50 anos do primeiro título mundial do futebol argentino: o do Racing de 1967

Basile, já de terno após a expulsão no 1º tempo, e o herói Cárdenas (com camisa trocada do Celtic) às lágrimas: futebol argentino campeão mundial

“Ninguém pensou que ia pegar desde tão longe no Centenário. Maschio diz que gritou ‘chuta!’ para mim, mas eu nunca escutei”.

Se o presente e em especial as cinco décadas passadas não ajudam muito, o Racing reforça seu orgulho no pioneirismo. Do primeiro campeão da elite argentina fundado fora da comunidade britânica. Do primeiro tetra, penta, hexa e hepta seguido no torneio (todos recordes ainda exclusivos), no ciclo de 1913-19. Do primeiro tri seguido no profissionalismo. Nenhum comparado ao do primeiro time argentino campeão mundial. Façanha tamanha que rendeu aplausos e pompa até dos próprios rivais, em tempos de mais calmaria entre as torcidas. Façanha alcançada naquele 4 de novembro de 1967 com um imortal chute de longa distância do autor da frase acima.

Os anos 60 representaram o auge do Clásico de Avellaneda como um todo. O Independiente venceu as primeiras Libertadores do futebol argentino, no bi de 1964-65. E naquele mesmo 1967 seria campeão argentino com um recorde de aproveitamento, campanha encerrada com um 4-0 exatamente sobre aquele Racing recém-campeão mundial. Antes da partida, um pompa inacreditável aos olhos de hoje, com mascotes carregados segurando os troféus internacionais que, na Argentina, eram até então exclusivos da dupla da cidadezinha de 300 mil habitantes. 

Foi nesse clima que os arquirrivais trocaram figurinhas. Em 1966, o Racing cedeu ao Independiente o volante José Omar Pastoriza, recebendo em troca Miguel Ángel Mori, bicampeão continental com os Rojos. Para Mori, era o destino: havia sido contratado pelo Independiente junto ao Sportivo Baradero, do interior. Ao chegar em Avellaneda, havia descido na frente do estádio racinguista até dar-se conta do engano e caminhar mais um quarteirão. Ele acabaria perdendo a partida de 50 anosa trás por um choque alérgico, mas declararia que o mundial “vale muito mais do que fiz no Independiente”.

Homenagens de River e até do Independiente. Inimagináveis hoje.

Outro vira-casaca era brasileiro: João Cardoso havia chegado ao Independiente em 1966, mas uma lesão o afastou por meses. Acabou repassado ao vizinho. Em entrevista ao Futebol Portenho, Cardoso detalhou que “a transferência para o Racing foi discreta e tranquila, fui vendido normalmente, sem problema nenhum. Quando vieram falar comigo, já estavam acertados com o Independiente. Naquela época, até a rivalidade entre os clubes era normal. Quando a imprensa soube, eu já estava contratado pelo Racing”.

Os alvicelestes haviam chegado em alto estilo ao cenário internacional, pois o título doméstico de 1966 foi fora do comum: foi no embalo de 39 jogos seguidamente invictos. Um recorde só superado na Argentina em 1999, pelo Boca de Carlos Bianchi. Quem derrubou a invencibilidade foi o River, com quem a Academia também cruzou no quadrangular-semifinal da Libertadores de 1967. Os de Núñez chegavam ao décimo ano de jejum e novamente levaram a pior. O que não impediu que os millonarios fizessem um corredor de sorrisos e aplausos aos algozes, em confronto dias depois daquela conquista racinguista mundial.

A Libertadores foi vencida em agosto, com direito ao brasileiro Cardoso marcando um dos gols do título. A importância do gol, porém, não o fez titular absoluto: foi justamente ele quem substituiu o lesionado Mori, titular do jogo de ida do Mundial, contra o Celtic. E vale um parêntese para realçar também o lado oponente: assim como o futebol de Avellaneda, o escocês também estava em alta. A seleção havia vencido naquele ano em Wembley a Inglaterra campeã mundial, com direito a embaixadinhas de Jim Baxter, cujo clube, o Rangers, foi finalista da Recopa Europeia – o segundo torneio europeu em importância.

A “mãe postiça” dos jogadores, Tita, foi a Glasgow após vaquinha entre eles (na foto, com Díaz e Basile). À direita, celebração do gol da vitória em Avellaneda – Cardoso é o jogador mais à direita

O Celtic, por sua vez, venceu um quádrupla coroa na temporada 1966-67: na Escócia, o campeonato, a Copa e a Copa da Liga. No continente, a primeira Liga dos Campeões vencida por uma equipe do Reino Unido (que só no ano seguinte veria um time inglês conseguir o troféu). O oponente derrotado foi a Internazionale, exatamente o time que havia duas vezes derrotado o Independiente nos Mundiais de 1964 e 1965. Tudo isso se entrelaçava na edição de 1967 do tira-teima, ainda que as manchetes argentinas (e internacionais) nos dias anteriores se dedicassem à morte de Che Guevara, em 9 de outubro.

No dia 19, teve início o Mundial. Os jogadores do Racing fizeram até uma coleta para levar junto a zeladora do clube e virtual “mãezona” para todos eles, em especial os que vinham de fora da Grande Buenos Aires: Tita Mattiussi. Em provável referência a ela é que o recordista de jogos pelo Racing, o zagueiro Gustavo Costas (dos anos 80 e 90), declararia sobre a passagem pela segunda divisão em 1984 e 1985: “com a história que tem esse clube, era terrível ter que ir jogar em Campana sabendo que na tribuna havia torcedores que haviam ido a Glasgow”.

No Hampden Park, os argentinos se dedicaram a defender, com pontapés se necessário, e gastar tempo em prol de um empate. Tiveram somente duas chances de gol: uma cabeçada de Alfio Basile por sobre o travessão e um chute no finzinho em que Juan José Rodríguez arrematou fraco diante de Ronnie Simpson. Os escoceses venceram pelo placar mínimo, com Billy McNeill acertando um cabeceio em escanteio aos 24 minutos do segundo tempo. E, importando-se para valer com o título à espreita, requisitaram à sua federação o adiamento de compromissos domésticos. Foram atendidos no campeonato, mas tiveram de jogar a final da Copa da Liga: em 28 de outubro, bateram o Dundee por 5-3, chegando então àquela quádrupla coroa.

O susto escocês ao ver um turbilhão de 120 mil pessoas, dentre elas o piloto Fangio (imagem ao meio). À direita, o goleiro Simpson após ser atingido

O escoceses saíram daquela final ao aeroporto para a disputa do Mundial em Avellaneda, em um voo da Aerolíneas Argentinas empregado apenas para apanha-los. O Racing teve alguns compromissos domésticos em outubro postergados, mas entrara em campo pelo Torneio Nacional no dia 29 de outubro, batendo por 2-1 o San Martín de Mendoza. O autor dos dois gols foi Juan Carlos Cárdenas, em prévia do que protagonizaria a princípio na partida da volta no dia 1º de novembro (data do aniversário de Alfio Basile) para 120 mil pessoas no Cilindro – dentre elas, o piloto Juan Manuel Fangio.

A boa notícia aos europeus: a comissão organizadora concluiu que a suspensão doméstica do astro Jimmy Johnstone não valia para jogos internacionais. A má: o goleiro Simpson, no aquecimento, foi atingido por um projétil (ou garrafa, ou pedra, conforme a versão…) e precisou dar lugar a seu reserva John Fallon. Do lado argentino, o brasileiro Cardoso entrou no lugar de Mori e o uruguaio Nelson Chabay, no de Rubén Díaz (com distensão muscular). Johnstone fez valer a mobilização. Derrubado por Agustín Cejas, originou o pênalti convertido por Tommy Gemmell aos 24 minutos de jogo. O empate veio doze minutos depois, assinado pelo artilheiro da campanha campeã da Libertadores: Norberto Raffo, em cabeceio descrito como “brilhante” pelo Evening Times. Raffo, por sinal, era outro ex-jogador do Independiente.

No início do segundo tempo, El Chango Cárdenas deu a vitória aos donos da casa, recebendo pelo passe de Juan Carlos Rulli para, livre, bater Fallon com tranquilidade. O técnico adversário Jock Stein reconheceu que os adversários foram superiores, razões até para protestar: “eles não precisavam disso. Eles foram os melhores hoje”, reclamou em referência ao jogo áspero da Academia. Três dias depois, a “neutra” Montevidéu foi utilizada para definir o título: ao lado da Argentina, mas com um estádio lotado de uruguaios a torcer pelos oponentes dos rivais históricos. O técnico racinguista Juan José Pizzuti, ciente disso, levou pugilistas amadores disfarçados de fotógrafos para a eventualidade de proteger seus jogadores.

Para fãs de cenas lamentáveis irem à loucura. À direita: uma agressão de Auld. Ao meio, Basile chama para a briga e à direita, é expulso pela polícia

No início da partida, Bobby Lennox entrou duro em Basile aos 4 minutos. Os dois lados entraram nervosos, com Cardoso chegando a perder gol na cara de Fallon aos 8. E também exaltados: aos 13, o capitão Oscar Martín foi ao chão com uma solada de Willie Wallace. Nesse momento, o juiz já pedia serenidade. O jogo ficou truncado no meio-campo, e somente aos 19 minutos o Celtic apareceu com perigo na área de Cejas, com Basile mandando para escanteio. Aos 23, após Chabay entrar em Johnstone, o árbitro buscou reforçar o pedido de calma, reunindo os dois capitães. Pouco depois, Cardoso cruzou para Cárdenas, que chutou desviado. Mas o jogo voltou a se travar no meio-campo. Os times passaram a usar do expediente do chute de longa distância e do bate e revida: aos 37, o jogo se paralisou após desentendimento entre Johnstone e Rulli. Os expulsos? Basile e Lennox, já aos 42 minutos.

O zagueiro lutava com John Clark, mas “já que eu ia embora, levei o melhor deles, que era Lennox e não Clark”. Lennox ficou desconsolado à beira-campo enquanto Basile foi direto ao vestiário, colocando o paletó. O primeiro tempo se encerrou sem maiores chances claras de gol. E o segundo começou da forma como o primeiro terminara: com confusão. Martín fez falta em Johnstone para brecar-lhe, e o ponta revidou fazendo o racinguista sangrar. Mesmo contra nove, os argentinos não conseguiam aproveitar espaços. Foi quando, entre os dez e doze minutos, Cárdenas resolveu arriscar de fora da área um lance que seria repetido à exaustão pela torcida alviceleste. Tanto que originou até gozações contra si: a de que, de tanto se prender àquela nostalgia, uma hora aquela bola irá para fora. El Chango fez cerca de uma centena de gols pelo Racing, mas aquela bomba de canhota bastou para eterniza-lo.

Não houve muito futebol além disso. Aos 29 minutos, foi a vez de John Hughes ir curtir o chuveiro adoidado. O Celtic estava com oito. Ainda assim, após o gol registrou-se somente mais um lance de perigo para o Racing em cruzamento de Martín para o cabeceio de Raffo, defendido por Fallon aos 35. No fim, Rulli deixou o Racing com nove jogadores, após acertar Gemmell. Bertie Auld também teria sua expulsão anunciada, mas peitou a arbitragem e permaneceu em campo. Aos 45 minutos, Bobby Murdoch entrou forte em Cárdenas. Com o novo tumulto gerado, o árbitro encerrou a partida e as fricções: os dois times trocaram camisas pacificamente e os argentinos deram a primeira volta olímpica mundial do país. E, sem saber, a Academia (então também o segundo time mais vencedor do campeonato nacional e com mais vitórias no Clásico de Avellaneda) também dava adeus à sua era de glórias.

Vieram desde ali somente mais três títulos (Supercopa 1988, Apertura 2001, Transição 2014) e um rebaixamento. “Detalhes” esquecidos a cada 4 de novembro desde 1967.  

O chute imortal de Cárdenas em Montevidéu e ele com o troféu

Cárdenas em busca do técnico Juan José Pizzuti

Os europeus “não dando a mínima” para o Mundial #TaSerto

“Tesouro meu”, dizia o veterano Maschio ao beijar a taça. Ao meio, com Perfumo. À direita, rodeada: Cárdenas e Perfumo agachados, e o ídolo santista Cejas no alto à direita

Reencontro de campeões nos anos 80

Cárdenas

Cárdenas, em foto dessa semana no Centenário

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Homenagens quarenta anos depois, em 2007: Raffo, Parenti, Mori, Maschio, Manilo, o brasileiro Cardoso e o técnico Pizzuti; Martinoli, Rulli, Chabay, Martín e Cárdenas

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Cejas, Basile, Perfumo, Martín, Chabay e Rulli; Cardoso, Maschio, Cárdenas, Rodríguez e Raffo 

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Caio Brandão
Advogado desde 2012, rugbier (Oré Acemira!) e colaborador do Futebol Portenho desde 2011, admirador do futebol argentino desde 2010, natural de Belém desde 1989 e torcedor do Paysandu desde antes de nascer

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