0. Superou um nervosismo já natural reforçado pela preleção técnica: “falou tão rápido, tão rápido, que me produziu uma angústia muito grande. Pensei: se a primeira divisão é isso, eu não conseguirei interpretar os treinadores. Me deixou preocupado por bastante tempo”.

    O campeão daquele torneio, porém, seria justamente o rival Rosario Central, que somava sua segunda conquista argentina contra nenhuma da Lepra – a primeira, em 1971, fora lograda no embalo de um triunfo canalla em pleno clássico nas semifinais. O troco rojinegro viria com juros já no Torneio Metropolitano de 1974, com a equipe do Parque Independencia sagrando-se campeão pela primeira vez em outro clássico histórico, em pleno Gigante de Arroyito

    Valdano não foi exatamente um rosto da histórica conquista, seguindo como opção de banco para um ataque sólido formado pelo ex-gremista Alfredo Obberti com os pontas Juan Ramón Rocha e Mario Zanabria, outro dos primeiros craques em que o garoto buscava se espelhar. Na campanha, o novato esteve em apenas três partidas, ainda que como pontual titular em todas: 1-0 na Bombonera sobre o Boca, na 12ª rodada; 3-2, com gol dele (um cabeceio para virar provisoriamente o placar para 2-1) aos 7 minutos do segundo tempo, sobre o Newell’s; e 1-0 fora de casa sobre o Chacarita. No segundo semestre, os leprosos pareciam seguir no páreo; no Torneio Nacional, promoveram a estreia de Gallego e qualificaram-se ao octogonal final, embora decepcionassem nessa fase. Valdano, por sua vez, já atuava 17 vezes. Deixou três gols, incluindo o único de duelo contra um Independiente recém-tri seguido na Libertadores. 

    Na final contra a Hungria no Torneio de Toulon de 1975, fez o gol do título

    Foi no primeiro semestre de 1975 que a joia parecia desabrochar: em março, integrou a seleção juvenil campeã do tradicional Torneio Esperanças de Toulon (marcou um só gol, mas que gol: foi o único da final contra a Hungria); no Metropolitano, esteve em 25 jogos e somou seis gols. Quase sempre, em duelos graúdos: essa contagem incluindo o seu único gol no Clásico Rosarino (1-1) e contra três gigantes: no San Lorenzo, deixou um no 2-1 fora de casa no time que havia vencido aquele Torneio Nacional de 1974; contra o futuro campeão River, então, foi um golaço (matou no peito e emendou um voleio contra Fillol em um 4-1 também fora de casa), que ainda serviu para encerrar na 13ª rodada a invencibilidade do líder; e o próprio Racing do coração sofreu um em empate em 2-2.

    Em paralelo, Valdano somou três gols na Libertadores, em vitórias por 3-2 sobre a dupla Olimpia (marcando duas vezes) e Cerro Porteño. O Ñuls terminou aquele Metropolitano de 1975 apenas em décimo e, no duríssimo regulamento continental onde só o líder avançava, caiu no jogo-extra pela liderança do grupo justamente contra o Central. Nada que impedisse que César Menotti promovesse em 18 de julho a estreia de Valdano na seleção principal. E que estreia: saindo do banco, ele marcou duas vezes em um triunfo de 3-2 sobre o Uruguai em pleno estádio Centenário, encerrando mais de duas décadas de jejum argentino naquele palco.

    Convocado à Copa América, Valdano ainda jogaria pela Albiceleste no dia 30, em amistoso não-oficial contra o Talleres (programado para bancar a compra tallarin de José Daniel Valencia, colega dele na seleção de Toulon e na Copa América) e em 6 de agosto – derrota no Mineirão por 2-1 para o Brasil, pela Copa. Mas só voltaria a reaparecer pela Argentina já em abril de 1982. Na época, ir à Europa mais ajudava do que atrapalhava a manter-se na seleção e as chances viravam nulas se o destino fosse uma segunda divisão. Mesmo assim, o ponta preferiu fechar com o Alavés. Segundo ele, a meta desde então já era chegar ao Real Madrid.

    Alavés, Real Zaragoza (junto ao barcelonista Maradona) e Real Madrid

    Ele detalhou em 1999, em outra nota à El Gráfico, as outras razões que o levaram a fechar um negócio arriscado: “é preciso entender qual era o momento do futebol argentino, de grande desorganização e pouco rigor. Lembro que era normal, quando íamos de ônibus de Rosario a Buenos Aires para jogar na elite, ir com o rádio ligado para saber se a partida ia ser jogada ou não, e muitas vezes na metade da viagem se anunciava a suspensão do jogo e dávamos meia-volta. Essas coisas me empurraram para ir embora. A única coisa que me podia me manter na Argentina era uma guinada de Menotti, mas nesse momento a seleção não tinha o prestígio de agora. De fato, eu estreei na seleção porque nessa semana havia renunciado os jogadores de Boca e River. Quero dizer que a seleção não era um lugar que prestigiassem, era um lugar onde alguém arriscava o prestígio. Por isso, creio que Menotti foi ao futebol argentino das ideias o que Maradona foi ao futebol argentino com os pés”.

    Ainda na mesma nota, ele recapitulou a ascensão meteórica e os percalços seguintes: “estreei a fins de 1973, na última partida, 20 minutos de jogo e um gol. No ano seguinte, o Newell’s foi campeão e eu me alternei, mas sempre com cruzamentos de caminho bem aproveitados: campo do River, partido televisionado, grande gol; juvenil de Toulon, atuação pessoal medíocre, mas 1-0 com gol na final; estreia na seleção principal contra Uruguai no Centenário e 3-2 com dois gols meus depois de entrar nos últimos 15 minutos. Foram impactos publicitários. Mas isso me produziu um mal entendido: eu vim à Espanha pensando que chegar ao Real Madrid ia me custar o mesmo que me havia custado chegar à seleção principal, e me equivoquei. O que na Argentina me havia custado um ano, aqui me custou dez”.

    Ao todo, Valdano fez 53 jogos oficiais (o último em 27 de julho de 1975, um 0-0 com o Banfield), com 14 gols pelo Newell’s. Não era exatamente um intocável, angariando idolatria gradual mais pelo que soube produzir longe do que no próprio clube – a ponto de ser nomeado sócio honorário e incluído na seção de ídolos tanto no livro do centenário sangre y luto lançado pelo Clarín como na edição especial publicada pela El Gráfico em 2012. História curta que até esteve próxima de ser maior, segundo aquela entrevista de 1999: “quando estava no Alavés, quase volto, mas o orgulho, que é uma espécie de tortura, muitas vezes serve para suportar muito mais do admissível. Se tratava de uma cidade muito dura, onde chove 300 dias ao ano. Eu só tinha 19 anos, era um único estrangeiro no País Basco, se jogava na lama, no chutão e tive que aprender outro jogo na segunda divisão”.

    Com Maradona em um reencontro com os húngaros, agora na Copa de 1982. Lesionou-se cedo e não voltou a jogar no torneio

    “Além disso, sofri duas fraturas de perônio: uma foi por má sorte e a outra, atroz, o defensor foi me buscar e me rompeu”. Ele também não apreciava ser a figura estelar de uma equipe, que em sua primeira temporada até brigou para não cair à terceirona: o 15º lugar em 1975-76 sujeitou o Alavés a uma repescagem contra o Logroñés, vencida pelo agregado de 4-2. Na seguinte, o time de Vitoria-Gasteiz já ficou a cinco pontos do acesso, em um enganoso 8º lugar. Na de 1977-78, o 11º foi ofuscado pela campanha até as quartas-de-final da Copa do Rei. Eliminou nas oitavas justamente o campeão da segundona, o Real Zaragoza, e caiu apenas diante de Cruijff e o futuro campeão Barcelona por um honroso 2-1 agregado – um encontro que rendeu uma curiosa anedota em que o holandês, peitado pelo argentino, exigiu ser chamado de senhor. Virariam grandes amigos.

    Na temporada 1978-79, o Alavés, mesmo 9º, ficou a seis pontos do acesso e voltou a ser parado só nas quartas-de-final da Copa do Rei pelo futuro campeão, o Valencia de Mario Kempes. Se o acesso ao clube não vinha, Valdano enfim saltou para a elite ao terminar contratado pelo Real Zaragoza. O que não mudou tanto foi a realidade modesta, agora para os padrões de La Liga. Os aragoneses não terminavam além do 10º lugar e caíam cedo na Copa do Rei até que uma campanha até as quartas-de-final na temporada 1981-82 bastasse para Menotti redescobrir El Filósofo: se faltava glamour nos gramados em sete anos de Europa, Valdano os aproveitara para enriquecimento cultural a ponto de seu colega de quarto na seleção (Santiago Santamaría, do Newell’s) chiar que ele levava livros até ao banheiro.

    A morada na Europa enquanto quase todo o resto dos colegas vinha da Argentina (Daniel Bertoni, da Fiorentina, e Osvaldo Ardiles, do Tottenham, eram as outras exceções) também serviu para Valdano estar ciente do real desenrolar da Guerra das Malvinas enquanto a censura fazia os companheiros pensarem que o país estava vencendo: “foi um problema, porque na Espanha eu desfrutava de uma informação que na Argentina não se tinha, e se a expressava me convertia imediatamente em anti-argentino. Não podia comentar nada, inclusive em algum momento que saiu o tema e eu disse qual era minha postura, faltou pouco para que os companheiros me tirassem a camiseta”, relatou em 1999.

    Abrindo o placar na estreia de 1986, contra a Coreia do Sul. Primeiro gol do título argentino

    “Há pouco escutei Daniel (Passarella) dizer que se soubesse da verdade, não teria jogado. Eu nesse momento não tinha essa sensação, creio que são duas órbitas distintas: que o jogo serve para escapar da realidade, não para dissimula-la. Nesse momento, nós defendíamos o prestígio do futebol argentino e não o prestígio do país em geral”. Se o entrosamento extracampo pareceu complicar-se, Valdano saiu de vez do time na segunda partida, no que definiu em 2001 como sua maior frustração do futebol: “vinha de jogar uns minutos contra a Bélgica e fui titular contra a Hungria, mas antes dos 10 minutos me deram um chute que me provocou uma grave lesão, não podendo crer no que me acontecia: nesse momento eu estava no Zaragoza, na Espanha, em meu ambiente, e nunca havia sentido nem voltei a me sentir tão bem física e mentalmente”.

    Valdano chegou a temer que não voltaria à seleção, e de fato demorou. Mas os bons campeonatos do Zaragoza nas duas temporadas seguintes (um 6º e um 7º lugar, quase beliscando vagas na Copa da UEFA, com seu compatriota Juan Barbas inclusive terminando eleito o melhor estrangeiro de La Liga pelos dois torneios) serviram para que o grandalhão enfim chegasse ao Real Madrid para a temporada 1984-85, vitrine ideal para um regresso à Albiceleste – ainda mais com os merengues campeões da Copa da UEFA, encerrando 19 anos de jejum continental. “Durante um tempo, eu vivi confuso na profissão. No Alavés e no Zaragoza, era a figura estelar da equipe, mas de nenhuma maneira essa figura se adaptava à minha personalidade. Quando dentro de campo apareceu um Butragueño ou um Maradona, me acomodei melhor e descobri que era importante sustentando-os”, destacou em 1999.

    Na entrevista de 2001, ele seguiu essa linha modesta: “em campo fui taticamente importante porque me assumi como jogador complementar e creio que fui um grande jogador complementar. É verdade, homem, se jogas numa equipe onde está Maradona, não há outra forma que não ver-se como complementar. Eu vinha de fazer esse papel no Madrid. Um ano depois da minha chegada, em 1985, chegou ao Madrid o Hugo Sánchez, apareceu Butragueño, estavam Juanito e Santillana, e me dei conta de que tinha que mudar de ofício para jogar nessa equipe. Então comecei a recuar, a ser um atacante de todo o campo. Na seleção, Bilardo me pedia algo parecido. Contra a Inglaterra, que voltasse ao meio; contra a Alemanha, pela direita para seguir Briegel. Uma vez terminada a jogada prévia, tinha voltar à minha casa, e minha casa estava na direita, na esquerda ou no meio”.

    Abrindo a vitória sobre a Bulgária, no terceiro jogo da Copa 1986

    Naquela temporada pré-Copa, Valdano não só conquistou pela primeira vez La Liga (com direito a um gol em 3-1 no clássico com o Barcelona) que encerrava sete anos de jejum do Real Madrid, como vazou Harald Schumacher uma primeira vez também: basicamente matou nova final de Copa da UEFA, anotando no jogo de ida o terceiro e o quarto gol de um 5-1 no Colônia. Se em 1982 ele era um renegado, para 1986 já era uma das três exceções na numeração da Argentina, que pela terceira Copa seguida respeitava a ordem alfabética (fazendo a camisa 1 ser do atacante reserva Almirón) enquanto Passarella usava seu número 6 (e o goleiro titular Pumpido, a 18), Maradona usava sua icônica 10 (e o goleiro reserva Islas, a 15) e Valdano era contemplado com a 11 – enquanto os reservas Trobbiani e Zelada ficavam com a 21 e 22, respectivamente.

    O mimo se justificaria. Embora o ponta não fosse exatamente um goleador (a ponto de achar graça do apelido Valdanito dado ao sósia Hernán Crespo, afirmando o próprio Filósofo em 1999 que seu apelido é que deveria ser Crespito), ele cresceria naquela Copa do Mundo, deixando quatro gols nos sete jogos no México – incluindo o primeiro da campanha, sobre a Coreia do Sul. Não perdoou duas assistências de Maradona para abrir e fechar o placar dos 3-1. O problema foi uma rusga pública com o próprio Maradona por alguma jogada perdida. “Estivemos dez dias sem nos falar. Maradona sempre jogava em casa. Fui eu a seu quarto (buscar a reconciliação)”. Mesmo com eles ainda brigados, foi de Valdano o passe para Maradona arriscar sem ângulo o gol que igualou o 1-1 contra a Itália.

    O terceiro gol de Valdano veio nos 2-0 sobre a Bulgária, ainda na fase de grupos, usando a cabeça para aproveitar cruzamento de Cuciuffo e abrir o placar. Viria uma relativa seca nos três mata-matas, embora o ponta contabilizasse uma assistência para Dieguito contra o Uruguai se uma falta inexistente não anulasse a jogada. Contra a Inglaterra, a importância de Valdano ficou mais evidente no gol de mão, quando o zagueiro Steve Hodge cortou mal uma tentativa de tabela de Diego com o ponta – nisso a bola espirrou para o alto, fazendo El Diez trapacear a dividida aérea com Peter Shilton.

    Dois ângulos do gol mais famoso de Valdano: o segundo da Argentina na final de 1986

    O jejum objetivo, porém, se escancarou nas semifinais, desperdiçando jogadas incríveis de Maradona contra a Bélgica. “Nesse momento se dizia que a Argentina era Maradona e outros dez e essa foi a prova científica”, gargalhou na entrevista de 1999. Valdano, após aposentar-se, saberia fazer limonada daquele vexame: “em alguns cursos de formação, me serve como recurso. As pessoas, quando veem um personagem popular, se identificam, e eu gosto que se identifiquem com a glória e com o fracasso desse personagem. E assim como existe essa imagem onde eu me torno o Mister Êxito, há outra onde sou um perfeito lixo: aquela falha contra a Bélgica, na semifinal, onde Diego me deixou com todo o arco vazio após uma jogada maravilhosa, e eu desde a marca do pênalti atirei ao segundo andar”.

    A imagem do êxito, claro, foi o segundo gol na decisão contra a Alemanha Ocidental: aproveitou pelo passe de Giusti para ficar no mano a mano com Schumacher, tocando na saída do goleiro um certeiro chute rasteiro em diagonal. Não perdeu a humildade nem mesmo ali: “o primeiro que me ocorreu na cabeça é que não era certo. Uns segundos mais tarde, quando entendi que era gol, que era eu, que era a final, em seguida pensei: ‘é mentira, agora vem minha mãe, me acorda para ir ao colégio e eu a mato’. Quando a partida seguiu por uns minutos, me senti campeão. Por isso, quando empataram, pensei que se tratava de um castigo divino por festejar antes do tempo”. 

    Valdano, já com 31 anos incompletos na conquista, foi inicialmente deixado de fora no ciclo pós-Copa. Seguia contribuindo ao Real Madrid, cuja Quinta del Buitre faturou o bicampeonato em La Liga de 1986-87, chegando também às semifinais da Liga dos Campeões. Valdano até reapareceu pela seleção já em dezembro de 1987, em amistoso contra a Alemanha Ocidental em Buenos Aires. Mas uma severa hepatite acelerou sua aposentadoria no meio daquela temporada 1987-88.

    Tirado da aposentadoria clubística pela seleção (!), Valdano realmente exibia forma e elegância intactas no último jogo considerado oficial: amistoso contra a Escócia, em 28 de março de 1990

    Ele veria um lado positivo na doença, naquela entrevista de 2001: “digamos que um jogador do Madrid, que além disso joga na seleção de seu país, vive instalado na irrealidade. A hepatite foi um soco que me devolveu ao mundo da gente corrente”. Só que a safra seguinte da seleção rumo à Copa de 1990 não se mostrou tão generosa; o melhor atacante continuava sendo outro veterano, o genial Ramón Díaz, cuja ausência de 1986 já havia sido um grande questionamento ao técnico Bilardo. Diante da desavença de Díaz com Maradona, Bilardo optou por convencer um aposentado Valdano (então técnico dos juvenis do Real Madrid) a recuperar ritmo de jogo por um lugar na Copa do Mundo.

    Qualidade havia: em 13 de setembro de 1989, abriu vitória de 3-1 em amistoso da América do Sul contra Europa em Tóquio. Zico e Kempes ampliaram antes que Rummenigge descontasse – um jogo de veteranos, como se vê. Bilardo não quis relativizar e propiciou ao Filósofo mais quatro jogos pela Argentina, embora três não entrem para as estatísticas oficiais: reestreou, e como titular, em 10 de janeiro de 1990 na derrota de 2-0 para o Monaco (é daquele noite o registro da foto abaixo), só saindo nos 15 minutos finais. Em 14 de janeiro, Valdano jogou os 90 minutos de um 0-0 contra um combinado da Guatemala naquele país. Em 28 de março, a única reaparição oficial: derrota de 1-0 em Glasgow para uma forte Escócia. Em 3 de abril, a única vitória no retorno, um 1-0 em Belfast sobre o clube norte-irlandês Linfield. Mas também foi a involuntária despedida.

    O ponta até apareceu no álbum de figurinhas da Panini, embora em foto reaproveitada de 1986. Mas o corpo do veterano não aguentou, traído por fisgadas musculares em treinos da seleção na Suíça. Bilardo lhe aguardou até o último momento, deixando para render-se à necessidade do corte já em 21 de maio – faltando duas semanas para a estreia, convocou emergencialmente Gabriel Calderón. El Filósofo se sairia da situação com sua mais conhecida metáfora: “nadei, nadei e nadei e me afoguei na margem”.

    O último jogo real de Valdano foi em 3 de abril de 1990, nesse amistoso da seleção (com curiosa camisa reserva não mais usada) contra o clube Linfield, da Irlanda do Norte. Esteve no álbum de 1990, em imagem reaproveitada de 1986, mas não na Copa

    A ruptura com Bilardo, segundo Valdano, não viria ali (“por um lado houve dor e por outro me senti livre. Eu já tinha um ponto de vista do torcedor, do jornalista e do treinador, então era menos dócil e discutia bastante as coisas”), e sim quando foram adversários na primeira temporada do outrora atacante como técnico principal: em La Liga de 1992-93, El Narigón comandava o Sevilla de Maradona e o ex-pupilo treinava uma colônia de argentinos no Tenerife.

    Foi o curto auge da equipe das Canárias, que notabilizou-se por vencer justamente o Real Madrid na última rodada de duas temporadas seguidas (1991-92 e 1992-93, cujo 5º lugar em La Liga ainda não foi superado na história do clube) e com isso permitir que os então líderes terminassem ultrapassados pelo rival Barcelona. Na de 1993-94, os holofotes da equipe do classudo volante Fernando Redondo e da dupla ofensiva formada pelo inconfundível Oscar Dertycia com o renegado Juan Antonio Pizzi se voltaram à melhor campanha do Tenerife na Copa do Rei, encerrada nas semifinais. O Barcelona, era paralelo, era tetracampeão espanhol e almejava naturalmente igualar o recorde exclusivo do Real Madrid – o penta dos tempos de Di Stéfano e da Quinta del Buitre.

    A reação da diretoria merengue foi buscar antigos carrascos: vieram do Tenerife o volante Redondo, o técnico Valdano e seu assistente técnico Ángel Cappa e diretamente do arquirrival aliciou-se Michael Laudrup. Missão cumprida: após meia década, o Real Madrid voltou a ser campeão espanhol na temporada 1994-95, com direito a devolver um 5-0 no clássico com os catalães um ano após ter sofrido essa goleada para Romário e colegas. Nem tudo eram flores: o próprio Valdano assustou-se consigo mesmo pela extrema frieza exibida enquanto seus pupilos garantiam a reconquista: “pois por dentro era um vulcão. Eu creio que a doença mais importante que essa profissão produz é um autocontrole que te mutila a espontaneidade”, jurou em 1999.

    Os outros clubes de Valdano: treinando a panelinha argentina no Tenerife (o assistente Cappa, Dertycia, ele, Pizzi, Redondo e Ezequiel Castillo) e a dupla Romário e Marcelinho Carioca no Valencia – é o de vermelho

    “Como treinador, nunca gostei de arrebatar o protagonismo dos jogadores, então qualquer gesto de alegria me dava a sensação de que era uma maneira de me meter dentro do cenário. Creio que esse exercício insano andava um pouco por aí. Houve um canal de televisão que me cravou um primeiro plano nos 30 segundos anteriores e nos 30 posteriores ao gol de Zamorano que nos dava o título: eu estava dando uma instrução e com o gol segui como se nada. Apesar disso, por dentro me havia explodido uma bomba atômica. Quando vi a imagem, me assustei: isso não podia ser bom para a saúde”.

    O problema inicial foi ser eliminado pelos dinamarqueses do OB na Copa da UEFA de 1994-95 e começar La Liga seguinte como retardatários do Atlético de Madrid, que terminaria fazendo a dobradinha nacional com a Copa do Rei. O título recente parecia distante a ponto de a torcida merengue ficar ao lado de um certo iugoslavo de sobrenome Petković quando este, contratado pelo presidente sem consulta ao treinador, parecia boicotado por birra do argentino. Valdano terminou substituído por Fabio Capello e rumou a um Valencia que uniria Romário ao pacote argentino de reforços, a incluir Claudio López e Ariel Ortega.

    O campeonato espanhol acabou desprezado, com um 10º lugar ofuscado pela caminhada até as quartas-de-final da Copa da UEFA, encerrada diante do futuro campeão Schalke 04. Valdano não resistiria a um início ruim de La Liga de 1997-98, caindo após a terceira rodada. Procurou ver o lado bom em outra entrevista à El Gráfico, em 2004: “veja, eu joguei uma repescagem com o Alavés para não descer à terceira, me lesionei gravemente, fiquei na porta de duas Copas, me demitiram como técnico após três rodadas, mas apesar disso sinto que não só o fracasso não me dá medo, como me parece mais útil que o triunfo. O êxito é muito complacente, ninguém revisa o êxito; ao contrário, quando se sofre uma frustração, se desarma para ver o que houve e é aí que se progride”.

    Como técnico e como manager (junto a Alfredo Di Stéfano) no Real Madrid, clube com o qual mais se identificou: sempre campeão

    Em 2001, confirmou que preferiu deixar a carreira de técnico em um standy by que dura até hoje. Afinal, Valdano voltara ao Real Madrid em setembro de 2000, para o cargo de manager. Foi junto a Florentino Pérez o rosto das contratações da primeira era “galáctica”, em gestão que venceu dois Mundiais, uma Liga dos Campeões na temporada do centenário, além de uma Supercopa da UEFA, duas da Espanha e duas ligas espanholas.

    Isso se voltou contra ele quando, no espaço de dois meses, o castelo com uma tríplice coroa no horizonte desmoronou na temporada 2003-04. “Não houve luto. Conheço pouca gente mais rápida que eu para virar uma página. Por maior que seja a página”, garantiu naquela entrevista de 2004, dada pouco após sua demissão – ele ainda teria uma volta efêmera bancada por Florentino Pérez no primeiro semestre de 2011, mas não venceu uma queda de braço com José Mourinho. Naquela entrevista de 2001, Valdano qualificou um desconhecido Juanma Lillo (hoje assistente de Guardiola no Manchester City) como um técnico cujas ideias eram mais próximas das suas. E não deixou de filosofar ao ser indagado sobre qual jogo mais desfrutou como torcedor: “a homenagem a Maradona [naquele 2001]. Me pareceu interessante: a cada 30 segundos ocorria algo que me despertava algum tipo de curiosidade”, começou.

    E assim El Filósofo concluiu o comentário daquela partida festiva: “me comoveu desde sua maneira tão singular de subir ao cenário até a espontaneidade do discurso, com passagens inesquecíveis como ‘isto é demais para uma só pessoa’ ou ‘a bola não se mancha’. E sobretudo o comovente reconhecimento do erro em um país que não tem muita escolaridade nisso”. Resumiu, por fim: “essa partida sozinha daria para escrever um livro sobre sociologia argentina”.

    A majestade de Valdano como treinador merengue nos anos 90
    https://twitter.com/FIFAWorldCup/status/1312740503851425793
    https://twitter.com/Argentina/status/1312784544295075850
    https://twitter.com/CANOBoficial/status/1312589126580031488
  • Victorio Spinetto: o maior técnico da história do Vélez Sarsfield

    Victorio Spinetto: o maior técnico da história do Vélez Sarsfield

    Victorio Spinetto é considerado o maior técnico da história do Vélez Sarsfield e uma das figuras mais influentes do futebol argentino. Formou escola e revelou gerações.

    “Possivelmente, o personagem com maior influência na história futebolística do Vélez e um dos que mais relevância tiveram também na do futebol argentino”, defende o Diccionario Velezano, publicado em plena Era Carlos Bianchi (em 1996) sobre quem dirigiu o clube por 625 jogos. Seu autor, o historiador Esteban Bekerman, continua a defender que Victorio Spinetto é o técnico ideal para um hipotético time dos sonhos do Vélez – até para desafogar Bianchi do posto de jogador-treinador. Pensamento que compartilhamos no primeiro dia desse 2020 para celebrar os 110 anos do Fortín. Que, há 30 anos, chorava a perda de um prócer que soube se fazer querido inclusive em rivais.

    Nascido no bairro de Flores como mais velho de três irmãos, cresceu na cidade de Bernal e com isso começou em 1924 no clube local do Honor y Patria, campeão da segunda divisão de 1929, até mudar-se ao bairro portenho de La Paternal – que abrigava um clube homônimo além do tradicional Argentinos Jrs. Ali, integrou o elenco que venceu a terceira divisão de 1930 e disputou a segunda divisão amadora de 1931, ano em que os dezoito principais clubes do país se dissociaram da associação oficial perante a FIFA. O movimento terminou por inaugurar oficialmente a era profissional do futebol argentino.

    O La Paternal não passou do décimo lugar na segundona de 1931, mas Spinetto terminou profissionalizado em 1932 pelo Platense – inclusive marcou um gol pela camisa marrom em empate de 1-1 com o Racing (que terminou exatamente a um ponto do título) dentro de Avellaneda, pela oitava rodada. Mas, sem continuidade no Calamar, onde só somou três partidas, passou ao Vélez ainda durante aquele campeonato já perto do fim da janela de contratações. Estreou na vigésima rodada, em pleno clássico com o Ferro Carril Oeste, vencido por 3-0. E já na seguinte marcaria seu primeiro gol como velezano, fechando um 2-0 como visitante contra o Quilmes.

    A fase credenciou Spinetto um lugar na seleção da liga, que usava uma camisa branca com golas verdes, cor presente também em frisos nos meiões pretos. Anos depois, quando a associação argentina oficial perante a FIFA rendeu-se sucesso da liga rebelde, absorvendo-se por ela em 1935 (infelizmente, já após a Copa de 1934, onde só amadores foram enviados à Itália – junto do massagista Chichilo Sosa, nome histórico do próprio Vélez e da seleção nessa função), os jogos desse combinado da liga acabaram convalidados como partidas oficiais da Argentina.

    Vélez de 1933, ainda com a camisa “italiana”: o técnico Boffi, Spinetto, Alfredo Curti, Manuel de Sáa (que reforçou o America-RJ em 1934), Oscar Sciarra e o futuro flamenguista Agustín Cosso; o massagista Chichilo Sosa, Osvaldo Reta, Iván Mayo, Carlos Querzoli, Napoleón Seghini e Carlos Maggiolo

    Spinetto só não entrou em campo, seja pela Albiceleste, seja por aquele uniforme alternativo. Mas compôs a delegação que no início de 1933 conseguiu a primeira vitória dos hermanos sobre o Uruguai dentro do estádio Centenário, vide imagem abaixo. Se ele não virou figurinha carimbada na seleção, passaria basicamente o restante da década em Villa Luro, que era o bairro do Vélez  na época. Nos três primeiros torneios com ele, o Vélez chegou no máximo ao sétimo lugar – em 1933, ano em que a icônica camisa com La V Azulada foi adotada, substituindo a tricolor “italiana” similar ao manto do Fluminense. Mas em seus domínios o clube mostrou-se praticamente inexpugnável, rendendo no mesmo período outro símbolo, o apelido de Fortín para a cancha de Villa Luro (dado ainda em 1932, justamente, pelo jornalista Hugo Marini; o clube só perdera duas vezes em casa, o que se repetiria em 1933).

    Em 1934, uma campanha de meio de tabela pôde guardar a maior goleada até então no Clásico del Oeste, um 6-0 onde o volante deixou dois gols no Ferro Carril Oeste. Essa rivalidade perdeu muito do valor com a discrepância de troféus descomunal surgida nos anos 90, mas mesmo antes não tinha tanto calor. Em parte, porque o Ferro historicamente definiu-se como uma instituição poliesportiva, priorizando distribuir sua força entre suas diversas modalidades e em suas elitistas instalações sociais ao invés de centralizar tudo em seu time de futebol.

    No Vélez, esse mesmo pensamento era pregado pelo único personagem a rivalizar com Spinetto em dedicação: o austeramente honesto cartola José Amalfitani, que já tinha na ocasião vinte anos de idas e vindas na gerência e terminou por distanciar-se momentaneamente nos anos 30 exatamente por desavenças internas. É que o Vélez, mesmo com campanhas de meio de tabela, mantinha uma crescente realidade superavitária desde 1932, quando parte dos três mil sócios já vinham buscando até separar o time de futebol da instituição social – enquanto outra defendia a unidade que permitisse um crescimento sustentável do conjunto.

    A campanha de 1935 empolgou em especial aqueles primeiros: com Spinetto deixando os deles contra os gigantes Racing e San Lorenzo, o clube ampliou seu próprio recorde contra o Ferro (registrando um 7-0 que permanece como maior goelada do dérbi), foi totalmente invicto em Villa Luro e saltou para um quarto lugar, além de ter em Agustín Cosso seu primeiro artilheiro de liga profissional. Os três mil sócios de 1932 já eram 7 mil.

    O combinado que deu a primeira vitória argentina no estádio Centenário: Spinetto, Santamaría (depois jogador de Fluminense e Botafogo), José González, Bello, Cuello, Minella, Bosio, Wergifker, De Jonge e o massagista Chichilo Sosa; Tomás González, Varallo, Naón (Flamengo), Sastre (São Paulo), Arrieta, Cusatti (Fluminense), Moyano e Peucelle

    Em 1936, houve dois campeonatos argentinos, ambos de turno único. No primeiro, com Spinetto registrando três gols, o Vélez repetiu a quarta colocação, a seis pontinhos de um título ainda inédito. No segundo, o volante dobrou os gols para seis, incluindo em um 4-1 no Independiente e dois em 8-1 no Tigre. Mas o Fortín despencou para 13º de 18 equipes, instalando uma crise que permearia pelo resto da década, mesmo que ela inicialmente não se refletisse em campo. Pois em 1937 os fortineros terminaram em quinto, com seu líder ganhando especial destaque em duelo contra o Chacarita, que abriu 2-0 em Villa Luro e terminou derrotado por 5-2 após Spinetto marcar simplesmente quatro gols – e apenas um foi de bola parada, o primeiro, convertendo um pênalti.

    O segundo veio em jogada individual e o da virada veio de cabeça. Com o jogo já em 4-2, anotou o último entrando com bola e tudo. Naquela tarde iluminada, ele terminou aplaudido pelos próprios adversários enquanto era carregado nos ombros dos colegas: foi o primeiro jogador de defesa a marcar quatro gols em um só jogo de que se tem registro na liga argentina. Além daquele poker, o volante-artilheiro ainda somou outros sete gols na campanha, incluindo em um 6-4 no vice Independiente.

    O clube de Avellaneda tratou de contrata-lo para o torneio seguinte. Tinha tudo para ser um momento especial: dois de seus maiores ídolos haviam se destacado no Rojo, segundo depoimento que ele dera já nos anos 70 à revista El Gráfico, da qual era leitor assíduo na juventude. Ele contou na ocasião que ao começar a jogar futebol “queria chegar a ter a personalidade de Luis Monti, o senhorio de Adolfo Zumelzú, a maestria do Nolo Ferreira, o disparo de Raimundo Orsi, a tenacidade e impulso de Alfredo Carricaberry, o vigor com quem Manuel Seoane apurava as defesas contrárias, tanto por cima como por baixo. Aquela juventude me serve para explicar tanta ambição. Porque era humanamente impossível que em mi pudessem reunir todas as características de quem eu admirava”.

    De todos esses nomes, apenas o de Seoane não havia figurado nos vices mundiais Olimpíadas de 1928 e/ou na Copa de 1930, mas era ele o maior artilheiro do Independiente até então, enquanto seu ex-parceiro Orsi vencera a Copa de 1934 pela Itália. O volante foi negociado por 12 mil pesos. E em 1938, o Independiente não só foi campeão como encerrou doze anos de jejum. Mas o casamento com o reforço não deu tão certo assim, com seu estilo combativo não se encaixando em um ambiente que prezava pelo jogo plástico.

    No Independiente campeão de 1938: Antonio Sastre (depois ídolo no São Paulo), Fermín Lecea, Spinetto, Fernando Bello, Celestino Martínez (depois jogador do Fluminense) e Sabino Coletta (depois beque do Flamengo); José Vilariño, Vicente de la Mata, Arsenio Erico, Emilio Reuben (outro futuro flamenguista) e Marcelino Funes

    Spinetto ainda contribuiu humildemente com três gols, mas admitiu: “ali, sei que jogava bem. Mas o que me acontecia? Que eu ficava olhando como esses gênios de Sastre, Celestino Martínez… e como um bobo me anulei, deixei de ser eu”. Em 1939, ele já estava de volta ao Vélez. O passo breve por Avellaneda, contudo, não o impediu de guardar amizades profundas dali – a ponto de fazer questão de, já regressado ao Fortín, revidar naquele ano alguém do Estudiantes que em 1938 havia arrancado três dentes do goleador rojo Arsenio Erico

    A desforra foi completa por Spinetto também marcou os dois gols de um 2-1 dentro de La Plata sobre os alvirrubros. O ídolo ainda guardou no 1-1 em clássico com o Ferro e em 2-2 como visitante sobre o ex-rival Racing. Mas no restante do torneio, o Vélez repetiu o décimo lugar de 1938 – ano em que o livro de balanço já se preocupava: “para nosso clube a sede social tem sido nos últimos anos um negócio tão ruim que tem arrojado uma perda mensal quase invariável de $ 800 a $ 1000”. Não por acaso, além de ter negociado Spinetto com o Independiente, em 1938 o time também se desfizera de seu artilheiro Cosso para o Flamengo.

    O prejuízo institucional reforçou quem defendia a separação do time de futebol. Testou-se para 1939 uma autonomia provisória, que não solucionou o declínio que se via em campo. Em 1940, Spinetto marcou três gols; o mais recordado deles foi em uma movimentada vitória de 5-4 sobre o Independiente, justamente, pela 29ª rodada. Aquele foi justamente o último gol do volante, que na elite profissional acumulou 44 em 210 jogos. Com isso, liderou por muito tempo a lista de goleadores entre os jogadores da retaguarda, até ser superado nos anos 60 inicialmente por José Rafael Albrecht – ele próprio um dos vinte maiores zagueiros-artilheiros do futebol a nível mundial.

    Os ex-colegas àquela altura lutavam por um inédito tricampeonato seguido no profissionalismo, enquanto os velezanos brigavam para não cair. Na 32ª rodada, o título garantiu-se matematicamente para o Boca. Restavam duas rodadas e na última o Fortín escapava do descenso mesmo perdendo em casa para o San Lorenzo, desde que o concorrente Atlanta não vencesse o Rojo.

    Quase cortado como primeiro em pé no Vélez campeão da segunda divisão de 1943, com o macacão com a letra E de “entrenador”. Ao meio, de preto, o goleiro Miguel Rugilo, que passaria pelo Palmeiras. O último em pé é outra vez o massagista Chichilo Sosa

    O Atlanta venceu por 6-4 em um duelo marcado por suspeitas de entrega por parte do Independiente como um troco por aquela derrota, sensação reforçada quando o Atlanta semanas depois cedeu sem custos seu melhor jogador ao adversário (José Battagliero). Na via oposta, o livro de balanço velezano de 1940 registrava que “o San Lorenzo queria levar Fernando García e alguns nos propunham negocia-lo pelos pontos dessa partida. Mas isso não era um proceder digno. Os dirigentes de 1940 perdemos a categoria, é certo, mas salvamos a honra do Vélez”. Nada que fosse bastante para conter o êxodo de sócios, que voltavam a ser 3 mil. Ou as dívidas, que levaram o clube a ser despejado de seu terreno alugado de Villa Luro.

    Os sócios já voltavam a ser 3 mil, as dívidas batiam na porta e o passo seguinte foi ser despejado do terreno de Villa Luro, que era alugado. Quem acreditou em um clube à beira da extinção foi Spinetto, que seguiu para a segunda divisão. E, sobretudo, o cartola Amalfitani, que voltou para ser presidente a partir de 1941 até falecer quase trinta anos depois. O time não se saiu mal em um primeiro ano de segundona, mas o quarto lugar não bastava em tempos onde só o campeão (o Chacarita, justamente o outro rebaixado de 1940) subia.

    Para 1942, Spinetto inicialmente foi defender o Acasusso, outro time da segundona. Mas após apenas duas partidas por lá, foi convocado por Amalfitani para tornar-se técnico de um Vélez ainda sem casa nova pronta – o terreno pantanoso em Liniers, solução encontrada pelo presidente, ainda vinha sendo trabalhado. A campanha foi novamente boa sem ser o bastante: terceiro lugar, a distantes doze pontos do campeão Rosario Central. Mas para 1943 o Fortín de Liniers estava pronto. E o aguardado título com acesso veio com sobras, a sete pontos do vice (o Unión) em tempos em que as vitórias valiam dois pontos e não três. Só o único ainda incaível, o Boca, segue ininterruptamente há mais tempo na primeira divisão.

    Já convertido em Don Victorio, Spinetto até diria inclusive que o rebaixamento fora positivo ao sedimentar uma gama de dirigentes sem vaidades para tirar o time da ruína. Ele seguiria firmemente como técnico velezano até os inícios de 1954: nenhum outro treinador permaneceu por dez anos seguidos à frente de um clube na primeira divisão argentina. Disputar o título foi um sonho distante, mas o ano de 1945 rendeu uma doce vingança de 8-0 sobre o Independiente e o ano de 1946 registrou um 6-0 como visitante no clássico com o Ferro e a partir de 1947 o Fortín emendou três torneios seguidos na metade superior da tabela. Inclusive, entre 1949 a 1953 soube vencer o Boca na Bombonera por três vezes após ter perdido 15 das 16 ocasiões anteriores onde foi visitante dos auriazuis.

    Os vices de 1953: Spinetto é o primeiro em pé junto a Armando Ovide, Nicolás Adamo, Oscar Huss, Ángel Allegri, Jorge Ruiz e Rafael García Fierro; Ernesto Sansone, Norberto Conde, Juan José Ferraro, Osvaldo Zubeldía e Juan Carlos Mendiburu

    Na nova década, então, o sexto lugar a oito pontos do campeão River em 1952 foi sucedido pelo vice-campeonato a quatro pontos do mesmo clube em 1953. Um detalhe esquecido é que no duelo direto o Fortín abriu o placar mas ainda no primeiro tempo teve dois jogadores expulsos. O concorrente igualou, mas La V Azulada se pôs à frente aos 43 do segundo tempo – mas foi a vez do autor do gol, Juan Carlos Mendiburu, terminar expulso por atrasar o reinício. Restavam poucos minutos para os velezanos sustentarem com oito homens um triunfo que os colocaria na liderança, mas Oscar Mantegari conseguiu arrancar o empate validado mesmo fazendo falta no goleiro. Pelos protestos contra a arbitragem, dois jogadores fortineros receberam seis rodadas de suspensão e outro, duas, dificultando a perseguição.

    Expulsões, inclusive, eram a crítica principal ao trabalho de Spinetto, que era sancionado além da conta – nada compreendido por árbitros e jornalistas em tempos em que treinadores viviam mais passivamente as partidas, sentados em seus bancos, enquanto Don Victorio espantava a todos ao portar-se com gestos e gritos à beira do campo. Uma de suas expulsões foi resgatada pela El Gráfico em nota póstuma em 1990: expulso pelo árbitro inglês Harry Hartles, Spinetto, que vivia a duas quadras do estádio velezano, se dirigiu ao lar e assim que saiu do banho foi comunicado pelo filho de que o juiz precisara sair escoltado de lá rumo à estação ferroviária. O treinador foi ao seu caminho para convida-lo a tomar chá. O juiz, de início receoso, passaria toda a noite na casa dos Spinetto.

    A sensação de que o título poderia ter vindo em 1953 não amargou o presidente Amalfitani (que ainda em vida foi homenageado com seu nome designando oficialmente o estádio em Liniers), que exaltou os dez anos de Spinetto no livro de balanço daquele ano, deixando ainda a mensagem de que: “a obtenção de um campeonato não é pretensão a qual não aspire o clube, a condição de que se admita de que não é essa a única fundamental ambição, e sim é ela a triunfante consequência de seu total valor institucional, determinado por realidades permanentes e em contínua evolução progressista. Bem vindo o auspicioso título, mas trate de buscar-se nele a influência de outras sugestões que não sejam as do mero triunfo desprovido de conteúdo essencial”.

    Don Victorio atendia em parte a essa ordem. Com efeito, seu perfil no Diccionario Velezano descreve que “seu trabalho se viu recompensado pela grande quantidade de figuras que surgiram à mercê de seu olho clínico, como Rugilo, Ferraro, Ovide, Allegri, Jorge Ruiz, Rafael García, Zubeldía, Conde, Sansone e Carmelo Simeone em sua primeira etapa como treinador velezano e José Miguel Marín e Carlos Bianchi em um dos muitos regressos ao Fortín que protagonizou para dirigir o time adulto ou as inferiores. Se por algo pôde converter-se em um símbolo do Vélez, não obstante, foi por essa personalidade ganhadora que tanto jogando como dirigindo logrou infundir em suas equipes, a ponto de definir um estilo futebolístico talvez pouco agradável à vista, mas definitivamente indispensável para pôr futebolisticamente o clube à altura dos mais poderosos”.

    A Argentina campeã da Copa América de 1959 sobre Pelé: Varacka, Griguol, Griffa, Murúa, Negri, Bertoldi, Nuín, Sosa, Cardoso e Cap; Mouriño, médico Héctor Venturino, preparador Adolfo Mogilevsky, os técnicos Spinetto, Della Torre e Barreiro, massagista Ildefonso Martínez, roupeiro Simon Straiman e Manfredini; Belén (cortado), Simeone, Brookes, Rodríguez, Corbatta, Nardiello, Güenzatti, Lombardo, Pizzuti e Callá

    Só que em 1954 o time vice-campeão caiu para nono e em 1955 brigou para não cair. Spinetto ainda seguia em Liniers no início de 1956, mas mudou de ares quando a temporada começou. Ironia histórica: foi treinar o Atlanta na segunda divisão. Foi uma edição especialmente concorrida da segundona, que tinha ainda Estudiantes, Argentinos Jrs e a dupla santafesina Unión e Colón brigando pela única vaga de acesso. O novo clube de Spinetto terminou em quarto ali e em 1955, anos de títulos e acessos de Estudiantes e Argentinos, respectivamente. Os frutos começaram a aparecer em 1956: o Bohemio venceu a Primera B com sete pontos de vantagem para o vice e saltaria para o auge de sua história.

    Após focar em salvar-se de nova queda em 1957, ano em que o treinador destacou que “em qualquer coisa que eu faço, ponho minha vergonha”, o clube de Villa Crespo emendaria campanhas se intrometendo entre os cinco primeiros a partir de 1958, quando terminou em quarto. O ano de 1958 também iniciou a campanha da principal conquista do Atlanta, a Copa Suécia, em caminhada percorrida na maior parte sob o trabalho de Spinetto, que dizia: “me deem um conjunto de homens que se respeitem e sintam afeto entre si e farei uma equipe moralmente indestrutível”. Por problemas de calendário, a semifinal só ocorreu em 1959 e a final, em 1960, quando ele já estava em outro ambiente: o da seleção argentina, que vinha de um vexame estrondoso na Copa do Mundo de 1958.

    Spinetto não chegou a assinar contrato com a AFA e não cobrou salários, se contentando em remunerar-se com os bichos. Conseguiu um paliativo ao orgulho argentino ferido ao preparar, em triunvirato com José Barreiro e José Della Torre e com a escuderia do inovador preparador físico Adolfo Mogilevsky (outro oriundo daquele Atlanta) a seleção campeã da Copa América de 1959 sobre um Brasil recém-campeão mundial – foi inclusive o último título da Albiceleste no torneio até 1991. A ausência de um contrato formalizado fez com que a Era Spinetto na Albiceleste não fosse contínua; na outra Copa América realizada naquele ano, o treinador foi o antigo astro José Manuel Moreno, mas Don Victorio (que ainda voltou rapidamente ao Atlanta naquele ano como interino) ainda foi convidado para trabalhar na Taça do Atlântico de 1960 e nas eliminatórias à Copa de 1962.

    A classificação ao Chile veio, mas uma pouco exitosa excursão à Europa e a não-aceitação de interferência de cartolas na escalação o fez deixar o cargo pelo qual venceu dez vezes, empatou quatro e perdeu somente duas (contra Itália e Espanha, naquela gira). O treinador no mundial seria Juan Carlos Lorenzo enquanto Spinetto, ainda em 1961, retornou brevemente ao Vélez – passagem onde teve o mérito de promover a vinda de um jovem Daniel Willington (futuro maestro do primeiro elenco fortinero campeão da elite, em 1968) junto ao Talleres, já no início de 1962. Mas o treinador não permaneceu para o restante da temporada: fechou o ano tendo regressado ao bairro de La Paternal, agora empregado pelo grande representante local, o Argentinos Jrs.

    No Huracán, sua vibração não contagiou. Mas no Atlanta era recebido sob aplausos perfilados. No Ferro, seu desempenho só foi ofuscado pela ligação extrema com o rival Vélez

    Seu primeiro ciclo no Bicho não foi tão exitoso, com duas campanhas na rabeira da tabela, embora sem a ameaça do descenso. Mas Spinetto seguia com renome para ser requisitado por um gigante adormecido feito o Huracán. Não transcendeu em Parque de los Patricios, cujo clube padecia de crise de grandeza já havia vinte anos e terminou em nono, só ganhando um duelo contra algum dos grandes, mesmo que de 1-0 sobre o Independiente campeão da América. Em 1966, ele refez seu nome em um último regresso ao time adulto do Vélez, quinto colocado. Em 1967, o Fortín foi terceiro em seu grupo no Metropolitano, perdendo por dois pontos a vaga nos mata-matas: calhou de concorrer com o campeão Estudiantes e com um Racing que em paralelo ganhava a América e o mundo. Estudiantes que era treinado por Osvaldo Zubeldía, antigo pupilo de Don Victorio no Vélez e no Atlanta, empregando em La Plata muito da astúcia defendida pelo mestre.

    Essa ligação de herança não se limitou à aquele momento. Não é raro creditar indiretamente a Spinetto até o título da Argentina na Copa de 1986, pois o treinador de então da seleção, Carlos Bilardo, era por sua vez herdeiro do pragmático resultadismo de Zubeldía – conclusão feita até pela mídia britânica. Mais concreto é que o Vélez ainda foi terceiro também na tabela geral do Torneio Nacional de 1967, mas o grande mérito de Spinetto naquele ano foi promover aos adultos o futuro maior goleador do clube: o jovem Carlos Bianchi. Em 1968, ele voltou a um Atlanta que já não lembrava o clube forte que o Bohemio pudera ser até desmanchar-se de vez ao fim de 1964. Em Villa Crespo, Spinetto também viria a ser o técnico com mais jogos na primeira divisão (205), conseguindo manter os auriazuis na elite ao fim da temporada – e fazendo a alegria deles mesmo na estreia pelo clube seguinte, o Lanús.

    O técnico chegou aos grenás em 1969 e começou sapecando um 7-1 no Chacarita, o tradicional rival do Atlanta. A ironia é que meses depois o campeão do Metropolitano de 1969 seria o próprio Chaca… O Lanús surfava em um celebrado elenco apelidado de Los Albañiles, eliminados nos critérios de desempate na vaga aos mata-matas de 1968 e que ainda manteram a toada sob o novo treinador – o time foi sexto em seu grupo no Metropolitano de 1969, o suficiente para pegar a última vaga para o Torneio Nacional. Em 1970, o Atlanta lhe requisitou de volta. E Spinetto reforçou a idolatria em Villa Crespo com um sétimo lugar no Metropolitano, a cinco pontos do campeão Independiente. Na via oposta, o Racing, desfalcado de seu comandante Juan José Pizzuti para a seleção, fizera sua pior campanha até então na elite: 11º. La Academia então buscou em Don Victorio seu quarto técnico naquele ano.

    Após ser bombeiro em Avellaneda, ele voltou ao Atlanta no primeiro semestre de 1971. A três pontos da degola no Metropolitano, o Bohemio deveu muito ao comandante para não ter caído. O Racing voltou a chama-lo – Spinetto, dessa vez, foi o terceiro treinador racinguista no ano, assumindo a partir da 25ª rodada de nova campanha de 11º lugar no mesmo Metro. Spinetto, notavelmente, dirigiu o triunfo na penúltima rodada sobre o então líder… o seu antigo Vélez. Que, como se não bastasse, concorria precisamente com o arquirrival de La Acadé, o Independiente. Os novos comandados de Don Victorio tiveram a esportividade de vencer, por um 1-0 não que tirou o Fortín da liderança, mas estendeu a definição do torneio à rodada final, onde nova derrota velezana realmente deu o troféu de bandeja ao concorrente. Já no Torneio Nacional, o trabalho de Spinetto terminou na metade inferior da tabela no Torneio Nacional e o treinador foi atrás de tranquilidade no Argentinos Jrs em 1972. Destacou-se no Nacional, onde o Bicho ficou em 3º em seu grupo. 

    O último grande trabalho de Spinetto foi no Argentinos Jrs maradoniano em 1978. Dieguito é o agachado à frente dos demais na foto esquerda. A outra foi tirada do próprio instagram de Maradona

    Para 1973, após estacionar o Argentinos em 10º no Metropolitano, o cenário foi um Ferro Carril Oeste que terminara na lanterna, beneficiado por não haver rebaixamento naquela edição. A simbiose Spinetto-Vélez foi tamanha que ofusca seu grande trabalho à frente do tradicional rival, pois a enciclopédia Ferro 100 Años diz com todas as letras que Don Victorio foi o maior técnico verdolaga abaixo de Carlos Griguol (por sinal, antigo aprendiz de Spinetto no Atlanta nos tempos de jogador), o único que pôde levar o clube de Caballito a títulos na primeira divisão (em 1982 e em 1984). Spinetto permaneceu seguidamente no Ferro até 1976. O clube saltara para um 3º lugar em seu grupo no Metropolitano de 1974, impedido de avançar ao quadrangular final após perder o jogo-extra para o Boca.

    No Nacional de 1974, a classificação do FCO ao hexagonal final veio. As campanhas seguintes foram menos empolgantes, gradualmente decrescentes até a luta contra o rebaixamento no Metropolitano de 1976 encerrar um ciclo celebrado. Para 1977, Spinetto voltou a virar a casaca, assumindo o Chacarita. Não transcendeu tanto como funebrero, mas cavou retorno ao Argentinos Jrs para polir a sensação Maradona. Dieguito já havia estreado pela seleção, mas foi sob o olho clínico de Spinetto que explodiu, conseguindo sua primeira artilharia na elite argentina – e, com isso, um 5º lugar no Metropolitano de 1978. No Nacional, porém, o Bicho murchou momentaneamente para a vice-lanterna do Grupo C.

    O treinador seguiu então trabalhando no Atlanta em 1979, conciliando o cargo do elenco principal e do juvenil. Mas o Bohemio já não desfrutava da mesma solidez de outrora: o velho ídolo só durou nove jogos após somar apenas quatro pontos neles, em temporada que resultaria em rebaixamento. Spinetto ainda trabalharia na segunda divisão, mas no Defensores de Belgrano entre 1981 (a três pontos da degola para a terceira) e 1982 (perdendo nos critérios de desempate a vaga nos mata-matas), antes de voltar ao Vélez para dedicar-se exclusivamente à formação de juvenis.

    Poliu parte substancial da garotada que anos depois triunfaria na Era Carlos Bianchi, embora não vivesse para saborear esses frutos: uma insuficiência renal o levou naquele 28 de agosto de 1990. Vinte anos depois, um Fortín em patamar totalmente distinto celebrou seu centenário. A revista El Gráfico publicou uma edição especial na qual somente ele, Bianchi, José Luis Chilavert e Omar Asad foram contemplados com perfis próprios, e “roubamos” da nota dedicada a Spinetto o título empregado nesta. E também a conclusão usada: “Don Victorio estava casado com Ángela, com quem teve dois filhos. Odiava os jogadores de cabelo comprido, sentia paixão pelo futebol e, sobretudo, amigo leitor, era torcedor do Vélez”.

    Outra com um jovem Maradona e polindo nos juvenis do Vélez um garoto Christian Bassedas, ícone dos dourados anos 90 do clube