Categoria: Clássicos e Rivalidades

  • Boca x Rosario Central: os elementos em comum entre os clubes

    Boca x Rosario Central: os elementos em comum entre os clubes

    Boca x Rosario Central compartilham jogadores. Os gêmeos Guillermo e Gustavo Barros Schelotto chegaram a se enfrentar por eles.

    Os gêmeos Guillermo e Gustavo Barros Schelotto antes de um duelo por Boca e Central. Outros irmãos recentes foram os Burdisso. Mas o duelo auriazul não é nada fraternal

    Nessa quinta-feira xeneizes e canallas reeditam na Supercopa Argentina a feroz disputa em auriazul que marcou o ano de 2015, onde o time da capital levou a melhor sobre o rosarino tanto no campeonato argentino como em uma polêmica final na Copa Argentina, onde o Boca foi inegavelmente favorecido pela arbitragem. Dessa vez, é ele quem vem em baixa, juntando os cacos da final da Libertadores perdida para o maior rival, enquanto o Central pôde festejar na Copa nacional após um traumático trivice em anos recentes – e encerrar um jejum de 24 anos sem conquistas expressivas.

    O fanatismo pelas mesmas cores em contraste com um esterótipo mais frio atribuído a seus respectivos rivais (também próximos nas cores, por sinal) é o que mais aproxima Boca e Rosario Central – além das vantagens nos confrontos diretos no Superclásico e no Clásico Rosarino, por vezes mencionado como mais intenso que a própria rivalidade-mor do futebol argentino; afinal, o dérbi de Rosario não aceita vira-casacas há mais de 35 anos. Por outro lado, não houve nenhum ano em que Boca e Central tenham festejado conjuntamente, a não ser quando considerada a velha liga municipal rosarina, na qual os canallas estavam limitados até serem convidados juntamente com o rival Newell’s para disputarem a partir de 1939 o campeonato argentino. Até então, foram campeões nos torneios referentes a 1919, 1923, 1930 e 1940.

    Os títulos de 1919 e 1923, inclusive, fizeram ambos disputarem a Copa Ibarguren, um tira-teima entre o campeão “argentino” (entre aspas, pois o campeonato autodenominado argentino era na realidade uma liga regional como tantas no país, limitada de modo oficial à Grande Buenos Aires e La Plata) e o rosarino. O Boca levou a melhor em ambas, por 1-0 em 8 de fevereiro de 1920, gol de Pedro Miranda já aos dez minutos, no estádio do Gimnasia y Esgrima de Buenos Aires, o GEBA; e em 8 de junho de 1924, gol a seis minutos do fim da prorrogação, gol de Dante Pertini no estádio do Sportivo Barracas – Pertini era um tio de Alfredo Di Stéfano.

    Após serem admitidos na liga “argentina”, Central e Newell’s inicialmente acumularam compromissos nela e na liga rosarina, que gradualmente decaiu de prestígio. A Copa Ibarguren foi descontinuada a partir de 1942, tendo ainda um punhado de edições esparsas (agora envolvendo outros representantes do interior) até deixar de ser realizada após 1958. A edição válida por 1940 foi a última a opor Boca e Central. E, novamente, o time da capital se sobressaiu, com um sonoro 5-1 em 4 de janeiro de 1941 no estádio do Chacarita. O gol de honra foi anotado por Harry Hayes, por sua vez filho de outro Harry Hayes, presente nos duelos de 1920 e 1924 e até hoje o maior artilheiro centralista.

    A torcida do Boca no limite do campo, tolerada pelo juiz na final do Torneio Nacional de 1970, e o pênalti inexiste na final da Copa Argentina de 2015: queixas do Central

    Além das Ibarguren, os dois clubes antes de 2015 disputaram outros três troféus: na Copa Competencia de 1919, no Torneio Nacional de 1970 e no campeonato argentino da temporada 1986-87. A Copa Competencia unia times das associações “argentina” e “rosarina e a final da edição de 1919 deu-se em 18 de janeiro de 1920, poucas semanas antes do duelo válido pela Ibarguren. O estádio do GEBA também recebeu aquele duelo, terminado igualmente em 1-0 em final frenético: 7 minutos da prorrogação, o goleiro boquense Américo Tesorieri pegou um pênalti e aos 8 foi a vez dos xeneizes terem um pênalti para si, convertido por Pedro Calomino. Em 1970, o estádio do River recebeu uma final em que os canallas ameaçaram reverter a freguesa histórica. O volante Ángel Landucci abriu o placar aos 40 minutos, e a onze minutos do fim Ángel Rojas, o ídolo Rojitas, empatou.

    Na prorrogação, Jorge Coch decretou a virada aos 4 do segundo tempo. E já ali havia queixa rosarina: o árbitro tolerou que a torcida boquense se colocasse literalmente à beira do gramado, o que intimidou a camisa menos pesada do interior. A temporada de 1986-87, porém, serviu a diversos desafogos da massa centralista. Após um dourado período entre 1971 e 1980, quando ganhou três de seus quatro títulos argentinos (os dois primeiros também foram os primeiros de um time do interior), o clube foi rebaixado em 1984. Mesmo concorrendo contra o Racing, ganhou a segundona de 1985 e conseguiu algo nunca igualado no profissionalismo argentino: um bicampeonato da segunda com a primeira divisão. O Boca foi um dos concorrentes, embora já não tivesse chances de título na rodada final. O vice-campeão? O Newell’s.

    Contamos aqui aquele campeonato histórico, ainda o último levantado pelo Central na elite argentina – depois vieram apenas a Copa Conmebol de 1995 e a Copa Argentina ano passado como títulos importantes; a torcida não faz questão de considerar a segunda divisão de 2013. Já dos duelos que não valiam títulos, o mais histórico foi um em 1999, no qual o Boca, vencendo por 1-0 (gol de Sergio Bermúdez), chegou a 40 jogos de invencibilidade, decretando um novo recorde do tipo no campeonato argentino profissional. Vamos, enfim, a quem se destacou nos dois:

    Octavio Díaz: foram apenas sete jogos pelo Boca, mas na história turnê europeia de 1925, a primeira de um clube argentino. O titular era o citado Américo Tesorieri, mas foi El Oso (“O Urso”) Díaz o goleiro no 1-0 sobre o Real Madrid, um entre tantos resultados destacados logrados pelos xeneizes. O robusto Díaz foi emprestado pelo Rosario Central para aquela excursão; nos canallas, era sobrinho de Zenón Díaz, um dos primeiros hispânicos no clube e na seleção argentina, quando ambos ainda eram dominados pela comunidade britânica. Como outro destacado personagem das primeiras décadas da história centralista, Díaz também serviu a seleção, convocado às Olimpíadas de 1928, só se ausentando da Copa de 1930 por conta de uma greve do futebol rosarino.

    O áspero Rodolfo Dezorzi e o elegante César Menotti, destacado no Boca mais como treinador

    Rodolfo Dezorzi: revelado no Provincial de Rosario, Dezorzi foi incorporado pelo Central em 1941 – ano do primeiro rebaixamento canalla. O acesso não tardou e em fevereiro de 1945 ele figurou na vitoriosa Copa América pelo que produzira ainda como jogador do clube, embora já estivesse negociado com o Boca, onde só estreou em março. Era um zagueiro duro, com sua parceria com José Marante sendo apelida de Mellizas Legrand por ironia; as tais gêmeas Legrand, ainda vivas (Mirtha Legrand, mesmo nonagenária, segue como prestigiada apresentadora televisiva no país, inclusive vibrando por seu Racing campeão em 2019), afinal, eram atrizes angelicais. Dezorzi inclusive demorou a ser aceito pela torcida, pois enfrentando o Boca pelo Central em 1941 chegara a fraturar Luis Carniglia. Mas pôde ficar meia década no clube. Seu irmão Alberto Dezorzi também defendeu o Boca, como grande vira-casaca: jogou no River e em outra dupla rival, Atlanta e Chacarita.

    César Menotti: antes de ser o técnico vitorioso da Copa do Mundo de 1978, Menotti pôde defender a Argentina também como jogador, quando pertencia ao Central. Estreou pouco após a Copa de 1962 e participou da Copa América de 1963, embora ficasse cinco anos sem defender a Albiceleste. Ele era um clássico armador argentino, refinado para os fãs e lento para os críticos. No Boca, além de uma estadia esquecível como jogador em 1966, teve duas passagens como técnico consagrado – ambas marcadas por um boom seguido de acomodação, no primeiro semestre de 1987 e no biênio 1993-94, mesmo após ter entre elas passado pelo River (onde Sergio Batista, seu comandado, explicou: “Menotti em 5 minutos de transmite o que outros podem demorar 5 dias. Talvez sua falha seja que quando convenceu o dirigente, o torcedor e o jogador, perca a motivação por não poder motivar mais. Por isso, suas equipes duram sete ou oito rodadas”.

    Em 1987, o Boca estava em 14º quando Menotti chegou conseguiu sete vitórias seguidas, chegando inclusive a liderar na 34ª rodada, mas perdeu fôlego na reta final e viu o Central ser campeão. Ainda assim, o treinador só saiu por vontade própria, ao alegar problemas pessoais. El Flaco voltou ao Boca no fim de novembro de 1993, na 12ª rodada do Apertura. O clube vinha até então com só seis gols marcados. Veio então uma sequência de bons resultados, com um 6-0 no Racing (então líder do torneio) sendo o mais notável. O Boca, embora nesse mesmo período tenha perdido de 6-1 para o Palmeiras e ficado na lanterna de seu grupo na Libertadores de 1994, saltou naquele Apertura 1993 (finalizado só em março de 1994) para uma colocação a dois pontos do campeão River. Menotti, murchou depois no Clausura e no Apertura válidos por 1994, ainda que tenha levado o clube à decisão da Supercopa, mas não sobreviveu a um 3-0 sofrido em casa para o River na Bombonera pelo Apertura.

    Carlos Aimar: meia contratado ainda como juvenil em 1970 junto ao Sporting de Corral de Bustos, interior santafesino, foi promovido no ano seguinte como volante do elenco campeão nacional – um título saboreado especialmente pelo triunfo sobre o Newell’s nas semifinais. Cai Aimar, que não tem parentesco com Pablo, também foi campeão em 1973 e cogitado à seleção que iria à Copa de 1974. Ficou até 1978 no Central e é reconhecido como um dos maiores personagens canallas. No Boca, trabalhou no biênio de 1989 e 1990. Saiu pelos fundos, após boicotar polemicamente o ídolo Claudio Marangoni, mas com história feita: ganhou a Supercopa de 1989 e a Recopa de 1990, os primeiros títulos xeneizes desde o maradoniano Metropolitano de 1981, encerrando a década perdida.

    Marcelo Delgado e Roberto Abbondanzieri conviveram nos dois, mas são desafetos. A foto mais à direita ainda tem Nicolás Burdisso e Guillermo Barros Schelotto, cujos irmãos defenderam os dois clubes

    Kily González: vigoroso (às vezes excessivamente) volante ou ponta, ele também não deixava de ter habilidade com a perna esquerda e despontou em 1993 no Central, a ponto de ser sondado em 1995 pelo Real Madrid. Ele, porém, preferiu ir ao Boca para ser colega de Maradona. Não virou ídolo, mas teve um desempenho interessante que o fez estrear pela seleção como jogador xeneize, ainda em 1995. Embora não tenha ganho títulos, ele e colegas estiveram no páreo até a penúltima rodada do Apertura e do Clausura da temporada 1995-96, quando Kily então partiu a La Liga. Após uma carreira exitosa por Valencia e Internazionale, teve mais dois ciclos no Central: de 2006 a 2008 e depois para tentar ajudar o time do coração a sair da segunda divisão na temporada 2010-11, sem êxito.

    Marcelo Delgado: produto da base canalla, o atacante foi promovido em 1990 ao time adulto, firmando-se a partir de 1991. Ficou até 1994, quando teve seu primeiro ciclo na Cruz Azul. Estava há quatro anos no Racing quando o Boca o contratou em 2000. El Chelo logo desbancou a titularidade do ídolo Guillermo Barros Schelotto para a Intercontinental, para depois engatar dupla com o próprio Mellizo após a venda de Martín Palermo, sendo inclusive aproveitado ocasionalmente na seleção. Campeão da Libertadores de 2001, chegou a ser vilanizado pela expulsão na derrota do Mundial de 2001. Reergueu-se como o artilheiro da Libertadores de 2003, embora logo voltasse à Cruz Azul. Teve novo ciclo no Boca entre 2005 e 2007, agora como opção útil de banco no time que venceu uma Sul-Americana e duas Recopas.

    Família Barros Schelotto: os gêmeos Guillermo e Gustavo Barros Schelotto formaram-se no início dos anos 90 no Gimnasia LP, time do coração de ambos e onde o pai fora até presidente, e onde estiveram na taça recente mais expressiva do clube. Foram contratados pelo Boca em 1997, a pedido de Maradona. O atacante Guillermo não tardou a se sobressair, estreando já marcando gol (curiosamente, na mesma partida o último gol de Maradona) para inaugurar uma estadia de dez anos contínuos e diversos títulos – Guille foi até 2012 o jogador mais vezes campeão no clube. O volante Gustavo foi prejudicado pelo temperamento (que lhe custou um exílio semestral no Unión de Santa Fe no Clausura 1998 após ir às vias de fato com o técnico Héctor Veira na pré-temporada) e pela inevitável comparação com o irmão, mas não foi exatamente um fracasso: dos 90 jogos que fez, fez onze gols, bons números para um volante, especialmente ao levar em conta que sua titularidade deu-se em 68 jogos.

    Na Libertadores de 2000, Gustavo foi titular em especial naqueles 3-0 sobre o River nas quartas e no jogo de ida da final. Um de seus gols pelo Boca foi em amistoso contra o Villarreal e o clube espanhol comprou El Tiburón (“O Tubarão”) junto com Martín Palermo após o Mundial Interclubes. Não deu certo na Europa e logo foi emprestado ao Racing, mas se deu bem, como titular do elenco que tirou a Academia de seu jejum nacional de 35 anos já no Apertura 2001. Depois foi repassado ao Rosario Central, onde não ganhou títulos nem virou exatamente lenda, mas os dois anos geraram uma identificação mútua, a ponto do volante batizar uma filha de Rosario e cogitar chamar outra de Juana Central. Os Mellizos Barros Schelotto voltaram a se unir como dupla técnica, primeiramente no Lanús campeão da Sul-Americana de 2013 e depois no Boca. Após as amarguras diante do rival em 2018, estão no Los Angeles Galaxy.

    Roberto Abbondanzieri: chegou ao Central aos 15 anos e foi promovido em 1994. O titular era Roberto Bonano, de quem foi reserva na vitoriosa Copa Conmebol de 1995; o compromisso continental, porém, fez o técnico Ángel Tulio Zof promover um rodízio entre os goleiros, com El Pato sendo o titular no campeonato argentino e vendido em 1996 ao Boca, tempos em que seu sobrenome ainda era registrado como Abbondancieri. Se a reserva no Central não era um problema, no Boca ele precisou ser mais perseverante; foram anos no banco, primeiramente para Carlos Navarro Montoya e depois para Oscar Córdoba, até firmar-se a partir de 2002 e ganhar em 2003 a Libertadores e o Mundial – rendendo em 2004 uma estreia de veterano na seleção argentina. Teve suas noites de protagonista nas decisões por pênaltis no Mundial de 2003 contra o Milan e da Sul-Americana de 2005 frente o Pumas; nessa, não só defendeu alguns como ainda cobrou o pênalti do título. Titular na Copa de 2006 ainda como xeneize, foi vendido ao Getafe após o Mundial.

    Daniel Díaz (mais à esquerda, com Luciano Figueroa, que também jogou no Boca) e Jesús Méndez são os mais recentes jogadores dignos de nota na dupla

    Daniel Díaz: suas origens em Catamarca renderam-lhe o codinome Cata Díaz. O zagueirão apareceu em 1999 no Central, integrando o time vice-campeão para o River, semifinalista da Libertadores em 2001 e que pôde classificar-se à Libertadores para a edição 2004. Nesse embalo, estreou em 2003 pela seleção argentina. Díaz, porém, deixou o clube ainda em 2003, como um dos tantos canallas que atraíram a Cruz Azul (Luciano Figueroa e César Delgado foram outros). Em 2004, já voltava à Argentina para uma boa temporada no Colón, de onde rumou ao Boca. Destacou-se sobretudo na Libertadores de 2007, a última vencida pelos xeneizes, rendendo uma convocação à Copa América e transferência ao Getafe. Cata Díaz ainda teve um segundo ciclo no clube, entre 2013 e 2016, figurando como adversário do Central nas conquistas dobradas de 2015.

    Miguel Ángel Russo: como jogador, o Estudiantes (1975-88) foi seu único clube. Volante do time bicampeão em 1982-83, El Palomo foi até uma ausência inicialmente questionada na seleção de 1986. Como treinador, teve ciclos vitoriosos nos mais diversos clubes argentinos – a começar pelo Lanús, tirado da segundona em 1990 e em 1992 e com quem chegou a liderar o Apertura 1993 na reta final. Também tirou o Estudiantes da segundona, em 1995. Chegou ao Rosario Central vindo da Universidad de Chile semifinalista da Libertadores 1996 e, de cara, impôs um histórico 4-0 para cima do Newell’s em Clásico Rosarino de 1997. Arroyito foi seu trampolim para treinar em La Liga com o Salamanca. Russo voltou ao Central em novembro de 2002 para desatolar os canallas da ameaça de rebaixamento e cumpriu com louvor, levando-os à Libertadores 2004.

    Campeão argentino com o Vélez no Clausura 2005, Russo deixou o clube tão logo foi requisitado pelo Boca ao fim de 2006. Russo pegou uma equipe abalada pelo traumático vice no Apertura 2006 e com ela venceu a Libertadores 2007, ainda a última do clube. Ainda teve novas passagens com o Central: sem êxito como bombeiro em 2009, tirou-o em 2013 de uma segunda divisão em que o time se atolava havia longos três anos.

    Dos técnicos de ambos, Russo é mais relevante do que Menotti. À direita, na festa da Libertadores 2007, pode-se notar novamente Daniel Díaz também – o careca com rosto de perfil

    Atualizações após esta nota: Russo, que em 2018 treinava o Millonarios em meio a um tratamento contra câncer, foi campeão argentino com o Boca em 2020 e com o Rosario Central na Copa da Liga em 2023.

    Família Burdisso: o defensor Nicolás Burdisso dispensa maiores apresentações. Mesmo jovem, conseguiu lugar cativo no Boca que conquistou tudo entre 1999 e 2004, estreando em 2003 pela seleção – com 22 anos de idade, já tinha três Libertadores e dois Mundiais. A partir de 2004, iniciou uma reconhecida carreira na Itália, sobretudo pela Internazionale e na Roma. O irmão Guillermo Burdisso, por sua vez, foi formado em times pequenos da Grande Buenos Aires até ser contratado pelo Rosario Central em 2007. Teve uma boa fase justamente na temporada do rebaixamento, em 2010 – foi nela que fez seu único jogo pela seleção, inclusive marcando gol. Chegou a dividir elenco na Roma com o irmão, emprestado para a temporada 2010-11, mas veio a ter maior luz própria somente no Arsenal campeão argentino pela primeira vez, em 2012. O Boca contratou-o imediatamente, mas o Burdisso mais jovem não teve o mesmo êxito.

    Jesús Méndez: esse zagueiro encerrou recentemente a carreira e o lembramos como o último a ter defendido o trio de ferro formado por River, Boca e Independiente e também o penúltimo no trio “noventista” River, Boca e Vélez. Mas o clube com o qual mais se identificou foi o Central. Formado no River, Méndez apareceu em 2010 no Boca e sua boa fase rendeu-lhe uma aparição na seleção argentina naquele ano. Em 2011, porém, foi emprestado aos canallas, que lutavam para sair da segundona. Sem êxito inicial, foi reincorporado aos xeneizes, mas ele mesmo preferiu voltar a Rosario e participou do acesso em 2013, sendo comprado em definitivo em 2014 – embora logo rumasse ao Independiente.

    Por fim, o duelo auriazul rendeu um dos vídeos mais folclóricos no que se refere ao jogo alheio ao gramado – cheio de provocações nada politicamente corretas entre torcedores dos dois lados, na temporada 2007-08, quando os rosarinos passaram a enfrentar o rebaixamento consumado em 2010. É o “negro boliviano” tristemente usado como xingamento aos visitantes no Gigante de Arroyito de um lado e o zombeteiro “quem não salta é um leitão” em resposta à figura eternizada como “o gordo do Central”. Abaixo:

    https://www.youtube.com/watch?v=GlLrk0AH7II&t=145s
  • River x Internacional: os elementos em comum entre os clubes

    River x Internacional: os elementos em comum entre os clubes

    River x Internacional têm em D’Alessandro o grande ídolo compartilhado, além de um duelo em vermelho e branco pela Libertadores.

    A imagem de capa não poderia ser outra: D’Alessandro é o grande ídolo em comum

    Hoje um duelo em vermelho e branco sacode a Libertadores, reunindo clubes que nessa década conseguiram tanto o título da competição como também tiveram de se resignar com o terceiro lugar no Mundial de Clubes e com os primeiros rebaixamentos de suas gloriosas histórias. Muitas mais coisas, porém, unem River e Internacional, incluindo o desfrute em comum de gente conhecida e até mesmo uma camisa gaúcha reserva branca com faixa vermelha na diagonal.

    Só de anos em comum de títulos de millonarios e colorados nos campeonatos argentino e gaúcho, temos os de 1941, 1942, 1945, 1947, 1952, 1953, 1955, 1975 (neste ano foi tanto no Torneio Metropolitano como no Torneio Nacional, para o Millo), 1981 (Torneio Nacional), 1991 (Torneio Apertura), 1994 (Apertura), 1997 (Torneios Clausura e Apertura), 2002, 2003, 2004, 2008 (todos no Clausura) e 2014 (Torneio Final).

    Os anos 40 festivos a ambos foram marcados por timaços com nomes próprios, com o Rolo Compressor do Inter e La Máquina do River. A metade final dos anos 70 também foi particularmente festiva, rendendo outros anos de títulos em comum: no mesmo ano de 1975 em que os argentinos encerraram em dose dupla um jejum de dezoito anos (os anos 60 colorados também foram de grande seca, aliás), os gaúchos faturaram pela primeira vez o Brasileirão.

    Em 1979, veio outro título brasileiro, até hoje o último no Beira-Rio. Curiosamente, foi outro ano em que o River foi campeão tanto no Metropolitano como no Nacional. Por fim, em 1997 os argentinos também ergueram a Supercopa Libertadores; em 2008 e em 2014 Inter e River respectivamente venceram também a Copa Sul-Americana; e ambos foram campões ainda em 2015 (Estadual; Libertadores e Recopa Sul-Americana) e 2016 (Estadual; Copa Argentina e Recopa Sul-Americana).

    O confronto de hoje será o primeiro entre River e Inter por alguma competição sul-americana, após quase terem realizado a final de 2015 em La Copa. Vejamos quem esteve nos dois, ressaltando desde já que o Paulinho de Almeida que defendeu o River no início dos anos 60 não é o mesmo jogador revelado pelos gaúchos no início da década anterior – e que o atacante Léo Gamalho foi pinçado pelo Inter ainda na equipe B riverplatense, desempenhando-se na base millonaria na temporada 2003-04:

    Francisco Fandiño: revelado no Argentinos Jrs, o atacante chegou ao River em 1937, em troca que envolveu o empréstimo do supergoleador Luis Rongo (depois ídolo no Fluminense) ao clube do bairro de La Paternal. Em Núñez, Fandiño atuou somente no time B, pois no principal a concorrência era fortíssima: Rongo não era titular por concorrer exatamente com o homem que popularizara nacionalmente o Millo, o fantástico Bernabé Ferreyra, que por décadas foi a contratação mais cara do futebol. Logo o troca-troca foi revertido, mas Fandiño não seguiu no Argentinos: passou ao Racing e a partir de 1942 trotou o mundo, jogando no Chile e no México até aparecer em 1947 no Internacional. Como colorado, conviveu com outros dois hermanos: o artilheiro José Villalba (apresentado junto com Fandiño ao voltar ao clube) e o técnico Carlos Volante; esteve na reconquista Estadual, mas logo regressou à Argentina antes de reforçar o Porto para temporada portuguesa de 1948-49.

    Salvador: apelido de Milton Alves da Silva, o volante com fôlego de maratonista contratado em 1950 junto ao Força e Luz (e não do Grêmio, como por vezes é mencionado em alguma Wikipédia da vida) levantou quatro títulos estaduais em cinco anos, no tri de 1951-53 e em 1955. Chamou primeiramente a atenção do Peñarol, que o trouxe para substituir ninguém menos que Obdulio Varela, recém-aposentado. Gradualmente recuado para a zaga, o brasileiro tornou-se figura ativa no início do primeiro pentacampeonato uruguaio dos aurinegros, iniciado em 1958. Titular do primeiro campeão da Libertadores, em 1960, reforçou o River em 1961, em troca que envolveu a ida do peruano Juan Joya a Montevidéu. Como a maioria dos brasileiros largamente adquiridos pelo Millo na época, porém, ele não vingou, só atuando naquele ano e seguindo carreira em times pequenos (a Wikipédia chega a atribuir-lhe uma passagem pelo Estudiantes em 1962, ano em que Salvador na realidade estava emprestado ao San Telmo na segundona argentina) até morrer pobre no início do anos 70. No Rio Grande, porém, deixou memórias que o fizeram ser eleito para o time colorado dos sonhos nas três vezes em que a Placar promoveu essa escolha, em 1982, 1994 e 2006.

    Os brasileiros Salvador e Deraldo foram muito breves no River. Imagens coloradas retiradas do excelente 1909emcores

    Deraldo: ponta-esquerda revelado pelo Pelotas, chegou ao Inter em 1959. Não conseguiu o título estadual, mas esteve no pacote de gaúchos que reforçou o Newell’s na segunda divisão em 1961, a incluir o colorado Ivo Diogo e o tricolor Juarez, além do ex-corintiano Roberto Belangero e de Zuca (do América Mineiro). Os rosarinos venceram em campo, mas uma mala preta paga ao Excursionistas terminou por revogar o título e o acesso. Em 1962, o quinto lugar, quando o Ñuls incorporou-se com outro gaúcho (o ex-gremista João Cardoso, depois destacado no Racing,) não impediu que Deraldo fosse adquirido pelo River para o ano seguinte. Mais conhecido na Argentina pelo sobrenome Conceição, ele não passou de quatro jogos oficiais – concorria, curiosamente, com outro brasileiro, o ex-são-paulino Roberto Frojuello, autor de dois gols na história vitória millonaria sobre o Real Madrid no Santiago Bernabéu e de breve passagem pela seleção no “entre Copas” de 1958 e 1962. Deraldo Conceição seguiu no país defendendo o Argentinos Jrs.

    Nelson López: lateral-esquerdo formado no River, subiu em 1961, sendo pouco aproveitado por lá e no Rosario Central. Curiosamente, em Rosario ele chegou a dividir apartamento com o citado brasileiro João Cardoso, segundo relato do brasileiro ao Futebol Portenho. Em 1963 chegou a Porto Alegre, sem impedir o insucesso no Estadual. López só engatou quando chegou ao Banfield em 1964, a ponto de ser convocado à Copa do Mundo de 1966 mesmo sem ter defendido antes a seleção oficialmente. Após um passo pelo Huracán entre 1968-70, teria destaque no San Lorenzo de Mar del Plata bicampeão da liga marplatense em 1971-72, classificando-se assim ao Torneio Nacional de 1972. Faleceu em 1980.

    Sergio Goycochea: o goleiro dispensa apresentações para quem conhece a história das Copas do Mundo. Goycochea chegou do Defensores Unidos de Zárate em 1982, inicialmente como terceira opção ante os dois titulares das seleções argentinas campeãs do mundo (Ubaldo Fillol e Nery Pumpido). Mesmo ainda na reserva de Pumpido, pôde em 1987 estrear pela seleção. Mesmo ao optar pelo lucrativo narcofútbol colombiano após doença que o tornou inativo a ponto de gerar até boato de que portaria HIV, indo ao Millonarios de Bogotá, Goyco manteve-se no radar da Albiceleste – e foi à sua consagradora Copa de 1990, embora só ganhasse a posição com a desistência prévia do reserva imediato Luis Islas e a fratura de Pumpido no segundo jogo. A carreira não decolou como se esperava, mas manteve-se intocável na seleção mesmo como jogador da dupla Cerro Porteño e Olimpia até voltar ao River em 1993.

    Voltou a Núñez credenciado com a eleição de melhor jogador da Copa América, ainda o último troféu da seleção principal. Em sua segunda passagem, o goleiro ganhou um Apertura levantado mais pela eficiência do que pelo brilho coletivo, mas perdeu a titularidade pela Argentina após o 5-0 sofrido pela Colômbia. Goycochea não deixou de ir à Copa de 1994, mas após o torneio rumou ao Deportivo Mandiyú treinado por Maradona. Ainda com renome, ele reforçou o Internacional em 1995, sem impor a segurança que dele se esperava, dando ainda o azar de o Grêmio vencer praticamente tudo na época. O goleiro deixou o Rio Grande outro ano depois para assinar com o Vélez, na expectativa anunciada de que José Luis Chilavert fosse vendido, o que não aconteceu. Penduraria as luvas no Newell’s, em 1998. Relembramos a carreira do Tapa Penales nesse outro Especial.

    Horacio Ameli: capitão do San Lorenzo campeão em 2001 do Clausura (no embalo de treze vitórias seguidas, ainda um recorde nacional no profissionalismo) e da Copa Mercosul (o primeiro título continental azulgrana), o zagueiro chegou ao Brasil no início de 2002 para reforçar um Inter que não vencia o estadual havia cinco anos. A pendência foi resolvida e o xerife então foi contratado pelo São Paulo no segundo semestre, impondo seu jogo brusco ocasionalmente avermelhado na campanha do líder da primeira fase do Brasileirão. O Tricolor cairia já no primeiro mata-mata, para o campeão Santos, mas Ameli foi requisitado pelo River, treinado pelo mesmo Manuel Pellegrini que lhe dirigira no San Lorenzo, e onde reencontraria sua antiga dupla Eduardo Tuzzio.

    Ameli foi um ídolo efêmero até meados de 2005, ganhando dois Clausuras e chegando a duas semifinais de Libertadores. A saída se deu por fatores extracampo, quando descobriu-se que mantinha um caso extraconjugal com a esposa de Tuzzio, bomba que afetou o desempenho de todos naquelas semifinais continentais de 2005. Vilanizado, seguiu carreira no América do México até encerra-la precocemente em 2006 no clube que o revelara, o Colón (onde estava no elenco que devolveu os santafesinos à elite após quatorze anos, em 1995).

    O goleiro Goycochea e o zagueiro Ameli: atrapalhados no River pelo extracampo

    Andrés D’Alessandro: El Cabezón dispensa apresentações, mas vamos lá. Promovido em 2000, firmou-se no River a partir de meados de 2001, após ganhar o Mundial sub-20 com a seleção. Logo foi visto como um novo Maradona, embora suas conquistas se limitassem a dois Clausuras, em 2002 e 2003, ano em que estreou na seleção principal e foi vendido à Europa. Não cumpriu a expectativa alta demais e parou de servir a seleção ainda em 2005, deixando de ir à Copa do Mundo. Chegando a ser visto como flop, teve um bom semestre no San Lorenzo em 2008, participando ativamente da eliminação do próprio River na Libertadores antes de reforçar o Inter no segundo semestre. Logo levantou a Sul-Americana de 2008 e esteve no páreo na Copa do Brasil e no Brasileirão de 2009, ambos encerrados como vice. A idolatria sedimentou-se, porém, a partir de 2010.

    A conquista da segunda Libertadores colorada rendeu inclusive um breve retorno à seleção e a eleição de melhor jogador do continente. O clube não foi mais tão longe depois, mas além da Recopa em 2011 emendou um hexacampeonato estadual. D’Ale voltou brevemente ao River em 2016 e demonstrou sua importância pela presença e pela ausência: no Millo, ganhou a Copa Argentina enquanto seus ex-colegas de Inter vivenciavam o inédito rebaixamento. De volta ao Rio Grande, ainda não voltou a ser campeão, mas participou desde a caminhada na segunda divisão à reclassificação a Libertadores.

    Fernando Cavenaghi: surgiu no River em 2000, juntamente como D’Alessandro e fazia jus ao apelido de Cavegol. Contamos nesse outro Especial que, ao fim de sua primeira passagem, tinha média de gols de 0,6 por partida, mais do que muita gente mais renomada globalmente como Javier Saviola, Hernán Crespo, Marcelo Salas, Gonzalo Higuaín e Radamel Falcao – a de Alfredo Di Stéfano, por exemplo, era de 0,72. El Torito firmou-se a partir da campanha campeã do Clausura 2002 e durou até 2004 – quando, excessivamente cauteloso, preferiu o futebol russo, recém-vencedor da Copa da UEFA, a esquentar banco na Juventus. O planejamento de um passo intermediário não se provou acertado, mas Cavenaghi pôde cavar uma transferência ao Bordeaux em 2007. Eleito o melhor jogador da Ligue 1 de 2007-08, ganhou-a na temporada seguinte, encerrando o domínio do hepta Lyon e defendendo ocasionalmente a seleção.

    Em 2011, já apresentando declínio, Cavenaghi foi emprestado ao Inter, cuja panelinha argentina reunia o velho colega D’Alessandro e também Pablo Guiñazú e Mario Bolatti. Não era o mesmo e o clube não se esforçou muito em reter a vontade do centroavante em voltar ao River, fazendo questão de disputar a segunda divisão para onde seu velho clube havia acabado de se meter. O gesto e o bom desempenho na primeira metade da campanha campeã, antes de perder lugar para David Trezeguet, pesou para a torcida não perdoar a diretoria por se desfazer dele em 2012. Cavegol voltou outra vez em 2014 para enfim ganhar o continente, com a tríada Sul-Americana, Recopa e Libertadores. Era o capitão na redenção, mantendo média superior a meio gol por jogo e colocando-se entre os dez maiores artilheiros do River. Ainda fez um pé-de-meia no futebol do Chipre até virar o quinto a ser contemplado pelo River com um jogo-despedida, em 2017.

    Ignacio Scocco: revelado pelo Newell’s campeão de 2004, a partir de 2006 rodou por México, Grécia e Emirados até voltar aos rubro-negros em 2012 como único remanescente daquela conquista a participar do título seguinte da Lepra, já no Torneio Final de 2013. Simultaneamente, os rosarinos também avançaram às semifinais da Libertadores, freados em parte por um blecaute no Horto que, se ocorrido na Argentina, seria automaticamente classificado como ato de catimba argentina. Scocco foi ainda o artilheiro tanto do Torneio Inicial como do Final da temporada 2012-13, aparecendo inclusive na seleção caseira para o Superclássico das Américas – marcando dois gols em sua única partida pela Albiceleste, embora não evitasse a derrota nos pênaltis para o Brasil. Com todas essas credenciais, reforçou o Internacional no segundo semestre de 2013, sem vingar ali e no Sunderland, para onde conseguiu transferir-se em janeiro de 2014 apesar do fracasso como colorado.

    No segundo semestre de 2014, o atacante estava novamente de volta ao Newell’s, sem colher os êxitos das passagens anteriores, mas mantendo algum calibre no pé para reforçar o River na reta final da Libertadores. Em um jogo, marcou mais gols do que em toda a sua passagem pelo Inter, com os cinco anotados nos famosos 8-0 sobre o Jorge Wilstermann nas quartas-de-final, embora logo viesse o anticlímax contra o Lanús nas semifinais. Veio o consolo da Copa Argentina, com gol dele na decisão, e da Supercopa Argentina, esta em decisão contra o Boca, com novo gol do Nacho. Na Libertadores, deixou sua marca contra o Independiente, só se ausentando-se das consagradores finais por lesionar-se no campeonato argentino.

    Os atacantes Cavenaghi e Scocco só se mostraram goleadores em Núñez
  • Boca x Athletico Paranaense: os elementos em comum

    Boca x Athletico Paranaense: os elementos em comum

    Boca x Athletico Paranaense compartilham jogadores ao longo da história. O goleirão Navarro Montoya é o nome mais conhecido da lista.

    O goleirão Navarro Montoya, provavelmente o nome mais conhecido da lista

    O que poderia ser o duelo da próxima Recopa se dará amanhã pela fase de grupos da Libertadores, após o Boca ter perdido a Libertadores passada para o arquirrival enquanto o Athletico se mostrava melhor pontaria do que seu oponente na Sul-Americana. Hora de relembrar, em especial, quem foi xeneize e athleticano.

    Os dois clubes foram campeões em torneios alusivos aos anos de 1930, 1934, 1940, 1943 (no Estadual e no campeonato argentino), 1990 (Estadual; Recopa), 1998 (Estadual; Apertura), 2000 (Estadual; Apertura, Libertadores e Mundial), 2001 (Estadual e Brasileiro; Libertadores), 2005 (Estadual; Apertura, Recopa e Sul-Americana) e 2018 (Estadual e Sul-Americana; Argentino). Houve ainda o ano de 1999, em que os xeneizes faturam o Clausura e os atleticanos celebraram a Seletiva à Libertadores.

    Como se vê, o grande período em comum foi a virada do século, marcada por certas presidências a dividirem opiniões em cada um. Antes dessa terça, o único duelo entre Boca e Athletico deu-se em amistoso realizado em 29 de janeiro de 1973 em Curitiba, com vitória rubronegra de virada por 2-1. Sem mais demoras, eis os que passaram pelos dois oponentes:

    Rubén Aveiro: esse paraguaio apareceu no Boca em 1936, no time B, sendo pouco aproveitado pelo principal. Foram só cinco amistosos, a partir de março de 1937. Em junho de 1938, após reunir quatro gols em dois desses amistosos, enfim teve uma chance no campeonato argentino, mas em derrota de 2-0 para o Platense, no que foi sua única exibição oficial pelos auriazuis. Seguiu carreira por Almagro e Lanús antes de voltar a seu país. Como jogador do extinto Corrales, representou o Paraguai na Copa América de 1942, com o destaque de marcar dois gols na derrota de 4-3 para a Argentina. Em 1943, então, reforçou o Athletico junto com outros paraguaios, casos de Gorgonio Ibarrola (colega naquela Copa América), ex-Libertad, e do técnico Eduardo Carbó. Grafado como “Aveiros” no Brasil, ele marcou um dos gols no 3-3 com o Coritiba que forçou uma melhor-de-três para decidir o estadual, definido só no início de 1944.

    O quinteto ofensivo do Paraguai na Copa América de 1942. Aveiro, que marcou dois gols na seleção argentina, e Ibarrola foram contratados pelo Athletico no ano seguinte

    Os dois primeiros Atletibas dessas finais foram então vencidos por 3-2, assegurando por antecipação a conquista, com Aveiro fornecendo assistência para um dos dois gols de Ibarrola na primeira final. Posteriormente, defenderia no Brasil também o Santos, em 1945, e foi o primeiro paraguaio em La Liga ao ser incorporado em 1947 pelo Atlético de Madrid.

    Emanuele Del Vecchio: centroavante antecessor de Coutinho na parceria com Pelé, chegou à seleção e transferiu-se ao futebol italiano em tempos em que jogar fora impedia convocações, deixando de ir às Copas de 1958 e 1962. Na Serie A, chegou a marcar os cinco gols de triunfo do Verona por 5-3 sobre a Sampdoria e estava recém-chegado ao Milan quando o Boca o adquiriu, em 1963. Não foi mal: foram quatro gols em dez jogos e, retirando os amistosos, foram três em seis. Mas apesar de elogiado pela potência e bom cabeceio, não superou a concorrência com o compatriota Paulo Valentim, não sendo usado na campanha vice da Libertadores (para o próprio Santos) e voltando ao Brasil em 1964. No fim da carreira, apareceu em 1968 em um Athletico que se dedicava a incorporar antigos valores nacionais, como Djalma Santos, Bellini e Dorval. Ficou até 1970, ano do único título estadual athleticano entre 1958 e 1982.

    Jorginho Paulista: mesmo sem se firmar no time principal do Palmeiras, a faceta promissora desse lateral-esquerdo foi notada pelo PSV Eindhoven, que o contratou em 1999, embora o emprestasse sucessivamente para obter experiência. Em 2000, isso ocorreu em dois clubes: no Athletico campeão estadual e estreante na Libertadores no primeiro semestre, e no Vasco vencedor da Copa Mercosul e do Brasileirão no segundo semestre. O bom momento como vascaíno no início de 2001, quando esteve a poucos minutos de levantar também o Estadual, chamaram a atenção do Boca recém-campeão da Libertadores, torneio em que os xeneizes haviam duelado contra os cariocas. Porém, não se adaptou à Argentina, sem exibir força na marcação e tampouco as projeções ofensivas e chutes de longa distância que mostrava em seus bons momentos anteriores. Em 2002 já era redirecionado pelos holandeses ao Cruzeiro, sem mais voltar a ser o mesmo.

    Carlos Navarro Montoya: simplesmente um dos maiores goleiros do futebol argentino, a quem já dedicamos este Especial. Seu pai, Ricardo Navarro, foi um goleiro argentino que trotou o continente, defendendo o Independiente Medellín quando o filho nasceu, nessa cidade colombiana. Crescido na terra dos pais, despontou primeiramente no Vélez, com a campanha vice nacional de 1985 chamando a atenção da Colômbia, cuja seleção chamou-o para a reta final das eliminatórias à Copa de 1986. Em decisão prematura, El Mono aceitou o chamado da terra natal, algo do qual se arrependeria, passando anos e anos solicitando autorização para defender a da Argentina. Em 1988, apareceu no Boca e suas atuações desbancaram a lenda Hugo Gatti, que precisou pendurar as luvas. Defendeu os xeneizes quase que ininterruptamente até 1996, a ponto de seu reserva, Esteban Pogany, virar piada por não ser usado nem quanto escalavam-se times mistos ou praticamente reservas.

    O trio brasileiro Del Vecchio, Jorginho Paulista e Luiz Alberto: em comum, a passagem efêmera pelo Boca

    Navarro Montoya destacava-se também pelos visual simultaneamente calvo e cabeludo com uniformes lisérgicos de autoria própria, com o qual defendeu os arcos do Boca nos títulos que vieram em tempos de relativas vacas magras por ali – Supercopa 1989, Recopa 1990, Copa Master 1992, Apertura 1992 (encerrando o maior jejum do clube no campeonato argentino, onze anos) e Copa Ouro 1993. Dispensado por Carlos Bilardo em 1996, chegou a ser enfim autorizado pela FIFA para defender seu verdadeiro país, passando a ser atrapalhado então pelo péssimo momento dos modestos clubes espanhóis onde seguiu carreira – foram dois rebaixamentos. O que parecia ser o fim da linha foi uma entressafra para boas exibições na volta à Argentina pelas camisas de Chacarita, Independiente e, principalmente, a do Gimnasia LP vice de 2005, credencial que o levou ao Athletico no início de 2006. O Furacão pensou nele para suprir a venda de Diego ao Fluminense. Porém, El Mono mal jogou, voltando a Buenos Aires para defender o Nueva Chicago.

    Luiz Alberto: zagueiro revelado pelo Flamengo na virada do século, participando inclusive da Copa das Confederações de 1999, não teve o reconhecimento como o do colega Juan. Após experiências europeias no Saint-Étienne e na Real Sociedad, rodou o Brasil, salvo um terrível primeiro semestre de 2010 em que apareceu no Boca. Chegara à Argentina como peça do Fluminense bivice continental na Libertadores 2008 e na Sul-Americana 2009 e durou pouco mais de de um mês: foram seis jogos atuando os 90 minutos a partir de 26 de fevereiro até ser substituído no intervalo de derrota para o futuro rebaixado Rosario Central em 4 de abril, na primeira vitória dos rosarinos em cerca de vinte anos em La Bombonera. Parecia fadado a nanicos cariocas, passando por Duque de Caxias e Boavista antes de reforçar o Athletico na segunda divisão brasileira de 2012. Foi bem: o acesso foi emendado em 2013 com uma final de Copa do Brasil e uma boa campanha no Brasileirão, no qual o Furacão classificou-se à Libertadores.

    Joffre Guerrón: o equatoriano na verdade não tem estatísticas pelo time principal do Boca, mas defendeu a equipe B nos idos de 2004. Sem ser aproveitado, retornou ao clube de origem, o Aucas. Impressionou o Brasil ao liderar a única conquista de seu país na Libertadores, com a LDU Quito em 2008, chamariz que fez o Cruzeiro buscar seu empréstimo em 2009 junto ao Getafe. Já não era o mesmo e ainda assim foi a mais cara contratação do futebol paranaense quando o Athletico o buscou no ano seguinte. Não ficou até o fim do rebaixamento em 2012, atraído pelo pé de meia na emergente liga chinesa.

    Lucas Olaza: lateral-esquerdo revelado no River Plate do seu Uruguai natal, que o emprestou primeiramente ao Athletico (chegando no início de 2014 para disputar a Libertadores) e depois ao time B do Celta de Vigo antes de vender-lhe ao vizinho Danubio. Após participar da campanha que recolocou o Talleres na (pré)Libertadores, Olaza foi incorporado pelo Boca no segundo semestre de 2018, sendo titular nos mata-matas derradeiros da Libertadores. O título foi perdido de modo traumático para o grande rival, mas o uruguaio cavou um novo empréstimo ao Celta, agora para figurar no elenco principal.

    Abaixo, outros especiais athleticanos no Futebol Portenho:

    Elementos em comum entre Vélez e Atlético Paranaense

    Elementos em comum entre Atlético Paranaense e San Lorenzo

    O uruguaio Olaza disputou a Libertadores pelos dois clubes: foi vice no ano passado
  • Palmeiras x San Lorenzo: os elementos em comum entre os clubes

    Palmeiras x San Lorenzo: os elementos em comum entre os clubes

    Palmeiras x San Lorenzo só se cruzaram nas semifinais da Mercosul de 1999, e vinte anos depois Scolari voltaria a cruzar esse caminho.

    Os únicos jogos por alguma competição continental foram as semifinais da Copa Mercosul de 1999. Vinte anos depois, Luiz Felipe Scolari reencontrará o San Lorenzo

    Nessa terça-feira teremos os primeiros duelos Brasil x Argentina pela fase de grupos da Libertadores de 2019, incluindo um curioso tira-teima no Nuevo Gasómetro entre o último campeão brasileiro contra o atual lanterna argentino. De fato, não são muitas as coisas que ligam Palmeiras e San Lorenzo. Vamos destacar as principais.

    As torcidas alviverde e azulgrana só celebraram títulos conjuntamente em torneios referentes aos anos de 1927 (respectivamente no estadual e do nacional), 1933 (estadual e rio São-Paulo; nacional), 1936 (estadual; nacional), 1959 (idem), 1972 (estadual e nacional; metropolitano e nacional) e 1974 (estadual; nacional), chegando a sofrer jejuns entre meados dos anos 70 e início dos anos 90 – após uma fase dourada em que se tornaram os primeiros clubes em seus países campeões em um mesmo ano nos dois principais torneios domésticos. Se o Sanloré faturara o Metropolitano e o Nacional de 1972, o oponente havia logrado o Robertão e a Taça Brasil em 1967.

    Nesse comum período de alta na virada dos anos 60 para os 70, amistosos foram frequentes. O primeiro duelo do Verdão com o Ciclón ocorreu em 25 de agosto de 1968, em virtual tira-teima entre o mais recente campeão brasileiro (o Palmeiras havia vencido em 27 de dezembro de 1967 a Taça Brasil, meses após ter faturado também o Robertão daquele ano; as edições de ambos os torneios em 1968 ainda não haviam sido finalizadas) e o mais recente campeão argentino – onde o San Lorenzo havia feito história. Três semanas antes, em 4 de agosto, havia sido o primeiro campeão argentino de modo invicto no profissionalismo.

    Curiosamente, cada equipe era treinada por um técnico proveniente do país vizinho, com o Porco comandado por Nelson Filpo Núñez e os Cuervos por Tim. No Pacaembu, os anfitriões venceram por 3-1, com o superartilheiro argentino Luis Artime marcando um dos gols palmeirenses sobre o time que escalou Héctor Veira na ocasião – guarde esses dois nomes. Já em 1972, antes de cada clube obter dois títulos, se pegaram duas vezes na pré-temporada. Nos dias 7 e 17 de fevereiro, a cidade de Mar del Plata viu primeiramente um 0-0 ser seguido por outra igualdade, em 1-1. Os dois gols, curiosamente, foram de pênalti, convertidos por Ademir da Guia e Héctor Scotta. Depois, só houveram outros dois jogos, pelas semifinais da Copa Mercosul de 1999.

    Àquela altura, o San Lorenzo não só já era o único dos cinco grandes argentinos sem Libertadores, como não possuía nem mesmo algum troféu continental secundário, o que lhe fazia valorizar a Mercosul mais do que seus pares. Em 18 de novembro, o colombiano Iván Córdoba, antes de virar figura longeva na Internazionale, fez de pênalti o único gol no Nuevo Gasómetro de um duelo onde Luiz Felipe Scolari (que vinte anos depois voltará a enfrentar os azulgranas) não poupou titulares no último compromisso antes de disputar o Mundial Interclubes, a ocorrer dali a doze dias. O jogo de volta ocorreu uma semana após a derrota em Tóquio. Em 7 de dezembro, Júnior Baiano abriu o placar logo aos 3 minutos.

    Córdoba teve nova oportunidade de pênalti, aos 16, mas Marcos defendeu. A classificação brasileira foi garantida a partir dos 29 minutos do segundo tempo, quando Arce anotou o segundo. Dois minutos depois, Ariel López foi expulso. Roque Júnior também receberia vermelho, mas já aos 44 minutos, sem pesar no resultado: outro minuto depois, Arce, de pênalti, assinalou o 3-0 no velho Parque Antártica (ou velho Palestra Itália, como queiram).

    Por fim, vamos a quem defendeu as duas equipes:

    Tuffy Neujm e Petronilho de Brito: jogaram em contexto no qual amistosos tinham peso grande, daí a menção. como menções especiais. Ambos eram jogadores do Sírio quando defenderam pontualmente o então Palestra Itália em amistosos: Tuffy, em 1925 (contra um combinado de uruguaios e contra outro de argentinos), ano em que foi goleiro da seleção na Copa América; e Petronilho, em 1930, contra um combinado Corinthians-São Paulo. Em 1933, ambos chegaram então ao San Lorenzo, onde o goleiro acabou limitado a amistosos ou ao time B – enquanto “Petro” sobressaiu-se como protagonista do título argentino daquele ano, o primeiro do Ciclón no profissionalismo.

    Jenő Medgyessy: o complicado nome desse húngaro o fazia ser chamado de “Eugênio Marinetti” tanto no Brasil como na Argentina. Ex-meia-atacante do Ferencváros, ele já era relativamente rodado pelo Brasil, com passagens prévias por Botafogo, Fluminense e Atlético Mineiro antes de chegar em 1929 ao então Palestra Itália. O time esteve no páreo contra o Corinthians até a rodada final do Estadual, a reservar justamente o dérbi, precisando vencê-lo para forçar jogo-desempate. Mas caiu por 4-1 e foi inclusive ultrapassado pelo Santos na tabela. Medgyessy voltaria três anos depois, o do último estadual oficialmente amador e finalizado antes do programado em função da Revolução de 1932. O Palestra era o líder e terminou declarado campeão.

    Desconsiderando amistosos, o único a jogar oficialmente pelos dois em mais de setenta anos foi o inábil atacante Pablo Mouche

    O húngaro chegou pouco depois ao San Lorenzo. À frente do seu tempo, Medgyessy não apenas era orientador tático como também era preparador físico. Só que suas inovações não foram bem recebidas nem por jogadores e nem pelos dirigentes, forçando-lhe a renunciar ao cargo, embora tenha armado o elenco que ao fim do ano terminaria campeão – já sob Atilio Giuliano.

    Imre Hirschl: seu nome também foi adaptado na América do Sul, para Emérico. Convidado pelo próprio Conde Matarazzo, esse outro húngaro veio do Hakoah nova-iorquino para integrar a comissão palestrina de Medgyessy em 1929, embora também tenha atuado como técnico principal em duas partidas naquele ano. Foi o ponto de partida para uma longa trajetória em clubes sul-americanos, especialmente na Argentina. Após passagens consagradoras por Gimnasia LP (grande concorrente em 1933 do próprio San Lorenzo campeão) e River, apareceu no San Lorenzo primeiramente em 1941, onde foi vice-campeão para a célebre La Máquina riverplatense. Depois de fazer história também no Peñarol de 1949 a ponto de ser seriamente sondado para treinar o Uruguai na Copa de 1950, Hirschl voltou a Boedo no decorrer do campeonato de 1952, onde o clube terminou só em oitavo. Prosseguiu em 1953, encerrando em quinto. Radicou-se em Buenos Aires, onde faleceria vinte anos depois.

    Waldemar de Brito: irmão mais novo do citado Petronilho, foi brevemente seu colega no San Lorenzo em 1935. Uma séria lesão o limitou a três partidas do campeonato argentino e quase acaba com a carreira do futuro descobridor de Pelé. Os irmãos acabaram voltando ao Brasil, mas um recuperado Waldemar pôde até ter um segundo ciclo em Boedo como jogador, entre 1939 e 1940. Em fim de carreira, defendeu o Palmeiras no Paulistão de 1945, pendurando de vez as chuteiras no ano seguinte.

    Héctor Veira: simplesmente o maior ídolo do primeiro século do San Lorenzo, ao menos segundo eleição oficial do centenário azulgrana, em 2008. El Bambino era daqueles camisas 10 de notável habilidade, mas com carreira aquém da que prometia devido ao desleixo com o cuidado corporal. O promissor craque artilheiro com apenas 18 anos do campeonato de 1964 já estava decadente quando obteve seu único título como jogador sanlorencista, em 1968, onde foi só um 12º jogador. Desligado, rumaria ao rival Huracán, declarando-se inclusive torcedor do vizinho, antes de voltar a Boedo em 1973. No ocaso da carreira, veio ao Brasil para testes no Palmeiras. Na pré-temporada de 1976, jogou contra Anapolina e Araçatuba, marcando um gol sobre os goianos e colhendo avaliações razoáveis. Foi quando a negociação que parecia certa para ser efetivada foi atravessada pelo folclórico Vicente Matheus, que levou Veira ao Corinthians.

    Veira não se deu bem: os alviverdes terminariam o ano campeões estaduais e ele não se firmou como alvinegro, deixando o Brasil no início de 1977. Recuperaria o carinho do Ciclón como treinador: é quem mais vezes exerceu esse cargo, em diversas passagens que tiveram como pontos mais altos o vice-campeonato em 1983 por um time recém-regressado da segunda divisão; a chegada às semifinais da Libertadores de 1988 por um elenco estoico que nem estádio próprio tinha; e ao título de 1995 para superar 21 anos de jejum na elite argentina. Seu último ciclo por lá foi na temporada 2004-05. Já contamos a trajetória de Veira, de trabalhos destacados também na dupla River (comandante dos primeiros títulos do clube na Libertadores e no Mundial, em 1986) e Boca, neste outro Especial.

    Pablo Mouche: atacante no máximo esforçado, era frequentemente cornetado pela torcida do Boca, o que não impediu que chegasse a ser testado pela seleção principal em 2011. Era uma das peças do time que mesmo sem brilho conseguiu chegar à final da Libertadores de 2012, mas dali foi vendido ao Kayserispor turco. Apareceu no Palmeiras em 2014 no pacote de argentinos solicitados por outro hermano, o treinador Ricardo Gareca. Após um semestre com só dois gols anotados na luta periclitante contra o rebaixamento, lesionou-se seriamente na pré-temporada de 2015 e desde então foi sucessivamente emprestado até ser comprado em 2019 pelo Colo-Colo. O último empréstimo deu-se no ano passado ao San Lorenzo, onde só encontrou as redes como cuervo na Copa Argentina.

    Família Artime: Luis Artime foi um dos mais implacáveis artilheiros do futebol sul-americano, onde brilhou nos anos 60 ao início dos anos 70. Os seguintes números resumem, conforme lembramos em dezembro: 50 gols em 67 jogos pelo modesto Atlanta, na fase mais brilhante do clube; 70 em 80 pelo River; 45 em 72 pelo Independiente, mostrando todo o profissionalismo de quem nunca escondeu torcer pelo Racing; e 24 em 25 pela seleção, trajetória essa interrompida quando ele foi jogar no exterior – na época, não se convocava quem atuasse fora. Assinou com o Palmeiras em 1968 para então marcar 48 gols em 57 jogos, anotando só menos que Pelé no Estadual. Em 1969, o tradicional Nacional sofreu nova derrota em final de Libertadores, após já ter sido vice em 1964 e em 1967. A saída foi contratar o argentino, que exibiria seu melhor no tricolor uruguaio. Artime foi o homem-gol do primeiro elenco do Nacional a enfim faturar a Libertadores, em 1971, logo levantando também o Mundial.

    No fim dos anos 80, o antigo goleador já era um espectador de seu filho, Luis Fabián Artime, o Luifa. Revelado no forte Ferro Carril Oeste dos anos 80, o Artime filho chegou a ter oportunidades no mesmo Independiente em que seu pai se consagrara, mas o peso do nome e sobrenome foi forte demais – inclusive perdeu um dos pênaltis na derrota em casa para o Boca na final da Supercopa de 1989. Saiu de Avellaneda para o Belgrano em 1991 e, em um ambiente de menor pressão, destacou-se. O San Lorenzo então apostou nele em 1993 e o recomeço da carreira parecia certo, com Luifa Artime artilheiro da pré-temporada. Mas nos jogos para valer só conseguiu um gol (justamente sobre o Independiente, por sinal) e logo foi devolvido ao Belgrano, camisa que mais lhe caiu bem: teria ainda outras duas passagens e é o maior artilheiro dos celestes na primeira divisão argentina – se no resto da Argentina ele é “o filho de Luis”, em Córdoba o predicado se inverte, com Luis sendo “o pai do Luifa“.

    Os dois Luis Artime são pai e filho e ambos artilheiros. O palmeirense brilhou como em todos os clubes onde passou, mas o sanlorencista só encontrou-se no Belgrano de Córdoba
  • Boca, River e Racing: os jogadores que defenderam o trio

    Boca, River e Racing: os jogadores que defenderam o trio

    Boca, River e Racing foram defendidos por um grupo restrito. Olarticoechea teve a projeção mais equilibrada: foi a três Copas representando cada um deles.

    Olarticoechea teve a projeção mais equilibrada no trio: foi a três Copas do Mundo (vencendo a de 1986), representando cada um em todas

    Hoje o Racing isolou-se mais como terceiro maior campeão argentino, com a distância de quatro pontos para o Defensa y Justicia mantida para a rodada final (justamente quando se enfrentarão) após ambos empatarem em 1-1 seus jogos pela penúltima. Com a conquista de número 18 no campeonato argentino, a Academia abriu dois títulos de vantagem em relação ao rival Independiente, estando abaixo somente da dupla Boca e River. Se no início do mês lembramos quem jogou nesses dois e no Rojo de Avellaneda, agora é pertinente resgatar os que defenderam o trio mais vezes campeão nacional.

    Zoilo Canaveri: nascido no Uruguai, virou uma personificação do vira-casaca. À primeira vista, por defender a seleção argentina (duas vezes), e sempre contra o Uruguai natal, ainda que fosse filho de argentinos. Mas sobretudo pelos clubes em que atuou. Sua família tinha raízes em Avellaneda, ficando associada ao Independiente – Canaveri estava no elenco vice-campeão de 1912. Dali atravessou o Riachuelo para um time do bairro portenho de La Boca: na época, o River, onde só jogou uma vez em 1913. De 1914 a 1917, o ponta-direita então defendeu o Racing no período do recordista hepta argentino seguido da Academia, época em que Canaveri chegou à seleção. Ainda entre 1916 e 1917, defendeu o Boca em alguns amistosos, mas seguiu carreira primeiramente em um rápido retorno ao Rojo em 1918. Voltou ao Boca no biênio 1919-20, quando os xeneizes venceram pela primeira vez o campeonato. Marcou doze vezes em 32 jogos como auriazul, mas não se firmou diante da concorrência contra o primeiro grande ídolo do clube, Pedro Calomino. Voltou então ao Independiente para fazer história, conforme detalhamos mais no especial referente a quem passou por Boca, River e Independiente. Dedicamos já esse Especial a Canaveri.

    Renato Cesarini: um dos maiores nomes do futebol. Nascido na Itália e criado desde a infância na Argentina, jogou pelas seleções dos dois países, a partir da história feita no Chacarita (que com ele chegou pela primeira vez à elite) e na Juventus penta italiana no início dos anos 30, sequência então inédita na Serie A. No fim da carreira, o ponta destacou-se no River bi de 1936-37 e por lá iniciou em seguida a carreira de treinador. Era o comandante da célebre La Máquina, o timaço millonario do início dos anos 40. A experiência começou em 1939 para ser retomada seguidamente de 1940 a 1943. Em 1945, El Tano então treinou o Racing e em 1949 passou pelo Boca, ambas experiências horríveis: a Academia ficou em 10º, sua pior colocação até então. E os xeneizes simplesmente brigaram pelo rebaixamento, desligando-se do maestro ainda antes do fim. Os fracassos não impediram que Cesarini voltasse à Juventus como o treinador da primeira estrela bianconera, em 1958, tampouco para nova passagem pelo River, no biênio 1965-66, sem solucionar o jejum pendente desde 1957 e perdendo a liderança de 1965 na reta final exatamente para o arquirrival a partir de derrota no Superclásico. Já dedicamos este Especial a Don Renato.

    Juan José Pizzuti: simplesmente o maior personagem do Racing na combinação jogador + técnico e um dos últimos sobreviventes da geração dourada dos anos 40, continuando lúcido aos 92 anos. Após ser artilheiro do campeonato pelo modesto Banfield, Pizzuti chegou em 1951 ao River, sem brilhar. Começou em 1952 seu primeiro ciclo no Racing, muito embora, em grande ironia, fosse torcedor do Independiente. O Boca apostou nele em 1955, devolvendo-o no ano seguinte. De volta a Avellaneda, o meia deslanchou como um grande artilheiro, chegando à seleção. Ganhou os títulos de 1958 e 1961 e ainda voltou ao Boca para pendurar as chuteiras, de 1962 (sendo um reserva campeão) para 1963.

    Fora do Racing, Pizzuti foi no máximo um reserva campeão no Boca e obscuro no River. Na Academia não houve ninguém como ele

    Pizzuti se consagraria ainda mais como treinador do elenco que, em referência a ele, foi apelidado de El Equipo de José, responsável por um recorde profissional de invencibilidade no campeonato argentino (39 jogos entre 1965-66, só superado em uma partida, pelo Boca de Carlos Bianchi de 1998-99) e, sobretudo, pelas únicas conquistas racinguistas (em 1967) na Libertadores e no Mundial – o primeiro do futebol argentino. Manteve o time no páreo dos títulos até 1969, quando deixou o clube para assumir a seleção pós-queda nas eliminatórias. O cartaz que tinha o levou a outros ciclos no Racing, entre 1974-75, como o bombeiro sem êxito contra o rebaixamento em 1983 e por fim em dupla técnica com Rodolfo Della Pica em 1992-93. Já dedicamos este Especial à lenda.

    José Luis Luna: diferentemente dos exemplos anteriores, brilhou bem mais sob a pouca pressão de times menores do que pelo trio. Luna estava nos Bichos Colorados do Argentinos Jrs que brigou pela primeira vez pelo título argentino, em 1960, na campanha mais próxima da taça até consegui-la pela primeira vez (já em 1984). Embora a equipe do bairro de La Paternal tenha ficado em terceiro, esteve mais perto do campeão do que no vice logrado com Maradona em 1980. Foi então contratado pelo River, sem vingar: em 1962 já estava no Atlanta, que vivia sua fase mais forte, seguidamente se intrometendo entre os cinco primeiros.

    Em 1965, trocou o Atlanta pelo Boca e até foi campeão, mas não transcendeu como xeneize, rumando em 1968 ao Vélez. O time do bairro de Liniers não tinha ainda títulos na elite, pendência resolvida já no Nacional de 1968, com Luna titularíssimo na ponta-direita. Em 1970, chegou a um Racing ainda acostumado aos tempos de ouro, mas que rapidamente entrou em declínio após a saída do técnico Pizzuti. Nos dois anos em Avellaneda, Luna esteve nas piores campanhas racinguistas até então, dois 11º lugares seguidos… após 1971 ele seguiu carreira no incipiente futebol dos EUA.

    Hugo Zarich: meia promovido pelo River em 1958, não teve continuidade nos profissionais, possibilitando sua convocação à seleção amadora que foi às Olimpíadas de 1960. Era o início do longo jejum millonario e, sem se firmar, Zarich foi em 1963 ao forte Atlanta da época. Do time do bairro de Villa Crespo foi contratado pelo Boca em 1966, sendo colega de Luna nesses três clubes. Embora tivesse alguma habilidade, também não se firmou por ali e em 1968 foi ao Quilmes. Apesar do rebaixamento, apareceu em 1969 no Racing, durando pouco – ainda naquele ano, passou ao futebol mexicano.

    Ídolo do River como jogador, Rossi ainda treinaria o clube após ser técnico também de Racing e Boca

    José D’Amico: no futebol, teve mais destaque como preparador físico, integrando a comissão técnica de Guillermo Stábile no primeiro time tricampeão profissional, o Racing de 1949-51. Em 1954, assumiu a função principal na Academia, sem brilho: o time foi 10º, então sua pior colocação. No Boca, era o preparador físico do técnico Carlos Sosa, substituindo-o interinamente até o time fechar midiaticamente com o brasileiro Vicente Feola. Substituiu-o em 1962 e teve seu grande momento: o clube encerrou em alto estilo oito anos de jejum, concorrendo exatamente contra o River, superando-o em um Superclásico histórico na penúltima rodada. O River apostou nele em 1967 para substituir Juan Carlos Lorenzo, de quem logo falaremos. Sem sucesso, chegou a reassumir o Boca em 1968, sem repetir o êxito do início da década. Foi por fim um dos bombeiros tentados pelo Racing no 11º lugar de 1971.

    Néstor Rossi: espécie de Javier Mascherano dos anos 40 e 50. Promovido pela base do River, estreou no time adulto em 1945 e logo assumiu a titularidade dos campeões argentinos daquele ano. Repetiria o título em 1947, quando começou a ser aproveitado pela seleção campeã da Copa América no mesmo ano. Foi uma das estrelas que acompanharam Di Stéfano no Ballet Azul do Millonarios do Eldorado Colombiano a partir de 1949. Após acordo, voltou a Núñez em 1954 e estendeu sua passagem até o fim da década, acumulando no período o primeiro tricampeonato do River na liga argentina (1955-57) e sendo um raríssimo astro dos anos 40 a jogar a Copa do Mundo, em 1958.

    Como técnico, El Pipo comandou o clube em 1961 e em 1974, sem solucionar o terrível jejum que assolou a Banda Roja de 1957 a 1975, embora tenha o mérito de ter trazido Daniel Passarella ao clube. Rossi passou pelo Racing no biênio 1963-64, sem êxito. Depois, como tantos emblemas riverplatenses dos anos 40, virou técnico campeão no rival, como Adolfo Pedernera, Aristóbulo Deambrossi e o próprio Di Stéfano. Era Rossi o comandante do Boca campeão de 1965 sobre o River de Cesarini. Já dedicamos este Especial ao ex-volante.

    Juan Carlos Lorenzo: antigo atacante sem maior transcendência no Boca, onde esteve de 1945 a 1947, El Toto Lorenzo virou um dos maiores técnicos do futebol argentino. Técnico da seleção nas Copas de 1962, chegou a passar depois pelas rivais Lazio e Roma. Voltou a treinar a Argentina em cima da hora para a Copa de 1966, e a boa campanha valeu-lhe um teste no River em 1967. Como tantos, falhou em tirar o time do jejum pendente desde 1957, em passagem esquecível. Começou a fazer história no San Lorenzo que em 1972 tornou-se o primeiro time argentino a faturar os dois campeonatos anuais (Metropolitano e Nacional).

    Campeão no Racing, Cap passou pela dupla Boca e River também como treinador – e no mesmo ano, algo único. Faleceu como técnico millonario, em 1982

    Após boas campanhas no Unión de Santa Fe, Lorenzo chegou ao Boca em 1976 para, primeiramente, repetir ali a mesma façanha que tivera no Sanloré: títulos do Metropolitano e do Nacional no mesmo ano, com direito a final vencida sobre o River, a única em que os dois principais clubes do país travaram até 2018. Lorenzo foi depois o comandante dos dois primeiros títulos xeneizes na Libertadores e no primeiro no Mundial, entre 1977 e 1978. Após perder a Libertadores de 1979, encerrou seu ciclo e tentou vida nova no Racing em 1980. Foi apenas 10º. Chegou a voltar ao Boca em fins de 1987, sem o mesmo sucesso de outrora.

    Osvaldo Pérez: outro jogador do quarteto principal, El Japonés Pérez integrou primeiramente o River dos anos finais de jejum, de 1970 a 1974. Notabilizou-se mais no All Boys, pelo qual chegou a ser um raríssimo convocado à seleção pelo clube da Floresta. Esteve em dois títulos nacionais do Independiente entre 1977 a 1980, rumando diretamente ao Racing, onde ficou no biênio 1981-82. Pérez passou ainda pelo Platense no segundo semestre de 1982 antes de aparecer no Boca no início de 1983. Só jogou dez vezes como xeneize.

    Carlos Randazzo: desconhecido fora da Argentina, tem uma marca única no profissionalismo argentino, onde é o único jogador do Boca que voltou ao clube após ter defendido o River – uma ciranda com duas ironias, pois ele é confesso torcedor millonario a despeito de sempre ter morado no bairro de La Boca. Centroavante eficaz promovido em 1978 no campeonato argentino enquanto os titulares eram usados nos torneios internacionais, Randazzo iria às Olimpíadas de 1980 não fosse o boicote do país aos Jogos de Moscou. Foi um dos diversos jogadores emprestados ao Argentinos Jrs a troco de Maradona em 1981, passando na sequência sem brilho por Racing e River até voltar ao Boca em 1983. Saiu em 1984. Profissional, não era nada clubista em Superclásicos: como xeneize, foram quatro duelos e dois gols sobre o time do coração. Como millonario, jogou um, exatamente na pior derrota em casa, o 5-1 de 1982, sem marcar…

    Vladislao Cap: de origem romena e polonesa, o defensor é outro a ter figurado tanto na dupla Boca e River como na dupla de Avellaneda. Seu primeiro grande foi exatamente o Racing, de 1964 a 1960 (sendo campeão em 1958). Após um ano de Huracán, passou ao River, pelo qual foi à Copa de 1962. Ficou no Millo de 1962 a 1965, vivenciando nada menos que três vices para o Boca no terrível jejum suportado em Núñez entre 1957-75. Um dos três técnicos da Argentina na Copa de 1974, El Polaco conseguiria uma marca única anos mais tarde: virar como técnico a casaca diretamente entre Boca e River. Foi em 1982, quando trabalhou no primeiro semestre em um Boca à deriva sem Maradona, emendando um trabalho no River encerrado tragicamente: um infarto fulminante o matou em 14 de setembro de 1982, com ele recém-chegado ao cargo. Só lhe faltou o San Lorenzo, pois o passado racinguista não impediu que treinasse o Independiente campeão de 1971.

    Um ano após Cap, o River enterrou outro membro ativo ex-Racing e Boca, o atacante Trossero, em 1983

    Oscar Trossero: atacante que surgiu das inferiores do Boca em 1972, não conseguiu lugar ali e tampouco no Racing, para onde foi em seguida. Só veio a se destacar no forte Unión treinado por Juan Carlos Lorenzo em 1975. Foram três anos em meio à fase dourada da equipe santafesina, chegando à seleção e ao futebol francês, onde destacou-se sobretudo no Nantes. O River contratou-o em 1982. E, tal como Cap, Trossero faleceu em serviço do clube, vítima de aneurisma em pleno vestiário após partida contra o Rosario Central em 1983 – um dos piores entre os tantos traumas que o elenco millonario passou na estiagem ocorrida entre 1981 e 1986.

    Rogelio Domínguez: goleiraço que o Racing teve entre 1951 e 1957, participando da reta final do tricampeonato do clube (1949-51) e servindo a seleção tanto nos primeiros Jogos Pan-Americanos, os de 1951 (cujo futebol foi sediado no estádio racinguista), como também na espetacular campanha da Copa América de 1957. Após esse título, foi brilhar no Real Madrid de Di Stéfano. Em 1962, apareceu no River e, diante da recusa do titular Amadeo Carrizo em ir à Copa do Mundo, traumatizado por ter o bode expiatório do vexame de 1958, Domínguez foi ao Chile em seu lugar. Ainda teria bons momentos no Nacional uruguaio antes de pendurar as luvas no Flamengo.

    Domínguez chegou ao Boca como técnico, fazendo o estilo boleiro que os comandados gostam. Durou de 1973 a 1975, sendo o treinador sem títulos que por mais tempo durou no clube, onde seu trabalho foi reconhecido pelo bom futebol apresentado embora não lograsse taças. Na função, passaria duas vezes pelo Racing: na virada de 1982 para 1983, como um dos bombeiros que não evitaram o rebaixamento; e de 1986 para 1987, quando a Academia reestreou na primeira divisão.

    Julio César Olarticoechea: é sem dúvida que conseguiu mais prestígio equilibrado entre as três torcidas. El Vasco já assumiu que nunca foi craque, mas a dedicação do volante levou-o a três Copas do Mundo, disputando-as por cada uma das três camisas. Promovido paulatinamente no seu Racing do coração a partir de 1975, foi vendido ao River após o satisfatório 5º lugar no Metropolitano de 1981. De imediato integrou os vencedores do Nacional daquele mesmo ano, ainda que a campanha millonaria fosse acidentada, mas permitindo um embalo que colocou Olarticoechea na Copa de 1982 – mesmo que não entrasse em campo.

    Domínguez foi à seleção como jogador de Racing (à esquerda, em clássico de Avellaneda) e River. Depois treinou o Boca

    A forte crise econômica dos desmandos da ditadura provocou um desmanche no River, que chegou a ser penúltimo em 1983, salvo apenas pelo mesmo sistema de promedios que condenou o Racing no lugar. O volante, por outro lado, também esteve nos vices nacionais de 1984, até ser usado junto com o meia Carlos Tapia no troca-troca com Ricardo Gareca e Oscar Ruggeri acertado no início de 1985 com o arquirrival. Não conseguiu títulos no Boca, mas ele e Tapia se tornaram os únicos a vencerem a Copa do Mundo como jogadores do clube. Após um passo breve pelo Nantes, voltou ao seu Racing para a temporada 1988-89 e mesmo aos 32 anos foi chamado para o mundial de 1990. Só ele e Ruggeri defenderam a seleção vindos de três times grandes no país. Dedicamos este Especial ao volante.

    Carlos López: meia revelado pelo Excursionistas, apareceu no River em 1972. Não firmou-se em Núñez e já em 1973 seguia carreira no Argentinos Jrs. Veio a deslanchar no Estudiantes vice nacional de 1975, quando os platenses acariciariam pela primeira vez algum título desde a Libertadores de 1970. Foi pincharrata até 1978, quando passou a integrar um Racing que, se decepcionava no Metropolitano, conseguia chegar aos mata-matas do Nacional. Não virou ídolo, mas como racinguista recebeu oportunidades na seleção, incluindo na Copa América de 1979, concorrendo covardemente com Diego Maradona e Ricardo Bochini. Após passar por Vélez, Sarmiento e Millonarios de Bogotá, López foi contratado em 1984 pelo Boca, justamente no pior ano que o clube já teve. Só atuou treze vezes, sem marcar, reencontrando o sucesso no futebol boliviano.

    César Menotti: meia-armador daqueles refinados para os fãs e lento para os críticos, ia bem no seu Rosario Central a ponto de chegar à seleção e cavar uma transferência em 1964 ao Racing. Teve desempenho interessante na Academia, que embora não terminasse no pódio tivera o melhor ataque. Passou então ao Boca, onde já não foi tão bem entre 1965-66, rumando ao incipiente futebol dos EUA. Já como técnico consagrado, El Flaco teve duas passagens pelo Boca, sempre gerando saltos imediatos de desempenho: na temporada 1986-87, chegou a tirar o time do 14º lugar à liderança provisória, mas ruiu na reta final. Algo parecido se viu na temporada 1993-94, onde ainda chegou à final da Supercopa.

    O nome mais conhecido dessa lista muito provavelmente é Menotti: como jogador, só teve bom passo no Racing, esquecido pela ligação construída com o Independiente. Como técnico, só deu sorrisos ao Boca, mas sem rir por último

    Entre essas duas passagens pelo Boca, Menotti foi contratado com pompa pelo River, para a temporada 1988-89. Mas jamais engrenou em um Millo bastante reforçado, com campeões mundiais de 1986 (Sergio Batista, Claudio Borghi), um antigo ídolo que voltava (Daniel Passarella) e diversas promessas. Curiosamente, o clube em que o maestro mais terminou se associando foi o Independiente, tendo em 1996 seu primeiro ciclo no Rojo. Detalhamos neste Especial do ano passado.

    Ángel Cappa: foi auxiliar de Menotti a partir de 1981, acompanhando-o na seleção, no Barcelona, no Boca e no Peñarol antes de passar a acompanhar Jorge Valdano no histórico Tenerife do início dos anos 90 (auge do time das Canárias, que por duas vezes seguidas bateu o líder Real Madrid na rodada final e o impediu de ser campeão) e no Real Madrid. No Boca, chegara a substituir interinamente Menotti na liguilla de 1986-87 até o clube contratar outro ex-auxiliar de Menotti, Roberto Saporiti (assistente do Flaco na Copa de 1978). Em meados de 1998, Cappa foi contratado para técnico do Racing e no início seu time empolgou, com direito a vitória das mais recordadas no Clásico de Avellaneda na casa rival, sobre o Independiente de Menotti.

    Em meio à turbulenta recuperação judicial racinguista, porém, Cappa deixou a Academia na virada para 1999, retornando em 2003, como um dos técnicos que tentaram salvar o centenário racinguista após a eliminação na Libertadores. Seu grande trabalho continua sendo no Huracán quase campeão de 2009, a projetar Javier Pastore, Mario Bolatti e Matías Defederico de modo além ao que efetivamente terminaram sendo. A campanha levou-o ao River em meados de 2010, mas ainda antes do fim do ano foi substituído por Juan José López: teve uma sequência horrível de resultados que adiante pesaram para o inédito rebaixamento millonario ao fim da temporada 2010-11.