Categoria: Seleção Argentina

  • Brasil x Argentina: cem anos do primeiro confronto

    Brasil x Argentina: cem anos do primeiro confronto

    Brasil x Argentina completou cem anos do primeiro confronto entre as seleções, disputado em 1914. Friedenreich estava em campo pelo lado brasileiro.

    1-Brasil-1
    Píndaro, Marcos, Nery; Otávio Egídio, Lagreca, Pernambuco; Millon, Osvaldo, Friedenreich, Bartô e Arnaldo: a escalação brasileira contra a Argentina há exatos cem anos

    Uma das maiores rivalidades do mundo completa hoje um século do primeiro encontro. Como não poderia deixar de ser, as circunstâncias eram bem diferentes, e isso se estendia ao cavalheirismo ainda bastante pregado no mundo do futebol. A primeira vez de Brasil e Argentina deveu-se à disputa da Copa Roca, taça reavivada há alguns anos sob o nome Superclássico das Américas.

    A seleção argentina já havia enfrentado os brasileiros duas vezes antes, mas ainda não havia propriamente uma seleção brasileira oficial. As mais notórias foram em setembro de 1912, com o próprio ex-presidente argentino Julio Roca, na época embaixador no Brasil, implorando a seus pares que puxassem o freio em nome da complicada diplomacia entre os dois países: na semana dos 90 anos do grito do Ipiranga, os hermanos ganharam de 6-3 no Velódromo de São Paulo e de 4-0 no Rio de Janeiro, nas Laranjeiras (ocasião em que Roca teria feito a curiosa solicitação – o jogo estaria 3-0 e os jogadores teriam lhe dito que cumpriram a ordem pois fizeram apenas mais um gol).

    Naqueles dois jogos e no outro que fizeram antes de 1914 (Argentina 3-2 nas Laranjeiras em 1908), o oponente alviceleste foi mais propriamente um combinado de jogadores da cidade-sede. 1914 foi o ano em que se criou, em 8 de junho, a Confederação Brasileira de Desportos, embrião da atual CBF. Dessa vez, o representante nacional teria jogadores de clubes cariocas e paulistas e assim venceu-se, em 21 de julho, o clube profissional inglês Exeter City naquele que é considerado o primeiro jogo da seleção brasileira. O duelo seguinte foi o que hoje completa um século e seria de fato o primeiro da seleção brasileira àqueles que só consideram válidos os jogos entre seleções.

    O mesmo Julio Roca ofereceu uma taça a ser disputa entre a seleção da CBD e a seleção da FAF, a Federação Argentina de Futebol. O dia combinado para a disputa da primeira Copa Roca foi aquele 20 de setembro de 1914, na capital argentina, no estádio do Gimnasia y Esgrima de Buenos Aires (mais conhecido pela sigla GEBA). A vinda brasileira seria combinada com a realização do Congresso Sul-Americano de Futebol, que no dia 21, com delegados também chilenos e uruguaios, fundou o que hoje é Conmebol. Contudo, os jogadores visitantes puderam pôr os pés em Buenos Aires só a poucas horas da partida após tempo ruim a bordo do navio Alcântara. O jogo aconteceu ainda assim, mas acertou-se que a disputa da Copa Roca ficaria adiada em uma semana. A partida do dia 20 ficou amistosa. Roca não conseguiria estar presente: sua saúde deteriorou-se rapidamente e ele faleceria no mês seguinte.

    Os representantes da casa foram Carlos Muttoni (Independiente), Roberto González Escarrá (Porteño) e Arturo Reparaz (GEBA), Mariano Aldea (Hispano Argentino), Aquiles Molfino (GEBA) e Santiago Sayanes (GEBA), Juan José Lamas (Estudiantes), Roberto Leonardi (Estudiantes), Antonio Piaggio (Porteño), Carlos Izaguirre (Porteño) e Francisco Crespo (Tigre). A quem estranhou a ausência de Boca, River e outros como Racing e San Lorenzo,  a explicação: nenhum deles era da FAF e sim da AAF, a Associação Argentina de Futebol. Os dois órgãos eram dissidentes desde 1912 e só se unificariam em 1915. A AAF era a reconhecida pela FIFA, mas a alta sociedade portenha desfrutava mais os clubes da FAF, como o elitista GEBA, exatamente quem liderara o rompimento com a AAF. Saiba mais dele clicando aqui.

    1914coparoca
    Seleção argentina de 27 de setembro, mas com alguns nomes daquele 20 de setembro: um delegado, Diomedes Bernasconi, Carlos Galup Lanús (meio agachado), Juan José Rithner, Ricardo Naón e Santiago Sayanes; Ernesto Sande, Juan José Lamas, Roberto Leonardi, Antonio Piaggio, Carlos Izaguirre e Francisco Crespo

    Mas mesmo que já houvesse só um órgão para o futebol argentino, talvez estes clubes não estivessem representados: Boca e River ainda eram clubes de bairro sem um único título nacional e o San Lorenzo sequer havia chegado à elite ainda (assim como o Vélez, que era da FAF). Exceção, só o Racing, campeão da AAF no ano anterior e que emendaria outros seis títulos seguidos ao inicial. Seu hepta ainda é um recorde. Já os clubes Porteño e GEBA ainda existem, mas abandonariam o futebol. O Hispano Argentino também desapareceu, fundindo-se com outros clubes que deram origem ao atual Almagro.

    Alguns brasileiros também vieram de clubes hoje obscuros. Eis a escalação: Marcos Carneiro de Mendonça (Fluminense), Píndaro (Flamengo) e Nery (Flamengo), Otávio Egídio (São Bento), Lagreca (São Bento) e Pernambuco (Fluminense), Millon (Paulistano), Osvaldo Gomes (Fluminense), Friedenreich (Ypiranga), Bartô (Fluminense) e Arnaldo (Paulistano). Perderam de 3-0, com dois gols de Izaguirre e um de Molfino, que cumpriu curiosa trajetória: só ele, dos que jogaram apenas uma vez pela seleção, foi capitão e marcou gol. O goleiro argentino Muttoni já havia jogado pela seleção, vindo do Racing. Foi o primeiro dos dois que a Argentina usou da dupla rival de Avellaneda, e por muito tempo foi o único – o outro foi Gabriel Calderón, nos anos 80. O juiz foi o uruguaio León Peyrou.

    Se hoje a mídia (e não só ela) de ambos os países se contaminou pela xenofobia mútua, na época o tratamento foi oposto. As manchetes eram para o Papa Pio X, morto no mesmo dia 20, e etapas da Primeira Guerra Mundial, mas houve espaços para notas como “a instituição dessa bela Copa deve-se à grande ideia da entente cordiale sportiva, levantada no ano passado”, no Jornal do Brasil do dia 27. “Os delegados brasileiros visitaram o general Julio Roca, com quem conversaram durante alguns momentos, mostrando-se penhorados com o carinhoso acolhimento que lhes dispensou”, está no O País de 23 de setembro, que registrou também que “os footballers brasileiros continuam sendo alvo de significativas manifestações de apreço de seus colegas portenhos (…). Em todos esses estabelecimentos foram recebidos com altas provas de distinção, retirando-se agradavelmente impressionados”.

    A Gazeta de Notícias de 23 de setembro relatou assim: “devido ao mal tempo reinante, o Alcântara, em que foram os sportsmen brasileiros, só chegou a Buenos Aires domingo de manhã, sendo os nossos patrícios recebidos com inequívocas manifestações de simpatia pelo Sr. Dr. Ricardo Aldao, presidente da Federação Argentina de Football. (…) Devido ao atraso da entrada do vapor, foi transferida para o próximo domingo a disputa da Taça Julio Roca. Não obstante isso, ao cansaço da viagem e ao mal estado do campo, jogaram no mesmo dia, em Palermo, um match amistoso com argentinos, que os venceram por 3 a 0. (…) A população bonaerense tem sido pródiga em demonstrações de carinho e simpatia à delegação esportiva brasileira”. Já o jornal O Imparcial de 28 de setembro também fez registros da partida propriamente dita. Ei-los abaixo:

    alcantara
    Os brasileiros a bordo do Alcântara: Lagreca, Píndaro, Rubens Salles (autor do gol no dia 27, não jogou no dia 20), Marcos, Nery, Pernambuco e Joaquim de Souza Ribeiro; Millon, Osvaldo, Bartô, Friedenreich e Arnaldo

    “A disputa da ‘copa’ Julio Roca estava, como é do domínio de todos, marcada para o dia 20, mas o cansaço de que se achavam possuídos os jogadores patrícios fez com que os argentinos, num requinte de gentileza, transferissem a tão importante prova para ontem, a fim de poderem os conjuntos rivais entrarem em luta pelo menos em determinada igualdade de condições. Foi um gesto louvável o dos distintos sportsmen platinos. Uma vez decidida a transferência do aludido match, ficou combinado que o team brasileiro treinasse num encontro amigável com o seu adversário, o que redundou em um ensinamento para os jogadores ‘auriverdes’, que de tão emocionante peleja conseguiram unicamente tirar experiências.

    O primeiro encontro argentino-brasileiro deu-se no campo do ‘Gimnasia y Esgrima’, em Palermo, tendo a ele assistido inúmeras pessoas que ‘aliadas’ lá estavam estrategicamente dispostas para aplaudir as equipes contendoras. (…) Foi juiz o Sr. L. Puyrosa [sic], da liga Uruguai, que – coisa entre nós difícil – agiu com imparcialidade. A sorte favoreceu-nos e desse modo o team brasileiro ficou jogando a favor do sol, tendo entretanto para importuna-lo de frente um vento que, de momento a momento, soprava varrendo o ground. Piaggio, center argentino, foi quem teve a honra de dar o kick inicial.

    Os atacantes locais investiram celeremente, dando lugar a que Nery, o fullback rubro-negro, fizesse a primeira tirada, que foi coroada com aplausos da seleta assistência. Voltaram os argentinos à ofensiva e o nosso goal foi assediado por shoots, que eram desviados da trajetória pelas rebatidas dos ágeis fullbacks, e pela perícia de Marcos de Mendonça. Crespo enviou às barras brasileiras um hábil e vigoroso shoot que foi detido, em bela forma, por Píndaro. Passados alguns minutos, os nossos patrícios deliberaram dar uma investida às barras inimigas: Osvaldo avança impetuosamente pela extrema e dá um ‘centro’ que Luís Bartô escora, estando, porém offside. A esfera foi ter a rede do team local, mas o ponto foi pelo juiz, mui justamente anulado.

    Há outra investida do inside brasileiro e Muttoni devolve a ‘pelota’ ao centro de campo, merecendo este seu feito muitos aplausos. Aos vinte minutos de jogo, Egídio comete uma falta perto da área de penalidade: Sayanes foi encarregado de dar o free-kick e a esfera foi ficar mesmo diante do goal de Marcos, que teve ocasião de fazer habilíssimas defesas. Estavam mais ou menos equilibradas as equipes adversárias. Mas este estado de coisas não se manteve inalterável: os argentinos foram tornando mais impetuosas as suas investidas, até que nos conseguiram dominar quase que inteiramente. Aos quarenta e um minutos de jogo, Izaguirre, recebendo um passe de Piaggio, burla pela primeira vez a atenção de Marcos, fazendo, violentamente, a esfera agitar a rede do goal, cuja guarda lhe estava confiada. Sempre atacando, o team argentino nada mais conseguiu até o final do primeiro half.

    GEBA
    Cenário da partida, o campo do Gimnasia y Esgrima de Buenos Aires, que desativou o futebol em 1917

    Recomeçada a peleja, Freindereich [sic] dá uma saída fazendo supor a todos os presentes que o jogo iria ser mais equilibrado que o do primeiro tempo, pois que os avantes sucederam-se em rigorosos ataques que muito comprometiam as barras por ele visadas. Devido a um corner de Nery resultou o segundo goal para os argentinos. Crespo bateu a pelota fazendo-a cair em frente ao goal brasileiro, donde após uma série de shoots indecisos, foi vigorosamente impulsionada por Marfino [sic], que, pela segunda vez conseguiu iludir a vigilância de Marcos. Mais algumas investidas e o keeper brasileiro teve oportunidade de produzir uma defesa que lhe valeu estrepitosas palmas.

    Piaggio, após uma série de dribblings, consegue aproximar-se da área do goal e, quando, à distância de dois metros, pretendeu dar um shoot vigoroso, leva a pelota, arrebatada por Marcos, que num último esforço resolveu abandonar a posição que guardava. O último goal dos argentinos foi feito por Izaguirre, a uma distância de cinco metros. Marcos nem teve tempo de divulgar a pelota, tal a rapidez com que foi arremetida. Freindereich [sic] dá vigoroso shoot contra o goal argentino, mas devido ao pouco auxílio que lhe prestam, coisa alguma consegue. Quase no final do match, Luís Bartô deu um violento kick que batendo na trave horizontal do goal de Muttoni fez a esfera ricochetear à área de penalidade, donde a fez sair Sayanes. Os players brasileiros organizaram alguns ataques, mas coisa alguma conseguiram, porque o juiz dava, pouco depois, por terminado o match, estando os argentinos vencedores do mesmo pelo score de 3 goals a 0.

    Os nossos colegas do jornal ‘La Prensa’ em suas apreciações sobre o team brasileiro acharam que os seus jogadores são bons e que são hábeis conhecedores dos recursos de seus companheiros, condição esta em que se torna mais eficaz. São para conosco muito complacentes os ponderados cronistas do diário bonaerense. O nosso team não é bom; possui jogadores excelentes mas estes não formam a sua totalidade. A nossa linha de halves poderia ser perfeitamente melhorada, o mesmo acontecendo ao ataque que só tem um jogador à altura de um verdadeiro scratch, e este é Freindereich [sic]. ‘O goalkeeper brasileiro e os backs mostraram ser seguros’, diz ‘La Prensa’.

    Sobre estes três jogadores muito ainda têm que falar os argentinos, mesmo porque são tidos como os primeiros da América do Sul em suas posições – já se vê. É pena que a falta de tempo e a precipitação com que foi deliberada a partida do nosso team não dessem lugar para que pudéssemos organizar um outro muito mais forte e homogêneo. Apostamos que os argentinos não teriam para nós expressões mais admirativas, se não ao lado dos bons que lá se encontram vissem jogar Mimi – o primeiro forward dos nossos grounds; Juvenal, Xavier; o veloz Formiga, Rolando, Lulu, Demóstenes e outros.”

    Em uma semana, a primeira Copa Roca completa seu centenário e logicamente falaremos dela. Até lá!

  • Argentina campeã mundial sub-20 em 1979 com Maradona

    Argentina campeã mundial sub-20 em 1979 com Maradona

    A Argentina campeã mundial sub-20 em 1979 tinha Maradona no elenco e abriu a tradição de domínio do país na categoria. Nenhuma seleção venceu tantas vezes.

    79-1

    Nenhuma seleção foi tantas vezes campeã mundial de juniores quanto a Argentina. Uma tradição que se iniciou há exatos 35 anos, simbolicamente com Maradona sendo o grande astro. O título veio sobre a campeã anterior, a União Soviética, em um 3-1 com gol dele e do outro grande destaque argentino, Ramón Díaz, artilheiro da edição 1979 do mundial. Antes de se tornar o desbocado técnico mais vezes vitorioso do seu River, treinado novamente por ele até o título no último semestre, El Pelado Díaz era tímido, mas um poderoso atacante.

    O primeiro mundial de juniores foi criado em 1977. Foi uma das novidades da gestão empresarial que João Havelange, presidente da FIFA desde 1974, estabeleceu no comando da entidade. Os argentinos, porém, não participaram. Seu futebol estava ainda mais desorganizado institucionalmente do que hoje – para se ter uma ideia, viveu-se um jejum de trinta anos no sul-americano juvenil, entre 1967 e 1977.

    Em 1979, a classificação veio como vice dos anfitriões uruguaios no quadrangular final em que a ameaça principal nem foi o Brasil, mas o Paraguai, cujo futebol vivia bom momento – naquele ano, o Olimpia se tornou o primeiro clube de lá a vencer a Libertadores (sobre o Boca, então bicampeão seguido do torneio) e a seleção principal venceu a Copa América, vencendo fora de casa o próprio Brasil. Romerito, bem conhecido no Fluminense, estava nas duas seleções paraguaias e, já naquele mundial, levaria a bola de prata de segundo melhor jogador do torneio. Maradona ficou com a de ouro. Díaz, com a de bronze.

    Além de Maradona e Díaz, os outros personagens que vingariam quando cresceram foram os meias racinguistas Juan Barbas, que ficou de fora da Copa 1986 simplesmente por opção de Carlos Bilardo (foi à de 1982), e Gabriel Calderón, único profissional que a seleção convocou tanto do Racing como do rival Independiente – ele, já como jogador do Paris Saint-Germain, iria à Copa 1990. O correto zagueiro Juan Simón também iria a 1990, sendo raro destaque do time pouco brilhante que conseguiu ir à final: só ele, vindo de um Boca em péssima fase, e Maradona jogaram todos os minutos argentinos na Itália.

    79-2
    O mundial não foi só de Maradona: Ramón Díaz também jogou demais e foi o artilheiro. Ao lado, virando a final contra a URSS. Os dois foram as novidades titulares argentinas para a Copa 1982. Mas virariam desafetos: entenda clicando aqui

    Dos obscuros, algumas convocações curiosas: os goleiros eram Sergio García, do Flandria, clube que jamais esteve na elite do campeonato argentino, e Rafael Seria, do Central Córdoba, o mais expressivo dos nanicos clubes de Rosario e que só apareceu na primeira divisão em 1959. O atacante Alfredo Torres e o defensor Jorge Piaggio eram do Atlanta, clube dos mais tradicionais na elite mas que começava a experimentar longa decadência – seus dois juvenis foram campeões mundiais semanas após o Bohemio ser rebaixado para só voltar em 1983, cair já em 1984 e desde então jamais retornar outra vez.

    O técnico foi o mesmo da seleção principal: César Luis Menotti. Ele já havia dado chance nela a alguns daqueles jovens (Barbas estreara em abril daquele 1979 e Maradona ainda em 1977) e em seguida usaria outros: Calderón e Simón debutaram em 1980 e Díaz teve sua primeira oportunidade apenas cinco dias depois do título que hoje faz 35 anos. Dizia-se que, no papel, a equipe que foi à Copa 1982 era até melhor que a campeã de 1978, por conservar a base campeã somando-a entre os titulares com Maradona e Díaz, autor do gol de honra hermano na derrota para o Brasil. Barbas também jogou naquela ocasião.

    Já o mundial de 1979 foi uma competição de tiro-curto. Em duas semanas, a Argentina começou sua trajetória no Japão massacrando a pobre Indonésia por 5-0 e finalizou naquela final frente a URSS. A estreia já indicou os destaques dos campeões: os gols foram de Maradona, que fez dois, e de Díaz, que fez três. Os sul-americanos se deram ao luxo de descansar no segundo tempo, pois marcaram no primeiro todos os cinco. Os outros dois adversários do grupo eram as potências comunistas Polônia e Iugoslávia.

    Os iugoslavos, contra quem a Argentina tinha um retrospecto de rigoroso equilíbrio (nove dias depois, as seleções principais se enfrentaram em Belgrado e os europeus venceram por 4-2. Ramón Díaz até marcou ali seu primeiro gol pela seleção principal) deram mais trabalho: perderam só de 1-0, gol do velezano Osvaldo Escudero. “Não me esqueço mais da conversa do Flaco (apelido de Menotti) no intervalo (…). Íamos 0-0, nos haviam dado um baile bárbaro. ‘Para que c%*#lho viemos ao Japão?’, começou, assim que entramos no vestiário. ‘Para jogar dessa forma que ficassem em casa, isso não é o que falamos. Agora saiam e sejam fiéis a uma ideia, me lixo para o resultado”, declarou Simón a respeito.

    79-3
    A outra grande estrela da companhia era o técnico Menotti, único treinador campeão da Copa do Mundo e do mundial sub-20

    A bronca parece ter funcionado contra os poloneses, que viviam geração de ouro entre meados dos anos 70 e 80 mas foram surrados, levando de 4-1. Maradona marcou outra vez em grande noite de Calderón, que fez dois – o próprio Simón fez o outro. Maradona e Calderón voltaram a anotar no primeiro mata-mata, contra a Argélia, que com alguns daqueles jovens estrearia em Copas em 1982 (fazendo barulho), mas levou de 5-0. Os outros três gols foram todos do artilheiro Díaz. Novamente, o primeiro tempo, com um gol de cada, praticamente decidiu a sorte da partida. Apenas dois dias depois, vieram semifinais, que seriam um clássico com o Uruguai de Rubén Paz.

    O troco pelo vice sul-americano veio com 2-0, e os protagonistas Maradona e Díaz novamente deixaram os seus em uma vitória mais complicada, só obtida no segundo tempo graças a bobagem do obscuro Nelson Alaguich: o defensor tentou sair jogando, teve passe interceptado por Calderón, que serviu a um Díaz desmarcado fuzilar Fernando Álvez. No segundo, Díaz puxou um contra-ataque desde a defesa e em disparada chegou a driblar o goleiro Álvez, mas perdeu ângulo e cruzou para Maradona, sem marcação, fazer de cabeça. Já o roteiro contra a URSS de Oleksandr Zavarov (que jogaria pela Juventus) foi ainda mais difícil: os alvicelestes se viram pela primeira vez atrás no placar.

    O obscuro Igor Ponomaryov abriu o marcador aos 7 do segundo tempo, em um potente cabeceio na entrada da grande área. Só que o “científico” futebol soviético não podia com aquele jovem diamante já tão bem polido como Maradona no esplendor dos seus 19 anos e sem nenhuma droga no sangue. Os três gols da virada vieram em espaço de oito minutos, do primeiro ao último: o defensor Hugo Alves, em pênalti assinalado pelo brasileiro José Roberto Wright aos 25; Ramón Díaz virou aos 28 enfileirando vermelhos em linda jogada individual desde antes do meio-campo e chutando cruzado na pequena área. O placar e o torneio foram fechados aos 35 por gol do astro maior, com Dieguito em magistral cobrança de falta.

    Além de revelar de vez a joia Maradona ao mundo, aquele título pioneiro foi especial também porque, por relativamente um bom tempo, ser o único da Argentina na categoria. A Albiceleste só se firmaria como potência juvenil a partir de meados dos anos 90, quando o técnico José Pekerman, hoje de sucesso na Colômbia, venceu três dos quatro mundiais realizados entre 1995 e 2001. Não à toa, ele levou diversos ex-comandados à Copa 2006 (Sorín, Riquelme, Franco, Cufré, Samuel, Cambiasso, Placente, Scaloni, Gabriel Milito, Burdisso, Coloccini, Saviola e Maxi Rodríguez), onde por muito pouco o time não eliminou a anfitriã Alemanha e chegou mais longe do que as quartas-de-final. Messi, Gago e Garay foram as revelações da taça de 2005. A sexta e última taça mundial sub-20, no já distante 2007, veio no embalo de Agüero, Romero e Di María. Mas nenhuma das cinco seguintes foi tão histórica como a pioneira – e maradoniana – erguida naquele 7 de setembro de 1979, no Estádio Nacional de Tóquio…

    79-4
    Os destaques dos títulos seguintes: Sorín (que já teve cabelos curtos) em 1995, Cambiasso (que já os teve compridos) em 1997, Saviola (que já foi um novo Maradona) em 2001, Messi em 2005 e Agüero em 2007
  • Argentina no ouro olímpico de 2004, no futebol e no basquete

    Argentina no ouro olímpico de 2004, no futebol e no basquete

    A Argentina no ouro olímpico de 2004 venceu no futebol e no basquete. Tévez e D’Alessandro eram as estrelas, e Messi ainda era desconhecido.

    Há exatos dez anos, a Argentina festejava em dose dupla: com Tévez e D’Alessandro como estrelas-mor (Messi ainda era um desconhecido que nem havia marcado seu primeiro gol profissional), foi campeã olímpica pela primeira vez no futebol e muito bem, com 17 gols a favor e nenhum contra; e em outro esporte dos mais populares no país, o basquete, embalada pela Generación Dorada de Ginóbili, Scola & cia. De quebra, encerrou-se um jejum de mais de meio século: o último ouro havia sido nos Jogos de Helsinque, em 1952, com a dupla Eduardo Guerrero e Tranquilo Capozzo, no remo. Gols e cestas em Atenas também amenizaram recentes decepções hermanas em ambas as modalidades.

    Como era 2004? Boca e River ainda eram forças supremas no país, protagonizando uma sensacional semifinal de Libertadores que contamos aqui. A contratação recorde do Manchester United não era em Ángel Di María, mas no adolescente Wayne Rooney, uma reação ao título inglês invicto do Arsenal (nossa!). Aliás, a Inglaterra via José Mourinho recém-chegar ao Chelsea após levar o Porto de Deco ao título da Liga dos Campeões em final de zebras com o Monaco. A própria Grécia foi outra zebra, vencendo o anfitrião Portugal duas vezes na Eurocopa, tudo acompanhado nas nascentes redes sociais: o Facebook foi lançado naquele ano, mas a febre inicial foi com o Orkut e os fotologs antecediam o Instagram. Sem usar-se Chrome ou o Firefox, que só saiu naquele ano também.

    Estrangeiros degolados no Oriente Médio para a internet ver já ocorriam. A polêmica na Ucrânia da vez era com o envenenamento que deformou o galã candidato presidencial anti-Rússia, em um ano onde o Leste Europeu aderia em massa à OTAN e à União Europeia e via a própria Rússia sofrer tragédia em escola atacada por chechenos. Houve atentado também em Madrid no ano em que partiram Reagan (e seu fã Johnny Ramone), Arafat, Brizola, pai & filho em Superman (Marlon Brando e Christopher Reeve) e, em pleno campo de futebol, o húngaro Fehér e Serginho. A música perdia o guitarrista do Pantera em pleno show e Ray Charles a meses do lançamento do sua cinebiografia.

    As catástrofes naturais de outro filme, O Mundo depois de Amanhã, ficavam pequenas na vida real, com o ano acabando com um devastador tsunami no Sudeste Asiático (e com os argentinos chorando na véspera do réveillon o incêndio na Cromañón, versão portenha da tragédia da boate Kiss) e com o Brasil registrando seu primeiro ciclone, em Santa Catarina. Brasil que vivia o primeiro escândalo político pós-FHC (não o Mensalão, mas o Caso Waldomiro) e de futebol só presente nos Jogos no feminino: no pré-olímpico, Diego, Robinho e demais subiram no salto após eliminarem o anfitrião Chile de Valdivia e Beausejour e perderam a vaga para o Paraguai, mesmo só precisando empatar.

    Ayala (2), Mascherano (5) e Colloccini (4) veem Adriano empatar a Copa América: semanas depois, desafogariam com Delgado (8), Heinze (6), Lux (18), Lucho (16), Tévez (10), D'Alessandro (15), Kily (11) e Rosales (12). Só Lux não estava na Copa América
    Ayala, Mascherano e Colloccini veem Adriano empatar a Copa América: semanas depois, desafogariam com Delgado (8), Heinze (6), Lux (18), Lucho (16), Tévez (10), D’Alessandro (15), Kily (11) e Rosales (12). Só Lux não estava na Copa América

    Um bom prenúncio para o esporte argentino nos Jogos de Atenas veio na França: naquele ano, Roland Garros foi decidido por dois argentinos, Guillermo Coria e o vencedor Gastón Gaudio. Mas o futebol enfrentou forte decepção a semanas das Olimpíadas: além do Boca perder a Libertadores para o Once Caldas, Marcelo Bielsa fracassava novamente na seleção ao perder nos instantes finais e depois nos pênaltis a final da Copa América com uma seleção B do Brasil, sem o logo melhor do mundo Ronaldinho Gaúcho, Roberto Carlos, Kaká e Ronaldo, com folga para namorar Cicarelli.

    Os jogos na Grécia eram a desforra histórica a Bielsa e mais da metade dos vices: Tévez, D’Alessandro, Mascherano, Saviola, Clemente Rodríguez, Coloccini, Luciano Figueroa (ainda cabeludo), Lucho González, Mariano González, Mauro Rosales, Nicolás Medina e César Delgado eram sub-23 que haviam estado na Copa América; em negrito, os que enfrentaram o Brasil – contra quem Delgado fez o gol quase decisivo na final, aos 42 do segundo tempo. Tévez e D’Alessandro, então, ficaram marcados como provocadores pelas firulas para ganhar tempo nos acréscimos. Mascherano dedicaria o ouro aos demais vices que, veteranos, não teriam lugar nos Jogos. Destes, Bielsa escolheu Heinze, Kily González e Ayala, capitão e o único remanescente de outra decepção, a prata em 1996.

    Na terra de Alexandre Magno e dos guerreiros que combateram em Troia (duas facetas da antiguidade que, como o polêmico A Paixão de Cristo, ganharam superproduções no cinema naquele 2004), Michael Phelps deu um banho (com o perdão do trocadilho) em outra promessa nas Olimpíadas, Cristiano Ronaldo: após a decepção na Euro, Portugal caiu na primeira fase, perdendo até para a surpresa Iraque na estreia. Os argentinos, do seu lado, davam um recado ao azar logo cedo: em um prenúncio do que fariam com o mesmo adversário na Copa 2006, começaram a campanha sapecando um 6-0 na Sérvia & Montenegro. Tévez  já se mostrava como o protagonista, com dois gols. Mas o mais bonito foi o de Kily González, dividindo com o goleiro após bela enfiada de D’Alessandro. Os jogos seguintes, contra adversários tecnicamente mais fracos, foram mais magros.

    Tévez, em lindo peixinho após longo cruzamento de Kily, e Saviola, na cara do gol após belo malabarismo de Mariano González, anotaram sobre a Tunísia e D’Alessandro fez o único contra a Austrália, concluindo na entrada da área bela jogada coletiva que ele mesmo armou. A produção de gols voltou com tudo nos mata-matas, especialmente em Tévez, que fez três nos 4-0 sobre a Costa Rica; um, de voleio. Mesmo a Itália de Pirlo foi goleada, na semifinal: 3-0, com o Apache marcando em potente sem-pulo, fazendo ainda outro gol, anulado, e dando assistências em rápidos contra-ataques aos xarás Lucho e Mariano González quando a Itália estava melhor. A final seria contra o Paraguai, cujos jovens que eliminaram o Brasil estavam reforçados por Gamarra. Enlutecidos por um incêndio que naquele agosto matou centenas em Assunção em supermercado fechado pelos donos para que a clientela não saísse das chamas sem pagar pelas compras (!), os guaranis já haviam feito muito. Prata ou ouro, seria a primeira medalha olímpica do país, dentre todos os esportes.

    2004-3
    Laureados: Heinze, Burdisso, Mariano González, Caballero, Medina, Colloccini (coberto), Mascherano, Lux, Kily González e Ayala; Saviola, Lucho González, Rosales, Tévez, Delgado, Figueroa, Clemente Rodríguez e D’Alessandro

    Paralelamente, a geração dourada do basquete, com muitos oriundos de clubes de futebol (confira aqui), fazia bonito outra vez. Dois anos antes, em 2002, já havia sido vice na Copa do Mundo, com direito a vencer nada menos que os EUA em Indianápolis, na primeira derrota ianque só com atletas da NBA. Mas o feito virou anticlímax com o vice na prorrogação para a Iugoslávia por erro de arbitragem no fim, ainda que tal adversário seja exatamente o maior campeão das Copas de basquete – é penta e um dos títulos, o último antes da separação, foi exatamente na Argentina, em 1990. O troco veio logo na estreia, que, como no futebol, também opôs os hermanos com a Sérvia & Montenegro, nome que a Iugoslávia remanescente adotara em 2003. Só que foi muito mais complicado.

    Os europeus ficaram na frente nos três últimos quartos, mas prevaleceu a enorme diferença aberta pelos sul-americanos no primeiro, onde haviam aberto um 27-15. O placar final foi um apertadíssimo 83-82 no embalo de Ginóbili, que fez a cesta da vitória cravadamente no último segundo em contra-ataque depois de Tomašević desempatar em tiro livre a 3,8 segundos do fim e mal conseguiu respirar após ser soterrado pelos colegas. Ele acabou de ser campeão da NBA neste 2014 e na época estava embalado justamente por seu primeiro título logo em sua estreia nela, em 2003, sempre no San Antonio Spurs. O desgaste cobrou preço no compromisso seguinte. Scola, único argentino cestinha de uma Copa (em 2010), jogou demais e foi o máximo anotador, com 28 pontos. Venceu o duelo individual com Pau Gasol (quem teve a melhor média de cestas por jogo em Atenas), que fez 26, mas a Espanha, asa-negra dessa geração, é que ganhou, por 87-76. O descanso veio sobre a China de Yao Ming, que caiu por 82-57 com destaque especial para Andrés Nocioni, cestinha do jogo com 17 pontos.

    O equilíbrio voltou contra a Nova Zelândia: os Tall Blacks venceram o primeiro e o último quarto e houve empate no terceiro. Os sul-americanos só venceram o segundo, mas por diferença maior e, graças especialmente a Scola e seus 25 pontos, ganharam por 98-94. Contra a Itália, então, foi ainda mais parelho. Primeiro quarto, Itália 23-13. No segundo quarto, troco quase na mesma proporção: Argentina 22-13. A diferença mínima no placar geral seguiu ao fim do terceiro quarto, com mais 18 pontos para cada um. No último, a diferença de uma cesta (23-21) foi favorável aos italianos, que ganharam por 76-75 apesar do esforço de Scola e Ginóbili, cestinhas da espetacular noite com 19 pontos cada um. Apesar das duas derrotas, os argentinos se classificaram em terceiro; só haviam dois grupos de seis no torneio, e os quatro melhores de cada avançavam. Mas a dureza seguiria.

    O jogo seguinte foi contra a torcida da casa e a Grécia endureceu, especialmente por um segundo quarto onde somou 21-7 e virou o placar, que estava em 22-14 para os visitantes. Mas os comandados do técnico Rubén Magnano (agora treinador do Brasil) venceram os quartos seguintes e o jogo foi ganho por 69-65. Ginóbili outra vez fez mais diferença, com duas assistências e 13 pontos, cestinha da dura partida ao lado do colega Fabricio Oberto. Já Pepe Sánchez brilhava na armação. Frenético, o torneio não parava e um dia depois teve as semifinais. Contra os EUA.

    No basquete, a decepção havia sido perder a Copa do Mundo de 2002 no fim da prorrogação por erro de arbitragem. À esquerda, Wolkowsky, Nocioni, Fernández, Scola e Oberto; Gutiérrez, Delfino, Sconochini, Montecchia, Herrmann (atrás), Ginóbili e Sánchez
    No basquete, a decepção havia sido perder a Copa do Mundo de 2002 no fim da prorrogação por erro de arbitragem. À esquerda, Wolkowsky, Nocioni, Fernández, Scola e Oberto; Gutiérrez, Delfino, Sconochini, Montecchia, Herrmann (atrás), Ginóbili e Sánchez

    Bom, os EUA não impunham mais o respeito de outrora nem no próprio quintal: na fase de grupos, perderam para Porto Rico (e por muito: 92-73), mas não dava para subestima-los – haviam eliminado Gasol e demais espanhóis nas quartas. No elenco, Allen Iverson, LeBron James, Dwayne Wade… mas quem estava embalado era Stephon Marbury. Ele foi o cestinha contra a Espanha e quem mais deu trabalho à Argentina, com 18 pontos. Só que um espetacular Ginóbili fez 29 e permitiu nova vitória hermana sobre a NBA, por 89-81. Só faltava vencer (e dar um troco) a Itália outro dia depois para sua redenção pessoal também: na final da Copa 2002, só jogou 15 minutos, lesionado.

    28 de agosto, penúltimo dia dos Jogos, começou cedo e terminou tarde já no horário grego: às dez da manhã, a final do futebol, e às 22:45, a do basquete. Para quem estava em Buenos Aires, então, a cobertura para os louros sobre Tévez começou na madrugada: as seis horas de diferença fizeram a exibição começar às 4 da manhã. Carlitos não desapontou para quem acordou antes da hora ou a quem resolveu emendar. Antes dos 20 minutos, já puxava a dancinha de cumbia, antecipando-se a Manzur e Gamarra (que perdeu a famosa classe e merecia ser expulso após cotovelada no Apache) na saída do goleiro após cruzamento de Rosales. E ficou nisso: Mascherano & cia lá atrás não tiveram maiores trabalhos para neutralizar a referência ofensiva máxima guarani, o veteraníssimo José Cardozo. Com o título que faltava à seleção, Bielsa podia se recompor. A ponto de, ao anunciar dias depois sua saída do cargo de técnico da seleção, enfim como vencedor, causar surpresa; só o semifundista marroquino Hicham El Guerrouj teve desforra maior na Grécia.

    A única final olímpica da Albiceleste havia sido aquela de 1928, perdida em clássico com o Uruguai. No básquet, o desafogo não seria tão menor: a única conquista mundial da Argentina havia sido na primeira Copa do Mundo, em 1950, sediada em casa. Doze horas depois de Tévez e colegas serem laureados, era a vez de acompanhar Ginóbili. Mas quem brilhou mais foi Scola. Fez a final contra a mesmíssima Itália, que os derrotara na primeira fase e havia eliminado na semifinal a dona da melhor campanha do torneio (a Lituânia), parecer fácil: o sósia de Loco Abreu foi o cestinha da decisão, com 25 pontos, demonstrando todo o seu oportunismo em 11 cestas após rebotes.

    Contra o ótimo momento boleiro da Itália (bronze no futebol e que um dia depois via sua grande geração do vôlei nos anos 90 ser prata após tie break contra o Brasil), a Argentina teve a vitória mais folgada dos mata-matas. Foi 84-69. Um momento tão especial que os prêmios Olimpia não conseguiram se decidir. Trata-se do Oscar do esporte argentino, desde 1954 outorgando o Olimpia de Prata ao vencedor de cada modalidade e, ao vencedor dentre os vencedores, o Olimpia de Ouro, que é rigoroso: nele, o vitorioso futebol argentino só rendeu seis e o basquete, três. 2004 viu o prêmio máximo ser entregue pela primeira e única vez a duas pessoas: os protagonistas Tévez e Ginóbili.

    *Já falamos sobre o bi olímpico, com Messi, Riquelme e Agüero campões em 2008: clique aqui.

    *Em dois dias, começa a Copa do Mundo de Basquete de 2014, onde estarão Scola, Gutiérrez, Herrmann e Nocioni, medalhas de ouro há dez anos em Atenas. Voltaremos a falar rapidamente da seleção do “baloncesto”!

    Os técnicos Magnano (erguido pelo assistente) e Bielsa nos festejos
    Os técnicos Magnano (erguido pelo assistente) e Bielsa nos festejos
  • Argentina x Uruguai: os 125 anos do primeiro confronto entre os países

    Argentina x Uruguai: os 125 anos do primeiro confronto entre os países

    O primeiro Argentina x Uruguai aconteceu quando o Buenos Aires FC, pioneiro do futebol sul-americano, ainda reunia os jogadores do país.

    Buenosaires_fc_1891
    Jogadores do Buenos Aires FC em 1891, quando o pioneiro do futebol sul-americano jogou pela única vez no Argentinão

    Os brasileiros vêem-se como principais rivais dos argentinos, mas tradicionalmente a principal rivalidade internacional portenha no futebol é com os uruguaios. Assim foi até a virada dos anos 50 para os 60. Albiceleste e Celeste Olímpica lutavam pela dianteira em títulos na Copa América e os vizinhos da margem oriental do Rio da Prata, se tinham menos títulos continentais, contavam vantagem pelo bi olímpico. Mas a partir de 1958 os brasileiros, então a terceira força sul-americana, começaram a superar ambos em expressão mundial ao ganhar três Copas do Mundo em doze anos.

    A taça brasileira na Suécia completa 56 anos em 2014. E mesmo ela, nem a de 1962, não alteraram uma cultura de décadas de rivalidade de uma hora para outra. Assim, na maior parte do tempo os argentinos tiveram mesmo mais rixas com os orientales, e há muitos que seguem pensando assim. O primeiro capítulo do clássico platino completa hoje 125 anos, outros tempos. O profissionalismo no futebol era algo distante, que ainda na pátria-mãe do Reino Unido dava seus primeiros passos. O esporte não era uma indústria de e para dinheiro. A logística era outra. E a rispidez também: ainda era um jogo de cavalheiros e quase restrito à comunidade britânica.

    E a Argentina tinha numerosa comunidade dos súditos vitorianos. A ponto de em 1867 ser fundado nela o primeiro clube para futebol na América: o Buenos Aires Football Club. De fato, era uma outra época, pois a palavra football também poderia significar o rúgbi. O campeonato argentino de futebol é o mais antigo do mundo fora do Reino Unido e teve sua primeira edição em 1891. Apenas no ano de 1913 é que um clube formado fora da comunidade britânica terminou campeão na elite, o Racing, que virou um símbolo do estilo latino até por trajar-se com as cores da bandeira nacional.

    No Uruguai, o esporte também era fechado a anglo-saxões. O Nacional, como diz o nome, foi fundado em 1899 exatamente em oposição a isso, com os primeiros campeonatos uruguaios tendo ele contra clubes chamados Albion (nome antigo da Grã-Bretanha), Uruguay Athletic, Deutscher (da comunidade alemã) e Central Uruguay Railway Cricket Club, o CURCC, clube que depois viraria o Peñarol. Vinha ficando comum que clubes de críquete adotassem futebol, inicialmente como modalidade secundária. No Brasil, o Vitória da Bahia, fundado em 1899 também, foi outro exemplo.

    O pioneiro do futebol uruguaio, porém, não foi nenhum deles e sim o Montevideo Cricket Club, fundado em 1861 e que já era um velho conhecido do Buenos Aires FC, que era oriundo e dividia sua sede com o Buenos Aires Cricket Club. Ambas as instituições já haviam travado os primeiros jogos de críquete entre representantes dos dois países, em 1868 (o primeiro confronto esportivo internacional na América do Sul), e o primeiro de rúgbi, em 1875. Para o jogo de futebol em 1889, o Montevideo Cricket seria reforçado por sócios do Montevideo Rowing Club, o clube de regatas.

    A rigor, argentinos e uruguaios já haviam se enfrentando antes no futebol, em 1880, com sócios do Buenos Aires contra outros do Zingari Cricket Club. Só que eles jogaram misturados: não houve jogo entre os clubes propriamente, e sim um encontro entre sócios deles que definiram seus jogadores antes do pontapé inicial.

    1889 foi o ano do 70º aniversário da Rainha Vitória, pretexto para um jogo de futebol entre britânicos de Buenos Aires contra os de Montevidéu. Havia também a inauguração da nova sede do Montevideo CC. 15 de agosto era feriado nos dois países, por ser a data da assunção da Virgem Maria. Segundo crônicas dos jornais anglófonos The Standard, de Buenos Aires, e The River Plate Times, de Montevidéu, os “argentinos” venceram por 3-1. Um dia antes, membros das duas delegações confraternizaram em um baile britânico no Hotel Nacional da capital uruguaia, com o The River Plate Times registrando que de fato “muitas poucas famílias locais”, ou seja, de latinos, foram convidadas.

    bamv
    Distintivos de Buenos Aires CRC, nas cores da bandeira britânica e o característico leão rampante de ingleses e escoceses, e do Montevideo CC, com o mar nas cores uruguaias e o monte que nomeia a cidade, mas também com os três leões ingleses

    O baile terminou às 3 da manhã e o dia 15 amanheceu bem frio, o que não atrapalhou a realização da partida. Em anúncios, se esclareceu que as regras do football praticado seriam os da Football Association, o que não necessariamente quer dizer que é o futebol como conhecemos, não existindo ainda regras como a do pênalti ou de uniforme diferente para goleiros. Havia a figura do umpire, espécie de árbitro-auxiliar da época, que era cedido por cada clube. E o esquema tático era um triângulo invertido, repleto de atacantes e com poucos defensores, algo impensável para hoje. Os britânicos argentinos dominaram a partida, abriram 2-0 no primeiro tempo e ampliaram no início do segundo. Mais na base do entusiasmo, os oponentes descontaram uma vez e ficou no 3-1.

    O jornal uruguaio noticiou que “o jogo, desde o começo, esteve bastante mais de um lado e o couro se manteve quase todo o tempo no território de Montevidéu, devido à destreza superior dos visitantes e o bom jogo dos atacantes em comparação com os da equipe anfitriã. Devemos, porém, ressaltar que ambos os lados têm muito o que aprender a respeito”. Ainda segundo o periódico, Scoones, autor do único gol uruguaio, “mostrou aos espectadores o que o futebol poderia chegar a ser se as equipes estivessem compostas integralmente por homens experientes como ele”.

    O The River Plate Times também descreveu um chute de Guy como de first class, enquanto que Moser monstrou “um claro bom jogo como half back” e Paton “nunca perdeu seu arremate”. No time montevideano, o arremate de Alexander foi importante, mas Jefferies e Pool estiveram “bastante descoloridos”. Ambos os clubes duelaram anualmente até 1894, com as sedes se alternando e os portenhos sempre vencendo. Já o primeiro jogo entre seleções demoraria treze anos, com o uniforme celeste sendo vestido curiosamente pelos hermanos e não pelos charrúas. A presença britânica seguia forte, especialmente do lado argentino, que voltou a vencer mesmo fora de casa: 6-0 que contamos aqui.

    Os clubes que deram origem ao clássico seguem existindo. Na realidade, o BAFC oficialmente se extinguiu nos anos 50 após incêndio na sede que dividia com o BACC. Ele já não praticava futebol desde o século anterior; embora tenha participado do campeonato inaugural de 1891, resolveu focar-se no rúgbi, assim como muitos dos primeiros clubes e campeões argentinos. Na prática, hoje ele existe como Buenos Aires Cricket & Rugby Club, a fusão formal das duas instituições, e hoje sua sede está na cidade de San Fernando. Já dedicamos dois especiais ao BAFC (clique aqui e aqui) e alguns aos outros clubes pioneiros do futebol argentino que já não mais o praticam: vejam nesta seção.

    O vizinho Montevideo CC também escolheu priorizar a bola oval, sendo inclusive reconhecido pela International Rugby Board como a sétima instituição mais antiga no mundo a praticar este outro esporte bretão. Amanhã, aliás, começa a terceira edição do Rugby Championship, quadrangular anual que opõe Los Pumas (a seleção argentina, a mais forte das Américas) contra as três maiores potências mundiais, todas bicampeões da Copa do Mundo: a África do Sul, Austrália e Nova Zelândia. Os hermanos buscam sua primeira vitória. Los Teros, a seleção uruguaia, a segunda força sul-americana, lutará em outubro pela última vaga na Copa do Mundo de 2015, em repescagem contra a Rússia.

    Abaixo, as escalações daquele 15 de agosto de 1889. Cerca de trinta anos depois, aquela semente plantada há 125 anos desembocava em duas finais mundiais, a olímpica de 1928 e a da primeira Copa do Mundo, em 1930, cumprindo a “profecia” feita pelo tal jornal The Standard de que “a visita foi tratada com a já conhecida hospitalidade que sempre nos hão brindado nossos amigos do ‘Monte’. É nosso desejo que este, a primeira partida de football association que acreditamos que se tenha jogado entre Buenos Aires e Montevidéu, não será a última, e sim a antecedente de uma larga série de confrontos entre as repúblicas rivais”.

    Buenos Aires: Carmichael, Crowe e Paton, MacAdam, Moser e Phillips, Guy, Morgan, Hughes, Alexander e Tudor. Umpire: ?. Montevidéu: Donovan, Alexander e Jefferies, Marshbank, Jewell e Davie, Scoones, Faran, Poole, Harris e Penfold. Umpire: MacKinron. Gols: Alexander, Guy, Hughes e Scoones. Árbitro: ?

    bamv2
    Jogos recentes de Buenos Aires CRC e Montevideo CC no rúgbi, principal esporte bretão de ambos desde o século XIX
  • Argentina x Alemanha: bom retrospecto geral, dificuldade em Copas

    Argentina x Alemanha: bom retrospecto geral, dificuldade em Copas

    Argentina x Alemanha tem retrospecto geral favorável aos hermanos, mas o inverso vale para as Copas. Maradona conheceu os dois lados, em 1986 e 1990.

    1986-90
    Os diferentes semblantes de Maradona após as finais de 1986 e 1990, contra a Alemanha Ocidental. Só em 1986 a Argentina venceu os alemães em Copas

    “Eles ganham os amistosos, nós os jogos competitivos”, declarou Wolfgang Niersbach, presidente da federação alemã de futebol, sobre os próximos e últimos oponentes no mundial. Provocou com razão: Argentina e Alemanha já se enfrentaram dezenove vezes, contabilizando os jogos contra a antiga Alemanha Ocidental. Foram oito vitórias argentinas, incluindo uma por 3-1 dentro de Frankfurt há dois anos, contra seis germânicas e cinco empates. Aliás, os hermanos só perderam dois dos oito encontros já disputados dentro da Alemanha. Mas a freguesia simplesmente se inverte nas Copas.

    O primeiro duelo entre os finalistas de 2014 também veio em uma Copa, em 1958. Foi o primeiro jogo deles na Copa da Suécia e marcava o retorno argentino a mundiais após 24 anos: por diferentes razões, os argentinos cometeram a furada histórica de não participarem das eliminatórias às Copas 1938, 1950 e 1954. Um retorno que começou dourado, literal e metaforicamente: o craque Omar Corbatta abriu o placar logo no início contra os detentores do título. E os sul-americanos jogaram com a camisa amarela do IFK Malmö, emprestada pelo clube da cidade para evitar confusão com a camisa alemã.

    Só que os teutônicos se impuseram no fim do primeiro tempo. Em dez minutos, aos 32 e aos 42, viraram o jogo, com Helmut Rahn (quem decretara a vitória sobre a Hungria em 1954) e Uwe Seeler, que marcou ali pela primeira vez em Copas – só ele, Pelé e Miroslav Klose marcaram em quatro mundiais. Rahn ainda faria os 3-1 no fim do segundo tempo. Foi o primeiro revés do “Desastre da Suécia”: achando-se favoritos, os argentinos caíram na primeira fase. Relatamos aqui.

    O encontro seguinte também foi em um mundial, em 1966. Em Birmingham, novamente na fase de grupos, não saíram de um 0-0, agora na segunda partida. Ambos terminaram classificados. O terceiro jogo foi em 1973, e nele veio a primeira vitória argentina. Em plena Munique, Miguel Brindisi, Norberto Alonso e Jorge Ghiso anotaram os 3-2 sobre os anfitriões (e campeões) da Copa seguinte, que descontaram com Bernhard Cullmann e Jupp Heynckes. O troco veio em 1977, quando os alemães-ocidentais venceram em Buenos Aires por 3-1. Foi a única derrota dos argentinos em casa na série de amistosos preparatórios ao mundial que sediariam.

    Em La Bombonera, Bernd Holzenbein e dois de Klaus Fischer foram os gols germânicos, com Daniel Passarella descontando. Dois anos depois, em Berlim Ocidental, Klaus Allofs e Karl-Heinz Rummenigge fizeram os gols de novo triunfo alemão, 2-1 com José Castro marcando para os argentinos. No primeiro dia do ano de 1981, no Mundialito do Uruguai, os hermanos conseguiram uma virada-relâmpago no Estádio Centenário: Horst Hrubesch abriu o marcador em Montevidéu, mas aos 39 minutos do segundo tempo Manfred Kaltz marcou contra e aos 43 minutos Ramón Díaz desempatou.

    1958-66
    Os capitães Pedro Dellacha e Hans Schäfer se cumprimentam em 1958, quando a Argentina vestiu amarelinha (!). Em 1966, Wolfgang Weber e Luis Artime no 0-0

    Em março de 1982, no Monumental de Núñez, Wolfgang Dremmler e Gabriel Calderón foram os autores do 1-1. Em 1984, em Düsselforf, José Ponce fez o jogo da sua vida, marcando dois na vitória argentina por 3-1. Outro de atuação recordada foi Ricardo Bochini: um dos maiores craques do país (leia), jamais marcou gols pela seleção e ali um chute seu desde o meio-de-campo passou perto de entrar. Já Jorge Burruchaga fez ali seu primeiro gol sobre os alemães. Dietmar Jakobs descontou.

    Em 1986, a primeira final entre eles foi talvez a mais emocionante das Copas. José Luis Brown fez seu único gol pela seleção ao abrir de cabeça o placar – atuaria com o polegar quebrado. Quando Jorge Valdano ampliou aos 11 do segundo tempo, a situação parecia definida. Mas em dez minutos, aos 19 e aos 29 do segundo tempo, a Nationalelf empatou, com os oportunistas Rummenigge e Rudi Völler. Mas três minutos depois disso, um Maradona até então bem marcado teve espaço para um sensacional passe para Burruchaga ficar cara a cara com Harald Schumacher e fazer o gol do título.

    Um ano e meio depois, em dezembro de 1987, Burruchaga novamente aprontou, marcando o único gol de amistoso no Monumental. Em abril do ano seguinte, em Berlim Ocidental, novo 1-0, dessa vez para os alemães, gol de Lothar Matthäus. E em 1990, mais um 1-0, na segunda final da Copa entre a Albiceleste e a Mannschaft. Seriamente desfalcados, os argentinos (sem Claudio Caniggia, por exemplo) ainda tiveram Pedro Monzón expulso no início do segundo tempo, após uma tesoura que Jürgen Klinsmann enfeitou demais, com direito a dar uma rolada no chão após cair, erguer de bruços as pernas o mais alto que podia e rolar mais três vezes. Monzón foi o primeiro expulso em final de Copa.

    Retrancados e talvez confiando em novo heroísmo de Sergio Goycochea em eventual decisão por pênaltis, os argentinos precisaram dele mais cedo do que isso: a 5 minutos do fim, o árbitro mexicano Edgardo Codesal viu pênalti de Néstor Sensini sobre Völler. Goycochea pulou no canto certo, mas não alcançou o tiro de Andreas Brehme, que marcou ali o único gol do jogo. O próprio Brehme teria reconhecido em entrevista ao jornal espanhol El País em 2006 que a penalidade não existiu.

    Em dezembro de 1993, em uma prévia da Copa dos EUA, os últimos finalistas se enfrentaram em amistoso em Miami. Foi o primeiro jogo da Argentina contra a Alemanha (re)unificada. E os argentinos, após uma classificação complicada (veja aqui), venceram os últimos campeões por 2-1, gols de Hernán Díaz, Andreas Möller e Abel Balbo. O jogo seguinte seria só em abril de 2002, em amistoso pré-Copa. Em Stuttgart, Juan Pablo Sorín marcou o único gol, mas ironicamente na Ásia a forte seleção de Marcelo Bielsa cairia na fase de grupos enquanto os alemães em frangalhos conseguiriam ir à final. Em seguida, dois jogos em 2005, ambos terminados em 2-2 na Alemanha.

    2006-10
    Maxi Rodríguez e Philipp Lahm no duelo de 2006. Thomas Müller e o gol-relâmpago em Sergio Romero em 2010. Estarão todos novamente envolvidos logo mais

    O primeiro, um amistoso em fevereiro em Düsseldorf, teve dois gols de Hernán Crespo para os argentinos e Torsten Frings e o brasileiro Kevin Kurányi fazendo os dos anfitriões. Na fase de grupos da Copa das Confederações, em Nuremberg, Kurányi marcou de novo e outro imigrante, o ganês Gerald Asamoah (primeiro negro da seleção alemã), fez o segundo germânico. Juan Román Riquelme e Esteban Cambiasso empataram. Um ano depois, em Berlim, o bom retrospecto argentino em solo alemão parecia que seria reforçado. Roberto Ayala abriu o placar e os hermanos iam bem.

    As coisas se complicaram nos últimos 20 minutos, porém. Roberto Abbondanzieri se contundiu e uma inesperada substituição de goleiros precisou ser feita, com Leo Franco assumindo as redes. Daí, o técnico José Pekerman resolveu reforçar a defesa, trocando o meia-armador Riquelme pelo volante Cambiasso. Ainda trocou Crespo pelo inábil Julio Cruz. Chamados ao ataque, até pela necessidade, os alemães foram para cima e um minuto depois de Cruz ingressar, Klose marcou. Nos pênaltis, todos os alvinegros – Oliver Neuville, Michael Ballack, Lukas Podolski, Tim Borowski – foram acertando.

    Já do lado argentino, Cruz acertou o primeiro, Ayala teve o seu defendido por Jens Lehmann, Maxi Rodríguez converteu e Cambiasso, após perder a quarta cobrança, decretou a eliminação nas quartas-de-final de um dos mais promissores times que a Argentina já levou a uma Copa. Em 2010, novamente os finalistas de 2014 se encararam nas quartas. Sendo que em março, em plena Allianz Arena de Munique, Gonzalo Higuaín fez o único gol do amistoso. Mas, na Cidade do Cabo, os teutônicos massacraram desde cedo: Thomas Müller abriu o placar logo aos 3 minutos. Klose ampliou aos 13 do segundo tempo. Arne Friedrich matou seis minutos depois. Klose ainda fez outro, aos 44.

    O último encontro foi aquele de Frankfurt, em 15 de agosto de 2012. Sami Khedira, marcando contra, e Lionel Messi e Ángel Di María abriram 3-0. Benedikt Höwedes só diminuiu a 9 minutos do fim. Os argentinos usaram quase todo o time-base de Alejandro Sabella no início desta Copa: Romero, Zabaleta, Federico Fernández, Garay e Rojo, Mascherano, Gago, José Sosa (a única exceção; não foi convocado), Di María, Messi e Higuaín. Entraram ainda Agüero e Campagnaro e dois não-convocados, Rodrigo Braña e Pablo Guiñazú. Por outro lado, muitos nomes derrotados ali não vieram ao Brasil: Holger Badstuber, Marcel Schmelzer, Lars Bender, Marco Reus, Marc-André ter Stegen e İlkay Gündoğan.

    Contra a antiga Alemanha Oriental, a Argentina também teve bom retrospecto geral (dois jogos e invicta) mas duvidoso em Copas: contra a pátria original de Toni Kroos, empatou na segunda fase de grupos da Copa 1974. Joachim Streich, maior artilheiro dos ossies, abriu o placar e René Houseman empatou em Gelsenkirchen, na única não-derrota dos alemães do leste naquela fase. Foi o último jogo da antiga RDA em Copas e ocorreu dois dias depois da morte do presidente Perón; alguns argentinos teriam até cogitado voltar antes ao país para os funerais. E foi a estreia de Ubaldo Fillol na seleção – ele não se firmou e só voltaria a defendê-la já em 1978, às vésperas de nova Copa. Um ano antes, em 1977, na Bombonera, Houseman marcou de novo e Jorge Carrascosa fez outro na vitória hermana por 2-0.

    1974
    A Alemanha Oriental também não foi vencida em Copas: 1-1 em 1974. Os argentinos são Enrique Wolff (caído e com visível faixa preta no braço, de luto pelo presidente Perón) e Rubén Ayala, ao fundo