Corinthians e Estudiantes não são exatamente os clubes mais equiparáveis do mundo, mas tiveram, especialmente em anos recentes, certo número de elementos em comum.
O que a princípio aproxima são duas coincidências em especial. Os dois lograram um bicampeonato seguido entre 1982 e 1983 – o Timão, no estadual (então valorizadíssimo, diga-se), enquanto o Pincha emendou o Torneio Metropolitano de 1982 com o Torneio Nacional de 1983. Curiosamente, até travaram amistoso naqueles idos, com Zenon marcando o único gol visto no Pacaembu em 21 de janeiro de 1982. Até o ano de 2023, os duelos eram apenas amistosos em janeiro mesmo, sempre com vitórias alvinegras: 1-0 em 26 de janeiro de 1936 (gol de Teixeira) na Fazendinha e um sonoro 5-1 no Pacaembu em 17 de janeiro de 2009. Jorge Henrique marcou duas vezes, aos 31 e aos 40 minutos do primeiro tempo. Mauricio Carrasco diminuiu aos 23 do segundo, mas foi a antesssala da goleada, que veio em gols de Souza aos 24, de William aos 33 e de Otacílio Neto aos 41 minutos.
A outra coincidência é o fator fila: as duas torcidas precisaram suportar 23 anos sem títulos de expressão, por mais que o Torneio Rio-Sâo Paulo de 1966 tenha sido um troféu obtido entre 1954 e 1977 – assim como a segunda divisão argentina foi conquistada pelo garoto Verón em 1995 (ano, aliás, em que os alvinegros faturaram estadual e Copa do Brasil) em meio à seca que durou em La Plata entre 1983 e 2006. Portanto, o auge do Estudiantes entre 1967 e 1970 coincidiu com uma fase das mais complicadas do Corinthians, e disso resulta uma diferença sensível: nunca a grandeza corintiana foi posta em dúvida, com sua torcida talvez até aumentando de tamanho ao longo daqueles 23 anos. Nesse aspecto e no de intensidade, talvez a fiel lembre mais a massa do rival pincharrata, o Gimnasia.
De modo bem contrastante, nem aquela era dourada do fim dos anos 60 fez os alvirrubros conseguiram expandir seus fiéis para além de sua cidade, mesmo que chegassem a ser naquele momento o clube mais internacionalmente vencedor (justamente um quesito que os corintianos tanto demoraram a se consolidar) da Argentina. O Independiente pôde supera-los nos anos 70, mas o Boca seguiu atrás até 2000 e o River demorou até 2018 para se igualar em quantidade de Libertadores vencidas. Mesmo assim, os grandes seguem sendo cinco na tradição consolidada. E os cinco são esses outros três clubes, além de Racing e San Lorenzo, mesmo que esses dois tenham, somados, apenas a metade dos títulos do Estudiantes em La Copa.
Além de 1982, 1983 e 1995, Corinthians e Estudiantes também foram campeões em 2009 (o time de Ronaldo, no estadual; o do veterano Verón, em nova Libertadores, aliás) e em 2025, com Memphis e colegas conquistando estadual e Copa do Brasil enquanto o hoje presidente Verón dirigiu uma instituição “contra tudo e contra todos” para obter o Clausura – e então o Troféu de Campeões, o tira-teima com o vencedor do Apertura. Os duelos por essa Libertadores reeditam as quartas-de-final da Sul-Americana de 2023, onde cada time venceu em casa por 1-0, mas os brasileiros acabaram saindo classificados dentro de La Plata pelos pênaltis. Mesmo quem esteve nos dois clubes não conseguiu nível equilibrado por ambos. Eis os nomes:
Armando Renganeschi: ainda como zagueiro, foi cedido pelo Independiente aos platenses para o primeiro turno do campeonato argentino de 1938. E não agradou; foram só cinco jogos, que incluíram derrotas como 5-3 para o modesto Ferro Carril Oeste e simplesmente uma surra homérica de 8-1 – dentro de La Plata – para o River. Renga acabou redirecionado ao Almagro para o segundo turno. Foi como reforço barato que chegou ao Brasil, importado pelo Bonsucesso. E deu certo: logo aparecia em títulos estaduais no Rio (pelo Fluminense) e em São Paulo (com direito a marcar o gol do título como são-paulino). Se associou mais aos rivais do Corinthians, a propósito, pois foi técnico do Palmeiras finalista da Libertadores de 1961, quando avalizou a contratação de Ademir da Guia. A passagem corintiana só veio em 1978, substituindo o ícone Osvaldo Brandão. Apesar de só 4 derrotas em 21 jogos, não emplacou.
Alejandro Sabella: camisa 10 clássico formado pelo vitorioso River dos anos 70, embora fosse virar inquestionável a partir da passagem pelo Estudiantes, que o repatriou do Leeds United em 1982. El Pachorra era o maestro de um elenco que sabia jogar vistosamente sem deixar de lado a garra e intensidade tão impregnadas desde os anos 60 na cosmovisão pincharrata, como os gremistas bem entenderam na icônica “batalha de La Plata” na Libertadores de 1983. Foi por aquele Estudiantes bicampeão em 1982 e 1983 que Sabella virou jogador de seleção, ainda que não durasse até a Copa de 1986. Após pendurar as chuteiras, virou auxiliar técnico de Daniel Passarella por todos os anos 90 e quase todos os anos 2000, função na qual esteve naquele Corinthians “argentino” de 2005.
Em 2009, em crise na fase de grupos na Libertadores, o Estudiantes recorreu a Sabella como bombeiro: o antigo ídolo nunca tinha sido técnico principal, a não ser interinamente. Passarella deu a “alforria” ao velho parceiro e em poucos meses o improviso se mostrou um acerto meteórico, com o título naquela mesmíssima Libertadores. O resto é a história conhecida – o Estudiantes de Sabella esteve a segundos de ser campeão mundial sobre Messi naquele 2009, venceu o Apertura 2010 também e catapultou o técnico à seleção que terminaria finalista da Copa de 2014. Já dedicamos ao mestre esse outro Especial.
Sebastián Domínguez: Sebá chegou ao Corinthians junto com Tévez em 2005. Enquanto o atacante já tinha fama internacional, o zagueiro se credenciava pela forte defesa do Newell’s vencedor do Apertura 2004: com o ataque menos produtivo de um campeão na década, ela se mostrou vital. Domínguez ganhou o Brasileirão, mas já sem espaço entre os titulares, desaprovado pelos próprios conterrâneos Passarella e Sabella, desencantados quando o beque esbravejou contra ir à reserva; o próprio Domínguez, mais maduro, contaria que ambos estavam lhe testando sobre como lidaria sob infortúnio e que lhe recompensariam com a braçadeira de capitão corintiano se ele reagisse melhor ao comunicado de mentirinha.
Passarella e Sabella não durariam muito, mas o zagueiro não voltou às graças nem com Márcio Bittencourt, nem com Antônio Lopes (os comandantes seguintes na campanha do título) e nem com Geninho. Ao menos se livrou de integrar a temporada do rebaixamento, sendo repassado no início de 2007 para um primeiro ciclo no Estudiantes. Ressurgiu, integrando o plantel que fechou o pódio do Clausura. Sua passagem pelo Vélez na sequência da carreira seria ainda melhor. Após integrar diversos títulos velezanos no início da nova década e até se tornar esporadicamente jogador da seleção (inclusive quando Sabella era o treinador da Argentina), Sebá ainda voltou a La Plata por uma temporada (2015-16) antes de pendurar as chuteiras no Newell’s.
Mauro Boselli: enquanto Tévez explodia em 2003 no Boca, Boselli era lançado no time adulto em um batismo de fogo. É que sua estreia foi exatamente no catastrófico 7-2 sofrido para o Rosario Central em 6 de julho, rodada final do Clausura, na qual até o treinador xeneize era dos juvenis (foi Oscar Regenhardt e não Carlos Bianchi) para que titulares e principais reservas curtissem a ressaca da Libertadores (erguida quatro dias antes). Concorrendo com o ídolo Martín Palermo e o xodó Rodrigo Palacio nos anos seguintes, Boselli foi no máximo um reserva útil em cinco anos de contrato: foram 76 jogos, mas apenas 3279 minutos – a equivalerem a 36 partidas inteiras, engrandecendo os 19 gols que deixou.
Foi preciso a Boselli rumar ao Estudiantes em 2008 para ter reconhecimento e até virar um filho pródigo, com três ciclos. No primeiro, entre 2008 e 2010, foi referência ofensiva na reconquista da Libertadores em 2009 e recebeu até suas chances na seleção do técnico Maradona. O salto à Europa em 2010 não se mostrou exitoso, com ele reexibindo em La Plata entre 2011 e 2012 o calibre que não se vira no Wigan (que lhe comprara e rapidamente lhe emprestara ao Pincha), no Genoa e no Palermo.
Ele veio já veterano ao Corinthians, em 2019, credenciado sobretudo pelo faro de gol no México pelo León. Ganhou o estadual e teve números bons para alguém de 33 anos na primeira temporada (11 em 48 jogos), mas o declínio fez-se notar na segunda (6 em 24) e o contrato não foi renovado. Após passagem razoável pelo Cerro Porteño, Boselli iniciou em 2022 seu último ciclo no Estudiantes. E teve uma nova juventude: quase meio gol por jogo mesmo à beira dos 40 anos e título da Copa Argentina de 2023, a primeira volta olímpica do clube desde o Apertura 2010.
Javier Mascherano: chegou para aquele Corinthians da MSI já em julho de 2005, como diamante já bem lapidado no River e na seleção campeã olímpica de 2004. Começou de modo promissor em vitória no clássico com o Palmeiras, mas uma lesão precoce lhe impediu de sua participação no título brasileiro ser mais lembrada. Ele foi como corintiano à Copa do Mundo de 2006, mas já após o caldo da MSI entornar: a obsessão alvinegra por uma Libertadores ainda inédita havia parado justamente diante do River, em eliminação tumultuada na qual a expulsão de Masche no Monumental em nada ajudou – despertou até suspeitas na Fiel. A queda pesou para o volante e Tévez rumarem juntos ao modesto West Ham United pouco depois do Mundial.
Mascherano passou ao Liverpool ainda no meio da temporada inglesa de 2006-07 e logo se consolidou como um dos mais prestigiados de sua posição na Europa, sobretudo com o Barcelona campeão de tudo em 2011 e 2015. Justamente por ignorar a torcida do River no Mundial de Clubes, queimou-se perante a antiga torcida. Tachado de ingrato, declarou recentemente que sentia necessidade no ato para manter foco total a serviço dos catalães, algo que ele não conseguira quando enfrentara o ex-clube naquela Libertadores de 2006, deixando-se comover até demais pelo bom tratamento da hinchada riverplatense. Quando voltou à Argentina para jogar, acabou fazendo-o no Estudiantes, em janeiro de 2020. Acabou sendo apenas dez partidas antes de pendurar as chuteiras naquele ano.
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