Passada a primeira fase, a Argentina se classificou em primeiro lugar no seu grupo, o A. O regulamento da Copa de 86 trouxe a volta das partidas de eliminatórias simples, cujo sistema não era utilizado desde a Copa de 70. O cruzamento previa o enfrentamento do primeiro colocado do grupo A contra um dos melhores terceiros colocados. Os quatro melhores terceiros se classificaram ao lado dos campeões e vices de cada grupo.
À Argentina coube nada menos que o Uruguai, que esteve no grupo E. Vale a curiosidade de que, no mesmo dia do duelo, nasceu em Buenos Aires o atual goleiro titular da própria seleção uruguaia. Houve bom humor da equipe hospitalar com os pais dele, uruguaios que optaram pelo nome Fernando em homenagem a Fernando Morena, o maior artilheiro do Peñarol, recusando a “sugestão médica” de Pedro Pablo, o nome do carrasco que a Celeste teve naquele 16 de junho de 1986. A família logo cruzou novamente o Rio da Prata para a margem oriental e Muslera ficou portenho apenas de nascença.
Na Copa de 1986, os uruguaios vinham em baixa, se classificando apenas entre os melhores terceiros colocados, uma novidade do regulamento, que aboliu o formato de uma segunda fase de grupos (adotado nas Copas de 1974, 1978 e 1982) por mata-matas iniciados em oitavas-de-final. Havendo oito grupos na Copa, a solução foi premiar os seis melhores terceiros colocados com essa sobrevida. Em seus grupos, Bélgica e Polônia puderam somar 3 pontos, enquanto a Irlanda do Norte ficou somente com unzinho.
As duas vagas restantes seriam de algumas dos três terceiros colocados que somaram dois pontos e se definiriam pelos critérios de desempate. A Bulgária foi a melhor dessas três e o Uruguai conseguiu ser menos pior do que a Hungria, avançando como o pior dos classificados: no grupo E, foram dois empates (1 x 1 com a futura vice-campeã Alemanha Ocidental e 0 x 0 com a Escócia do técnico Alex Ferguson) e uma derrota (o avassalador 6 x 1 contra a Dinamarca, pior derrota da história da Celeste em Copas). A Hungria até tinha vencido um jogo em seu grupo, mas na época vitórias valiam dois pontos. E o critério de desempate não foi o número de vitórias e sim o saldo de gols. O dela era negativo em sete gols, enquanto o dos uruguaios era negativo em cinco. Pesou sobretudo a dura derrota de 6-0 que os magiares sofreram em “dérbi comunista” com a URSS, na rodada inaugural.
Assim, 56 anos depois Argentina e Uruguai voltaram a se encontrar em uma Copa do Mundo. Na última vez que eles se enfrentaram numa Copa, o título da edição de 1930 esteve em jogo. Na ocasião, o Uruguai venceu por 4 x 2. Mas desde 1901 argentinos e uruguaios travam históricos embates no que é o “Clássico do Rio da Prata”. É uma das maiores rivalidades do futebol e em 180 jogos foram 84 vitórias argentinas, 55 triunfos uruguaios e 41 empates.
Em campo as genialidades de Diego Maradona e Enzo Francescoli. O “Pibe de Oro” contra o “Príncipe”. Francescoli era o maior astro do River Plate e artilheiro do time, que na época da Copa era o campeão argentino. Posteriormente, o “Millo” viria a ser o campeão da Libertadores e campeão do Mundial Interclubes, mas já sem o uruguaio, que se transferiu para o Racing francês. Além deles, um velho conhecido da torcida brasileira estaria em campo. Darío Pereyra, que fez fama jogando na defesa do São Paulo, seria escalado pelo técnico Omar Borrás no meio-campo, sua posição de origem.
Como em todo Argentina x Uruguai que se preze, o clima que antecedeu a partida foi tenso. Jornalistas dos dois países trocaram farpas na mídia. Numa tarde ensolarada de segunda-feira, cerca de 26.000 pessoas foram ao estádio Cuauhtemoc em Puebla para prestigiar a terceira partida das oitavas-de-final da Copa de 1986.
Maradona já era uma grande realidade e tinha provado isso na primeira fase. Jorge Barrios, encarregado de marcar o craque, era desafeto do “Pibe'” desde as categorias de base. Logo aos quatro minutos de jogo, Maradona começou a aprontar para cima da defesa uruguaia: numa jogada pela esquerda fez o cruzamento para Valdano, que foi travado por Gutiérrez. Sete minutos depois, novamente Diego entra pela meia esquerda e, após se desvencilhar da marcação, cruza com perfeição para Valdano. O jogador do Real Madrid chegou atrasado e não conseguiu concluir para o gol de Álvez.
A Argentina era melhor em campo e quase marcou aos 20 minutos. Numa cobrança de falta pela direita, Maradona chutou forte e a bola explodiu no travessão. O jogo era duro, com faltas ríspidas de lado a lado. O árbitro italiano Luigi Agnolin teve trabalho para coibir a violência e ainda no primeiro tempo deu cartão amarelo a Garré por uma entrada em Francescoli e em Francescoli pelo revide no lateral argentino.
Os argentinos continuavam a dominar o jogo e o gol saiu aos 41 minutos. O hoje técnico da Argentina Sergio Batista foi derrubado pela meia-direita, mas como a bola sobrou para Burruchaga a lei da vantagem foi aplicada corretamente por Agnolin. O ponta passou a bola para Valdano, mas a bola não lhe chegou. Na corrida, o zagueiro Acevedo tentou cortar e acabou dando um passe para Pedro Pablo Pasculli. O atacante do Lecce da Itália, que tinha sido campeão da Libertadores em 85 com o Argentinos Juniors, livre na área, tocou com categoria no canto esquerdo de Álvez.
Ainda no primeiro tempo o Uruguai quase empatou aos 44. Num lançamento de Bossio, o atacante Wilmar Cabrera passou do ponto ao tentar tocar de cabeça e a bola sobrou para Francescoli. O “Príncipe” dominou e se preparava para bater para o gol quando um pé surgiu na sua frente. Não foi o pé de Ruggeri e nem de Brown. Foi o pé do próprio Cabrera, que chutou precipitadamente para fora do gol.
O treinador uruguaio Omar Borrás voltou para o segundo tempo com Da Silva no lugar do incipiente Cabrera. Maradona continuou fazendo a festa na defesa uruguaia, porém pelo lado direito. Logo aos dois minutos o “Pibe” carregou a bola até a linha de fundo após ter saído de dois zagueiros e cruzou rasteiro para Pasculli, que chegou atrasado e perdeu a chance do segundo gol. Aos 16 minutos, o técnico Omar Borrás mandou sua equipe de vez para a frente ao sacar o zagueiro Acevedo e colocar o talentoso meia Rubén Paz, que atuava no Internacional.
Maradona seguia impossível. Aos 20 minutos fez uma jogadaça pelo meio e esticou a bola na direita para Valdano. O “Filósofo” carregou a bola até a área e cruzou para o “Pibe”, que completou para o gol. Num lance em que somente houve falta na intepretação do árbitro, o gol foi anulado. A “Celeste” melhorou e aos 27 Rubén Paz quase empatou, num chute cruzado pela direita. Aos 42 um chutaço de esquerda de Venancio Ramos encontrou um Pumpido muito bem colocado, que espalmou a bola e conseguiu pegar o rebote. Francescoli também tentou aproveitar e atingiu levemente o goleiro, que aproveitou para ganhar todo o tempo do mundo.
Não houve tempo para mais uma façanha uruguaia. Aos 47 minutos Agnolin encerrou o jogo. A Argentina passava para as quartas-de-final da Copa, vingava a derrota na final da Copa de 30 e mandava os uruguaios de volta para a casa. Dali a dois dias sairia o adversário da Argentina. Seria a Inglaterra, com quem a Albicelete faria um dos jogos mais sensacionais da história das Copas.
Veja os melhores momentos da reedição da final da primeira Copa do Mundo na Copa do México:
Ficha técnica:
ARGENTINA – Pumpido, Brown, Ruggeri e Garré (Olarticoechea); Cuciuffo, Giusti e Batista; Burruchaga e Maradona; Pasculli e Valdano
Técnico – Carlos Bilardo
URUGUAI – Álvez, Gutiérrez, Acevedo (Rubén Paz), Rivero e Santín; Barrios, Bossio, Darío Pereyra e Francescoli; Cabrera (Da Silva) e Venancio Ramos
Técnico – Omar Borrás
Árbitro – Luigi Agnolin (Itália)
Estádio – Cuauhtemoc (Puebla)
Público – 26.000
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