Categoria: Títulos Históricos

  • Estudiantes campeão em 1995: o primeiro título de Verón

    Estudiantes campeão em 1995: o primeiro título de Verón

    O Estudiantes campeão em 1995 comemorou com Verón ao centro, Palermo ainda reserva atrás dele e Calderón agachado à esquerda.

    A festa do campeão, com Verón ao meio – logo atrás dele, o ainda reserva Palermo. Calderón está agachado ligeiramente à esquerda, com dois mascotes de calças azuis. Rubén Capria é o terceiro agachado e o irmão Diego Capria, o último

    A data de 12 de maio de 1995 deveria ser de tristeza a todas as torcidas argentinas, com a perda do maestro Adolfo Pedernera, o maior craque da história segundo Alfredo Di Stéfano e cuja idolatria ultrapassava clubismos quanto ao seu River – afinal, brilhara até mesmo como treinador do Boca. Mas a campanha incrível do Estudiantes na segunda divisão impediu que o luto fosse total em La Plata. Com nada menos que cinco rodadas de antecedência (de onze pontos de vantagem em tempos em que a vitória ainda valiam 2 e não 3), o Pincha, após 265 dias e não 365, voltava à elite para não mais sair, desabrochando na campanha o talento da maior figura do clube: Juan Sebastián Verón.

    E pensar que La Brujita teve o pior dos inícios: com poucas semanas de carreira no time adulto do clube do coração, sentia que manchava o sobrenome tão abrilhantado ali nos anos 60 e 70 pelo pai (Juan Ramón Verón, La Bruja). Assim ele admitiu em 2011 à El Gráfico: “que maneira de começar, por favor! Estreei em abril de 1994 e uns meses depois fomos à Série B. Por sorte, o clube pôde sair em seguida, se não teria sido difícil. E a partir daí mudou tudo. Eu tomava o rebaixamento mais como torcedor, para mim era um momento duro, triste, muito triste, sobretudo porque vir do meu pai que havia ganho tudo e eu começar e ir ao descenso…”.

    Os platenses caíram ainda antes da rodada final daquele Clausura 1994, em empate em 3-3 com o Lanús. A torcida alvirrubra tratou de fazer a sua parte para tirar o peso dos ombros de tantos pratas-da-casa que sofriam a queda: o que seria mero cumprimento melancólico de rodada final no calendário teve direito a ovações com invasão de campo para abraçar os jogadores vitoriosos sobre o Racing por um 4-1. Mas o otimismo foi momentâneo até mesmo para Verón, segundo ele confessou na mesma entrevista de 2011: “estava para ir embora. Me lembro de que no primeiro treino depois éramos 60 ou 70, uma coisa de loucos. Pensei ‘aqui não jogo nunca mais’. Mas eles disseram que ficasse tranquilo aí arranquei com continuidade no Nacional B”.

    Enquanto os adultos afundavam, o sub-20 fazia bonito: Verón é o penúltimo jogador agachado no elenco campeão argentino dessa categoria na temporada 1992-93, anterior à queda do time principal

    O “Eles” a quem se refere eram duas figuras lendárias em Country Bell: os ex-jogadores Eduardo Luján Manera, do Estudiantes multicampeão da Libertadores nos anos 60, e Miguel Ángel Russo, do time que vencera os únicos troféus (até então) subsequentes àquele ciclo, no bicampeonato de 1982-83 – no qual o segundo deles fora conquistado justamente com Manera de técnico. Após pendurar cedo as chuteiras, ainda com 31 anos em 1989, após ter defendido somente o Estudiantes como jogador, Russo logo iniciara uma cigana trajetória como treinador. Quando voltou a La Plata, Russo já tinha a experiência de ter tirado duas vezes o Lanús da segunda divisão no início dos anos 90 e brigado fortemente pelo título da elite no Apertura 1993, embora já não fosse o técnico grená naquele fatídico 3-3.

    Outro jovem a sofrer a queda teve menos sorte que o protegido da casa. Era Martín Palermo, que por bem pouco não seguiu carreira em Tucumán tamanha a falta de espaço na época. E nem ali foi aproveitado; El Titán lembrou, também em 2011, que “me trouxeram cinco atacantes, e por isso quase fui emprestado ao San Martín de Tucumán. Eu mesmo até paguei a passagem. Estive duas semanas treinando, mas não pude ficar. Foi um baque terrível. Não restava outra alternativa senão esperar”. Russo se defenderia em 2003: “tem a ver os momentos dos jogadores. Não chamam Martín de El Loco pelos últimos cinco anos. Tem a ver com isso, com sua juventude, com suas coisas, estava de namoro com uma garota brasileira de quem depois se separou, ia e voltava do Brasil. Coisas de jovem que não critico, mas não estava maduro. Assim como me calhou que outros jogadores explodissem, com Martín não me calhou”.

    Mas Palermo acabou não fazendo mesmo falta. Os gols se dividiram generosamente entre outras duas crias da casa, embora a fama internacional de ambas seja menor. O armador Rubén Capria anotou 17, sobretudo no primeiro turno, enquanto 26 foram feitos por José Luis Calderón. Um dos maiores jogadores argentinos a jamais ter defendido a seleção, Capria (irmão do ex-atleticano Diego Capria, seu colega naquele Estudiantes como zagueiro reserva) não foi apelidado de El Mago à toa. “Tive chances de sair, mas Russo e Manera me pediram que ficasse. Foi um desafio, a certei. Foi uma das coisas mais dolorosas, mas o acesso foi a glória”. E se ele sentia o dever de ficar mesmo nunca tendo escondido sua paixão pelo San Lorenzo, o sentimento era ainda maior em Calderón.

    Pinchas antes do jogo da queda. Desorganização refletida nas camisas: em alguns, a listra central é a vermelha, e em outros é a branca. Calderón é o segundo agachado e Capria, o terceiro

    Calderón sempre foi pincharrata embora seja ironicamente filho de um fanático pelo rival, tendo até feito os infantis gimnasistas (“em 1994 tinha juntado minha primeira grana importante para comprar um apartamento. Meu velho vendia fruta em um carrinho e ele quebrou. ‘O que gostarias de fazer?’, lhe perguntei. ‘Um táxi seria ideal’, me disse. Fui, saquei a grana e lhe comprei o táxi. E colocou nele tudo do Gimnasia: almofadas, escudo, bandeirinha…”, lembrou em 2006). Caldera tinha proposta do Argentinos Jrs, requisitado por Luis Garisto, seu ex-técnico no Pincha. Recusou: “Luis, quero ficar para consertar isso, se não é uma mancha que não tiro mais”. Afinal, a divisão inferior não seria um território desconhecido a Calderón; tinha experiência prévia até na terceira divisão pelo Cambaceres, sucursal informal do Estudiantes: “todos os cortes que tive foram na Série C e na B”, explicava.

    O que era novo era a pressão que a camisa muito mais pesada do Estudiantes gerava: “muitíssima. Tinha que subir ou subir. A chave é que se armou um grupo bárbaro. Para mim, quando uma equipe consegue algo é porque está muito unida, se não é complicadíssimo”. Manera e Russo reforçaram os pratas-de-casa aprovados que ficaram com mais gente experiente tanto no continente como nas divisões de acesso. O primeiro caso era o de Juan José Llop, volante presente nas duas finais de Libertadores do Newell’s, em 1988 e 1992, e terceiro jogador com mais partidas pelo clube rosarino. Ele havia acabado de assinar novo contrato por lá, mas foi seduzido pela chance de entrar para a história de outro time e topou a proposta. Já o trio Mariano Armentano (terceiro na artilharia do elenco, com 10 gols), Leonardo Ramos e Andrés Galeano ao menos tinham sido testemunhas presenciais do Vélez campeão em 1994, de onde eram reservas vindos sob empréstimo.

    Se Russo soubera desatolar duas vezes o Lanús, um dos reforços era outro sujeito experiente em acessos: o uruguaio Luis Ernesto Sosa, campeão com o Chaco For Ever em 1989 e protagonista do acesso do Belgrano em 1991, quando a potência cordobesa enfim juntou-se à elite após passar os anos 80 como ausente de uma festa que reunia seus vizinhos Talleres, Instituto e o Racing de Córdoba. Outro proveniente do Belgrano foi o jovem goleiro Carlos Bossio. “Apostei [em jogar a segunda divisão], mas também passei a receber o triplo [do que o Belgrano me pagava]. Além disso, Russo me ligou, se mostrou interessado, me disse que apostasse em subir e jogávamos a Supercopa”, relatou o goleiro à El Gráfico. A ousadia de Bossio foi das mais premiadas: não tardou a estrear na seleção mesmo atuando na segundona, algo raro. Bossio estreou justamente na primeira partida do ciclo de Daniel Passarella, ainda em 16 de novembro de 1994, e conciliou o título com o clube com a medalha de ouro nos Pan-Americanos de Mar del Plata, em março de 1995.

    Miguel Ángel Russo ainda como jogador nos anos 80 e seu técnico Eduardo Luján Manera. Juntos, formaram a dupla técnica campeã em 1995

    A seleção até mesmo custaria a Bossio viver a festa pelo acesso, pois há 25 anos ele estava servindo a Albiceleste, concentrado na África do Sul para um duelo no dia seguinte com os Bafana Bafana em Joanesburgo pela Copa Nelson Mandela. Do time rebaixado, “ficamos El Rusito Prátola, Rubén Capria, París, eu e alguns garotos, depois vieram Russo e Manera, trouxeram reforços potentes como Bossio, Llop, Ramos, La Bruja (Verón) explodiu e subimos”, resumiu Calderón. Apesar dos desfalques de Bossio para a seleção, o time-base campeão teve ele no gol Llop de zagueiro central acompanhado nos flancos por Edgardo Prátola e Ricardo Rojas (argentino que atuava no Paraguai pelo Libertad e terminaria se naturalizando para a Albirroja em 1997); à frente, Leo Ramos e Verón faziam uma dupla de cabeças de área, com Claudio París e Manuel Santos Aguilar preenchendo respectivamente os lados direito e esquerdo do meio-campo. Capria era o meia-armador para a dupla ofensiva Calderón e Armentano, em um 3-4-1-2.

    Curiosamente, o primeiro compromisso oficial após a queda na temporada 1993-94 foi por um torneio continental. É que a segunda divisão de 1994-95 começou no mesmo fim de semana da última rodada da primeira divisão da temporada anterior, no fim de agosto; assim, o time rebaixado entrou em campo primeiramente para enfrentar o Flamengo em 13 de setembro, fora de casa. Como campeão da Libertadores, o Pincha tinha vaga cativa na Supercopa, o extinto torneio que reuniu entre 1988 e 1997 os vencedores de La Copa. Partida que rendeu uma anedota à parte: isso porque a pindaíba institucional do Estudiantes era tanta que na temporada do rebaixamento não era incomum os jogadores usarem camisas de marcas, patrocínios e/ou desenhos diferentes entre si. Para aquele compromisso, Verón teve que jogar com meias alvinegras adquiridas às pressas em algum shopping no Rio de Janeiro. Com um improviso desses, os argentinos seguraram um 0-0 e Russo descreveu que Verón soube jogar como se estivesse “no pátio de casa. Não saiu nunca mais. Tem genes distintos”.

    Mas então veio o bafo do “mundo ascenso” em 18 de setembro, quando o time, de volta do Rio de Janeiro, recebeu em casa o Chacarita. Era um jogo já válido pela quarta rodada, embora só ali os novatos estreassem na Primera B – os compromissos que o Estudiantes teria pelas três primeiras foram adiados. Mesmo em La Plata, o Chaca abriu o placar e os anfitriões não sabiam reagir. No intervalo, Russo então lhes deu “as boas vindas” na nova categoria. Em depoimento hoje ao jornal Tiempo, Capria reconheceu: “estávamos muito preocupados e o técnico nos tirou responsabilidades, nos disse algumas coisas da sua experiência e isso nos serviu para olhar à frente e seguir adiante”. Armentano empataria e em 24 de setembro o time arrancou um 2-1 fora de casa sobre o Deportivo Laferrere, gols de Alejandro Méndez e Capria antes de, três dias depois, eliminar da Supercopa o Flamengo com um 2-0 em La Plata – gols de Javier Ferreira e Méndez.

    O primeiro jogo do Estudiantes na temporada da segundona foi contra… o Flamengo mesmo, pela Supercopa. Com meias alvinegras adquiridas no improviso no Rio de Janeiro

    Em 1º de outubro, ainda em La Plata, o Estudiantes ficou no 1-1 com o Atlético Tucumán, em outro gol de Ferreira. Ainda conciliando os campos esburacados do acesso com a Supercopa, em 5 de outubro os platenses encararam o Cruzeiro. E Verón marcou o gol da vitória por 1-0, muito antes de referendar-se como carrasco dos mineiros. No dia 8, Capria marcou o único gol do duelo fora de casa contra o Colón. O jogo que ele e colegas teriam pela oitava rodada terminou adiado, mas ainda assim terminaram caindo em 12 de outubro por um categórico 3-0 em Belo Horizonte na volta contra o Cruzeiro – em noite onde Verón foi infeliz contra Dida na hora de cobrar um pênalti ainda no primeiro tempo. Capria sacudiu a poeira ao marcar o único gol em novo triunfo fora de casa 72 horas depois, contra o Quilmes. Com o foco centrado na segundona, o time emergiu cedo entre os primeiros mesmo com quatro jogos atrasados.

    Em 22 de outubro, a primeira goleada, um 4-0 sobre o Central Córdoba. Três dias depois, enfim, o time cumpriu com atraso o jogo da primeira rodada, ficando no 2-2 com o Instituto mesmo dentro de Córdoba. No dia 29, Santos Aguilar marcou o único gol de bom resultado seguido fora de casa, contra o Godoy Cruz. Invencibilidade renovada com 1-1 com o Douglas Haig em Pergamino em 5 de novembro. Em 9 de novembro, foi a vez de um 4-1 no All Boys, partida que rendeu o primeiro gol de Verón na segundona; Calderón marcou outros dois e Leo Ramos, mais um. A primeira derrota veio no compromisso seguinte, que já era o 11º jogo da campanha, embora fosse válido pela 14ª rodada: em 13 de novembro, o Deportivo Morón triunfou em casa pela contagem mínima – Bossio estava com a seleção, estreando pela Albiceleste 72 horas depois com um 3-0 sobre o Chile dentro de Santiago.

    Em 18 de novembro, o Estudiantes já estava pronto para emendar uma sequência invicta ainda maior, batendo por 1-0 o Almirante Brown em La Plata. No dia 26, arrancou em Salta um 1-1 com o Gimnasia y Tiro. E no dia 30 foi a vez de cumprir com atraso o jogo da segunda rodada. Atraso pago com juros: 4-0 sobre o Sportivo Italiano, em show da dupla Capria (um gol) e Calderón (dois), com Ferreira completando. Em 3 de dezembro, Calderón marcou o único do encontro com o San Martín de Tucumán e no dia 10 foi a vez de ele anotar o único do duelo dentro de Santa Fe contra o Unión. Para as festas de fim de ano, o torneio pausou-se após a 19ª rodada, com o Pincha batendo novamente pela contagem mínima (Prátola, de pênalti), dessa vez contra o Los Andes. Mas enquanto os oponentes descansavam houve tempo para o Estudiantes cumprir solitariamente sua terceira rodada, embora o placar em La Plata contra o Nueva Chicago ficasse zerado.

    Verón contra o Sportivo Italiano

    Retomado na última semana de janeiro, o torneio recomeçou com toda a voracidade do favorito: Capria e Ramos marcaram duas vezes cada e Calderón, outra, em um 5-1 sobre o Arsenal dentro de Sarandí, em 28 de janeiro. Antes da 21ª rodada, o líder enfim cumpriu seu último jogo atrasado, válido pela 8ª. Mantendo todo o gás: em 1º de fevereiro, aplicou um 3-0 no Talleres, com gols de Calderón e dos dois irmãos Capria. Seguiu-se nada menos que mais dez jogos com invencibilidade: 3-1 no Atlético de Rafaela, 1-0 no Instituto, 1-1 fora com Sportivo Italiano, 4-1 no Nueva Chicago, 2-2 fora com o Chacarita, 5-0 no Laferrere, 3-0 fora no Atlético Tucumán, 5-1 no Colón, 3-1 (com três de Calderón) fora sobre o Talleres e 2-2 com o Quilmes. Já era a 31ª rodada quando o líder disparado voltou a perder, na única goleada sofrida – o Central Córdoba venceu por 3-0. Armentano então marcou os três gols do triunfo de 3-1 sobre o Godoy Cruz e os dois do 2-0 sobre o Douglas Haig.

    O título e acesso direto (só destinado ao campeão, na época) era já uma questão de espera, retardada um pouco pela terceira derrota, de 3-1 para o All Boys na 34ª. Depois dela, os platenses só voltariam a perder na rodada final, com a festa garantida desde muito antes. Primeiramente, Armentano, Verón e Santos Aguilar assinaram o 3-0 no Morón. E depois o Almirante Brown foi surrado em casa por um 4-1 distribuído entre Calderón, Capria, Santos Aguilar e Armentano. Na rodada seguinte, o título veio. Se não era possível o gostinho de enfrentar o rival local, que ainda por cima corria pelo título da elite, ficou o gosto de bater outro Gimnasia. Aproveitando a sobra de um escanteio, Calderón marcou o único gol sobre a equipe de Salta. E os campeões não arredaram o pé, seguindo a trajetória com um 3-2 fora de casa no San Martín, um 1-1 com o Unión, um 1-1 fora com o Los Andes e uma vitória de 3-2 sobre o Arsenal para então se despedirem de vez da segundona caindo por 1-0 contra o Atlético de Rafaela, já em 17 de junho, mais de um mês depois do título comemorado naquele 12 de maio.

    Ao todo foram 11 pontos de vantagem, na última temporada em que a vitória ainda valia 2 ao invés de 3 pontos – construídos com 86 gols a favor e só 34 sofridos ao longo de 42 rodadas, onde em apenas quatro o campeão foi derrotado, e sempre fora de casa. Campanha que empolgava até o goleiro reserva Gastón Sessa, como se vê na foto que abre a matéria, onde é o último jogador em pé – El Gato já era àquela altura um reconhecido torcedor gimnasista “infiltrado” desde a juventude nos alvirrubros. Mas àquela altura de meados de junho não havia tanto clima de festa em Country Bell. O técnico Russo logo se mandou, justificando que “o clube tinha muita pouca capacidade gerencial e tinha que lutar muito. Houve um grande desgaste, duras brigas pelos reforços que nos traziam. E não dava mais”.

    Verón e Calderón à esquerda na volta olímpica

    E além disso a grama do vizinho parecia muito mais verde: em 18 de junho, um dia após o Pincha encerrar sua participação na segundona, o Gimnasia assumia a liderança da elite na penúltima rodada. E a cidade de La Plata terminaria mesmo duas vezes campeã naquele 1995. A primeira foi há 25 anos com o Estudiantes e a outra coroou um vencedor inédito. Que saiu em agosto, sendo o La Plata Rugby, o representante platense no torneio da bola oval. Clube que inclusive nasceu como departamento de rúgbi do Gimnasia, precisando virar uma instituição independente diante da imposição ferrenha pelo amadorismo pregada pela federação nacional do outro esporte bretão, ciente do profissionalismo gimnasista na bola redonda. O rival do Estudiantes cometeria dentro da própria casa uma das maiores entregadas já vistas na Argentina em 25 de junho, história à parte que apenas clareia mais os sorrisos nada amarelos dos alvirrubros sobre aquele ano.

    O sucesso estrondoso na segunda divisão teve logo um efeito reverso. Verón iria ao Boca e Capria, a um Racing que no segundo semestre sonharia com o título ao ultrapassar na antepenúltima rodada o próprio líder Boca com um 6-4 dentro da Bombonera – na tarde da vida de El Mago, autor de três gols nos narizes de Maradona e Caniggia. Mas havia mais coisas boas reservadas à torcida pincharrata para o resto do ano. Como ganhar de 3-0 o primeiro Clásico Platense após o acesso, com Calderón enfurecendo o pai ao girar duas vezes sua camisa, uma para cada gol que marcou – onze anos antes de, tendo rodado por Independiente, seleção e Napoli, marcar mais três na maior goleada da rivalidade, o 7-0 integrante da primeira campanha campeã da elite desde 1983. Caldera ainda levantaria pelo Arsenal a Sul-Americana de 2007 antes de regressar à casa como reserva na conquista da Libertadores de 2009.

    Se há alguém capaz de competir com Verón como filho pródigo, é dono da artilharia da segundona de 1994-95 que pôde emendar nova artilharia já com a do Apertura 1995, na reestreia na elite. Mas no depoimento publicado hoje no Tiempo, ele refletiu sob outra perspectiva: “as estatísticas foram boas. Mas o logro mais importante é que se meteu no coração das pessoas. No futebol agora se é fanático por estatísticas, mas por exemplo eu não sei nenhuma estatística de Maradona. Deve ter jogadores que têm números melhores que Diego, mas ninguém lembra deles. Maradona se meteu no coração. E isso é o que vale, também para aquela equipe de 1995”.

    O acesso reportado pela revista El Gráfico: Ramos, Calderón, Prátola, Aguilar e Armentano desafogam
    https://twitter.com/EdelpOficial/status/1260336449834057736
  • Atlanta 1960: o primeiro grande azarão campeão do futebol argentino

    Atlanta 1960: o primeiro grande azarão campeão do futebol argentino

    O Atlanta campeão em 1960 tinha Carlos Griguol e Néstor Errea no elenco, nomes que marcariam o futebol argentino depois.

    Atlanta em 1959: Norberto De Sanzo, Carlos Griguol, Néstor Errea, Oscar Clariá, Rodolfo Bettinotti e Marcelo Echegaray; Mario Griguol, Luis Artime, Salvador Calvanese, Osvaldo Zubeldía e Walter Roque

    Sumido da elite desde 1984, natural que o Atlanta sempre exalte sua maior conquista no futebol, há exatos 60 anos. Mas é um desleixo as lembranças à Copa Suécia se resumirem à única estrela bordada no distintivo do pequeno clube do bairro portenho de Villa Crespo. Afinal, aquele elenco do Bohemio germinou, direta ou indiretamente, peças vitais para quem adiante venceu a liga nacional por outros times “fora do eixo”, a Libertadores e a própria Copa do Mundo. Além de fazer do clube o primeiro não-grande a levantar um troféu profissional da AFA em disputa corrida com todos os times da primeira divisão.

    Uma prévia disso foi dada anteontem, no especial dedicado ao goleiro em campo pelo lado vencedor naquele 29 de abril de 1960, o ex-vascaíno Néstor Errea – ele próprio titular do Boca vice da Libertadores em 1963, semifinalista com o Peñarol em 1967 e campeão pelo Estudiantes na edição de 1970, a última do tri seguido do time de La Plata. Já ali contextualizamos a força que o Atlanta vinha exercendo no fim dos anos 50. O time tentara dar seu primeiro salto em 1947, ao contratar treze reforços estrelados, principalmente da poderosa La Máquina do River: o arrojado goleirão peruano José Soriano, o eficientemente ambidestro ponta Aristóbulo Deambrossi, Eligio Corvalán e a mais badalada, o atacante Adolfo Pedernera, exaltado por Alfreo Di Stéfano como maior jogador que vira. Detalhe: seriam 14 o número de reforços se o clube efetivasse a contratação de um certo uruguaio de sobrenome Ghiggia, desaprovado após um único amistoso.

    O elenco continha ainda um defensor titular na Copa América vencida pela Argentina em 1946 (León Strembel) e o veterano ex-vascaíno Bernardo Gandulla, antigo artilheiro de Boca e Ferro Carril Oeste. Mas, incrivelmente, aquele supertime terminou rebaixado. Foi o primeiro descenso bohemio, um dos últimos times chicos a caírem; até mesmo Vélez e Argentinos Jrs, hoje expressivos até continentalmente, já haviam experimentado o descenso antes, assim como o arquirrival Chacarita, o Quilmes, Rosario Central, Tigre, Banfield, Gimnasia LP e Ferro Carril Oeste. Em 1949, o tapetão devolveu o Atlanta à elite, aproveitando-se do grande êxodo de craques ao Eldorado Colombiano. Mas o time tornou a cair em 1952. Para voltar à elite no campo, socorreu-se em Victorio Spinetto. Sob ele, o acesso veio em 1956 e a manutenção de categoria, em 1957.

    Bem, se parte do contexto do Atlanta foi relembrado anteontem na nota sobre Errea, a de ontem (sobre os 50 anos de Diego Simeone) apresentou o tal Spinetto como o técnico do time dos sonhos que elegemos para o Vélez nesse 2020. Foram mais de dez anos seguintes à frente de La V Azulada, desatolando-o da segundona (e da beira da própria extinção) em 1943 e levando-o ao vice-campeonato em 1953 – campanha onde um de seus pupilos foi o meia-direita Osvaldo Zubeldía, trazido para o Atlanta também já como um veterano. Como treinador, Zubeldía levaria ao Estudiantes tri da Libertadores de 1968-70 os ensinamentos deixados pelo mestre Spinetto em jogadas ensaiadas e em aproveitar brechas regulamentares para fazer frente aos cinco grandes. Ingredientes que por sua vez seriam repassados ao pupilo Carlos Bilardo, volante daquele elenco de La Plata e técnico da Argentina campeã de 1986.

    Lance da estreia impiedosa: 4-1 no River em pleno Monumental de Núñez

    Outro nome histórico dentre os técnicos argentinos cultivados no bairro de Villa Crespo na época foi o de Carlos Griguol, então volante que treinaria o Rosario Central vencedor de 1973 e, sobretudo, os únicos títulos do Ferro Carril Oeste na elite (feio mas muito eficaz em 1982 e em 1984) e os vistosos momentos do Gimnasia LP vice em 1995 e 1996 – sendo eleito por nós para o time dos sonhos da equipe do bairro de Caballito e também da outra paixão de La Plata. Ferro que chegou a contar também com o preparador físico Adolfo Mogilevsky, um dos pioneiros da área (com muitos créditos no Banfield de 1951, quase o primeiro time pequeno a vencer a liga argentina profissional), outra cara daquele Atlanta da virada dos anos 50 para os 60.

    Quer mais um nome seminal da tática e da preparação física do que se viu no futebol argentino dos anos 60 aos 80? O treinador que ergueu a taça de vidro da Copa Suécia há 60 anos foi Manuel Giúdice, que em 1964-65 conquistaria com o Independiente as duas primeiras Libertadores do Rojo e do país. Torneio levantado também por outras figuras formadas pelo Bohemio, com o Nacional uruguaio (em 1971) e o Boca (no bi de 1977-78) conseguindo-o pelas primeiras vezes sob o respectivo protagonismo do superartilheiro Luis Artime e do sucessor de Errea no gol bohemio, Hugo Gatti – que viria a ser também o recordista de jogos no campeonato argentino e único goleiro aproveitado pela seleção vindo tanto do River como do próprio Boca.

    Mas voltemos a fita. Após os grandes craques argentinos terem atravessado o Rio da Prata para disputar a Copa de 1930, a Albiceleste cometeu diversos erros históricos pelos mundiais seguintes. Em 1931, seus principais clubes – dentre eles, o Atlanta – romperam com a associação oficial perante a FIFA em prol de um campeonato mais interessante financeiramente. A associação só foi ceder em 1935 ao fato consumado, se deixando absorver pela liga profissional para criar a atual AFA. Mas isso se deu tarde demais para a seleção ser devidamente representada no Mundial de 1934, para o qual só atletas formalmente amadores (e mais fracos) foram enviados à Itália; os cartolas da liga profissional temiam não ver a cor do dinheiro caso suas estrelas fossem cooptadas pelos europeus, tendo em vista o caráter “pirata” da liga até então. E a bola nela seguiu rolando normalmente.

    Então, de 1938 a 1954 a ausência se deveu por politicagens da própria AFA, que primeiro retaliou ter perdido para a França a condição de sede em 1938, crente de um dever moral de alternância entre América e Europa na recepção do torneio; em 1950, as relações estavam rompidas com a CBD desde as cenas lamentáveis na Copa América de 1946, e havia temor de vexame diante do recente êxodo de grandes craques para uma outra liga pirata, a daquele Eldorado Colombiano – fator que pesou para o próprio presidente Perón vetar a participação hermana também na Copa de 1954. A seleção sequer participou das eliminatórias a esses três mundiais e, tal como em 1934, a bola seguiu rolando normalmente.

    Recordista de jogos pelo Atlanta, Bettinotti foi um dos dois em todas as partidas do clube na Copa Suécia, chegando à seleção – que recebeu ainda os primos Carlos e Mario Griguol, os outros retratados

    Para 1958, enfim, a maior campeã continental voltaria em peso à Copa do Mundo, trazendo um problema praticamente inédito aos grandes clubes: embora o Mundial se desenrolasse entre 8 e 29 de junho, o longo de junho, desde a segunda quinzena de março os times estariam desfalcados dos convocados, concentrados para a série de amistosos pré-Copa – que começaram em 16 de março contra a seleção da liga de Mendoza, seguindo contra a de San Juan (dia 19), o Uruguai (6 de abril), a seleção provincial de Paraná (13 de abril), o Paraguai (20 de abril e 26 de abril), novamente o Uruguai (30 de abril), o Colo-Colo (4 de maio), a seleção do sul da província de Buenos Aires (11 de maio), e, já na Europa, a Internazionale (21 de maio) e o Bologna (29 de maio) antes da estreia na Suécia no próprio dia 8 de junho.

    O campeonato argentino de 1958 começou em 23 de março, mas foi pausado após a terceira rodada, entre 3 e 6 de abril, antes do ciclo mais sério de amistosos – com o Atlanta inclusive somando três vitórias seguidas de 2-1. Para manter os clubes em atividade (física e financeira) frente a uma situação a qual não estavam acostumados, a AFA então idealizou um torneio com as mesmas equipes da primeira divisão, separadas em dois grupos, com seus líderes travando a finalíssima após turno e returno no interior das chaves. Cada grupo deixou rivais separados: o A continha Boca, Estudiantes, Huracán, Newell’s e Racing, além de Tigre, Vélez e o Central Córdoba de Rosario, sem seus respectivos rivais na elite. Já o grupo B continha respectivamente River, Gimnasia, San Lorenzo, Rosario Central e Independiente, além de Lanús, Argentinos Jrs e… o Atlanta.

    Ao menos 11 das 14 rodadas poderiam ser disputadas até 29 de junho, data agendada para a final do Mundial. Em referência a ele, o torneio foi denominado de Copa Suécia – cujo Embaixador na Argentina, Carl-Herbert Borgenstierna, providenciaria o troféu. E o Atlanta estreou em 20 de abril com um triunfo ressonante. Sem nenhum desfalque para a seleção, o Bohemio goleou por 4-1 dentro do Monumental um River sem sete convocados: o goleirão Amadeo Carrizo, a dupla de zaga Federico Vairo e Alfredo Pérez, o volante Néstor Rossi, os meias Eliseo Prado e Norberto Menéndez e o ponta Roberto Zárate, que adiante terminaria cortado e seria substituído na lista por outro millonario, um veteraníssimo Ángel Labruna.

    Ainda disponível, Labruna participou da goleada na escalação Orfeo Cortés; Julio Venini, Raúl Hernández; Oscar Mantegari, Juan Urriolabeitía, Pascasio Sola; Rodolfo Micheli, Miguel Ángel Rodríguez, Juan Vairo (irmão do convocado Federico), Labruna e Héctor de Bourgoing (que, presente com a Argentina na Copa América de 1957, iria à Copa de 1966 pela França das raízes). A escalação vencedora, por sua vez, foi alinhada por Victorio Spinetto com Ángel Rocha; Oscar Clariá, Marcelo Etchegaray; Norberto De Sanzo, Carlos Griguol, Rodolfo Bettinotti; Alberto Dezorzi, Osvaldo Güenzatti, Salvador Calvanese, Osvaldo Zubeldía e Mario Katzman. Calvanese e Katzman abriram dois gols de vantagem, aos 4 e aos 37 minutos do primeiro tempo, respectivamente. Aos 3 do segundo, Calvanese ampliou. Vairo descontou aos 20, mas Güenzatti liquidou aos 28.

    Goleiros: com direito a pênalti defendido aos 40 minutos do segundo tempo, Ángel Rocha pôs o Atlanta na final, justamente a única partida de Néstor Errea na campanha

    Em 27 de abril, o Bohemio recebeu o Independiente, desfalcado do lateral David Acevedo, do volante José Varacka e do ponta Osvaldo Cruz (campeão com o Palmeiras da Taça Brasil em 1960). A única alteração em relação à estreia foi Juan Asprela no lugar de Griguol e, novamente, os atacantes auriazuis somaram quatro gols no placar. Sesti abriu o marcador para o Rojo com dez minutos em Villa Crespo, mas já aos quinze Dezorzi empatou antes de Calvanese começar seu show, virando aos 35. Bonelli empatou aos 38, mas ainda aos 43 os anfitriões comemoraram novo gol de Calvanese, que anotou sua tripleta aos 12 do segundo tempo. Placar final, 4-2. Em 4 de maio, a mesma escalação goleadora contra o Independiente então visitou o Lanús, desfalcado pela seleção no zagueirão José Ramos Delgado (futuro ídolo santista) e no tanque Alfredo Rojas.

    Mas os grenás tinham consigo outro futuro argentino da seleção francesa (Ángel Rambert, pai de Sebastián Rambert, figura do Independiente noventista e última transferência direta entre Boca e River até hoje) e souberam prevalecer pelo placar mínimo – ainda que por conta de um gol contra de Clariá. O segundo revés seguido deu-se em 11 de maio. Spinetto trocou outra peça em relação ao jogo anterior, inserindo o meia Mario Griguol (primo do volante Carlos) no lugar de Güenzatti. A mudança foi premiada, mas a vitória não veio em Villa Crespo em um jogo frenético nos primeiros e nos últimos minutos: Dezorzi abriu o placar com 8 minutos, mas aos 11 o Gimnasia, sem desfalques, empatou. Foi com Villegas, que virou aos 37. Mario Griguol então “contravirou” com gols no segundo tempo, aos 25 e aos 43, mas o estraga-prazeres Villegas teve tempo de alcançar a tripleta aos 44.

    Em 18 de maio, novo baque, na visita ao San Lorenzo, desfalcado de dois atacantes para a Suécia: Norberto Boggio e o maior artilheiro azulgrana, José Sanfilippo. De volta ao time, Güenzatti abriu o marcador em Boedo e Bettinotti ampliou com 15 minutos de jogo. Mas os donos da casa viraram para 4-2, com Herrera diminuindo aos 31 e empatando aos 7 do segundo tempo e Héctor Facundo anotando os dois seguintes – convertendo dois pênaltis, aos 16 e aos 33. Güenzatti ainda diminuiu aos 35, mas ficou-se no 4-3. O Argentinos Jrs não se viu desfalcado, mas não foi um problema para o Atlanta vencê-lo mesmo fora de casa em 1º de junho, em gol solitário do veterano Zubeldía aos 10 minutos do segundo tempo. Nem o Rosario Central tinha homens na seleção, sendo um páreo duro em Villa Crespo.

    Mottura, com dois minutos, pôs os rosarinos na frente e Mario Griguol empatou aos 12. Zubeldía virou aos 3 do segundo tempo, mas aos 4 os visitantes igualaram, com Rivero. Dezorzi, enfim, anotou o 3-2 e o 4-2, com gols aos 12 e aos 35 minutos. Em 8 de junho, os hermanos acordavam sob ressaca da derrota da seleção para a Alemanha Ocidental na estreia em gramados nórdicos, embora o revés para a detentora do título fosse compreensível. Começava o returno grupal e o River, já sem Labruna, visitou Villa Crespo com um time bastante diferente ao outrora goleado, especialmente na retaguarda: Luis Masuelli, Luis Pentrelli e Julio Nuín; Juan Carlos Malazzo, Henry Magri e Juan Urriolabeitia; Rodolfo Micheli, Hugo Zarich, Héctor de Bourgoing, Juan Vairo e Emilio Melón foram mais páreos. Güenzatti até abriu o placar com 7 minutos, mas a torcida local precisou resignar-se com o 1-1 alcançado por Melón aos 11 do segundo tempo.

    Cria do rival Chacarita, Güenzatti esteve em praticamente todo o ciclo, menos na final – por sua vez o único jogo de Alberto González, que marcou o último gol

    O compromisso seguinte foi uma semana depois, em 15 de junho. E àquela altura a ressaca nacional era muito maior. Foi o dia do “desastre de Suécia”, a goleada de 6-1 para a Tchecoslováquia, a eliminar precocemente a Albiceleste ainda na fase de grupos de seu primeiro mundial “para valer” desde 1930. O Atlanta soube segurar o 0-0 em Avellaneda contra o Independiente. O problema seria o interesse geral pelo torneio-tampão. Mas a vida seguiu: em 22 de junho, Zubeldía, aos 5 do segundo tempo, anotou o único gol no duelo em casa com o Lanús e Jesús Fernández fez aos 12 do segundo tempo o único no pega com o Gimnasia em La Plata no dia 29. O campeonato argentino então recomeçou, com o próprio Atlanta voltando a enfrentar o Lanús, agora pela quarta rodada, em 6 de julho (derrota de 4-2). O conflito de datas com a liga seria uma constante para a subsistência da Copa Suécia.

    O Bohemio fez mais três compromissos ao longo de julho pela liga (derrota em casa de 1-0 para o Vélez, triunfo de 3-0 sobre o San Lorenzo fora e um de 2-0 sobre o Newell’s) antes de um novo compromisso pela Copa: o San Lorenzo deu o troco, ganhando dentro de Villa Crespo por 2-0 em 6 de agosto, em jogo histórico para o futebol argentino – foi o primeiro da carreira de Carlos Bilardo, inclusive o autor dos dois gols azulgranas, que souberam triunfar mesmo enviado um elenco reserva, uma vez que esteve firme no páreo pela liga (terminaria a três pontos do título). O Atlanta, diga-se, também ia muito bem na liga em 1958. Foi um dos líderes do primeiro turno (“com um pouquinho mais de grana, seríamos campeões. Começaram as demoras para pagar e parece que não, mas isso atrapalha”, lamentaria o artilheiro Calvanese ao site Manicomio Bohemio) finalizando-a por sua vez a cinco pontos do campeão.

    Mas, entendendo a oportunidade copeira, usou seus principais jogadores no jogo seguinte pela Copa, só encaixado já em 8 de outubro. Afinal, era a penúltima rodada e o time liderava seu grupo. Um dos poucos novatos entre os titulares fez ali a sua estreia oficial no time adulto: Luis Artime. O matador só integrou a campanha naquela partida, mas deixou sua marca, com dois gols (aos 8 do segundo tempo e aos 42) de um 4-0 no Argentinos Jrs. Dezorzi, aos 10 do primeiro tempo, e Bettinotti, aos 35 do segundo, completaram a goleada. Restava um duelo direto contra o Rosario Central, com o Atlanta podendo empatar. Mas a partida tardou até 5 de janeiro de 1959 para ser realizada, já após a liga de 1958. Juan Castro, porém, aguou a festa bohemia, marcando aos 8 do primeiro tempo e aos 18 do segundo os dois gols da vitória rosarina, a igualar a pontuação dos dois clubes. O Racing, em paralelo, aguardava.

    O grupo do time de Avellaneda adiantara-se mais e fez a penúltima rodada ainda em agosto. Em 14 de dezembro, La Academia sagrou-se campeã da liga. E em 23 de dezembro, sapecou um 5-1 no Central Córdoba para garantir-se na decisão da Copa Suécia, a ponto de seu concorrente à liderança, o Newell’s, preferir o W.O. no compromisso final que teria já em 6 de janeiro com o Tigre. O Racing poderia vislumbrar a conquista de uma dobradinha, mas não seria tão simples forçar Atlanta e Rosario Central a um jogo-desempate nos escaldantes meses de pré-temporada. Até porque ambos ainda poderiam ser igualados na liderança pelo Lanús, que tinha pendente uma peleja com o Independiente. E em março a Argentina sediaria a Copa América, já com dois reforços do Atlanta: Güenzatti e Carlos Griguol. Ou melhor, três, pois o cargo de técnico foi exercido em triunvirato de Spinetto com José Bareiro (do San Lorenzo) e José Della Torre (do Racing e ex-jogador do America-RJ!). Ou cinco, pois Mogilevsky foi aproveitado como o preparador físico…

    Atlanta há 60 anos: o goleiro reserva Ángel Rocha, De Sanzo, Clariá, Carlos Griguol, Nuín, Errea, Bettinotti, preparador Mogilevsky e o técnico Giúdice; massagista Elías Yagodnik, Mario Griguol, González, Rodríguez, Bellomo e Walter Rocha

    Em 4 de abril, a Albiceleste sagrou-se campeã no empate com o Brasil campeão mundial, resultado visto na época como atenuador da mancha dos hermanos na Escandinávia. Com a liga argentina de 1959 começando em 4 de maio, no fim de abril agendou-se o desfecho do Grupo B, em partidas de luxo como aquecimento ao campeonato. No dia 26, o Lanús deu adeus às suas chances, derrotado por 3-1 fora de casa pelo Rojo – dois gols foram de Roberto Saporiti, que teria uma efêmera passagem pelo Atlético Mineiro antes de auxiliar César Menotti na comissão técnica da Copa de 1978. Três dias mais tarde, então, os dois líderes confirmados do Grupo B travaram o jogo-desempate. Somando uma vitória a mais, o Rosario Central atraiu a partida para a sua cidade, embora realizada na “neutra” cancha do rival Newell’s.

    O Atlanta teria técnico novo: com Spinetto na seleção, Juan Carlos Fonda foi o comandante que pôde, por sua vez, escalar reforços para a nova temporada, a exemplo do uruguaio Walter Roque. E este mostrou a que veio logo aos 3 minutos, ao abrir o placar. Mas o herói foi o goleiro Ángel Rocha, a pegar aos 40 minutos do segundo tempo um pênalti (após Bettinotti ter usado a mão na área) de Miguel La Rosa. O Bohemio estava na final, aguardada para o pós-temporada. Porém, uma nova Copa América foi agendada para dezembro, no Equador… por sinal, com três membros do Atlanta presentes: Bettinotti, Carlos Griguol e a revelação Errea, que tomara a vaga de goleiro a partir da décima rodada da liga, após lesão de Rocha.

    Nisso, a tardia definição da Copa Suécia foi procrastinada para 29 de abril de 1960, exatamente um ano depois do jogo-desempate entre Atlanta e Central. Muita coisa mudou em Villa Crespo. Zubeldía, por exemplo, pendurou as chuteiras em 1959, iniciando de imediato sua vitoriosíssima carreira de técnico – sem que Fonda emplacasse, o próprio Spinetto reassumiu interinamente o cargo antes que ele fosse preenchido em triunvirato interino por 15 partidas naquele ano com os jogadores Juan Carlos Colman e Ángel Rocha. E somente quatro jogadores do Atlanta usados há 60 anos haviam participado da estreia, dois anos antes: De Sanzo, Carlos Griguol, Clariá e Bettinotti, estes dois dividindo o recorde de partidas pelos campeões (estiveram em todos os dezesseis jogos, com Bettinotti detendo inclusive o recorde de jogos pelo clube).

    No ínterim até a final, presidência de Alberto Chissotti foi assumida em 1959 pelo principal cartola da história do clube, León Kolbowski, um polaco-lituano nascido no que hoje é a Bielorrússia e primeiro judeu a efetivamente assumir o cargo no clube que vinha sendo crescentemente abraçado pela comunidade israelita (aquele zagueiro León Strembel de 1947 já havia sido um exemplo disso, bem como o preparador Mogilevsky e o massagista Elías Yagodnik); o estádio que leva seu nome seria inaugurado em menos de um mês após o título, inclusive, no feriado nacional de 25 de maio. O cargo de técnico, por sua vez, já estava com Manuel Giúdice, que alinhou Errea; Clariá e Nuin; De Sanzo, Carlos Griguol e Bettinotti; Mario Griguol, Alberto González, Domingo Rodríguez, Roberto Bellomo e Walter Roque.

    “Dois anos e nove dias depois”, ressalta a El Gráfico sobre o título. As duas fotos superiores mostram as duas camisas usadas pelo Racing – a da direita é o lance do gol de Bellomo

    Pela frente, diante da arbitragem de Elías Duval Goicoechea, um poderoso Racing que (usando uma camisa reserva azul-marinho com três listras horizontais simulando a bandeira argentina no primeiro tempo), conservava a base campeã em 1958 e vice em 1959 – e que voltaria a ser campeã em 1961: Osvaldo Negri; Norberto Anido e Juan Carlos Murúa; Néstor de Vicente, Vladislao Cap e Julio Gianella; Manuel Murúa, José María Ferrero, Juan José Pizzuti, Rubén Sosa e Raúl Belén. Outro sinal das mudanças naturais de um torneio que atravessou três anos e duas temporadas (acarretando desinteresse escancarado nas arquibancadas do estádio neutro do San Lorenzo, onde só 8.300 pagantes compareceram há 60 anos) é que o primeiro herói de 60 anos atrás foi o zagueiro Nuín, ele próprio ex-adversário do Atlanta na campanha – naquele segundo jogo contra o River. Uma perfeita cobrança de falta dele aos 12 minutos encontrou as redes do arqueiro racinguista Negri.

    O título ganharia ares de epopeia a partir de uma distensão muscular de Mario Griguol aos 24. Na época, as substituições eram autorizadas apenas para goleiros e os azarões precisaram jogar com dez homens por 66 minutos. Mas quem marcou outro gol no primeiro tempo foi o Atlanta mesmo, com um cabeceio de Roberto Bellomo, aproveitando a zaga adversária parada. Negri deixou o Racing no intervalo para a entrada de Ataúlfo Sánchez: curiosamente, esses dois goleiros foram mencionados de modo contrastante no oscarizado filme O Segredo dos Seus Olhos, mas com a visão favorável se destinando “ao grande Negri” enquanto o eu-lírico não queria “terminar como Sánchez”. O Racing voltou dos vestiários trajando a tradicional e poderosa camisa alviceleste e Rubén Sosa, que obviamente não é o uruguaio, havia aproveitado rebote de Errea (que completara 20 anos de idade na antevéspera) para descontar aos 17 do segundo tempo.

    Mas aos 34 a fatura foi liquidada. Cap não afastou bem o estreante Alberto González venceu o tal Sánchez. O jovem ponta dali a dois anos viraria ídolo instantâneo do Boca, como seu Gonzalito que terminou aproveitado pela seleção na Copa de 1966. Mas ele estreara pela Albiceleste ainda como jogador do Atlanta, a exemplo de diversos outros campeões 60 anos atrás – como Errea (vendido ao Boca junto com González), o reserva Artime, Echegaray e Mario Griguol, por sua vez repassados ao River. E não foi preciso aguardar o desabrochar das revelações para que a conquista da Copa Suécia fosse vista de imediato como histórica: desde a implantação oficial do profissionalismo, em 1931, somente os cinco grandes – Boca, River, Racing, Independiente e San Lorenzo – vinham dividindo os troféus em disputa pelas equipes da primeira divisão. Huracán (ainda visto como grande também), Estudiantes, Newell’s e San Martín de Tucumán até puderam levantar nos anos 40 variadas copas, mas todas em formato mata-mata desde o início e quase nunca com todos os times da elite nacional.

    De ressaca, aqueles pioneiros despencaram para um 11º lugar no decorrer de 1960 e Giúdice foi substituído ainda naquele ano por Zubeldía, que relançaria o Bohemio para as cabeças até deixa-lo em 1965 rumo ao Estudiantes – justamente o clube que, sob seu comando, quebraria em 1967 o oligopólio dos cinco grandes também no campeonato argentino, feito que precedeu as conquista em série dos alvirrubros na Libertadores. Indiscutivelmente o maior técnico do time de La Plata, também escolhemos Zubeldía para o maior comandante do Atlanta na ocasião dos 110 anos do clube, em escalação que também teve Errea, Carlos Griguol e Artime como símbolos de um tempo em que a famosa broma autodepreciativa do ilustre torcedor judeu-argentino Juan Gelman (“sou Atlanta, mesmo que ganhe”) não era aplicável…

    Homenagem em 2009, com Jorge Kolbowski (filho do ex-presidente León Kolbowski), o apresentador Cecilio Flematti, os ex-jogadores Héctor Ruggiero, Bettinotti, Katzman, Mario Griguol, Carlos Griguol, Güenzatti e o preparador físico Mogilevsky (que, honrando a área, faleceu só as 99 anos, em 2012)

     

    https://twitter.com/atlantaoficial/status/1255487413323026435
  • Gimnasia La Plata: os 90 anos do único título na elite argentina

    Gimnasia La Plata: os 90 anos do único título na elite argentina

    O único título do Gimnasia La Plata teve Varallo, último sobrevivente da primeira Copa do Mundo, vestindo as cores alviazuis.

    Varallo, último sobrevivente da primeira Copa do Mundo: em sua época de Gimnasia LP e vestido nas cores alviazuis nos últimos dos seus cem anos de vida

    La Plata viveu horas de loucura coletiva. O trem em que vinham os jogadores teve que fazer a viagem lentamente porque os mais entusiasmados, para não perderem a recepção, se penduraram nas janelinhas, nas grades e até se fincaram no para-choque da locomotiva. Passada a estação Tolosa, já em cada porta, em cada janela e em todo sítio visível ao passo do trem, se haviam congregado os fãs para ovacionar os campeões” – Carlos Asnaghi, historiador do Gimnasia y Esgrima La Plata.

    Se ontem foi noite de Oscar, “foi há 84 anos” seriam outras aspas apropriadas para iniciar esse texto, suspiradas pela idosa Rose no megavencedor Titanic, em cena que virou meme para zombar de clubes em jejum. O caso do Gimnasia é tão complicado que a frase só não é literal porque foi ultrapassada. Ontem fez-se 90 anos da única conquista tripera na elite argentina. Como se não bastasse, nem sempre ela é reconhecida: ainda é comum mídia e público argentinos contabilizarem os troféus somente a partir do profissionalismo, oficializado em 1931… pois já vinha sendo realizado na prática naquela década de 20. O longo campeonato argentino de 1928, embora iniciado em abril daquele ano, só finalizou-se já em 30 de junho de 1929. Como a Argentina sediaria naquele ano a Copa América, foi adotado então o formato da Copa Estímulo, torneio frequente naquela década para manter os clubes ativos enquanto a liga se paralisava em função de torneios da seleção, que naturalmente drenava os principais jogadores.

    Nome histórico na Argentina, Minella (atrás dele, o futuro artilheiro palmeirense Echevarrieta) desfalcou o time da final: Ruscitti, Santillán, Di Gianno, Scarpone, Delovo e Belli; Curell, Varallo, Maleanni, Díaz e Morgada

    Assim, ao invés de pontos corridos entre todos os 35 clubes figurantes da primeira divisão, a federação dividiu-se em dois grupos para pontos corridos internos em turno único. Os líderes travariam então a decisão – que, vale ressaltar, colocaria em disputa o mesmo troféu normalmente oferecido aos campeões da liga – e que desfilou ontem no Bosque do Gimnasia, celebrado por familiares dos campeões há 90 anos. O grupo do time continha duas forças do amadorismo: o Huracán de Guillermo Stábile (meses depois, o atacante terminaria artilheiro da primeira Copa do Mundo), detentor do título anterior e campeão outras três vezes na década; e o Racing, duas vezes campeão nos anos 20 e outras sete (seguidas, um recorde) na década anterior – sua dupla de zaga Fernando Paternoster e José Della Torre, depois importado pelo America-RJ, seria a titular na seleção na primeira Copa. Mas quem mais deu trabalho foram o Lanús e o River, na época ainda distante da grandeza que viria a adquirir a partir dos anos 30 (não tivera nenhum jogador seu chamado à Copa, por exemplo). Em 17 jogos no seu grupo, os platenses venceram 14 e perderam os outros três (um 2-1 para o San Isidro, outro para o Atlanta e um 1-0 para o Racing).

    Das vitórias, destaque para o 4-0 no Platense, com dois gols de Martín Maleanni, um de Francisco Varallo e um de José María Minella; um 4-1 fora de casa no Estudiantes de Buenos Aires, gols de Minella, Varallo, Julio Di Gianno e Ismael Morgada; um 3-0 fora no Almagro, com um de Morgada e dois de Varallo; um 4-1 no El Porvenir, com três de Morgada e outro de Varallo. E também ao clássico de La Plata: o Estudiantes fazia campanha apenas mediana e resolveu não se apresentar a campo, dando a vitória ao rival por W.O. Dos jogadores mencionados acima, dois merecem menção especial: Varallo, que fez 20 anos apenas cinco dias antes da final, iria à Copa do Mundo; chegou a acertar a trave uruguaia na final quando os argentinos venciam por 2-1. Posteriormente, seria contratado pelo Boca, onde também seria ídolo, muito ídolo: foi por décadas o profissional com mais gols no clube e o segundo no âmbito geral, até Martín Palermo supera-lo em anos recentes. El Pancho depois se notabilizou como último sobrevivente da primeira Copa do Mundo, falecendo aos cem anos e ainda lúcido, em 2010.

    Boca ao ataque. Destaque para o salto do goleiro gimnasista Scarpone, à direita

    Pepe Minella não pôde disputar uma Copa do Mundo, mas ainda assim se fez presente na história do torneio: natural de Mar del Plata, batizou o estádio desta cidade a sediar a Copa de 1978. Minella, que depois se consagraria como técnico mais vezes campeão pelo River até o fim dos anos 70, estreou pelo clube justamente na primeira rodada e logo firmou-se, mas uma inoportuna lesão em dezembro tirou-o dos gramados por alguns meses; seu lugar seria reposto por Jesús Díaz na reta final e acabaria recuperando-se tarde demais por um lugar na Copa de 1930. Já sua ausência em Copas seguintes deve-se mais aos dirigentes do que por falta de capacidade: em 1934, só amadores foram enviados à Itália, e em 1938 os cartolas argentinos resolveram não participar em protesto pelo país ter perdido para a França o direito apalavrado de sediar o evento, fatores que também impediram novas participações de Varallo. Depois seria a vez da Segunda Guerra Mundial impedir novos mundiais até 1950.

    O Gimnasia terminou o grupo com apenas um ponto de vantagem sobre o River, mas na maior parte nadou de braçada. Poderia até ter garantido na penúltima rodada a vaga na final, quando veio a derrota para o Racing, proporcionando algum suspense. Na última, em 12 de janeiro, o artilheiro Morgada e Maleanni marcaram os dois gols sobre o Lanús e assim a vitória fora de casa do River no El Porvenir restou inútil. O confronto direto entre líder e vice-líder ocorrera ainda em outubro em La Plata, e Varallo acrescentou mais um motivo para ser ídolo no Gimnasia e no Boca, sendo autor do único gol na ocasião. A final não foi jogada de imediato: no outro grupo, Boca, que já vinha de um bivice seguido, e San Lorenzo terminaram igualados na liderança.

    Evaristo Delovo em ação. À esquerda, contra o goleador Cherro

    Embora os azulgranas do beque Luis Monti houvessem vencido o confronto direto, o critério de desempate seria mesmo um jogo-extra. Curiosamente, a única derrota sanlorencista havia sido para o Estudiantil Porteño, o clube de Atilio Demaría. Monti e Demaría seriam justamente os únicos jogadores presentes em seleções diferentes finalistas de Copa do Mundo, ambos pela Argentina em 1930 e pela Itália em 1934, embora só Monti costume ser lembrado pelo feito (pois Demaría não esteve em nenhuma dessas finais). O Boca, por sua vez, tinha quatro homens posteriormente convocados à Copa: o beque Ramón Muttis, o médio Pedro Suárez, o ponta Mario Evaristo e o atacante Roberto Cherro. Cherro era justamente o único que superava Varallo no âmbito geral da artilharia xeneize até Palermo superar a todos em 2010. Além deles, tinham consigo dois membros da seleção vice nas Olimpíadas de 1928, o beque Ludovico Bidoglio e o superartilheiro dos Jogos, Domingo Tarasconi, até hoje o sul-americano com mais gols no torneio olímpico. Outro destaque era o marechal paraguaio Manuel Fleitas Solich, que se notabilizaria como técnico em sua seleção e no Flamengo.

    O Gimnasia encerrou sua jornada no grupo ainda em 12 de janeiro de 1930 e pôde descansar, pois foram necessário nada menos que três jogos-desempates entre Boca e San Lorenzo. Tudo porque, no primeiro, empataram em 2-2 e os capitães de ambos, para as vaias da plateia, recusaram jogar uma prorrogação: o duro verão portenho naquele 19 de janeiro extenuara as equipes. No segundo, em 26 de janeiro, a história se repetiu, com novo 2-2 e saída conjunta de campo antes da prorrogação – o que fez a associação emitir-lhes um alerta: se houvesse novo empate no terceiro jogo, não teriam opção senão jogar o tempo extra. Em 2 de fevereiro, enfim, deu Boca, 3-1.

    Imagem de capa pós-título da El Gráfico, de 15 de fevereiro, com Varallo e Morgada, descritos como “os pontos mais altos da linha de ágeis do Gimnasia, campeão de 1929”

    Uma semana depois, enfim, jogar-se ia tanto a decisão, no estádio neutro do River, como uma partida pelo terceiro lugar entre o próprio River e o San Lorenzo, no campo do Racing. Os extenuados azulgranas preferiram não comparecer e perderam o bronze no W.O. Já os os auriazuis eram os francos favoritos: haviam se impulsionado como grandes naquela década; além do bivice seguido nos torneios de 1927 e 1928, haviam ganho seis campeonatos desde 1919 e empreendido de modo vitorioso em 1925 a primeira excursão argentina à Europa, batendo o Real Madrid e igualando-se com o Bayern Munique. Mas desde a manhã já havia um bom prenúncio ao Lobo: o campeonato de times B se realizou no mesmo dia entre os mesmos clubes, e o Gimnasia venceu, enquanto os auriazuis perderam até mesmo na final do campeonato sub-19, para o Huracán: “torcedores do Boca, anotem essa data: 9 de fevereiro de 1930. Não a esqueçam, e o dia em que tenham que fazer algo importante, se é 9 de fevereiro adiem o assunto. Essa data para vocês é como uma cruz: foram todos mortos”, analisou a revista El Gráfico. E isso que o elenco principal, após pressão platense nos 15 minutos iniciais, ia confirmando seu favoritismo.

    O Boca chegava continuamente ao arco adversário, fazendo do goleiro gimnasista Felipe Scarpone ser a grande figura do primeiro tempo, e terminou a etapa em vantagem após gol contra de Di Gianno aos 30 minutos. Essa pressão foi mantida até os dez minutos da etapa final. Foi quando o Gimnasia animou-se com um bate-rebate na área auriazul onde o gol foi evitado por muito pouco. O empate não tardou, saindo aos 17: Maleanni colocou com calma no ângulo bola cruzada por Morgada após este vencer a corrida com Pedemonte e Bidoglio pela linha de fundo. O Boca relançou-se à ofensiva, mas permitiu brechas a um contra-ataque que rendeu a virada aos 25: Morgada correu mais que Bidoglio e cruzou para Maleanni consagrar-se de vez como herói. Esforço não faltou aos favoritos, com Bidoglio lançando-se ao ataque e com apenas o goleiro e outro zagueiro permanecendo de sobreaviso na defesa.

    Morgada novamente, agora como capitão do Gimnasia antes das vitórias sobre Real Madrid (sim!) e Barcelona (sim também!) na primeira semana de 1931

    Os triperos se compactaram bem, para novas vaias da maioria do público – só 5 mil dos 45 mil presentes eram torcedores de La Plata. A própria El Gráfico também resmungou: “para muitos, o Gimnasia y Esgrima de La Plata não mereceu a vitória em seu match contra o Boca Juniors. O argumento que se esgrime, para fazer essa consideração, é o azar. O arco boquense passou por situações de iminente perigo e em duas delas os ágeis platenses lograram cristalizar seus propósitos. Boca, por sua vez, provocou iguais situações, embora em um maior número, sem conseguir. Em sortes iguais, o Boca deveria ter ganho”. Adiante, a pressão do Boca após a virada foi assim descrita:

    “A cerca de Scarpone ia cair em um momento ou outro. Parecia inevitável: mas as pessoas que a defendiam não se entregavam. Resistiam aos ataques e até ensaiavam cargas que chegavam a fundo porque não encontravam maiores obstáculos. O domínio boquense era evidente. Em síntese, essa foi a característica do match. O Boca superou seu adversário por sua defesa. Admitindo que as linhas ofensivas de ambos os teams fossem de igual capacidade, no que se refere às defesas a diferença foi favorável aos perdedores. Mais conscientes seus homens, removiam e apoiavam, enquanto que os adversários se concentravam a despejar as situações sem preparar as jogadas. Não contou essa defesa com figuras como as de Fleitas Solich e Bidoglio, que realizaram formidáveis performances, a ponto de ser o primeiro dos nomeados o melhor homem do field. Essa falta de jogo a supriram, em parte, com o entusiasmo que demonstraram em todo momento da luta, embora sem se porem ao tom com os adversários”.

    Outro Boca x Gimnasia, em 1931: agora Varallo reforçava os xeneizes e, sem comemorar, marcou quatro gols nos ex-colegas. À direita, ele com outro ídolo nos dois: Guillermo Barros Schelotto

    A revista, ao fim, se rendeu, mas com ressalvas destacando os trivices: “mas não se pode dizer que o Gimnasia y Esgrima tenha se classificado campeão por casualidade. Pode-se ganhar um jogo por sorte, mas não é possível chegar a uma final se não se houver creditado condições para isso. A lógica não está em um jogo, e sim em uma sucessão de jogos. Se em favor dos que chegam a uma final se podem verter juízos louváveis, o que corresponde ao Boca? Nenhum dos clubes que lhe avantajaram nos últimos anos pode vangloriar-se de ter estabelecido performances similares ao do Boca. Nenhum deles teve mais méritos para obter a vitória que vem perseguindo. Durante três anos, é segundo. Os demais, antes e depois de terem sido campeões, não puderem ser segundos”. De fato, o campeão de 1929 fora apenas 21º colocado em 1928 e terminaria 1930 apenas em 8º. Aquele título, porém, não tardou um ano para ser referendado de outro modo.

    Mesmo desfalcado de Varallo, emprestado ao Vélez para uma excursão pelas Américas, o Gimnasia não só repetiu na primeira semana de 1931 o feito do Boca de 1925 ao bater na Espanha o Real Madrid como também bateu o Barcelona. Nenhum time sul-americano havia ainda vencido ambos da dupla espanhola. Se não havia Varallo, havia de volta Minella, o artilheiro da uma excursão que contou inclusive com o empréstimo de Demaría – cujo desempenho no 3-3 contra a Inter de Milão credenciou-lhe para ser adquirido pouco depois por este clube. Ele anotou o primeiro gol, Díaz (que anotara em Real e Barça) fez o segundo e o terceiro foi da revelação Arturo Naón, que mais tarde viria a ser o maior artilheiro gimnasista antes de reforçar brevemente o Flamengo. Formava-se a base de El Expreso, elenco considerado o campeão moral do torneio de 1933, onde havia ainda o maior goleador estrangeiro do Palmeiras, Juan Echevarrieta. Título que faria falta também de modo extracampo: ao fim da década, a AFA instituiu que os clubes oficialmente grandes deveriam ter ao menos dois títulos na elite, vinte anos seguidos de participações nela e 15 mil sócios. Boca, River, Racing, Independiente e San Lorenzo cumpriam todos os requisitos. O Huracán cumpria os dois primeiros, mas não o último, ao passo que o Gimnasia cumpria os dois últimos (chegou a ser a instituição com mais sócios no país, inclusive), mas não o primeiro…

    Filha e neta de Varallo na semana passada, com a taça erguida há 90 anos pelo Gimnasia

    A grandeza não chancelada se desbotaria com o correr do tempo, com o clube se revestindo involuntariamente de um folclore repleto de azares. O mais recente deles, no sábado, contrastou enormemente com a efeméride do domingo: mesmo difundindo-se globalmente como clube treinado por Maradona, o time, em duelo direto contra o Patronato na luta contra o rebaixamento, sofreu em casa empate em 1-1 aos 39 do segundo tempo no minuto seguinte à perda de um pênalti. Já havíamos listado em 2016 a incrível coleção de fracassos do Lobo, cuja parca coleção de títulos no futebol (além de conquistas na segunda divisão, só ergueu-se a Copa Centenário já em janeiro de 1994, pelo elenco dos jovens gêmeos Barros Schelotto). A sofrida história alviazul, alegadamente mais numerosa em La Plata mesmo na descomunal concorrência de prateleiras com o Estudiantes, também já teve sua tradição representada no time tripero dos sonhos, eleito por nós também em 2016. Naturalmente, membros de 1929 estiveram presentes: Varallo, Minella e o lateral-esquerdo Evaristo Delovo, a serviço do clube daquele ano até 1941. Abaixo, a ficha técnica da decisão que venceram:

    Gimnasia LP: Felipe Scarpone, Julio Di Gianno e Evaristo Delovo, Vicente Ruscitti, Juan Santillán e Antonio Bielli, Miguel Curell, Francisco Varallo, Martín Maleanni, Jesús Díaz e Ismael Morgada. Boca: Alejandro Mena, Ludovico Bidoglio e Luis Strada, Américo Amoia, Manuel Fleitas Solich e Adolfo Pedemonti, Donato Penella, Francisco Kuko, Mario Evaristo, Roberto Cherro e Antonio Alberino. Gols: Di Gianno, contra (30/1º) e Maleanni (17/2º e 25/2º)

    https://twitter.com/gimnasiaoficial/status/1225509466331893761
  • River campeão invicto em 1994: o único da história do clube

    River campeão invicto em 1994: o único da história do clube

    O River campeão invicto em 1994 conquistou o único título assim da história do maior campeão argentino. O elenco trazia Crespo, Gallardo e Ortega.

    Crespo, Gallardo e Ortega dando a volta olímpica antes mesmo do pontapé inicial de 25 anos atrás:

    Nem a celebrada La Máquina dos anos 40 pôde, ou outros timaços clubes afora no futebol argentino. No profissionalismo, o River do Apertura 1994 foi só o 4º campeão invicto, após o San Lorenzo do Metropolitano 1968 e do Nacional de 1972 e do Ferro Carril Oeste do Nacional de 1982. Mesmo que o formato de turno único em tese facilite a missão, depois só o Boca do Apertura 1998 e do Apertura 2011 conseguiu o mesmo. Já saborosa de modo especial, essa conquista extra ainda veio no embalo do regresso em alto estilo de um ídolo: em plenos 33 anos de idade, Enzo Francescoli não se contentou em reger uma molecada talentosa como ainda foi o artilheiro do certame.

    O River já havia sido campeão em 1994, em março: foi ainda pelo Apertura 1993, disputado em 1993 até a 15ª rodada e retomado no fim de fevereiro de 1994 para a conclusão das quatro rodadas restantes. Não foi uma conquista muito marcada pelo primor técnico e sim mais pelo pragmatismo; inclusive, quem parecia ter pinta de campeão era o Racing, para quem a pausa foi especialmente inoportuna – em jejum nacional desde 1966, La Academia só empatou na 16ª (quando vencia por 2-0 o Ferro, reenergizado após o racinguista Mariano Dalla Líbera terminar expulso na comemoração do segundo gol blanquiceleste por tirar a camisa…) e na 17ª, levou de 6-0 do Boca na 18ª para enfim voltar a vencer na última, inutilmente: a gordura acumulada até então pelo sofrido time de Avellaneda era tamanha que ainda assim só terminou um ponto abaixo do Millo.

    Apenas uma semana depois do fim do Apertura 1993 (encerrado em 19 de março), a largada foi dada no Clausura 1994. A ressaca millonaria foi tamanha que os recém-campeões foram derrotados nas três primeiras rodadas e, de modo inédito no profissionalismo, chegaram a ocupar a lanterna após empatarem na 4ª. Então vieram um 4-0 em um Vélez prestes a vencer a Libertadores e um 2-0 sobre o Boca dentro da Bombonera, na atuação que teria garantido a Ariel Ortega uma vaga na Copa do Mundo em detrimento do seu marcador Carlos Mac Allister. O embalo alçou Núñez à liderança compartilhada à altura da 13ª rodada, mas foi fugaz e o clube terminaria o torneio em 5º, a cinco pontos do campeão Independiente, em um torneio finalizado no fim de de agosto. Nada que impedisse que o treinador Daniel Passarella saltasse dali para assumir a seleção argentina.

    Se o Clausura 1994, encerrado em 27 de agosto, começou uma semana após o torneio anterior, o mesmo repetiu-se para o início do Apertura 1994 – com o River a estrear já em 2 de setembro. A saída em curtíssimo prazo encontrada pelos cartolas foi convidar um homem que já estava na casa: seu ex-jogador Américo Gallego era justamente o assistente de Passarella desde o início do ciclo do Kaiser, em janeiro de 1990. E iria acompanha-lo também na seleção, mas aceitou sobrestar isto por quatro meses para ser o treinador do River especialmente para aquele Apertura. Gallego na realidade estreou ainda no Clausura, precisamente na rodada final, um 0-0 contra o Argentinos Jrs em Mendoza, onde o oponente vinha mandando seus jogos por força do contrato com um patrocinador.

    Mantendo a base deixada pelo amigo, Gallego teve como reforços para o Apertura o retorno de Walter Silvani (que voltava de empréstimo ao próprio Argentinos Jrs) e as compras do goleirão Germán Burgos junto ao Ferro e o regresso sebastianista de Francescoli do futebol europeu. Na primeira rodada, o magro 1-1 com o Lanús, que mandou o duelo na cancha do Independiente, escondeu uma quantidade incrível de gols perdidos pelo Millo. Hernán Crespo anotou o solitário gol da Banda Roja ali. Francescoli, por sua vez, voltaria após oito anos a marcar um gol cinco dias depois; não pelo Apertura e sim na disputa paralela da Supercopa, convertendo um pênalti em 2-2 com o Nacional – dando-se um gostinho especial, pois nunca negou ser torcedor do Peñarol.

    Fúria: Francescoli comemora o único gol do duelo contra o Ferro Carril Oeste. Foi o segundo dos doze anotados pelo Príncipe naquele Apertura, onde terminou na artilharia aos 33 anos

    Outro uruguaio em Núñez, Gabriel Cedrés fez o único gol do compromisso na segunda rodada em 11 de setembro, um 1-0 no Rosario Central. Seguiu-se então um 0-0 em La Plata com o Gimnasia no dia 17, intercalando-se com o reencontro com o Nacional pela Supercopa no dia 21: os tricolores haviam saído de Buenos Aires com um 2-2, mas perderam no Centenário por 1-0. Embalado, o River pôde triunfar em um movimentado 3-2 contra o Argentinos Jrs no dia 25: Crespo somou dois enquanto Francescoli deixou o primeiro dele pelo Apertura. El Príncipe emendou outro na rodada seguinte, o único do duelo com o Ferro, fora de casa, em 2 de outubro. Àquela altura, os holofotes do país logo voltaram à Supercopa: afinal, 72 horas depois era a vez de acompanhar-se um Superclásico. Sem vencer na própria casa o seu rival desde 1991, o River não fez valer o fator Monumental, em um dérbi sem gols. Esse jejum perduraria até 1999…

    Em 9 de outubro, o time recuperou-se diante de outro gigante: Silvani e José Luis Villarreal anotaram o 2-1 sobre um Independiente que, ainda embalado pelo título do torneio anterior, conciliava a própria Supercopa com a briga pela liderança naquele Apertura. Outras 72 horas depois, houve o reencontro do Superclásico pelo torneio continental. Francescoli deixou o dele na Bombonera em um empate em 1-1. Sem o critério do gol fora de casa, estavam forçados os pênaltis. O veterano ídolo converteu sua cobrança, a primeira dos visitantes, assim como todos os demais batedores – gerando uma pressão demasiada para o último da série normal. Sergio Berti, ex-Boca, desperdiçou e os auriazuis avançaram às semifinais. Não haveria maior espaço para lamentações: quatro dias mais tarde, era a vez de outro duelo chamativo pela frente, e fora de casa.

    O San Lorenzo vivia seu pior jejum àquela altura: eram 20 anos desde o título anterior na elite, seca que incluiu o primeiro rebaixamento de um gigante, em 1981. Reforçados pelo brasileiro Silas, a experimentar na Argentina uma adoração muito maior que seu prestígio na terra natal, os azulgranas fariam bonito naquele Apertura: seriam os vice-campeões, com chances matemáticas até a penúltima rodada contra um campeão invicto. E o Nuevo Gasómetro viu um 3-3 naquele 16 de outubro, onde os visitantes chegaram a abrir um 2-0 e depois um 3-1, em gols de Francescoli e dois do Cuqui Silvani. No dia 21, Hernán Díaz marcou o gol da casa no 1-1 com o Belgrano e no dia 29 foi a vez de Francescoli anotar de pênalti o único do encontro com o Racing, ambos no Monumental. Ele e Berti então marcaram no 2-1 fora de casa contra o Gimnasia de Jujuy, em 1º de novembro.

    Na maior parte do novo mês, porém, os resultados seriam tímidos: 0-0 em casa com o Banfield de Javier Zanetti no dia 6; 1-0 em Rosario sobre o Newell’s (gol de Berti) no dia 12; no dia 20, o Millo, mesmo com gols de Francescoli e Marcelo Gallardo (que, aos 18 anos, estreara pela seleção quatro dias antes, no primeiro jogo do ciclo Passarella), não saiu de um agridoce empate em 2-2 com o Deportivo Mandiyú: o resultado foi o suficiente para colocar o River na liderança isolada, mas viu-se o fator casa não servir contra o time então treinado por Maradona – que, em sua primeira empreitada como técnico, teve ali sua tarde de glória à frente da equipe de Corrientes, onde seria incapaz de conseguir mais resultados de relevo. O sorriso efusivo de Dieguito pareceu servir de estímulo, pois o River enfim arrancaria de vez, emendando cinco vitórias seguidas a partir dali. A mais sonora delas não poderia ser mais apropriada.

    Primeiramente, Francescoli (duas vezes) e Gallardo voltaram a marcar no dia 26, em 3-1 na visita ao Deportivo Español no estádio do Ferro. Novembro fechou-se com um 2-0 no Platense no dia 29 – o clube marrom, vale lembrar, vinha de um ótimo 4º lugar no Clausura, podendo inclusive privar-se de usar mais vezes seu jovem reserva David Trezeguet. Em 3 de dezembro, um 2-0 fora de casa em outra equipe de bom Clausura 1994, o vice Huracán (gols de Ariel Ortega e Gabriel Amato). Francescoli então marcou os dois de um 2-1 no Talleres no dia 6, convertendo um pênalti e acertando já no sexto minuto de acréscimo um belo cabeceio. O dia 11, por sua vez, renderia o terceiro Superclásico no semestre, agora pelo Apertura.

     

    Corti, Astrada, Altamirano, Ayala, Rivarola e Burgos, Hernán Díaz, Gallardo, Ortega, Francescoli e Berti na Bombonera, antes dos 3-0 sobre os rivais donos da casa

    O River não apenas saberia manter a invencibilidade lograda na Bombonera naquele ano: na penúltima rodada, o Millo sapecou um 3-0, aberto e fechado em pênaltis convertidos por Francescoli e Gallardo e emendado por um golaço Ortega – que, em outra tarde infernal contra o rival, também cavara o primeiro dos pênaltis. Foi justamente aquela a vitória mais elástica na campanha, uma revanche com juros da decepção na Supercopa – ainda que um novo triunfo em Superclásicos oficiais (isto é, não-amistosos) tardassem até o Apertura 1999 e que fosse preciso esperar até o Clausura 2002 (também por 3-0, por sinal, na tarde “da vaselina de Ricardo Rojas”) para voltar a vencer-se na Bombonera, o que só aumentou a aura daquela surra com direito a olé do setor das arquibancadas auriazuis colorido de vermelho e branco.

    Aquela temporada 1994-95 seria a última do futebol argentino na qual os pontos por vitória ainda valiam 2 pontos e não 3 e só por isso o San Lorenzo ainda mantinha chances: antes da rodada final, o concorrente ainda tinha por disputar um compromisso atrasado com o Newell’s, válido ainda pela 10ª rodada, mas possibilitado só naquele intervalo entre a penúltima e a última. O Ciclón precisava vencer aquele jogo e o último e torcer por uma derrota millonaria na rodada final. Mas não fez nada da sua parte, caindo por 2-0 em Rosario e permitindo ao River comemorar antecipadamente, pela televisão, mais um título. Mas se a taça já estava garantida desde o dia 15, restava a busca pela inédita invencibilidade. Em 18 de dezembro, Silas marcou duas vezes, sem evitar novo revés do Sanloré a rosarinos, agora para o Central (triunfante por 3-2 no Nuevo Gasómetro). As chances já haviam escorrido de antemão e os olhares focavam-se se a história seria feita no Monumental.

    O Vélez era o adversário derradeiro e ainda curtia seu título mundial, erguido no primeiro dia do mês. Tanto que o Fortín, ainda mantendo titulares, perdera de 3-1 para o ainda sedento San Lorenzo e só empatara em casa com o Belgrano nos dois compromissos seguintes à conquista sobre o Milan. A terceira seria o encontro com o River e o clima de férias merecidas foi escancarado por Carlos Bianchi, que escalou Sandro Guzmán, Cristian Acevedo, Héctor Banegas, Mauricio Pellegrino e Federico Domínguez; Walter Verón, Marcelo Herrera, Guillermo Morigi e Claudio Husaín; José Sánchez Moretti e Fabián Fernández – nenhum deles usado em Tóquio, ainda que um ou outro viesse a se firmar nos anos seguintes da dourada década velezana (sobretudo Pellegrino e Husaín e, um degrau abaixo, Domínguez e Morigi). Sabendo ou não que enfrentaria só reservas, o River escancarou o clima festeiro de antemão, dando a volta olímpica antes do jogo começar. Um clima festeiro mútuo: houve corredor de aplausos ao adversário, pela façanha velezana contra o Milan.

    Os donos da casa, claro, mandaram maciçamente seus titulares: a escalação inicial foi alinhada com Burgos (doze jogos na campanha), Ricardo Altamirano (dezesseis), Roberto Ayala (idem), Ernesto Corti (quinze) e Guillermo Rivarola (dezoito); Hernán Díaz (catorze), Leonardo Astrada (idem), Berti (também) e Gallardo (treze), Ortega (dezesseis) e Francescoli (idem). Sim, alguns nomes famosos daquele plantel ainda não estavam totalmente informados; Matías Almeyda foi usado dez vezes e Hernán Crespo, em apenas sete. E eles não seriam usados: Gallego acionaria do banco o goleiro reserva Javier Sodero – em seu oitavo jogo na campanha, ainda capaz de disputar a posição com o recém-chegado Burgos e trocaria Rivarola por Cedrés, presente em dezoito jogos, enquanto Ortega daria lugar a Amato, usado dez vezes.

    A garotada relegada do Vélez, por sua vez, queria mostrar serviço a Bianchi e Sánchez Moretti abriu o marcador logo aos 15 minutos de jogo. Foi preciso esperar até os 16 do segundo tempo para um empate suficiente para garantir o ineditismo da invencibilidade. Foi quando Berti fornecera o cruzamento para o gol salvador de Amato – curiosamente, ambos crias do Boca, sendo inclusive os dois primeiros campeões continentais pela dupla (Berti somaria a Supercopa 1989 com a Supercopa 1997, enquanto Amato levantara a Copa Master 1992 antes da Libertadores 1996). O 1-1 bastaria para o cântico de “Tolo, no se va” a Gallego fosse reforçado por 70 mil vozes no Monumental, a ponto de Passarella – presente na ocasião para receber uma placa também – abrir ao amigo a opção de permanecer em Núnez, desejo confesso da diretoria millonaria.

    Gallardo comemorando o pênalti de Francescoli e o seu próprio, com Almeyda, nos 3-0

    El Tolo Gallego declararia: “eu tinha mil fantasias. Sonhava em ser campeão. Mas, com uma mão no coração, isso não entrava nem no menor dos cálculos. E isso que o San Lorenzo mandou uma campanha bárbara. Senão, estaríamos festejando faz tempo. O River é um grande campeão. A excelente predisposição do plantel foi uma das chaves do êxito. Plantamos as coisas pouco a pouco, jogo a jogo. Inclusive, às vezes mudamos táticas e até jogadores segundo o rival. E os muchachos entenderam sem vedetismos que esse era o caminho. Porque tivemos humildade, vamos ficar na grande história do River”. De fato, as variações táticas do River de Gallego foram um dos pontos mais favoráveis ao Millo ressaltados pela El Gráfico já no início de 1995, ao promover um debate sobre o melhor time argentino de 1994 com os outros dois clubes (duas vezes) campeões no ano – o Independiente, do Clausura e Supercopa, e o Vélez da Libertadores e Mundial.

    Gallego também tratou de confirmar o que temiam: “disse um milhão de vezes. E estou cansado de repetir. Dei uma palavra e vou cumpri-la: vou à seleção. A grana não é tudo na vida”, no que Passarella elogiou: “disse ao Tolo que ele estava livre para continuar ligado ao River, mas ele preferiu abrir mão de dinheiro e vir trabalhar na seleção. Isso marca às claras que é um ser humano excepcional”. Após o ciclo na seleção, El Tolo reassumiria o River no primeiro semestre de 2000, faturando o Clausura e em breve faria mais história: após levar o Independiente à conquista do Apertura 2002 (ainda o último troféu argentino do Rojo) com o ataque mais positivo da história dos torneios curtos e fazer o seu Newell’s do coração ultrapassar no Apertura 2004 o rival em número de títulos argentinos, tornou-se só o segundo técnico campeão da elite nacional por três clubes diferentes.

    Há 25 anos, porém, a estatística mais vívida além da invencibilidade era a outra e coroava Francescoli – artilheiro com doze gols, do alto dos seus 33 anos. Naturalmente menos explosivo e menos veloz do que aquele artilheiro com 25 gols da temporada 1985-86, Francescoli compensava com mais panorama e ascendência acompanhando seu distinto talento sempre intacto. “Voltar assim, voltar e ser campeão não se dá todos os dias. A realidade superou, realmente, todas as fantasias que tinha quando se concretizou minha reincorporação ao River. Todos sabem que jogando no River sempre há mais possibilidades de sair campeão, porque no clube esse objetivo é como uma obrigação. Mas isto é algo inesquecível”, proferiu na saída do gramado naquele 18 de dezembro de 1994. O retorno do ídolo foi outro ponto levado em conta naquele debate da El Gráfico, fazendo-a concluir que era do River o melhor ataque do futebol argentino.

    “O River mostrou nesse primeiro torneio que ganhou em 1994 um par de fórmulas ofensivas igualmente interessantes, com o binômio Ortega-Cedrés ou o que terminaram integrando Ortega-Crespo”, começava, ainda em referência ao Apertura 1993. “No último que conquistou, o acompanhante de Ortega foi um artífice como Enzo Francescoli, tão preciso e contundente em seu retorno como em sua primeira etapa riverplatense, oito anos atrás. Ficou, assim, outra variante para aplicar durante o desenvolvimento dos jogos: o ingresso de Gabriel Amato para juntar-se adiante com Ortega, recuando o Príncipe Francescoli na função de criador de jogo”. Armação e artilharia que criaram outra estatística especial para aquele título: foi ali que o veterano tornou o estrangeiro com mais gols pelo clube, quebrando um recorde que perdurava em favor do também uruguaio Walter Gómez desde os anos 50 – Gómez, inclusive, daria o pontapé inicial no jogo de despedida do Príncipe, em 1999.

    Uma última faceta especial daquele título é que foi como campeão do Apertura da temporada 1994-95 que o River classificou-se para a vitoriosa Libertadores de 1996, em tempos em que só os dois campeões anuais tinham vaga em La Copa. E para os lados do vice San Lorenzo? A frustração de Silas e colegas não permaneceria por muito tempo. O jejum enfim acabaria já no torneio seguinte, na famosa reviravolta contra o forte Gimnasia dos gêmeos Barros Schelotto. Mas essa história já foi contada, nesse outro Especial

    O corredor de aplausos  aos reservas de um Vélez recém-campeão mundial. Depois, Amato acertou o cabeceio que garantiu a inédita invencibilidade de um título argentino ao River

  • Racing heptacampeão: Ohaco, Olázar e o marco centenário

    Racing heptacampeão: Ohaco, Olázar e o marco centenário

    O heptacampeonato do Racing são sete campeonatos argentinos seguidos entre 1913 e 1919. Ohaco, um dos protagonistas, só teve a marca de artilharias superada por Maradona.

    Ohaco e Olázar, que jogaram todo o hepta. Olázar treinaria a Argentina na Copa de 1930 e Maradona foi o único profissional a superar a quantidade de artilharias de Ohaco na liga

    Mesmo que o Racing perca hoje para o Tigre a Supercopa da Superliga, o caça-níquel tira-teima oficial entre os vencedores da Superliga e a Copa da mesma, não faltará motivação para festas à torcida blanquiceleste. Nesse 14 de dezembro se completam meia década da reafirmação racinguista na elite, com a conquista do time liderado por Diego Milito e Gustavo Bou no Transición 2014. E, sobretudo, se completam cem anos de uma marca ainda longe de ser igualada no país: o heptacampeonato consecutivo (garantido, por sinal, exatamente em duelo contra o Tigre, batido por 2-1), período que rendeu ao clube seu apelido de La Academia. Tratou-se, inclusive, de um recorde mundial só quebrado exatamente nesse 2019 em ligas de países vencedores de Copa do Mundo – a Juventus virou octacampeã na Itália, após só o Lyon ter, na França, igualado (em 2008) um hepta.

    Alguns jogadores estiveram em todo o ciclo do hepta. São os casos de Francisco Olázar, meia que distribuía as bolas na elegância e no grito, chegara exatamente no início da série, em 1913. Saiu dez anos depois, vencendo ainda um oitavo título argentino pelo clube, em 1921. Foi técnico da Argentina na Copa de 1930. Nesse mesmo período os alvicelestes tiveram Armando Reyes na defesa. Foi quem mais defendeu a seleção como racinguista na época amadora, 20 vezes. Outro de todo o hepta foi o veloz ponta-esquerda Juan Perinetti, presente entre 1908 e 1920, participando inclusive do acesso à elite (pois todos os futuros grandes clubes do país, fundados já no século XX, precisaram começar na segundona, criada ainda em 1899, ou abaixo) em 1910. Era apelido de Llorón (“Chorão”) por se derramar em lágrimas quando o time perdia – sorte sua que jogava naqueles tempos.

    Perinetti conciliava o Racing com seu outro amor, o Talleres da cidade de Remedios de Escalada, onde fora um dos fundadores: inclusive participou da conquista tallarin na segunda divisão em 1925, ano em que o Racing também foi campeão na elite, fato que rendeu um amistoso festivo de ambos. No hepta, integrara o melhor ataque do clube, ao lado dos dois maiores artilheiros da história do Racing: Alberto Ohaco, em primeiro, e Alberto Marcovecchio, em segundo. Ohaco esteve de 1908 a 1924 (aos 41 anos), também participando com Perinetti no título da segunda divisão de 1910. Foi o capitão naquele glorioso período, além de quatro vezes artilheiro do campeonato, algo que no profissionalismo seria superado apenas por Diego Maradona – que, vale ressaltar, jogava dois campeonatos ao ano.

    Marcovio, por sua vez, foi duas vezes artilheiro da liga e pela seleção fez ótimos 8 gols em 11 jogos. Ele assinalou os dois gols racinguistas naquele 2-1 sobre o Tigre, resultado que garantiu o hepta com ainda três rodadas a se disputar. Outro daquela ofensiva foi o meia-esquerda Juan Hospital. Ficou de 1912-22 e vinha justo do rival Independiente. O Racing subira à elite em 1910, mas na campanha perdera o Clásico de Avellaneda. O gol foi de Hospital (que estreou na seleção ainda antes do ciclo, em 1912, com só 17 anos), que se apaixonou pelo rival e veio jogar nele dois anos depois. Essa anedota com Hospital não foi um caso único, conforme veremos a seguir, sobre particularidades dos seis títulos entre 1914 e 1919 – o inaugural da série, em 1913, já contou com um único Especial nosso e naturalmente abordou todos os homens acima: clique aqui.

    Cabe pontuar que o Racing soube agrupar e, sobretudo, manter por muito tempo essa espinha-dorsal graças a empregos públicos nomeados por Alberto Barceló. Ele, como prefeito clientelista quase interrupto entre 1909 e 1932 de Avellaneda, era praticamente o senhor feudal dali, popularizando-se por conceder favores a quem lhe batia na porta da casa, sem se importar muito com princípios administrativos como impessoalidade ou transparência. Todos os nomes acima grifados, exceto o de Hospital, foram referidos pelo livro Héroes de Tiento como bem remunerados servidores municipais: Reyes, por exemplo, era “subinspetor de feiras”, enquanto Olázar conciliava um trabalho no próprio Racing (como responsável pelo buffet da sede social) com expediente no (hoje extinto) banco El Hogar Argentino, espécie de BNDES local. 

    Racing de 1915. Destaque a Zoilo Canavery, uruguaio que jogaria pela seleção argentina e que também seria campeão no Independiente

    Mas, como o amadorismo seguia forte no discurso, haveria uma “vítima” na escalação-base campeã de 1913. Eis o desenrolar da história:

    1914 – a principal mudança para 1913 foi no gol. Carlos Muttoni pedira um auxílio de custo na tesouraria para adquirir chuteiras novas e, naquela época de amadorismo ferrenho ao menos no discurso, sua atitude foi encerada como um atentado às práticas amadoras. Assim, ele foi desligado e passou a jogar no Independiente. Foi o primeiro dos dois únicos que a seleção usou de ambos os rivais (o outro foi Gabriel Calderón, da Copa 1982). Como rojo, ele esteve no primeiro Brasil x Argentina, naquele ano: clique aqui. O substituto foi Arduino. O torneio foi disputado com o Estudiantes de Buenos Aires, só 2 pontos atrás. No confronto direto, 4-2 para o campeão, que venceu 11 dos 12 jogos e empatou o outro, marcando 42 gols e só sofrendo 7. Curiosidade: assim como o Brasil, o Racing também enfrentou o Exeter City, primeiro adversário da seleção brasileira. Venceu por 2-0.

    1915 – chega do River o ponta uruguaio Zoilo Canavery. É mais um dos racinguistas da época a jogar pela Argentina (já em 1916, duas vezes, ambas ironicamente contra o Uruguai natal). Naquele ano, a Associação e a Federação Argentinas de Football, separadas em 1912, se reunificam e no campeonato mais cheio até então (e o primeiro com os futuros cinco grandes: o próprio Racing, Independiente, Boca, River e o recém-promovido San Lorenzo), com 25 times, o Racing tem sua campanha mais trabalhosa: empata em pontos com o San Isidro após ambos vencerem 20 dos 22 jogos e empatarem os outros dois.

    Aquele ataque dos sonhos racinguista com Canavery-Ohaco-Marcovecchio-Hospital-Perinetti fez 95 gols e a sólida defesa de Reyes e Salvador Presta só sofreu 5, enquanto o concorrente marcou “só” 72 e sofreu “só” 12, respectivamente. O tira-teima é jogado já em janeiro do ano seguinte, vencido logo aos 6 minutos com gol de Marcovecchio à queima-roupa de Carlos Wilson, goleiro da seleção. Neste ano o clube obtém também sua personalidade jurídica.

    1916 – ano do rebaixamento de Quilmes e Belgrano Athletic (que desativou seu futebol), dois últimos bastiões da outrora dominante comunidade britânica ao qual os títulos em série do Racing vinham suprimindo no futebol. As maiores ameaças ao penta foram o River, rival constante da época, e o surpreendente Platense. No meio dos 21 jogos, pela primeira vez desde 1913 a Academia perde na campanha: um 2-0 para o San Isidro e um 1-0 para o próprio Platense, mas ainda assim este termina como vice 4 pontos atrás – na época a vitória valia 2 e não 3 pontos.

    1917 – Sai Canavery. Ele vai ao Boca e anos depois ao Independiente, onde já havia sido vice na liga da Federação em 1912. Ficaria mais ligado ao arquirrival, pelo qual foi campeão em 1922 e 1926 – o primeiro campeão em comum na dupla de Avelleneda. Por outro lado, chegam Natalio Perinetti, Pedro Ochoa (ambos de só 17 anos) e Marcos Croce. O trio seria campeão também nos títulos de 1921 e 1925, os últimos campeonatos argentinos vencidos pela Academia até 1949. Em 1917, o vice River fica 5 pontos atrás do pentacampeão, que só sofre 4 gols (todos como visitante) em 20 jogos.

    Natalio era irmão de Juan, jogava na outra ponta e foi ainda mais ídolo, sendo o capitão nos anos 20. Jogaria até 1933 no Racing e foi o único membro do hepta a participar de uma Copa do Mundo, em 1930 (além de Olázar como técnico). Fez mais de cem gols no clube. O driblador Ochoíta, prata nas Olimpíadas de 1928, fez 91 e proporcionou muitos outros com assistências até deixar o Racing em 1931. Já Croce tinha só 23 anos, mas muita experiência: com 16 e mesmo sem origem britânica havia jogado no lendário Alumni, pelo qual foi campeão em 1910. Era o grande time antes do Racing até fechar o futebol em 1911. Vinha do Estudiantes de Buenos Aires e ficou até 1925, ano do nono e último título argentino do Racing na era amadora – que já vivia sob fachada essa pregação, pois Natalio Perinetti, satisfeito com a ajuda de custo recebida, chegaria a recusar oferta do já profissionalizado Real Madrid.

    O time do fim da série, em 1919: Machiavello, Castagnola, Vivaldo, Croce, Reyes e Olázar; Natalio Perinetti, Zabaleta, Marcovecchio, Hospital e Juan Perinetti

    1918 – chega outro ex-Independiente, o atacante Albérico Zabaleta (pelo rival, marcara na vitória roja por 2-1 no primeiro clássico pela elite, em 1915, mas a escalação irregular de um colega deu no tapetão a vitória ao Racing), revelado nas categorias de base racinguistas. Seria duas vezes artilheiro do campeonato. Reúne média de 20 gols por ano: parou nos 99, em 1923, ano em que faleceu precocemente pela infecção de lesão adquirida contra o San Lorenzo, jogo onde não deixara de marcar – sua morte comoveu a todos e mesmo o Independiente se enluteceu, cancelando jogo que faria no dia.

    Falando em mortes, o surto de gripe espanhola a partir de outubro, por mais que adiasse a Copa América para o ano seguinte, não impediu partidas do torneio até novembro, por mais que o o Racing já garantisse o hexa bem antes de sua última partida, um 4-0 no Estudiantes ainda em 13 de outubro. O torneio de 1918 marcou ainda o primeiro ano sem o volantão Ángel Betúlar, o então capitão. Um dos protagonistas do acesso em 1910, tinha bom arremate de longa distância e fez seus golzinhos em tiros livres. Mas o poderio racinguista era tamanho que, em novo título invicto (17 vitórias e 2 empates), o vice River fica simplesmente onze pontos atrás – ressaltando novamente, na época a vitória só valia 2 pontos.

    1919 – inicialmente, parece que a taça ficará em Avellaneda, mas com o Independiente, líder com 14 pontos contra 11 do Racing após oito rodadas iniciadas em março, disputadas mesmo com nova onda de gripe espanhola no inverno. É quando ocorre um cisma. A associação argentina reconhecida pela FIFA é esvaziada, tendo em Boca e Huracán como clubes mais proeminentes a permanecerem. Os jogos de até então são todos anulados (o duelo contra o Huracán rendera inclusive uma curiosidade: um dos gols foi do goleiro Croce) e cada liga reinicia do zero o seu campeonato: no “oficial”, o Boca foi inclusive campeão argentino pela primeira vez, já adentrando no ano de 1920.

    Já o Racing pôde recuperar o terreno no seu campeonato, vencendo nada menos que todas as suas treze partidas, desenroladas a partir de setembro. O vice foi um estreante na elite, o Vélez. As duas ligas se reunificariam em 1926, convalidando o caráter oficial do torneio que rendeu o hepta à Academia. Foi a segunda e última vez que um clube foi campeão na Argentina vencendo a todos – o outro foi o Alumni, que jogou só seis vezes em 1901. Uma delas, um 5-3 sobre o Sportivo Barracas, tem outra anedota: o Barracas era o clube do goleiro Muttoni, aquele campeão em 1913 que, dispensado, foi jogar no Independiente. Mas jamais deixara de amar o Racing e se negou a enfrenta-lo.

    A série termina em 1920. Em um só campeonato, o Racing perde 5 vezes, exatamente o número de derrotas que tivera em todo o hepta (duas em 1913, duas em 1916 e uma em 1917). Ainda assim, é vice por só 2 pontos, com o River enfim desengasgando tantos duelos perdidos e sendo campeão pela primeira vez. Confira o histórico da concorrência entre eles clicando aqui. A Academia recupera a coroa em 1921, mas depois tarda até 1925 – quando é campeã invicta, embora só Croce, Ochoa e Natalio Perinetti àquela altura remanescessem da era dourada do hepta. Nela, o Clásico de Avellaneda ocorreu cinco vezes em jogos de campeonato, pois os rivais estavam em ligas separadas em 1913 e 1914. Desconsiderando-se a derrota revertida nos tribunais em 1915, o Racing só perdeu um (na última rodada em 1917, quando já havia garantido a taça) e venceu os demais.

    Desde o hepta, o máximo que se conseguiu na Argentina foram tricampeonatos. O River se orgulha de ter feito isso mais do que ninguém, nos torneios anuais entre 1955-57 e depois com os dois torneios de 1979 (Metropolitano e Nacional) somados ao Metropolitano de 1980 e com o Apertura 1996 somados aos dois torneios de 1997 (Clausura e Apertura). Além do Millo, só o Racing também logrou – com o orgulho de ser o primeiro a fazê-lo, entre 1949-51. Série que quebrou um jejum pendente exatamente desde 1925 e que retratamos mês passado, nesse outro Especial.

    Seleção argentina em seu primeiro jogo nas Copas, em 1930: Olázar, como técnico (último em pé), e Natalio Perinetti (primeiro agachado) eram os remanescentes do Racing hepta onze anos antes