Categoria: Personagens

  • Norberto Scoponi: o maior goleiro da história do Newell’s

    Norberto Scoponi: o maior goleiro da história do Newell’s

    Norberto Scoponi somou treze anos e 408 partidas, o que o faz o segundo que mais suou pela Lepra em toda a história.

    Foram treze anos de Newell’s, com 408 partidas que fazem dele o segundo jogador que mais suou pela Lepra, atrás só do ex-volante Gerardo Tata Martino. Norberto Hugo Scoponi é por tabela o goleiro que mais jogou pelos rubronegros, e justo na época áurea deles. Não pode ser outro o maior nome da posição entre os sangre y luto que aquele cabeludo alto de ótima elasticidade, reflexos e voos para garantir campeonatos e classificações dramáticas nos torneios continentais tão frequentes ao clube do Parque Independencia na virada dos anos 80 para os 90. El Gringo (apelido que na Argentina indica alguém interiorano e não quem tem pinta de estrangeiro) faz hoje 60 anos. Vale assim revisar nota originalmente publicada quando fez 55.

    Nos 110 anos do Ñuls, em 2013, o Futebol Portenho elegeu Scoponi o maior goleiro do clube sem nem precisar pensar. Mas nem sempre o casamento foi feliz. Quando Scoponi estreou, em 1981, o rival Rosario Central havia acabado de ser campeão argentino pela terceira vez (eliminando o Newell’s na semifinal), enquanto os leprosos tinham só uma taça nacional. As cobranças, porém, explodiram mesmo em 1986. Os leprosos, da forma mais dramática possível, perderam a vaga na Libertadores em um tira-teima com o Boca, na final da liguilla – torneio-repescagem que envolvia os melhores times abaixo do campeão. Haviam vencido por 2-0 em plena Bombonera na ida. Na volta, em casa, abriram 1-0 e contaram com uma expulsão adversária. Na última meia hora de jogo, porém, os visitantes marcaram quatro vezes.

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    Newell’s campeão de 1988: Basualdo, Martino, Scoponi, Theiler, Pautasso e Sensini; Balbo, Rossi, Llop, Alfaro e Almirón

    Tata Martino, que havia feito os dois gols na Bombonera, relembrou em 2007 da tragédia, citando o colega: “não tenho culpa por ter perdido o jogo, sinto bronca e ressentimento por todas as barbaridades que se disseram. Depois todos se esquecem, mas eu não (…). [Nos acusaram de] vendidos por grana, por casa, carros, tantas coisas se disseram… Scoponi e eu levamos a pior parte”. Em 1992, esse momento foi lembrado até em um debate que a El Gráfico promoveu entre três mitos do trio Boca (Hugo Gatti), River (Norberto Alonso) e Independiente (Ricardo Bochini); enquanto Gatti, recordista de jogos como goleiro no Boca, dizia que Scoponi era àquela altura o melhor goleiro do país, Alonso destacava: “atenção, Scoponi defendeu nos momentos difíceis, quando o insultavam. Depois daquela liguilla, queriam mata-lo”.

    Para piorar, o campeonato seguinte foi perdido por um único ponto justamente para o Central – que voltava da segunda divisão! O desafogo veio outro campeonato depois, na temporada 1987-88 (marcado não apenas pelo título em si, mas pelo plantel ser inteiramente de pratas-da-casa), e o goleiro soltou seus demônios: “dedico este triunfo a todos os que acreditaram em nós. Este campeonato também é deles. A toda essa gente que nos acusou de vendidos nem me lembro, mas eles sim vão se lembrar toda a vida de nós”. Ainda naquele ano, os rubronegros chegaram a uma final de Libertadores. Até hoje, o mais longe que uma equipe do interior argentino conseguiu no torneio.

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    Desengasgando o dramático Apertura da temporada 1990-91 e em imagem recente

    Mas foi em 1991 que El Gringo, já com dez anos de casa, entrou para o panteão da Lepra. O Newell’s deu o troco tardio no Boca na finalíssima pela temporada 1990-91, onde cada um havia faturado um turno. Fazia dez anos que os auriazuis não eram campeões nacionais, desde a maradoniana taça do Metropolitano de 1981. “Vamos muchachos, vamos que é o último esforço!”, inflamou o arqueiro a colegas nos vestiários da Bombonera, calada por ele no jogo da volta ao pegar na decisão por pênaltis as cobranças de Alfredo Graciani e Claudio Rodríguez. Walter Pico, intimidado, depois acertaria o travessão.

    O Boca só viria a ser novamente campeão argentino em dezembro de 1992, encerrando sua pior seca doméstica até hoje – onze anos que as luvas de Scoponi ajudaram a moldar naquele julho de 1991, em trauma tamanho ao ambiente boquense que gerou choro convulsivo até em gente experiente feito o veterano zagueiro Juan Simón. Em entrevista em 2013, Maxi Rodríguez declarou que, como torcedor leproso, “o (jogo) que mais me ficou (marcado) foi quando ganhamos a final contra o Boca por pênaltis na Bombonera, em 1991. Além disso, os pênaltis foram embaixo da nossa tribuna. Me ficou gravada a imagem de Scoponi saindo a gritar com os braços abertos e chocando com Llop no caminho, todos sujos de barro”.

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    Quando virou ídolo incontestável: calando a Bombonera em 1991

    Em 1992, o Newell’s chegou a nova final de Libertadores, com seu goleiro sendo fundamental na decisão por pênaltis nas semifinais com o América de Cali: os argentinos passaram após um 11-10 nos penais, depois de vinte e seis cobranças ao todo. Scoponi já havia pego o chute de Sergio Bermúdez (depois capitão do Boca de Carlos Bianchi e que já declarou que aquela lembrança amarga influiu em um jeito diferente de bater na decisão contra o Palmeiras em 2000) e garantiu a classificação ao salvar o de Orlando Maturana.

    A final, contra o São Paulo, também só foi definida nos pênaltis. Scoponi defendeu a cobrança de Ronaldão, mas os colegas desperdiçaram mais e a taça ficou no Morumbi. Restou aos rosarinos festejar semanas depois um novo título argentino. Na campanha daquele Clausura 1992, El Gringo não sofreu gols nos cinco primeiros jogos. O terceiro título nacional em quatro anos, somado à taça rubronegra de 1974, ainda por cima empatou os quatro títulos somados pelo rival. Não à toa, a Lepra atraiu Maradona em 1993 – a imagem que abre a matéria retrata o goleiro e o compadre Martino antes do amistoso contra o Emelec a marcar a estreia de Dieguito.

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    Reflexo e elasticidade juntos contra o San Lorenzo na semifinal da Libertadores 1988 e entre os outros goleiros argentinos da Copa 1994, Islas e Goycochea

     

    O ano de 1993 também foi o ano em que Scoponi, enfim, começou a ser lembrado pela seleção, tomando de Fabián Cancelarich o posto simbólico de terceiro goleiro (ocupado por este na Copa de 1990, na Copa América de 1991 e na Copa das Confederações de 1992) para a sombra do ícone Goycochea e do titular Islas. O arqueiro leproso já havia estado no plantel da Copa América de 1993, ainda o último título da seleção principal. E seguiu para as eliminatórias e, por fim, à Copa de 1994.

    No clube, o sonho, porém, havia acabado. Jorge Castelli, o técnico que substituíra Marcelo Bielsa, e o novo presidente, Eduardo López, mostraram-se rígidos. Não só Maradona como o trio com mais jogos pelo Newell’s – Martino, Scoponi e o volante Juan Llop – pediram o boné entre o fim de 1993 e o início de 1994. E ironicamente, apesar da convocação à Copa do Mundo, El Gringo terminou por nunca jogar pela Albiceleste.

    No plantel da Copa América 1993

    Não foi algo inédito: Héctor Zelada (da Copa de 1986), o antecessor Cancelarich e também Ángel Comizzo (ambos da Copa de 1990), todos também goleiros, foram outros que apesar de convocações a Copas nunca entraram em campo pela Argentina, nem mesmo em jogos não-oficiais – aqueles contra clubes, combinados ou seleções não-reconhecidas pela FIFA. Scoponi segue como último a passar por isso.

    Após a Copa, ele foi sondado pelo River, que procurava repor a saída de Goycochea para o projeto maradoniano do Mandiyú. O negócio não se concretizou porque queriam-lhe que cortasse os longos cabelos, uma política acatada por Sergio Berti, o recém-contratado Germán Burgos e Gabriel Amato, dentre outros. “Bom, mas que [o técnico Américo] Gallego perca os 20 quilos que têm a mais” foi a desbocada contraproposta.

    Scoponi e a introspecção de um terceiro goleiro: foi visto basicamente com roupas de treino pela seleção

    Mas, após sua vivenda sofrer um atentado a bomba em setembro na sequência de diversos telefonemas anônimos que lhe exigiam que deixasse o Newell’s, Scoponi deu um basta e rumou por três temporadas na Cruz Azul. Ainda no futebol mexicano, repercutiu por cortar os característicos longos cabelos, gesto interpretado como tentativa de se colocar no radar de Daniel Passarella para a seleção. Negou que a intenção fosse essa; mais explícito talvez tenha sido se repatriar como reforço do Independiente em 1997.

    Não deu para ir à Copa 1998 ao não tirar a titularidade de Faryd Mondragón, mas El Gringo seguiu por três temporadas como confiável reserva no Rojo, até pendurar as luvas em 2000. Os contatos feitos no futebol mexicano propiciaram que Scoponi voltasse à Liga MX como técnico de goleiros em diversos clubes astecas (em 2001 ele chegou mesmo a voltar do México especialmente para os festejos dos dez anos do dramático título argentino de 1991).

    No Independiente, ao lado de um adolescente Gabriel Milito: cabelos curtos que talvez buscassem convencer Passarella

    Ele atualmente trabalha na própria seleção mexicana, na comissão técnica do velho parceiro Tata Martino. Mas falar do Gringo, em suma, é falar da história grande do Newell’s. Diversas glórias (e percalços) de ambos mencionadas no texto já foram retratadas em especiais próprios. Confira pela ordem cronológica dos eventos:

    *Liguillas pre-Libertadores, fonte de boas anedotas do futebol argentino

    *Rosario há 30 anos: Central (bi)campeão argentino, Newell’s vice

    *25 anos do início dos anos dourados do Newell’s

    *25 anos da primeira final de Libertadores do Newell’s

    *Marcelo Bielsa e Newell’s Old Boys: uma era que terminou há 20 anos

    *Newell’s: vice-campeão da Libertadores vinte anos atrás

    *Há 25 anos, Maradona incendiava Rosario: estreia no Newell’s, com direito a golaço

    Rara imagem de Scoponi com a camisa da Argentina (notem o “nunca disputou partidas pela seleção”…), em perfil no guia da Copa de 1994 feito pela Placar. E como técnico de goleiros da seleção mexicana, seu posto atual

  • Luis Islas: o goleiro reserva de 1986 que virou ícone dos anos 1990

    Luis Islas: o goleiro reserva de 1986 que virou ícone dos anos 1990

    Luis Islas ainda não tinha trinta anos quando virou o grande nome do Independiente na primeira metade dos anos 1990.

    Grande nome do Independiente na primeira metade dos anos 90, Luis Alberto Islas Ranieri ainda tinha 30 anos incompletos quando encerrou em 1995 o mais longo de seus três ciclos no Rojo de Avellaneda. Mas já tinha uma considerável percorrida, com a carreira no futebol adulto já tendo tomado metade de sua vida até ali, com direito a um título de Copa do Mundo e outro mundial disputado pela Argentina. Uma carreira tão precoce como longeva que vale ser relembrada hoje, quando o goleirão completa 55 anos.

    Seu pai também tentou ser goleiro, chegando até o time sub-19 do Huracán (clube do coração da família), mas Islas, nos infantis, jogava no ataque. A influência final foi Ubaldo Fillol, o mitológico arqueiro da Copa de 1978. Em 1984, Islas já admitia nessa matéria à El Gráfico: “é o goleiro que me serviu de modelo. Eu era atacante ou meia, nada a ver para agarrar. O Pato [apelido de Fillol] eu não discuto, não brigaria com ele pela posição”. Uma declaração e tanto para quem sempre demonstrou autoconfiança: naquela mesma matéria, declarava que “se sou o melhor dos daqui [Fillol estava no Flamengo] não posso dizer eu, o que digo é que não ando longe disso”. Uma outra entrevista, dada em 2003, já começa indagando-lhe se ele ainda se considerava o melhor: “intimamente, tenho a resposta. Intimamente. Mas se a expressasse, seria uma falta de respeito”.

    Islas emulava mesmo Fillol no estilo. Caracterizou-se como um goleiro que atuava mais entre as traves, evitando gols mais por reflexões e boa impulsão do que por sair muito da pequena área a fim de diminuir ângulos. Naquela nota de 2003, admitiu que fazia muitas poses no início da carreira: “eu voava e queria escutar o ‘eeeeeeeehhhhh’ das pessoas, te juro, era assim. Caía no chão e esperava os gritos da torcida. Era um babacão. Agora, obviamente não”. Já no fim da carreira, ele só admitia como grande defeito o tiro de meta (“não chega nem sequer no meio-campo”), destacando-se como um goleiro “completo. Me adapto muito fácil a qualquer sistema. Jogo debaixo das traves e fora da grande área”. Islas nasceu em San Martín, cidade ao noroeste da Grande Buenos Aires que abriga desde os anos 40 o tradicional Chacarita Juniors. Mas segundo o goleiro, seu tamanho amor próprio o fez optar por deliberadamente começar lá por outras razões: era “um clube da primeira divisão, mas não dos maiores”, lhe permitindo “chegar mais pronto” a um grande.

    Fato é que o goleiro ingressou no Chaca em 1978. Em 1980, ainda com 15 anos incompletos, já participava de jogos contra garotos de 18 ou 19. E, de modo ainda mais precoce, estreou no time adulto com praticamente 15 anos e meio, em maio de 1981, contra o Banfield – relembrando naquela nota de 2003 que “nunca me valorizaram ter estreado tão jovem na primeira divisão. E ainda por cima como goleiro! No arco, fazes uma cagada e tchau. Tinha medos e dúvidas, mas me ajudou muito minha personalidade. Se não tivesse essa personalidade tão forte, não teria conseguido”. Na estreia entre os adultos, o próprio técnico adversário, o folclórico Héctor Veira, buscou encorajar os comandados a chutarem de qualquer jeito naquele garotinho, “que deve ter um susto bárbaro”. Pois o pivete tratou de retrucar: “não podem nos ganhar, com essa cara vão ganhar de nós?”. Os tricolores venceram a terceirona daquele ano, mas com Miguel Ángel Rivera na titularidade. A estreia competitiva tardou até 1982.

    Exemplo da famosa cara de pau de Islas: formar-se no Chacarita e passar pelo Platense para depois defender o Tigre, forte rival dos dois

    O garoto saiu-se bem, talhando-se cedo nos duros jogos da divisão de acesso. Os funebreros não chegaram a subir, mas em uma edição com o ineditismo de um gigante (o campeão San Lorenzo), os tricolores fizeram a terceira melhor campanha da temporada regular, cavando a Islas uma transferência ao Estudiantes. Naquela nota de 1984, Islas se gabava: “tinha fé em mim. A fé é algo que em mim sai naturalmente, a tinha antes de estrear, sempre… eu não cometo trapaças, mas não aceito perder, se acontece eu aguento, mas… sou meio atropelado, impaciente. Quando estava no sub-19, queria o time principal. Quando cheguei no principal, queria a seleção, quando cheguei à seleção queria que me vendessem e veio o Estudiantes… agora quero jogar a Copa 1986 e depois ir à Itália ou Espanha. Jogar ou pelos menos estar lá, embora prefira ser titular”.

    Recém-chegado ao Estudiantes, ele logo foi aproveitado mais pelas seleções juvenis, competindo no Sul-Americano sub-20 de 1983 entre janeiro e fevereiro e depois no Mundial da categoria, em maio. Assim, não tomou a titularidade de imediato na conquista do Torneio Nacional, mas chegou a tempo de aprender ainda no Pincha com Carlos Bilardo (“foi como meu pai no futebol”), que logo chegou à seleção amparado pelo título do Metropolitano de 1982, que o clube levantou já naquele início de 1983. Carlos Bertero seguiu sendo o goleiro titular para a Libertadores, como na famosa “Batalha de La Plata”. Até porque a seleção juvenil também rendeu as primeiras repercussões nacionais quanto ao temperamento forte do garoto. Islas também não se ajudava com a briga de gênios contra o treinador da seleção juvenil, Carlos Pachamé: “eu era um pouco louquinho e além disso Carlos não era exatamente um cara paciente”, admitiu em outra entrevista, em 1995. Na de 1984, as lembranças estavam mais frescas:

    “Eu posso reconhecer uma coisa: que tenho um caráter impossível. E começou com o assunto do Sul-Americano na Bolívia. O árbitro nos apitou dois pênaltis que não foram e ainda por cima o brasileiro que meteu o segundo gozou de [Mario] Vanemerak. Todos se agarraram, eu fui um a mais, e resulta que quem terminou marcado fui eu. Por um tempo, me passou o pior desde que jogo futebol, ia a campo e me gritavam traidor da pátria. Sabes quanta amargura? Se me agarrei aos socos foi justamente por defender a camisa… o mesmo que no Paraguai com o Estudiantes. Fui o último a chegar ao lado do bandeirinha, não disse nada de diferente e expulsou somente a mim, me disse que estava acostumado a fazer confusão. Na próxima vez, ainda que me façam cinco gols em impedimento, tenho que me morder e quando termine o jogo chorar sozinho no vestiário. Mas também digo às pessoas que quando alguém se sente roubado e sobretudo representando a Argentina, é difícil se segurar. É algo que sai de dentro”.

    A titularidade com o Estudiantes enfim veio em 1984, um ano que começou periclitante com a lanterna no grupo da Libertadores (quando houve a visita ao Olimpia referida acima) e uma eliminação ainda nas oitavas-de-final do Torneio Nacional. Mas as coisas se acalmaram no Metropolitano, iniciado ainda em abril, resultando em uma uma campanha de 3º lugar que o credenciou a estrear na seleção adulta em 1º de setembro daquele ano – em 2-0 amistoso sobre a Suíça em Berna. No mesmo mês, jogou outras duas vezes: 2-0 sobre a Bélgica em Bruxelas no dia 5 e 1-1 com o México em Monterrey no dia 19. Sempre como titular, como sempre ocorreria nas vezes em que foi colocado em campo. Em 1985, o Pincha ainda se colocou a quatro degraus do título do Torneio Nacional. Não era o bastante para desbancar o ídolo Fillol ou o experiente Nery Pumpido na seleção, mas Islas, com 20 anos incompletos, descolou mais três partidas pela Argentina: um 2-1 sobre a liga de Mendoza em jogo-treino ainda em 28 de fevereiro e dois amistosos contra o México, em novembro (dois 1-1, em Los Angeles no dia 14 e em Puebla no dia 17).

    Na seleção de 1986, é o de jaqueta vermelha. Os outros são o atacante Borghi (moletom cinza), os zagueiros Ruggeri e Garré (este, atrás de Islas), o cortado atacante Oscar Dertycia, o preparador físico Ricardo Echevarría, o médico Raúl Madero, o chefão Julio Grondona, o técnico Bilardo, o assistente Pachamé e o zagueiro Cuciuffo

    Surpreendentemente, Bilardo abriu mão de Fillol após a suada classificação à Copa, fazendo de Pumpido o titular. A boa fase de Julio César Falcioni no América de Cali vice da Libertadores ao fim de 1985 também foi ignorada. Mesmo sem ter jogado as eliminatórias, Islas foi confirmado na delegação convocada ao Mundial do México, ainda que seu Estudiantes caísse para um 16º lugar no campeonato argentino de 1985-86 (o primeiro a adotar calendário “europeu”). Ele ainda atuou em amistoso não-oficial com o Napoli em 29 de março (2-1, no San Paolo que hoje é o Stadio Diego Armando Maradona) e na vergonhosa derrota de 1-0 em Oslo para a semiamadora Noruega, mas Pumpido atuou em todos os minutos da Albiceleste na Copa. Se não entrou em campo, o mais jovem membro da última Argentina campeã mundial ao menos cavou transferência a um clube bem maior, o Independiente. “Aquela minha venda foi a segunda mais cara do país, atrás da de Diego [Maradona]”, gabou-se em 2003, em referência a operação de 380 mil dólares em valores da época.

    Islas estreou com pompa em Avellaneda: embora ainda pertencesse ao Estudiantes quando decolara ao México (o goleiro é justamente o único a vencer a Copa do Mundo como atleta pincharrata), o novo clube, antes do pontapé inicial com o Platense pela rodada inicial da temporada 1986-87, incluiu o goleiro na placa presenteada aos jogadores da casa (junto a Bochini, Clausen e Giusti) recém-campeões mundiais com o país. Então veio um ligeiro pesadelo: “iam 20 segundos e eu já tinha um gol sofrido. Queria morrer. Sério, queria morrer. A jogada começou pela direita. [Miguel Ángel] Gambier a levou. Vi que ia chutar e me adiantei. Pegou forte e alcancei para espalmar. Caiu para [José] Vieta e já não pude recuperar-me”. Menos mal que o Independiente soube virar e vencer por 2-1 mesmo. O segundo jogo já foi um primeiro Clásico de Avellaneda, o primeiro desde o rebaixamento do Racing em 1983. Dessa vez o Rojo soube segurar o 0-0 como visitante. Mais complicado a Islas foi o duelo contra o outro Racing, o de Córdoba, pela 16ª rodada: pior que a derrota em casa foi a terrível fratura que o goleiro sofreu em dividida com Jorge Pajurek.

    Mesmo sem Islas, o Independiente brigou até a rodada final pelo título daquele campeonato. O clube ficou em 3º e o goleiro voltou a ser utilizado na liguilla pre-Libertadores, torneio-repescagem que valia a segunda vaga argentina na competição continental. Na entrevista de 1995, recordou que “me operou o Dr. Fernández Schnoor [cartola histórico do próprio Independiente] e me deixou zero quilômetro. Mas o medo só perdi na final da liguilla de 1987, contra o Boca. Jorge Comas me meteu uma solada e não senti nada, já estava curado”. Islas e o clube inicialmente empataram em casa com o Boca em 2-2, mas puderam dar dentro da Bombonera uma esquecida volta olímpica ao triunfarem por 2-1 em 14 de junho, com o goleiro avaliado com um 10 pelo Clarín. Esse bom retorno e a bizarra lesão que amputou um dedo do concorrente Pumpido em treinos para a Copa América renderam a Islas uma primeira sequência de jogos com a Argentina: foram cinco entre junho e julho, ainda que a Albiceleste pela primeira vez não vencesse uma Copa América jogada em casa. O grande questionamento a Islas, porém, viria na fase de grupos da Libertadores.

    O torneio começou já no segundo semestre de 1987 e na estreia contra o Deportivo Táchira ele levou em derrota fora de casa por 3-2 um insólito gol de goleiro desde a grande área adversária, algo inédito na competição e que ainda glorifica o tal Daniel Francovig entre os venezuelanos. O assunto rendeu tanto na entrevista de 1995 (“depois desse gol, joguei um ano embaixo do travessão… mas prefiro que me façam esse gol que me escape uma bola ou fure um cruzamento”) e 2003 (“por sorte, esse gol não afetou o resultado. Se nos deixasse de fora de uma Copa, por exemplo, teria me marcado”). O Rojo, de fato, recuperou-se, terminando líder do grupo com um sonoro 5-0 em casa na revanche contra o Táchira. E esteve no páreo para voltar à final de La Copa, mas perdeu a classificação ao cair dentro de Avellaneda para o futuro campeão Peñarol. Tamanho enfoque continental fez o time se poupar no primeiro turno do campeonato de 1987-88, a ponto de terminar só em 11º e de fora da liguilla.

    O surto que custou-lhe caro: com a lesão de Pumpido logo no início da Copa 1990, poderia ter sido Islas, se fosse paciente, e não Goycochea o ícone daquele Mundial

    Islas, por outro lado, seguia entoado pela plateia (“em Avellaneda há um goleiro, há um goleiro chamado Luis Islas, pega tudo o que lhe atiram, é o maior da Argentina” virou um clássico da torcida) e mantinha-se na seleção. Em 1988, o regulamento olímpico já permitia profissionais de qualquer idade, desde que não houvessem disputado nenhum jogo de Copa do Mundo, incluindo eliminatórias – a não ser que fossem amadores. Mesmo campeão do mundo, a concorrência com Fillol em 1985 e com Pumpido em 1986 permitiu que Islas se encaixasse nos critérios. E ele disputou os Jogos de Seul, após quatro partidas prévias pelo Torneio Bicentenário da Austrália, em conexão em julho na viagem à Coreia. A Albiceleste caiu nas quartas nas Olimpíadas, no finzinho contra um Brasil cheio de futuros tetracampeões, ressaca que o goleiro curou em partes com o título argentino de 1988-89 (a última taça da Era Bochini). Em partes, porque não se dava bem com o treinador Jorge Solari: “o considero um diretor dos clubes. Mandava os jogadores organizarem rifas, nos fazia encher balões…”, resmungou na entrevista de 1995.

    Na época, o goleiro perdeu a queda de braço. E atirou em 2003 contra o ex-colegas: “às vezes é mais fácil estar do lado do técnico, porque assim já sabes que tens o salário assegurado. Só briguei com dois [técnicos] e tive vinte. Com 18 tive relação bárbara e se  com todos me relacionasse bem, seria um hipócrita. Se me respeitam é muito fácil trabalhar comigo”. Nesse tiroteio, ele foi negociado com o Atlético de Madrid ainda em abril, embora seguisse na América do Sul até o fim da temporada. A polêmica não foi um obstáculo à convocação para a Copa América de 1989 (Islas fez até dois jogos, contra Chile e Equador, na primeira fase), mas ele sequer estreou pelo Atleti: foi imediatamente renegociado com o Logroñés para a temporada espanhola de 1989-90. A entrevista de 2003 destaca que, com apenas alguns dias em Logroño, já havia quem pedisse por um monumento para homenagea-lo. O 7º lugar daquela temporada segue sendo a mais alta colocação daquele clube em La Liga e fez o argentino ser eleito o melhor goleiro daquela edição.

    Ali, sentiu-se muito à vontade para ser temperamental (“foi mais fácil que aqui ser tão frontal. Na Espanha, assinas e te esqueces de tudo. Em nosso país, ao contrário, tens que estar discutindo porque não te pagam, ou te pagam mal, ou te devem três meses”), só tendo preferido voltar rapidamente ao futebol argentino por saudades de casa: “eu sou um cara muito sentimental e amo a Argentina. Estive um ano e meio na Espanha, arrebentei e me escolheram o melhor goleiro do campeonato. Mas quis voltar”. Essas frases saíram da entrevista de 2003, assim como sua explicação à polêmica atitude de renunciar à seleção às vésperas da Copa do Mundo de 1990 (antes que a Panini cancelasse a tempo sua figurinha). Estava revoltado em permanecer na reserva para Pumpido (àquela altura um rival com quem sequer conversava), que vinha de disputar a segundona espanhola com o Real Betis: “não vou ser hipócrita. Analisando isso, acreditava que tinha que jogar eu. Até que, dois meses antes do Mundial, Bilardo me disse que não ia estar no primeiro jogo. Se não houvesse me dito isso, teria ido e, se não me calhasse jogar, teria apoiado desde fora como em 1986. Mas me tiraram o sonho. Por isso, decidi não ir”. Não faltaria ironia após a postura revoltada de Islas…

    Pumpido precisou ser cortado após fraturar-se no segundo jogo e o país viu o virtual terceiro goleiro, Goycochea, aproveitar muito bem a vaga que caíra no colo que poderia ter sido o de um Islas mais paciente. “Agora é uma anedota. Quando Nery se lesionou, contatei ele, porque eu tive uma lesão parecida. Pensava em como estaria Pumpido e não especulava se me teria tocado jogar ou não. Não sou esse tipo de pessoa. Festejava os triunfos da Argentina e os pênaltis de Goyco eram importantes para isso. Ele é o melhor pegador de pênaltis que vi. Eu pego um a cada 80 anos e ele, nesse sentido, era um monstro. Quando eu não estou, não desejo que o outro vá mal. Isso é ser um medíocre. O melhor que pode fazer alguém é demonstrar que é melhor que o outro. Temos uma relação bárbara. Vive a duas quadras de casa. Sempre nos cruzamos e ficamos nos falando. O mesmo ocorre com Pumpido; se nos vemos, nos damos um abraço”.

    Os dez anos de Islas pela Argentina (1984-94) o viram esporadicamente em campo, pois concorreu com Fillol, Pumpido e Goycochea. As imagens são de seus torneios como titular: Copa América de 1987, Olimpíadas de 1988 e Copa do Mundo de 1994

    Islas foi repatriado pelo Independiente em meados da temporada 1990-91 e logo recobrou a todos de sua categoria: a equipe, de um 10º lugar no primeiro turno, fez no segundo uma campanha de 5º, cavando até vaga na liguilla (caiu nas quartas para o vencedor San Lorenzo). A temporada 1991-92 foi mais decepcionante: queda no primeiro mata-mata da Supercopa de 1991, 11º lugar no Apertura e 12º no Clausura. Islas não tinha nada com isso, ao contrário: naquele 1992, ele seria eleito o melhor jogador argentino no ano. Fase que o fez ser  perdoado pela seleção, já sob a nova direção de Alfio Basile. Reestreou em 3 de junho de 1992, em 1-0 sobre o País de Gales pela Copa Kirin, embora não saísse da reserva de Goycochea na primeira Copa das Confederações. O ano terminou com outros vexames ao Rojo, eliminado da Supercopa de 1992 em pleno Clásico de Avellaneda, com direito a gol de mão do rival Claudio García (e com Islas também invertendo os papéis, acertando o travessão ao tentar ajudar no ataque na hora do abafa), e 15º do Apertura da temporada 1992-93. Mas no Clausura o time saltou ao vice-campeonato. Islas, inclusive, foi o goleiro no amistoso contra o Brasil em 18 de fevereiro de 1993, a celebrar o centenário da AFA. Recebeu inclusive propostas da dupla Boca e River. Só não saiu do banco de Goycochea na vitoriosa Copa América e em todas as eliminatórias.

    Se na Supercopa de 1993 o Independiente caiu já no primeiro mata-mata para o São Paulo de Telê, no Apertura o time manteve-se até o fim no páreo pela taça (com o goleiro se notabilizando em especial por fechar o gol a Maradona na aguarda estreia de Dieguito pelo Newell’s no torneio, em 10 de outubro), encerrada já em março de 1994 premiando o River de Goycochea por dois pontos a mais. Basile, contudo, preferiu apostar em Islas como o goleiro argentino de 1994. Ele não entrava em campo pela seleção desde aquele amistoso com o Brasil em fevereiro de 1993 e foi reutilizado seguidamente a partir de abril de 1994. Mas foi visto como um dos vilões da desclassificação pelo gol defensável de falta que sofreu contra os romenos: “sei que minha tarefa foi boa. Isso eu poderia ter defendido. Foi a única jogada duvidosa do meu mundial. Reitero que fiz uma primeira fase muito boa. Depois aconteceu o lance do Diego e…”, defendeu-se em 1995, enquanto que em 2003 dividiu sua responsabilidade como “a mesma de todos, fui um a mais nesse plantel”. Sentindo-se perseguido há anos também pelo temperamento forte, chegou até a boicotar entrevistas à El Gráfico, com aquela nota de 1995 sendo assumida por ele como uma reconciliação.

    A própria entrevista começa pelo seu gênio difícil. Ele, que na nota de 1984 já dizia que “digo sempre a verdade ainda que isso me prejudique pela forma em que a digo, pelo meu caráter”, começava explicando que “sou uma pessoa com os princípios muito claros. Choco com muita gente por dizer a verdade de frente e ser honesto. Nessa sociedade, me rotulam de polêmico, mas não é assim. [Briguei com tanta gente] por dizer as coisas de frente e olhando nos olhos. Há tanta corrupção que, quando alguém é honesto e decente, é observado de lado e com injustiça”. Atacava inclusive a ex-mulher (“sinto que me valorizam mais pela grana do que por que sou”), que chegou a acusa-lo de agressão quando estava grávida (o que foi rebatido já na entrevista de 2003: “fantasias. Agora está tudo bem, tenho uma relação muito boa com ela e aquele processo não deu em nada”), e também declarava “respeitar”, mas preferir distância da comunidade LGBT.

    Exibindo sua segurança nos clubes com o qual mais se identificou: no Estudiantes e, principalmente, no Independiente – essa defesa contra a letra de um Maradona estreante no Newell’s talvez seja a mais famosa da carreira

    A eliminação um tanto precoce na Copa dos EUA assinalou o fim da passagem de Islas pela seleção. Mas em dois meses, ele se recuperava com o título do Clausura 1994, só encerrado já em agosto, marcado pela notável reta final cheia de goleadas favoráveis – incluindo na última rodada, que serviu ao acaso como confronto direto exatamente contra o concorrente. Era justamente o Huracán do coração de Islas – treinado por um iniciante Héctor Cúper, o adversário jogava por um empate para finalizar um jejum pendente desde 1973 e que ainda perdura: o goleiro deixou o clubismo de lado no impiedoso 4-0 do Rojo (em 1995, ainda dizia-se torcedor “do Huracán até morrer”, mas assumiu em 2003 que “ali eu quis ganhar, e ganhei”) e três meses mais tarde ele e o time de Avellaneda deixaram três brasileiros pelo caminho até o clube ganhar, enfim, sua primeira Supercopa, superando o Boca de César Menotti; a imagem que abre a matéria é desse triunfo. Entre um título e outro, também encerrou-se um jejum de onze anos contra o Racing. Islas, já como capitão do elenco, reforçava-se como um dos rostos daquela fase intensamente brilhante.

    Mas o enfoque na Supercopa fez o time ser apenas 11º no Apertura da temporada 1994-95. Depois, o foco continental passou a ser a fase de grupos da Libertadores de 1995, bem como a Recopa Sul-Americana, enquanto o time repetia o 11º lugar na disputa paralela do Clausura. A Recopa até foi vencida, em abril, sobre o Vélez de Bianchi, título que até recolocou o Independiente como clube mais vezes campeão de copas dentre todos os continentes. Mas o treinador Miguel Ángel Brindisi pediu demissão em seguida, já não sendo o técnico no reencontro com o Vélez ao fim daquele mês, já pelas oitavas-de-final da Libertadores.

    A saída nunca foi devidamente explicada e houveram boatos de uma rixa com o goleiro, que desmentiu isso em 2003, garantindo ter de Brindisi “uma imagem linda. É um técnico muito capaz, sério e transparente. O clube tinha uma dívida muito grande comigo, e por isso fiquei com o passe. Mas era muito difícil para o Independiente dizer ao torcedor: ‘Islas vai embora’. Então, no lugar de comunicar que me deviam grana e que não podiam me pagar, se buscou outra explicações”. Pois, de fato, Islas rumou em meados de 1995 ao Newell’s, que buscava repor a saída de seu maior goleiro, Norberto Scoponi, seu ex-reserva na Copa 1994.

    Ainda em alta, não só tinha o mimo de desenhar a própria roupa garantido pela Adidas (virando anedota ele precisar recorrer a uma camisa de treino na Recopa, que era bancada pela Toyota assim como o Mundial: assim, as camisas não podiam carregar outros patrocinadores) como declarou-se à disposição da seleção na entrevista daquele ano, embora não para ser reserva: “as pessoas sabem quem é o melhor. Se Passarella me convoca, é para ser titular”. A estadia promissora no Newell’s, porém, não deu certo, desentendido com o técnico José Yudica (“o respeito, embora seja um cara muito autoritário, seco, difícil de tratar. Alguém pode ser duro, mas com respeito”): os rojinegros ficaram só em 12º no Apertura 1995 e Islas começou o ano seguinte já na realidade mais modesta do Platense, que terminou em 16º no Clausura. Com ainda 30 anos e meio, ele deixou os marrons para um pé de meia no México, voltando do Toluca à Argentina em 1998 para cumprir o sonho infantil de defender o Huracán. Tampouco foi feliz, incapaz de impedir o segundo rebaixamento da história huracanense, ainda antes do fim da temporada de 1998-99.

    Ao meio, com a Recopa 1995, onde precisou usar camisa de treino. Desenhando as próprias roupas de jogo, ele posa com Usuriaga, Garnero (todos em pé), Gustavo López e Rambert com a Supercopa 1994; e como alguém que andava sobre as águas, na foto que ilustra o perfil dele na edição em que a El Gráfico escolheu os cem maiores ídolos do Independiente, em 2011 (ela também brinca com seu sobrenome, que significa “Ilhas” em castelhano).

    Islas disputou a segunda divisão, mas não pelo Globo e sim pelo Tigre – virando de uma só vez duas casacas antigas, dada a tradicional rivalidade nortista dos rubroazuis com o Platense e a rixa modernamente desenvolvida com o Chacarita desde os anos 80. Tampouco foi duradouro por lá: o Islas adorado pelo clube de Victoria é seu irmão caçula Daniel, que, ex-membro das seleções de base, viraria o arqueiro recordista de partidas como tigrense. O Tigre em 2000 abrigaria também outro irmão, Pablo Islas, gêmeo de Daniel. Luis, por sua vez, já estava de volta ao México, no León. Luis voltou à Argentina em meados de 2002: o Talleres vendera seu histórico goleirão Mario Cuenca para o Racing e precisava de um substituto midiático.

    Ainda com Cuenca, La T vinha de disputar sua primeira Libertadores e não manteve o pique, com um 15º no Apertura e um 16º no Clausura da temporada 2002-03. Nada que derrubasse o queixo do veterano de 37 anos, ao menos naquela nota de 2003: “me sinto mais completo do que nunca. No futebol, se alguém se mata aos 20 anos, se nota. Se me abrissem não encontraria marijuana, nem cocaína, nem álcool, nada. Estou espetacular. Se tivesse estado de sacanagem, aos 33 já teria sentido os anos. Mas um esportista como eu chega a essa idade em sua plenitude. Com uma potência terrível e uma experiência de vinte anos. É o ideal”.

    Ele também usava como exemplo o alto nível de outros veteranos em atividade na época, mencionando Ángel Comizzo no River, Oscar Passet no Newell’s e El Mono Navarro Montoya no Independiente. O ex-clube inclusive havia sondado o próprio Islas no México; ele não escondeu ter sentido nisso “uma alegria imensa” e de fato terminou reincorporado ao Rojo em meados de 2003. Pendurou as luvas ali, realizando um último jogo ainda em outubro embora naquela entrevista passasse outra imagem (“a aposentadoria chega quando a cabecinha diz basta: alguém não quer levantar-se às 8h, nem concentrar-se e lhe dá no mesmo ganhar ou perder… nisso sigo sendo o mesmo babaca que aos 15 anos se esquentava por um gol no treino. Então, sinto que estou apto para muito mais anos”), a ponto de dizer de antemão que não se surpreenderia totalmente se fosse convocado por Marcelo Bielsa: “por meu nível, não”. Calhou de no fim de setembro ele sofrer um 4-1 do River em plena Doble Visera pela Sul-Americana.

    Naquela última entrevista, também já não titubeava em ser considerado superior a Fillol, ao menos na visão do pai: “se me comprar com um monstro como El Pato, quer dizer que fiz muito no futebol. Estava falando justamente disso há três ou quatro dias com meu pai e, para ele, que é muito objetivo, eu sou muito melhor que Fillol”, insinuando que nunca recebera elogios do ídolo porque “El Pato talvez fosse muito espetacular em um momento em que eu também era. Então, talvez…”. O aniversariante só não conseguir replicar a grandiosidade dessa autoconfiança nos trabalhos como pós-jogador. Ele seguiu no Independiente para ser auxiliar técnico de Américo Gallego e, em carreira solo, nunca saiu da terceira divisão, seja no Central Norte de Salta, no Racing de Córdoba ou no Deportivo Español, trabalhos que teve entre 2011 e 2016 até topar ser assistente de Maradona no Dorados de Sinaloa, na segundona mexicana.

  • Luis Fabián Artime: o maior artilheiro do Belgrano

    Luis Fabián Artime: o maior artilheiro do Belgrano

    Luis Fabián Artime falou ao La Nación em 2022, já eleito presidente do Belgrano desde o ano anterior.

    Com atualizações após longa entrevista dada por ele ao La Nación em 25 de setembro de 2022, altura em que ele já havia sido eleito (em fevereiro de 2021) presidente do Belgrano

    Equiparar a carreira no futebol à de um pai famoso é daquelas missões para poucos. E Luis Fabián Artime, decididamente, não fez tanta história no futebol como o xará – e progenitor – Luis Artime, o grande matador de River, Independiente, Palmeiras e homem-símbolo do primeiro Nacional campeão de Libertadores e Mundial. Mas El Luifa (apelido derivado da contração de seus dois prenomes) soube ter um papel digno: é o maior artilheiro que a apaixonada torcida do Belgrano celebrou na liga argentina. A própria família reconheceu que em Córdoba é Luis Artime quem é “o pai de Luifa”, e não este quem é “o filho de Luis”. Vale relembrar a trajetória do matador celeste, que hoje faz 55 anos.

    Luifa formou-se em um ambiente de menor pressão familiar, o do Ferro Carril Oeste – onde no máximo houve em 1933 um outro Artime, que, contudo, só somou duas partidas no time principal verdolaga. Ingressou nas categorias de base convidado por um amigo da família, Carlos Timoteo Griguol, antigo colega de Artime pai no período áureo do Atlanta. De início, conciliava os juvenis do FCO com os estudos, uma exigência tanto dos pais como do próprio Griguol, e até mesmo ao trabalho “paitrocinado” na loja esportiva que seu velho empreendia com outro velho parceiro, Daniel Onega. Inclusive conciliou também seu início universitário também. A respeito desses inícios, detalhou assim ao La Nación:

    “Timoteo era muito amigo do meu pai. Íamos de férias juntos muitas vezes a Mar del Plata e Timoteo me via jogar as peladas e insistia com meu pai para me levar ao Ferro, mas meu pai não queria saber de nada até que eu terminasse de estudar. Ao fim, Timoteo insistiu tanto, que meu velho cedeu, e terminei a escola à noite. Timoteo foi um adiantado. Não te ensinava só de técnica e tática, te trabalhava a cabeça, te cultivava coisas para a vida. Te trazia um contador para que soubéssemos cuidar da grana. Te fazia assinar os contratos. Timoteo salvou a vida de muitos companheiros que não tiveram a sorte de fazer uma grande carreira e com essas poupanças puderam comprar uns apartamentos e hoje vivem desses aluguéis. Em 1983 nos trouxe uma ginecologista para que desse uma conversa de educação sexual, quando havia companheiros que não sabiam o que era uma camisinha”. Naquele ano de 1983, a propósito, Artime integrou a equipe sub-20 campeã argentina do campeonato da categoria.

    “Treinava de manhã no Ferro, almoçava em casa, ia trabalhar umas duas horinhas no negócio [do pai] e daí ia à escola. Vai dizer que não poderia estudar e trabalhar! Fiz as três coisas ao mesmo tempo e meu irmão, o mesmo. Quando comecei a treinar no sub-17 do Ferro, tive que passar à escola noturna. Precisava terminar o segundo grau, com Timoteo e [o auxiliar técnico] o Cai Aimar não se brincava: tínhamos que apresentar os boletins do colégio, ou não jogávamos. [Anos depois] Estava na licenciatura em educação física e me lesionei. Estava no sub-19 do Ferro, então disse a meus velhos que ia deixar de estudar para tratar de ser jogador. O escândalo que meu velho fez! Me dava o argumento lógico, que hoje dou aos garotos dos juvenis: muitos poucos têm sucesso, é preciso estudar e estar preparados. No final, me posicionei com meu velho: ‘tento estes 9 meses, se ao fim do ano não me fazem contrato, me dedico ao estudo’. E ao fim do ano o Ferro me fez meu primeiro contrato. Eram todos craques os dessa turma nascida em 1965. Lembro que um dia me disseram: ‘são uns fenômenos comparados a ti, mas sabe quem vai chegar lá entre todos eles? Você. Porque você treina todos os dias’. E foi assim. Ninguém chegou lá, eu tinha o profissionalismo muito metido na cabeça”.

    A partir de 1985, ele começou a frequentar o banco de reservas da equipe adulta, embora sem ainda entrar em campo. “Jogava toda a partida do sub-19, e ao terminar me esperava Aimar com a muda de roupa e me mandava ao banco. Assim foi durante 5 jogos, e estreei em 20 de janeiro [de 1986], um mês depois de completar 20 anos. Ou seja: não queria que eu estreasse com menos de 20. E enquanto isso me sentava ao lado de Márcico, Brandoni, Arregui, Cúper, escutava a preleção técnica, cheirava o vestiário do time principal”. A estreia nele veio pela 25ª rodada do campeonato de 1985-86. De modo auspicioso: marcou o único gol do duelo com o cascudo Deportivo Español da época, time que estava entre os líderes; Los Gallegos, de fato, ficariam com o bronze. Parecia um conto de fadas instantâneo, pois seu pai estava na arquibancada testemunhando. Mas…

    Ainda promessa do Ferro, com o quarentão Hugo Gatti, goleiro do Boca que jogara com seu pai no Atlanta e no River; e no time de veteranos, com outra revelação do clube, Roberto Ayala

    “No jogo seguinte, [Griguol] não me pôs, não podia acreditar. E assim foi me alternando: um jogo sim, outro não, um sim, outro não. Para me levar de pouco a pouco. Depois dessa minha estreia com gol, fizeram reportagens de mim por todos os lados: ‘o filho do gol estreou com gol’, e coisas assim. Estava numa nuvem deslumbrada e assim fui me levando por seis meses, para que ficasse centrado. Por dentro, o xingava como um condenado, mas tinha razão. Timoteo era um craque até nessas decisões. Vejam hoje como se queimam todos garotos por má adaptação. Nem falar do rol daninho que jogam as redes sociais, graças a Deus nós não as tínhamos. Hoje as redes sociais não só podem frustrar um jogador pelas coisas que se dizem, como também geram problemas a suas famílias”.

    O Ferro ficou em um razoável 6º lugar e, no pós-temporada, avançou até as semifinais da liguilla pre-Libertadores. Os outros dois gols do jovem Artime se deram naquele minitorneio, sobre o Güemes de Santiago del Estero (2-1, fora de casa) e em outro duelo contra o Español (4-1). Os números foram similares na temporada seguinte, de 1986-87: Ferro em 6º e semifinalista da liguilla, com Artime já marcando seus primeiros gols sobre a dupla Boca (1-1) e River (derrota de 2-1), além de outro no Español (1-0). Em meio àquele início promissor, ele até defendeu o Nacional uma vez: e em pleno amistoso contra o Peñarol, em 19 de dezembro de 1986, pela “Copa de Oro de los Grandes”. O rival venceu por 2-1.

    Além da derrota, a cogitada transferência a Montevidéu não era aprovada pelo patriarca: “é foda, é foda. No Belgrano, ele foi muito bem, eu não queria que jogasse no Independiente, onde por fim jogou, nem no Nacional, que o veio buscar várias vezes. Dizia que não, porque é foda. Eu ganhei tudo no Nacional, o que fazer? Qualquer coisa que fizesse ia ser pouco”, confessou nessa entrevista o octogenário Artime pai com toda sua dificuldade de fala (sofreu derrame há alguns anos, tendo priorizado a total recuperação locomotora, acabando por guardar sequelas fonoaudiológicas embora tenha lucidez plena).

    Luifa não oficializou a troca para o Nacional também, segundo ele, por não ter empresários. O que realmente brecou o início de carreira foram reiteradas lesões. Um perfil seu no guia Super Fútbol de 1989, que revela que seu apelido na época ainda era El Toro, descreve-o como “forte, aguerrido. É goleador por uma questão de linhagem. Vai bem à frente e gosta muito da área. Nos últimos tempos, esteve distante dos campos devido a uma série de lesões, por isso seu nome não se ouviu tanto como em seus começos, quando foi considerado um atacante com muito futuro”. Somou somente cinco gols entre as temporadas 1987-88 e 1988-89 (incluindo… em 3-2 no Español em 1987) e o Ferro começou a despencar, finalizando em 14º e 18º respectivamente.

    Ainda assim, o garoto estava em alta. Já para a temporada 1988-89, outro antigo colega de seu pai, José Omar Pastoriza, havia sido contratado pelo Boca, clube pelo qual Luifa torcia na infância (“meu pai é Racing e minha mãe, do River, mas eu tinha um tio que vivia ao lado e era do Boca. E como passava muito tempo com ele, me fez Boca. Meu ídolo era Rubén Suñé e as voltas da vida me levaram a casar com Marina, filha dele, a quem conheci nas férias que compartilhávamos em Mar del Plata. Tivemos três filhos: Iván Artime Suñé, Rodrigo Artime Suñé e Lucio Artime Suñé”), e quis leva-lo para lá. Para a de 1989-90, Pastoriza o garoto pôde acertar com o Independiente, onde ironicamente o racinguista que seu pai sempre foi havia sido ídolo.

    Seu pai com Gatti e Griguol, mestre inicial que Luifa teve na carreira profissional. À direita, pai e filho

    Não bastasse o peso enorme do sobrenome de um pai consagrado no Rojo pelo histórico título de 1967, Luifa, ainda sem gols em Avellaneda, calhou de ser o vilão do vice-campeonato na Supercopa de 1989, em novembro. Foi justamente o pressionado novato o único a perder sua cobrança na decisão por pênaltis que coroou em plena Doble Visera um Boca em jejum (em final realizada a quatro dias do aniversário do pai, também aniversariante em dezembro…). Capitão adversário e ele próprio ex-jogador do Independiente, o elegante Claudio Marangoni, espécie de Redondo dos anos 80, se comoveu a ponto de escrever-lhe uma carta aberta de apoio.

    “É provável que se eu convertesse esse pênalti houvéssemos sido campeões e me vendessem à Europa, e era capaz que eu não vestisse jamais a camisa do Belgrano, então não me arrependo nem amaldiçoo o que aconteceu, ao contrário. Minha história estava escrita para que fosse assim. Depois dessa final estive sete dias sem poder me mexer, seguia ligado pelos nervos. No primeiro jogo depois da final, tão logo entrei vindo do banco, a torcida do Independiente gritou meu nome em coro. É algo que vou agradecer ao pessoal do Rojo, ainda que com certeza a maioria não terá uma boa recordação de mim. Por sorte, depois o Independiente pôde ganhar duas vezes a Supercopa”.

    Ao fim da temporada, o Independiente também foi vice-campeão do campeonato argentino, mas comendo poeira de um River vencedor com rodadas e rodadas de antecedência. Artime contribuiu silenciosamente com cinco gols, todos já em 1990. Mas, nem assim, se sentia prestigiado, entre a soma do pênalti perdido com as inevitáveis comparações com o pai: “uma vez, ganhamos de 3-1 do Gimnasia, meti dois gols e no outro deixei o Gallego Insúa na cara para que convertesse [na verdade, foi 3-0, em 22 de abril de 1990, com o outro gol sendo de Rogelio Delgado mesmo]. Entrei no meu Fiat Uno no estacionamento, se aproximou um velhote e me disse: ‘foste muito bem hoje, garoto, mas teu pai teria feito cinco gols’. Era muito difícil! O sobrenome ajudou a me dar visibilidade. No Ferro não tive problemas, mas depois no Independiente foi uma cruz que tive que carregar”. Pastoriza, aquele mesmo que o queria no Boca, era novamente técnico no Independiente e respaldou o quanto pôde o filho do antigo parceiro.

    Luifa até chegou a ser o artilheiro do elenco na temporada 1990-91, mesmo que com apenas seis gols – um na Supercopa, curiosamente contra o Nacional, na eliminação no estádio Centenário; um no Apertura, no 1-1 com o San Lorenzo, três no Clausura, incluindo em 3-1 no Español, e em outros dois duelos contra o San Lorenzo, já pela liguilla. Mas não bastou para sobreviver a uma entressafra do Rojo, apenas 10º no Apertura 1990, 5º no Clausura 1991 e 11º no Apertura 1991. Esse foi o capítulo final de Artime em Avellaneda, após somente oito jogos, zero gols e até uma expulsão. O destino foi reforçar um novato na primeira divisão argentina. Ou, nas palavras que Artime deu ao La Nación: “em um verão em Mar del Plata, disse a Timoteo [Griguol]: ‘estou para ir embora do Independiente’. E Timoteo me disse: ‘trace uma linha da capital federal e vá o mais longe possível’. Tinha propostas do Gimnasia e do Estudiantes [ambos de La Plata], do Unión e do Colón [ambos de Santa Fe], e do Belgrano [de Córdoba, cidade mais distante de Buenos Aires em relação às outras duas]. ‘Vá ao Belgrano, que além de tudo é uma equipe com tuas características’, me disse o velho, que conhecia bem o futebol cordobês”.

    E assim, no Clausura da temporada 1991-92, começou a trajetória de idas e vindas pelo Belgrano. O reforço, entretanto, não foi um sucesso instantâneo por La B: seus gols começaram a sair apenas no Clausura 1992; foram quatro pelo 10º colocado. “Os primeiros sete jogos foram ruins. Contra o Newell’s do Bielsa no [estádio Gigante de] Alberdi, numa sexta-feira à noite, perdemos de 3-1 e [o técnico belgranense] Victorio Cocco me tirou aos 10 do segundo tempo e me xingou todo o estádio. Dois jogos depois, ganhamos de 3-0 do Estudiantes e fiz meus dois primeiros gols. Nesse dia me fizeram uma reportagem ao vivo e, ao terminar, um monstro do jornalismo cordobês, El Negro Víctor Brizuela, disse com estas palavras: ‘algum dia, alguma rua em Alberdi se chamará Luis Fabián Artime, El Luifa‘. Escutei esse final com os fones de ouvido colocados e pensava: ‘veja o que diz esse velho safado, que terá visto mil Copas do Mundo’. Sua opinião era palavra maior”.

    Não suportou a pressão de se sobressair no Nacional e no Independiente, onde o pai (curiosamente, torcedor do Racing) fora ídolo. Nem em outro gigante, o San Lorenzo

    O jogo seguinte foi precisamente seu primeiro Clásico Cordobés, enfrentado um Talleres treinado justamente por Pastoriza. Seria seu clique. Ele acabou trombando com o adversário Catalino Rivarola (futuro xerife gremista) e, na queda, rompeu os ligamentos do cotovelo, precisando imobilizar o braço. Fez questão de seguir jogando… e foi premiado: “sempre fui um cara metedor, de peitar, de ir de frente, de não arregar. Mesmo nos jogos em que não fazia gol, de igual modo chocava com todos. Errava no gol porque era um burro, ou arrebentava o peito do goleiro porque não sabia colocar rente à trave, mas sempre me entreguei. Eu fui um centroavante que amadureceu tarde; se houvesse maturado antes, talvez nunca pisasse em Córdoba, iria à Europa. Meti os dois primeiros gols no Estudiantes e uma semana depois me calhou de meter um gol incrível no clássico, com o braço imobilizado”.

    “Nesse dia escutei pela primeira vez o ‘Luifa, Luifa‘. Me imobilizaram o braço, sinalizei a Victorio Cocco para que não me substituísse e na primeira bola que recebi, girei e meti o 2-0. Saí gritando com um só braço, uma loucura, e em seguida pedi a substituição, não aguentava mais de dor. Ganahmos por 2-1 ao final. Depois desse jogo, fui a um hospital fazer a ressonância e os torcedores me acompanharam, a tal ponto que fecharam a rua. Aqui as pessoas imaginavam meu velho pelas fotos da revista El Gráfico ou por comentários da rádio, não o viram jogar, e isso me ajudou para que não o tivesse presente e me permitisse crescer sem essa comparação permanente”.

    Não seria a última vez que ele seria carrasco de um Talleres treinado por Pastoriza, a ponto de contar ao La Nación que em uma dessas vezes o mestre “me agarrou antes de entrar no vestiário, me deu um abraço e me disse: ‘que filho da p…, me arruinaste hoje, mas não sabes como gosto de ti’. No Apertura 1992, Artime enfim explodiu, com dez gols. Além de aplicar a lei do ex em vitória sobre o Independiente por 2-0, vazou ainda os grandes Racing (1-0) e San Lorenzo (3-3), terminando a dois gols da artilharia do torneio, mesmo pelo 8ª colocado. Na sequência, em 1993, a campanha no Clausura foi mais medíocre, em 14º, mas Artime e o Belgrano puderam avançar até a primeira etapa final da Copa Centenário da AFA. Os vencedores da fase de mata-matas foram os cordobeses e o forte Gimnasia LP da época. Os platenses prevaleceram, jogando os celestes para um mata-mata à parte entre os eliminados.

    “Sentia que me perdoavam tudo, às vezes errava um pênalti e não me diziam nada; mandava à bandeirinha do escanteio, mesma coisa. Mas me ocorria algo curioso: às vezes o goleiro espalmava o pênalti e desse escanteio eu metia o gol de cabeça, incrível. É para um filme a minha história. O primeiro grito de combate do cordobês, quando alguém chega de Buenos Aires, é ‘portenho filho da p…’, e a mim terminaram adotando. E esse portenho permaneceu aqui e tive filhos cordobeses. Foi um trabalho duríssimo, porque essa pátria interior é orgulhosa. Tive ofertas para ir ao Monaco e ao Betis, mas em Córdoba me sentia Deus, e digo sem acreditar nisso e sem soberba. Minha família estava muito contente, e eu era o cara mais feliz do mundo. E fquei, devo ser um dos últimos românticos do futebol”.

    Um desentendimento com o treinador celeste de então, Fernando Areán (“que foi um dos melhores técnicos que tive, um cara que no intervalo te mudava o destino do jogo com duas indicações, mas houve algumas coisinhas que fez e não me agradaram, e que tampouco direi agora por respeito aos mortos”), porém, fez com que Artime deixasse Alberdi pela primeira vez. Acertou com o San Lorenzo, com o Apertura 1993 já em andamento: ainda jogou a 1ª rodada por La B, ao passo que na 3ª já estreava como azulgrana. Não foi auspiciosa: “contra o Boca na Bombonera, joguei uns 25 minutos iniciais impressionantes, mas em uma jogada El Manteca [Sergio] Martínez me deu um carrinho por trás e sem querer me cortou um ligamento do joelho. Estive 45 dias para voltar a jogar, e nesse ínterim apareceu El Bailín [Eduardo] Bennett, meteu um montão de gols e já não tive mais chances”, declarou ao La Nación.

    Começando a arrebentar no Belgrano, em 1992. E já ídolo em 1996, carregando o futuro pontepretano Darío Gigena após o clássico que estendeu um pouco mais o tabu de 15 anos para cima do Talleres

    Não foi exatamente assim. Artime realmente demorou até a 7ª rodada para voltar a campo, mas chegou a ter uma sequência interessante de gols no San Lorenzo, ao menos a partir da 10ª rodada. Foi em 14 de novembro, ocasião em que ele, saído do banco, pôde aplicou novamente a lei do ex sobre o Independiente, derrotado na 10ª rodada do Apertura por 3-1 no estádio do Huracán – ainda alugado pelo San Lorenzo enquanto não se inaugurava o Nuevo Gasómetro. A inauguração do novo estádio sanlorencista veio em 16 de dezembro e Luifa marcou um dos gols da noite histórica (encerrando 14 anos em que o Ciclón não teve casa própria), no 2-1 amistoso sobre a Universidad Católica, então vice da Libertadores. Cinco dias depois da festa, ele até descontou para 3-2 uma derrota para o River ainda pela Copa Centenário – era a semifinal daquele mata-mata à parte entre os eliminados.

    Vieram então os tradicionais amistosos de verão entre os gigantes e Luifa se sobressaiu, anotando no 1-1 com o Racing, no 3-0 sobre o Boca e no 2-0 sobre o Independiente. Esses resultados, somados a um 1-1 com o River, renderam aos cuervos o troféu de campeões simbólicos da Copa Ouro Cidade de Mendoza, que sediou as partidas, e alimentou expectativas quanto à calibragem do pé de Luifa, artilheiro daquela pré-temporada. O problema é que a seca voltou incrivelmente na retomada dos jogos competitivos, pelo Clausura 1994: “um de tantos atacantes que fizeram gols em todos os lados, menos no San Lorenzo”, definiu seu diminuto perfil no Diccionario Azulgrana. Ao todo, seu único gol oficial foi mesmo aquele sobre o Independiente no Apertura (que até pesaria no fim: o ex-clube terminaria a dois pontos daquele título). Em dezessete jogos…

    O Belgrano, que já havia despedido àquela altura o desafeto Areán, estava de portas abertas e Artime logo voltou a mostrar que nasceu para vestir mesmo a camisa celeste: assim que voltou, logo fez-se o terceiro jogador na artilharia do Apertura 1994, vazando no caminho o Independiente (em derrota de 3-1), o Racing (1-1), o campeão River (1-1), o freguês Español (3-2) e, sobretudo, o único do clássico com o Talleres. La B foi 6ª colocada, sua melhor colocação na década. No Clausura, a ressaca foi grande: Luifa até se deu ao gosto de marcar o único gol de um triunfo belgranense dentro de La Bombonera sobre o Boca, mas o Pirata despencou para 17º. Não houve maior reação na temporada 1995-96, a resultar no primeiro rebaixamento do clube do bairro Alberdi, lanterna do Apertura e 13º no Clausura.

    Ao La Nación, o artilheiro pontuou que o clube sempre estava fadado a lutar contra rebaixamentos naquele período, em que as receitas televisivas eram recorrentemente penhoradas para saldar forçosamente as dívidas da instituição, que conseguia pagar jogadores e demais funcionários basicamente a partir do que conseguia nas bilheterias – sem haver margem para fortalecer satisfatoriamente o elenco. O artilheiro ficou para a Primera B Nacional de 1996-97, vencida pelo tradicional Argentinos Jrs. A outra vaga de acesso seria definida em um mata-mata com os melhores abaixo do líder. Em 5º lugar na temporada regular, o Belgrano deu-se ao gosto de impor ao Talleres nada menos que 15 anos de jejum no Clásico Cordobés (naquele duelo os alviazuis chegaram ao cúmulo de usar supersticiosamente uma camisa reserva grená, em vão) com um triunfo de 2-0 em setembro, embora o rival pudesse ir à forra em novembro com um famoso 5-0.

    O dérbi quase voltou a ocorrer na final do mata-mata de 1996-97. Mas La B caiu nas semis para o Gimnasia y Tiro de Salta, que adiante prevaleceu sobre La T. O artilheiro contribuiu com treze gols e seguiu para mais uma temporada na segundona, com um regulamento mais intrincado. Na edição de 1997-98, a fase regular da Primera B Nacional serviria apenas para formar dois grupos e o futebol cordobês mostrou-se forte, com o Instituto em 1º, Belgrano em 2º e Talleres em 3º. Já os grupos terminaram liderados por La B e La T, que então fizeram a final aguardada desde o ano anterior – agora, pelo título e única vaga direta de acesso. O rival venceu a ida e perdeu a volta pelo mesmo placar, revertendo-a ao triunfar na decisão por pênaltis. O bairro de Alberdi não riu melhor, mas riu por último, ao prevalecer nos mata-matas pelo segundo acesso. Já com 32 anos, o ídolo ainda contribuiu com oito gols nessa agridoce volta celeste à elite.

    Nos sempre renhidos clássicos cordobeses

    O regresso à primeira divisão não foi feliz. O Belgrano foi vice-lanterna do Apertura 1998 e no máximo 9º do Clausura 1999. Luifa anotou seis vezes na temporada inteira e foi visto como dispensável pelos cartolas, não acertando uma renovação de contrato: ele reforçou o Tigre na segunda divisão de 1999-2000, registrando quatro gols pelos rubroazuis enquanto o ex-clube seguia patinando na tabela de promedios da primeira divisão, com o antepenúltimo lugar no Apertura 1999 (enquanto o Talleres se gabava com a Copa Conmebol). O Tigre não ia muito melhor na segundona, sendo rebaixado antecipadamente. Foi a deixa: “queriam limpar 10 jogadores, então falei com o presidente e lhe disse: ‘não limpem 10 jogadores, o clube precisa deles, saio eu e pronto’. Eu sabia que me queriam no Belgrano e era o mais saudável a todos. O certo é que no Tigre eu não rendi”.

    Com o Clausura 2000 na reta final, Artime voltou a Córdoba como bombeiro. Marcou só dois gols, mas vitais para a permanência: o primeiro deles, no da vitória por 2-1 sobre o Estudiantes na 17ª rodada, decisivo para garantir a La B a sobrevida de uma repescagem contra o Quilmes. O duelo com o Cervecero guardou um dos momentos mais épicos já festejados pela torcida do Pirata, que jogava por dois resultados iguais. O adversário, na ida em casa, venceu por 3-1, com Artime sendo informado após o jogo que uma de suas avós havia falecido. Na volta, com uma camisa retratando-a por debaixo do manto belgranense, ele tratou de abrir o placar cedo, aos 16 minutos.

    O roteiro do que veio depois foi atribuído por ele ao espírito daquela avó: os visitantes empataram e a missão parecia complicada quando o celeste Javier Villarreal foi expulso. O 1-1 seguia no placar do então Estádio Chateau Carreras (o atual Mario Kempes) até os 20 minutos finais. Foi quando Luifa praticamente converteu um segundo gol, ao forçar o oponente Humberto Váttimos a marcar contra. Dez minutos depois, foi a vez do compadre Luis Ernesto Sosa acertar uma falta para decretar o 3-1 suficiente para a heroica salvação.

    Com moral, Artime seguiu intocável no bairro Alberdi por mais uma temporada de luta contra o rebaixamento. Aos 35 anos, ele ainda era capaz de marcar seis gols pelo 16º colocado do Apertura 2000, incluindo em mais um Clásico Cordobés (1-1) e no River (vencedor por 4-2). No Clausura, novo 16º lugar empurrou o Belgrano para nova repescagem contra o Quilmes. Os cordobeses outra vez levaram a melhor e, com a missão cumprida, Luifa, também às voltas contra cartolas contra quem batia de frente no clube, buscou no Apertura 2001 mais tranquilidade no Gimnasia. Esse era então a equipe forte de La Plata, e treinada pelo velho mestre Timoteo Griguol. O veterano, porém, chegou justamente em momento de baixa do griguolismo, com o mentor à beira da demissão. Sem espaço, o novato registrou só quatro partidas no Lobo, saindo do banco em todas; em duas delas, teve menos de dez minutos em campo.

    A volta do Messias: aos 35 anos, abre o 3-1 sobre o Quilmes em 2000, salvando o Belgrano do rebaixamento

    Mas não encontrou espaço no Lobo, registrando só quatro partidas, todas saindo do banco – em duas delas, com menos de dez minutos para o fim. Os gols que não vieram lá, porém, sobrariam no Peru. Carlos Biasutto, o mesmo treinador que o havia prospectado para o Belgrano em 1992, treinava o Melgar. Em resumo: “estavam complicados contra o rebaixamento e disse: ‘com camisa celeste não vamos perder’. Era a terceira camisa, celeste com uma faixa vertical vermelha e preta. E nos salvamos com essa camisa e terminei artilheiro do campeonato. [Mas] me levantava às 6 da manhã, e enquanto tomava uns mates via as notícias pela internet. O Belgrano não passava por um bom momento, estava para cair à terceira divisão, e as pessoas pediam que eu voltasse. Chiche [Luis Ernesto] Sosa e e Jorge Guayón me diziam: ‘Luifa, precisamos de ti’. E voltei, apesar do nojo do meu velho, que não falou comigo por um mês”.

    O pai se irritou mesmo com aquele romântico: “vim do Peru ao Belgrano sendo goleador e ganhando 10 mil dólares por mês para ganhar 3 mil recebendo fiado. Nesse dia, meu velho se enojou comigo. Estávamos em casa e me perguntava se ia seguir no Peru e eu me fazia de sonso e não respondia, trocava de assunto, até que meu irmão lhe disse: ‘papai, você conhece Luis Fabián, nunca pensou em dinheiro’”. De fato: Luifa havia conseguido a artilharia peruana com 24 gols em 42 jogos pela Cordilheira, ao passo que, sem o antigo goleador, o Belgrano caíra na lanterna dos promedios no Clausura 2002 para a segunda divisão. No segundo semestre de 2002, estava em queda livre rumo à terceira.

    Luifa voltou para casa em janeiro de 2003 para duas temporadas e meia na Primera B, e de início contribuiu para evitar um segundo rebaixamento seguido. Só não tinha mais fôlego para devolvar La B à série A, com o perdão do trocadilho. Sua última partida oficial foi em 13 de março de 2005, derrotado por 4-1 em dérbi local com o Racing de Córdoba. Já o último de seus 86 gols pelo Belgrano por torneios argentinos saíra ainda em 16 de outubro de 2004, descontando de pênalti uma derrota de 2-1 para o El Porvenir em um morno 13º lugar no Apertura da segundona. Os números são inferiores aos 103 de José Reinaldi, artilheiro máximo do clube em estatísticas que consideram também a liga regional cordobesa; Luifa, por outro lado, é quem mais proporcionou gols em Alberdi no campeonato argentino. Rotina que permanece mesmo depois dos 50 anos, por equipes masters do Ferro, do Belgrano e até da seleção argentina, a qual ele nunca pudera defender como profissional.

    Em 2015, escolhemos ambos para a dupla de ataque do time belgranense dos sonhos, mas coube a Artime ser o único representante celeste na renomeação de cada uma das quatro tribunas do palco municipal, quando o antigo Chateau Carreras virou o atual Estádio Mario Kempes (Osvaldo Ardiles representa o Instituto, Daniel Willington simboliza o Talleres e Roberto Gasparini, o Racing local). Pudera: sua influência não se limitou ao futebol, respingando até mesmo no basquete de alto nível. Jurou ele ao La Nación que o cestinha Scola passou a ser apelidado Luifa, embora não se chame Luis Fabián e sim Luis Alberto, por causa da idolatria que o atacante despertava em cordobeses que integravam a geração dourada do básquet dos anos 2000. “Inclusive uma vez, há uns 15 anos, se jogou uma partida no [ginásio cordobês] Orfeo e como o Grupo Sancor [onde ele vinha trabalhando como corretor de seguros] era patrocinador, fui ao jantar pós-jogo, e aí me agarrou Manu Ginóbili e disse: ‘hey Scola, este é o verdadeiro Luifa, não um falsificado como você!’”.

  • Alejandro Sabella: o craque antes do técnico da seleção

    Alejandro Sabella: o craque antes do técnico da seleção

    Alejandro Sabella é mais conhecido pelos feitos como técnico, mas antes disso foi um meia refinado no Estudiantes e no futebol inglês.

    Alejandro Javier Sabella é mais conhecido pelos feitos como técnico: antes de devolver a Argentina às finais (e às semifinais também) de Copa do Mundo após 24 anos e de propiciar que Messi vivesse sua fase mais prolífica na Albiceleste, Sabella já havia levantado com apenas seis meses da nova carreira a Libertadores sonhada havia 39 anos pelo seu Estudiantes. Discreto, El Pachorra também merece ser lembrado pelo grande craque que foi, sobretudo no clube de La Plata e com seus momentos no River, a fazerem do ex-camisa 10 um dos primeiros jogadores que o então fechado futebol inglês importou em massa para além das Ilhas Britânicas. E neste dia 8 de dezembro de 2020, ele nos deixou precocemente. 

    Nesta matéria, publicada no dia dos 65 anos de Sabella, focamos na carreira inicial, a incluir ainda uma passagem agridoce pelo Grêmio.

    Sabella veio da classe média, crescendo na esquina das ruas Vidt e Paraguay, no bairro portenho de Palermo. Filho de um engenheiro agrônomo com uma diretora escolar, não precisou trabalhar na infância mas tampouco usufruía de luxos como comer fora de casa, vestindo-se com roupas feitas pela própria mãe. O dinheiro que sobrava na família era em boa parte usado para mantê-los como sócios, ironia, de um Gimnasia y Esgrima: o de Buenos Aires mesmo, um tradicionalíssimo clube social fundado ainda em 1880 e que inspirou homônimos país afora, ainda que desativasse seu time de futebol competitivo ao ser rebaixado em 1916 (ano em que sediou a primeira Copa América, após ser sede dois anos antes dos primeiros Brasil x Argentina). O pai atuava nas peladas internas do GEBA e os filhos seguiram o exemplo. Alejandro chegou a vivenciar cinco anos de invencibilidade pelo seu quadro e por conta do GEBA fez sua primeira viagem internacional: ao Brasil, para enfrentar em São Paulo outro clube de tradição sem futebol competitivo, o Pinheiros.

    Outra ironia: Sabella torcia pelo Boca e, tendo mão destra, já teorizou que não nasceu canhoto nos pés, desenvolvendo sua habilidade na perna esquerda ao espelhar-se no grande ídolo xeneize dos anos 60: Ángel Rojas, o Rojitas, espécie de Riquelme da época – chegando a festejar no jipe do pai a conquista do Nacional de 1969, a única onde os auriazuis terminaram campeões argentinos ao fim de um Superclásico dentro do Monumental. Ele chegou a fazer testes no clube original do coração e também no Racing, sem vingar. E exatamente em 1970 terminou parando no River, por conta da amizade do pai de um colega de GEBA com um delegado millonario. As palavras a partir daqui são tiradas da longa entrevista que ele deu em 2009 à El Gráfico: “me dava vergonha. Mas insistiram tanto que fui e me testei. Quando perguntaram a idade, por conselho desse pai, disse que era de 1955, porque eu era pequenino no físico, embora seja de 1954. Fui bem e tinha que ir na prova definitiva no fim do ano. Tinha pânico de dizer a verdade. Fui, andei bem e quando o delegado me perguntou a idade e disse que era de 1954, quase me mata. Mas me inscreveram do mesmo jeito. Me testou Bruno Rodolfi, um histórico volante do River”.

    No início de River, embora ironicamente torcesse na infância pelo Boca. Outra ironia era o visual. Cabeludos de hoje, tremei!

    O tal Rodolfi, de fato, defendera o time por quatorze anos, sendo colega de Di Stéfano nos anos 40. Sabella, por sua vez, ainda nas inferiores conheceu Daniel Passarella, outro torcedor do Boca (e devoto eterno do Rojitas) que viria a assimilar-se riverplatense e com quem construiria sólida relação. Chegaram juntos às seleções juvenis e estrearam no time adulto do River no mesmo ano, em 1974 – ano em que Sabella também ganhou seu apelido mais famoso, do locutor Marcelo Araujo, ainda em atividade. Chamado de Cabezón na infância, virou El Pachorra (“O Bicho-Preguiça”) por prezar pelo hábito da siesta (“não foi porque eu não corria em campo, heim!”, gargalhou naquela mesma entrevista). Também foi chamado de Mago após um amistoso com o River em Misiones onde aproveitou um peixinho para marcar um gol com o calcanhar, após errar o tempo de bola para o cabeceio que originalmente pretendia. A profissionalização significou o fim de seu curso de direito, mas permitiu ao jovem vivenciar de imediato uma das maiores festas do River: a quebra em dose dupla do incrível jejum de dezoito anos que acometia Núñez, finalizado com a conquista tanto do Torneio Metropolitano como da do Torneio Nacional em 1975. O meia deixou quatro gols ao longo das duas campanhas, incluindo um no Estudiantes.

    Não que Sabella fosse titular, na sombra de um concorrente ainda mais talentoso e querido na camisa 10: Norberto Beto Alonso, espécie de Zico millonario que integraria a Argentina de 1978. Para 1976, ele ganhou mais espaço com a saída do volante Miguel Ángel Raimondo, formando o quarteto do meio-campo com Alonso, Juan José López e Reinaldo Merlo na campanha finalista da Libertadores, onde o ponto alto foi destronar na semifinal um Independiente que vinha de um recordista tetra seguido no torneio. Sabella esteve nos três jogos da decisão. Outra ironia: o técnico campeão da edição de 2009 terminou vitimado pelo Cruzeiro, que em suas palavras “era uma grande equipe e nós chegamos com vários titulares fora. A amargura foi muito grande. Ainda assim, só tive real dimensão da derrota no ano seguinte, quando o Boca ganhou La Copa. Aí aumentou a frustração”. A boa campanha terminou por render na venda de Alonso ao Olympique de Marselha, mas Sabella passou então a concorrer com Victorio Cocco, um dos quatro maiores campeões profissionais que o San Lorenzo teve no século XX, e Alberto Beltrán, que chegou a ser visto como mais talentoso do que Kempes e Ardiles no elenco em que jogavam no Instituto de Córdoba.

    Assim, Sabella não atuou tanto na campanha campeã seguinte do River, no Metropolitano de 1977, onde deixou quatro gols – incluindo contra Independiente e San Lorenzo. A falta de espaço o fez topar uma oferta da segunda divisão inglesa. A polêmica de 1966 a marcar o nome de Antonio Rattín não impedira que o ex-volante do Boca tivesse reputação com a classe operária britânica mesmo na época, e ele se tornara representante do Sheffield United na América do Sul. O alvo inicial do clube era o adolescente Maradona, mas não havia dinheiro. Mario Zanabria, o Riquelme dos anos 70, também foi segurado. Terceira opção, Sabella foi aprovado ao ser assistido pelos emissários dos alvirrubros em um Superclásico na Libertadores de 1978. O mercado inglês havia acabado de abrir-se, importando na mesma leva três recém-campeões mundiais: Alberto Tarantini viveria uma experiência-relâmpago no Birmingham City, ao passo que Ardiles (veja aqui) e Ricardo Villa (aqui), embora não automaticamente, virariam ídolos históricos no Tottenham Hotspur.

    Destaque em um capenga Sheffield United e pelo Leeds United junto de Ardiles, Marangoni e Villa, com a Tower Bridge ao fundo

    Outra ironia? Sabella terminou sua primeira temporada rebaixado à terceira divisão, ainda que em uma edição embolada onde dez pontos separaram o antepenúltimo Sheffield United do 6º colocado (o Notts County). O argentino destacaria esse paradoxo: “fui muito bem a nível individual porque quando elegeram o time do século, em 2000, me colocaram. Significa que algo eu fiz. Caímos para a terceira e as pessoas entraram para nos carregarem nas costas. Nos diziam: ‘no ano que vem, subiremos’. Contas e não acreditam. Não sei como seria agora, mas isso foi incrível”. O argentino não conseguiu o acesso na temporada 1979-80, com o United em 12º enquanto quem subiu à segundona foi justamente o rival Sheffield Wednesday, mas o bom nível individual o fez subir diretamente à elite: foi contratado pelo tradicional Leeds United. “Aí joguei na primeira, mas tive um problema: o técnico que me levou durou cinco jogos, veio outro, e este novo gostava de um futebol a um toque. Os treinos eram todos a um toque, e isso me matou, porque me encantava manter a bola. Não o critico, só digo que ia contra meu estilo, então não joguei muito”.

    A falta de espaço rendeu uma das maiores anedotas da raposa Carlos Bilardo. O polêmico Narigón conseguiu a façanha de convencer os cartolas do Leeds a liberarem aquele talento, mesmo reserva, por apenas dois mil dólares, pechincha obscena mesmo para os padrões da época: “Carlos foi com pouca grane e me pediu algo emprestado, se não lembro mal. Brigamos e choramos bastante. Jogamos em um sábado, me lembro, depois fui buscar Carlos na estação de trem, o deixei no hotel e no domingo de manhã passei a busca-lo e nos juntamos no Leeds com o gerente e seu assistente. Os caras estavam apressados porque, imagine, era domingo, que para eles é sagrado e queriam passear com suas mulheres! Eu servia de tradutor. Carlos levou uns recortes de jornais sobre a crise econômica que havia na Argentina e que o Estudiantes estava fazendo um grande esforço. E os convenceu”. De fato, na época a religião anglicana imperava contra partidas de futebol aos domingos, inspirando nota da revista El Gráfico destacando que “o sábado inglês é argentino”, ao reunir Sabella à beira do Tâmisa com Ardiles, Villa e o também talentoso Claudio Marangoni (do Sunderland). Sabella veio a La Plata em 1982 e não tardou a se mostrar um dos maiores custos-benefícios já pagos no futebol.

    Sabella vivera na Inglaterra na época dourada do Nottingham Forest e a imagem do Estudiantes poderia ser similar: os platenses tinham mais títulos internacionais (um Mundial e três Libertadores) do que domésticos, erguidos quase na totalidade entre 1967 e 1970 – excetuando o campeonato argentino amador de 1913 e a segunda divisão de 1911 e 1954. O Pincha ainda convivia com a má fama de um time que fora vencedor mais na base da truculência e astúcia do que do futebol bonito. El Pachorra então orquestrou o elenco que faturou o Metropolitano de 1982, o primeiro troféu desde a Era 1967-70, sofrendo inclusive o pênalti que abriu o placar na rodada do título. O feito alçou o técnico Bilardo para a seleção – e Sabella pôde enfim estrear na Albiceleste no primeiro jogo da Era Bilardo, o 2-2 com o Chile em Santiago em 12 de maio de 1983. O chamado não se resumia a uma panelinha: o Estudiantes estava tão bem que, mesmo sob novo comandante, Eduardo Luján Manera, logrou no mês seguinte o único bi seguido dos alvirrubros no campeonato argentino, levantando o Nacional de 1983 (Sabella deu a assistência para abrir o placar na final com o Independiente). Com um detalhe: batalha de La Plata com o Grêmio à parte em julho, aquele Estudiantes foi reconhecido como dotado de um bom futebol aos olhos.

    Preparando a canhota em classe pelo Estudiantes e prolongando a carreira no Ferro Carril Oeste, sua outra equipe no futebol argentino

    Aquele bi representou os únicos troféus do Pincha na elite no século passado. O clube seguiu no pódio em 1984 (terceiro colocado) e Sabella, na seleção, embora curiosamente só tenha vencido uma partida pela Argentina, mas que partida: o 1-0 sobre o Brasil (gol de Ricardo Gareca) que encerrou um jejum de treze anos desfavorável aos hermanos no clássico. Também só foi derrotado uma vez em oito jogos, justamente em sua involuntária despedida, ainda em 18 de julho de 1984, derrotado por 1-0 pelo Uruguai em Montevidéu. Os empates permearam a trajetória do meia pela seleção, incluindo dois 0-0 arrancados contra o Brasil em solo rival. Dado como contratado pelo Internacional em fevereiro de 1984, terminou efetivamente negociado com o rival Grêmio em janeiro de 1985 – estreando no mês seguinte contra o Cruzeiro, no Brasileirão. Sabella declararia: “fui com 30 anos e pensei: ‘enfim vou treinar menos, me divertir’. Para quê? Fui ao sul do Brasil, em território gaúcho. Cheguei, fui à revisão médica e havia três brasileiros em macas, com cicatrizes de 20 centímetros, todos operados nos ligamentos. Nunca treinei tanto em minha vida como aí, turno duplo todos os dias. Antes do segundo jogo, tinha que subir a escada em espiral da concentração e fiz quase de joelhos, usando as mãos e os pés”.

    Sempre extenuado até para aproveitar socialmente Porto Alegre com a família, não se acostumou a cidade e o time em desmanche também não contribuiu para que ele (assim como o clube) se destacasse no Brasileirão – ele já chegara sob a cobrança de preencher no coração gremista a lacuna deixada pelas saídas recentes de Tita e Hugo de León. A avaliação na Placar de sua estreia acabaria por resumir a estadia tricolor do Pachorra: “nota 6. Criativo, mas sem ritmo. Bem marcado”. O argentino pôde levantar no segundo semestre o título estadual, mas no início de 1986 acertou um empréstimo de três meses a seu Estudiantes, de olho em uma possível vaga na Copa do Mundo. Até deixou um gol pelo 16º colocado (de 19 times) contra o Boca já na 32ª rodada do campeonato argentino de 1985-86. Com o ex-mentor Bilardo abrindo espaço mesmo a quem não participara das eliminatórias, discutiu-se sua inclusão até o último momento, mas isso não ocorreu. “Estavam Maradona, Bochini, Tapia e Trobbiani, todos excelentes jogadores, o que posso dizer? Na primeira vez que treinei (com Maradona), foi um baque. Voltei a minha casa totalmente deprimido, pensando que eu não sabia jogar futebol”.

    Sabella voltou brevemente ao Rio Grande a tempo de participar do bi estadual seguido com o Grêmio em julho de 1986 e reconheceu alguns ensinamentos assimilados nos pampas: “do Valdir Espinosa, no Grêmio, me ficou uma frase: ‘o futebol é uma luta pelos espaços; o que melhor e mais rápido os ocupa, ganha’. Rubens Minelli se enojava quando tínhamos a bola e não chutávamos a gol”. Mas em agosto El Pachorra já se despedia de vez do Olímpico para ter um terceiro ciclo no Estudiantes ao longo da temporada argentina de 1986-87, sem o mesmo êxito de outrora (12º lugar). Seguiu na temporada seguinte como jogador do Ferro Carril Oeste, premiado pela Unesco na época, mas já não pelo futebol de 14º lugar. O meia estendeu a carreira por mais um ano, no Irapuato da liga mexicana. Em paralelo, seu velho compadre Daniel Passarella também pendurava as chuteiras no River, para já em janeiro de 1990 assumir como técnico do clube. O ex-zagueiro logo chamou o amigo para trabalhar consigo, com Sabella assumindo inicialmente o time B do Millo.

    Reserva de luxo no Grêmio bi gaúcho e acompanhando como auxiliar o compadre Passarella no Corinthians: os clubes brasileiros de Sabella

    O agora ex-meia então tornou-se auxiliar-técnico quando Passarella assumiu a seleção após a Copa de 1994, seguindo-o fielmente também pela seleção uruguaia, Parma, Monterrey (as malas prontas para o México o fizeram inclusive declinar um convite para ser técnico do Estudiantes ainda em 2004), Corinthians e em nova etapa de River. Então o Kaiser rumou para a (desastrosa) trajetória de presidente millonario. “Livre”, Sabella voltou a ser sondado por ninguém menos que Juan Ramón Verón, o cracaço Verón pai, para assumir no início de 2009 o Estudiantes. “Havia falado com Daniel umas semanas antes, e me disse que se recebesse uma oferta, que aceitasse sem duvidar, que ia ficar contente por mim. Quando passamos do Libertad nas oitavas, aí sim vi que podíamos sonhar em chegar na final. Na fase de grupos, ganhamos de 4-0 do Cruzeiro e as conclusões do corpo técnico foram duas: tomara que não tenhamos que jogar nunca mais contra esse time, e eles chegam à final. Nos pareceu um timaço a despeito do resultado, que havia sido meio mentiroso. Quando nos calhou a final, lembrei que a única vez que cheguei a uma final de Libertadores havia sido em 1976 contra o Cruzeiro a havia perdido”.

    “Isso é algo que sempre falamos no plantel: a mente, o equilíbrio emocional são fundamentais. Manter o equilíbrio, que em geral é o primeiro que se perde, é a chave, tanto se vais bem como se te vai mal. Não se desorganizar ante uma adversidade nem fazer-se punir. Quase sempre que expulsam por duplo amarelo, o primeiro é uma tolice absoluta. Por sorte, empatamos rápido. Isso sim foi um golpe enorme neles”, comentaria Sabella sobre aquela final que recolocou o Pincha no topo da América mesmo não saindo do 0-0 em casa (o que segundo o treinador não foi visto como um fim do mundo, com o elenco já escaldado com a final da Sul-Americana de 2008, onde soube vencer fora de casa o Internacional no tempo normal) e começando perdendo no jogo da volta, no Mineirão. Foi a única final Brasil-Argentina de Libertadores onde os hermanos lograram uma virada em solo tupiniquim para serem campeões. O time estaria ainda muito próximo de um título mundial frente ao Barcelona, que forçou a prorrogação já no fim da partida. Em seguida, veio o vice por um mísero ponto no Clausura 2010 e o último título do Estudiantes até hoje, no Apertura seguinte. Um semestre depois, com a queda precoce de Sergio Batista na seleção argentina, Sabella então foi chamado a substitui-lo.

    Sabella optou por sair ao fim da Copa do Mundo de 2014, sem trabalhar mais – e comovendo os argentinos com um visível declínio de sua saúde, do qual sua família não fala. Sobre o grande senão da passagem na Albiceleste, a panelinha exagerada com velhos conhecidos de Estudiantes (Marcos Rojo, Federico Fernández, Agustín Orión, Enzo Pérez terminaram na Copa de 2014 ao passo que Christian Cellay, o veterano Rodrigo Braña, Mauro Boselli e “aquele” Leandro Desábato também foram empregados nas eliminatórias), talvez sirvam de antemão as palavras que usou para romantizar sua ligação com os alvirrubros – ao ser indagado em 2009 sobre a mística pincha: “é difícil definir algo que se sente, se palpa, se respira. A mística é um pensamento, são jogadores que vêm ao refeitório de chinelos para pedir água para o mate, são os quadros pendurados na concentração, os nomes de Zubeldía e Prátola nas placas que nomeiam distintos lugares. Em síntese, é sentir-se identificado com um clube. Estudiantes é um clube grande e pequeno ao mesmo tempo, uma mescla de gigante e de família difícil de explicar”.

    https://twitter.com/CONMEBOL/status/1191729772021321728
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    https://twitter.com/EdelpOficial/status/1191723534176997377
  • Federico Vairo: do River e da seleção a quase descobridor de craque

    Federico Vairo: do River e da seleção a quase descobridor de craque

    Federico Vairo defendeu o River e a seleção argentina, e quase entrou para a história como descobridor de um craque.

    Em 8 de dezembro de 2010, já cinco dias depois das lamentações pela perda de José Ramos Delgado, as manchetes esportivas precisavam direcionar à expectativa do fim do jejum do gigante Independiente no cenário internacional. Foi a data em que o Rojo receberia o Goiás no jogo de volta da Sul-Americana. Uma pena: em um dia normal, as chamadas deveriam dedicar-se a um grande levado na véspera na batalha contra o câncer no estômago. Hoje, faz-se dez anos sem Federico Vairo, que quase entrou para a história do futebol também como descobridor de Messi se La Pulga tivesse permanecido no River, clube com o qual Vairo, titular da Argentina na Copa de 1958, mais se identificou. Se no obituário em 2010 o Futebol Portenho já relembrou boa parte da trajetória do ex-zagueiro, hoje vale detalhar mais sua carreira.

    Filho do casal italiano Pietro e Maria, Vairo nasceu em 27 de janeiro de 1930 em Rosario (algumas fontes falam em 23 de fevereiro, que na realidade foi a data do registro em cartório em Santa Fe), crescendo no bairro de La Tablada. Proveniente das categorias de base do Rosario Central, ele estreou no time adulto no esquecível ano de 1950: pela segunda vez na história, os canallas sofreram o rebaixamento, ainda que o zagueiro, com dois gols (1-1 com Huracán e 2-2 com Tigre), já exibisse um chute de longa distância forte e certeiro e se firmasse rapidamente na titularidade, presente em 23 jogos; o Central, inclusive, acabaria contratando seu irmão Juan Vairo no curso daquela temporada, junto ao Tiro Federal. O retorno à elite foi imediato, com Federico estabelecido no flanco esquerdo de um consagrado miolo de zaga com Alfredo Pérez.

    O setor defensivo foi mesmo a parte mais notável do Central naquela primeira metade dos anos 50, em que o time permaneceu mais próximo das últimas posições do que das cabeças: os 62 gols sofridos no campeonato de 1952 foram relativamente próximos do 3º colocado, o Independiente, que levou 58. Só que o Rojo também tinha o melhor ataque (72 gols), ao passo que os rosarinos tiveram o quarto pior, marcando 48 vezes, terminando em 13º de 16 times. Vairo, do seu lado, já havia se convertido no cobrador oficial de pênaltis, marcando assim três gols. Que incluíram um 5-3 sobre o campeão River, tarde de festa familiar, pois outro gol centralista foi anotado pelo irmão Juan – meia-atacante que acabaria até contratado pelo Boca para o ano seguinte.

    Em 1953, o Central, vazado 51 vezes, já pôde dividir uma segura 7ª colocação com o próprio Boca; o zagueiro marcou inclusive quatro gols, mas o Vairo mais ilustre parecia ser o irmão Juan, que marcou os mesmos quatro gols em uma só partida, justamente em duelo com o Central, surrado por 6-1. E em 1954, a rotina no Arroyito voltou a ser a briga para não cair. Oito pontos separaram o time, 12º colocado, da degola sofrida pelo Banfield. E muito se deveu à zaga: os 52 gols sofridos foram quase a mesma quantidade dos clubes que terminaram em 4º, Platense (50 gols) e Lanús (51). Federico Vairo e a dupla Alfredo Pérez terminaram reconhecidos pelo poderoso River, que adquiriu ambos para 1955 – ano de reconhecimento também por parte da seleção: Vairo fez sua estreia pela Argentina na Copa América daquele ano, realizada ainda em março, antes da temporada argentina.

    Duas imagens de 1955: Vairo contra o próprio River, ainda no Rosario Central, descrito na legenda como “transferência sensacional da temporada”. E já no novo clube comemorando o título garantido em plena Bombonera, junto aos bigodudos Walter Gómez e Ángel Labruna

    Multicampeã nos anos 40, a incluir o único tri seguido que o torneio já viu (1945-46-47), a Argentina voltava ao torneio pela primeira vez após o tri; vinha de ausências nas edições anteriores, em 1949 e em 1953, temerosa de que o êxodo de seus craques ao futebol colombiano a houvesse enfraquecido. Receio que provou-se exagerado, com a imediata reconquista da coroa sul-americana. Formando dupla firme com Pedro Dellacha (por sinal outra baixa do ano de 2010), Vairo só se ausentou do jogo contra o Peru, precisamente o único jogo sem vitória – um 2-2 que propiciou que a rodada final contra o anfitrião Chile começasse com as duas nações igualdas na liderança, travando uma verdadeira decisão. A Albiceleste prevaleceu por 1-0. Fez-se justiça a quem, na campanha, aplicara até um 6-1 no clássico com o Uruguai.

    O River inclusive reforçou-se também com seu velho xerife Néstor Rossi, regressado justamente do Eldorado, conforme o pacto entabulado entre a liga colombiana e o resto da Conmebol. O combo defensivo aliado ao melhor ataque do país permitiu um título para o assombro: em tempos onde vitórias valiam 2 e não 3, o Millo ganhou o torneio com sete pontos de diferença para o vice Racing. Pesaram 16 jogos seguidos de invencibilidade (seguidos de outros dez, no segundo turno) e uma temporada invicta no Monumental. No início segundo turno, era o Boca quem liderava, com quatro pontos à frente, já tendo até imposto um 4-0 no Superclásico – no estádio do Racing, onde o River foi mandante.

    Mas o rival só conseguiria somar na sequência metade dos pontos construídos pela Banda Roja. E houve troco: o título se garantiu com um 2-1 de virada sobre o Boca em La Bombonera. Até hoje, foi a segunda e última vez que o River garantiu um título em Superclásico na casa rival, ainda que o líder Ángel Labruna ordenasse aos colegas que evitassem uma provocativa volta olímpica sob os narizes inimigos. Sem a dupla Vairo (presente em dezoito jogos) e Pérez, o Central esteve muito mais perto da queda, separado por dois pontos do lanterna Platense mesmo já tendo a defesa mais vazada do certame. Mas a antiga torcida pôde festejar com seu antigo zagueiro, que deu-se ao gosto de converter um pênalti em uma visita a Rosario para enfrentar o Newell’s (2-2).

    A taça rendeu a Vairo sua única capa como protagonista da prestigiada revista El Gráfico, em edição de novembro – é a imagem que abre essa matéria. E o referendou na seleção para nova Copa América, realizada no Uruguai em fevereiro de 1956. O torneio até rendeu o único gol dele pela Argentina, nos 2-1 sobre o Peru. O que não foi possível foi evitar na rodada final que o Uruguai mantivesse a escrita de sempre vencer o torneio quando o sedia; a Celeste prevaleceu pelo placar mínimo e foi campeã, na primeira partida em que Vairo não saboreou uma vitória pela seleção; até ali, haviam sido sete jogos e sete vitórias, um recorde nas estatísticas da Albiceleste por todo o resto do século XX (foi igualado já na virada de 2009 para 2010 por Mario Bolatti). Depois daquele revés, viria uma invencibilidade de vinte jogos (incluindo um 1-0 sobre a Itália) que significou um recorde individual com a seleção até a fase dourada de 1991 a 1993.

    O gol de falta sobre os ex-colegas do Rosario Central que abriu o 4-0 que garantiu o título de 1956

    O ano de 1956 já viu uma disputa mais parelha pela taça, contra a sensação Lanús e seus Globetrotters. Se o poderio ofensivo era similar (61 gols do River, 59 dos grenás), os cinco gols a menos que a defesa riverplatense levou evidenciaram mais a discrepância. Na 24ª das 29 rodadas que o campeonato teve, houve o duelo direto em La Fortaleza pela reta final. E os visitantes souberam virar para 3-1 e manter a liderança isolada garantida a partir dali. O título pôde se garantir na penúltima rodada, contra o Rosario Central. Vairo, inclusive, aplicou bem a lei do ex, abrindo em potente cobrança de falta logo aos 6 minutos a goleada de 4-0 sobre o ex-clube. Se em 1955 ele atuara dezoito vezes, agora já era o jogador de linha com mais partidas na campanha, 27.

    Ele só não era sobre-humano contra Garrincha: Vairo (por vezes grafado como Jairo em algumas crônicas brasileiras da partida) foi o marcador a penar contra o Mané em um duelo amistoso contra o Botafogo em fevereiro de 1957 no México, em duelo que ganhou ares de lenda por ter difundido os gritos toureiros de olé a cada drible do ponta sobre o argentino – substituído aos risos de conformação. O que menos se recorda é que, objetivamente, a partida terminou em 1-1. Entre março e abril de 1957, então, Vairo integrou a Argentina novamente campeã da América, no recordado elenco apelidado de Carasucias de Lima, capazes de garantir a taça ainda na penúltima rodada em um 3-0 sobre o Brasil. Até lá, já haviam varrido a Colômbia com um 8-2, o Uruguai com um 4-0 e o Chile com um 6-2.

    Na volta do Peru, o enfoque de Vairo e colegas era igualar um recorde exclusivo do Racing: o tricampeonato seguido. A missão pareceria complicada com a venda do foguete Omar Sívori à Juventus logo após a estreia, após o brilho de El Cabezón na Copa América. Mas nem ele fez tanta falta assim, em um começo avassalador a incluir 5-2 no Lanús, 6-2 no Argentinos Jrs e 6-1 no Estudiantes entre as primeiras nove rodadas. Ao fim do primeiro turno, somava-se 10 vitórias e 5 empates em invictos 15 jogos, abrindo três pontos de vantagem para o segundo colocado (San Lorenzo). De aí em diante, a vantagem nunca foi inferior a essa distância. Acabaria por finalizar em oito pontos, com a taça garantida na antepenúltima rodada. O zagueirão (que também sabia jogar de volante e lateral), inclusive, deu-se ao gosto de voltar a compartilhar elenco com o irmão Juan Vairo, por mais que este só atuasse em uma partida e o astro, em 25.

    Em paralelo, Federico Vairo também esteve em julho na vitória por 2-1 dentro do Maracanã na ilustre partida em que Pelé estreou pela Canarinho – ainda que não chegasse a tempo de prensar o jovem Rei no lance do gol brasileiro, feito pelo próprio estreante (vide foto abaixo). Mas, após aquele medo exagerado de vexame pelos desfalques ao Eldorado Colombiano ter feito a AFA desistir de jogar as eliminatórias para as Copas de 1950 e 1954, a seleção voltou a se interessar pela Copa do Mundo. E, no retorno às eliminatórias, classificou-se com sobras. Contra a Bolívia, no jogo final da campanha, o 4-0 sobre La Verde contou inclusive com nada menos que nove jogadores do River a serviço da Albiceleste. Apenas o defensor Juan Francisco Lombardo (Boca) e o ponta-direita Omar Corbatta (Racing) conseguiram se intrometer na escalação que tinha Carrizo, Alfredo Pérez e Vairo completando a retaguarda; Rossi, Gilberto Sola, Norberto Menéndez e Eliseo Prado preenchendo todo o meio-campo e Ángel Labruna e Roberto Zárate fechando o ataque.

    Testemunhando o primeiro gol de um estreante Pelé pelo Brasil: privilégio de quem ainda saiu vencedor por 2-1, no Maracanã. E que ainda “descobriria” Messi…

    Nos amistosos preparatórios, Vairo ainda venceu em abril de 1958 o Paraguai e o Uruguai (ambos 2-0) e depois encontros não-oficiais contra Internazionale (também 2-0) e Bologna (1-0) em maio. O problema é que na Suécia o favoritismo argentino não se cumpriu. Se a derrota na estreia para a então campeã Alemanha Ocidental era tolerável, passando-se o susto com a imediata vitória sobre a Irlanda do Norte, a derrota subsequente para a Tchecoslováquia decretou uma eliminação precoce. E ainda mais vexatória, diante do placar de um 6-1 que, até hoje, é a derrota mais elástica da história da Albiceleste. Foi o triste fim da linha na seleção para a maioria dos goleados, incluindo Vairo. E o desastre reverberou no River, natural base dos convocados. Detalhe não menor: naquela época, Vairo era o riverplatense com mais jogos pela seleção. E desde então só Daniel Passarella e Ariel Ortega o superaram.

    Mas o campeonato argentino de 1958 rendeu, não por acaso, a primeira derrota millonaria no Monumental após três anos e meio (San Lorenzo 4-2). Vaias a cada visita no campeonato de 1958 foram um costume e os tricampeões terminaram apenas em quinto. Para 1959, foi ainda pior: a equipe outrora dominante chegou a fechar o primeiro turno só em 12º. E, mesmo que arrancasse ao fim para um ainda assim medíocre 7º lugar, levou de 5-1 e de 3-2 do Boca nos Superclásicos. Era o fim da linha para muitas figuras da década: o próprio ídolo-mor Ángel Labruna saiu pelos fundos a um nanico do futebol chileno, o Rangers de Talca. Destino similar ao de Vairo, que rumou a Rancágua para reforçar o modesto O’Higgins.

    O astro passou seis anos nos celestes, sendo recordado pela torcida como um dos grandes zagueiros da história do clube, mesmo que a metade inferior da tabela fosse a rotina – a incluir um rebaixamento em 1963. O retorno foi imediato com o título da segunda divisão chilena de 1954, mas o O’Hi nunca mostrou-se capaz de lutar por uma taça que lhe permaneceria inédita até 2014. Mas Vairo pôde pendurar as chuteiras como campeão de primeira divisão: foi em sua única temporada no Deportivo Cali, em 1967. Vairo voltou ao River como técnico dos juvenis, ocasionalmente assumindo a equipe adulta como interino. E nela teve seu peso histórico: foi o comandante millonario na súmula do jogo que encerrou em 1975 o terrível jejum que perdurava desde aquele tricampeonato em 1957, quando ainda jogava; Labruna era o técnico da campanha, mas um motim do sindicato de jogadores privou que o elenco profissional fosse usado justamente na rodada que garantiu a taça.

    Já no segundo semestre de 1984, em dupla com Martín Pando, Vairo foi o técnico do time principal entre a saída de Luis Cubilla e a contratação do histórico Héctor Veira – eram inclusive eles os comandantes do River no amistoso que serviu de estreia de Maradona no Napoli, em agosto. E foi do ex-zagueiro a ideia de inverter Enzo Francescoli com Héctor Enrique, transformando-os respectivamente em centroavante e meia-direita, posições onde terminaram por consagrar-se no futebol. A partir de 1999, passou a ser olheiro millonario na província de Santa Fe, função em que foi o responsável por captar um tal de Lionel Messi para testes na base riverplatense, a ponto de ele próprio dirigir o carro na viagem rodoviária para levar a joia ao Monumental. O problema foi esbarrar na hesitação do Millo em bancar o tratamento hormonal necessário àquele desconhecido. Mas se os cartolas vacilaram, as duas torcidas que Vairo alegrou foram mais sensíveis: em 2009, a torcida organizada do River em Concepción, no interior tucumano, fez questão de homenagear-lhe ainda em vida usando seu nome da denominação do grupo. Àquela altura, ele já nomeava também a torcida organizada de hinchas do Rosario Central radicados em Buenos Aires.

    Uma das últimas aparições públicas de Vairo, em meio ao grupo dos torcedores do Rosario Central radicados em Buenos Aires: essa torcida organizada na capital federal leva seu nome