Categoria: Clássicos e Rivalidades

  • Gimnasia e Rosario Central: o que os clubes têm em comum

    Gimnasia e Rosario Central: o que os clubes têm em comum

    Gimnasia e Rosario Central têm imagem quase gêmea de sofrimento no futebol argentino, além de jogadores compartilhados.

    Gimnasia e Central vêm mesmo tendo imagem quase gêmea de sofrimento. Gustavo Barros Schelotto foi bem nos dois

    Considerando apenas longevidade, a final Copa Argentina de 2018 dificilmente reuniria mais tradição. Afinal, o Gimnasia LP (fundado em 1887) e o Rosario Central (em 1889) são dos raríssimos clubes surgidos ainda nos anos 80 do século XIX a seguirem na ativa na Argentina. A cor azul e o apego a apelidos originalmente pejorativos como triperos aos platenses e canallas aos rosarinos seriam outros elementos em comum. Bem como terem “ganhado” seus rivais em 1905, ano de fundação dos vermelhos Estudiantes e Newell’s. Inclusive, Rosario e La Plata são duas das poucas cidades argentinas em que suas duplas são localmente mais populares que Boca e River.

    Central e Gimnasia foram ambos campeões em 1915. Em tempos em que o campeonato argentino era restrito de modo oficial à Grande Buenos Aires e La Plata, os auriazuis venceram a liga rosarina e adiante bateram o campeão argentino, o Racing, pela Copa Ibarguren – troféu disputado entre os campeões “argentino” e rosarino em espécie de tira-teima para definir o melhor time do país. Já os alviazuis venceram a segunda divisão argentina. Haviam criado seu departamento de futebol em 1905, mas logo o desativaram (o Estudiantes foi fundado por dissidentes descontentes com essa medida), o tendo retomado exatamente em 1915.

    Central e Gimnasia também estiveram entre as primeiras camisas tradicionais rebaixadas na Argentina, e entre as primeiras rebaixadas duas vezes. Os canallas e seu rival Newell’s foram admitidos no campeonato argentino em 1939, após décadas de força reconhecida na capital, com certa frequência nas convocações na seleção e medição de força com os times portenhos pela Copa Ibarguren (travada seguidamente entre 1913 e 1925).

    O Gimnasia na época não tinha a imagem de um clube azarado, passando por grandes momentos nos anos 30: no início de 1930, venceu seu único campeonato argentino, válido ainda por 1929; no início de 1931, se tornou o primeiro clube não europeu (talvez o primeiro no mundo) a vencer tanto o Real Madrid como o Barcelona, e dentro da Espanha; em 1933, seu elenco liderou boa parte do campeonato argentino. Era a década em que contava com seu maior artilheiro, Arturo Naón (que passaria pelo Flamengo); o futuro maior artilheiro estrangeiro do Palmeiras, José Echevarrieta, até hoje dono da mais alta média de gols pelo Verdão; e com o volante José María Minella, nome do estádio de sua Mar del Plata natal usado na Copa de 1978.

    https://twitter.com/ericolc/status/1068524560855662592

    Apelidado de El Expreso, aquele Gimnasia de 1933 foi escandalosamente prejudicado pela arbitragem em confrontos diretos contra Boca e San Lorenzo na reta final. Os azulgranas foram campeões com 50 pontos, um a mais que o Boca. Os platenses ficaram só em 5º, mas com apenas quatro pontos a menos que o campeão. No restante da década, os triperos chegaram a vencer seis clássicos seguidos contra o Estudiantes, derrotado doze vezes nos 21 confrontos oficiais travados entre 1930 e 1939 (ganhando só seis).

    Com isso, os rebaixamentos da dupla a partir da década seguinte tiveram peso alto naquele contexto. A força de ambos se fez valer de imediato, pois logo voltaram à elite como campeões da temporada seguinte da segunda divisão: o Central caiu em 1941, voltando em 1942. Em 1943, foi a vez do Gimnasia cair, voltando já em 1944, mas tornando a cair em 1945. Em 1946, estrelado pelo veterano Antonio Sastre, descrito como o mais versátil jogador da história e ídolo são-paulino, voltou novamente. O segundo rebaixamento rosarino daria-se em 1950, com a volta para 1951.

    Um primeiro confronto agudo entre os dois se deu em 1970. O Rosario Central já germinava o elenco que no ano seguinte obteria o primeiro título argentino do interior do país. Já o Gimnasia, que começava a ser desigualmente ofuscado pelas seguidas conquistas do vizinho Estudiantes, dava pinta de ascensão com seu elenco apelidado da La Barredora, capaz de bater em novembro por 4-1 o próprio rival recém-tricampeão da Libertadores naquele ano. Central e Gimnasia se cruzaram pelas semifinais do Torneio Nacional. Mas antes, estourou uma greve e quem mais sentiu falta de pique foram os platenses, derrotados por 3-0. Adiante, os rosarinos seriam vices do Boca.

    Em 1979, o Gimnasia voltou a ser rebaixado após mais de trinta anos. E o Rosario Central, embora campeão em 1980, caiu pouco tempo depois, em 1985. Não chegaram a se cruzar, mas ambos superaram a camisa ainda mais pesada do Racing (rebaixado em 1983): em 1984, o vencedor da segundona foi o Deportivo Español, com a segunda vaga de acesso ficando não com o segundo colocado e sim com o vencedor de um mata-mata entre os melhores abaixo do campeão. Na “final”, os triperos derrotaram a Academia e enfim voltaram à elite, após cinco anos. Em 1985, o campeão foi o próprio Central, relegando o Racing a novo sofrimento nos mata-matas (dessa vez, o time de Avellaneda pôde subir, batendo o Atlanta na decisão).

    Quando subiram, os finalistas da vez não sentiram efeitos da queda: o Gimnasia engatou a maior invencibilidade registrada no clássico de La Plata no século XX: foram dez clássicos seguidamente invicto, inaugurando duas décadas de domínio gimnasista no dérbi (a ponto de, em 2006, o Lobo só ter uma vitória a menos que o rival no retrospecto; na verdade, até mais vitórias, se considerados amistosos). E o Central, sobretudo, obteve um raríssimo bicampeonato: emendou a segundona de 1985 com o título da elite na temporada 1986-87, algo único no profissionalismo argentino. Como cereja do bolo, o vice foi o Newell’s.

    Na década seguinte, o ano marcante para os dois foi o de 1995. Ali o Central foi campeão pela última vez, em épico revertendo um 4-0 do Atlético Mineiro na final da Copa Conmebol. Poderia ter sido também um ano de título para o Gimnasia. Tal como agora, os platenses concorriam com uma equipe em jejum há mais de 20 anos – naquele caso, o San Lorenzo. Os triperos assumiram a liderança na penúltima rodada e na última enfrentariam em casa um time misto do Independiente enquanto os azulgranas teriam que pegar fora de casa justamente o Central. Incrivelmente, os alviazuis perderam o seu jogo. O San Lorenzo arranjou um gol nos quinze minutos finais do seu e foi campeão.

    Foi o primeiro de uma série de cinco vices que o Gimnasia teve entre 1995 e 2005. O clube, após nova estadia na segundona entre 2011 e 2013, também tinha chances matemáticas de título na última rodada do Torneio Final de 2014. Mas até hoje seu único título argentino segue sendo o de 1929, em trajetória de agruras e estiagem incompatíveis com a estrutura gimnasista e o equilíbrio do tamanho de sua torcida com a do vizinho Estudiantes. Já o Central também aprendeu a sofrer. Desde 1987, o lugar mais alto no pódio do campeonato foi o vice no Apertura 1999, embora tenha lutado seriamente pela taça também em outras edições, como no ano de 2015.

    Mas é precisamente na Copa Argentina que o Central se mostra embrujado. Foram nada menos que três vices seguidos entre 2014 e 2016. Em 2014, chegou a estar bem à frente nos pênaltis e ainda assim perdeu para o Huracán, clube com jejum ainda maior (não vencia algo expressivo desde 1973, ano de seu último título no campeonato argentino), enquanto que em 2015 teve negada sua revanche contra o Boca, algoz também do campeonato argentino. Em 2016, três gols não bastaram para derrotar o River, que fez quatro em jogo de diversas viradas: River 1-0, Central 2-1 e depois 3-2 até os millonarios arranjarem dois gols entre os minutos 72 e 75 para assinalar o 4-3.

    https://twitter.com/ElPalcoTweet/status/1069380122166378496

    Outras similaridades estão no jejum de ambos (desde 1995 para o Central, desde a Copa Conmebol; 1994 para o Gimnasia, vencendo em janeiro a Copa Centenário, válida por 1993) e por terem subido juntos à elite em 2013, após os rosarinos terem caído em 2010 e os platenses, um ano depois. Nesse período de seca, seus rivais conseguiram cada um dois títulos argentinos – o Newell’s em 2004 e em 2013, e o Estudiantes em 2006 e em 2010.

    Os finalistas da Copa Argentina não chegam a dividir idolatria similar por algum nome específico. Quem mais se aproxima talvez seja o ex-volante Gustavo Barros Schelotto, atual dupla técnica do irmão gêmeo Guillermo (o mais celebrado dos Mellizos) no Boca. Gustavo é filho de ex-presidente gimnasista e em La Plata integrou as boas campanhas dos anos 90, com direito a gol em vitória no clássico com o Estudiantes decisivo para o rival ser adiante rebaixado em 1994. Mas identificou-se também bastante como canalla, vivência que teve entre 2002 e 2004, a ponto de batizar uma das filhas de Rosario e quase registar a outra como Juana Central. Não virou ídolo duradouro, mas foi xodó momentâneo.

    Curiosamente, outro a ter boa fase por ambos é amigo de tenra infância dos Schelotto: o goleiro Gastón Sessa era companheiro deles na escolinha infantil For Ever, cujo treinador levou os três aos juvenis do Estudiantes. Os Schelotto não ficaram muito tempo mas Sessa, embora assumido torcedor gimnasista, seguiu e profissionalizou-se nos alvirrubros. Mas, subaproveitado, veio a ganhar luz própria no Huracán Corrientes campeão da segundona de 1996 e dali engatou boa fase no Central na temporada 1997-98, com direito a participar da maior goleada que o clássico rosarino teve nos últimos 25 anos (o 4-0 de 1997). Na época, chegou a ser cogitado à seleção.

    Sessa dali pulou para Racing e River, só arranhando sua imagem no Central após uma falha sua já pelo Vélez ter sido decisiva para o Newell’s ser campeão em 2004. No fim da carreira, ele enfim foi defender o Gimnasia do coração, liderando-o na fuga épica contra o rebaixamento em 2009, em que o Lobo conseguiu devolver um 3-0 ao marcar duas vezes depois dos 45 minutos do segundo tempo na repescagem com o Atlético de Rafaela. O arqueiro inclusive recebeu telefonema direto da própria presidente Cristina Kirchner, mais famosa torcedora tripera.

    O goleiro Sessa, que curiosamente é amigo de infância dos gêmeos Barros Schelotto

    Além de El Tiburón Gustavo e de El Gato Sessa, Central e Gimnasia compartilharam diversos homens destacados, mas no máximo em apenas um deles. Eis alguns:

    Imre “Emérico” Hirschl: primeiro técnico estrangeiro do profissionalismo argentino, esse judeu húngaro era o comandante do Expreso gimnasista de 1933. Também brilharia como técnico do River naquela década. Esteve no Central em 1939 e 1940, mas não conseguiu coloca-lo nem entre os dez primeiros. Esteve perto de ser o técnico do Uruguai na Copa de 1950 após treinar La Máquina do Peñarol de 1949.

    Rubén Marracino: ponta-esquerda revelado pelo Colón, Marracino integrou o Central que, vindo da segundona de 1943, chegou a liderar momentaneamente a elite (pela primeira vez de modo isolado na história, inclusive) em 1944. Em 1946, contribuiu para o retorno do Gimnasia à primeira divisão.

    José Casares: jogou por oito anos e quase duzentos jogos pelo Rosario Central nos anos 60. Em 1968, o zagueiro passou rapidamente pelo Gimnasia, onde só atuou sete vezes.

    Carlos Bulla: revelado pelo Central, ficou em Arroyito de 1963 a 1966, período em que esteve nas Olimpíadas de 1964. Foi pinçado pelo Independiente inicialmente, mas seus melhores números se dariam em camisas menores: Banfield (29 jogos, 16 gols) e Gimnasia (54 jogos, 26 gols) e principalmente no Platense semifinalista de 1967 (104 jogos, 47 gols).

    Roberto Rogel: defensor e volante, Rogel estreou pela seleção principal ainda como jogador do Gimnasia, sendo adquirido em 1968 pelo Boca, onde faria ainda mais história em uma passagem de sete anos. Pelo Central, foram apenas nove jogos, em 1976.

    Héctor Pignani: volante ofensivo revelado pelo Central em 1966, mostrou seu melhor futebol no Gimnasia. Ficou de 1968 e 1973 em La Plata, salvo a temporada de 1971, em que esteve no River, credenciado pela participação em La Barredora semifinalista de 1970 – foi dele um dos gols naquele 4-1 no Estudiantes tri da América.

    Jorge González: é nada menos que o jogador com mais partidas pelo Rosario Central, que adquiriu esse uruguaio em 1966 do Racing de Montevidéu. El Negro González ocupou a lateral-direita canalla dali até 1978, participando ativamente dos dois primeiros títulos argentinos do clube e do interior argentino, em 1971 e 1973. Defendeu o Gimnasia em 1981, na segunda divisão. É o estrangeiro com mais jogos no campeonato argentino.

    Eduardo Solari: sobrenome familiar? Sim, é ele o pai do atual técnico do Real Madrid. Solari pai também teve larga trajetória nos canallas, entre 1966 e 1976, sendo colega de Jorge González naquelas conquistas. Inclusive, defendeu rapidamente a seleção argentina. Já o Gimnasia não guarda lembranças tão boas do volante: ele esteve no time rebaixado de 1979. E treinou o Estudiantes, em 2000.

    Trabalharam nos dois, mas só foram ídolos em um lado: o técnico Hirschl, Rogel, Jorge González e Solari

    Gerardo González: curiosamente, o defensor estreou em um Central x Gimnasia em 1978. Em duas passagens como canalla, fez mais de cem jogos, sendo tripero na temporada 1987-88.

    Daniel Pighin: o volante participou ativamente daquele período de invencibilidade gimnasista no clássico no fim dos anos 80, sendo alviazul de 1985 a 1989. Após passagem pelo exterior, defendeu rapidamente (seis jogos) o Central em 1992 antes de cometer a heresia de jogar o Estudiantes, sem arranhar tanto a imagem: esteve no elenco rebaixado em 1994.

    Claudio Galvagni: defensor com quase nove anos e duzentos jogos pelo Gimnasia, entre 1986 e 1995, salvo a temporada 1991-1992, em que vestiu primeiro a camisa do Unión e depois a do Central. Além dos vices de 1995 e 1996, em La Plata também esteve no título da Copa Centenário.

    Mariano Messera: outro longevo em La Plata, o volante reuniu mais de duzentos jogos em duas passagens pelo Lobo, na boa fase entre 1997 e 2002 (foram dois vices, em 1998 e 2002, rendendo a primeira classificação do clube à Taça Libertadores) e na decadência entre 2008 e 2010. Entre elas, também defendeu o Central em duas passagens (2003-2004 e 2007-08).

    Germán Herrera: proveniente da base do Rosario Central no início do século, figurou nas seleções juvenis. Reconhecido especialmente pelo esforço, rodou seu país e o vizinho: foram duas passagens apagadas pelo San Lorenzo e outra ainda menos reluzente no Gimnasia (só um gol, em 2007). Mas foi dos triperos que ele foi importado pelo Corinthians, após já ter experiência brasileira prévia no Grêmio. Passaria ainda por Grêmio novamente, Botafogo e Vasco antes de regressar ao Central em 2016. Na atual Copa Argentina, marcou gol de calcanhar na classificação em pleno clássico com o Newell’s.

    Matías Escobar: volante na transição de domínio em La Plata, defendeu o Gimnasia de 2004 a 2008, integrando os vices de 2005 e suando em 129 jogos pelo Lobo. Seguiu rapidamente pelo Central por 16 jogos em 2008.

    Agradecimentos ao amigo Esteban Bekerman, que nos sugeriu os demais nomes que acompanham Sessa e Gustavo. Bekerman é o dono da única livraria voltada só a futebol em Buenos Aires.

  • Boca e River: a coletânea de especiais do Futebol Portenho

    Boca e River: a coletânea de especiais do Futebol Portenho

    Os especiais sobre Boca e River foram reunidos às vésperas da final de Libertadores entre os dois, em 2018.

    As vésperas da final mais esperada do futebol argentino – e não seria estranho dizer do Mundo – entre River Plate e Boca Juniors pela final da Copa Libertadores, o Futebol Portenho traz nesta publicação um compilado das principais matérias especiais referentes ao Superclássico nas quais já foram publicadas nesses últimos dez anos de site. Deleite-se para conhecer a história desse superclássico com as matérias de todos os nossos colaboradores no passar dos anos.

    ELEMENTOS EM COMUM ENTRE BOCA x RIVERPor Caio Brandão
    Parte I
    Parte II
    Parte III
    Parte IV

    HISTÓRIA DO SUPERCLÁSSICO
    A origem do SuperclássicoPor Tiago de Melo Gomes
    A importância do Superclássico Por Tiago de Melo Gomes
    O Mundo que criou o SuperclássicoPor Tiago de Melo Gomes

    JOGOS HISTÓRICOS
    1927 – A quebra do maior jejum sem SuperclássicosPor Rafael Duarte Oliveira Venancio
    1928 – Boca 6×0 River: A maior goleada do Superclássico – Por Rafael Duarte Oliveira Venancio
    1941 – River 5×1 Boca: Fora o Baile Por Rafael Duarte Oliveira Venancio
    A tragédia do Portão 12: Crime futebolístico ou políticoPor Rafael Duarte Oliveira Venancio
    Portão 12, a maior tragédia do futebol Argentino Por Caio Brandão
    56 anos de um Boca x River histórico e decidido por brasileirosPor Caio Brandão
    50 anos dos penais que valeram um campeonatoPor Caio Brandão
    32 anos da clássico da Bola LaranjaPor Caio Brandão
    Quando Boca e River decidiram títulos entre siCaio Brandão
    Um presente não tão gloriosoPor Tiago de Melo Gomes
    Quando Boca e River tiveram o mesmo patrociador Por Caio Brandão
    27 anos de um superclássico épico com direito a gol de bicicletaPor Caio Brandão
    21 anos do mais elétrico empate do SuperclássicoPor Caio Brandão
    Libertadores 2000: Palermo de uma perna sóPor Thiago Henrique de Morais
    O Grande Confronto de 2004Por Tiago de Melo Gomes
    Quando Belluschi e Higuain impediram o tricampeonato dos Xeneizes Por Thiago Henrique de Morais
    2007 – O show de Burrito OrtegaPor Rafael Duarte Oliveira Venancio
    Voltas da vida: há 10 anos, o Boca era campeão argentino e o River, o lanternaPor Caio Brandão
    River vence Boca Juniors e avança à final da Sul-Americana Por Thiago Henrique de Morais
    Clássico é suspenso por conta do ‘Panadero‘ – Por Victor Limeira

    BRASILEIROS NO SUPERCLÁSSICO
    DidiPor Alexandre Anibal
    IarleyPor Alexandre Anibal
    Iarley relembra o Bombonerazo pelo Paysandu Por Caio Brandão
    Domingos da GuiaPor Alexandre Anibal
    Moacyr Por Alexandre Anibal
    Paulo Valentim – Por Caio Brandão
    Delém – Por Tiago Melo Gomes
    Quando os brasileiros decidiram um superclássico histórico – Por Tiago Melo Gomes

    ONZE IDEAIS
    11 ideais do Boca Juniors em 110 anos de históriaPor Caio Brandão
    11 ideais do River Plate em 111 anos de história Por Caio Brandão

    ALÉM DO SUPER
    Quem defendeu o quarteto Boca, River, Racing e Independiente?Por Caio Brandão
    Quem defendeu o trio Boca, River e Independiente?Por Caio Brandão
    Quem defendeu o trio Boca, River e Racing?Por Caio Brandão
    Quem defendeu o trio de ferro da capital?Por Caio Brandão
    Quem defendeu o trio de ferro dos anos 90? Por Caio Brandão
    Quem defendeu o trio Boca, River e… Real Madrid? Por Caio Brandão

  • Grêmio x River: os elementos em comum entre os clubes

    Grêmio x River: os elementos em comum entre os clubes

    Grêmio x River compartilham jogadores e se enfrentaram uma única vez pela Libertadores, com Ortega em campo.

    Ortega contra Roger “Legado”, no único Grêmio x River pela Libertadores, em 2002: nessa noite, o Tricolor deu de 4-0 no velho Olímpico

    Vitrines cheias de taças internacionais, em especial nos anos 90, e um estereótipo de clubes elitistas aproximam River e Grêmio, que nessa terça-feira enfim se reencontram na Libertadores após a reviravolta do Lanús impedir uma final pesada no ano passado. Hora de abordar outros elementos em comum entre os semifinalistas. Em especial, os tricolores que viraram millonarios e vice-versa.

    Ambos foram campeões em torneios alusivos aos anos de 1932, 1956, 1957 (Argentino; Estadual), 1977 (Metropolitano; Estadual), 1979 (Metropolitano e Nacional; Estadual), 1980 (Metropolitano; Estadual) 1981 (Nacional; Brasileiro), 1986 (Argentino, Libertadores e Mundial; Estadual), 1990 (Argentino; Estadual), 1993 (Apertura; Estadual), 1994 (Apertura; Copa do Brasil), 1996 (Apertura e Libertadores; Estadual, Brasileiro e Recopa Sul-Americana), 1997 (Clausura, Apertura e Supercopa; Copa do Brasil), 1999 (Apertura; Estadual), 2016 (Copa Argentina e Recopa Sul-Americana; Copa do Brasil), 2017 (Copa e Supercopa Argentina; Libertadores) e 2018 (Supercopa Argentina; Estadual e Recopa Sul-Americana).

    Nota-se que tiveram um sofrimento considerável entre meados dos anos 60 e 70 e ao longo dos anos 2000, quando as taças ou não vieram ou escassearam demais, envolvendo até rebaixamentos (em 2004 aos gaúchos, em 2011 aos argentinos). Já os anos recentes foram marcados por renascimento conjunto. Que agora vai vivenciar um belo tira-teima, ao contrário da maior parte dos enfrentamentos anteriores da dupla, nos quais normalmente só um estava em curva ascendente. Duelos entre River e Grêmio são mais raros do que deveriam. Será apenas a segunda vez que a Libertadores reserva esse encontro; o outro foi em 2002, quando os gaúchos venceram as duas partidas das oitavas, em impiedoso 6-1 no agregado.

    Ortega (e Cambiasso, ao fundo) já havia sofrido quatro gols em 2001, em 4-2 pela Copa Mercosul. E em pleno Monumental

    Já a extinta Supercopa, torneio que entre 1988 e 1997 reuniu só campeões da Libertadores, foi mais pródiga: 1988 (River 3-2 no agregado, nas quartas), 1989 (3-3 agregado, com o Grêmio avançando nos pênaltis nas oitavas), 1991 (3-3 no agregado, com Renato Portaluppi/Gaúcho desperdiçando sua cobrança na decisão por pênaltis favorável aos argentinos) e 1993 (outro 3-3 agregado, com os argentinos avançando nos penais nas oitavas) e 1995, o mais intenso, compensando um pouco a final da Libertadores não ter sido entre a dupla, tal como em 2017 – os argentinos caíram em casa nos pênaltis para o Atlético Nacional. A semanas de decidir o Mundial com o Ajax, o campeão da Libertadores parou diante de um Francescoli iluminado: naquelas quartas, o uruguaio marcou três gols no 4-4 agregado. No Olímpico, Jardel achou espaço entre o goleiro e a trave, mas o uruguaio empatou no último lance do primeiro tempo, em magistral cobrança de falta.

    No segundo tempo, Carlos Miguel aproveitou rebote da trave em chute longo de Dinho. Em Núñez, Celso Ayala cabeceou falta cobrada por Enzo para abrir o placar. Já aos 13, o veterano, cobrando direto para o gol, repetiu a categoria demonstrada em Porto Alegre. No segundo tempo, Arilson comandou o empate provisório dos gaúchos, fuzilando de longe no primeiro e iniciando a jogada do empate, feito em gol contra do mesmo Ayala. Mas Francescoli desempataria aos 29 e nos pênaltis o obscuro goleiro Joaquín Irigoytía viveria seu maior momento, pegando os penais de Emerson e Luís Carlos Goiano. O desgaste cobraria o preço, com o Millo caindo em seguida para um combalido mas copeiro Independiente, campeão daquela edição com apenas duas vitórias em oito jogos.

    Por fim, houve duelos pelo torneio sucessor da Supercopa, a Copa Mercosul, em 1998 e 2001, ambos pela primeira fase. Há vinte anos, a Banda Roja soube vencer os dois jogos, com destaque para o “espanhol” Juan Antonio Pizzi, autor de três (dois, em Porto Alegre) no 6-3 agregado. O outro seria uma prévia da humilhação millonaria em 2002, com os argentinos levando de 4-2 em casa na estreia. Na volta, vitória gaúcha por 1-0. O River fez o suficiente para ficar em segundo na chave, mas não se classificou. O líder Grêmio sim, com exatamente seis pontos a mais.

    Vamos a quem jogou nos dois – com menção especial a Léo Gamalho, que defendeu como juvenil os dois clubes até estrear no futebol adulto já no Internacional:

    Delém: apelido de Vladém Lázaro Ruiz Quevedo, o atacante nasceu em São Paulo mas ingressou no Grêmio ainda nos juvenis. Estreou no time adulto em 1954, mas, a despeito de bons momentos como uma assistência para abrir um 3-1 sobre o Estrela Vermelha iugoslavo (em 1955) e um gol para abrir outro 3-1, sobre o Racing (em 1956), ainda era considerado um promissor camisa 10 do time de aspirantes em 1957. Em meados de 1958, interessou ao Vasco, que o trocou por Ortunho. O negócio agradou a todos os lados e Delém chegou à seleção brasileira em 1960, quando despertou atenção argentina na Copa Roca: os dois jogos foram no Monumental e o Brasil soube reverter derrota de 4-2 na ida, em que o vascaíno marcou, com um 2-0 na volta.

    O brasileiro Delém e “Chamaco” Rodríguez

    Os dois gols foram dele, forçando uma prorrogação vencida pelos canarinhos no placar final de 4-1, a vitória mais elástica do Brasil no clássico na casa rival. Assim, foi contratado pelo River (o que o afastaria da seleção) e se tornou o brasileiro millonario mais notável; em 1961, marcou o gol da vitória em 3-2 sobre o Real Madrid dentro do Santiago Bernabéu, onde Di Stéfano e colegas não perdiam há oito anos para estrangeiros. Não ganhou títulos, sendo inclusive visto como culpado pela perda do de 1962 ao errar um pênalti em pleno Superclásico na penúltima rodada. Ferida cicatrizada pelos longos anos de serviços prestados, especialmente como técnico juvenil de sucesso nos anos 90, polindo diversos ídolos.

    Carlos Rodríguez: volante revelado no Ferro Carril Oeste, El Chamaco chegou ao River em 1968 e de cara conviveu com decepções seguidas de um time que chegava muito perto, mas não resolvia o jejum vivido em Núñez entre 1957-75: em 1968, caiu nas semis do Metropolitano para o San Lorenzo e teria ganho o Nacional do Vélez se um zagueiro adversário não impedisse com a mão um gol (sem punição do árbitro); em 1969, eliminou o Boca na semi do Metro para na decisão ser goleado por 4-1 pelo nanico Chacarita, enquanto o título do Nacional foi perdido na rodada final em pleno Superclásico no Monumental; por fim, em 1970 a taça escapou nos critérios de desempate para um Independiente que, para ser campeão, virou em pleno clássico com o Racing a dez minutos do fim.

    Em 1971, Chamaco Rodríguez aportou no Grêmio, que por sua vez padecia sob o ciclo que chegaria a um octacampeonato estadual seguido do rival. Ficou lembrado como um volante folclórico e/ou tosco, seguindo carreira por Nacional e Deportivo Cali em 1972. Na Argentina, ficou mais associado ao Platense, clube que dirigiu em quatro passagens diferentes.

    Scotta fez o primeiro gol do Brasileirão 1971 e Ortiz venceu a Copa do Mundo de 1978

    Néstor Scotta: pinçado do Unión de Santa Fe, chegou em 1970 ao River após destaque com o Tatengue no ano anterior. Não se firmou e em 1971 foi emprestado ao Grêmio junto com Chamaco Rodríguez. Como tricolor, o atacante notabilizou-se em especial pelo gol inaugural do Brasileirão de 1971, em 3-0 sobre o São Paulo, no qual marcou ainda outro. Assim, por muito tempo, foi considerado como o autor do primeiro gol da história do Brasileirão, visão ainda mantida entre aqueles que se opõem à unificação canetada pela CBF com os torneios pré-1971. Mas não conseguiu resolver o jejum vivido também pelo Grêmio no Estadual, a despeito de anotar o seu em 3-1 no Grenal pela competição, em pleno Beira-Rio.

    La Tola Scotta voltou ao River em 1972, ano em que o clube perdeu o Nacional para o San Lorenzo (onde jogava seu irmão, Héctor Scotta, por vezes referido como outro jogador do Grêmio, o que nunca aconteceu). Viria a ter mais luz própria no Racing (onde foi narrado “naquela cena” de O Segredo dos Seus Olhos) e no Deportivo Cali, onde foi artilheiro das Libertadores de 1977 e 1978 – sendo vice nesta, na primeira final continental do futebol colombiano. Ainda voltaria ao River como técnico dos infantis, cargo que exercia quando faleceu em acidente automobilístico em 2001. Dedicamos a ele este outro Especial.

    Oscar Ortiz: revelado no San Lorenzo, o driblador ponta firmou-se nos azulgranas a partir sobretudo de 1974, como um dos protagonistas do título daquele ano e pelos diversos cruzamentos na medida para os gols de Héctor Scotta em 1975, quando o irmão do gremista acima anotou um recorde individual de gols em um único ano na Argentina (60). Chegou à seleção nesse embalo e foi contratado em 1976 pelo Grêmio, que visava evitar o octa do rival, que acabaria ocorrendo. Ortiz dividiu opiniões no Sul, entre os que reconheciam seu talento e os que o viam como apenas ciscador sem raça.

    Dois nomes obscuros no River: o goleiro Cejas (à frente de Kempes, na foto pelos argentinos) e o brasileiro Júlio César

    Em 2018, ele esclareceu ao Clarín que os tricolores pretendiam vender-lhe ao futebol espanhol, mas, tendo ganas de ir à Copa de 1978, forçou uma transferência ao River – tempos em que a maior vitrine para manter-se na seleção era o futebol nacional. Ganhou os títulos de 1977 a 1981 e a vaga na Copa, onde conquistou a titularidade na reta final, mesmo sem ser brilhante. El Negro, que perderia a titularidade a partir de 1979, ainda defenderia Huracán e Independiente antes de pendurar precocemente as chuteiras em 1983. Falamos aqui sobre sua carreira, mostrando que quando o Grêmio enfrentou o San Lorenzo na edição 2014, ambas as diretorias o homenagearam em campo. Fica a ideia para se repetir entre Tricolor e Millo!

    Agustín Cejas: na Argentina e no Brasil, o goleirão é respectivamente mais ligado ao Racing e ao Santos, camisas onde é ídolo em comum. Como Ortiz, foi um dos reforços do Grêmio para 1976 contra o octa colorado, vindo àquela altura do Huracán vice argentino de 1975. Segundo o escritor e fanático gremista Eduardo Bueno, o arqueiro foi um elemento desagregador no Tricolor e logo estava de volta à Argentina e a seu Racing, onde mesmo veterano mantinha forma tal que esteve entre os pré-convocados à Copa de 1978 – falamos aqui do goleirão. A obscura passagem pelo River encerrou sua carreira, em 1981, como reserva de um fã: Ubaldo Fillol. Foi campeão do Nacional, mas atuando apenas na estreia; queimara-se após um 5-2 sofrido para o Instituto de Córdoba ainda no Torneio Metropolitano.

    Júlio César: consagrado como o “Uri Geller” no Flamengo, chegou ao Grêmio vindo do próprio futebol argentino, onde ajudara o Talleres a evitar o rebaixamento em 1981. Chegou dos cordobeses aos gaúchos em 1982, jogando pouco devido a lesões. Nessas condições, foi emprestado ao River, participando da pré-temporada em 1983. Jogou um amistoso com o Estudiantes e outro com o San Lorenzo e só, não ficando os 90 minutos em nenhum. Figurinha ausente das conquistas tricolores daquele ano, teve o empréstimo redirecionado ao Fortaleza.

    Sabella, ainda cabeludo, e Hugo de León: ídolos em um, campeões sem brilho no outro

    Alejandro Sabella: antes de ser o técnico da Argentina vice da Copa de 2014, Sabella era o clássico armador argentino, daqueles vistos como elegante pelos fãs e lento pelos críticos – seu apelido, El Pachorra (“O Bicho-Preguiça”), é autoexplicativo. Embora torcedor do Boca na infância, profissionalizou-se em 1974 no River, participando da conquista em dose dupla que em 1975 encerrou o jejum millonario de dezoito anos (o time faturou tanto o Metropolitano como o Nacional). Mas só veio a se firmar na titularidade na conquista de 1977, sem a concorrência de Norberto Alonso, que estava no Olympique de Marselha.

    Alonso voltou e Sabella foi vendido ao futebol inglês, onde foi um dos primeiros argentinos nas ilhas. Reapareceu na Argentina em 1982, no clube onde seria protagonista duradouro, o Estudiantes bi seguido em 1982-83, pelo qual esteve no lado argentino da “batalha de La Plata” na Libertadores de 1983. Nessa etapa da carreira enfim chegou à seleção, embora sem durar até a Copa de 1986. Chegou nesse mesmo ano ao Grêmio; sem imaginar as exigências físicas do futebol gaúcho, não vingou e em 1987 voltou a seu país para defender o Ferro Carril Oeste. Voltaria a trabalhar no River como assistente de Daniel Passarella.

    Hugo de León: o capitão dos títulos internacionais de 1983 dispensa comentários quanto à sua passagem gremista. Sua estadia no River durou ao longo da temporada argentina de 1989-90, emprestado pelo Nacional uruguaio. Com 32 anos nas costas, jogou somente dez das 38 rodadas da campanha campeã nacional, com o Millo confiando mais em Jorge Higuaín (pai de Gonzalo) e Ernesto Corti na dupla de zaga titular e em Jorge Gordillo e José Serrizuela como opções imediatas. Ironia: o segundo que menos jogou no setor foi Serrizuela (16 vezes), mas ele e o uruguaio foram à Copa do Mundo de 1990 e os demais, não.

    Amato e Astrada, ícones do River noventista, encararam decepções no Grêmio da ISL

    Gabriel Amato: “o futebol me deu mais do que eu o dei”, assumiu esse atacante comum mas com currículo turbinado. É um dos poucos jogadores a vestir as três camisas mais vitoriosas do futebol argentino: Boca, Independiente e River, na ordem em que Amato os defendeu. Nos dois primeiros, acrescentou pouco. Veio ao clube de Avellaneda diretamente do Boca e dali saiu para o Huracán, onde ficou por um semestre, que relançou-lhe a carreira; dali rumou ao River, embora, como Sabella, fosse na juventude torcedor do rival. Sentimento que mudaria ao longo de três vitoriosos anos em Núñez, como um 12º jogador.

    Rumou à Europa após o título da Libertadores em 1996. Ia bem no Rangers escocês quando a ISL o levou ao Grêmio. Em um Estadual perdido para o único título do Caxias, fez seis gols em um total de nove marcados pelo clube, saindo sob críticas ainda no início da Copa João Havelange. Foi ao Real Betis.

    Leonardo Astrada: colega de De León no título argentino de 1989-90, o volante atuou treze vezes naquela conquista – afinal, disputava posição com dois vencedores da Copa do Mundo de 1986, Héctor Enrique e Sergio Batista, além de Gustavo Zapata. Foi o primeiro título de Astrada e no seguinte, já na era dos torneios curtos, El Negro já se fazia presente em 17 das 19 rodadas. A partir dali viraria não só um ícone do River dos anos 90 como também o jogador que mais venceu o campeonato argentino profissional (dez) e que mais títulos ganhou no Millo (doze, contando-se aí também a Libertadores 1996 e a Supercopa 1997). Ironia: sua família é de torcedores do Boca (“comprava ingressos aos clássicos a meu irmão caçula e depois ficava sabendo que me xingava na arquibancada”, declararia) e há quem aponte que ele, como outros dessa nota, não fugia a esse sentimento.

    O chileno Escalona e o uruguaio Loco Abreu, que até fez alguns golzinhos no River

    Astrada, que ainda iria à Copa do Mundo de 1998, deixou Núñez apenas por desentendimentos com o treinador Ramón Díaz. Assim, pouco depois de importar Amato o Grêmio trouxe o volante consigo em 2000, na parceria com a ISL. El Negro ficou até dezembro, vivenciando além da agrura estadual também a eliminação na Copa João Havelange para o (ainda obscuro) São Caetano. Voltou ao seu River, pendurando as chuteiras como campeão do Apertura 2003, mesmo com o pai sequestrado. Seis meses depois, já era técnico millonario, obtendo o Clausura 2004 e chegando a duas semifinais seguidas de Libertadores.

    Alejandro Escalona: o lateral chileno só realizou uma partida oficial pelo River, seu clube na temporada 2001-02. Voltou a seu país e após subir à primeira divisão com o Everton de Viña del Mar, foi contratado para cumprir a mesma missão no Grêmio de 2005. O acesso veio do jeito épico que se sabe, mas sem que Escalona fosse preponderante. Chegou a formar uma “colônia Mercosul” em 2006 com o uruguaio Marcelo Lipatin e os hermanos Germán Herrera e Julián Maidana, mas logo saiu.

    Sebastián Abreu: o recordista mundial de clubes de futebol no currículo teve no Grêmio a sua quarta equipe já no quarto ano de carreira, em 1998. Estava emprestado pelo forte Deportivo La Coruña da época, que o contratara pelos números de matador que o uruguaio tivera no San Lorenzo. Loco Abreu, porém, não vingou. Dez anos depois, defendeu o River em duas passagens em um mesmo ano (!). Ganhou o Clausura 2008, o único título millonario na elite entre 2004 e 2008, mas também conviveu com a lanterna no torneio seguinte. Na Argentina, ainda defenderia o Rosario Central. E no Brasil passaria também por Figueirense e o Bangu, credenciado pela estadia marcante no Botafogo em 2010.

    Maxi López e Gastón Fernández chegaram a ser colegas no River. López teve seu brilho no Tricolor, mas “La Gata” não

    Maxi López: profissionalizou-se no River em 2001, ano em que figurou nas seleções juvenis. Em 2004 ainda era uma promessa. No espaço de um mês, foi do céu ao inferno em Núñez: brilhou em vitória por 1-0 sobre o Boca na Bombonera pelo vitorioso Clausura, resultado que fez o Millo ultrapassar o rival na tabela (adiante, a Banda Roja terminaria mesmo campeã); foi a última vitória millonaria sobre o rival na casa adversária pelos dez anos seguintes. Só que em seguida o River levou a pior nos Superclásicos válidos pelas semifinais da Libertadores, calhando a Maxi ser o único a desperdiçar seu chute na decisão por pênaltis em pleno Monumental, em noite das mais cardíacas do futebol.

    Ainda assim, o atacante cavou uma transferência ao Barcelona, onde tornou-se amigo de Ronaldinho. A relação influenciou-lhe para topar um empréstimo ao Grêmio em 2009, quando pertencia ao Moscou. Em sua boa passagem, notabilizou-se em especial pelo gol da vitória no Grenal do centenário. Com oferta do futebol italiano, o atual talismã vascaíno forçou a saída no início de 2010 para defender o Catania.

    Gastón Fernández: promessa da base millonaria, estreando entre os adultos em 2002, La Gata Fernández terminou não lapidado no time principal. Começou a ter luz própria a partir de sua passagem pelo San Lorenzo campeão de 2007 (onde foi artilheiro da única taça azulgrana entre 2002 e 2013) e sobretudo pelas idas e vindas pródigas e vitoriosas no Estudiantes. Esteve nas duas últimas taças do time, a Libertadores 2009 e o Apertura 2010. No Grêmio, apareceu por treze vezes no ano passado, sem marcar, rumando então para uma quarta passagem pelos alvirrubros de La Plata.

    Imagem meramente humorística. Foi após o 4-2 tricolor na Mercosul 2001, em pleno Monumental
  • Cruzeiro x Boca: os elementos em comum entre os clubes

    Cruzeiro x Boca: os elementos em comum entre os clubes

    Cruzeiro x Boca compartilham jogadores ao longo da história. Wanchope Ábila tem nos dois médias próximas de meio gol por jogo.

    Ramón “Wanchope” Ábila tem nos dois clubes média próxima de meio gol por jogo. Mas ficará de fora das quartas, suspenso

    Mais coisas além da origem italiana (que no Boca originou o apelido xeneize, derivado de zeneise, que significa “genovês” no idioma da Ligúria) e da camisa azul ligam Boca e Cruzeiro, que, aliás, tem no amarelo uma “terceira cor” informal (graças ao goleiro Raul). Ambos copeiríssimos em seus países, já até decidiram a Libertadores, em 1976, no primeiro título do time argentino. Por outro lado, a Raposa pode se gabar por uma raríssima vitória brasileira em La Bombonera sobre o oponente pela competição.

    Afinal, pode-se até dizer que as torcidas dos dois já se uniram dado aos também frequentes choques dos mineiros com o River, na decisão de 1976 da Libertadores e de 1991 da Supercopa, o torneio que entre 1988 e 1997 reuniu só os campeões de Libertadores. Assim, quando chegou à decisão de 1977, o Boca enfrentava o detentor do título. Venceu por 1-0 em casa e levou o troco no Mineirão, quando usou camisas amarelas, supersticiosamente trocada por brancas na neutra Montevidéu. Após o 0-0 na terceira finalíssima, Hugo Gatti terminou herói ao pegar a única cobrança desperdiçada na noite uruguaia.

    Se a Supercopa era o torneio que reunia campeões da Libertadores, a Conmebol resolveu inchar seus troféus em 1992 ao inventar o torneio que só reunia campeões da Supercopa, a Copa Master. Sem surpresas, esse torneio só durou duas edições, e os campeões foram justamente Boca, em 1992, e Cruzeiro, em 1994. A edição inaugural foi toda realizada no estádio do Vélez e começou já nas semifinais, nas quais os argentinos tiraram o Olimpia em jogo único, gol de Roberto Cabañas logo no primeiro minuto. Na final, superaram os mineiros por 2-1.

    Pouco após aquele título, o Boca desfez no fim de 1992 seu maior jejum nacional, onze anos. O título do Apertura da temporada 1992-93 recolocou o clube na Libertadores para 1994, mas até lá o racha interno entre as panelinhas falcones e palomas desfigurou o time campeão. Nisso, o time terminou de modo vexatório na lanterna do seu grupo na Libertadores, tomando o famoso 6-1 do Palmeiras. Contra o Cruzeiro do jovem Ronaldo (que marcou no Mineirão) e do veterano Toninho Cerezo, perdeu os dois jogos por 2-1, na primeira vitória brasileira sobre os xeneizes na Bombonera pela Libertadores desde o Santos de Pelé na final de 1963.

    Em 1996 e 1997, os dois se encontraram na Supercopa. Na primeira, os pênaltis favoreceram os brasileiros, após o 0-0 na Argentina não significar classificação hermana com o 1-1 seguinte no Mineirão pelas quartas. Melhor para o time que tinha Dida, em campanha encerrada nas finais com o campeão Vélez. Na outra, o time não pôde contar com o astro Maradona, lesionado, mas fez prevalecer o fator casa com o 1-0 na estreia. Só que no reencontro no Brasil os argentinos já estavam praticamente eliminados e caíram por 2-1.

    Boca e Cruzeiro se viram em três Libertadores. Por hora, no mata-mata os argentinos só se deram bem, na final de 1977 (o jogador do Boca é Carlos Veglio, autor do gol xeneize na final) e nas oitavas de 2008

    O último duelo continental foi válido pelas oitavas da Libertadores de 2008, com o time mais copeiro prevalecendo com duas vitórias por 2-1, abrindo 2-0 no placar tanto na Argentina como em Belo Horizonte, ainda que não resistisse ao Fluminense nas semifinais. Fora das competições oficiais, houve ainda espaço para dois amistosos, ambos no Mineirão. Em 1968, um jogo movimentado já registrava placar em 2-1 com 16 minutos. Tostão ampliou para 3-1 ainda no primeiro tempo, com Antonio Rattín descontando. Em setembro de 1985, a dupla Boca e River embarcou para um quadrangular amistoso com Atlético e Cruzeiro. Na época, Alfredo Di Stéfano defendia o Boca, como treinador, e viu seus comandados perderem de 2-0. Tentos de Mirandinha e Tostão… que, claro, não era aquele.

    Os dois clubes puderam comemorar uma tríplice coroa em 2003, com os argentinos abocanhando, nessa ordem, Libertadores, Apertura e Mundial; enquanto os mineiros saborearam Estadual, Copa do Brasil e Brasileirão (na época, visto ao menos aos olhos alheios como o primeiro do clube). Eles também foram campeões em torneios alusivos aos anos de 1930 (Estadual; Argentino), 1943, 1944, 1965 (idem), 1969 (Estadual; Argentino e Copa Argentina), 1977 (Estadual; Libertadores e Mundial), 1990 (Estadual; Recopa Sul-Americana), 1992 (Estadual e Supercopa; Copa Master e Argentino), 1993 (Copa do Brasil; Copa Ouro), 2000 (Copa do Brasil; Libertadores, Apertura e Mundial), 2001 (Copa Sul-Minas; Libertadores), 2004 (Estadual; Copa Sul-Americana), 2006 (Estadual; Clausura e Recopa Sul-Americana), 2008 (Estadual; Apertura e Recopa Sul-Americana), 2011 (Estadual; Apertura), 2015 (Brasileiro; Argentino e Copa Argentina) e 2018 (Estadual; Argentino).

    Vamos a quem defendeu ambos – desde já ressaltando que não é o caso de Heraldo Bezerra, brasileiro que defendeu a seleção espanhola e faleceu como jogador do Boca em acidente de carro em março de 1977; o Cruzeiro que defendera era o de Porto Alegre.

    Lima: o ponta-esquerda tricampeão mineiro no início dos anos 70 e vice brasileiro em 1974 vinha de uma passagem longa mas sem títulos naqueles anos de jejum do Corinthians. De janeiro a maio 1968, havia sido emprestado pelos alvinegros ao Boca, mas não conseguiu lugar no time. Curiosamente, ele, como xeneize, fora titular naquele amistoso contra o Cruzeiro naquele ano. Foi precisamente sua última partida pelo Boca, participando mais de amitosos (sete) do que de jogos competitivos (seis).

    Trio brasileiro: Lima e Charles brilharam só em Minas. Jorginho Paulista, em nenhum

    Charles: centroavante revelado no Bahia campeão brasileiro de 1988, chegou à seleção e manteve boa fase no Cruzeiro, onde foi artilheiro do time campeão da Supercopa 1991 (sobre o River). Chegou assim com muito cartaz ao Boca, com passe comprado por ninguém menos que Maradona. Ele esteve no time campeão argentino de 1992, finalizando o maior jejum nacional do clube, mas sem agradar, só atuando nas cinco primeiras rodadas. Jogou ainda dois amistosos, contra o Sevilla do próprio Maradona. Não marcou gols e foi devolvido ao Brasil.

    Silvio Rudman: volante revelado no Argentinos Jrs, onde fazia dupla com Fernando Redondo. Partiu dali para o Independiente mas esteve longe de vingar como o colega, trotando o mundo em times pequenos de México, Itália, Espanha e até por Honduras e Guatemala. Antes do flop se consumar, foi pedido por ninguém menos que César Menotti para o Boca no segundo semestre de 1994. Não vingou e no início de 1995 foi testado pelo Cruzeiro, atuando em um 2-2 amistoso com o Guarani de Divinópolis. Foi considerado caro demais para um jogador fora de forma e dispensado.

    Jorginho Paulista: vinha de um bom momento no Vasco. Campeão brasileiro e da Mercosul em 2000, o clube também fez uma fase de grupos com 100% de aproveitamento na Libertadores de 2001. A invencibilidade caiu logo nas oitavas, em duas derrotas para o Boca, o que não impediu os argentinos de se interessarem pelo lateral, que pertencia à Udinese. Jorginho, porém, não se mostrou um bom marcador e tampouco repetiu o ímpeto ofensivo, durando 15 jogos entre o Apertura e a Copa Mercosul. Seu empréstimo foi repassado ao Cruzeiro no início de 2002. O problema foi concorrer na posição com Juan Pablo Sorín. Foi repassado no mesmo ano ao São Paulo, sendo mais lembrado pela dívida gerada pelo clube do que pelas atuações.

    Joffre Guerrón: fez as categorias de base no Boca, mas já estava de volta ao seu Equador quando se profissionalizou. Foi o grande nome do time da LDU que, treinado por Edgado Bauza, venceu a Libertadores em 2008. A façanha rendeu negócio com o Getafe e a lembrança dos brasileiros do carrasco do Fluminense permanecia viva em meados de 2009, quando o Cruzeiro buscou o empréstimo do atacante junto ao clube espanhol, onde não se firmara. Tampouco vingou na Raposa, sendo desligado por indisciplina interna após um ano.

    Rudman (mais à esquerda), com Menotti, e Prediguer têm juntos UM jogo pelo Cruzeiro e não fizeram muito além no Boca. Sánchez Miño teve bons momentos lá e um semestre fraco no Brasil. Já Messidoro não somou dez jogos em ambos

    Sebastián Prediguer: volante que começou em alta no Colón, rendendo um negócio com o Porto que viria a significar apenas sucessivos empréstimos. Conseguiu ter mais partidas pelo Boca do que pelo Cruzeiro mesmo só defendendo os xeneizes por três vezes; na equipe brasileira, chegara na esteira de Walter Montillo e Ernesto Farías, que também pertencia ao time português. Mas sequer estreou pela Raposa.

    Juan Manuel Sánchez Miño: lateral e volante que surgiu de modo promissor no Boca do início da década, equipe eficiente ainda que pouco vistosa, mas campeã do Apertura 2011 e da Copa Argentina em 2012, além do vice na Libertadores 2012 – ano em que Sánchez Miño chegou a ser convocado à seleção para o Superclássico das Américas. Em 2014, rumou ao futebol europeu. Não se efetivou no Torino e tampouco se adaptou ao Cruzeiro em 2016, ficando só de janeiro a junho.

    Ramón Ábila: um clássico atacante do estilo “tanque”, sobressaiu-se no Huracán que desfez em 2014 um jejum de 41 anos sem títulos expressivos, marcando nos mata-matas contra Boca, Estudiantes e na semifinal com o Atlético de Rafaela na campanha campeã da Copa Argentina. Ainda viria em paralelo o retorno à elite argentina, após três anos. Em 2015, ganhou a Supercopa Argentina e foi um dos artilheiros da Sul-Americana, com seus gols sobre Sport Recife, Defensor e River levando o outrora relegado Globo a uma final continental. A taça não veio, mas o “Wanchope” chegou com moral a um Cruzeiro que brigava para não cair. Nove gols nas primeiras onze partidas preveniram a queda e renderam o negócio com o Boca ano passado. Ábila mantém um índice razoável de gols, mas não reencontrará ex-colegas; descobriu-se suspensões que deverá cumprir nessa fase da Libertadores.

    Alexis Messidoro: meia proveniente da base do Boca, estreou no time adulto com gol em amistoso com o Emelec, em janeiro de 2016, mas terminou pouco aproveitado em jogos competitivos – cinco entre abril e maio daquele ano, sendo titular nos quatro primeiros. Passou a ser sucessivamente emprestado, ficando no Cruzeiro de setembro de 2017 a janeiro desse ano, quando foi repassado ao Talleres. Jogou ainda menos no Brasil (quatro).

    Clique aqui para acessar os elementos em comum entre Cruzeiro e River (nota de 2015), aqui para Cruzeiro e Racing (nota de 2018), aqui para Cruzeiro e San Lorenzo (nota de 2014) e aqui para Cruzeiro e Huracán (nota de 2015). E aqui para relembrar todos os argentinos da história cruzeirense (nota de 2017).

    Encontros em outras competições: na decisão da Copa Master em 1992, favorável aos argentinos, e na Supercopa de 1997, cuja camisa reserva usada por Caniggia foi replicada na atual camisa 2
  • Santos x Racing: os elementos em comum entre os clubes

    Santos x Racing: os elementos em comum entre os clubes

    Santos x Racing compartilham mais do que a bronca com a desorganização da Conmebol. Este texto reúne jogadores, técnicos e episódios em comum entre os dois.

    A bronca com a desorganização da Conmebol e entre o próprio staff interno, com o insucesso nos tribunais e a eliminação na Libertadores, não é a única coisa que une Santos e Racing. Mais do que os lamentos dos últimos dias, as duas equipes, as primeiras em seus países a serem campeões mundiais, têm consigo uma relação que chegou a ser especialmente intensa entre 1964 e 1974, quando tiveram em comum nada menos que sete jogadores – incluindo os nomes notáveis de três grandes ídolos santistas: os pontas-direitas Dorval e Manoel Maria e o goleiro Agustín Cejas. Ligação que inclui ainda dois campeões da Copa do Mundo de 1978 (César Menotti e Leopoldo Luque), merecendo ser resgatada em que pese um reencontro ficar impossibilitado para essa Libertadores.

    Pelé e sua recordação do Racing

    Afinal, não foi somente em negociações que os clubes se encontraram tanto na melhor década da história profissional de ambos. Tiveram encontros frequentes em campo nos anos 60. Em tempos em que o Santos era o melhor e mais vitorioso time do Brasil, o Racing era sua contraparte na Argentina. A Academia foi até o fim de 1964 o clube argentino mais vezes campeão, quando foi superada pelo Boca.

    Infelizmente, nenhum dos duelos envolveu a Libertadores, mas foram bastante recordados pelo alto nível. Em amistoso em 1962 que opunha os campeões nacionais de Brasil e Argentina no ano anterior, Pelé e colegas abriram 3-0 como visitantes antes dos 11 minutos. O primeiro tempo encerrou-se em 4-1, e antes dos dez minutos do segundo tempo os argentinos puderam encostar em 4-3. Mas já aos 9 o Peixe se distanciava, com o primeiro dos três gols de Pepe. Ficou no 8-3, com Coutinho também acumulando um hat trick. No ano anterior, já haviam se encontrado, com triunfo argentino por 4-2.

    Em 1964, novo amistoso opôs o ídolo santista Dorval a seu ex-clube – a imagem que abre a matéria é desse ocasião, mostrando o ponta-direita (com camisa que inspirou o uniforme reserva usado ontem contra o River) com seu mais famoso ex-colega. No Cilindro de Avellaneda, um “econômico” 2-1 só definido aos 45 minutos do segundo tempo, quando Pelé converteu um pênalti. Coutinho havia aberto o placar empatado pelo futuro santista Menotti. Ao fim da década, ocorreu na virada de 1968 para 1969 a Recopa Intercontinental, que reunia os campeões mundiais até aquele momento.

    Se esse torneio não foi além disso, ficando esquecido, ao menos rendeu mais encontros da fase ainda áurea das duas equipes. Sempre com triunfos santistas: em novembro de 1968, 2-0 no Parque Antártica; em abril de 1969, 3-2 na Argentina, com os dois gols racinguistas sendo anotados pelo brasileiro Silva Batuta, importado do Santos para uma fugaz e ainda idolatrada passagem pela Academia.

    Os ídolos santistas Cejas e Dorval no Racing. À direita, Luís Cláudio, Menotti e Baptista, mais lembrados na Argentina: não são ídolos no Racing, mas são todos obscuros no Santos

    Os outros duelos oficiais foram válidos por outro torneio extinto, a Supercopa, que por sua vez reunia só campeões da Libertadores. As equipes encontraram-se precisamente na primeira e na última edição, em 1988 (com os argentinos vencendo por 2-0 no agregado já no primeiro mata-mata) e em 1997 (na fase de grupos, com um 2-2 em Avellaneda tendo gols visitantes de Edgar Báez, mais um a jogar nos dois, e do flop Arinelson, e um 3-2 no Brasil).

    Santos e Racing também coincidiram em um largo jejum nacional desde os anos 60 só resolvido no início dos anos 2000. Os clubes foram campeões em torneios alusivos somente aos anos de 1958 (Estadual; Argentino), 1961 (Estadual e Brasileiro; Argentino), 1966 (Rio-São Paulo; Argentino) e 1967 (Estadual; Libertadores e Mundial). Quando os argentinos estavam prestes a quebrar seu tabu de 35 anos sem conquistas domésticas, a Placar até disse que o Racing era “O Santos Porteño”. Vejamos quem jogou nos dois:

    Vicente Rojas: nome obscuro mesmo na Argentina, onde esteve tanto no Racing como no rival Independiente, mas sem sair da equipe B de ambos. Foi testado pelo Santos no fim de 1939, inclusive marcando em vitória por 2-1 sobre o Vasco. Mas já em março de 1940 se noticiava que a inscrição desse ponta-direita não seria renovada.

    Ángel Capuano: goleiro que esteve no êxodo a partir de 1935 de argentinos que jogavam no futebol italiano, muitos deles, com origem italiana, temendo convocação do exército de Mussolini para a invasão da Abissínia (atual Etiópia). Acumulou 41 partidas em 1937 e 1938 pela Academia, em duas campanhas apenas corretas – dois quartos lugares em brigar pela taça. Veio ao Brasil para defender primeiramente o Fluminense, onde obteve um bi estadual. No Santos, jogou uma única vez, em 1942.

    Dorval, Luís Cláudio e Benedito Baptista: os três vieram em um pacote de empréstimo para o ano de 1964. O gaúcho Dorval dispensa apresentações, como ponta-direita do célebre quinteto ofensivo santista recitado de memória com Mengálvio, Coutinho, Pelé e Pepe. Os outros dois eram juvenis que, sem espaço a curto prazo no Brasil, seriam testados no futebol argentino. Dorval era mais célebre pelos gols que criava do que pelos que concluía, anotando só quatro pelo Racing, mas sendo bastante aplaudido pela contribuição ativa no bom time de 1964: foram cinco assistências e dois gols que colegas marcaram convertendo pênaltis sofridos pelo brasileiro. A equipe ficou em um enganoso 6º lugar no campeonato argentino, pois esteve a um gol de possuir o ataque mais goleador daquela edição, embora sem tanta contribuição dos outros dois (o centroavante Cláudio e o ponta-esquerda Baptista só fizeram um gol cada). Foram colegas de Cejas e Menotti.

    Silva Batuta só se destacou mesmo no Racing. O goleiro Cejas é ídolo em comum

    César Luis Menotti: antes de imortalizar-se como o treinador da Argentina campeã de 1978, era aquele clássico camisa 10 refinado, embora parecesse lento, chegando a defender a seleção também como jogador. Como o trio brasileiro acima, chegou ao Racing em 1964, contribuindo com onze gols naquele recordado ataque embora só tenha jogado meio campeonato. O desempenho lhe valeu uma transferência ao Boca em 1965. Ele, que já havia marcado no Santos no amistoso de 1964, voltou a vaza-lo em triunfo de 5-3 em julho de 1968 pelo New York Generals em zebra no Yankee Stadium, partida de despedida do ídolo alvinegro Geraldino. Acabou trazido para testes na Vila. Mas, já em fim de carreira, não foi aprovado (entrou em campo somente contra o Cianorte, e em amistoso por vezes minimizado como mero jogo-treino) e seguiu ao Juventus da Mooca. Para a aprovação praiana, Menotti é um dos argentinos que veem Pelé superior a Maradona e Messi. Já a torcida racinguista torce o nariz a quem, com o tempo, teve imagem em Avellaneda mais associada ao rival Independiente, em três passagens como treinador e outra como manager.

    Silva: convocado à Copa de 1966, ele já tinha idolatria por Flamengo e Corinthians e até uma passagem pelo Barcelona quando defendeu Santos e Racing, nessa ordem. No Barça só pudera jogar amistosos, não havendo sucesso da cúpula blaugrana em retirar a proibição a novos estrangeiros. De lá veio à Vila em julho de 1967, a tempo de participar do título estadual. Silva “Batuta” já estava de volta ao Flamengo quando foi incorporado pelo Racing em 1969 – lá, ficaria mais conhecido como “Machado da Silva”, seu sobrenome completo. Teve um desempenho espetacular, com 20 gols em só 30 jogos e a única artilharia de um brasileiro no campeonato argentino. O clube fez a melhor campanha da primeira fase, mas foi eliminado nas semifinais já nos minutos finais, para o futuro campeão Chacarita. Com saudades do Brasil, o flamenguista Silva topou transferir-se ao Vasco para lidera-lo em 1970 do fim do jejum vascaíno de doze anos no estadual. Segue muito amado em Avellaneda, como contamos aqui.

    Agustín Cejas: é simplesmente o segundo jogador com mais partidas pelo Racing, e até os anos 90 era o dono do recorde (quebrado por Gustavo Costas). O goleirão estreou em 1962 para uma vitoriosíssima passagem encerrada em 1970, quando foi comprado pelo Santos. Após um início hesitante, conseguiu angariar idolatria também na Vila, especialmente pelo protagonismo no título estadual (de importância equiparável aos nacionais na época) de 1973, o último da Era Pelé – encerrando um jejum de quatro anos então inédito para o Rei. Naquele ano, foi Bola de Ouro da Placar. Voltou à Argentina em 1975 para defender o Huracán e reapareceu no Racing ao fim da década, com boas campanhas nos Nacionais e a pré-convocação, mesmo veterano, para ir à Copa de 1978. Carreira relembrada neste outro Especial.

    O brasileiro Manoel Maria e o peruano Mifflin jogaram juntos no Racing, onde “Mané” tinha visual quase hippie

    Manoel Maria: o ponta-direita paraense chegou ao Santos após conseguir disputar o Pré-Olímpíco de 1968 vindo da Tuna Luso, historicamente a terceira força de Belém. A convocação naquele momento foi política, mas se justificaria tecnicamente. “Mané” conseguiria grande reconhecimento na Vila, a ponto de ser pré-convocado à Copa de 1970. Ao fim do ano, porém, a carreira do arisco driblador foi estagnada por um grave acidente de carro. Em 1973, integrou o elenco campeão estadual e teve atuações elogiadas, mas desavenças com a diretoria lhe renderam passe livre. Após não conseguir acertar com Vasco, Flamengo, Olaria e Desportiva, apareceu no Racing, vice-campeão argentino no ano anterior. Lembrado pelos racinguistas por ter uma perna mais curta do que a outra, não passou de cinco jogos (sem gols) e em 1974 já vestia outra camisa alviceleste, a do Paysandu no seu Pará. Ainda voltou rapidamente ao Santos em 1976.

    Ramón Mifflin: volante titular da seleção-revelação da Copa de 1970, a do Peru, chegou ao Racing em 1973 juntamente com Manoel Maria. Diferentemente do brasileiro, seguiu no clube para o ano seguinte, chegando a marcar em um Clásico de Avellaneda (ainda que em derrota de 4-1). A Academia ficou a um ponto de jogar o quadrangular final que decidiu o campeonato. Foi o suficiente para o Santos adquirir Mifflin em agosto de 1974, já visando um substituto para Pelé, que deixaria o clube em outubro. Os alvinegros já haviam tentado sua contratação em 1969. Não triunfou exatamente na Vila, mas teve sua contratação requisitada pelo próprio Pelé ao Cosmos, indo acompanha-lo na liga dos EUA em 1975. Eles marcaram os gols do clube nova-iorquino na partida oficial da despedida do Rei, no 2-1 sobre o Santos em 1977.

    Leopoldo Luque: o centroavante da Argentina na Copa de 1978 já estava decadente quando jogou pelos dois clubes, no início dos anos 80, sem reeditar as atuações que o haviam consagrado por Unión e River. A transferência, como em tantos casos, foi direta, saindo de Avellaneda em 1982 (onze jogos, dois gols) para a Baixada em 1983 (apenas dois jogos, sem marcar).

    Edgar Báez: reforço incomparavelmente mais modesto em relação aos anteriores, sinal de outros tempos que os dois clubes viviam no início dos anos 90. O atacante paraguaio começou no Huracán a trajetória na Argentina, incorporando-se ao Racing na temporada 1994-95. Mesmo sem qualquer destaque por lá, veio à Vila para uma estadia relativamente longa, até 1999, pois nunca passou de uma regular opção de banco. Saboreou o Rio-São Paulo em 1997 e a Copa Conmebol em 1998, as únicas taças erguidas no duro período entre 1984 e 2002.

    Luque venceu a Copa de 1978 e é a maior decepção em comum. O limitado Galván conseguiu mais prestígio

    Carlos Galván: daqueles zagueiros limitados mas cultuados pela raça, El Negro foi titular de bons momentos que a Academia teve nos difíceis anos 90, participando do vice argentino em 1995 e da campanha semifinalista da Libertadores em 1997. No Brasil, começou primeiramente no Atlético Mineiro, sendo bastante aplaudido no Galo vice-brasileiro de 1999. Trocou de alvinegro no início de 2000, sendo um dos líderes do elenco quase finalista do estadual em 2001. Seguiu até o início de 2002, mas não ficou para o vitorioso Brasileirão. Seu outro clube brasileiro foi o Paysandu, em rápida passagem na fuga contra o rebaixamento em 2004.

    Wason Rentería: o colombiano colecionou clubes brasileiros, sem repetir, porém, o carisma exercido no primeiro deles, o Internacional em 2005. No Santos, foi incapaz de competir com Neymar e Borges por um lugar no ataque em 2011 (chegara já após a vitoriosa Libertadores). No Racing, esteve no título argentino de 2014, mas com participação escassa.

    Ezequiel Miralles: o atacante esteve no Racing na temporada 2006-07, como uma aposta proveniente das divisões de acesso. Não vingou, sendo repassado ao futebol chileno. Viria a triunfar naquele outro lado da Cordilheira, por Everton e Colo-Colo, já sendo desejado pelo Santos em 2011 embora viesse inicialmente ao Grêmio. Em 2012, foi trocado por Elano e teve seus bons momentos na Vila, embora sem repetir a alta média que conseguia no Chile. Em 2013, rumou ao Atlante mexicano.

    Eugenio Mena: lateral-esquerdo da vitoriosa geração chilena dessa década, foi uma das promessas lapidadas pelo argentino Jorge Sampaoli na vistosa Universidad de Chile de 2010-11. Chegou ao Santos para o segundo semestre de 2013 e passou um ano e meio na Vila. Manteve a titularidade, mas desacordos financeiros levaram à rescisão na virada para 2015. Mena rodou o Brasil (Cruzeiro, São Paulo, Sport, Bahia) até acertar nesse agosto de 2018 com o Racing.

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    Dorval, Luís Cláudio, Juan Carlos Oleniak, Menotti e Benedito Baptista: quatro santistas (Oleniak foi mencionado no filme “O Segredo dos seus Olhos”). E outra imagem com Manoel Maria (1º agachado) e Mifflin (2º em pé)