Se o campeonato argentino segue em aberto para além dos fatores matemáticos, é porque o River fez uma apresentação pouco sólida hoje contra um time já rebaixado, o Argentinos Jrs. Mas, objetivamente, só perderá o título por uma soma de desastres. Não só venceu como se isolou na liderança para a última rodada e ainda por cima eliminou as chances que o arquirrival Boca e também o Godoy Cruz manteriam caso o Millo no máximo empatasse hoje.
Até ontem, o River dividia a liderança com o Gimnasia LP, ambos com 31 pontos. Mas um sorrateiro Estudiantes, que estava com 29, goleou no sábado os reservas do San Lorenzo por 3-0, com o quase-aposentado (será que agora vai mesmo??) Verón se despedindo de seus torcedores em La Plata com uma exibição de gala e colocando o clube do coração momentaneamente na ponta, com 32 pontos.
Para afastar as pretensões do Estudiantes, o sofrido arquirrival Gimnasia e o River teriam que vencer fora de casa. O Lobo platense tentou primeiro e se deu muito mal. Teve pela frente um Quilmes sedento para eliminar de vez os riscos de ser rebaixado – além da rivalidade que move as torcidas destes dois clubes, que lutam pelo rótulo de “mais velho clube do futebol argentino” (ambos foram fundados em 1887, com o Gimnasia sendo meses mais velho, mas só passando a chutar bola já no século XX).
O Quilmes venceu os triperos por 2-0, salvou-se e no próximo domingo terá pela frente o próprio River, que há pouco conseguiu arrancar com surpreendente dificuldade um 2-0 sobre o já rebaixado Argentinos Jrs em La Paternal. O primeiro tempo foi fraco, a não ser pelos lances em que Villalva perdeu mesmo após driblar o goleiro Fernández e em que Fernández espalmou para fora uma tentativa de cobertura de Lanzini desde fora da área. Com o empate parcial, o River se igualaria aos 32 pontos do Estudiantes e eles e o Gimnasia ficariam a mercê de Boca e Godoy Cruz, ambos com 29.
O jogo melhorou no segundo, mas não muito. Por bem pouco o Argentinos não complicou o Millo: Pisculichi faria uma obra-prima desde o meio-de-campo ao tentar encobrir desde ali o goleiro riverplatense Barovero, mas este se recuperou e mandou para escanteio. Foi na metade da segunda etapa que veio o alívio: cobrança de falta pela ponta-esquerda e Mercado, de carrinho, empurrou para as redes após a bola respingar-lhe depois de não ser afastada devidamente por Fernández.
O gol abriu a torneira. Em menos de dez minutos, o reserva Teo Gutiérrez definiu tudo ao colocar entre as pernas de Fernández e assinalar o 2-0. Poderiam ter vindo outros, mas o River não precisava de muito mais. Soma agora 34 pontos e seu maior obstáculo agora está no técnico do Quilmes, o folclórico Caruso Lombardi, que, amante de um ibope, adoraria atrapalhar um gigante de (voltar a) ser campeão. O Estudiantes tem 32 pontos e o seu rival Gimnasia LP, 31.
O próximo domingo poderá ter dois campeões ou nenhum. A seguir, os cenários. Qual deles terá sua preferência?
a) Se o River vencer OU se Estudiantes e Gimnasia LP não vencerem seus jogos (não poderão nem empatar), o título será do Millo depois de seis anos, maior jejum que o líder enfrenta desde que encerrou um de dezoito em 1975. Seria o reerguimento de um gigante que há mil dias estava na segunda divisão e que depois de dez anos voltou a vencer o Boca na Bombonera – por sinal a outra única vitória fora de casa do River nessa campanha, além da de agora.
b) Se o River perder e o Estudiantes vencer (o Tigre, fora de casa), o título será do Pincha. Seria um final de carreira apoteótico para o cracaço Juan Sebastián Verón, a parar de jogar como campeão novamente pelo clube do coração depois de quatro anos e tirando a taça justo do arquirrival Gimnasia, já tão sofrido. Estudiantes que vem apresentando o melhor futebol dessa reta final.
c) Se o River empatar e o Estudiantes vencer, eles se igualarão na liderança com 35 pontos cada e pelo regulamento terão de fazer um jogo-extra entre si para definir o campeão.
d) Se o River perder, o Estudiantes não ganhar e o Gimnasia LP vencer seu compromisso (em casa contra um Boca já sem chances e talvez desejoso em prejudicar o arquirrival), River e Gimnasia se igualarão com 34 pontos e o jogo-extra será entre eles. É a única chance do azarado Lobo de La Plata, que não é campeão argentino simplesmente desde o torneio de 1929, que ainda por cima é o seu único título na elite contra toda a galeria reunida pelo rival Estudiantes e que costuma até nem reconhecido ser: ainda são muito comuns os que só levam em conta as taças a partir do profissionalismo, em 1931. Seria enfim uma desforra para os triperos, que acabaram de voltar à primeira divisão nesta temporada.
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