Categoria: Clássicos e Rivalidades

  • Racing na casa do Independiente: a vitória por 3 a 1 anterior

    Racing na casa do Independiente: a vitória por 3 a 1 anterior

    O Racing na casa do Independiente já venceu por 3 a 1 antes, e este texto recupera aquele jogo. O clássico de Avellaneda tem história de viradas.

    O Racing, talvez pela ressaca, pode até derrapar na reta final e perder o título ao surpreendente Defensa y Justicia, que ainda jogará na rodada e poderá manter a co-liderança. Mas o Clásico de Avellaneda de ontem já é histórico à Academia, por diversos fatores. O menino veterano Lisandro López, por exemplo, chegou aos quinze anos de gols marcados em dérbis competitivos, superando os quatorze (1972-86) do recordista anterior, a lenda rival Ricardo Bochini, ainda que El Bocha tenha deixado outro em amistoso de 1988. O mais marcante, porém, é que os 3-1 de ontem são a primeira vitória racinguista no estádio Libertadores da América; o triunfo de 2-0 em 2015 foi pela liguilla. E fazia 21 anos que La Acadé não marcava três gols na casa rival, ainda a Doble Visera na época. Em outro dérbi famoso, por sinal, com direito a blecaute para impedir uma goleada.

    Em 2004, o Racing derrotou por 3-1 fora de casa o Independiente, mas o Rojo mandou o clássico no estádio do Lanús; foi inclusive esse dérbi que rendeu o primeiro gol de Licha López no duelo. Na casa própria do rival, é necessário rebobinar a fita para quando ainda se rebobinavam VHS: 26 de agosto de 1998. Àquela altura, Marcelo Bielsa havia acabado de levantar seu último troféu no futebol adulto, o Clausura 1998 pelo Vélez, rendendo uma transferência europeia ao Espanyol logo abortada: na semana anterior, El Loco rescindira sua brevíssima estadia com os catalães para assumir a seleção argentina, provavelmente sem desconfiar que, 21 anos depois, seguiria sem títulos que não as Olimpíadas de 2004.

    Faz tanto tempo que não só Messi e Agüero ainda eram juvenis em Newell’s e no próprio Independiente, como até os mais velhos Saviola e D’Alessandro também. Maradona e Francescoli estavam recém-aposentados e a Era Carlos Bianchi recém-começava no Boca – ainda detentor de só duas Libertadores e chegando precisamente ao 20º ano de jejum nesse torneio. O Real Madrid, por sua vez, havia acabado de encerrar um ainda maior, de 32, até erguer La Séptima, ou quase três vezes a eternidade que parece ter durado o período 2002-14, entre La Novena e La Décima. Ah, o campeão inglês era o Arsenal, na primeira conquista sob Arsène Wenger, enquanto o Manchester City (cuja principal estrela ainda não era o impúbere Agüero e sim um georgiano, Giorgi Kinkladze, que chegou por sinal a envolver-se com o Boca anteriormente) acabava de ser rebaixado à terceira divisão…

    Em 1998, Agüero ainda era um obscuro juvenil sob orientação da lenda Ricardo Bochini, que teve um recorde quebrado ontem por Lisandro López. E Messi era o dono da bola no Newell’s

    Àquela altura, o Racing vivenciava um incômodo jejum à parte de sua estiagem de títulos no campeonato argentino (que chegava ao 32º ano). Invicto durante oito anos no clássico entre 1986 a 1994 (ou onze, dependendo da versão, entre 1983 e 1994, pois a estadia da Academia pela segundona entre 1984 e 1985 impediu o confronto), não conseguia novas vitórias desde que esse tabu caíra no Apertura 1994. Foram quatro sucessivos empates, duas derrotas em 1997 e novo empate no primeiro semestre de 1998. Nesse meio-tempo, um clube que sentia um certo renascimento entre 1988 e 1995 era declarado quebrado pelo presidente Lalín, mas apenas para evitar medidas restritivas dos credores. Sem austeridade alguma, contratou o técnico Ángel Cappa junto ao Las Palmas, trouxe de volta o ídolo Rubén Capria e adquiriu ainda outros jogadores de certo renome.

    Irmão do zagueiro Diego Capria que defenderia o Atlético Mineiro, Rubén era um camisa 10 talentoso marcado em especial pelos três gols que anotara em um 6-4 do clube sobre o Boca de Maradona e Caniggia em plena La Bombonera em 1995. Esse jogo, por sinal travado no mesmo dia em que Mauricio Macri elegia-se presidente xeneize, fora a primeira derrota do então líder Boca, já na antepenúltima rodada, permitindo que o Racing o ultrapassasse, ainda que os de Avellaneda tenham chegado somente ao vice no fim das contas (para o Vélez). El Mago Capria seguira no clube até 1997, quando chegaram às semifinais da Libertadores. Havia sido vendido pouco depois exatamente para oxigenar o caixa blanquiceleste.

    Capria foi um dos mais talentosos camisas 10 a jamais defenderem a seleção argentina, por pura opção técnica. Outro com potencial, mas prejudicado pelo próprio desleixo, era Ángel Matute Morales. Ele havia sido revelado no próprio Independiente, onde fora polido por César Menotti, a quem agora enfrentaria: Menotti havia feito um grande trabalho no Clausura 1997. Como o torneio só seria finalizado em agosto, com a temporada europeia de 1997-98 já em andamento, o treinador não ficou até o fim para aceitar proposta da Sampdoria. Saiu faltando quatro rodadas, mas deixando o Rojo como líder após um 6-0 exatamente sobre quem ocupava a liderança, o Colón. Morales foi junto e o negócio não fez bem a ninguém: o Rojo minguou e nem no pódio ficou. Menotti e Morales não se ambientaram na Serie A e logo voltaram a Avellaneda para 1998, mas a lados vizinhos.

    Prensado por Cristian Díaz, Marcelo Delgado toca manso na saída de Faryd Mondragón, o suficiente para abrir o placar

    Outro meia-armador de talento subvalorizado pela seleção que chegara ao Racing era Diego Latorre (que até defendeu a Albiceleste, mas restrito a pouquíssimas oportunidades em 1991), que deixava para trás um ciclo de idas e vindas em um Boca que vivia em estiagem de títulos apesar de diversos astros de um verdadeiro “cabaré”, o adjetivo usado por Gambetita para descrever o ex-clube. Contratou-se ainda o goleiro Gastón Sessa, figura do Rosario Central em passagem que chegou a sondar-lhe à seleção, por sinal. Sessa, um ano antes, já havia presenciado um clássico histórico encerrado antes do tempo: os canallas ganhavam por 4-0, a maior goleada do Clásico Rosarino desde os anos 50 até hoje, quando a partida terminou por falta de jogadores do rival, entre expulsos e lesionados.

    Em meia hora de dérbi na Doble Visera, a plateia visitante já comemorava um 2-0 com pinta para mais. O astro que já estava no Racing em meio à quebra era Marcelo Delgado, representante do clube na recém-finalizada Copa do Mundo de 1998, ainda que na reserva. Fora El Chelo quem abrira o placar, logo aos seis minutos, resistindo à marcação de Cristian Díaz para desferir um chute fraco mas suficiente para chegar ao gol antes do corte e longe do alcance das luvas de Faryd Mondragón – ainda longe do recorde de mais velho jogador das Copas do Mundo que manteria entre 2014 e 2018. Além de Mondragón, outro ilustre nome na escalação anfitriã era Esteban Cambiasso, contratado após o título mundial sub-20 de 1997 pelo Real Madrid e emprestado ao Rojo para adquirir experiência.

    De fato, ainda verde, Cambiasso falhou feio e rude nos dois gols; no primeiro, dominou mal uma bola e permitiu que uma interceptação a repassasse a Delgado. Já no segundo, o que parecia uma bonita invertida no ataque foi um presente a Matute Morales, que, desarmado no início da jogada, recebeu de volta o “passe” e disparou um “contra-contra-ataque”. Ele logo repassou a bola a Rodolfo García ainda antes do meio-campo. Este conectou a Chelo Delgado, já próximo à área. Mesmo prensado e sem equilíbrio contra dois marcadores, Delgado deu para Latorre na ponta-esquerda. Delgado então levantou-se e recebeu de volta de Latorre. Poderia ter feito novo gol e atraiu Mondragón para si ao máximo da pequena área. Então recuou. Morales estava ali para fuzilar e comemorar ainda que timidamente contra os ex-colegas. O embalo era tamanho que havia pinta de goleada histórica. Mas, aos 39 minutos, enquanto Pablo Bezombe atraía na lateral três adversários (Raúl Cascini, Cristian Díaz e Cambiasso), a luz caiu na Doble Visera.

    Ex-jogador do Independiente, Ángel “Matute” Morales fuzila entre Cambiasso e Latorre para marcar o segundo

    Após a espera regulamentar, o clássico foi dado por suspenso pelo árbitro Francisco Lamolina reagendado para dali a quatro dias – dessa vez, pela manhã, sem riscos de nova suspensão por blecaute, com os 54 minutos restantes disputados em dois tempos de 27 minutos. Se foi intencional, o propósito de esfriar a Academia serviu: o Rojo começou melhor e descontou com um tiro bem colocado pela canhota do capitão Cascini, que ainda bateu na trave direita de Sessa antes de entrar, no minuto 66. O que parecia goleada blanquiceleste passou a ser pinta de empate tamanha a pressão local. Mas a nove minutos do fim o triunfo racinguista foi assegurado. Curiosamente, em nova jogada sem sucesso de Cambiasso, que buscava acionar o atacante José Luis Calderón e foi interceptado por Sergio Zanetti – sim, irmão mais velho de Javier Zanetti, por sinal assumido torcedor justamente do Independiente. O “outro” Zanetti lançou a Bezombe, que, sob dois na marcação, logo entregou a Delgado. El Chelo correu pela ponta direita e cruzou.

    Cascini não alcançou. Bezombe já estava atrás dele para receber de volta e, de cabeça, correu para o abraço de Latorre – nas imagens que abrem a matéria. Com o triunfo assegurado, o Racing chegava a duas vitórias nas três primeiras rodadas do Apertura 1998, tendo batido previamente o Talleres em Córdoba na estreia, também como visitante. Havia perdido na segunda rodada em casa para o Rosario Central, mas marcara três gols (caindo por 5-3). Isso e a vitória maiúscula no Clásico apesar das circunstâncias suspeitas do rival alimentavam a esperança da fervorosa hinchada da Academia de que a política perdulária do presidente Lalín terminasse compensada esportivamente. O time até terminaria em terceiro, mas sem lutar pelo título. O sonho começara a virar fumaça já nas duas rodadas seguintes, ambas sem vitória – enquanto o Boca de Carlos Bianchi iniciava um recorde de 40 jogos seguidamente invictos, delimitando um recorde no campeonato argentino ainda vigente (e superando marca que era do próprio Racing, em 1966).

    Sem compreensão paterna ao Lalín pródigo, já em março de 1999 seria proferida a célebre declaração da administradora falimentar do clube, pela qual “o Racing deixou de existir”. Capria iria ao Chacarita, Delgado ao Boca, Sessa ao River e a Cruz Azul levaria Latorre e Matute Morales (que seguiria lá na campanha vice-campeã dos mexicanos na Libertadores 2001). Duas décadas depois, o time pode desfrutar melhor, com relativa segurança financeira e infra-estrutural. E com um novo 3-1 para a história, marcado pelo cabeceio de Alejandro Donatti a entrar sob desvio de Guillermo Burdisso; pela raça e habilidade de Darío Cvitanich para cavar o pênalti convertido por Lisandro López; e pela jogadaça de Lisandro para matar as esperanças que remanesciam no goleiro Martín Campaña em escanteio do Rojo, aproveitando o retorno atrasado do uruguaio às próprias traves para aplicar-lhe um fenomenal drible de vaca em corrida para a história – ainda que na súmula o gol seja de Matías Zaracho e o melhor racinguista em campo tenha sido o goleiro Gabriel Arias.

    Mondragón retirando-se da Doble Visera às escuras, iluminada só pela festança frenética dos visitantes

  • Clásico Rosarino: o recorde de tempo sem um vira-casaca

    Clásico Rosarino: o recorde de tempo sem um vira-casaca

    O Clásico Rosarino tem o maior tempo sem um vira-casaca entre as grandes rivalidades do mundo. O último jogador a defender os dois lados foi um goleiro, há mais de três décadas.

    O ex-goleiro Delménico, à esquerda, é o último vira-casaca em Rosario, a partir da partida ocorrida exatos 35 anos atrás

    Ao menos entre as rivalidades mais conhecidas do mundo, não há dúvidas desse recorde ser do Clásico Rosarino. Além das rixas mais badaladas, com nomes em comum facilmente identificáveis pela internet, podemos elencar “traidores” mais recentes em rivalidades políticas como Lazio-Roma (Aleksandar Kolarov), religiosas como Celtic-Rangers (o célebre Mo Johnston), cinematográficas como Millwall-West Ham (Teddy Sheringham) e pelos também ferozes dérbis de Praga (Karel Poborský), Belgrado (o brasileiro Cléo) e Istambul (Emre Aşık, da Copa 2002, jogou nos três grandes turcos). Mas para achar o último doblecamiseta entre Newell’s x Rosario Central é preciso rebobinar a fita para tempos em que se rebobinavam fitas mesmo. O último sentiu isso em 19 de fevereiro de 1984, ou 35 anos atrás.

    Naquela data, começou a primeira rodada do Torneio Nacional daquele ano, marcado pela última conquista do Ferro Carril Oeste, na época mais campeão do que o rival Vélez. E foi contra o próprio Vélez que a história foi feita, naquela ocasião. O time do bairro portenho de Liniers deixou um jovem Carlos Navarro Montoya no banco e, treinado por Roberto Rogel, alinhou-se com Jorge Bartero, Abel Moralejo, Pedro Larraquy, José Luis Cuciuffo e Juan Carlos Bujedo; Daniel Messina, Carlos Fren e Alejandro Nannini; Eduardo Hernández, Carlos Bianchi e Jorge Comas. Héctor López e Oscar Gissi também jogariam, substituindo Moralejo e o veteraníssimo Bianchi, o maior artilheiro do clube e que disputava o último campeonato argentino da carreira.

    Mandando a partida ironicamente no estádio do Newell’s, o Rosario Central, treinado por Aurelio Pascuttini (antigo jogador campeão pelo clube nos Nacionais de 1971 e de 1973, os primeiros títulos argentinos dos canallas e do interior argentino), mandou a campo Juan Carlos Delménico, Juan Carlos Ghielmetti, Sergio Céliz, Daniel Kuchen e Alfredo Killer; Héctor Chazarreta, Daniel Sperandío e Eduardo Delgado; Gerardo González, Raúl Chaparro e Claudio Scalise. Também entraram Jorge Balbis e Jorge Taverna, saindo Chazarreta e Delgado. Os três gols do jogo saíram em espaço de quinze minutos: já no segundo tempo, Chaparro abriu o placar aos 20 minutos e o reserva Taverna ampliou aos 28. Aos 35, Larraquy (quem mais jogou pelo Vélez no século XX), de pênalti, descontou em um jogo violento: Sperandía, Messina e Fren viram o cartão vermelho.

    Aquela era a estreia do goleiro Delménico pelo Central. E o mais incrível é que ele não é vira-casaca apenas em Rosario: é também em La Plata, outra rara cidade argentina em que a dupla local tem mais torcida que Boca e/ou River, como a própria Rosario, Santa Fe, Córdoba e Tucumán. Jogar pelos dois times platenses também é incomum, embora não tanto, com outro goleiro, Gastón Sessa, sendo um exemplo famoso mais recente. Delménico havia sido revelado pelo Newell’s, aparecendo em 1970 no time principal, mas sem jamais firmar-se na titularidade; naquele ano, foi relacionado em apenas três jogos, sem sair do banco. Em 1971 (3 partidas da campanha semifinalista, encerrada exatamente pelo Central, em clássico dos mais recordados) e em 1972 (8), foi usado apenas no Torneio Nacional, em tempos de titularidade absoluta de Carlos Fenoy.

    Delménico não só defendeu Newell’s e Central, como também foi vira-casaca em La Plata, jogando por Gimnasia e Estudiantes!

    Em 1973, ele conseguiu uma breve titularidade, com 19 jogos na parte inicial do Torneio Metropolitano, mas perdeu a posição para o uruguaio Alberto Carrasco até retoma-la rapidamente no fim do Torneio Nacional, onde atuou nove vezes. O primeiro elenco leproso campeão, em 1974, teve Carrasco em todos os minutos na posição, enquanto Delménico foi relacionado para figurar no banco em apenas cinco partidas. Não demorou a sair do clube, acertado com o Junior de Barranquilla. Enfim, fez história: esteve no primeiro elenco dos Tiburones a ser campeão colombiano, em time repleto de outros argentinos, em especial o craque Juan Ramón Verón. Pai de Juan Sebastián, o ponta chegou a ser jogador-treinador na reta final, substituindo o também argentino José Varacka.

    De hermanos, havia ainda o ponta Camilo Aguilar, também ex-Estudiantes; o volante César Lorea, formado no Ferro Carril Oeste com passagens ainda por San Lorenzo e Boca; e Carlos Vidal, que vinha do Gimnasia; e Eduardo Solari, por sua vez pai do atual técnico do Real Madrid (e… ex-Rosario Central enquanto o irmão Jorge Solari havia jogado no Newell’s). Assim, em 1978 Delménico foi incorporado por um River que se desfalcaria de Ubaldo Fillol a partir de fevereiro, quando todos os convocados à Copa do Mundo iniciariam uma longa concentração com a seleção. Ainda assim, só defendeu o clube quatro vezes. Ainda em 1978, ele passou ao Gimnasia, onde tampouco seria titular: o clube seria rebaixado no Metropolitano de 1979 (onde Delménico fez apenas um de suas seletas seis partidas como tripero), mas com o titular sendo um firme Enrique Vidallé, que apesar do descenso chegou a ser levado à Copa América. Delménico então voltou ao Junior a tempo de vencer o segundo título colombiano da história da equipe caribenha, em 1980.

    Após outra temporada em Barranquilla, ele virou pela primeira vez a casaca: aportou em 1982 no Estudiantes. Foi o goleiro da conquista do Metropolitano de 1982, o primeiro troféu pincharrata desde a Libertadores de 1970. O Estudiantes conseguiu um bi seguido com o Torneio Nacional de 1983 (o único bicampeonato do time no campeonato argentino, aliás), mas àquela altura o goleiro titular já era Carlos Bertero. Assim, no campeonato seguinte Delménico já figurava no Instituto de Córdoba, pelo qual terminou em décimo no Torneio Metropolitano, embora a três pontos do quinto colocado. Com 30 anos recém-completados em 9 de dezembro de 1983, o goleiro foi então contratado pelo Rosario Central. E embora não tenha comprometido, ficaria marcado pelo rebaixamento ao fim do ano, já no Torneio Metropolitano. Penduraria as luvas no Quilmes, em 1985.

    O peso da queda, porém, parece ter criado uma inibição cada vez mais sedimentada contra futuros doblecamisetas em Rosario. Pois até então os troca-trocas vinham sendo até volumosos. Dividia famílias, mas também juntava: os irmãos Daniel e Mario Killer defenderam ambos os dois nos anos 70. E “ambos os dois” não é redundância: presentes naqueles títulos do Central em 1971 e 1973, os Killer destacaram-se mais como canallas, jogando a Copa América de 1975, promovidos por César Menotti – um jogador e torcedor fervoroso do Central que ainda guarda resquícios de tempos menos violentos; declarou que, exceto nos clássicos, o seu bairrismo rosarino o faz torcer pelo Newell’s também, tendo sua primeira experiência técnica exatamente como auxiliar leproso em 1970

    Os irmãos Killer: Daniel, vencedor da Copa do Mundo de 1978, e Mario foram colegas nos dois clubes e na seleção. Na foto à direita, estão com outro irmão, Alfredo Killer

    Após a Copa América de 1975, El Colorado Mario (era ruivo) foi ao futebol espanhol e na época isso mais ajudava do que atrapalhava, saindo do radar da seleção. El Caballo Daniel, por sua vez, seguiu chamado pela Albiceleste e foi um reserva na vitoriosa Copa do Mundo de 1978, mesmo já como jogador de um Racing em crise. Eles se juntaram no Newell’s em 1979. Citado na escalação de 35 anos atrás, Alfredo Killer é outro irmão, mas nunca entrou em campo pela seleção – ainda que houvesse sido convocado na primeira chamada de Carlos Bilardo, em 1983. Mario Killer seria depois um dos pouquíssimos a ir e voltar em Rosario: após uma passagem agridoce pelo Independiente (chegou a ser capitão no Rojo, mas já era reserva quando foi enfim campeão, em 1983), regressou ao Central exatamente em 1984, atuando com Alfredo. Daniel Killer, por sua vez, destacou-se ligeiramente no rival, integrando o elenco semifinalista de 1980, eliminado exatamente no clássico tal como em 1971.

    Já a mencionada família Solari é um caso diverso. Jorge El Indio Solari foi revelado pelo Newell’s nos anos 60 e ainda passou pelo Vélez antes de jogar a Copa de 1966 como jogador do River. Seu irmão Eduardo Solari, por sua vez, foi colega dos Killer naqueles primeiros títulos do Central, em 1971 e 1973, e como eles estreou pela seleção em 1975 – mas jogando uma só vez. Santiago Solari, filho de Eduardo e sobrinho de Jorge (que voltaria mais de uma vez à Lepra como treinador, inclusive na curta passagem de Maradona pelo clube, em 1993), profissionalizou-se no River, mas começou nos infantis do Newell’s. Era o clube do coração dele e de sua mãe, conforme detalhou em 2011 à revista El Gráfico, e do tio, de quem herdou o apelido de El Indiecito. Outra família envolvida é a dos Luna, revelada pelo surpreendente título de Santiago del Estero no antigo campeonato argentino de seleções regionais, em 1928: Nazareno e Ramón Luna viraram canallas (assim como outro daquela conquista, Teófilo Juárez, que defenderia São Paulo e Palmeiras) enquanto Segundo Luna, figurante nas Olimpíadas daquele mesmo ano, tornou-se leproso.

    E quem mais também jogou por Newell’s e Central? Comumente se diz que outros treze fizeram a travessia além de Delménico e dos dois Killer, uma inverdade: essa estatística só computa os tempos de profissionalismo. Juan Carlos Cámer, atacante, defendeu a Lepra entre 1943 e 1944, esteve no Racing e em 1946 virou canalla. O meia Miguel La Rosa defendeu o Central de 1952 a 1959 e virou a casaca em 1960, sendo rebaixado tal como Delménico (é o único descenso leproso). O atacante Elio Montaño foi profissionalizado no Newell’s em 1949, passando então por Boca, Internacional e Peñarol antes de chegar já em 1962 ao Central antes de defender ainda o Sporting Lisboa.

    O defensor José Poi (sem parentesco com o goleiro são-paulino José Poy, revelado no Central) foi promovido pelo Central em 1956, chegando em 1958 ao Boca. Em 1959, voltava a Rosario para defender o rival. O atacante Jorge Wetscha não marcou gols em oito jogos que fez pelos auriazuis ao longo de 1961 a 1962, ano em que fez a travessia para marcar sete vezes em doze partidas da segunda divisão, embora o acesso não viesse. Como Poi, os atacantes Juan Alberto Castro e Ricardo Giménez e o goleiro Juan Carlos Bertoldi foram lançados pelos canallas em 1956. Castro ficou até 1960 e chegou ao Newell’s em 1964, após ter defendido Huracán e Atlanta; marcou só um gol em sete jogos como leproso. Já Giménez saíra ainda em 1959 para o Independiente, virando a casaca em Rosario em 1966, tal como Bertoldi – que após sair do Central em 1960 ainda defendeu outra dupla rival, Huracán e San Lorenzo.

    Os Solari em férias: o atual técnico do Real Madrid, Santiago, é o primeiro em pé e seu tio Jorge, o último. Ambos estiveram no Newell’s. O pai Eduardo, o terceiro em pé, foi ídolo no rival

    Hugo Rosales fez só um jogo oficial pelo Central, em 1967, virando a casaca dois anos depois após passagens por Chaco For Ever e Huracán de Bahía Blanca; Rogelio Poncini, por sua vez, esteve no elenco centralista de 1966 e se incorporou ao rival no biênio 1970-71. O defensor Rolando Pierucci, como Wetscha, conseguiu defender a dupla em um mesmo ano, em 1971, sendo eliminado pelos ex-colegas naquela semifinal histórica. Já o meia Oscar Coullery e Sergio Robles, como Mario Killer, foram e voltaram. Coullery foi leproso de 1973 a 1976, “traiu” em 1977 e regressou em 1981. Robles era um recém-chegado quando foi seu colega no Ñuls campeão pela primeira vez (em 1974). Esteve em Arroyito em 1982, voltando ao Parque Independencia em 1983.

    Considerando ainda a função de técnico, são válidas menções a Miguel Juárez e Ángel Tulio Zof. El Gitano Juárez foi ídolo auriazul nos anos 50, sendo colega de um jovem Menotti, e era justamente o comandante do Newell’s que abrigou a primeira experiência técnica de Menotti, seu auxiliar na Lepra em 1969. Zof, por sua vez, comandou primeiro os rojinegros, em 1965, para depois virar o técnico mais importante dos auriazuis, comandante dos títulos argentinos de 1980, 1987 e da Copa Conmebol de 1995 – além de promover Ángel Di María já nos anos 2000. Mas desde Delménico o mais próximo vira-casaca foi o obscuro Carlos Gastaldi, de brevíssima trajetória profissional: subiu da base canalla em 1992 e foi-se ao rival em 1993, mas só apareceu no time B. Em 1994, jogou no Tigre e deu a carreira por encerrada.

    No amadorismo, também houve vira-casacas, mas os registros são mais escassos. O mais célebre foi Julio Libonatti, muito mais célebre no Newell’s: representava-o quando foi protagonista do primeiro título da Argentina na Copa América, em 1921, e foi o primeiro formado no futebol argentino a ser contratado pelo europeu, sendo o artilheiro do primeiro título italiano do Torino e defendendo também a Azzurra. E é do amadorismo o único atleta a defender a Albiceleste como leproso e como canalla: o ponta-esquerda Juan Francia, que teve idas e vindas entre os dois. El Mono começou no Provincial, nos infantis. Ainda como juvenil, passou pelo Belgrano, River Plate, Puerto Belgrano (todos times rosarinos) até chegar à primeira divisão municipal em 1917, com o Tiro Federal. Sua primeira passagem pelo Newell’s deu-se em 1918, aos 21 anos, quando estreou pela seleção – em 15 de agosto: 0-0 com o Uruguai.

    Francia seguia no Ñuls em 1919, quando fez em 18 de julho sua segunda aparição pela Argentina, derrotada por 4-1 pelo Uruguai. Em 1920, Francia já estava de volta ao Tiro Federal, chegando inclusive a ser detido após trocar sopapos com o Newell’s, convivendo com a fama de jogador temperamental por um bom tempo. Em outubro daquele ano, virou centralista, sendo empregado na ferrovia que originara o clube (denunciando o salário ruim e o trabalho pesado em 1924 à El Gráfico). Seguia auriazul à altura de 1922, quando voltou à seleção para mais seis jogos, incluindo a Copa América e a Copa Roca contra o Brasil (marcando gol na derrota de 2-1). Em 1926, já reaparecia na Lepra – marcando em 1928 um dos gols da recordada vitória de 4-0 sobre o Real Madrid. É justamente Francia quem fecha o Top 10 de goleadores rojinegros no amadorismo.

    Atualização em 31-07-2019 – os 35 anos se encerraram: o Newell’s anunciou a vinda, sob empréstimo junto ao Vélez, do atacante Rodrigo Salinas, que havia defendido sete vezes o Rosario Central na segunda divisão de 2011-12 emprestado pelo Godoy Cruz.

    O único a defender a seleção argentina (imagem à direita) por Newell’s e Central alcançou o feito há quase cem anos: Juan Francia, em imagens de 1920 como canalla e de 1926 como leproso (colorida pelo @cunadeases), em idas e vindas pela dupla
  • São Paulo x Talleres: os elementos em comum entre os clubes

    São Paulo x Talleres: os elementos em comum entre os clubes

    São Paulo x Talleres compartilham jogadores ao longo da história. Julio Buffarini foi esforçado nas duas camisas.

    Julio Buffarini: para as duas torcidas, um esforçado

    São Paulo x Talleres abre a temporada de duelos “brasentinos” nas competições sul-americanos de 2019. Hora de relembrar os elementos em comum entre o Tricolor e La T.

    Ambos se gabam de reunir na sua cidade a maior quantidade de troféus internacionais, algo marcante nos anos 90. Em 1999, o time de Córdoba obteve a última edição da Copa Conmebol, em boa fase que culminaria ainda em sua primeira (e única, até agora) participação na Libertadores, em 2002. Já a década do São Paulo dispensa apresentações: além do bi mundial e da Libertadores, uma taça cada na Supercopa, na Recopa, na própria Copa Conmebol e na Copa Conmebol Master pararam no Morumbi.

    Se os anos 90 trouxeram prestígio internacional, os 70 marcaram os dois times nacionalmente e aí reside a coincidência mais incrível, relativa ao torneio nacional de 1977 nos dois países: tanto no Brasil como na Argentina, ele só foi finalizado no início do ano seguinte. Representou ao São Paulo seu primeiro título brasileiro, e, para o Talleres (que continua sem títulos na elite), o mais perto que chegou de uma conquista argentina – perdeu na mais épica final doméstica que o país já viu.

    A boa fase foi reconhecida na Copa do Mundo ocorrida meses depois: cada time cedeu três jogadores. O São Paulo (com Zé Sérgio, Chicão e Valdir Peres) foi o mais representado nos canarinhos, ao lado de Ponte Preta e Palmeiras. Já o Talleres foi o segundo na Albiceleste, junto de Huracán e Independiente. A turma de Luis Galván, José Daniel Valencia e Miguel Oviedo ainda teve Humberto Bravo riscado no último corte e só foi menos numerosa que os cinco do River.

    Até então, as maiores façanhas da dupla se resumiam aos campeonatos paulista e cordobês, inclusive por força de circunstâncias alheias ao poderio da dupla: foi só a partir de 1968 que equipes de Córdoba passaram a ser autorizadas em torneios argentinos – que, apesar do nome, ainda eram restritos de modo oficial à Grande Buenos Aires, La Plata, Rosario e Santa Fe; e só em 1959 é que surgiu um primeiro torneio nacional de clubes no Brasil (calhando ao São Paulo atravessar larga fila entre 1957 e 1970, quando os Estaduais eram classificatórios).

    Nesse contexto de muita valorização dos certames regionais, ambos foram campeões nos torneios paulista e cordobês em 1945, 1948, 1949, 1953 e 1975. O outro único ano a render taça oficial a ambos foi o de 1998, com os tricolores levantando o Estadual no clássico com o Corinthians e os tallarines vencendo de modo especial a segunda divisão argentina, também em clássico, com o Belgrano (rivalidade que reúne a maior quantidade de dérbis realizados no país).

    Aos tricolores que rumarem a Córdoba, uma dica: no peculiar sotaque local, a sílaba reforçada é a anterior, se houver, à sílaba que a gramática castelhana determina como tônica (um exemplo é a pronúncia “cordôbes” para cordobés); e o dígrafo LL não é lido como os sons portugueses de “j” ou “dj”, característicos do sotaque portenho; tampouco com o som de “lh” ordenado pela academia espanhola; e sim como “i” – fazendo com que a grafia Taieres, lida como “Táieres”, não raramente seja usada em textos informais para designar o Talleres (que significa “Oficinas”, seção da ferrovia cujos trabalhadores formaram o clube, sendo falso o cognato com o termo talheres).

    Gustavo Albella, dos anos 40 e 50, é o grande ídolo em comum das duas torcidas

    Passemos, enfim, a quem esteve nos dois:

    Gustavo Albella: era admirado por um jovem Che Guevara no Sportivo Alta Gracia, no interior cordobês, quando foi incorporado ainda aos 17 anos pelo Talleres. Tornou-se tallarin em abril de 1943 e em duas temporadas marcou 29 gols em 36 jogos oficiais. Campeão cordobês em 1944, ano em que o time também chegou às semifinais da Copa de la República (uma Copa Argentina da época), destacou-se naquele ano sobretudo ao desequilibrar um amistoso mesmo: foi contra o Boca, campeão argentino naquele mesmo ano, mas surrado por 7-3 em outubro – com o jogo ainda em 2-2, Albella marcou o terceiro e o quarto de La T, nos dez minutos finais do primeiro tempo.

    Assim, El Atómico terminou contratado no ano seguinte pelo próprio Boca, mas não sobrepujou o concorrente Jaime Sarlanga, já estabelecido como ídolo ali – Sarlanga, afinal, foi o segundo maior artilheiro profissional boquense no século passado. Albella só veio a ganhar destaque no campeonato argentino como jogador do Banfield: é o maior artilheiro desse clube e com ele quase foi campeão de 1951 (a equipe terminou empatada com o Racing e perdeu o jogo-extra, ficando muito perto de furar o oligopólio estabelecido de 1930 a 1967 em que só os “cinco grandes” argentinos venciam o campeonato). Ele e seu colega Nicolás Moreno foram então contratados pelo São Paulo. Moreno não vingou, mas Albella engatou boa dupla com Gino.

    Albella, como tricolor, também acumulou mais de meio gol por jogo (47 em 81) em passagem que durou de 1952 a 1954 – incluindo um no jogo decisivo pelo Estadual de 1953, na vitória de 3-1 sobre o Santos; curiosamente, o triunfo teve também outro gol argentino (nacionalidade que também pertencia ao treinador, Jim Lopes), de Juan José Negri.

    Julio Buffarini: o lateral nasceu em Córdoba e é torcedor tallarin, estreando no futebol adulto ainda aos 17 anos, em 2006, vindo da base albiazul. Muito jovem, foi poupado de maiores críticas e reconhecido pelo esforço demonstrado em meio ao primeiro rebaixamento de La T à terceira divisão argentina, em 2008. Prosseguiu a carreira gradualmente por Atlético Tucumán e Ferro Carril Oeste até ser pinçado por um San Lorenzo ameaçado de rebaixamento e ali ficar no ciclo redentor – que começaria na fuga épica da queda (em salvação que custou a vaga do Instituto de Córdoba, por sinal – onde estava o jovem Paulo Dybala), no emocionante título de 2013 e na primeira Libertadores vencida pelos azulgranas.

    Seu técnico na conquista continental era Edgardo Bauza, que, seis meses após chegar ao São Paulo, o traria ao Tricolor, embora a estreia do lateral ocorresse precisamente no último jogo de Bauza antes do treinador assumir a seleção. Em um ano e meio no Morumbi, o esforçado Buffarini não virou ídolo e tampouco comprometeu, cavando no fim de 2017 uma transferência do Boca. Bauza também fez dele o primeiro são-paulino convocado pela seleção, embora Buffa não tenha chegado a entrar em campo.

    Joao Rojas: o equatoriano é uma ponta terrível para conclusão de jogas, mas ótimo para servir colegas. Foi essa a tônica de sua passagem pelo Talleres, exatamente na temporada que devolveu La T à Libertadores, no torneio de 2017-18. Estava emprestado pelo futebol mexicano e foi em seguida redirecionado ao São Paulo. Uma séria lesão, porém, comprometeu sua afirmação. Ainda sem poder atuar, não enfrentará os velhos colegas.

    Clique aqui para relembrar os argentinos do São Paulo, em nota de 2017. E aqui para conhecer o cenário futebolístico de Córdoba, cidade onde os grandes também são quatro – ou cinco, dependendo do ponto de vista.

    O ponta equatoriano Joao Rojas integrou a campanha que pôs o Talleres nessa Libertadores, mas, lesionado há meses, por hora não fará valer a “lei do ex”
  • Independiente campeão em 1983 e o rebaixamento do Racing

    Independiente campeão em 1983 e o rebaixamento do Racing

    O Independiente campeão em 1983 levantou a taça na mesma tarde em que o rival Racing foi rebaixado, no clássico da rodada final.

    Giusti abrindo o placar acossado por Campos Aquino na saída de Carlos Rodríguez: foi justamente seu único gol em clássicos. Valeu título contra o rebaixado rival

    O desfecho da Libertadores 2018 lançou um debate na Argentina, promovido por Riquelme: segundo ele e outros xeneizes inconformados, o jogo mais importante da história do River não poderia ser outro que não aquele em que foi rebaixado, em 2011. “Lutar por uma Copa é diferente que brigar para não cair”, dizem. Feliz é a torcida do Independiente, que já saboreou a mistura de ser campeão (ainda que do campeonato argentino) sobre um Racing rebaixado. Ainda mais quando a conquista nacional foi o trampolim para os últimos troféus do Rojo na Libertadores e Mundial.

    Após tocar os céus blanquicelestes em 1967, quando se tornou o primeiro time argentino campeão mundial, a derrocada do Racing foi gradual. Continuou a brigar por títulos, disputando o triangular-final de 1968 (ganho pelo Vélez) e as semifinais de 1969 (eliminado pelo campeão Chacarita) até o vice-campeonato de 1972. Quando esse último elenco desmanchou-se, a crise acelerou. Especialmente quando se olhava a grama vizinha. Ainda em 1967, a faixa de campeão mundial do Racing foi carimbada pouco mais de um mês depois da conquista. O Independiente recebeu com pompa o rival na rodada final do Torneio Nacional, em tempos de rivalidade civilizada. Mas a partida terminou em massacre: 4-0, com dois gols do torcedor alviceleste Luis Artime, e título vermelho.

    Em 1970, novamente o Clásico de Avellaneda decidiu o campeonato em favor do Rojo, que em pleno Cilindro arrancou uma virada com o gol do título saindo a dez minutos do fim, desferido pelo ex-juvenil racinguista Héctor Yazalde. Em 1971, o Independiente conseguiu novo título argentino, aproveitando-se da derrota inesperada do goleador Vélez em casa para o instável Huracán. A partir dali, construiu um domínio jamais visto na Libertadores, coroado em 1973 com a primeira conquista mundial direcionada aos armários da Doble Visera. Em 1974, o treinador que dava nome à Equipo de José campeã internacional em 1967, Juan José Pizzuti, voltou ao Racing. Conseguiu um desempenho até respeitável: ficou a um ponto do quadrangular-final do Metropolitano e finalizou em 3º no Nacional, mas o rival enfim passou a ter mais vitórias no clássico.

    Em 1975, veio o tetra na Libertadores no mesmo dia em que o Racing perdia por 4-3 para o Boca em dia que vencia por 3-0. Em 1976, o Independiente não renovou o ciclo continental. Mas os mais (ou nem tanto…) psicóticos desfrutavam em ver o Racing brigando pela primeira vez para não cair. Nove anos após o auge, a Academia livrou-se do rebaixamento por apenas um ponto. A reação do presidente recém-eleito foi trazer de volta para 1977 os ídolos Agustín Cejas e Rubén Díaz, daquele time campeão mundial, assim como Alfio Basile, dessa vez treinador. E contratar figuras carimbadas da seleção argentina que brilhavam no interior: o beque Daniel Killer, do Rosario Central, e Ricardo Villa, do Atlético Tucumán.

    Mario Rizzi chora o descenso racinguista na penúltima rodada. O clube, que não podia usar a arquibancada superior, usou a camisa reserva. Por ironia, o algoz foi o Racing de Córdoba

    Villa e Killer integrariam a Argentina campeã da Copa de 1978, sendo exatamente os dois únicos vencedores de Copa como jogadores do Racing. Mas passaram longe de virar ídolos. A despesa de 80 milhões de pesos apenas na contratação de Villa foi inclusive vista como outra irresponsabilidade que catalisaria a crise racinguista. Nem em campo se viu justificativa: o time outra vez brigou para não cair. Para o Nacional, o time até ficou em segundo no grupo, mas só o líder avançava. O líder foi o Talleres, que chegou à decisão. E a perdeu para o Independiente…

    Os veteranos Cejas e Roque Avallay e os garotos Julio Olarticoechea, Juan Barbas e Gabriel Calderón eram os nomes que sustentavam uma campanha razoável do Racing em 1978, sob as ordens de Omar Sívori, quando o time foi às quartas-de-final do Nacional – só que o torneio seria novamente conquistado pelo rival. Em 1979, novamente o máximo alcançado foram as quartas-de-final do Nacional. O time ainda tinha cacife para buscar no Boca seu treinador Juan Carlos Lorenzo, o técnico que levara o Boca às finais de 1977, 1978 e 1979 da Libertadores, ganhando as duas primeiras. Toto Lorenzo, porém, não conseguiu nada memorável em Avellaneda.

    Após o título de 1978, o Independiente, por sua vez, iniciou uma entressafra. Entre as vítimas, o técnico José Omar Pastoriza, campeão ali e em 1977, além de ex-jogador do clube entre 1966 e 1972. El Pato havia chegado em 1966 em negociação direta com o Racing. Em 1981, ele fez o caminho de volta ao Cilindro e no embalo do craque uruguaio Juan Ramón Carrasco, vindo de um tri seguido no River, conseguiu boas partidas no Metropolitano: a um ponto do pódio, mas sem brigar pelo título. E isso sem poder usar o Cilindro desde abril. A montanha de dívidas fez o time concluir que lucraria mais alugando seu campo como depósito de batatas. Mesmo assim, a Academia era seriamente cogitada no Nacional. Mas ficou em última na chave.

    A crise não se afastava e o clube entregou Olarticoechea ao River e Calderón ao grande rival. Até buscou soluções, como o centroavante da seleção de 1978, Leopoldo Luque. Ele já não era o mesmo, nem o Racing, novamente lanterna na fase de grupos do Nacional de 1982. Quem mais fazia jus à grife racinguista era o Racing de Córdoba: vice do Nacional de 1980, o clube homônimo fora precisamente o líder do grupo que tinha o “original” em 1982. Em 1981, o San Lorenzo havia se tornado o primeiro rebaixado entre os cinco grandes argentinos. A comoção foi tamanha que o Metropolitano de 1982, embora ainda rebaixasse seus dois lanternas (Quilmes e Sarmiento), já serviria também para a pontuação de 1983, através dos famigerados promedios.

    Capas seguidas de dezembro de 1983 envolvendo o Racing: a da esquerda é após a derrota para o San Lorenzo, postulante à taça. Ao mesmo tempo, acabava oficialmente a ditadura argentina com a posse de Alfosín, mas a repressão seguiu no dia da queda racinguista

    Mesmo com essa alerta, o Racing não engatou. Só venceu a partir da 12ª rodada, mas ainda pôde salvar-se do descenso na antepenúltima rodada, com um 5-3 sobre o concorrente direto Sarmiento. Quatro dos gols foram de Roberto Ropero Díaz, maior artilheiro do clube nos últimos 40 anos. Pouco após o Metropolitano, o Racing elegeu como presidente o contador Enrique Taddeo, de reputação ilibada. A curto prazo, o time pareceu acordar no Nacional de 1983. Eliminou o Boca e só caiu para o campeão, o Estudiantes. Ainda no primeiro semestre, seu time juvenil ganhou o Torneio “Projeção 1986”, que visava a descobrir talentos capazes de figurar na próxima Copa do Mundo. Mas em vez de simbolizar uma nova era, o que os juvenis causaram foi uma ciumeira no time adulto, especialmente diante de pedidos da torcida para serem escalados. Poucos tiveram chances e nenhum vingaria.

    E o Independiente? Bom, o Rojo não era campeão desde aquele Nacional de 1978, uma enormidade para quem praticamente tinha um troféu por ano de 1970 e 1979, seja na Libertadores, no Argentino (o título de 1978 foi ganho já em janeiro de 1979) ou até na finada Copa Interamericana, tira-teima entre Libertadores e Concacaf cuja edição de 1975 fora travada já em 1976. O Rojo vinha de um bivice para o Estudiantes no Metropolitano de 1982 e no Nacional de 1983. Seu treinador? José Omar Pastoriza, de volta. Ele ainda é o único vira-casaca em Avellaneda como jogador e técnico. Nas cinco primeiras rodadas do Metropolitano de 1983, o Racing não venceu, provocando a queda do técnico Rogelio Domínguez, ídolo do clube como goleiro nos anos 50 (onde brilharia ainda no Real Madrid penta europeu). Àquela altura, o time já estava em último nos promedios.

    Na tragédia que nem Shakespeare escreveria, a isso sucedeu-se em treino a lesão do zagueiro Gustavo Costas – que não era fora da série, mas um apaixonado desde a infância a ponto de virar o jogador com mais partidas pelo clube. O clube resolveu apostar novamente no mítico Juan José Pizzuti, que estreou na 7ª rodada. Viu-se forçado a usar um moleque do “Projeção 86”, o goleiro Juan Carlos Zubczuk, terceira opção de gol, diante da lesão prévia do titular Carlos Rodríguez (titular do Boca maradoniano campeão em 1981) após o reserva imediato Alberto González, trocado por dez bolas com o clube Renato Cesarini, falhar nos três gols da derrota de 3-2 para o Vélez.

    Com quatro vitórias e dois empates nos nove jogos seguintes, o time de Pizzuti respirou ao fim do primeiro turno (estava uma posição acima dos dois rebaixados, Nueva Chicago e Temperley), embora não o torcedor Roberto Basile, morto no 2-2 na visita ao Boca na Bombonera por um disparo da torcida local. A missa realizada, porém, foi para o próprio Racing: na terceira rodada do returno, a Academia enfim voltou ao Cilindro, após mandar partidas no estádio do rival ou no do Huracán. A reabertura (que não liberou o anel superior da arquibancada) foi benta pelo pároco de Avellaneda, mas o time não saiu do 0-0 com o Estudiantes. Em paralelo, o Independiente, sem vencer nas três primeiras rodadas, engrenou, com quatro triunfos nos seis jogos seguintes. Após novo período sem vitórias, venceu três vitórias entre a 16ª e a 19ª rodadas, incluindo um 3-0 no Talleres e um 2-1 no clássico, pela última rodada do primeiro turno.

    Outro ângulo do gol de Giusti na rodada final do Metropolitano de 1983

    Uma nova série roja invicta, com quatro vitórias, veio entre a 21ª e a 26ª, encerrada com derrota em casa para seu concorrente: o surpreendente San Lorenzo, que voltava com tudo à primeira divisão e faturou em Avellaneda um 2-0. O Racing, por sua vez, não se reerguia. No segundo jogo em casa, até bateu por 1-0 o concorrente Chicago, mas na rodada seguinte, em outro confronto direto contra a queda, foi surrado por 3-0 pelo Temperley fora. Pizzuti não usava a garotada do “Projeção 86” pela justificativa de que quem deveria tirar o Racing do abismo eram os experientes que haviam permitido que a situação chegasse àquele ponto. Mas também não se furtava em suspender entre estes quem julgava não demonstrar profissionalismo, casos de Félix Orte e Carlos Sosa. Até o goleador Roberto Díaz preferiu se mandar dali, acertando com o futebol chileno.

    Por um momento, porém, o idealismo de Pizzuti e do presidente Taddeo pareceu premiado. Após aqueles 3-0, a Academia bateu o Vélez por 2-1, segurou em Córdoba um 0-0 com o Talleres e em seguida bateu Rosario Central (3-1) e o Platense (1-0). O jogo seguinte foi recebendo o Boca e logo no início o talismã Mario Rizzi, autor de três gols naquele sequência, marcou outro. Mas os xeneizes viraram para 3-1, já pela 31ª rodada. O Independiente, por sua vez, batia por 2-1 o River no Monumental. Desde a derrota por 2-0 em casa para o San Lorenzo na 28ª rodada, o Rojo não perderia mais no torneio. Diferentemente do vizinho.

    Após o balde de água fria do Boca, o Racing iniciaria em dezembro uma maratona de sete jogos em vinte dias, começando pela visita ao Ferro. Àquela altura, o Chicago já parecia irremediavelmente condenado, com o Temperley visto como o concorrente, e o Racing de Córdoba correndo por fora após passar dezoito rodadas sem vencer. A Academia perdia de 1-0 em Caballito, em partida suspensa a 15 minutos do fim após um objeto arremessado pela torcida local, descontente com a anulação do segundo gol, ferir o bandeirinha.

    O próximo jogo do Racing era uma visita ao Huracán, e um suborno alviceleste foi especulado, mas afastado pelo presidente Taddeo: “o Racing ganha em campo as partidas. Se for pela grana, eu entro e jogo de goleiro pois sempre foi meu sonho”. O oponente ganhou por 3-1. Venceu o jogo seguinte, por 1-0 sobre o Instituto, mas nem ali havia tranquilidade: por perder um gol sem goleiro com o jogo ainda empatado, Juan José Meza chegou a ser agredido no intervalo pelo colega Rodolfo Rodríguez. Em 11º de dezembro, a torcida progressista do Racing mal pôde festejar o fim da ditadura argentina, na posse do presidente civil Raúl Alfonsín: o San Lorenzo ganhou-lhes por 1-0 e mantinha sua perseguição ao outro time de Avellaneda.

    Trossero era torcedor do Racing na infância e a princípio parecia que não comemoraria seu gol. Ledo engano: farto de dois vices seguidos, logo vibrou com Giusti

    Para piorar, o Temperley vencera por 3-2 o Newell’s dentro de Rosario. A sobrevida racinguista veio na disputa dos 15 minutos finais contra o Ferro: a Academia foi capaz de empatar, com Carlos Caldeiro. 48 horas depois, recebeu o Unión, outro time ameaçado. Empatava em 1-1 quando conseguiu um gol a cinco minutos do fim. Em paralelo, o Temperley só empatava em casa com o San Lorenzo. Mas houve tempo para o Unión buscar o empate, com o veterano Miguel Brindisi aproveitando falha geral da defesa alviceleste para ficar livre diante de Carlos Rodríguez. Assim, a chance de rebaixamento ainda na penúltima rodada ficava real. A ironia é que o jogo seria contra o Racing de Córdoba. Como tragédia pouca é bobagem, pouco antes do jogo o goleiro Rodríguez soube que sua esposa estava internada após assalto na casa deles…

    Os cordobeses abriram 1-0, mas em vinte minutos o Racing original conseguiu a virada e manteve o 2-1 até o intervalo. Mas o visitante contra-virou em gols relâmpago, aos 8 e 11 do segundo tempo. Ainda assim, a derrota não bastava para o Racing cair, pois o Temperley só empatava com o River. Mas então Néstor Scotta, o ex-gremista ídolo da Academia nos anos 70, fez o gol da vitória do Gasolero ante o Millo. O Racing caía com isso e ainda sofreu um quarto gol. A plateia já deixava o Cilindro quando o clube diminuiu faltando cinco minutos e reascendeu alguma esperança por um empate salvador. O refluxo da torcida assustou as forças de segurança ainda acostumadas com o aval estatal para repressão. Seguiu-se um confronto de cadeiras e gases lacrimogêneos nas arquibancadas.

    O jogo seguiu, mas ficou no 4-3, com os jogadores descendidos desconsolados e um deles, Rizzi, chegando a vomitar com a crise nervosa. Um dos torcedores presentes naquele clima de funeral relataria que “Enrique Taddeo foi o único presidente íntegro que o clube teve. Tentei xinga-lo na tarde do rebaixamento e quando me dei conta que seu crime foi a honradez, fui chorando para casa”. O rebaixamento antecipado fez com que os titulares não fizessem a menor questão de jogar o clássico para a rodada seguinte. Com o San Lorenzo na cola, o Independiente não deu margens para o azar e bateu o cachorro morto representado enfim pelos juvenis. Que tiveram brio: no primeiro tempo, o goleiro rojo Gustavo Moriconi trabalhou mais do que Carlos Rodríguez, um dos poucos titulares racinguistas com ânimos em participar.

    Mas aos 43 minutos Rodríguez foi vencido com classe por Ricardo Giusti, aproveitando passe açucarado do maestro Ricardo Bochini, único remanescente do time tetra da Libertadores. E aos três minutos do recomeço, Enzo Trossero – torcedor racinguista na infância – deixou a defesa sem ser incomodado, andou, andou, arriscou de longe e marcou, permitindo que o Independiente segurasse tranquilamente o resultado e a torcida parodiasse o “ya lo ve, ya lo ve, El Equipo de José” dos anos 60 para “a la B, a la B, El Equipo de José“. Trossero declararia que sentia alguma pena na ocasião, “mas mas nós vínhamos de dois vices e queríamos ganhar um título sim ou sim”, a ponto de socar um torcedor que invadiu o campo para inibir outros, ao ouvir ameaça do juiz de que o jogo poderia ser suspenso. Nada mais grave sucedeu e não houve Papai Noel mais Rojo na história do que o festejado naquele 22 de dezembro de 1983.

    Para mais detalhes do rebaixamento racinguista, recomendamos esta nota de Carlos Aira, fonte primordial dessa matéria.

  • Boca, River e Real Madrid: os elementos em comum entre os três

    Boca, River e Real Madrid: os elementos em comum entre os três

    Boca, River e Real Madrid compartilham história. Di Stéfano foi mito no River e no Real Madrid, e como técnico ainda tem um feito ligado ao Boca.

    Di Stéfano, além de mito no River e no Real Madrid, como técnico tem um feito ofuscado: ainda é o único campeão argentino por Boca e River

    O anticlímax marcará inegavelmente a final da Libertadores de 2018. Mais de uma vez: se a primeira decisão foi adiada em um dia pelas chuvas, a segunda foi postergada de modo muito mais amargo. Nos 29 confrontos passados entre Boca e River por competições internacionais (25 pela Libertadores, dois pela Supercopa e dois pela Sul-Americana), só uma vez La Bombonera ou o Monumental não foram usados e ainda assim a partida ocorreu em Buenos Aires – com seu estádio em obras para a Copa do Mundo, o River mandou o 0-0 no estádio do Huracán. Fato consumado o Superclásico do milênio ocorrer no Santiago Bernabéu, resta relacionar a dupla ao anfitrião. História com três protagonistas, além de dois brasileiros coadjuvantes.

    Quem esteve no trio

    Falar de um argentino no Real Madrid é lembrar de Alfredo Di Stéfano. No River, despontou em 1947, já no terceiro ano como profissional (fora reserva de um único jogo em 1945 e passara 1946 emprestado ao Huracán), como o letal artilheiro do campeonato argentino – e campeão. Mas foi no Eldorado Colombiano, para onde fugira em 1949, que deixou de ser apenas La Saeta Rubia para virar um jogador completo, disputado a tapa por Real Madrid e Barcelona em 1953. O time da capital negociara-lhe diretamente com o Millonarios de Bogotá, embora formalmente o centroavante ainda pertencesse ao River.

    Di Stéfano não foi o primeiro hermano merengue, mas foi o jogador que transformou Chamartín. Os blancos vinham de jejum superior a duas décadas em La Liga e nem mesmo em sua cidade eram o time mais vencedor, e sim o Atlético. O resto foi história: um recorde de cinco títulos seguidos na Liga dos Campeões seguido por iguais cinco títulos seguidos no Espanholzão (algo jamais superado), sequência esta que contou com Alfredo nas quatro edições iniciais da série.

    A trajetória é tão gloriosa que ofusca uma outra estatística incrível, já como treinador: Di Stéfano é o único campeão argentino por Boca e River. Virou xeneize em 1969 e, embora tenha sido eliminado pelo rival na semifinal do Torneio Metropolitano, sorriu por último: primeiramente, ganhou a primeira edição da Copa Argentina, sobre o Atlanta. Mas, sobretudo, armou uma grande equipe vencedora do Torneio Nacional, na única vez em que o Boca foi campeão argentino em um Superclásico dentro do Monumental. O rival era justamente o concorrente direto pela taça na última rodada, mas era obrigado a ganhar. Não superou o 2-2.

    Colega de Di Stéfano no Real Madrid (juntos à esquerda), o goleiro Rogelio Domínguez depois jogou no River e treinou o Boca

    O ex-craque dali rumou de volta à Espanha para dirigir o Valencia. Regressou à Argentina para substituir no River seu ex-colega Ángel Labruna, então o técnico mais vitorioso de Núñez mas em fim de ciclo em 1981. Aos trancos e barrancos, Di Stéfano venceu outro Torneio Nacional, em campanha acidentada que só engrenou nos mata-matas, após risco sério de eliminação na fase de grupos. Ainda assim, o currículo serviu para que iniciasse sua primeira passagem como técnico do Real Madrid. Mas já não teria o brilho de outrora dali até 1984, nem em seu retorno ao Boca no ano de 1985 e em nova volta ao Real em 1990.

    Um dos colegas de Di Stéfano naquele Real Madrid penta europeu foi outro argentino, o correto goleiro Rogelio Domínguez, importado em 1957 do Racing e da Argentina campeã da Copa América. Em 1962, voltou à Argentina para defender o River, que imaginava que seria desfalcado de seu ídolo Amadeo Carrizo para a Copa do Mundo. Carrizo esteve nos treinos, mas, traumatizado por ter sido bode expiatório da eliminação em 1958, desistiu. Mesmo reserva, Domínguez, ausente na Suécia por jogar no exterior (era o que ocorria na época), acabou indo ao Chile como millonario. Jogaria muito pouco em Núñez, em função da Copa e por concorrer com o mito depois.

    Após pendurar as luvas no Flamengo, Domínguez iniciou uma carreira de técnico pouco vitoriosa, mas elogiada. Era daqueles técnicos boleiros, preparando seus elencos mais com peladas do que com ensaios táticos. Seu Boca, clube que treinou de 1973 a 1975, segue bastante apreciado pelo bom futebol, embora falhasse nos momentos decisivos – também não lhe ajudou ser sucedido logo por quem ergueria as primeiras Libertadores e Mundial xeneizes (além de bater o River na única final entre ambos no século XX), Juan Carlos Lorenzo.

    Ainda assim, ao deixar o clube Domínguez era o segundo técnico com mais jogos no Boca, abaixo de Mario Fortunato, sendo depois ultrapassado pelo “maestro” Oscar Tabárez, pelo próprio Lorenzo e pelo recordista atual, Carlos Bianchi – de modo que o ex-goleiro, dos treinadores sem títulos na Casa Amarilla, é quem mais esteve no cargo.

    O defensor Ruggeri foi campeão e jogador de seleção nos três (e no San Lorenzo!)

    O outro a trabalhar no trio foi o zagueiro Oscar Ruggeri, que colecionou desafetos na carreira, todos eles com críticas convergindo no sentido de que era menos caudilho do que aparentava. O incontestável é que El Cabezón era muito pé-quente: não foi o único a jogar pelo trio da capital (Boca, River e San Lorenzo), coisa que até o caneleiro pai de Gonzalo Higuaín (Jorge Higuaín, outro zagueiro) também conseguiu. Mas só Ruggeri  defendeu a seleção vindo dos três (e ainda pelo Vélez também) e só Ruggeri foi campeão nos três. Falamos aqui.

    Revelado no Boca, Ruggeri participou do maradoniano Torneio Metropolitano de 1981, único título argentino do clube entre 1976 e 1992. Mas a própria vinda de Maradona sob empréstimo em dólares do Argentinos Jrs levaria o clube à quase bancarrota em 1984, com os desmandos econômicos da ditadura e a derrota nas Malvinas tendo valorizado a moeda ianque em 240%. O Boca esteve muito perto de fechar (era nesse contexto que Di Stéfano voltara como técnico, em 1985) e, com salários atrasados, o zagueiro forçou transferência ao River junto com a outra estrela do elenco, um certo Ricardo Gareca.

    A traição pesada demais fez dele uma eterna persona non grata entre os auriazuis, sobretudo pelo que viria depois: o River ainda não tinha Libertadores e Mundial, jejum quebrado em alto estilo em 1986, ao se tornar o primeiro time argentino a faturar a tríplice coroa. Ruggeri fez parte desse ciclo, chamando assim atenção europeia. Desembarcou na Espanha primeiramente no Logroñés, virando madridista para a temporada 1989-90, a última do segundo pentacampeonato espanhol seguido do clube e do torneio. Só deixou o Bernabéu por estar lesionado após a Copa de 1990 e o clube não querer desperdiçar a vaga de estrangeiro em tempos pré-Lei Bosman e passaporte comunitário.

    Quem defendeu Boca e Real Madrid

    Di Stéfano não foi o primeiro argentino do Real Madrid, posto que cabe aos irmãos Sotero e Eulogio Aranguren, dupla dos anos 1910 que cresceu já na Espanha. E Di Stéfano tampouco foi o primeiro jogador formado ainda no futebol argentino que seria adquirido pelos merengues. A honra coube ao ponta-direita Manuel Rocha, ainda que ele já estivesse na Europa quando foi contratado. Rocha fora revelado no Gimnasia LP e esteve rapidamente no Boca entre julho e novembro de 1938, sem encantar: fez só 18 jogos e um gol. Passaria depois pelo Brasil (jogou no Vasco) e os espanhóis contrataram-no como partícipe do único título português do Belenenses, em 1946.

    Os brasileiros: tanto Didi (no Real, com Di Stéfano; pelo River, o jogador inferior à esquerda é Oscar Más) como Iarley ficaram mais reconhecidos no futebol argentino

    Em Madrid, Rocha faturou a Copa do Rei de 1947 – na época, denominada Copa do Generalíssimo. Não era pouco, em tempos de vacas magras por Chamartín, em que o time do regime do tal Generalíssimo era o Atlético. Já os próximos na lista foram ambos jogadores do Boca e técnicos do Real. Primeiramente, houve o caso do meia-direita Luis Carniglia, que não teve muita sorte: defendeu o clube de 1936 e 1941, mas inicialmente concorreu com Francisco Varallo (maior artilheiro profissional do time no século) e depois com outro ídolo bostero, Pío Corcuera, só realizando oito jogos na única campanha campeã argentina, em 1940. Ainda assim, fez razoáveis 46 gols em 113 jogos, só saindo após gravíssima lesão em que fraturou perônio, tíbias e teve a perna encurtada, contra o Rosario Central.

    A carreira pôde seguir por times menores e até mesmo no futebol francês, onde pendurou as chuteiras no Nice para ali mesmo começar a de treinador, na época dourada do time mediterrâneo. Assim, apareceu no Real Madrid em 1957, ganhando duas Ligas dos Campeões do ciclo do penta madridista, em 1958 e 1959. Rumou dali ao rico futebol italiano e foi sucedido nos merengues por Manuel Fleitas Solich. Este fora um dos marechais do futebol paraguaio na primeira metade do século XX, rumando ao Boca ainda antes da oficialização do profissionalismo. Era um dos pilares do time fortíssimo apreciado entre 1927 e 1931.

    Após um trivice seguido, o Boca foi bi seguido, precisamente no último campeonato amador a ter os principais clubes (em 1930) e o primeiro do profissionalismo, embora as lesões impedissem assiduidade do volante nessa taça. El Brujo seria ainda mais reconhecido como técnico, sobretudo após obter para o seu Paraguai a primeira conquista na Copa América, em 1953. Faturou em seguida o segundo tri estadual da história do Flamengo, credenciando-se a trabalhar no Real Madrid na temporada 1959-60, embora não tenha ficado até o fim da vitoriosa Liga dos Campeões (concluída já sob Miguel Muñoz).

    Os nomes seguintes a terem trabalhado por Boca e Real foram precisamente Di Stéfano e Domínguez. Cronologicamente, quem os sucedeu foi o ponta-esquerda Carlos Guerini, verdadeira lenda do futebol cordobês. Revelado no quinto grande de Córdoba, o General Paz Juniors, Guerini seria ídolo na dupla principal local, Belgrano e Talleres. Ainda como jogador belgranense, chamou a atenção do Boca, seu clube de janeiro a julho de 1973. Nesse período, ele e os demais comandados de Domínguez foram os vices do grande Huracán de César Menotti.

    Carniglia não se firmou no Boca, mas treinou o Real em dois títulos na Liga dos Campeões. Guerini foi jogador de seleção como xeneize e tri espanhol como merengue

    Um único semestre no Boca lhe bastou para que estreasse na seleção, mas a subsequente ida ao Málaga o tirou do radar da Albiceleste para a Copa de 1974. Por outro lado, ela pôs El Chupete Guerini em outro radar: em 1975, virava madridista por quatro temporadas, sendo campeão espanhol em três. Mas naqueles tempos ir à Europa mais atrapalhava do que ajudava e Guerini ficou igualmente de fora da Copa de 1978; em 1979, virou então jogador do Talleres, assim como Alberto Tarantini, campeão da Copa de 1978 que havia ido ao Birmingham City ao fim do mundial, mas aportara em La T sob a declaração plausível na época: a de que a liga regional cordobesa importava mais que campeonatos nacionais europeus para seguir na seleção.

    O sucessor de Guerini foi o já citado Ruggeri, por sua vez sucedido por um brasileiro. Isso se considerarmos o Real Madrid B, pelo menos. Em 1995, o Castilla incorporou um trio tupiniquim, com a revelação colorada César Prates, o obscuro maranhense Júnior (que se chamaria Alício Sila Pinta) e outro do futebol nordestino, Iarley. O cearense passou dois anos na filial, chegando a ser colega de Esteban Cambiasso e de Samuel Eto’o. Em jogos de terceira divisão, chegou a experimentar um dérbi com o time B do Atlético, além de enfrentar times principais de Albacete e do Villarreal pré-Submarino Amarillo. Seu único gol foi sobre o Écija.

    Iarley não foi aproveitado pelo time principal e, após passagens por Ceuta (o time hispano-africano, não o Celta) e Melilla, voltou ao Ceará. Já tinha 29 anos quando deu o salto da carreira, se destacando pelo Paysandu na Libertadores de 2003 ainda antes do célebre gol da vitória sobre o Boca em La Bombonera. Mas foi esse lance e o restante do desempenho naquela partida que chamaram a atenção xeneize. Os paraenses caíram apesar do triunfo, os argentinos foram campeões e recrutaram o quase-algoz. Em um ano de Boca, Iarley marcou golaço em Superclásico, vazou os também grandes Racing e San Lorenzo e foi decisivo no último Mundial ganho pelos argentinos: foi aproveitando rebote de Dida em chute do meia que Matías Donnet fez o gol auriazul sobre o Milan.

    Aquela vitória do Paysandu foi uma sensação pois pôs o Boca à beira de uma eliminação para um modesto clube brasileiro pela Libertadores quando grandes tupiniquins vinham sendo eliminados em série na competição, ocorrendo isso duas vezes a Palmeiras e outra sobre o Vasco entre 2000 e 2001. Os bosteros foram bicampeões seguidos nesses anos, voltando a conquistar La Copa após hiato de 22 anos. Na reconquista em 2000, o zagueirão Walter Samuel foi não só um muro defensivo como também um providencial talismã na semifinal, marcando nos minutos finais o gol de honra que serviu como dramático gol da classificação contra o América mexicano.

    Samuel e Gago não cumpriram a expectativa na Espanha. No Boca, são ídolos intocáveis

    Antes, Samuel já havia brilhado no ciclo de 40 jogos invictos pelo campeonato argentino (ainda um recorde no profissionalismo) que embalaram o bi nacional seguido entre 1998 e 1999, encerrando outro jejum de 22 anos do Boca – este, de bicampeonatos nacionais. Após a Libertadores 2000, o zagueiro foi à Roma ser de imediato campeão italiano, chegando com moral a Madrid para solucionar o ponto fraco que os merengues sentiam em 2004: a defesa. Porém, o argentino não se deu bem e faria um feliz troca para a Internazionale.

    O último a defender Boca e Real Madrid foi justamente o primeiro que os blancos contrataram diretamente da Casa Amarilla: o volante Fernando Gago, apontado como sucessor do ídolo madridista Fernando Redondo. Fazia sentido na época, em que a desenvoltura elegante de Gago encantava uma torcida não exatamente acostumada a volantes técnicos. Se o Boca estava ausente da Libertadores, ganhou tudo o que estava ao alcance entre 2004 e 2006: um bi argentino e um bi na Sul-Americana que viraria também um bi na Recopa. Gago chegou ao Real no início de 2007 para uma estadia de cinco anos. Esteve no último bi seguido merengue em La Liga, mas não cumpriu as expectativas geradas, atrapalhado também pela fragilidade física. Atualmente é opção de banco no Boca.

    Quem defendeu River e Real Madrid

    Talvez por herança de Di Stéfano, as interseções entre os millonarios e o clube da realeza sejam maiores. O mito-mor do madridismo foi justamente o primeiro a jogar em ambos. Seu sucessor fez o caminho inverso, sendo um espanhol a jogar no campeonato argentino: José García Castro, mais conhecido pelo apelido Pepillo. Revelado pelo Sevilla, cumprira um bom papel no Real Madrid entre as temporadas 1959 e 1961, quando o time encerrou seu penta europeu para engatar o penta espanhol. Assim, foi contratado com pompa em prol do fútbol espetáculo desejado pelo River para 1961.

    O atacante não passou vergonha: enfrentando o próprio Real já pelo River, participou da vitória millonaria por 3-2 em amistoso travado em 14 de junho de 1961, encerrando oito anos de invencibilidade merengue contra estrangeiros no Bernabéu. Após uma bela pré-temporada, rendendo também triunfos sobre Juventus e Napoli na Europa, porém, o clube não engrenou na liga argentina. Ficou só em 3º, longe de ameaçar o campeão Racing, mas o espanhol fez sua parte – foram sete gols, incluindo sobre cada um dos outros quatro grandes (e, por conseguinte, no Superclásico). Porém, voltou a seu país para defender o Real Mallorca.

    O espanhol Pepillo e Wolff: títulos, só em Madrid

    Rogelio Domínguez foi o nome comum seguinte e, após ele, o do uruguaio Enrique Fernández Viola. Ex-jogador e ex-treinador do Barcelona, fora ele o técnico campeão espanhol de 1953-54, encerrando jejum de décadas do Real Madrid em La Liga, embora não tenha permanecido para o ciclo europeu. Ex-jogador também do Independiente nos anos 30, Fernández voltou à Argentina em 1961, inicialmente no Gimnasia LP. Apareceu no River em 1963. Esteve muito perto do título, mas o clube perdeu a liderança na penúltima rodada, exatamente em derrota no Superclásico em pleno Monumental, e veria a taça ficar com o Independiente. O uruguaio fugiu ao futebol chileno.

    Depois, foi a vez do outro brasileiro dessa listagem. Eleito melhor jogador da Copa de 1958, Didi desembarcou com pompa em Madrid, mas não se ambientou nos campeões europeus (Di Stéfano sempre desmentiu que o teria boicotado) e já em 1960 estava de volta ao Botafogo. Como treinador, classificou o Peru na Copa de 1970 eliminando no caminho a Argentina dentro de La Bombonera. Não havia como chamar mais a atenção e após o mundial trocou de Banda Roja, assumindo um River em jejum desde 1957. O brasileiro não conseguiu solucionar a seca, mas foi bastante reconhecido pelo bom futebol e por dar a primeira chance a diversos jovens que, amadurecidos, encerrariam a estiagem já em 1975.

    Um dos jovens treinados por Didi, porém, não ficaria até 1975. Foi o atacante Eduardo Anzarda. Mesmo sem jamais estourar em Núñez, em 1971 foi incorporado pelo Real Madrid, ficando por duas temporadas. Ganhou uma liga, mas foi em outro clube de realeza que teria luz própria: no Betis, além de vencer a segunda divisão em 1974, ganhando em 1977 a primeira Copa do Rei do time andaluz. Já o ponta Oscar Más também não brilhou como blanco, vivência que teve apenas na temporada 1973-74, exatamente a única vencida pelo rival Barcelona entre 1960 e 1985.

    Porém, remanescente desde 1964 de tantas decepções do River, Más pôde em seu retorno ao Millo saborear veterano, em 1975, o fim em dose dupla do jejum que perdurava desde 1957. Más é o segundo maior artilheiro riverplatense e, já aposentado, fez o gol do surpreendente título argentino na Copa Pelé, em 1987. Enquanto Más fazia sua única temporada pelo Real Madrid, o defensor Enrique Wolff fazia a sua única pelo River. Cria do Racing campeão de tudo em 1967 (não a ponto de entrar em campo nos títulos), Quique trocou Avellaneda por Núñez em 1973, indo à Copa de 1974. Após o mundial, acertou com o futebol espanhol, inicialmente com o Las Palmas. Em Madrid, esteve de 1977 a 1979, ganhando o título espanhol nas duas temporadas.

    Solari (atual treinador merengue) e Cambiasso juntos em pé com Luís Figo em 2003

    Após Wolff, o millonario madridista seguinte foi Ruggeri, sucedido por Santiago Solari. O volante-esquerdo foi profissionalizado no River (onde nos anos 60 jogara seu tio, Jorge Solari, da Copa de 1966) pouco após a Libertadores de 1996 e logo se firmou, participando do último time tri seguido no campeonato argentino e do elenco campeão da Supercopa 1997 – último troféu internacional do River até 2014. El Indiecito foi comprado pelo Atlético de Madrid em 1998 e como colchonero estreou pela seleção, mas também foi rebaixado em 2000. Precisando de dinheiro, o Atleti não se inibiu em vender o argentino ao rival, que veria a melhor fase de Solari.

    Solari passou meia década no Bernabéu, ganhando La Novena como titular, embora não conseguisse espaço na seleção para a Copa de 2002 dali a umas semanas. Com a intensificação da primeira Era Galáctica, perderia terreno e acompanhou Samuel rumo à Inter em 2005. Em 2018, apareceu como técnico interino madridista, efetivado após se tornar o primeiro comandante merengue a ter quatro vitórias nos quatro primeiros jogos. Quando ainda era jogador blanco, Solari foi colega de Esteban Cambiasso. El Cuchu foi contratado do Argentinos Jrs ao pintar como um supercraque no Mundial Sub-20 de 1997, mas foi seguidamente amadurecido no time B e depois emprestado ao Independiente.

    Em 2001, o empréstimo de Cambiasso foi redirecionado ao River, onde foi figura ativa nos campeões do Clausura 2002, com direito a gol em um 3-0 sobre o Boca dentro da Bombonera. Esse título enfim convenceu o Real a trazer-lhe de vez ao time principal – embora não necessariamente na titularidade. Assim, em 2004 ele antecipou a horda dos merengues que seriam melhor valorizados na Inter de Milão. No River campeão de 2002, o volante havia sido colega do atacante Juan Esnáider, que, em declínio, pouco contribuiu ao título. Dez anos antes, Esnáider era uma promessa do Ferro Carril Oeste apostada pelo Real Madrid.

    Sem ser aproveitado, foi repassado em 2003 ao Real Zaragoza, onde triunfou com títulos na Copa do Rei, na Recopa Europeia, gols reiterados sobre o trio Real, Barça e Atlético e a estreia na seleção argentina. Assim, em meados de 1995 ele voltou à capital, mas fracassou. Foi ao rival Atlético antes de Solari fazer o caminho inverso. No caso de Esnáider, a troca também foi positiva, anotando 21 gols na temporada e só deixando os rojiblancos por desavenças com a comissão técnica. Manteve boa fase no Espanyol em seguida, cavando mais alguns jogos pela seleção e transferência à Juventus, onde começaria sua decadência embora ainda tivesse nova passagem redentora pelo Zaragoza em 2000. No River, só ficou ao longo do ano de 2002 mesmo.

    Saviola e Higuaín: mais prestígio em Núñez, embora campeões nos dois

    O nome seguinte, curiosamente, viu seu lugar ao sol também no Zaragoza. Foi o uruguaio Carlos Diogo, que esteve primeiramente no River uruguaio mesmo (onde se formara) antes de o argentino adquiri-lo do Peñarol em 2004. O defensor esteve por uma temporada sem títulos em Núñez, mas o Real enxergou potencial e o levou. Em dois anos, Diogo não conseguiu espaço e assim foi pela primeira vez negociado com o Zaragoza. Seu sucessor foi Gonzalo Higuaín. Produto da base do River, pegou um período sem títulos que o clube viveu entre 2004 e 2008, mas fez-se notar sobretudo na Libertadores de 2006. Em dezembro daquele ano, estava negociado e foi ao Real junto com Gago.

    Antes de virar sinônimo de grande atacante que definha em finais, Higuaín teve outra imagem: a de grande atacante despintado por Florentino Pérez por renome menor que contínuos reforços midiáticos que o presidente buscava. Pois de fato El Pipita chegou a fazer mais gols até do que Cristiano Ronaldo na temporada 2009-10 e tinha média superior à de Karim Benzema (para não falar em Emmanuel Adebayor). Calhou de sair em 2013, justo antes do clube reconquistar a Liga dos Campeões. Em meados de 2007, ele e Gago receberam outro argentino: Javier Saviola, que foi um jogador entre 1998 e 2003 e outro depois.

    El Conejo apareceu com tudo no River e, após estrelar o título mundial sub-20 em 2001, foi negociado com o Barcelona. Por um clube em crise e que até teve algum risco de rebaixamento em 2003, o argentino foi importante, embora por alguma razão Marcelo Bielsa visse mais valor em Claudio Caniggia para a Copa 2002. Paulatinamente, Saviola foi tornando-se um atacante comum e em 2007 saiu diretamente do Barça para o maior rival, sem grande escândalo na Catalunha. Não conseguiu demonstrar erro por parte dos blaugranas, jogando pouquíssimo em dois anos. Em 2015, reapareceu no River campeão da Libertadores, mas sem ser a sombra do pibe destruidor da virada do século.

    Em meados de 2007, enquanto Saviola chegava a Chamartín, Rolando Zárate aparecia em Núñez. Irmão mais velho de Mauro Zárate, hoje na reserva do Boca, Roly, como Maurito, é produto do Vélez. Estreou no time principal velezano em 1997, apareceu esporadicamente nos campeões sob Marcelo Bielsa em 1998 e na temporada 1999-2000 esteve emprestado ao clube espanhol – figurando tanto pelo Castilla como no principal. Não se firmou e após uma sucessão de outros empréstimos voltou ao Vélez para ser campeão com o irmão em 2005. Vendido ao futebol mexicano, Roly Zárate apareceu rapidamente no River emprestado pelo Monterrey.

    Observado pelo colega Pepillo, o brasileiro Roberto Frojuello abre o placar em 1961 no 3-2 no Bernabéu, onde o Real não perdia havia 8 anos para estrangeiros. Fez outro também

    Por fim, um chileno. Após levar o San Lorenzo a seu primeiro título internacional na Copa Mercosul de 2001, Manuel Pellegrini foi o nome escolhido para suceder o histórico Ramón Díaz como técnico millonario. Pôde ganhar o Clausura 2003, festejado na época como o 30º título argentino do River, rumando ao emergente Villarreal para iniciar uma respeitada carreira europeia. Após diversas campanhas de destaque no Submarino Amarillo, teve a grande chance no Real Madrid dos recém-chegados CR7, Kaká e Benzema da temporada 2009-10. El Ingeniero obteve 96 pontos em La Liga, então um recorde no clube, mas calhou de o Barcelona ser ainda mais espetacular e campeão. José Mourinho foi a resposta de Florentino Pérez e Pellegrini teve de se contentar com o Málaga.

    Boca x Real, River x Real

    Dos finalistas da Libertadores, o primeiro a conhecer Madrid foi o Boca, na primeira visita de um time argentino à Europa. Foi em 1925 e os xeneizes ganharam de 1-0 mesmo em Chamartín, inaugurando uma escrita: os merengues são precisamente a única equipe que os auriazuis ganharam em quatro continentes diferentes. O gol foi Camilo Pozzo e um de seus colegas foi o ponta-esquerda Dante Pertini, tio de Di Stéfano. Dentro de Buenos Aires, os espanhóis deram o troco em 1927 (2-1, dois gols de José Gurucharri para os visitantes, com desconto de Domingo Tarasconi, artilheiro das Olimpíadas de 1928; emprestado pelo Osasuna, o veloz Gurucharri, que tinha medalhas no atletismo, por vezes é referido como Guruchegui).

    Em 1964, os argentinos devolveram esse placar em amistoso no Marrocos; ex-River, Norberto Menéndez abriu o placar aos 7 e aos 12 Ferenc Puskás já empatava, mas a 15 minutos do fim Juan Carlos Rulli fez o da vitória. Uma semana depois, houve revanche em Cádiz pelo bronze do tradicional Troféu Ramón de Carranza: Real 2-0, gols de Yanko e Francisco Gento. Os encontros eram frequentes e em 1965 rolou um quadrangular dos sonhos: Boca e River travaram a Copa Amistad com Real e o Santos de Pelé, tudo no Monumental. Em jogo válido pelo terceiro lugar, os espanhóis, eliminados mesmo sem perder para o River, ganharam do Boca por 3-1.

    Ramón Grosso abriu o placar, mas o jogo pegou fogo nos dez minutos finais, espaço em que Puskás ampliou, Alfredo Rojas descontou e Puskás fez mais um. Nessas três partidas, um desconhecido brasileiro defendeu o Boca: Ayres Moraes, irmão de Almir Pernambuquinho. Em 1966, houve reencontro no Marrocos em circunstâncias curiosas: após prevalecer o 1-1 no tempo normal (Pirri para o Real, Alfredo González para o Boca), tudo se decidiu em pênaltis peculiares, pois um mesmo jogador os cobraria. Gento acertou três para os espanhóis, enquanto o encarregado argentino era César Luis Menotti, que só converteu dois.

    Festa em Tóquio: Martín Palermo e os gêmeos Guillermo e Gustavo Barros Schelotto (atual dupla técnica do Boca) comemoram o Mundial de 2000 sobre o Real

    Depois, vieram dois jogos pela amistosa Copa Ibero-Americana em maio de 1994: na capital espanhola, o goleiro Carlos Navarro Montoya foi expulso com três minutos e os anfitriões abriram 3-0 (um de Fernando Hierro e dois de José Luis Morales), descontado para 3-1 nos cinco minutos finais por Carlos Mac Allister. Em La Bombonera, os argentinos abriram 2-0 com Rubén da Silva e Alberto Naveda. Levariam o troféu, mas a quinze minutos do fim o Real descontou com Luis Milla. Ainda assim, o 2-1 representou, enfim, um triunfo xeneize em casa. O jogo seguinte entre Boca e Real, o último, foi precisamente o do quarto continente diferente, agora pelo Mundial: em cinco minutos de jogo, Martín Palermo já havia feito dois gols. Os espanhóis descontariam cedo também aos 11, com Roberto Carlos, mas não iriam além.

    Já o primeiro duelo entre River e Real ocorreu em 23 de dezembro de 1951, em movimentado triunfo argentino por 4-3 em Chamartín (Luis Molowny e duas vezes Pahiño para os anfitriões, Santiago Vernazza, Walter Gómez e duas vezes Juan José Pizzuti para os vencedores). Em 1958, o Real já era outro, já reforçado com Di Stéfano, e fez excursão pelo Rio da Prata. Jogando no Monumental, ganhou de 1-0 – curiosamente, gol de outro argentino, Héctor Rial, e em tarde na qual os anfitriões usaram camisa rubro-negra à la Newell’s. O tira-teima seguinte foi aquele 3-2 millonario para encerrar a invencibilidade madridista de oito anos no Bernabéu contra estrangeiros. Curiosamente, os três gols da vitória foram de brasileiros, um de Delém e dois de Roberto Frojuello.

    Aquele 3-2 teve duas viradas e Di Stéfano fez valer a lei do ex duas vezes e quase rendeu transferência do goleirão Amadeo Carrizo, proposta em pessoa pelo presidente madridista Santiago Bernabéu, mas negada pelo presidente millonario Antonio Liberti – os “dois estádios”. Veio o duelo pela Copa Amistad em 1965, cujo 0-0 no Monumental em 8 de agosto, em caráter semifinal, pôs na decisão o River (derrotado pelo Santos na final). Ainda haveria outros dois duelos no espaço de um mês, começando por um 1-1 em Caracas no dia 25, no qual os argentinos empataram com gol de Jorge Solari, tio do atual comandante blanco, o placar aberto por Juan Agüero. Em 1º de setembro, agora no Bernabéu, triunfo anfitrião por 3-1 em amistoso-tributo a seu ídolo Gento. Ele, Grosso e Pirri marcaram os gols vencedores, com desconto argentino de Luis Artime.

    Em 1973, um amistoso de pré-temporada para apresentar o elenco merengue terminou com novo 3-1 espanhol, de virada: Norberto Alonso fez o primeiro gol e no finzinho do primeiro tempo Santillana teve validado gol em que a bola não teria passado da linha, surtindo efeito intimidação no árbitro. Pirri e Ico Aguilar viraram no segundo tempo. Em 1994, o amistoso já foi de pós-temporada mesmo. Em Mendoza, o primeiro tempo ficou no 1-1, gols de Iván Zamorano e Alejandro Ojeda, mas o segundo viu goleada visitante: Robert Prosinečki, Zamorano de novo e Dani anotaram o 4-1.

    Nos últimos amistosos, o Real Madrid sorriu, contra o Boca em 1994 e o River em 2003

    Por fim, os comandados de Manuel Pellegrini caíram por novo 3-1 em setembro de 2003, no Bernabéu. O amistoso celebrava os 50 anos da contratação de Di Stéfano pelos espanhóis, que começaram usando seus Galácticos mas só movimentaram o placar com reservas. Santiago Solari abriu o marcador contra o ex-clube e Javier Portillo fez dois para ampliar, descontando no fim Lucho González.

    Boca x River no exterior

    Se somente um jogo em 29 já realizados entre Boca x River por competições sul-americanas foi em campo diverso da Bombonera e do Monumental, Superclásico no exterior não é novidade. Foram cinco, todos amistosos, e nunca fora das Américas até esse domingo. Três delas, as primeiras, foram na vizinha Montevidéu: o Centenário recebeu um Boca 5-2 no penúltimo dia de 1955. O Millo abriu o placar com Walter Gómez aos 5 e já aos 6 Carlos Etcheverry empatou. Norberto Menéndez repôs La Banda Roja à frente aos 12 e aos 33 El Atómico Mario Boyé começou seu show, marcando os quatro gols seguintes do jogo.

    Em fevereiro de 1978, o River deu um troco por 2-0 (dois gols do ídolo Norberto Alonso), revertido pelo Boca em fevereiro de 1984 (gols de Ricardo Gareca e Omar Porté). Depois, a dupla experimentou a América do Norte. No Orange Bowl de Miami, os millonarios ganharam por 2-1 em junho de 2002, três dias após a seleção cair na Copa do Mundo. Nicolás Burdisso abriu o placar, mas foi expulso ainda aos 28 minutos. O rival arrancou uma virada-relâmpago aos 44 e 45 do segundo tempo, gols de Matías Lequi e Juan Pablo Raponi. Por fim, 31 de maio de 2014 viu um empate em 1-1 na Cidade do México, no templo do estádio Azteca, gols de Daniel Villalva e Claudio Riaño. Valia o Troféu BBVA, banco que patrocinava ambos, e nos pênaltis, deu River 4-2.

    Confira abaixo elementos em comum apenas entre Boca e River, publicados em 2013. E, mais abaixo, toda uma coletânea de especiais da dupla argentina, além dos lançados na ocasião de San Lorenzo x Real Madrid no Mundial 2014 e de River x Barcelona no Mundial 2015. 

    Futebol Portenho separa coletânea das matérias especiais sobre Boca e River
    Elementos em comum entre Boca e River – Parte I
    Elementos em comum entre Boca e River – Parte II
    Elementos em comum entre Boca e River – Parte III
    Elementos em comum entre Boca e River – Parte IV
    Elementos em comum entre San Lorenzo e Real Madrid
    Elementos em comum entre River e Barcelona