Categoria: Histórias da Seleção

  • Los Carasucias: a garotada campeã da Copa América de 1957

    Los Carasucias: a garotada campeã da Copa América de 1957

    Los Carasucias de Lima foi o apelido da garotada que venceu a Copa América de 1957 com um dos ataques mais celebrados da história argentina. Corbatta, Maschio, Angelillo, Sívori e Cruz formavam a linha.

    Omar Corbatta (um Garrincha argentino pelos dribles na ponta e pelo alcoolismo), Humberto Maschio, Antonio Angelillo, Omar Sívori (um Maradona dos anos 50 e 60) e Osvaldo Cruz segue sendo uma das linhas ofensivas mais célebres do futebol argentino. Esse quinteto personificou o título sul-americano de 1957. Sua juventude e a sede do torneio, o Peru, gerou-lhes a alcunha de Los Carasucias de Lima – na Argentina, as espinhas e estripulias da puberdade faziam Carasucias (“Cara-Sujas”) ser uma gíria para moleques. Ontem fez-se 60 anos do encerramento da participação. E, juntamente, o fim da linha na Albiceleste para algumas daquelas estrelas.

    O quinteto poderia ser ligeiramente diferente. O ponta-esquerda titular seria Antonio Garábal, do Ferro Carril Oeste. Mas, nas vésperas do torneio, foi acertada sua venda ao Atlético de Madrid. Na época, a seleção não usava quem fosse de clube estrangeiro (o sindicato de jogadores proibia), política só alterada nos anos 70. O Atleti levou também outro pré-convocado igualmente dispensado, o meia-direita Dante Lugo, por sua vez do celebrado Lanús vice-campeão do ano anterior, em elenco apelidado de Los Globetrotters. Para o lugar de Lugo, foi mantido o jovem José Sanfilippo, futuro maior artilheiro do San Lorenzo.

    Sanfilippo, que ainda passaria por Bangu e Bahia, ainda ia começar uma trajetória consagrada de centroavante – mas para a Copa América era só uma das três opções de meia-esquerda, competindo com Juan Castro (Rosario Central) pela reserva de Sívori, já uma estrela do River. Sanfilippo, que era ambidestro, jogaria algumas partidas improvisado nos dois flancos do meio-campo ofensivo. A juventude não se limitava ao quinteto ofensivo titular, com idades entre 19 anos (Angelillo) e 23 (Maschio), mas também a alguns reservas: Sanfilippo tinha 21, Héctor de Borgoing tinha 22, Juan Castro possuía 23, Miguel Juárez tinha 20 e Roberto Brookes, 19.

    A delegação inteira: Iñigo, Schadlein, Rossi, Roma, Guidi, Pizarro, Domínguez, Mantegari, Benegas e Giménez; Dellacha, os dirigentes Russo, Pérez, Micelli, Colombo e Pisano, o técnico Stábile, o delegado Rotilli, o médico Verna, o fisioterapeuta Taddei e Vairo; Cruz, Corbatta, De Bourgoing, Castro, Juárez, Maschio, Angelillo, Sívori, Brookes e Sanfilippo

    Para o lugar da Garábal, assumiu Cruz (que segundo o técnico Stábile não era nem de longe igual a Garábal, cuja saída foi considerada desastrosa…), do Independiente, raro atacante mais experiente, mas ainda assim com 25 anos: futuro campeão pelo Palmeiras na Taça Brasil de 1960 (fazendo gol na final), ele já defendia a seleção desde 1953, ano em que o Rojo fizera história como primeiro clube a fornecer de uma só vez um quinteto ofensivo inteiro à seleção argentina. Na ocasião, a estrela era o colega Ernesto Grillo, que perdera a forma ao ficar meses inativo por recusar excursionar com seu clube após a temporada de 1956. Já o reserva de Cruz foi El Inglés Brookes, a despeito de ter sido rebaixado com o Chacarita em 1956.

    Apesar da campanha celebrada de 1956, com a saída de Lugo o Lanús teve só um convocado, seu craque Héctor Guidi. Maiores campeões da década, River e Racing dominaram a convocação. Além de Sívori, o Millo forneceu o zagueiro Federico Vairo, o volante Néstor Rossi, o lateral-direito Oscar Mantegari e o ponta-direita De Bourgoing (os dois únicos não-titulares; De Bourgoing jogaria a Copa de 1966 pela França). Já da Academia saíram Corbatta, Maschio, o goleiro Rogelio Domínguez (que jogaria no Flamengo), o lateral Juan Carlos Giménez e o zagueiro e capitão Pedro Dellacha, todos titulares. Os únicos dois “intrusos” na escalação que começava jogando era o lateral-esquerdo Ángel Schadlein, do Gimnasia LP, e o centroavante Angelillo, do Boca, que teve década péssima nos anos 50.

    Eram outros tempos. Os dirigentes da AFA tinham tanto peso quanto o próprio técnico Stábile, não sendo mero capricho a inclusão deles na imagem acima: o treinador se limitava a peneirar nomes pré-estabelecidos por uma comissão dos cartolas, o que foi feito a menos de um mês da estreia. Não havia concentrações ou maiores trabalhos táticos. Em tempos em que só o talento bastava, a delegação não viu necessidade nem mesmo de levar consigo um preparador físico – no máximo, um médico (Félix Verna) e um misto de fisioterapeuta com massagista (Atilio Taddei), que são, respectivamente, o último em pé e o último agachado na imagem que abre a matéria. O restante é formado por Giménez, o técnico Stábile, Domínguez, Dellacha, Rossi, Schadlein e Vairo; Corbatta, Maschio, Angelillo, Sívori e Cruz.

    Corbatta, Maschio, Angelillo, Sívori e Cruz. Ao lado, o trio central Maschio, Angelillo e Sívori (todos vendidos ao futebol italiano após o torneio) 40 anos depois

    Em ironia histórica, antes da campanha começar a imprensa argentina teimava com a qualidade daquele time. A nota pós-título da revista El Gráfico  foi intitulada “Sim, é uma grande equipe!” para ser exatamente um contraponto a outra, anterior, nomeada “Será tão boa essa equipe?”, publicada no meio da competição mesmo com o elenco já apresentando goleadas – contudo, sob contexto onde eram vistas como meramente protocolares, ante a enorme distância técnica da Albiceleste para a maioria das nações vizinhas. Abismo que faziam os hermanos até se permitirem algum fair play bastante prejudicial a si próprios…

    Isto ocorreu na estreia, hoje mais lembrada por exibição dourada de Maschio, autor de quatro gols. Mas a memória mais vívida do goleiro Domínguez foi outra, estressante e a perdurar por décadas, ainda que já convertida em folclore: em 1997, em reunião dos campeões promovidas pela El Gráfico, ele recordou, se referindo a Angelillo: “uma vez me deu vontade de mata-lo. Foi na primeira partida, contra a Colômbia. Resulta que dão um pênalti a eles. Eu agarro e este animal vai e diz ao árbitro: ‘senhor juiz, tem que fazer chutarem de novo, o goleiro se adiantou’. Fez chutarem de novo e me meteram. No intervalo, Stábile e eu fomos em cima para lhe pedir explicações, e com toda a tranquilidade disse ao técnico: ‘não se esquente, mestre, não vi que isto não é uma partida? Nestes aí fazemos oito”.

    O resultado final? 8-2. Que seriam até mais, se Corbatta não perdesse um pênalti…

    A sequência foi “econômica”, um 3-0 no Equador com dois de Angelillo e outro de Sívori). A nota que duvidava da grandeza da equipe saiu após o jogo seguinte, mesmo que sendo nada menos que um 4-0 sobre o Uruguai. É que a Celeste não era tão “verdadeira”: simplesmente não chamou ninguém do Peñarol e, em tempos onde não se convocava quem ia jogar no exterior (diretriz generalizada, razão pela qual Alfredo Di Stéfano não era chamado desde 1947), já não contava com lendas vivas como Juan Alberto Schiaffino ou Alcides Ghiggia – que naquele 1957, por conta dessa política e pela cidadania ancestral, acabariam jogando juntos pela seleção italiana mesmo. Os uruguaios ainda vinham de derrota de 1-0 para a tão goleada Colômbia, na grande zebra da edição, e de fato não iriam à Copa de 1958.

    Avaliações das imprensas brasileira (que avaliou o goleiro Domínguez como “infinitamente superior” a Gilmar!) e argentina (que duvidava dos campeões!). À direita, o veterano Rossi

    Maschio, autor de dois gols no clássico platino, seria o artilheiro da Copa América. Mas a safra argentina era tão promissora que houve gol até de Sanfilippo, que entrara faltando dez minutos para o fim no lugar de Sívori para fechar o placar (Angelillo fez o outro), e isso que ambos haviam sido noticiados como lesionados após a partida anterior. O jogo seguinte, contra o Chile, terminou em outro passeio, 6-2, mas a vida não começou fácil, com o primeiro tempo empatado com os chilenos buscando duas vezes a igualdade antes dos primeiros 30 minutos. Maschio e Angelillo foram os fiéis da balança, anotando dois gols cada um. O jogo seguinte já permitia título com uma rodada de antecipação. Pela frente, o Brasil, cujo atacante Evaristo de Macedo havia estabelecido um recorde ainda vigente na Amarelinha: cinco gols em um só jogo, nos 9-0 sobre a Colômbia.

    O torneio foi justamente o chamariz para Evaristo ser negociado com o Barcelona – e acabar sendo outra “vítima” do costume de não ser chamado por sua seleção. O Brasil, de resto, era basicamente o elenco que dali a um ano viria a ser campeão do mundo, exceto à ausência de Pelé (só dali a três meses é que o Rei estrearia pela seleção). E levou de 3-0. Placar que segundo o Jornal dos Sports “traduz o andamento do match“. Os brasileiros entraram na partida não podendo sofrer gols e tendo de vencer por pelo menos dois, para igualarem-se aos hermanos na pontuação e reverterem o desfavorável goal average.

    Com relativo equilíbrio nos primeiros minutos (o jornal noticia que Gilmar salvou de forma “sensacional” uma falta de Schadlein e que os brasileiros poderiam ter aberto o placar depois, com Didi emendando falta de Joel), pouco a pouco o domínio passou aos alvicelestes; Zózimo ainda salvou chute por cobertura de Sívori. Aos 23 minutos, Angelillo abriu o placar. É a imagem que abre a matéria: ele pôs no canto de Gilmar, aproveitando um rebote em Djalma Santos de um tiro de Sívori, que recebera de um Cruz lançado desde a defesa por Schadlein. Maschio quase ampliou em seguida, mas outro voo elogiado de Gilmar salvou para escanteio. A resposta foi de Pepe, que teria perdido “gol certo” que Domínguez pôs também para escanteio. Os brasileiros chegaram até a empatar com Joel, mas o lance, aos 39 minutos, foi anulado por falta dele. Já Sívori desperdiçou boa chance no finzinho ao isolar.

    Após o título, o sorridente goleiro Domínguez juntou-se a Di Stéfano (ambos à esquerda) no Real Madrid. A Argentina não chamava quem jogava no exterior e assim a Itália nacionalizou o trio Angelillo, Sívori (juntos na imagem central) e Maschio (à direita)

    No intervalo, Castilho substituiu Gilmar. Ainda no primeiro tempo, o técnico Osvaldo Brandão já havia sacado Evaristo para pôr Índio. A outra substituição brasileira foi da estrela Zizinho: maior artilheiro das Copas América ao lado do argentino Norberto Méndez, o “Mestre” disputava-a pela última vez, sem reluzir: foi descrita como “anulado” pela marcação de Rossi e deu lugar a Dino Sani. Pouco adiantou: Angelillo chegou a ampliar logo, mas o gol foi anulado por impedimento. O Jornal dos Sports chega a narrar que “os portenhos jogam fácil e bonito. Comandam a peleja pela contagem mínima, mas cumprem brilhante exibição. Quase todo o quadro portenho atua no campo (de defesa) nacional”. Ainda assim, quase Índio empatou, em sem-pulo que raspou a trave de Domínguez.

    Aos 39 minutos, o ataque brasileiro já era descrito como completamente descontrolado. Não conseguiu qualquer abafa. Angelillo quase marcou de cabeça. “O domínio é inteiramente dos portenhos. Jogam bonito. Jogam fácil. Dominam os rebotes. Ataques coordenados e seguros. Os brasileiros decrescem de produção. Não se entendem e são amplamente dominados”. A torneira então se abriu nos minutos finais: aos 42, Rossi passou por dois brasileiros, entregou a Angelillo, que acionou Maschio. O racinguista encobriu Castilho e pôs 2-0. Didi ainda levou perigo a Domínguez, em falta que Joel cobrou em direção ao “Príncipe”.

    Mas Dino Sani perdeu a cabeça e empurrou Vairo. Na cobrança da falta, Maschio acionou Angelillo, que desferiu um balaço na trave. Cruz aproveitou o rebote e encheu o pé: 3-0 assinalados aos 46 minutos. Os brasileiros ainda buscaram um gol de honra na saída de bola, mas Rossi interceptou passe de Índio a Joel e puxou o contra-ataque a Angelillo quando o juiz britânico Robert Turner apitou o fim. O Jornal dos Sports reconheceu que o placar merecia ser até maior, criticando a passividade brasileira mesmo elogiando o ambiente interno de trabalho, o qual não seria uma desculpa para o fracasso, tampouco a convocação.

    Juan Carlos Giménez, o técnico Guillermo Stábile, Rogelio Domínguez, Pedro Dellacha, Néstor Rossi, Ángel Schandlein e Federico Vairo; Omar Corbatta, Humebrto Maschio, Antonio Angelillo, Omar Sívori e Osvaldo Cruz

    O técnico Brandão foi isentado também: “cumpriu sua missão. Não podia era abrir o peito de cada jogador e colocar dentro dois quilos de coragem e quatro quilos de nervos ‘à prova de jogos decisivos’”, pois a desvantagem prévia canarinho devia-se a derrota para aquele decepcionante Uruguai: “quando um jogador veterano como Néstor Rossi consegue saltar mais alto que todo o scratch brasileiro, quando este mesmo jogador se impõe na cancha através de gritos e comandos, só podemos sentir que o nosso quadro está psicologicamente inferiorizado, dominado, tomado, abatido”.

    Sobre o xerife, único remanescente da dourada geração argentina dos anos 40 e apelidado de “Patrão da América”, uma crônica do jornal acrescentou o agravante de alguma tietagem: “nunca hei de me esquecer a cara que fez um inteligente moço do nosso plantel, ao se pôr ao lado de Rossi. Era como se o pobre estivesse no Aconcágua! E o velho e experiente Néstor não quis saber de conversa. Ao verificar que o brasileiro o olhava com tamanha admiração, gritou mais do que costumava. E driblou mais!”. A conclusão do jornal conseguiu ao mesmo tempo um erro e um acerto incríveis: “ainda levaremos uns 20 anos para chegarmos a realidade ideal. Até lá não poderemos culpar ninguém pelos nossas grandes derrotas. Outras maiores que essa contra a Argentina podem surgir”.

    Já há 60 anos, a Argentina foi derrotada por 2-1 pelo anfitrião Peru, resultado que a própria imprensa brasileira creditou à falta de interesse de quem já era campeão, com o próprio capitão Dellacha declarando-se favorável ao uso dos reservas, no que não foi atendido por Stábile. Um ano depois, muita coisa mudou. O trio central Maschio-Angelillo-Sívori foi vendido ao futebol italiano – foi vendendo Sívori que o River pôde concluir o Monumental, que ainda era em formato de ferradura. Domínguez, ao Real Madrid de Di Stéfano. Sem poder usá-los, a Argentina passou vergonha na Suécia (o único a se salvar foi justamente o endiabrado Corbatta, único Carasucia titular remanescente na Copa de 1958), eliminada na primeira fase e, após dezoito anos, despedindo Stábile, técnico mais vitorioso e longevo da Albiceleste.

    Já o Brasil…

    Reunião dos quarenta anos, em 1997. Seguem vivos Benegas, Cruz, Angelillo e Sanfilippo
  • Brasil x Argentina em 1937: o desempate que decidiu a Copa América

    Brasil x Argentina em 1937: o desempate que decidiu a Copa América

    Brasil x Argentina na final de 1937 foi o primeiro encontro decisivo entre as duas seleções. O jogo extra definiu o título sul-americano.

    Se desde os anos 70 a Copa América é normalmente concluída em mata-matas, no passado o torneio era mais enxuto e se desenrolava em pontos corridos de turno único. Era assim a edição da virada de 1936 para 1937, o que não impediu uma autêntica final, em jogo-extra travado pelas duas seleções que terminaram na liderança – logo elas, que não se enfrentavam havia doze anos. Foi a partir daquele momento que a rivalidade com o Brasil começava a ganhar espaço em relação à com o Uruguai (ainda chamada na época de Clásico de los Clásicos pela revista El Gráfico, por exemplo) para os hermanos. O torneio, por sinal, serviu para redimir algumas frustrações. Já a final iniciou-se em 1 de fevereiro e só encerrou-se na madrugada para o dia 2, ou há exatos 80 anos.

    Dentre os campeões, gente frustrada das Copa de 1930 e 1934 e do fenomenal Estudiantes de 1931. Dos de 1930, Roberto Cherro defendia a Argentina desde 1924 e conseguiu notável média de 0,75 gols por jogo por ela. Foi o maior artilheiro do Boca no século XX. Mas El Cabecita de Oro, acometido de uma crise nervosa, abriu mão de jogar nas partidas seguintes. Foi assim que a vaga ficou com o futuro artilheiro do mundial, Guillermo Stábile. Cherro reeditou na seleção a fantástica dupla com Francisco Varallo, que por sua vez foi o segundo maior artilheiro do Boca no século passado – e o maior na era profissional. Varallo também estava na Copa 1930.

    Com o tempo, ele ficou conhecido como último sobrevivente da final (faleceu aos cem anos, em 2010). Sempre lamentou um chute seu ter parado na trave quando os hermanos ainda venciam. O detalhe é que El Cañoncito jogou a final lesionado. Na época, ele ainda era do Gimnasia LP, que meses antes havia sido campeão argentino (pela única vez). Um dirigente do clube pressionara pela escalação de seu jogador, em detrimento do concorrente Alejandro Scopelli – atleta do rival Estudiantes. Scopelli, por causa da lesão de Varallo, havia atuado na impiedosa semifinal de 6-1 nos EUA.

    Pois bem: Scopelli também estava em 1937, já como jogador do Racing, onde conseguira incríveis 44 gols em 60 jogos. Em 1931, integrara o ataque Los Profesores do Estudiantes. Mesmo meia, fez 33 gols, só um a menos que o artilheiro do campeonato, Alberto Zozaya, também do Estudiantes e outro da Copa América de 1937. Outro alvirrubro de 1931 era Enrique Guaita, que também estava no Racing em 1937 após acompanhar Scopelli na Roma e na seleção italiana (pela qual vencera a Copa de 1934). O time de La Plata fez 103 gols em 1931, contra “só” 85 do campeão Boca (de Cherro e Varallo). Falamos aqui daquele superataque e aqui daquele campeonato.

    Scopelli (atrás), Zozaya e Guaita (campeão da Copa de 1934) reeditavam fenomenal ataque do Estudiantes de 1931. À direita, García na imprensa brasileira

    A seleção de 1937 tinha também o ponta Carlos Peucelle, que marcara gol na final de 1930, quando ainda era atleta do extinto Sportivo Buenos Aires. Um ano depois, foi ao River em transferência que rendeu ao clube o apelido de Millonarios. Fama reforçada outro ano mais tarde, quando foi adquirido Bernabé Ferreyra, do Tigre. Ferreyra foi outro frustrado de 1930, mas por não ter ido à Copa. foi limado após ir mal no último amistoso preparatório – o detalhe é que no mesmo dia havia doado sangue à irmã. Uma pena. Em 1931, El Mortero de Rufino foi o quinto na artilharia por uma equipe antepenúltima colocada. Na nova casa, faria incríveis 187 gols em 185 jogos, projetando o River nacionalmente. Havia também os frustrados da Copa seguinte (como ele também).

    Em 1934, os melhores jogadores do país ficaram de fora, não liberados pelos principais clubes, rompidos desde 1931 com a associação reconhecida pela FIFA. Dentre esses desfalques, o citado Alberto Zozaya; o multi-homem Antonio Sastre, hábil em qualquer posição e que já brilhava no Independiente e futuramente grande ídolo do São Paulo; e o volante José María Minella, líder do belo Gimnasia quase campeão de 1933. Ele já estava no River, campeão argentino de 1936 (o que não impediu a ausência de luxo de José Manuel Moreno, maior jogador argentino da primeira metade do século XX e já estreante na seleção). Outro campeão de 1936, na liga rosarina, foi o pequeno Central Córdoba, que a vencia só pela segunda vez. Taça que marcou a aposentadoria de Gabino Sosa, ídolo do clube e da seleção nos anos 20. E que rendeu a convocação de um jovem chamado Vicente de la Mata.

    De la Mata fez 19 anos durante a Copa América, idade que na época ainda o fazia “de menor”. O hábil driblador precisou da assinatura do pai para formalizar na véspera daquela final sua ida ao Independiente, onde jogaria em altíssimo nível pelos próximos dez anos. Outro filho da refinada escola rosarina era o ponta Enrique García, um Garrincha canhoto cujo andar igualmente torto lhe rendeu o apelido de Chueco. Ex-Rosario Central, virou ídolo no Racing mesmo sem títulos. Já o rival Independiente, com De la Mata, conquistaria seus primeiros títulos profissionais já em 1938 e em 1939, e em 1948. As conquistas anteriores do Rojo, ainda no amadorismo, eram dos distantes 1922 e 1926, quando a estrela máxima era Manuel Seoane. Seoane havia sido o herói do Brasil x Argentina anterior, que decidiu a Copa América de 1925. Agora, era o técnico da Albiceleste

    O Brasil, aliás, vinha se ausentando de todas as Copas América desde aquela polêmica decisão de 1925, desmistificada neste outro Especial. Nesse ínterim, também não vinha enfrentando a Argentina. Foi o maior hiato de confrontos entre as duas seleções. Como em 1925, Buenos Aires sediaria o torneio. Começaria em 26 de dezembro, mas a chuva adiou a estreia anfitriã e quem abriu as disputas foi o reestreante Brasil (sem jogadores de Flamengo e Fluminense, pela velha politicagem, similar à que fez aquela Argentina de 1937 sequer entrar nas eliminatórias à Copa de 1938) no dia seguinte: 3-2 no Peru. Curiosamente, para pesadelo de alguns, naquele dia o Brasil foi vermelho: usou a camisa do Independiente pois tanto os tupiniquins como os peruanos só tinham consigo camisas predominantemente brancas. 

    Sastre, ídolo no São Paulo. E o Brasil uniformizado de Boca: Jurandir, Tunga, Jaú, Brandão, Tim, Nariz e Luizinho; Roberto, um dirigente, Patesko, Carvalho Leite, um dirigente e Canalli

    Três dias depois, Varallo fez os dois gols argentinos nos 2-1 no Chile. O ataque mesclava River, Racing e Boca: Peucelle, Varallo, Ferreyra, Scopelli e García começaram jogando e Cherro substituiu Scopelli nos últimos quinze minutos. Uma linha tão boa que Sastre foi deslocado para a lateral-direita, brilhando ainda assim. Brasil e Argentina venceram seus compromissos seguintes: 6-4 dos brasileiros (que usaram o azul e amarelo que o os caracterizaria – mas dessa vez era a camisa do Boca…) sobre o Chile (cuja camisa principal ainda não era vermelha e sim branca, como a do Brasil) e inapelável 6-1 dos argentinos sobre o Paraguai. Ferreyra, que inexplicavelmente nunca rompeu na seleção, ficara no banco. O substituto foi Zozaya, que marcou três. Scopelli fez outros dois e García, o outro.

    O Brasil também massacrou o Paraguai (5-0) enquanto a Argentina diminuiu o pé contra o Peru: 1-0, gol de Zozaya. O ataque dos 6-1 fora mantido com exceção de Scopelli: Cherro começou jogando e na última meia hora foi substituído pelo estreante De la Mata. O compromisso seguinte dos líderes foi contra o Uruguai. Campeã da edição anterior, em 1935, a Celeste mal era sombra de quem encantava o mundo. Havia perdido para Paraguai (4-2) e Chile (3-0). Mas os uruguaios fizeram jogo duríssimo primeiro contra os brasileiros, que estiveram duas vezes atrás no placar. Mas viraram para 3-2 e se isolaram temporariamente na liderança. A Argentina esteve irreconhecível na sua vez de pegar o Uruguai. Começou perdendo de 3-0 nos primeiros 60 minutos.

    O ataque titular do dia era Peucelle, Varallo, o garoto De la Mata, Scopelli e García. De la Mata não se deu bem e foi sacado por Zozaya no intervalo. Varallo e Zozaya diminuiriam a conta, mas os hermanos terminaram derrotados. Precisavam vencer a rodada final – contra o Brasil – para forçar um jogo-desempate. Em 30 de janeiro, o estádio do San Lorenzo viu o placar mínimo garantir sobrevida aos anfitriões, gol de García. Poderia ser por mais se Varallo e Scopelli não encontrassem o travessão. No ataque, Peucelle dera lugar a Guaita. Varallo completava o quinteto ofensivo. No intervalo, Cherro substituiu Scopelli (mudança mantida para o jogo-extra, onde o goleador do Boca começou jogando). A vitória argentina não foi tranquila: brasileiros cercaram o árbitro uruguaio Aníbal Tejada, que, ultrajado, recusou-se a apitar o jogo-extra, a cargo do também uruguaio Luis Mirábal.

    Mas Mirábal não escapou de polêmicas, muito maiores. Mas nem por isso do nível da manchete “Quase Chacinados” do Jornal dos Sports. “Na verdade, perdemos porque eles jogaram melhor”, assumiria décadas depois à Placar o atacante Tim (ainda na Portuguesa Santista!) sobre o tal “jogo da vergonha”. Já o livro Brasil x Argentina – Histórias do Maior Clássico do Futebol (1908-2008), de Newton César de Oliveira Santos, não esconde um jogo ríspido desde o início. Mas igualmente o desmistifica. Segundo o livro, quem começou a confusão foi justamente o Brasil: Cherro recebeu falta de Brito, o que paralisou o jogo em alguns minutos. Zozaya então deu o troco em Jaú. Nova interrupção veio com Varallo recebendo pontapé de Carvalho Leite quando se preparava para chutar, revidando com um soco, estopim para uma confusão generalizada. Ela paralisou o jogo por 42 minutos. 

    De la Mata no Central Córdoba com Gabino Sosa. Viraria ídolo no Independiente. À direita, ele nove anos depois, antes de despedir-se (contra o Brasil e expulso) da seleção

    O que mais revoltou os visitantes, contudo, teria sido a ação policial, a mesma enxergada naturalmente aqui no Atlético x Arsenal na Libertadores de 2013. Os visitantes só aceitaram voltar a campo se a polícia se retirasse do gramado. E o livro reconhece que os brasileiros retomaram a briga: “Brandão, em ação violenta, derrubou Zozaya na metade do campo; abola sobrou para Brito, que avançou com ela ao ataque, sendo acompanhado por Roberto e perseguido por Cherro. O atacante argentino derrubou o meia brasileiro, que ficou estendido no chão, imóvel por alguns segundos. Roberto, tomando as dores do companheiro, partiu para cima de Cherro, que reagiu com socos e pontapés – fato que deu início a mais uma briga generalizada”. Seis minutos depois de outro reinício, acabou o primeiro tempo.

    O livro registra visita cordial de Guaita, Sastre, Fazio e Celestino Martínez (futuro jogador do Fluminense) no vestiário brasileiro. Mas o árbitro preocupou-se em alertar a todos antes de apitar o segundo tempo que expulsaria quem começasse novo incidente. E os últimos 45 minutos correram sem maiores polêmicas. Os argentinos fizeram três alterações: o alterado Cherro foi trocado pelo experiente Peucelle no intervalo. Bernabé Ferreyra recebeu nova chance aos 20 minutos, no lugar de Zozaya. E, nos últimos seis, Varallo deu lugar à nova chance de De la Mata (vale dizer que seu filho, também chamado Vicente de la Mata, ganhou as primeiras Libertadores do Independiente, nos anos 60, e eles seriam o primeiro caso de pai & filho na seleção).

    Às 00h45 na primeira Copa América a contar com jogos noturnos, começou a prorrogação, “intensa, mas limpa”, conforme o livro. O 0-0 seguiu no primeiro tempo. Com os dois times extenuados a ponto de mal concluírem as jogadas, o fôlego de De la Mata fez a diferença. Aos quatro minutos do segundo tempo, abriu o placar, chutando forte uma bola limpa que sobrou em dividida aérea entre Bernabé Ferreyra, Jaú e o goleiro Jurandir (que jogaria na Argentina por Ferro Carril Oeste e Gimnasia LP). Três minutos depois, o garoto, que só voltaria à seleção seis anos depois, matou o jogo. Recebeu de Peucelle e mesmo entre dois adversários desferiu um chute indefensável, gerando algum protesto por suposto impedimento. Mas nada que os impedisse de reconhecer a derrota.

    Jaú, Jurandir, Brandão e Afonsinho chegaram até a se uniram à volta olímpica. E o chefe da delegação brasileira, José Maria Castelo Branco, falou em “vitória merecida” dos argentinos. E Jornal do Brasil ressaltou que “todos os jogadores, sem exceção, são acordes em afirmar o bom acolhimento que tiveram por parte do público argentino. Constantemente receberam demonstrações de simpatia e nos jogos que os brasileiros tomaram parte era comum vê-lo aplaudir calorosamente os melhores lances”. Essa cordialidade na intensidade já não existiria nove anos depois. A Argentina voltou a ser campeã, mas De la Mata despedia-se expulso e AFA e CBD romperam por dez anos. Falamos aqui.

    A imagem abaixo foi cortesia da Entre Tiempos, única livraria exclusiva de futebol em Buenos Aires, a uma quadra da Avenida 9 de Julio. 

    O preparador Lago Millán, o técnico Seoane, o goleiro Estrada, Iribarren, Lazzatti, Fazio, Cuello, Martínez (jogou no Fluminense), Emeal (jogou no Vasco), o goleiro Bello e o delegado Sola; Minella, Colombo, Blotto, García, Zozaya e De la Mata; Tarrío, Varallo, Ferreyra, Cherro, Guaita, Scopelli, Peucelle e Sastre
  • Heriberto Correa e os paraguaios que defenderam a Seleção Argentina

    Heriberto Correa e os paraguaios que defenderam a Seleção Argentina

    Os paraguaios na Seleção Argentina incluem Heriberto Correa, fotografado prestes a enfrentar o país onde nasceu.

    O bigodudo Heriberto Correa é o quinto da esquerda para a direita, prestes a enfrentar o país natal – pode-se até ver ao fundo a bandeira paraguaia estendida na arquibancada da Bombonera

    A seleção paraguaia ultimamente vem naturalizando com cada vez menos cerimônia argentinos, como Juan Iturbe e Lucas Barrios, além de nomes históricos como Jorge Amado Nunes, Roberto Acuña e Ricardo Rojas, para não falar em treinadores – José Laguna exerceu o papel já na Copa do Mundo de 1930, ao passo que Gerardo Martino comandou na de 2010. Mas no passado o fenômeno era inverso, incluindo na própria Copa do Mundo. A ponto de os paraguaios só perderem para os pioneiros britânicos em número de estrangeiros na história da seleção argentina. Ontem faleceu o – oficialmente – terceiro guarani da Albiceleste, o lateral Heriberto Luis Correa Chaparro. Que, aliás, não se inibiu de enfrentar o país natal. E por duas vezes!

    Um primeiro antecedente se deu com o caudilho Manuel Fleitas Solich, ele próprio um dos marechais do seu Paraguai natal em Copas América no início dos anos 20 a ponto de reforçar o Boca em meados daquela mesma década. Em julho de 1928, com os principais nomes da Argentina ocupados nas Olimpíadas (onde seriam vices), foi improvisada uma equipe alternativa para enfrentar o Celta de Vigo, que excursionava pelo Rio da Prata. No dia 8, os galegos até venceram por 1-0 no antigo estádio pré-Bombonera do Boca, mas a forra veio com muitos juros no dia seguinte, por sua vez no antigo estádio pré-Monumental do River: um inapelável 8-0. 

    Em agosto, outro clube espanhol chegou para excursão similar: o Barcelona, motivando a seleção a usar no peito pela primeira vez um escudo – ainda não era o distintivo da AFA, mas sim o próprio brasão da república. Os titulares olímpicos já estavam de volta embora os próprios Jogos de Amsterdã seguissem em disputa em outros esportes. Solich (ele tinha parcial origem croata), presente nas duas partidas com o Celta, teve a qualidade reconhecida a ponto de, naquela ocasião histórica, se intrometer na escalação principal.

    Em 4 de agosto, a Albiceleste bateu os catalães por 3-1, no estádio do Sportivo Barracas. Também houve revanche já no dia seguinte, um 0-0 no campo do River. O paraguaio esteve em ambas as partidas. Viraria um treinador de relevo com o seu Paraguai (na primeira Copa América ganha pela Albirroja, em 1953) e no Flamengo tri estadual nos anos 50, chegando a passar até pelo Real Madrid. 

    Argentina, com brasão nacional no peito, antes do segundo duelo com o Barcelona em 1928: futuro ídolo flamenguista, Fleitas Solich é o segundo em pé. O segundo jogador agachado é Juan Arrillaga, que defenderia o Fluminense. O último é Raimundo Orsi, que também passaria pelo Flamengo

    Um ano depois, Bartolomé Brizuela, então no Chacarita, jogou uma partida pela Argentina – contra o Chelsea, vencedor por 1-0 no estádio do River naquele 26 de maio de 1929. Brizuela depois estaria no primeiro título profissional do San Lorenzo, em 1933. Com o tempo, o pioneirismo dele e de Fleitas Solich na seleção argentina ficou esquecido, sob o parâmetro de só se considerar oficialmente estatísticas contra outras seleções nacionais. Eles dois calharam de só figurarem naqueles jogos contra clubes.

    Assim, oficialmente os antecessores de Correa datam de 1934. E explicam a confusão que o cenário argentino se passava. Em 1931, os clubes mais poderosos não aceitaram mais um campeonato inchado contra quem julgavam desinteressantes e romperam com a associação reconhecida pela FIFA. Fundaram sua própria liga, assumidamente profissional, enquanto a associação continuava amadora. Ela persistiu até 1934, quando rendeu-se ao maior apelo dos dissidentes. Antes da reunificação, porém, a seleção jogou a Copa do Mundo. Os clubes profissionais não aceitaram liberar seus astros (afinal, sem chancela da FIFA, poderiam perdê-los para o futebol europeu sem serem indenizados) e uma enfraquecida seleção amadora foi enviada à Itália.

    Nessa seleção oficialmente amadora, constava o meia Constantino Urbieta Sosa. Ele, tal como Solich e Brizuela, era de uma família de jogadores do forte Nacional paraguaio dos anos 20, primeiro celeiro de importações em série do futebol argentino; além deles três, dos tricolores vieram também o supergoleador Arsenio Erico, ainda o maior artilheiro do Independiente e do campeonato argentino. Urbieta Sosa inicialmente jogou na liga dissidente pelo Tigre, mas ao passar ao Godoy Cruz (ainda restrito à amadora liga municipal de Mendoza) pôde ser selecionado assim como outros jogadores do interior e os do campeonato argentino da associação amadora.

    Urbieta chegou depois a atuar no San Lorenzo e no Estudiantes, mas, como a maioria daqueles amadores, não fez grande sucesso profissional. Sua única partida oficial foi a única da Argentina na Copa, eliminada logo no primeiro jogo, derrotada por 3-2 pela Suécia em 27 de maio. Ainda atuou em um jogo não-oficial, um 2-0 sobre um combinado italiano, já em 14 de junho.

    Argentina na Copa de 1934 – Urbieta Sosa, com as duas mãos na cintura, é o penúltimo jogador em pé. À direita, Benítez Cáceres com o uniforme alviceleste do Racing

    A liga argentina profissional, antes de reunificação, reunia combinados para jogos contra o Uruguai, que também já havia aderido ao profissionalismo. A camisa do combinado sequer lembrava a da Albiceleste: branca, com verde nas golas e nos detalhes da manga, e a sigla LAF no peito. Mas acabava por reunir os principais jogadores e assim suas partidas, após a fusão das associações, foram convalidadas como oficiais nos registros da seleção nacional. Em uma dessas partidas, atuou Delfín Benítez Cáceres  grande atacante trazido do Libertad e ídolo de Boca e Racing. Até gol marcou, empatando no fim em 2-2 dentro do Centenário em 18 de julho. 

    Como aquele foi o único jogo de Benítez Cáceres, o único uniforme literalmente alviceleste que vestiu seria o do Racing mesmo. Curiosidade extra foi a quantidade de diferentes estrangeiros envolvidos, pois o técnico era o húngaro Emérico Hirschl, o massagista era o japonês Kanichi Hanai e havia até um nativo do Brasil: Aarón Wergifker, paulista documentado oficialmente como cidadão russo (era filho de judeus em fuga dos pogroms czaristas), mas ainda o único brasileiro a defender a Argentina. O paraguaio, por sua vez, já havia jogado a Copa de 1930 pelo país natal e voltou a defendê-lo ao regressar ao país. Participou inclusive da maior vitória até hoje do Paraguai sobre a Argentina: o 5-1 de 1945. 

    Vale ainda nova menção a Arsenio Erico. Sem nunca ter defendido a seleção paraguaia (quem sim jogou por ela foram parentes seus) por atuar em tempos em que não se convocava quem atuasse fora do país, foi sondado para naturalizar-se para jogar a Copa do Mundo de 1938 pela Argentina. E oficialmente convocado para o único jogo que ela faria nas eliminatórias – seria contra Cuba, já em 1938, em neutro solo da anfitriã França. Mas a AFA simplesmente desistiu em cima da hora de participar, justificando-se no sentimento de ultraje por não ter sediado o evento, que a seu ver deveria ser hospedado em rodízio entre Europa (que, afinal, já havia recebido a edição 1934) e América do Sul.

    A convocação incluía de estrangeiros novamente o húngaro Hischl como treinador e um espanhol que já havia figurado na Copa de 1930, Pedro Suárez. Mas, com a recusa da AFA, os cubanos tiveram passe livre para jogar sua única Copa até hoje. O próprio Erico, porém, declararia que teria se recusado a entrar em campo caso os hermanos realmente viajassem: “eu morro paraguaio”.

    O único jogo de Benítez Cáceres pela Argentina usou uma camisa diferente, alviverde. Ele é o quarto homem agachado: o primeiro é o técnico húngaro e o último, o massagista japonês. O brasileiro Wergifker é o penúltimo em pé

    Diferentemente de todos esses antecessores, Correa Chaparro, nascido em Assunção em 16 de março de 1949, iniciou no futebol já na Argentina, onde vivia desde os seis anos. Mais especificamente, na cidade de Longchamps, municipalidade de Almirante Brown, a 30 quilômetros da capital federal. A musculatura se desenvolveu ordenhando vacas desde as quatro da manhã e no futebol de rua. Criado pela comunidade paraguaia instalada na Grande Buenos Aires, o Deportivo Paraguayo já existia, mas foi no Racing que Correa tentou a sorte primeiro. Foi em 1965, mas cansou-se de esperar e só então tentou no Vélez. E foi acolhido no time do bairro de Liniers.

    Até profissionalizar-se em 1969, tinha de fazer uma escala em Lanús no itinerário Longchamps-Liniers-Longchamps. Era primeiro para trabalhar de torneio, saindo às cinco da tarde para treinar no Vélez, voltando a Lanús à noite para um curso técnico noturno. Na época em que pôde enfim estrear no time velezano adulto, o Fortín havia acabado de lograr seu primeiro título argentino e esteve novamente no páreo em 1971, perdendo-o inesperadamente em dramática derrota de virada em casa para o instável Huracán. O paraguaio, além de bom marcador, tinha bom chute de longa distância e vez ou outra fazia seus gols.

    Oficialmente foram 16 golzinhos em 156 jogos, número bom para a função – especialmente porque na escola argentina, diferentemente do que a brasileira já adotava, os laterais não costumavam subir ao ataque. Essa faceta surgiu em 1973, chegando a marcar dois (com bola rolando) em um 4-2 sobre o River no Monumental. Nesse embalo, Correa virou cobrador oficial de pênaltis e pôde engordar os números de goleador. E acabou sondado pelo técnico argentino, o ex-craque Omar Sívori, para jogar nas eliminatórias, na época travadas ainda em grupos. Mais precisamente, em triangulares.

    Em meio à natural polêmica, agravada porque seu próprio Paraguai estaria no mesmíssimo grupo da Argentina, Correa primeiramente consultou a federação da terra natal para indagar se estaria interessada nele. Diante da negativa (em tempos sem transmissões televisivas de campeonatos estrangeiros e em que as seleções sul-americanas ainda engatinhavam convocar quem atuasse fora), topou então se naturalizar. E assim justificaria a aceitação: “eu sei que há outros seguramente melhores que eu e que são da terra, mas, além de minha condição de profissional, me senti grato, comovido pela distinção. Aqui construí minha casa, conheci minha mulher, tenho meus filhos, lutei para ser alguém”. Estreou em um 3-1 amistoso contra o Peru, em 27 de julho, em La Bombonera. 

    Repercussão dos dois gols de Correa (abraçado com Carlos Bianchi à esquerda) no 4-2 sobre o River no Monumental. O Vélez foi o clube com o qual mais se identificou

    Antes das eliminatórias, ainda esteve em três jogos não-oficiais. Tal como Fleitas Solich e Brizuela, foi por enfrentar clubes: 2-1 no Instituto de Córdoba em 8 de agosto, no Monumental de Alta Córdoba; 1-1 com o Atlético de Madrid em 13 de agosto, no Vicente Calderón; e 2-0 sobre os húngaros do Újpest em 27 de agosto, no estádio Insular, na cidade espanhola de Las Palmas – em meio a torneio amistoso que envolvia também o clube local. As eliminatórias começaram em setembro e foram nelas que Correa contabilizou seus outros três jogos oficiais pela Argentina: primeiramente, um 4-0 sobre a Bolívia, na Bombonera, em 9 de setembro.

    O compromisso seguinte seria a dura visita ao Defensores del Chaco e a Albiceleste preparou-se na fronteira, encarando em 13 de setembro o clube Deportivo Mandiyú, em Corrientes. Correa esteve na protocolar vitória de 4-1 no estádio Alvear, o quarto jogo não-oficial dele pela Argentina – que, três dias depois, arrancou um precioso 1-1 em plena Assunção contra os guaranis.

    O paraguaio não esteve no ainda mais valioso 1-0 para cima dos bolivianos dentro de La Paz (em 23 de setembro), mas reapareceu para o reencontro contra o Paraguai natal. A classificação argentina estava encaminhada, mas ainda não garantida. Nem um pouco: naquele 9 de outubro, os visitantes até abriram o placar na Bombonera. Mas, ao fim, os donos da casa viraram para 3-1 e confirmaram a vaga na Alemanha Ocidental.

    Correa não se inibiu de festejar: “fiz grandes amigos porque todos me trataram com grande afeto. Por isso, a tarde desse domingo da classificação estará para mim entre as lembranças mais queridas. Nunca vou me esquecer desse abraço que dei no Ratón Ayala depois do segundo gol”, afirmou – Ayala fez dois daqueles gols nos 3-1. Considera-se exatamente aquele o último jogo do lateral, mas na realidade ele ainda jogou uma vez mais pela Argentina. Só que foi novamente em jogo não-oficial, dessa vez por ter sido contra uma seleção municipal, a de Santa Fe: 1-1 em 21 de novembro, no estádio do Colón. Houve até decisão por pênaltis e Correa converteu o dele no triunfo por 4-3. Mas acabaria acompanhando pela televisão ou pelo rádio o Mundial, tal como os demais paraguaios…

    A cara de Correa na imagem esquerda (é o bigodudo em pé) diz tudo: foto de quando enfrentou no Defensores del Chaco o Paraguai. À direita, no Platense, outro clube argentino onde foi ídolo

    Em uma época turbulenta para ser técnico da seleção (não classificada à Copa de 1970), o técnico Omar Sívori se dispusera a segurar a bomba somente até o fim de 1973, desinteressado em se estressar além. Foi sucedido por um bagunçado triunvirato encabeçado por Vladislao Cap, a reformular substancialmente a equipe-base das eliminatórias. Correa foi um dos afetados, ainda que continuasse bem no Vélez: no Torneio Nacional de 1974, seu clube ficou a só três pontos do título no octogonal final – fase em que marcou (com bola rolando) um dos gols na vitória de 3-1 no clássico com o Ferro Carril Oeste.

    Correa continuou no Vélez na disputa do Metropolitano de 1975, reforçando em seguida o Racing. Mas Correa não durou muito em Avellaneda, logo indo ao Monaco em 1976. O clube do Principado estava na segunda divisão francesa, mas com outros importados da Argentina (Delio Onnis, até hoje o maior artilheiro do time e do campeonato francês, e o meia Raúl Noguès) conseguiu um raríssimo bicampeonato: venceu a Ligue 2 em 1977 e a Ligue 1 em 1978, encerrando jejum de quinze anos dos monegascos na elite vizinha. De Monte Carlo rumou ao forte narcofútbol colombiano defender brevemente o Deportivo Cali, que havia sido vice da Libertadores de 1978. 

    O paraguaio  eventualmente voltou à Argentina para defender o Platense. No time marrom, também teve destaque: o Calamar, tão acostumado a brigar contra o rebaixamento (e sobrevivendo) entre fins dos anos 70 e dos 90, terminou o campeonato de 1980 na 4ª colocação, com um só ponto a menos do que o vice – o rival Argentinos Jrs de Diego Maradona. Desempenho que já não se repetiu no Huracán, onde esteve no primeiro semestre de 1982. No segundo semestre, já estava no Sarmiento, sem evitar o rebaixamento da equipe de Junín.

    Ele já não saiu das divisões inferiores, com passagens por All Boys (3º no seu grupo da segunda divisão de 1983), Defensores de Belgrano (líder de seu grupo na segundona de 1984, mas eliminado nas semifinais dos mata-matas; nunca mais o Defe chegou tão perto da elite) e El Porvenir até pendurar as chuteiras em 1987.

    No Monaco, sem o bigode. É o camisa 2 na foto à esquerda, com os argentinos Onnis (9) e Noguès (10); e o 5 na direita, com os argentinos Onnis (9), Carlos Bianchi (9) e Carlos Santamaría (11)

    El Paragua voltou ao Vélez em 1993 para treinar os juvenis, polindo alguns dos peões integrantes da década dourada do clube. É errada a informação muito difundida na imprensa argentina, e até na nota de pesar oficial do Vélez, de que o lateral foi o único forasteiro ou o único paraguaio na Albiceleste. Eis alguns outros confirmados pelo livro Quién es Quién en la Selección Argentina, que abre margem a diversos outros de locais incertos de nascimento – como Charles Whaley, apelidado de El Sudafricano; ou Juan van Kamenade, descrito como holandês em outras mídias.

    Alemanha: Marius Hiller (que jogou também pela Alemanha);
    Brasil:
    Aarón Wergifker;
    Espanha: Pedro Suárez (da Copa do Mundo de 1930) e Manuel de Saá;
    França:
    Gonzalo Higuaín;
    Inglaterra:
    Harold Ratcliff, Wilfred Stocks, Harold Lloyd, Lionel Peel Yates, Ciril Russ, Harold Henman e Sidney Buck (que jogou também pelo Uruguai!);
    Itália:
    Mario Busso, Luis Celico e Renato Cesarini (que jogou também pela Itália);
    Ucrânia: 
    Vladimiro Tarnawsky;
    Uruguai (sim!): 
    Horacio Vignoles e Zoilo Canaveri (que jogou por Boca & River e Racing & Independiente!)

    Fato é que Correa foi um dos últimos jogadores nascidos no exterior a defender a seleção principal. E seus sucessores tiveram o atenuante de terem sangue hermano, todos filhos de jogadores argentinos que estavam a trabalho no estrangeiro. Grande ídolo no San Lorenzo, Walter Perazzo, filho do artilheiro do campeonato colombiano de 1961 (Alberto Perazzo, então no Santa Fe, e igualmente revelado no San Lorenzo), nasceu em Bogotá e, oficialmente, só defendeu a Argentina nos juvenis; sua única vez em campo pela principal foi, como tantos nomes dessa nota, em partida não-oficial: contra o clube italiano da Roma, em derrota de 2-1 em 19 de março de 1987.

    Gonzalo Higuaín nasceu na francesa Brest em 1987, quando o pai, um zagueiro (Jorge Higuaín, El Pipa) que pôde defender o trio Boca, River e San Lorenzo, servia o clube local. El Pipita até passou anos indeciso sobre qual país defender, até optar apenas em 2009 pela Albiceleste e se tornar precisamente quem mais jogou por ela dentre os nascidos fora da Argentina. Por fim, um dos filhos de Diego Simeone, Giovanni (parido em 1995 na Madrid tão ligada ao pai, que nos meses seguintes foi campeão espanhol e da Copa do Rei com o Atlético), já figura nas seleções juvenis.

    Atualização em 9 de setembro de 2018: dois dias após a estreia do madrilenho Giovanni Simeone pela seleção argentina principal, complementamos nesse outro Especial a lista acima.

  • As maiores goleadas do Brasil sobre a Argentina

    As maiores goleadas do Brasil sobre a Argentina

    As goleadas do Brasil sobre a Argentina são menos frequentes do que se imagina. Messi chegou a sofrer três derrotas por 3 a 0 da canarinho.

    O E.T. se humaniza contra o Brasil. Ontem foi o terceiro 3-0 que Lionel Messi sofreu da canarinho, após outros em amistoso no primeiro jogo pós-Copa em 2006 e na final da Copa América de 2007. A própria estreia de La Pulga veio na ressaca de outra goleada: Leo debutou contra a Hungria no jogo seguinte aos 4-1 da Copa das Confederações de 2005.

    (Este escriba abre parênteses para um depoimento pessoal: em meados de 2005, os fotologs ainda eram importantes. Uma página comunitária, criada pela futura VJ Marimoon, era a /the_beatles, dedicada obviamente aos rapazes de Liverpool e cheia de fãs brasileiros e argentinos. Vez ou outra o futebol desvirtuava a página, como naquela final de 2005. Este redator, então com 16 anos, lembra perfeitamente de uma foto do jogo carregada por algum hermano com os dizeres “esperemos que Messi cresça”. E também lembra, como galvãobuenista que era, ter carregado outra, de algum alviceleste estirado no chão. A legenda dessa era mais beatlemaníaca: “Cry Baby Cry”).

    Mas nem o terceiro 3-0 sofrido por Messi nem aqueles 4-1 que o antecederam foram as maiores goleadas favoráveis ao Brasil no clássico. A primeira delas segue sendo a maior de todas: os 6-2 aplicados em São Januário em 20 de dezembro de 1945, pela Copa Roca. A Argentina vinha com a banca de recém-campeã da Copa América realizada naquele mesmo ano. Além disso, havia derrotado o próprio Brasil no Pacaembu quatro dias antes, por 4-3, no jogo de ida.

    Como se não bastasse, os vizinhos haviam aplicado exatamente 6-2 em seu compromisso anterior, contra o Uruguai, em agosto. Adolfo Pedernera, descrito como Alfredo Di Stéfano como o maior jogador que vira (confira), até abriu o marcador. Ademir e Leônidas viraram. Rinaldo Martino (jogaria no São Paulo e falamos dele na segunda-feira: clique aqui) empatou, mas Chico (neto de uma argentina), Zizinho, Heleno de Freitas e outra vez Ademir esticaram o placar.

    O 6-2 foi um desafogo não só pelo revés anterior, mas porque na virada para aquela década os hermanos colecionaram as maiores goleadas no clássico. Na Copa Roca de 1939, arrancaram um 5-1 em São Januário, a pior goleada que o Brasil sofreu em casa até os 7-1. Aquela Copa Roca só foi encerrada já em 1940, com um 6-1 no Gasómetro. Em 1940 houve nova edição da Copa Roca, com um 5-1 para a Albiceleste em Avellaneda. Foi o período de Emilio Baldonedo e Herminio Masantonio.

    O goleiro Claudio Vacca detém Leônidas da Silva e Heleno de Freitas no lance, mas tomou os 6-2 em 1945

    Ambos faziam dupla de ataque no Huracán e o entrosamento foi reeditado pelo país: Baldonedo contra o Brasil somou sete gols (saiba mais sobre sua carreira) e Masantonio, seis (saiba mais). Dentre todas as nacionalidades, são até hoje quem mais marcaram contra os brasileiros. Nenhum deles continuava na seleção em 1945, mas outro ex-huracanense, Norberto “Tucho” Méndez (conheça-o), sim. Ele é justamente o terceiro maior carrasco brasileiro, com cinco. Três deles, todos de fora da área, haviam dado a vitória por 3-0 em outro clássico naquele 1945, pela Copa América.

    Os 6-2 não bastaram para decidir a Copa Roca de 1945, apesar do saldo de gols favorável ao Brasil; como cada um havia vencido uma partida, forçou-se uma terceira, que teria consequências diplomáticas; o Brasil ganhou por 3-1 em tarde em que José Battagliero saiu fraturado (confira). Dois meses depois, ambos se enfrentaram pela Copa América, realizada em Buenos Aires. Os hermanos voltaram a ganhar (2-0, outros gols do “Tucho” Méndez), mas sofreram outra fratura (de José Salomón) e as “cenas lamentáveis” acabaram inevitáveis: falamos aqui. Foram tamanhas que AFA e CBD romperam relações por dez anos, uma das razões para a Argentina não vir à Copa do Mundo de 1950.

    Quando as relações foram retomadas, o contexto passava a ser outro. Em 1958, o Brasil foi campeão mundial enquanto a Argentina caía na primeira fase, por sinal com a derrota mais elástica de sua história (ver ao fim). Dois anos depois, foi goleada pelos canarinhos tanto no Rio de Janeiro como em Buenos Aires. Primeiramente, em pleno Monumental de Núñez, sofreu um 4-1 por nova Copa Roca após ter vencido por 4-2 no jogo anterior, também no estádio do River. Dois meses depois, disputou-se a Taça do Atlântico, um quadrangular que reunia também Uruguai e Paraguai.

    No Maracanã, veio a segunda maior goleada brasileira: 5-1 de virada. Pelé deixou o dele nessa partida e o parceiro Pepe fez dois, mas a estrela da série de três clássicos em 1960 foi o vascaíno Delém. Hoje desconhecido no Brasil, ele marcou em cada um, somando quatro gols. Acabou transferido ao River, onde virou ídolo a ponto de radicar-se até o fim da vida em Buenos Aires, trabalhando com sucesso como técnico juvenil millonario nos anos 90: mostramos aqui. Pelé, por sua vez, não jogou o segundo tempo dos 5-1. Vicente Feola preferiu poupar o astro, em dia de caça e caçador: não teria condições físicas mas desculpou-se por cabecear o oponente Néstor Cardoso.

    Três anos depois, em nova edição da Copa Roca, o roteiro se assemelhou ao de 1945: os argentinos venceram o primeiro jogo por um gol de diferença (3-2), mas terminaram goleados no segundo, com um placar quase igual. Dessa vez, foi 5-2. Pelé marcou três vezes. “O Rei” viraria o maior artilheiro da rivalidade, com um gol a mais que Baldonedo, ainda que jogando muito mais clássicos. Amarildo, o vitorioso reserva do santista na Copa de 1962, fez os outros dois.

    A segunda maior goleada a favor do Brasil: 5-1 em 1960, com Pelé jogando um só tempo

    Em 1968, em novo 4-1, Pelé não jogou um amistoso no Maracanã. Mas o Botafogo, que forneceu oito titulares da canarinho, deu conta: Roberto Miranda marcou duas e Waltencir e Jairzinho, um cada, com Alfio Basile marcando o de honra quando a partida já era 4-0. O encontro tenso no Sarrià pela Copa de 1982 teria terminado em 3-0, mas um golaço de Ramón Díaz no finzinho aliviou. De forma semelhante, um golaço no finzinho, dessa vez de Ariel Ortega, ajustou para 4-2 a tarde inspirada que Rivaldo, autor de três gols, teve em no Beira-Rio em 1999, em amistoso promovido pelo jornal Zero Hora.

    Depois de 1968, então, goleada, mesmo, veio naqueles 4-1 na final da Copa das Confederações de 2005. Poucas semanas antes, Juan Román Riquelme e colegas haviam deslumbrado com um 3-1 barato em Buenos Aires pelas eliminatórias – teriam sido 3-0 não fosse Roberto Carlos. Mas em Frankfurt seriam 4-0 não fosse um desconto de Pablo Aimar já após os quatro gols canarinhos. Adriano (duas vezes), Ronaldinho Gaúcho e Kaká anotaram a última exibição de gala de um time treinado por Parreira.

    Por fim, os outros dois 3-0 sofridos por Messi. No primeiro (a estreia de Sergio Agüero pela seleção principal), em amistoso em Londres, Elano marcou duas vezes mas o gol mais recordado foi o de Kaká, em arrancada na qual o próprio Lionel desistiu de acompanhar. Na outra, na final da Copa América, um Brasil instável superou uma Argentina embalada mas de tarde com muita falta de sorte: Júlio Baptista acertou um chute improvável e Roberto Ayala despediu-se da seleção marcando gol contra. Daniel Alves apenas terminou de jogar terra em um time que do meio para frente reunia Messi, Tévez, Riquelme, Verón, Mascherano e Cambiasso.

    No geral, estas foram as outras goleadas sofridas pela Albiceleste, em ordem cronológica: 6-2 para o Uruguai em 1910 (Copa Honor), 3-0 para o Uruguai em 1911 (Copa Honor), 3-0 para o Uruguai em 1912 (Copa Honor), 4-1 para o Uruguai em 1919 (Copa Honor), 3-0 para o Uruguai em 1935 (Copa América), 3-0 para o Uruguai em 1940 (Copa Gómez), 5-1 para o Paraguai em 1945 (Copa Chevallier Boutell), 6-1 para a Tchecoslováquia em 1958 (Copa do Mundo), 5-1 para o Uruguai em 1959 (segunda Copa América), 4-1 para a Itália em 1961 (amistoso), 3-0 para o Paraguai em 1964 (Copa Chevallier Boutell), 3-0 para a Itália em 1966 (amistoso), 4-1 para a Holanda em 1974 (amistoso), 4-0 para a Holanda também em 1974 (Copa do Mundo), 4-1 para a Austrália em 1988 (Copa Bicentenário da Austrália), 5-0 para a Colômbia em 1993 (eliminatórias), 3-0 para os EUA em 1995 (Copa América), 3-0 para a Colômbia em 1999 (Copa América), 6-1 para a Bolívia em 2009 (eliminatórias), 4-0 para a Alemanha em 2010 (Copa do Mundo) e 4-1 para a Nigéria em 2011 (amistoso).

    Foto da revista Placar após a última goleada, os 3-0 de 2007, para o desconsolo de Mascherano, Tévez (semi encoberto), Gago, Palacio, Messi, Riquelme, Ibarra, Abbondanizieri (encoberto) e Daniel Díaz

  • Brasil 3 x 0 Argentina: a goleada no Mineirão pelas eliminatórias

    Brasil 3 x 0 Argentina: a goleada no Mineirão pelas eliminatórias

    Brasil 3 x 0 Argentina teve gols de Coutinho, Neymar e Paulinho, num atropelo que o autor classificou como ridículo de tão fácil.

    Chegou a ser ridículo de tão fácil. Com gols de Phillipe Coutinho, Neymar e Paulinho, o Brasil atropelou a Argentina no Mineirão e deixou a seleção albiceleste em uma posição complicadíssima na tabela de classificação das eliminatórias para a Copa do Mundo de 2018. Aliás, a coisa só não foi pior para a Argentina porque o Peru goleou o Paraguai em Assunção por 4-1 e deixou os hermanos na sexta colocação, ainda fora da zona de classificação para o Mundial. O time terá que se remontar para enfrentar a Colômbia, na próxima terça-feira, em um confronto decisivo para as pretensões argentinas na caminhada para a Rússia em 2018.

    O time escalado por Patón Bauza teve como objetivo segurar o poder do ataque brasileiro e até funcionou durante os 20 primeiros minutos. Com as duas equipes se estudando bastante, a Argentina teve boa posse de bola e tentava em jogadas individuais de Lionel Messi, de volta após grande período ausente por contusão, levar algum perigo ao gol adversário. A primeira chance veio com Lucas Biglia aos 22 minutos, que emendou um chute de fora da área e Alisson salvou o Brasil. Mas a falta de inspiração do time se somou aos espaços dados na defesa para Neymar e Philippe Coutinho, e foi este que abriu o placar após passar fácil por Otamendi. Emendou um chutaço da entrada da área sem chances para Romero.

    fotos-brasil-argentina_oleima20161110_0245_28
    Neymar e Messi: os craques do Barcelona se cumprimentam antes do jogo. FOTO: Olé

    A partir daí, o psicológico do time argentino desabou. A equipe de Bauza se mostrou completamente frágil e sem recurso algum para tentar ao menos igualar o jogo no Mineirão. Nos minutos seguintes, Messi ainda tentou em lances individuais e em duas cobranças de falta parou na barreira. Enzo Pérez chegou a frente e tocou para o gol sem perigo algum e Emmanuel Más, numa descida pela esquerda, rolou pro meio da área, mas Higuaín não apareceu. Aos 45’, Otamendi, em noite trágica, mais uma vez foi superado por Gabriel Jesus e o atacante passou pra Neymar sair na cara do gol e ampliar para o Brasil: 2-0.

    Na segunda etapa, Bauza tentou adiantar o time, tirando Enzo Pérez e colocando Agüero, porém o que se viu foi uma equipe completamente perdida e sem coordenação alguma dentro de campo. A Seleção Brasileira passou a jogar no campo argentino, tocando facilmente a bola e obrigando os defensores a apenas assistir ao jogo e tentar desesperadamente evitar uma goleada. Aos 13’, Paulinho aproveitou cruzamento rasteiro de Renato Augusto e tocou para o gol, dando números finais a partida que a partir daí virou um passeio do Brasil, que só não ampliou por um visível excesso de preciosismo.

    fotos-brasil-argentina_oleima20161110_0306_28

    O retrato do desespero: Messi inconsolável diante da comemoração brasileira. FOTO: Olé

    A Argentina volta a campo na terça-feira contra a Colômbia, às 21h45 (Brasília) em San Juan. Se não vencer o time colombiano, a seleção pode terminar a rodada até na 8ª posição.

    BRASIL: Alisson; Daniel Alves, Miranda (Thiago Silva), Marquinhos e Marcelo; Fernandinho, Renato Augusto, Paulinho e Neymar; Philippe Coutinho (Douglas Costa) e Gabriel Jesus (Roberto Firmino). T: Tite

    ARGENTINA: Romero; Zabaleta, Funes Mori, Otamendi e Más; Biglia, Mascherano, Enzo Pérez (Agüero) e Di María (Correa); Messi e Higuaín. T: Edgardo Bauza.