Categoria: Personagens

  • Enrique Chazarreta: o operário que virou ídolo do San Lorenzo

    Enrique Chazarreta: o operário que virou ídolo do San Lorenzo

    Enrique Chazarreta era chamado de El Obrero, apelido que uma produção da época retratou com humor.

    Enrique Salvador Chazarreta não foi um craque vistoso. Seu apelido era inclusive El Obrero, como retratado com humor nessa produção da revista El Gráfico. Dedicação e títulos, contudo, fizeram o nome Chazarreta (a pronúncia é “Tchaçarêta”) ser “gravado a fogo e situado no seleto grupo dos ídolos”, nas palavras que iniciam o verbete dele no Diccionario Azulgrana, livro publicado no centenário do San Lorenzo e que registrou todos os jogadores que defenderam o time do Papa. Foi o suficiente também para ir a uma Copa do Mundo, prêmio nem sempre alcançado por gente mais habilidosa na Argentina. Ontem, o ídolo não resistiu a uma forte pneumonia.

    Chazarreta nasceu no interior do interior: veio ao mundo na cidade de Coronel Du Graty, na província do Chaco, em 29 de julho de 1947. De início, jogava no ataque, mais precisamente na ponta-esquerda, começando no ignoto Marcelino Ugarte da cidade natal. Pôde saltar a um dos principais clubes provinciais, o Sarmiento da quente capital Resistencia – não confundir com o da cidade bonaerense de Junín, o mais conhecido. Em 1967, foi campeão na liga chaqueña. E o San Lorenzo foi apostar no ponta.

    Ele estreou pelo novo clube em 16 de fevereiro de 1968, como titular em amistoso contra o Gimnasia LP. O clube de Boedo venceu por 3-0. Chazarreta voltou a campo três dias mais tarde, em outro amistoso do fim de pré-temporada. Saiu do banco já improvisado como volante, sem evitar derrota de 3-2. Começou o histórico Torneio Metropolitano, mas o técnico sanlorencista, o brasileiro Tim, não confiou no reforço. Pedro González era um ponta-esquerda mais maduro. No decorrer da campanha, o chaqueño só era usado em amistosos que a permeavam. E saindo do banco, como em um 8-2 no Unión Progresista de Río Negro em 5 de maio ou até numa volta ao Chaco, em 1-0 sobre os ex-colegas do Sarmiento em 3 de julho.

    Alongado pelo goleiro reserva Roberto D’Alessandro na semifinal do Nacional de 1971, marcada pela primeira decisão por pênaltis do futebol argentino: Chazarreta terminaria herói

    Em 4 de agosto, o San Lorenzo consagrou-se como o primeiro clube campeão invicto no profissionalismo argentino sem que Chazarreta registrasse uma só partida na campanha histórica. Recebeu novos testes ainda naquele mês, em excursão ao Paraguai: o Cerro Porteño venceu por 3-1 em 15 de agosto e, 24 horas depois, ficou-se no 0-0 com o Olimpia. Sem vingar, ele foi então emprestado ao Argentinos Jrs para 1969. A equipe do bairro de La Paternal escaparia do rebaixamento por um único ponto naquele ano, mas a experiência serviu para “foguear” o jovem de 22 anos no cenário grande.

    Em 1970, ele voltou ao bairro de Boedo. O técnico Tim já havia voltado ao Brasil, mas o sucessor Pedro Dellacha tampouco permitia minutos ao ponta no Torneio Metropolitano e apenas alguns em amistosos, como os travados com brilho na Europa em julho. Foi apenas em 18 de outubro que ele, enfim, fez sua primeira partida dita “oficial” pelo San Lorenzo, isto é, em jogo pelo campeonato argentino. E foi titular, ainda como ponta-esquerda, em um 5-0 sobre o Gimnasia y Esgrima de Mendoza, pelo Torneio Nacional. E foi contra esse mesmo clube que ele marcou seu primeiro gol como cuervo, no returno, em derrota por 3-2.

    O ano da afirmação foi o de 1971. O técnico novo, o ex-goleiro flamenguista Rogelio Domínguez, tirou-o da ponta para volante armador. Naquele lugar, pôde se firmar e, mesmo mais recuado, deixar seus gols: foram cinco na campanha de quinto lugar do Metropolitano. Aplicou duas vezes a lei do ex em um 3-0 no Argentinos Jrs e deixou o dele em um 3-0 dentro de Avellaneda sobre o Racing e em um 4-1 no Rosario Central. No Torneio Nacional, o time foi ainda mais longe. Chazarreta contribuiu diretamente com quatro gols: dois um 7-1 no Central Córdoba de Santiago del Estero, outro em 2-0 fora de casa no Huracán de Bahía Blanca (não confundir com o tradicional rival sanlorencista, sediado no bairro portenho de Parque de los Patricios) e por fim em 5-1 no Rosario Central. Mas ficou mais recordado como nome da classificação à final.

    Time bi de 1972: Pitarch, Villar, Villalba, Rezza, Irusta, D’Alessandro, Rosl, Heredia, Salinas, Guerreño e o técnico Lorenzo; Telch, Espósito, Cocco, Veglio, Ayala, Sanfilippo, Chazarreta, Glaria e Figueroa

    A semifinal opôs o Ciclón ao Independiente, que havia sido o campeão do Metropolitano. E o Rojo abriu 2-0. Pois os azulgranas souberam nos acréscimos do segundo tempo arrancar o empate, mantido ao fim da prorrogação, forçando a primeira vez em que uma partida do campeonato argentino se encaminhou a uma decisão por pênaltis. Chazarreta saiu como melhor em campo no tempo regulamentar e converteu, já na série de alternadas, a cobrança que garantiu seu time na decisão. Veio um grande anticlímax, onde o outrora goleado (duas vezes) Rosario Central venceu de virada. A diretoria cuerva não perdoou o técnico Domínguez por ter barrado para a final os já ídolos Victorio Cocco e Carlos Veglio, titulares desde 1968.

    Juan Carlos Lorenzo, treinador da Argentina nas Copas de 1962 e 1966, veio para o lugar de Domínguez e manteve a base do antecessor. Inclusive a estadia de Chazarreta no meio. O clube faturou o Metropolitano com seis pontos de vantagem sobre o vice Racing, em tempos onde vitórias valiam apenas dois e não três. Para o Nacional, El Toto Lorenzo promoveu Chazarreta (de um único gol no Metro, no 4-1 sobre o Gimnasia) a cobrador de pênaltis. E ele foi dando conta do serviço: assim deixou o dele no 3-1 sobre o Bartolomé Mitre de Posadas, no 3-1 sobre o Vélez, no 3-0 sobre o San Martín de Mendoza e no 3-0 no clássico com o Huracán, vazando pela primeira vez o rival de bairro.

    Com bola rolando, Chaza fez os únicos gols de dois triunfos fora de casa, sobre o Independiente de Trelew e San Martín de Tucumán. O San Lorenzo seguiu invicto e, dono da melhor campanha geral em um torneio que dividiu os participantes em dois grupos, classificou-se diretamente à decisão enquanto a dupla Boca (líder do outro) e River (segundo na chave do Sanloré) travou uma semifinal – a foto que abre a matéria mostra a comemoração do volante por essa vaga direta. Deu River e um tira-teima em jogo único ocorreu em 17 de dezembro no estádio neutro do Vélez. Chazarreta esteve a onze metros da consagração: aos 44 minutos do segundo tempo, coube a ele bater novo pênalti. Mas chutou para fora.

    Penúltimo agachado na seleção com outros três do San Lorenzo (Heredia e Telch em pé, Ayala agachado) antes do 3-2 sobre a Alemanha Ocidental dentro de Munique, em 1973. Apenas Correa e Guerini não iriam à Copa de 1974

    Ainda assim, o futuro Papa Francisco pôde comemorar bem o próprio aniversário: a prorrogação viu o heroísmo se personalizar em Luciano Figueroa (sem parentesco com o xará dos anos 2000), que marcou seu único gol na campanha que garantiu ao San Lorenzo o ineditismo de vencer em um mesmo ano os dois campeonatos argentinos travados – além de trazer um segundo título invicto no profissionalismo a um time que não só jogava por música como virou uma, “Bravos Gauchos de Boedo”, a escala-lo nos versos “con Irusta y Glaria/con Espósito y Rosl/El recuerdo de Fischer también estará/Rezza, Telch, Chazarreta/Ayala y Heredia/con García Ameijenda, Cocco, Scotta/Y otros más”.

    Chazarreta não deixou de lamentar a chance perdida, mas o título o livrou de crucificações. E, em 31 de janeiro de 1973, ele já pôde estrear pela seleção, em jogo-treino contra o combinado da cidade de Tandil, surrado por 6-0. Substituiu o atacante Ramón Ponce no decorrer do jogo e seis dias depois fez a estreia oficial, em derrota de 2-0 para o México em amistoso na capital asteca. O técnico era Omar Sívori, que usou assiduamente o volante: foram mais sete jogos oficiais ao longo de 1973 (em especial, um 3-2 em Munique sobre a Alemanha Ocidental, na terceira partida de Chaza pela Albiceleste) e onze não-oficiais; nessas, deixou seus únicos gols, em derrota de 2-1 para o clube Las Palmas e em 4-1 sobre o clube Deportivo Mandiyú.

    O volante fazia por onde, intocável em um San Lorenzo que seguia forte seguiram fortes: primeiramente, terminou em terceiro no Metropolitano (desempenho só ofuscado pelo título memorável do rival Huracán, que não pôde vencer os dois clássicos) enquanto, em paralelo, chegavam às semifinais da Libertadores – sucumbindo à maior experiência copeira do campeão Independiente. O zagueiro Ramón Heredia, o atacante Rubén Ayala e o técnico Lorenzo partiram para o Atlético de Madrid ainda antes do fim do Metro, mas o timaço soube manter gás na primeira fase do Torneio Nacional; o Ciclón foi líder de seu grupo, o que valia vaga a um quadrangular-final. Mas nela se limitou a empatar sem gols com a surpresa Atlanta, perdeu de 3-2 para o River e ficou no 1-1 em outro título para o Rosario Central.

    O irmão Pedro Chazarreta, Carlos Veglio, ele, Victorio Cocco e Oscar Ortiz em 1974, ano do último título de uma era no estádio Gasómetro

    Na seleção, Sívori quis sossego após assegurar a classificação à Copa do Mundo (os argentinos estavam muito pressionados após a perda da vaga para a de 1970) e seu lugar foi ocupado pelo triunvirato formado por Víctor Rodríguez, José Varacka e Vladislao Cap, que tinham suas próprias ideias. Chazarreta jogou menos: cinco jogos não-oficiais (marcando no 2-1 sobre o Sportivo Pedal e no 2-0 sobre o Atlético Tucumán), três amistosos oficiais pré-Copa e uma única partida no Mundial, no 1-1 com a Itália, na primeira fase de grupos. Foi sua partida final pela Argentina. Ele ainda seguiu na Europa em julho, reforçando o San Lorenzo nos prestigiados torneios amistosos da Espanha; num deles, deixou um gol em 2-2 com o Atlético de Madrid recém-vice europeu, pelo torneio Villa de Madrid.

    No bairro de Boedo, moral não faltava mesmo: naquele mesmo 1974, o volante emplacou a contratação do irmão Pedro Chazarreta; a campanha morna no Metropolitano deveu-se mais aos contínuos desfalques da espinha-dorsal da retaguarda para a seleção (além de Chaza, foram à Alemanha também o zagueiro Rubén Glaria e o volante Roberto Telch, que reencontraram os ex-colegas Ayala e Heredia). No Torneio Nacional, os mares foram mais tranquilos para o novo treinador, Osvaldo Zubeldía, consagrado no Estudiantes multicampeão internacional na década anterior. Líder de seu grupo, o San Lorenzo desse vez manteve o pique para a fase final, agora um octogonal. De quebra, deu um troco no Rosario Central, vice-campeão. Chazarreta contribuiu com cinco gols, incluindo no clássico com o Huracán (2-2).

    O anticlímax é que o título não garantiu o campeão na Libertadores de 1975: só para aquela temporada, a AFA inventou de prever que as duas vagas no torneio viriam de um quadrangular entre campeões e vices do Metropolitano e do Nacional, fase que acabou virando um triangular pelo Central ter sido vice nos dois. O troco foi respondido com os rosarinos se classificando junto ao rival Newell’s para La Copa. Foi o fim do período de mais seguida dominância do San Lorenzo no cenário argentino. No Metropolitano de 1975, um clube já em crise financeira despencou para 11º apesar dos recordistas gols do artilheiro Héctor Scotta. Chazarreta deixou seus últimos três gols e despediu-se no 2-2 com o Atlanta, em 8 de junho, ainda pela 24ª rodada. A torcida teria de aguardar mais vinte anos (até o Clausura 1995) para encerrar-se a pior seca do clube.

    A foto esquerda ilustrou o perfil dele na edição especial em que a El Gráfico elegeu em 2011 os cem maiores ídolos do San Lorenzo

    Precisando fazer caixa, o time aceitou vender o ídolo para o Avignon, que estrearia na primeira divisão francesa. A experiência foi um desastre, com os novatos terminando na lanterna e rebaixados na Ligue 1 de 1975-76. Ficou por mais uma temporada de uma equipe à beira do colapso (ela deixaria o profissionalismo em 1981) e seguiu nas divisões de acesso francesas pelo Alès até 1979, quando veio para o “mundo ascenso” argentino: o recém-rebaixado Gimnasia o repatriou para 1980. Embora ficasse nas primeiras colocações na Primera B em 1980 e 1981, o Lobo passou longe de subir.

    Chaza pendurou as chuteiras na segundona em 1982, justamente o ano que viu o outrora poderoso San Lorenzo presente naquele cenário. O volante estava no último time salvo da degola à terceirona, o Deportivo Morón. Mesmo a experiência europeia não lhe permitira um pé de meia. Seu colega mais ilustre naquele grande San Lorenzo dos anos 70, o zagueiro Jorge Olguín (único daquele elenco a ir à vitoriosa Copa de 1978; o ponta Oscar Ortiz foi a ela já defendendo o River) vociferou à revista El Gráfico, em 2014: “quando se completaram os cem anos do clube, convidaram um montão de gente e me deu pena como o organizaram: estávamos sentados atrás, na obscuridade, enquanto subiam ao cenário todos garotos mais novos. Creio que o San Lorenzo não respeita a história. Por aí dão um trabalhinho a um ex-jogador para que vá às divisões de base e creio que merecem algo mais que isso”.

    Olguín seguiu: “veja, há uns dias se inaugurou a associação de ex-jogadores do San Lorenzo e não foi um só diretor. Na mesma associação está vivendo Chazarreta. Andava em um táxi e o despejaram da pensão, então se lhe deu um lugar para viver. E isso que Chazarreta deu muito ao clube, hein? A associação lhe deu um lugar, não o clube. O San Lorenzo não lhe dá nada, por isso te digo que não respeitam a história. Se te chamar de vez em quanto e te dar uma medalhinha é respeitar a história, estamos confusos. Poderiam colaborar com a associação, que lhe deem aos ex-jogadores a possibilidade de ter uma obra social. No Boca fizeram uma associação bárbara, tiram 1% do contrato de cada jogador que assina e com isso ajudam a muitos ex-jogadores”.

    Oficialmente, ele deixou trinta gols em 193 partidas suando em azulgrana.

     

  • Chilavert: o gol de falta de sessenta metros contra o River

    Chilavert: o gol de falta de sessenta metros contra o River

    O gol de falta de Chilavert contra o River veio de quem já era melhor goleiro do mundo e já levara um time de bairro ao topo.

    Ele já havia marcado de falta. Já havia sido eleito o melhor goleiro do mundo. E liderado um time de bairro aos inimagináveis títulos máximos a nível continental e mundial. Mas foi em 1996 que José Luis Chilavert entrou mesmo para um outro patamar do futebol, especialmente o dos anos 90. Mais do que por novos títulos com o Vélez em 1996, Chila marcou três gols de falta em adversários argentinos. Números hoje modestos diante da obra de Rogério Ceni, mas um assombro para a época. Os alvos dos gols não poderiam ser mais emblemáticos, abrindo caminho para a moda aperfeiçoada por Ceni. O mais incrível e famoso, há 25 anos.

    Chilavert havia sido eleito o melhor goleiro do mundo em 1995, uma evidência de que o paraguaio tinha muito talento, faceta ofuscada pelo temperamento e gols. Afinal, ele não marcara gols naquele ano. Foi campeão sim, na esquecida Copa Interamericana e um título argentino desbancando na antepenúltima rodada um Boca ainda líder, invicto e de Maradona e Caniggia. A eleição de 1995 também se devia muito por 1994, quando foi fundamental na Libertadores e no Mundial vencidos pelo Vélez, 

    Fora também em 1994 que marcara seu primeiro gol de falta, já após a Libertadores. O lance, porém, não fez todos os velezanos felizes: o batedor oficial era o zagueiro Roberto Trotta, então o capitão. Não se comoveu com a façanha do paraguaio e espumou de raiva no vestiário, episódio que detalhamos neste outro Especial. Carlos Bianchi manteve pulso firme sobre o ciúme de Trotta na ocasião. Mas as bolas paradas seguintes voltaram a ser batidas pelo defensor – incluindo o pênalti assinalado contra o Milan no Mundial. Até aquele 22 de março de 1996. E pensar que Chilavert poderia participar daquela partida pelo lado oponente…

    O paraguaio havia sido sondado pelo River no fim de 1995. A revista El Gráfico chegou a preparar uma capa na qual Chila segurava sorridente a camisa millonaria. Não foi a primeira vez: em 1988, ele apareceu na capa da mesma revista como um dos reforços de César Luis Menotti para o River; seria trocado por Sergio Goycochea com o San Lorenzo, mas uma lesão de Goyco impedira a transferência (Goycochea pensava ter artrite e, temeroso que isso lhe custasse a carreira, não divulgou a princípio, ensejando boatos de que estaria até com AIDS: saiba mais). Em 1995, o negócio novamente não se efetivou, com o River se recusando a pagar os três milhões de dólares que o goleiro pedia.

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    “O melhor do mundo agarra em Liniers”, matéria alusiva à sua eleição como melhor goleiro de 1995. E a capa não-publicada da edição que trataria sua transferência ao River: “caro, mas o melhor”

    Outra faceta menos conhecida é que aquele 22 de março de 1996 também foi uma redenção. Sim, Chilavert era campeão daquele Apertura 1995 sobre o Boca. Sim, a IFFHS – a Federação Internacional da História e Estatísticas do Futebol – o havia eleito o melhor goleiro do mundo (ele ainda é o único sul-americano eleito, e igualmente o único eleito ainda atuando no futebol sul-americano). Mas o paraguaio começara a temporada mais prejudicando que ajudando o Fortín.

    Aquela noite histórica era a terceira rodada do Clausura. Na primeira, o Vélez vencia em casa o Banfield por 2-1. Chila, em determinado lance, soltou infantilmente o cotovelo no jovem Julio Cruz e foi expulso. O próprio Cruz empataria. Para a sorte da equipe do bairro de Liniers, conseguiu-se um gol nos últimos dez minutos – aliás, foi de pênalti, convertido por Trotta. Na segunda rodada, Chilavert esteve naturalmente suspenso. Visitando o Rosario Central, o Vélez arrancou um 0-0.

    A terceira rodada foi aberta com aquele Vélez x River, na casa velezana. Dois timaços futuramente campeões continentais daquele ano (o River na Libertadores e o Vélez em uma Supercopa vencida sobre o Cruzeiro ao fim de uma campanha de 100% de aproveitamento), ambos travaram uma partidaça ofuscada por aquele gol antológico. La V Azulada, que naquele dia foi branca mesmo, se mostrava melhor posicionada em campo mas menos agressiva que La Banda Roja, municiada com Ariel Ortega, Enzo Francescoli e Gabriel Cedrés. Os visitantes dominavam a partir dos 10 minutos e chegaram a ter um pênalti não assinalado pelo árbitro Carlos Mastrángelo – de Trotta em Francescoli após El Príncipe ser habilitado por uma sucessão de dribles de Ortega.

    E foi dos pés de Francescoli, que resolvera insistir na jogada em vez de cavar o penal, que o primeiro gol se desenhou: o craque uruguaio cobrou falta e Juan Gómez conectou com um míssil via peixinho aos 29 minutos de jogo, diante de um Chilavert sem reação. A resposta da casa veio no fim do primeiro tempo, com Germán Burgos encaixando arremate de José Turu Flores e tendo trabalho em uma tentativa de Patricio Camps.

    No início do segundo tempo, o empate. Aos três minutos, Christian Bassedas, em jogada de craque (era ele o único velezano assiduamente convocado pela seleção e sua exclusão da Copa de 1998 foi uma das maiores injustiças cometidas por Daniel Passarella), carregou e driblou diante de três millonarios e cruzou. A bola resvalou em um deles, encobriu a saída de Burgos e Fernando Pandolfi cabeceou para as redes.

    Chilavert apareceu bem pela primeira vez ao impedir um gol de Ortega, quando o Burrito conectou de primeira cara-a-cara. O gol histórico viria aos 21 minutos. Francescoli, em rara deselegância, cometeu entrada dura em Raúl Cardozo. Dura, mesmo: El Pacha não deixou de se contorcer ao chão nem diante do que viria em seguida. El Príncipe, constrangido, fora lhe acudir e desculpar-se. Os demais fortineros, sabendo da índole de Francescoli, não protestavam e não demonstravam pressa. Os demais, menos Chilavert.

    Notando que Germán Burgos estava muito adiantado (“olhando passarinhos”, como zombaria Chila), o goleiro saiu em disparada da área e não ligou para as mãos do colega Mauricio Pellegrino (o atual técnico velezano) lhe pedindo para conter-se. O paraguaio arriscou desde antes do meio-campo encobrir o arqueiro rival. Surpreendeu até o juiz, que se contorceu para se proteger do petardo. O resto é pastelão millonario e poesia para os de Liniers: Burgos começou a voltar ao gol andando de costas, tropeçou e caiu enquanto era encoberto.

    “Houve um problema na defesa e saí da área para gritar com Juan Gómez, mas não me escutava e eu ia saindo cada vez mais da área. Não estava adiantado porque sim. O engraçado é que depois do gol, Juan deu volta e me disse: ‘o que querias, imbecil?’. O xinguei demais”, justificaria o arqueiro adversário. Francescoli e o técnico riverplatense Ramón Díaz arregalavam os olhos, atônitos, enquanto a bola viajava por toda a noite e atravessava também a chuva até pingar depois da linha e sacudir as redes.

    Enquanto Cardozo continuava ao chão, as demais caras e bocas do Vélez eram de uma incredulidade entre a euforia e a comoção. Chilavert, sabendo que o momento era dele, inicialmente se desviou dos abraços para mergulhar sozinho na imortalidade, quanto então a emoção dos colegas pôde amontoá-lo – registros bem captados pelo vídeo acima.

    Mas partida continuou emocionante depois daquilo. E por isso merece um vídeo que demonstra os outros lances capitais, abaixo. Faltando menos de quinze minutos, Ramón Díaz pôs mais ofensividade, trocando Gabriel Cedrés por um Marcelo Gallardo ainda verde, mas mais habilidoso, e o volante Leonardo Astrada pelo atacante Hernán Crespo. E Crespo, justamente, empatou aos 41 minutos: chutou de primeira quase no travessão um balão de Ortega; as câmeras focaram num festejo de Burgos, que a princípio parecia vingado.

    Mas Chilavert merecia terminar a noite vencedor. Aos 45, Martín Posse cobrou um escanteio. Marcelo Herrera, na marca do pênalti, cabeceou no canto e Burgos, novamente, chegou tarde – e foi a vez de Chila ser o focado, socando solitário diversas vezes o ar. Mais do que fazer justiça ao personagem da noite, esse gol se mostraria fundamental adiante, pois o Fortín seria (bi)campeão por um único ponto de diferença sobre o belo Gimnasia LP dos gêmeos Barros Schelotto; ainda é a única vez em que o Vélez foi bicampeão nacional seguido.

    Como não poderia deixar de ser, a voz aguda do goleiro terminou ácida nas entrevistas de 25 anos atrás: “estou contentíssimo porque agora o que irão dizer os jornalistas que me odeiam?”. Em 2007, declararia: “meus (feitos) têm mais valor por isso, porque sair campeão com Boca ou River é mais fácil. Da mesma forma, se o gol de 60 metros no Burgos eu fizesse com a azul y oro, a torcida do Boca ainda estaria dando voltas no Obelisco”. 

    Se não criou a moda, popularizou-a para Rogério Ceni adota-la exatamente a partir de 1997. Pois aquele gol de 25 anos atrás abriu uma série: o paraguaio, depois dali, marcaria outros nove gols naquele ano (praticamente a cada mês desde março havia gol seu, uma enormidade). Em junho, com o Boca maradoniano no encalço por aquele Clausura, marcou duas vezes em um 5-1, em outra falta memorável – no ângulo do desafeto Carlos Navarro Montoya –  e em pênalti.

    Em setembro, ele então vitimou outra vez Burgos. Que, daquela vez, defendia a seleção argentina mesmo. Nova falta de Chila garantiu a seu Paraguai um ponto em pleno Monumental e a liderança provisória nas eliminatórias. Tudo isso ficou mais forte do que a irônica constatação de que Chilavert não foi reeleito em 1996 o melhor goleiro do mundo. A IFFHS premiou o alemão Andreas Köpke, vencedor da Eurocopa (assim como em 1994 preferira o cartaz do belga Michel Preud’homme na Copa do Mundo).

    A justiça seria feita nos dois anos seguintes. Dino Zoff, a quem Chila tinha como ídolo, declarou-lhe: “nós éramos bons, mas tu deste hierarquia à posição”. A premiação individual daquele 1996 foi praticada na eleição de melhor jogador da América do Sul, em prêmio tradicional do jornal uruguaio El País. Chilavert é até hoje o único goleiro premiado nessa. 

    Para um Especial dedicado à carreira de Chilavert como um todo, clique aqui. Abaixo, vídeo da partida que rendeu uma das célebres narrações de Víctor Hugo Morales: “Corra, paraguaio, festeje, dê uma volta olímpica que vão lhe aplaudir até os silenciosos torcedores do River. Vélez ganha do River por 2-1, mas até o resultado dessa partida será uma anedota porque tudo será superado pelo incrível, fantástico, maravilhoso e nunca visto gol de José Luis Chilavert. Festeje, paraguaio!”.

    Nota originalmente publicada nos 20 anos do lance, em 22-03-2016.

  • Roberto Perfumo: as virtudes de um jogador e a anedota com Maradona

    Roberto Perfumo: as virtudes de um jogador e a anedota com Maradona

    A anedota de Perfumo com Maradona foi escrita por Matías Bauso, que autorizou a tradução do texto para o português.

    As palavras abaixo são de autoria de Matías Bauso, que gentilmente nos autorizou a traduzi-las. A versão original, para o portal Infobae, pode ser desfrutada clicando aqui. Conservamos os negritos e itálicos originais e acrescentamos apenas alguns colchetes para melhores contextualizações ao leigo. E clique aqui para conferir o obituário que publicamos sobre El Mariscal na época dessa perda, em nota aberta com outra foto do jogo contra a Holanda. As desse texto foram tiradas do acervo do craque Masahide Tomikoshi.

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    Há um tempo, circulou um vídeo pelas redes sociais. Era no preto e branco granuloso da televisão de há mais de meio século. O vídeo da partida, quase por milagre, se conserva inteiro (ao redor de trinta anos de futebol argentino, dos 60 aos 80, que desapareceram em que pese que pudéssemos ter registro fílmico dela por um pertinaz desprezo ao arquivo audiovisual). É a final da Copa Libertadores de 1967, a partida de ida no campo do Racing. Eram tempos em que os grandes encontros no Cilindro recebiam mais de cem mil pessoas. A imagem que nos interessa começa com uma bola longa até a área do Racing. Três jogadores correm desaforados até a bola. Um supõe que vai ter contato com ela logo na entrada da área. Custa, a princípio, reconhecer as camisas pela fragilidade da imagem. Dois são atacantes do Nacional de Montevidéu – do bravo Nacional –, o outro, um defensor da Academia que vai no meio deles. No último momento, ganha no pique, mas, ao chegar na bola, em vez de rechaçar para escanteio ou à lateral, o que qualquer um teria feito, pisa na bola, passa por cima dela, com os atacantes uruguaios a centímetros dele. O freio e o arranque mais audazes, elegantes e extraordinários vistos em um campo de jogo (isto é futebol e a hipérbole está permitida). Logo, sai jogando: Roberto Perfumo, o Marechal, inicia o ataque. O movimento é inédito, não creio que alguma vez se tenha visto algo igual, eu ao menos não o fiz em quase cinquenta anos. No vídeo, se escuta a comoção do público. Primeiro, surpresa, logo a ovação e a certeza de ter presenciado um momento único. A arte da defesa.

    Roberto Perfumo foi o camisa 2 ideal: velocidade, classe, pegada, atrevimento, jogo brusco, maldade, inteligência, personalidade e hierarquia. Tinha tudo isso. Só lhe faltava algo de cabeceio. Mas lhe sobrava elegância. Foi ídolo e foi campeão – várias vezes – em cada equipe em que jogou. O Racing de José [o treinador Juan José Pizzuti], o Cruzeiro e o River de [Ángel] Labruna eram equipes generosas, que atacavam desbocadamente. Perfumo aguentava sozinho no fundo. Foi o melhor marcador central da história jogando em equipes abertas, que não o resguardavam. Tampouco temos que ser injustos. Para além de sua qualidade individual, integrou alguns dos trios defensivos mais memoráveis do futebol argentino: [Agustín] Cejas, Perfumo e [Alfio] Basile [no Racing]; [Antonio] Roma, Perfumo e [Rafael] Albrecht [na seleção]; [Ubaldo] Fillol, Perfumo e [Daniel] Passarella (não concebo que este último trio tenha sido alguma vez superado), [no River].

    Na seleção nacional, nem sempre lhe foi bem. Figura no Mundial 66, foi um dos assinalados pelo fracasso nas eliminatórias para México 70 e no Mundial 74. Sobre o empate com o Peru na Bombonera em 1969 que deixou a Argentina fora do Mundial, escreveu: “nessa vez senti ganas de deixar o futebol, de ir para longe, onde ninguém me conhecesse. No dia seguinte, só saí de casa porque tinha que cumprir um trâmite bancário. Chegamos, estacionei, fiquei sentado e minha mulher, que me acompanhava, compreendeu o que sentia e sem que dissesse nada, me disse: ‘fique no carro que eu vou ao banco’. Sentado no carro, me agarrou uma amargura terrível. Por que tinha que me esconder se não havia roubado ninguém? Isso acontece no futebol”. Na Alemanha 74, sofreu a humilhação que a Holanda proporcionou aos argentinos e fez um gol contra frente a Itália. A grande anedota da partida contra a Laranja Mecânica contava, passado o tempo, com um enorme sorriso. Com o jogo em 2-0 contra, [Daniel] Carnevali, goleiro alviceleste, foi buscar a bola correndo. Eram tempos em que os tiros de meta cobravam os [zagueiros] centrais. Perfumo baixinho lhe disse que caminhasse, que não se apressasse. “Calma, queres que nos façam 8?”, disse a seu goleiro. Perfumo havia entendido que os holandeses eram imparáveis, que não havia equivalências, que eram aviões contra charretes.

    Contudo, sua grande decepção foram os Jogos Olímpicos de Tóquio 64. A Argentina tinha uma grande equipe que havia classificado após a Tragédia de Lima, na qual morreram dezenas de espectadores. Mas foi eliminada em uma zona que integravam Japão e Gana. O camisa 11 japonês os enlouqueceu. Cruzou com ele na saída do estádio. Dava entrevistas à imprensa convertido no novo herói nacional. [Kunishige] Kamamoto, esse ponta-esquerda, usava óculos com lentes de fundo de garrafa. Roberto se pôs a chorar. Sentiu o peso da humilhação. Haviam sido eliminados e os haviam bailado um japonês quase cego. Foi a última vez que chorou por futebol.

    Estreou no jornalismo enquanto ainda era jogador. Comentou várias partidas do Mundial 78. Entre comentaristas arrogantes e óbvios, seus aportes, sempre risonhos, permitiam ver para além do evidente. Perfumo entendia o jogo e o explicava bem. Em seus últimos tempos como comentarista, as redes sociais o rechaçavam. Notava-se ele cansado, distraído, entendiado. Esse futebol não o divertia, mas se negava a admiti-lo. Não queria deixar-se vencer pela tentação da nostalgia e recair no elogio do passado. Os grandes ídolos dos anos 70 integram uma raça rara. Suas opiniões futebolísticas quase nunca são construtivas, os domina o ressentimento. [Norberto] Alonso, [Hugo] Gatti, [Ricardo] Bochini, [José] Sanfilippo. Perfumo era diferente, tratava de que seus comentários fossem um aporte. Não se detinha muito no tático. Era jogadorista. Mas não só elogiava os craques. Ele acreditava que o futebol era jogo e trabalho. Pelo tanto, valorizava os que demonstravam ofício, inteligência e dedicação. Acreditava que, excetuando os gênios, esses eram os que marcavam diferenças. Entretanto, seu grande feito nos meios foram as primeiras temporadas de Hablemos de Fútbol. Junto com Víctor Hugo Morales [dono da mais célebre narração daquele segundo gol de Maradona nos ingleses], não faziam outra coisa que não honrar o título do programa da ESPN. Os convidados o reverenciavam, sabiam que estavam frente a uma glória. Ali só se falava do jogo, de suas variantes, dos pequenos detalhes ocultos.

    No meio dos anos 90, publicou um livro cativante e engenhoso: Jugar al fútbol. É um pequeno e extraordinário tratado de como entendia o jogo. Ali afirma, contra os afetados e bem-pensantes, que o bom jogador deve ter cinco características imprescindíveis. Mas quando as enumera, nos damos conta de que não são virtudes, são defeitos e, alguns deles, bastante graves. Com isso, nos quer mostrar que o futebol não é um território de sonho, um mundo de fantasia como muitos querem mostrar. Para o jogador, é um âmbito duro, cruel e muito estreito. Chegam só alguns, uma minoria e dura pouco. Muito pouco. Perfumo sustentava que o jogador de futebol deve ser:

    -Vaidoso: sem vaidade, é impossível ser futebolista. Faz com que o jogador se mate por mostrar ao público, aos companheiros, ao técnico, aos adversários, à imprensa, o bem que joga, o forte, o atrevido, o vivo, o veloz, o malandro, o grande, o bagudo que é. O jogador tem que se sentir o melhor do mundo.

    -Egoísta: se joga para si. É como sair para comer com dez amigos; os onze comem juntos, mas se come para si. O egoísmo alimenta o desejo de chegar antes a todos os lados.

    -Mentiroso: tem que mentir quando lhe perguntam a razão do êxito ou da derrota. Nunca tem que dizer a maior virtude ou o pior defeito. O futebol é a arte do engano.

    -Violento: o futebol é um esporte violento em sua essência. Os jogadores amam os violentos que jogam para eles e temem os dos rivais.

    -Mau: Pelé aconselhou Maradona que fosse mau para defender-se da maldade dos oponentes. Pelé tinha a maldade incorporada em sua bagagem técnica. Em igualdade de condições técnicas, táticas e físicas, ganha o mais mau.

    A elegância de quem também fazia Ruud Krol “voar pelos ares”

    Um exemplo dessa maldade é a anedota já famosa que difundiu Diego Maradona em uma visita ao [programa] Mar de Fondo. Diego contava que, em um Argentinos-River, Perfumo cruzou com ele e o levantou pelo ar. Havia quase vinte anos de diferença entre um e outro. Se cruzavam nas curvas de suas carreiras. Enquanto um ascendia – até o infinito –, o outro vinha em uma digna curva descendente. Diego, com sua graça, disse que, logo após o central o fazer voar pelos ares, o levantou do gramado pela orelha e lhe disse algo assim como: “estás bem, neném, não?”. E que ele quase lhe pede desculpas e lhe pergunta se não se machucou. Por desgraça, os implacáveis estatísticos demonstram que essa cena foi impossível. Diego e Roberto não se cruzaram em um gramado. Mas o mais incrível é que Perfumo contou isso antes de Diego. O fez em seu livro. Muito possivelmente, a origem da anedota reside em que Perfumo costumava, em sua última etapa no River, implantar sua malícia acompanhada pela impunidade do futebol dos anos 70 e de seu status de lenda. Perfumo costumava levantar jovens atacantes pelas orelhas após tê-los levantados pelos ares. E a Diego algum veterano coveiro lhe terá feito sentir o rigor dos anos para além das selvagens patadas que recebia.

    Em uma época em que o futebol era assunto exclusivo de homens, sua imagem de galã, de olhar juvenil, seu sorriso franco (alguém alguma vez sorriu melhor na história do esporte?) conseguiram que fosse o jogador mais popular entre as mulheres durantes os anos 60. Só Silvio Marzolini se aproximou dele nesses anos neste cabeçalho. O sex symbol pioneiro do futebol vernáculo. O primeiro com chuteiras próprias.

    Para além das análises táticas necessárias, acreditava que a verdade do futebol encarnava nos jogadores. Em sua habilidade, na personalidade, em sua coragem, na capacidade de sacrificar-se pela equipe. Seu grande achado, seu indispensável aporte conceitual, foi o de La Cancha Interna [capítulo do referido livro Jugar al fútbol]: “É o registro que tem o jogador de tudo o que ocorre durante o jogo com seus companheiros, os rivais, o árbitro, os minutos que faltam, o que é o melhor e o pior de sua equipe, por onde tirar vantagem, que jogador está cagado [de nervoso], e todas as demais variantes de uma partida”, explicou. O melhor exemplo disto são os ditos sobre sua precisão nos passes de longa distância. “Quando jogava em casa não falhava, porque, sem olhar, atirava a bola e já sabia que em Fernet Branca estava o Chango [Juan Carlos Cárdenas]; em Renomé, [Humberto] Maschio; em Cinzano, o Toro [Norberto] Raffo; e na Thompson & Williams, o Panadero [Rubén Díaz]” [eram referências às placas de publicidade supostamente mais próximas ao posicionamento habitual dos colegas citados – respectivamente, de um xarope, de pastilhas, de um vermute e de uma alfaiataria].

    Sua outra grande contribuição foi instalar um tema silenciado. O da depressão dos jogadores após o retiro. Não teve medo em aceita-la, em torna-la pública. Em mostrar uma realidade calada. Aposentados prematuros que passam das ovações ao silêncio, aos dias vazios, sem incentivos. A única vez que o vi em pessoa, contou um papo que teve com o Beto [Norberto] Alonso, companheiro seu naquele River de Labruna. Nessa noite, Perfumo, angulado em uma barra, era o centro da atenção. Regava, com graça, uma anedota atrás da outra. A partida com o Celtic [Mundial Interclubes de 1967], a sabedoria de Pizzuti [técnico daquele Racing campeão mundial], algum clássico com o Boca, as andanças do Toto [Juan Carlos] Lorenzo [técnico dele na Argentina de 1966]. Tudo era graça, timing para contar e risos até que citou o meia-esquerda: “uma vez, falava com o Beto sobre o retiro, da abstinência e me disse: ‘se Deus ou o Diabo tivessem me assegurado que ia poder jogar na plenitude até os 50, mas que no dia seguinte ia morrer… se me fizessem assinar isso, eu teria assinado sem duvidar um segundo’. Depois de contar isto, os olhos do Marechal se escureceram, foi como se o peso da glória passada o esmagasse, envelheceu em um instante”.

    Em 1975, voltou ao país para tirar o River de sua seca de dezoito anos sem títulos. Na primeira vez que jogou contra o Racing, a torcida académica lhe dedicou uma estrondosa e despeitada vaia. Ao chegar no vestiário, Perfumo, sem nojo nem dor, algo emocionado disse: “nessa tarde, me dei conta do quanto gostaram de mim aqui”.

    Como técnico, sua carreira foi descontínua. Dirigiu o Sarmiento de Junín que jogou [em 1981] na primeira divisão com o Toti [José Raúl] Iglesias, [Ricardo] Gareca e o Lobo [Roberto] Fischer, mas logo esteve mais de uma década sem dirigir porque entrou com processo para cobrar o que lhe deviam. Esse era um pecado imperdoável durante o reinado de [Julio] Grondona [o chefão da federação argentina de 1979 até seu falecimento em 2014]. Depois, dirigiu [em 1991] um Racing que brigou pelo campeonato, mas saiu brigado com Rubén Paz, o grande ídolo moderno do clube [a nota omite justamente o melhores resultados do Perfumo treinador: vice da Copa Conmebol de 1992 pelo Olimpia, contra o Atlético Mineiro; e o principal título profissional do sofrido Gimnasia LP, a Copa Centenário, em 1994].

    Roberto Perfumo possivelmente foi o melhor marcador central do futebol argentino. Mas foi mais do que isso. Foi uma época, um estilo, uma maneira de ver o jogo.

    Roberto Perfumo, também, foi o grande ídolo de meu pai, que não tinha ídolos. Era quase o único personagem do futebol inexpugnável para ele, a quem não aceitava críticas. Há cinco anos, quando morreu após cair das escadas de um restaurante, me inteirei da notícia pelas redes sociais. Fiquei muito triste. Demorei um longo tempo para pegar um telefone e contar a meu pai. Sabia que ia se entristecer. Agora, cinco anos depois, gostaria de ligar-lhe para dizer-lhe que escrevi essa nota. Espero que ali onde estejam os dois, tenham se encontrado e estejam falando de futebol, recordando velhas partidas, domingos de glórias e de arranques perfeitos.

    Colisão com Neeskens

  • Gabino Sosa: o primeiro maestro do futebol argentino

    Gabino Sosa: o primeiro maestro do futebol argentino

    Gabino Sosa foi considerado o primeiro maestro do futebol argentino. A El Gráfico já o destacava no começo dos anos 1920.

    No início dos anos 20 do século passado, a mais tradicional revista esportiva argentina (El Gráfico, que circulou de 1919-2018) já fez uma primeira eleição sobre quem seria o maior jogador já visto até então. O público apontou que seria José Piendibene, longevo craque do Peñarol que simbolizou a remontada da seleção uruguaia para cima da Albiceleste, fazendo dos charrúas os novos donos de um clássico onde eram fregueses nos primórdios. Mas, segundo nota da mesma El Gráfico já em 1934, o próprio Piendibene se dizia inferior a Gabino Sosa, cujo apelido já indica seus atributos: El Payador de la Redonda, “O Repentista da Bola”. Sosa também foi ídolo de outros charrúas, o que o fez ser respeitado pelos rivais Rosario Central e Newell’s. Vale relembrar El Negro, maestro da chamada “escola rosarina”, ícone também do primeiro título da seleção argentina e falecido há exatos 50 anos.

    O estilo de Gabino

    Antes de resumirmos sua carreira, convém trazer mais descrições de época para realçar a introdução acima. A começar por outra publicação que mostra que as comparações entre Sosa e Piendibene (não só em relação à habilidade, mas também à longevidade e extrema fidelidade a seus clubes de origem) não se resumiam à imprensa do Rio da Prata; foi da revista chilena Estadio, nos anos 40:

    “O Chile lembra com carinho da figura de Gabino Sosa. Através dos anos, essa lembrança se engrandeceu, como lógico pagamento do passado, e poucos nos custa hoje em dia, ao tributar-lhe esta homenagem, encontrar palavras adequadas que levem ao público leitor a verdadeira impressão do que foi o grande maestro. Porque Gabino Sosa foi, igual a seu colega uruguaio Piendibene, um artista do futebol. Só três casos de continuidade futebolística se conhecem na América do Sul; três casos que arrancaram os mesmos adjetivos e obrigaram os jornalistas a usar sem receios o signo de admiração. Os mesmos três que em seus países foram reconhecidos como figuras máximas dos campos: Friedenreich no Brasil; Piendibene no Uruguai e Gabino na Argentina. Durante 20 anos, estiveram assombrando multidões”.

    A Estadio também destaca a opinião de Piendibene e menciona até o redator daquela nota de 1934 da El Gráfico, o uruguaio apelidado de Borocotó: “uma vez, perguntaram a Piendibene: ‘a quem considera você o melhor jogador de sua posição?’. E, sem titubear, o crack oriental respondeu: ‘Gabino Sosa’. Bastaria este elogio para ter uma impressão real do que foi o jogador rosarino. Borocotó disse uma vez: ‘aquele negro Gabino das lendas violeiras fez vibrar clarins nas premiações e pôs nas esteiras o retumbar dos canhões revolucionários. Este outro Gabino pulsou o violão de sua arte na grama, derramando generosamente toda a beleza de suas concepções clássicas; sentou cátedra de um futebol que se vai. Seus passes, seus dribles, todo esse acúmulo de privilégios que constituíram sua figura de jogador, foram nazarenas gaúchas que sobre o verde dos fields deixaram lembranças que ainda revivem quando Sosa, evocando façanhas, passa pelos campos blindando o ontem. (…) Sem pertencer a nenhum dos dois clubes grandes de Rosario, Sosa foi o homem mais querido e respeitado da cidade”.

    Gabino, que retribuía as gentilezas dizendo-se inferior a Piendibene, reforçava de outro lado as comparações ao destacar que a tal da “escola rosarina” que tanto regeu era mais próxima do estilo uruguaio do que o praticado na capital Buenos Aires. Foi o que expressou naquela referida nota de 1934 a Borocotó (que o entrevistou em um casamento onde o jogador era padrinho, encerrando a matéria assinalado que os noivos haviam ido embora antes do astro tão amado pelos convidados):

    Na primeira seleção em que brilhou, a rosarina: é o agachado ao meio, com o mascote

    “Vou te falar com respeito ao futebol de outros tempos, das minhas melhores épocas. Opino que o futebol rosarino foi mais armado do que o portenho. Nós jogávamos para nosso quadro e com três ou quatro passes, já estávamos prontos para o chute a gol. Os portenhos buscaram mais o brilho pessoal. Nós queríamos ganhar jogando todos e sem egoísmos. Que o goal o fizesse quem tivesse mais chance. Em Buenos Aires, sem dúvida pelo desejo de agradar cada um a torcida de seus clubes, os homens jogavam muito individualmente, mas sem ordem. As seleções rosarinas sempre pareceram teams de clubes onde os homens se entendiam bem; os portenhos deram a impressão de ser seleções de muita força individual, mas pouca coletiva”.

    De fato, embora ele chegasse a ter um recorde de gols em um só jogo pela Argentina (já chegaremos lá), marcou poucos para um centroavante: hoje a página oficial do Central Córdoba consignou que Sosa marcou 116 em 408 jogos. As descrições de seu estilo de jogo na época cairiam bem ao que se hoje atribui ao “falso 9” consagrado pelo rosarino Messi. Gabino era um centroavante que recuava para municiar os colegas de ataque. Como em um 4-0 em que a seleção rosarina aplicou sobre o próprio Barcelona, por sinal, em visita catalã em 1929 – onde salvou-se que os dois primeiros gols vieram de assistências de Sosa, em tempos em que esse atributo era menos registrado do que hoje. É, em resumo, outra descrição feita pela revista chilena Estadio, nos anos 40:

    “No ano de 1924, reconhecidos seus indiscutíveis méritos, lhe designam para integrar o combinado argentino que deve enfrentar os campeões olímpicos uruguaios, e aí Gabino Sosa dissipa toda dúvida de que é o valor maior de sua posição. Logo o vimos atuar no Sul-Americano de 1926, em Santiago, e sua lembrança já não nos abandonará jamais. O futebol rosarino se sente atraído por sua modalidade e imita seu jogo, o mesmo que ainda perdura e que levemente vai se perdendo. Foi, sem lugar a dúvidas, o criador de um estilo. Fazia jogar o ataque em forma de leque, correspondendo a ele a parte organizadora, a do que verdadeiramente dirige uma linha. Atrás de todos os seus companheiros, acompanhado de perto por seus interiores, a precisão de seus passes curtos encontrava fácil caminho entre as defesas adversárias. Seus interiores sempre terminaram scorer.”.

    Em outro trecho, a mesma nota opina que “acreditamos que a continuidade de seu jogo se deve particularmente a saborear a missão de diretor, a de ser como guia para seus companheiros, a de sentir a satisfação enorme de entregar um ‘gol feito’ após uma série interminável de jogadas magistrais. Porque Gabino nunca foi egoísta (…). Também Borocotó disse sobre ele: ‘nunca eletrizou as multidões; jamais sacudiu violentamente as redes. Os postes não sentiram o chicote de seus tiros. Foi sereno, amável, persuasivo. Convencendo em cada passe, chegou ao gol para endereçar a bola como se usasse a mão, carinhosamente, sem fazê-la sofrer. E, na maioria das vezes, por não pecar de egoísta e não assinar a jogada com uma conquista material, deu a bola a outro’”.

    Também dos anos 40, o jornal santafesino Litoral exaltou a figura do ídolo cujo auge já datava de vinte anos antes: “aquilo de ‘todo o tempo passado foi melhor’ tem nesse caso sua plena confirmação. E não é produto do espelhismo, nem da nostalgia dos tempos passados. É a realidade clara e firme, que não admite discussões. Fruto de vivência e da sutileza no manejo da bola eram gos gols de Gabino. Gostava de leva-la em zigue-zague sobre o peito do pé, esquivando de adversários para deposita-la suavemente em um dos rincões da rede. Não lhe agradavam os ‘golaços’, esses que se produzem por bombas, o arremate violentíssimo. Para quê? Fazer gols assim exigem chute forte. Fazê-los como Gabino exigiam saber jogar muito bem…”.

    A primeira Argentina campeã da Copa América, em 1921: Américo Tesorieri, Miguel Dellavalle, Emilio Solari, Alfredo López, Florindo Bearzotti e Adolfo Celli; Pedro Calomino, Julio Libonatti, Gabino Sosa, Raúl Echeverría e Jaime Chavín. À direita, o perfil da revista Estadio traduzido no terceiro parágrafo

    Todas essas exaltações foram encaminhadas pelo historiador Esteban Bekerman, dono da única livraria de futebol em Buenos Aires, a Entre Tiempos. E há espaço para mais algumas. Como a de que “dizem que mais do que um esportista, era um artista. Um inventor de arabescos e sutilezas que embelezavam cada uma de suas manobras” ou que o apelido de Payador de la Redonda se devia por ter “posto letra e música na bola” (embora valha lembrar que o xará Gabino Ezeiza, ele sim um músico e falecido ainda em 1916, era figura consagrada na época com o apelido El Payador). Ou ainda a de que o homem nascido em uma humilde família mestiça em 4 de outubro de 1899 no bairro rosarino de La Sexta, na rua Alem, matriculou-se como jogador de futebol “no colégio de todos: a rua”, enquanto o segundo grau “cumpriu no Central Córdoba e no Central Córdoba se fez universitário do futebol”, posteriormente se tornando “o decano dos catedráticos” da bola. Ou “o último baluarte daqueles tempos em que não havia contratos nem tapetão”.

    Hora de, enfim, sermos mais objetivos sobre a carreira de um personagem esquecido do grande público – em parte porque o Central Córdoba, embora visto como a terceira força da cidade de Rosario, nunca passou muito da aura de clube “simpático” ao invés de fomentar alguma rivalidade intensa com a duopólio Newell’s x Rosario Central. E em parte porque a despeito disso, Sosa sempre recusou ofertas que apareciam de Buenos Aires, tendo tamanho espírito amador que a ele bastava como pagamento a entrega de bonecas para suas filhas. Outra história que será mais detalhada a seguir.

    A carreira amadora

    Não são poucos os clubes argentinos originados no início do século XX a partir de trabalhadores britânicos recrutados para as ferrovias construídas a rodo. Se a própria capital federal tem o Ferro Carril Oeste e o Ferrocarril Midland, de nomes autoexplicativos, no país adentro o setor de oficinas da empresa Ferrocarril Central Argentino (que ligava Rosario a Córdoba) originou o Rosario Central – a quem Sosa e muitos de sua época chamavam de Talleres, a palavra castelhana para “oficinas”. E foi das oficinas do Ferrocarril Central Córdoba, que ligava a capital da província cordobesa a interiores mais profundos, que realmente saiu o clube denominado de Talleres mesmo. Essa mesma empresa germinou em Córdoba o clube Instituto. E, nas províncias vizinhas, pariu pelo menos duas equipes de nome Central Córdoba: a rosarina e a que hoje está na elite argentina representando Santiago del Estero.

    Gabino Sosa chegou ao Central Córdoba como empregado da ferrovia, justamente, apadrinhado por Blas Sosa, um irmão mais velho que defendera o clube antes (“não conseguiu destacar-se muito porque era nervoso”, explicaria El Negro naquela nota de 1934). Com 17 anos, Gabino fez em 1916 uma primeira aparição no time sub-19 dos charrúas, apelido que era um trocadilho gozador com Claro Charras, representante do clube na liga rosarina – e que acabou aceito pelos simpatizantes rubroazuis, que viam na expressão um símbolo de resistência do conhecido povo indígena uruguaio tão invocado pelo futebol celeste.

    Com apenas um jogo pelo sub-19, Gabino foi promovido ao adulto, ainda que inicialmente na ponta-esquerda, estreando contra o Provincial pelo campeonato rosarino; é que, apesar do nome, o campeonato “argentino” era restrito oficialmente a times da Grande Buenos Aires e La Plata, só vindo a admitir em 1939 a dupla Newell’s e Central. A carreira de Sosa é também o retrato de uma época em que não só a liga rosarina tinha muito mais importância, ao agrupar esses dois clubes, mas também a própria seleção de Rosario. Para a qual ele já foi convocado com apenas sete partidas pelo time adulto do Central Córdoba, incluindo uma semifinal contra o Independiente em 5 de novembro de 1916 pela Copa Competencia – um embrião de Libertadores que opunha clubes de Rosario, Montevidéu e da Grande Buenos Aires.

    O dia do gol olímpico: ex-jogador Pedro Calomino convertido em bandeirinha, o técnico Ángel Vázquez, Segundo Médici, Américo Tesorieri, Mario Fortunato (futuro técnico do Botafogo), Emilio Solari, Florindo Bearzotti e Adolfo Celli; massagista Kanichi Hanai, Domingo Tarasconi, Ernesto Celli, Gabino Sosa, Manuel Seoane e Cesáreo Onzari.

    O perfil de Gabino no livro Quién es Quién en la Selección Argentina, publicado em 2010, chega inclusive ao ponto de dizer que “talvez nele se reúnam todas as características que fizeram destacado, desde sempre, o jogador rosarino, a cuja denominada escola ele representou como poucos. Hábil para o drible, ágil nos deslocamentos, potente e preciso para definir. Talentoso. De grande categoria. (…) São muitos os que sustentam que o melhor de Gabino Sosa foi nos famosos jogos internacionais não-oficiais que os combinados rosarinos da época jogavam contra uruguaios ou visitantes estrangeiros”. Mas ele próprio dizia que a estreia já representou uma primeira tristeza no futebol, naquela nota de 1934:

    “Porque perdemos por 3-1. Me marcava El Negro [Juan] Delgado. Muito habilidoso, me tocava num pé de maneira tal que me emaranhava com o outro e caía. Essa manobra realizava tão bem que nunca apitavam foul. Apesar disso, creio que minha atuação não foi má, porque de imediato me puseram de centreforward no team que jogou contra os portenhos um match que se empatou em dois tentos”.

    Aquela viagem a Montevidéu para o jogo, realizado em 19 de novembro de 1916 no Gran Parque Central, não só colocou pela primeira vez Sosa e Piendibene em um mesmo campo.

    Ela também fez Gabino receber suas primeiras calças compridas, para a recepção social de gala que se promoviam em tempos de cavalheirismo entre as federações.

    Uma revanche foi concedida em 9 de julho de 1917, no estádio do Gimnasia y Esgrima de Rosario. Sosa já atuou na meia-esquerda, sem ainda evitar nova derrota, de 1-0. Ainda verde, o garoto chegou a ser realocado no time B do Central Córdoba naqueles primeiros anos e foi figura ausente do duelo de 1918 entre as duas seleções (Uruguai 3-1, em Montevidéu). Mas, em 28 de setembro de 1919, desafogou: fechou a goleada de 4-1 para a equipe que tinha ainda o único a defender a seleção argentina como jogador de Newell’s e Rosario Central (o ponta-esquerda Juan Francia) e dois futuros colegas de Sosa na histórica Copa América de 1921: o zagueiro Adolfo Celli e o ponta-direita Julio Libonatti, futura figura histórica também no futebol italiano a serviço do primeiro Torino campeão e da Azzurra.

    Em 1920, Gabino já estreou por outra seleção que não a rosarina. Ainda não era a argentina: é que, deslocado a Córdoba para cumprimento do serviço militar obrigatório, ele foi realocado no braço cordobês da ferrovia. E defendeu naquele ano não apenas o recém-fundado Instituto, com o qual terminou artilheiro da liga cordobesa daquele ano (com sete gols), mas também a seleção de lá no então prestigiado campeonato argentino de combinados regionais – e também em um amistoso de Córdoba contra a própria seleção argentina, vencedora por 4-2 em 18 de julho. Sua inclusão não foi sem polêmica alheia, gerando pedidos de que as seleções regionais só contassem com filhos da casa.

    Em meio a isso, a seleção argentina viu-se em outra encruzilhada. É que seu campeonato oficial foi esvaziado dos principais clubes ainda em 1919, com River, San Lorenzo e a dupla Racing e Independiente abrindo uma liga à parte enquanto Boca e Huracán foram as forças restantes na oficial. Sem poder recorrer a muitos craques dos clubes renegados (a reunificação só se daria em 1926), a federação buscou reforços no interior para não fazer feio na Copa América de 1921, apenas a segunda sediada em Buenos Aires.

    Outros registros do dia do gol olímpico. Sosa aparece na imagem inferior esquerda no pontapé inicial simbólico. Ao meio, a retirada uruguaia. E diversas fotos da invasão de campo da plateia comovida pela desforra nos campeões olímpicos

    Miguel Dellavalle, outro presente na seleção cordobesa que enfrentara a argentina em 1920, veio do Belgrano para ser em mais de cinquenta anos o único que a Albiceleste convocou diretamente do futebol cordobês (seu sucessor? Mario Kempes, do Instituto em 1973). Também houve espaço para quem jogava no ignoto Belgrano de Rosario mesmo, o zagueiro Florindo Bearzotti. Os citados Celli e Libonatti, além do centroavante Blas Saruppo, vinham do Newell’s. O ponta-esquerda Vicente González trazia ainda mais exotismo, proveniente do Gimnasia y Esgrima de Mendoza. Gabino Sosa, por sua vez, tornou-se o primeiro dos seletos quatro jogadores aproveitados pela Albiceleste como atletas do Central Córdoba.

    Mesmo desfalcada, a Argentina começou batendo o detentor do título, o Brasil – onde o Jornal do Brasil chegou a atribuir o único gol a Sosa, embora o autor real fosse Libonatti, em possível confusão a uma de tantas assistências sem registros de Gabino. Os hermanos adiante sagraram-se campeões pela primeira vez, no que é apontado como a primeira grande comoção popular pelo futebol, com os jogadores carregados pelo público em procissão pelas ruas de Buenos Aires. Também foi o primeiro troféu à carreira do Payador de la Redonda, cujo Central Córdoba normalmente não ia além do terceiro lugar em uma duopolizada liga rosarina.

    O grosso das partidas de Gabino pela Argentina deram-se ao longo daquela cisão que o campeonato argentino teve entre 1919-26. Em meio a ela, também continuava defendendo a rosarina, que voltou apenas em 1º de julho de 1923 a encarar o Uruguai. E venceu-o pela primeira vez em Montevidéu: Vicente Aguirre, o segundo jogador do Central Córdoba aproveitado pela seleção argentina, fez na ocasião os três gols da vitória e o primeiro surgiu a partir de passe fornecido pelo colega de clube. Enquanto isso, a seleção argentina preferiu concentrar-se nos clubes de Buenos Aires para a Copa América realizada de outubro para novembro daquele ano. O mesmo Uruguai foi campeão e levou a única vaga para as Olimpíadas de 1924.

    Enquanto os Jogos de Paris viam o nascimento da Celeste Olímpica, a Argentina teve como chamariz internacional um amistoso contra o clube inglês Plymouth Argyle. Que, mesmo inexpressivo na terra natal, justificou o cartaz da superioridade do futebol britânico já profissionalizado ao inicialmente vencer a Argentina por 1-0 em 22 de junho e, por 4-0, uma seleção secundária do Uruguai em 4 de julho. Ausente no primeiro jogo da Argentina, Sosa foi recrutado para a revanche, em 29 de junho. E fez os dois gols de vitória por 3-0. O Plymouth seguiu viagem para Rosario para novos duelos contra Sosa, agora pela seleção rosarina, que segurou um 0-0 em 6 de junho e venceu por 2-1 dois dias depois.

    Os ingleses voltaram a vencer uma Argentina sem Gabino em 13 de julho e ficaram no 1-1 na revanche dos uruguaios em 18 de julho. A turnê se encerrou com a segunda revanche oportunizada à Albiceleste, em 20 de julho: Sosa estava em campo de novo e de novo quem jogou com ele não perdeu. Foi 1-0, no estádio do Sportivo Barracas. Que, dali a três meses, recebeu um Argentina x Uruguai que renderia o primeiro encontro dos hermanos contra o elenco recém-campeão olímpico. A expectativa foi tanta que dez mil interessados ficaram de fora do estádio, sendo acalmados por megafones instalados nos arredores para narrações da partida.

    A seleção em 1926, ano em que Sosa praticamente se despediu da Argentina (é o homem atrás do mascote), ainda deixando Guillermo Stábile (de terno) na reserva – e ano de seu embate contra o Espanyol do goleiro Ricardo Zamora, abrindo um 3-0 pela seleção rosarina

    A história mais conhecida daquele jogo é de que ali ocorreu o primeiro gol olímpico legítimo, anotado logo aos 12 minutos pelo ponta Cesáreo Onzari. As estatísticas também registram que os outros gols foram de Pedro Cea no empate provisório uruguaio e de Domingo Tarasconi para dar a vitória aos anfitriões. Para notícias da época que passaram décadas esquecidas sob poeira até o advento de hemerotecas virtuais, contudo, o melhor em campo naquela partida histórica (tão comovedora que os uruguaios, revoltados, se retiraram de campo a quatro minutos do fim enquanto a plateia da casa invadia o gramado para carregar os heróis carimbadores da faixa olímpica) teria sido Gabino – cuja modéstia o fazia desmentir isso, segundo outra informação naquele seu perfil no livro de 2010.

    Com o Central Córdoba nunca páreo para furar o duopólio, Sosa desafogava também na seleção rosarina naqueles tipos de torneios amistosos opacados pelo tempo e pela insensibilidade dos sedentários que definem com suas canetas o que é oficial e o que não é. Como o Torneio Interprovincial que celebrou em outubro de 1925 pomposamente os 200 anos de Rosario, com a seleção da casa recebendo as das cidades de Tucumán, Paraná e Santa Fe. Sosa deixou dois gols em um 7-0 nos tucumanos, outro em 9-1 nos paranaenses de Entre Ríos e por fim mais um em 4-2 no clássico provincial com os santafesinos. Mas a Argentina voltou a concentrar a seleção em times de Buenos Aires para a Copa América realizada no fim do ano.

    A Albiceleste pôde ser campeã, mas foi menos insensível na edição de 1926. É que entre junho e julho outro time europeu com cartaz de profissionalizado excursionou pelo país. Era o Espanyol, com porte ainda mais equiparável ao do Barcelona e que tinha, sobretudo, o já lendário goleiro Ricardo Zamora consigo. Os catalães começaram invictos, batendo por 1-0 o combinado dos times do norte da Grande Buenos Aires e ficando no 1-1 com os do sul, arrancando na sequência um 2-2 contra a seleção Argentina após estarem perdendo de 2-0. Sosa não jogou essa partida e sim a seguinte: Zamora e colegas pisaram no estádio do Newell’s e levaram de 3-0 em um placar aberto pelo Payador de la Redonda. Feito realçado pelo clube ter na sequência visitado o Uruguai e vencido por 1-0 o Nacional, ainda que o veterano Piendibene assegurasse vitória do Peñarol pelo mesmo placar depois.

    Assim, em outubro de 1926 a seleção argentina não duvidou em levar Gabino para a Copa América realizada no Chile. Autor de um gol nos 5-0 na Bolívia, ele consagrou-se contra o Paraguai, onde fez o primeiro, o terceiro e os dois últimos de um inapelável 8-0. Não deixou espaço para que seu reserva jogasse: era ninguém menos que Guillermo Stábile, que dali a quatro anos se sagraria artilheiro da primeira Copa do Mundo. Não bastou para evitar título do Uruguai. Mas o que viria a despedir Sosa da seleção seriam fatores extracampo. A começar pela reunificação das ligas, em 1927, reforçando a concorrência ao posto com gente mais midiática de clubes mais populares e mais próximos do radar – El Negro jogou pela Argentina pela última vez naquele ano, em derrota de 1-0 para o Uruguai em 30 de agosto, pelo troféu binacional Copa Lipton.

    A Argentina venceu sem ele a Copa América de 1927 e disputou sem ele as Olimpíadas de 1928 por pura opção técnica e abundância de craques em meio à primeira geração dourada do país. Ainda assim, ao eleger em 2011 os cem maiores ídolos da seleção, a revista El Gráfico incluiu Gabino Sosa. Cujo cartaz europeu em 1928 exibiu-se em turnês de outros dois clubes: terceiro colocado na também duopolizada liga escocesa na temporada 1927-28, o Motherwell excursionou pelo Cone Sul entre maio e junho e não deixou de falar grosso: venceu mesmo a Argentina por 3-0 em 2 de junho e repetiu esse placar no dia seguinte contra um combinado Argentina-Uruguai.

    Duas imagens que refletem a longevidade da carreira de Sosa: à direita, no amistoso com o Rosario Central comemorativo dos 20 anos dela, posa com Harry Hayes, filho de ex-colega de mesmo nome na seleção rosarina. À direita, com Vicente de la Mata, que nem era nascido quando Sosa começou a jogar

    Na mesma turnê, os britânicos derrotariam o Peñarol em Montevidéu por 1-0 e ficariam no 1-1 contra a seleção carioca. Sosa, dessa vez, não venceu, mas não passou vergonha: a seleção rosarina caiu primeiro por 4-3 e depois por 3-2. Em agosto sim, Gabino venceu: o Barcelona programou sua pré-temporada com oito jogos pelo Rio da Prata e teve contra os rosarinos a derrota mais elástica da gira, aqueles 4-0 em que El Negro forneceu as assistências para os dois primeiros gols. Ainda haveria mais, mas era o bastante para essas menções de uma nota da revista La Cancha nos anos 30:

    “Fora de nosso país, Gabino Sosa goza de uma fama que não conseguiram muitos celebrados meias-atacantes de Buenos Aires. Em Montevidéu, o consideram o mais completo que o balompié sul-americano produziu. E todas as equipes estrangeiras que visitaram Rosario, desde os escoceses do Motherwell até os catalães do Barcelona, saíram convencidos de que Rosario tinha um maestro nativo do futebol. Um maestro de pedagogia própria, definida, inconfundível. Um maestro do futebol criollo, desse futebol nosso que é uma degeneração progressista do jogo base dos anglo-saxões, do qual só restou a essência estatutária, a forma anatômica, mas cuja modalidade fisiológica (valha a metáfora) difere substancialmente das características inglesas. Gabino Sosa foi um maestro desse futebol criollo que foi à Europa passear sua superioridade. Gabino Sosa é um maestro do que para os ingleses é jogo ciência e para nós, por obra e graça de nossos campeões, é jogo-arte”.

    Entre maio e julho de 1929, quem veio da Europa para excursionar no Cone Sul foi o Chelsea – que, embora fosse ainda um clube virgem de títulos e de segunda divisão, tinha calibre profissional para vencer a seleção de Buenos Aires por 3-2 em 25 de maio e a própria Argentina por 1-0 no dia 31, ou o San Lorenzo por 2-0 já em 8 de junho. Em 16 de junho, os londrinos levaram então uma virada de 2-1 no estádio do Newell’s pela seleção da cidade orquestrada por Gabino. Mas as chances de El Negro voltar à seleção acabariam de vez ainda naquele ano: primeiramente, fraturou o perônio da perna esquerda, no que ele descreveu como “a única desgraça séria” vivida no futebol, naquela nota de 1934.

    Os trinta anos de idade já elevados para a época também pesariam contra uma convocação à primeira Copa do Mundo. A pá de cal foi uma greve dos jogadores rosarinos em 1930, vetando a inclusão generalizada deles na convocação. A greve, inclusive, já denotava a existência de um regime profissional que se escancaria no ano seguinte.

    Não exatamente para Gabino Sosa.

    Um amador profissional. E um profissional, enfim, campeão

    Apesar da estrela de Gabino, o Central Córdoba era um clube pouco ou nada lucrativo, com apenas 300 sócios no ano de 1927. Mesmo times menores beliscavam um título ou outro na liga rosarina (o Tiro Federal em 1920, 1925 e 1926 e o Belgrano em 1924). Os charrúas, quando muito, chegavam ao vice, secundando o Newell’s em 1929 e o Rosario Central em 1930. Em 1931, então, os principais clubes da Grande Buenos Aires romperam com a federação, criando uma liga assumidamente profissional. O mesmo ocorreu em Rosario, onde o Central Córdoba não deixou de fazer parte da primeira liga rosarina profissional, também em 1931.

    Sosa como técnico do Central Córdoba campeão regional em 1939, entre Waldino Aguirre e Francisco de la Mata

    Essa realidade germinou diferentes versões sobre a hora em que Sosa e o Central Córdoba precisaram por lei sentar pela primeira vez para pactuar um contrato de jogador profissional. Em algumas, os dirigentes teriam combinado um salário de 400 pesos e o presentado com uma boneca para a filha, emocionando o jogador – que apenas dizia “obrigado, obrigado” às lágrimas deixando o dinheiro na mesa, dizendo que o brinquedo era suficiente; em outras, o jogador é que teria pedido pela boneca no lugar do dinheiro. Também há quem narre que ele teria assinado em branco o contrato para que os dirigentes oferecem o valor que entendessem. Em outra, “Sosa, um pouco infantil, não queria assinar seu primeiro contrato como profissional, pois sustentava que era suficiente o compromisso de palavra”, em palavras datadas já de 1957 pela revista El Gráfico. Foi em nota que celebrava o título charrúa na segunda divisão argentina, rendendo a única temporada dos rubroazuis na elite nacional.

    No perfil dedicado aos estreantes, a El Gráfico tratou de embutir um sobre Sosa: “somente o tempo e o reconhecimento de quem sabe das etapas difíceis do Central Córdoba podem dizer como Gabino Sosa, com uma personalidade que há de ser muito discutível fora dos campos, por seu apego ao ‘estranho’ e à vida noturna nos bodegones, e que ele nunca ocultou, foi bandeira no então clube [do bairro] de Tablada. (…) Gabino Sosa foi identificando-se no corpo e alma com o Central Córdoba, volcando nele toda sua sabedoria futebolística e característica malícia criolla. Para quem vimos atuar em seu apogeu, e ainda admitindo diferença de tempo e de táticas, cremos que essas condições não foram superadas por homens das novas gerações”.

    Pois bem. Em 1931, a principal anedota envolvendo Sosa na liga teria sido um jogo contra o Provincial, então o clube do goleiro Julio Yustrich, mais tarde ídolo no Boca e quem inspiraria o apelido do goleiro flamenguista de nome real Dorival Knipel: Gabino driblou um defensor e ficou então livre de frente ao Yustrich argentino. Ameaçou chutar para um canto, fazendo o goleiro pular naquela direção, para então gozar com um “não, loirinho, não aí” – e colocar a bola no canto oposto. Em 1932, porém, a história já seria mais laureada.

    Para 1932, a liga rosarina foi travada em simplesmente três turnos. Teve o melhor ataque, com 91 gols, e a melhor defesa, que sofreu 28 ao longo dos 24 compromissos – goleando nos últimos cinco: 6-2 no Provincial, 5-0 no Sparta, 7-2 no Washington e 6-1 no Tiro Federal podem parecer folclore dado os adversários. Na rodada final, o Newell’s era o único concorrente à taça, calhando de o adversário do Central Córdoba ser exatamente o Rosario Central. Podia-se assim até esperar pouco esforço dos canallas.

    Mas não que levassem de 8-0 dos rubroazuis.

    Sosa marcou os dois primeiros.

    E, em retribuição, clube e torcida se unirem em uma vaquinha para presentear o ídolo com uma casa própria, onde ele moraria até o fim dos seus dias.

    O primeiro título rosarino do Central Córdoba teve ainda novo desdobramento glorioso. É que as associações “argentina”, rosarina, cordobesa, santafesina e uruguaia programaram outro embrião de Libertadores, entre novembro de 1933 e fevereiro de 1934. A chamada “Copa Beccar Varela” começou com fases regionalizadas e o clube de Gabino destacou-se desde o início, liderando o grupo com o Nacional de Rosario, o Belgrano rosarino, o Tiro Federal e a dupla Newell’s e Central. Nas oitavas-de-final, bateram por 2-0 o Platense em jogo único no estádio neutro do River; nas quartas, passaram pelo Atlanta por 2-0 em jogo único na cancha do Rosario Central. E o campo do próprio Atlanta recebeu as semifinais: 3-2 no Gimnasia y Esgrima de Santa Fe.

    Como guarda-trem do Ferro Carril Central Córdoba (note as iniciais no quepe) e assinando a papelada de sua aposentadoria na ferrovia, nos anos 50

    A decisão foi contra o Racing, campeão de Beccar Varela anterior e que havia surrado por 4-1 a “final antecipada” contra o rival Independiente. Aos 2 minutos, Demetrio Conidares abriu o placar para os favoritos de Avellaneda, mas o ensaio de uma goleada contra uma defesa rosarina avaliada como desorientada só ficou no ensaio mesmo. Os dribles não saíam e o volume ofensivo maior não chegava a inquietar o goleiro Ernesto Funes. Por outro lado, Juan Bottaso, goleiro da Argentina na final da Copa de 1930, defendeu sem dificuldade um pênalti cobrado por Telmo Collins no meio do gol. Ainda assim, os charrúas não esmoreceram: aos 37 minutos, “os passes curtos dos centrais rosarinos lhes proporcionaram um magnífico goal, conseguido por [Eduardo] Constantini ao cabo de uma combinação de Sosa e Collins”.

    O Central voltou melhor do intervalo, mas o Racing marcou antes, aos 8, com Vicente Zito, “na melhor jogada da tarde e o único momento em que se fez presente a Academia. [Roberto] Bugueyro colocou um cruzamento largo, que passou frente ao arco – como todos os seus – e ali recolheu Conidares, sobre a mesma linha; de voleio, fez o cruzamento curto para trás e Zito pôs o selo com um sobrepique”. Mas em seguida, aos 15, veio novo empate: “o segundo goal de Constantini nos fez lembrar aqueles outros goals de Libonatti, que já passaram. Rapidez, habilidade e precisão; isso houve na jogada do insider”.

    À parte dos quatro gols, o jogo foi avaliado como discreto, carente de grandes figuras e sem situações de emoção na quantidade esperada. E a imprensa avaliou o veterano como a figura: “o nome de Gabino Sosa se impõe, mais que por sua atuação no match, pela notória influência de sua técnica no jogo dos forwards”. Foi então que, a dois minutos do fim, o beque racinguista Arturo Scarcella fez falta perto da área em Constantini. O lateral Lorenzo D’Uva cobrou e, na sequência, foi a vez de Scarcella cometer pênalti em Collins. Inconformados com o apito, os jogadores da Academia então cercaram o árbitro, impedindo-o que contasse os doze passos para assinalar a marca da cobrança e chegando ao cúmulo de se revezarem em sentadas na bola – sob a calmaria dos rosarinos, que apenas observavam.

    Após cinco minutos de confusão, o juiz deu o jogo por encerrado e retirou-se do campo. A falta de fair play foi condenada em peso pela própria imprensa portenha, sem bairrismos da El Gráfico: “na partida final pela Copa Beccar Varela, os jogadores do Racing nos privaram de um epílogo que teria sido, acaso, o melhor da tarde. Esperávamos que, ao executar-se o pênalti e decretar-se o triunfo do Central Córdoba, seriam 22 os homens que aplaudiríamos ao dar a volta olímpica, e que antes de retirarem-se do field, os jogadores do Racing, caídos com honra, teriam em suas mãos em ademão de cavalheira felicitação a seus vencedores”. A lamentou ainda que o capitão de La Acadé não se impusesse, em contraponto a um exemplo dos anos 10 onde “o célebre Alberto Ohaco advertiu severamente, com autoridade de um pai, Natalio Perinetti, porque em um match amistoso esse protestou uma falha do árbitro”.

    Apesar da confusão, a volta olímpica foi possibilitada – curiosamente, os dois clubes deram, ainda que os da Academia se colocassem atrás dos rosarinos, não escapando de vaias abafadas pelos fanáticos alvicelestes. Dentre seus pares, Sosa era quem ia mais atrás, às lágrimas pelo maior feito nacional do Central Córdoba até hoje. O jornal rosarino El Mundo destacou na época que ele “ainda na atualidade e pese aos 18 anos transcorridos, um valor de recomendáveis quilates. Dirige o jogo com pasmosa habilidade e é a alma mater da equipe Central Córdoba. No cotejo de ontem, patenteou uma vez mais suas condições de footballer fogueado em mil encontros”.

    Busto no estádio do Central Córdoba. O campo leva o nome do craque

    Gabino Sosa ainda teve mais dois capítulos gloriosos no clube de sua vida; um segundo título rosarino veio em 1936, na companhia de outro raro jogador que a Argentina aproveitou do Central Córdoba: Vicente de la Mata, que na esteira da conquista iria à Copa América iniciada em dezembro daquele ano para ser o herói da conquista sobre o Brasil. Em meio à campanha da seleção, De la Mata transferiu-se ao Independiente para ser sua maior figura na primeira metade do século XX. Sosa seguiu sendo a estrela máxima da companhia rubroazul até parar de jogar, em 1938. Justamente o último ano em que Newell’s e Rosario Central se limitaram ao campeonato rosarino.

    Em 1939, então, a AFA incorporou essa dupla ao campeonato argentino (o Central Córdoba viria a ser admitido em 1943, mas na segunda divisão). Com a perda imediata de prestígio da liga rosarina, a saída inicial dos clubes restantes foi criar para 1939 o Torneio do Litoral, com a dupla santefesina Colón e Unión, além do Gimnasia y Esgrima local; e com dois representantes da cidade de Paraná, os combinados entre Patronato e o Belgrano local e entre o Paraná e o Talleres local.

    Gabino ainda seguiu frequentando os vestiários rubroazuis como técnico e foi o comandante até 1940. A tempo de saborear mais um raro título da galeria charrúa; ao fim do turno e returno, seu clube e o Unión terminaram empatados com 25 pontos, acertando duas finais. Em Santa Fe, o Tatengue surrou por 6-2 os rosarinos em 17 de dezembro. Na véspera de natal, então, o Central ganhou de 3-1, sem que o saldo fosse critério de desempate; a taça foi decidida em jogo-extra na neutra Buenos Aires, em 6 de janeiro, no estádio do San Lorenzo. Francisco de la Mata, irmão de Vicente e futuro campeão no próprio San Lorenzo, abriu a vitória de 2-1 para o quadro onde também brilhava Waldino Aguirre, futuro maior artilheiro profissional do Rosario Central.

    Após o futebol

    A carreira como treinador não foi muito além daquele epílogo: Gabino seguiu dedicado a seu posto de guarda de trem na ferrovia, aposentando-se nos anos 50 realocado na seção de encomendas. Em 7 de novembro de 1969, foi homenageado ainda em vida quando seu nome foi escolhido para designar o novo estádio do Central Córdoba. Seguia sendo um raro ídolo do passado não relegado ao esquecimento das torcidas alheias: em 5 de janeiro de 1971, ele ingressou no velho Policlínico Ferroviário para tratar de um tumor na coluna e não mais sair.

    Recebeu ao longo da internação apoio generalizado para além do pessoal charrúa. O Ñaró, clube de boxe (esporte que promoveu lutas beneficentes para El Negro), lhe doou 10 mil pesos. Outros 50 mil saíram da conta pessoal do presidente da AFA. Uma conta bancária foi mesmo aberta para doações. O filho de Blas Sosa e de Andrea Basualdo, o irmão de outro Blas Sosa e de Prudente Sosa, o esposo de Margarita Chaves e o pai de María Margarita, Beatriz Adriana, Marta Yolanda e Alcira Oiga (além de outro Gabino, gêmeo desta e falecido pouco após o nascimento) conseguiu lutar até as 8h40 da manhã chuvosa de 3 de março de 1971. Um poeta teria assegurado que “a cidade, marcada pelo céu cinza, chorava nesse dia por Gabino Sosa”.

    https://twitter.com/museocc/status/1367099122596130816

  • Alberto Vivalda: a trajetória do goleiro talentoso

    Alberto Vivalda: a trajetória do goleiro talentoso

    Alberto Vivalda foi um goleiro talentoso do futebol argentino, com passagens marcantes em clubes do interior e da capital.

    A perda precoce do uruguaio Santiago Morro García (em litígio com o Godoy Cruz, onde era simplesmente seu maior artilheiro na primeira divisão argentina – na qual fora goleador máximo da temporada 2017-18) nesse fim de semana para a depressão traz novamente à tona discussões acerca de uma doença terrivelmente subestimada. Não fosse ela, provavelmente ontem o ex-goleiro Alberto Pedro Vivalda celebraria seus 65 anos. Vale aproveitar a oportunidade para, sobretudo, reiterar os canais de ajuda apresentados em nossa nota sobre o caso de Mirko Saric.

    O futebol argentino perdeu Saric em 2000. Em 2003, seu mestre Oscar Ruggeri declarava que seguia “sem entender. Preenchia tudo para que tivesse uma vida feliz: família bárbara, tinha contrato assinado, as novinhas tinha que tirar da concentração porque corriam atrás dele por todos os lados, jogava no San Lorenzo, era gente boa. Isso te leva a pensar que nem tudo passa por dizer a alguém ‘que lindo é jogar o futebol’; às vezes, é importante ter profissionais ao lado”. Vivalda, inclusive, tinha pinta de galã feito Saric. Filho único de um delegado dos juvenis do River, formou-se por lá e foi para o gol após o avaliarem muito mal como atacante. Estreou no time adulto justamente no ano histórico de 1975.

    Ele era apenas o terceiro goleiro em Núñez, com o titularíssimo Ubaldo Fillol tendo no confiável Luis Landaburu seu reserva imediato, mas ainda assim Vivalda pôde atuar em um jogo ou outro na campanha que encerrou a pior seca do Millo (dezoito anos). Landaburu, inclusive, relataria que Vivalda era visto como o goleiro de mais futuro: “no clube, o estereótipo é Amadeo Carrizo, e os que viemos do River tínhamos esse selo de jogar adiantados, de saber usar os pés, de chutar com estilo. Foi o mais parecido com Amadeo que eu vi. Vinha o escanteio pela direita, agarrava com uma mão e, como no basquete, passava a bola por trás da costa e a arremessava pelo outro lado, uma coisa espetacular. Eu era três anos mais velho e tenho que agradecer-lhe por ter saído do River, porque senão, não teria jogado nunca, nem engraxava seus sapatos”.

    River de 1975: Héctor Ártico, Carlos Pintos, Alejandro Sabella, Daniel Crespo, Reinaldo Merlo, Ubaldo Fillol, Hugo Pena, Roberto Carrizo, Carlos Avanzi e Alberto Vivalda; José Reinaldi, Juan José López, Pedro González, Pablo Comelles, Oscar Más, Roberto Perfumo, Miguel Raimondo e Carlos Salinas; Héctor López, Carlos Morete, Luis Landaburu, Norberto Alonso, Pedro Bareiro e Daniel Lonardi

    As palavras acima foram proferidas já em 2017, em reportagem onde o autor Diego Borinsky também tratou de consultar Fillol: “tinha um estilo mais similar ao de [Hugo] Gatti que ao meu, mas era um goleiro de tremenda personalidade, goleiro de equipe grande”. De fato, como a lenda Carrizo e como o também histórico Gatti, Vivalda acabaria apelidado de El Loco, embora também fosse chamado de Beto. Diante de lesão conjunta de Fillol e Landaburu, pôde estrear na 32ª rodada do Torneio Metropolitano, em 20 de julho, em derrota em casa para o Atlanta por 1-0. A mais lembrada, porém, foi a 37ª e penúltima. Vivalda foi justamente o goleiro titular na partida que assegurou a reconquista argentina.

    É que o sindicato dos profissionais entrara em greve exatamente na ocasião daquela partida, obrigando o líder a apresentar-se com juvenis no compromisso com o Argentinos Jrs. A exceção foi Vivalda, segundo o obscuro Ramón Gómez, um dos juvenis improvisados: “quando se decretou a greve, Vivalda falou diante de todo o plantel de profissionais e lhes disse: ‘eu vou jogar essa partida porque estou desde os 8 anos no clube, levo a camisa no sangue, não como vários daqui. Se alguém tem um problema pessoal, que fale’. E te asseguro que ninguém falou”.

    Naquela campanha, aquela noite rendeu a única aparição dos jogadores de linha utilizados na ocasião. Terminariam boicotados pelos rancorosos titulares, ausentes à força do jogo da consagração após todo o osso roído (para muitos, após anos a fio). Um pouco por isso e um pouco para ter mais minutos, Vivalda rumou em 1976 ao Chacarita; ainda em 1975, seu River logrou um bicampeonato seguido faturando o Torneio Nacional, sem que a terceira opção de goleiro chegasse a ser acionada.

    A improvisada e obscura escalação juvenil no jogo do desjejum: Luis Jometón, Orlando Ponce, Rodolfo Raffaelli, Alberto Vivalda e Fernando Zappia; Héctor Bargas, Leonardo Labonia, Rubén Cabrera, Ramón Gómez, Rubén Bruno e Francisco Groppa

    Treinado por um iniciante Alfio Basile, o Chaca já não lembrava a potência que no início da década sabia bater de frente até com o Bayern Munique, brigando contra as últimas posições tanto no Metropolitano como no Nacional entre os anos de 1976 e 1978 – apesar de um elenco que no papel reunia outros finalistas de Libertadores como Basile, a exemplo do veterano Roque Avallay (do Independiente campeão de 1965) e dos jovens Carlos Salinas (que levantaria pelo Boca as de 1977 e 1978) e Carlos Ischia (que aguardaria até 1985 para decidi-la pelo América de Cali, saboreando como assistente técnico de Carlos Bianchi por Vélez e Boca).

    El Loco Vivalda teve muita contribuição para tardar o rebaixamento funebrero, consumado justamente no ano em que ele deixou os tricolores, 1979. O goleiro saiu em alta, contratado por um gigante feito o Racing como opção ao veteraníssimo Agustín Cejas – que volta e meia precisava desdobrar-se como jogador-treinador, como ocorreria em 1980. La Acadé teve um ano aceitável em 1979, perdendo por dois pontos a vaga nos mata-matas do Metropolitano enquanto que no Nacional liderou seu grupo, caindo nas quartas-de-final.

    Já o ano de 1980 foi medíocre: 10º no Metro, vice-lanterna no grupo do Nacional, onde o Racing brilhante foi o de Córdoba mesmo, o vice-campeão. Cejas, ainda assim, cavou uma transferência ao River. Para novo técnico, a diretoria racinguista ousou, chamando José Omar Pastoriza, todo um símbolo do Independiente. El Pato vinha de títulos seguidos no Rojo, mas entrara em rota de colisão com o astro-mor Ricardo Bochini. Deu certo nas circunstâncias: o 5º lugar no Metropolitano de 1981, a um ponto do bronze, foi a melhor campanha do time de Avellaneda entre o vice do Metro 1972 e o bronze na temporada 1987-88. Ambas campanhas guarnecidas pela lenda Fillol, por sinal.

    No Chacarita em 1976. Os três à frente do goleiro são Carlos Ischia, Roque Avallay e Carlos Salinas, campeões de Libertadores

    Os defensores Julio Olarticoechea e José van Tuyne, o volante Juan Barbas e o atacante Gabriel Calderón terminariam chamados à seleção para a Copa de 1982 por conta daquele Metro 1981. Vivalda e colegas inclusive quase tiraram o título do Boca maradoniano na rodada final. Curiosamente, cabe ao Loco a “honra” dividida com Fillol como goleiro mais vazado por Diego no futebol argentino (oito vezes em sete duelos, no caso de Vivalda). Mas ali só foi vencido numa cobrança de pênalti, no honroso 1-1 segurado pelos visitantes em La Bombonera – que, se vencessem, forçariam o Boca a um jogo-desempate contra a surpresa Ferro Carril Oeste, vice-campeão por um pontinho a menos.

    Só que aquela boa campanha logo resultou em desmanche geral por conta da seríssima situação financeira do Racing: ainda em 1981, para o Torneio Nacional o coringa Olarticoechea (que, àquela nota de Borinsky, revelou que Vivalda, por economia e como exercício extra, pedalava mais de cem quadras desde sua residência no bairro de Caballito até Avellaneda) foi cedido ao River e Calderón, ao próprio rival Independiente. O clube naufragou no Torneio Nacional de 1981 e de 1982. Barbas ainda cavaria um negócio exitoso com o Real Zaragoza. Já Pastoriza rumou ao Millonarios e tratou de levar Vivalda consigo ao clube de Bogotá, bem como o zagueiro Van Tuyne. Saíram na hora certa: a campanha no Metropolitano de 1982, travada no segundo semestre, iniciaria o promedio que resultaria no rebaixamento racinguista outro ano mais tarde.

    Nos campos que germinavam aquela dourada geração colombiana, o goleiro, apesar da falta de títulos (foi bronze em 1982 e 1983, vice em 1984 e outra vez bronze em 1985), enfim foi ídolo histórico de um clube. “Tinha força de pernas, era líbero, saía jogando, cortava com uma mão. Não chegou a ser campeão por essas coisas do futebol, mas deixou uma marca grande. Era um Beatle, por sua genialidade, por seu estilo inovador, por sua estética”, garantiu o autor do livro Las 1001 Anédoctas de Millonarios. Logrou ainda recorde de 585 minutos sem sofrer gols a despeito de seu estilo adiantado  – que serviu de inspiração não-assumida a seu reserva, René Higuita, então um arqueiro descrito como de atuação restrita à linha do gol. Outro jovem ícone entre os azuis era Carlos Valderrama.

    Racing antes de complicar para o Boca na rodada final de 1981: Julio Olarticoechea, José van Tuyne, Osvaldo Pérez, Alberto Vivalda, Juan José Berta e Ángel Leroyer; Gabriel Calderón, Juan Barbas, Hugo Villarruel, Juan Ramón Carrasco e José Muñiz

    Vivalda foi repatriado no fim de 1985, após perder o pai para um câncer. Parecia sinalizar também um fim de carreira ao acertar seguidamente com dois clubes marcados pela fuga contra o rebaixamento: primeiramente, o Unión, na segunda metade da temporada 1985-86. Para a de 1986-87, o veterano serviu o Platense, que protagonizou uma das mais épicas salvações do futebol argentino – embora Carlos Fortunato fosse o arqueiro naquela virada sobre o River. Ainda assim, o próprio River recontratou seu antigo juvenil no pacotão de reforços para a temporada seguinte. Mas outra vez El Loco não passou de terceiro goleiro em Núñez, agora em hierarquia com Nery Pumpido e o reserva imediato Sergio Goycochea.

    O veterano rumou ao Ferro Carril Oeste para a temporada 1988-89. E parece ter evitado campanha ainda pior que o antepenúltimo lugar dos verdolagas, porque deixou o bairro de Caballito novamente recontratado pelo passado: o Racing havia perdido Fillol para o Vélez e, tendo em Carlos Roa alguém ainda verde demais, requisitou a antiga figura de 1981. El Lechuga, contudo, acabaria prevalecendo no decorrer da temporada 1989-90, a última da carreira de Vivalda. Cuja vida pessoal já vinha sob uma espiral negativa desde a perda paterna e foi majorada por financeiros, divórcio e distanciamento dos quatro filhos, que permaneceram na cidade natal da ex-sogra, a 600 Km de Buenos Aires.

    O único filho que atendeu a reportagem de Borinsky relembrou que “para sintetizar, te posso dizer que houve muitas coisas, não foi uma só, se tratou de um processo. Gostávamos muito do meu velho, somos uma família unida e não nos esquecemos dele nem o abandonamos. O tivemos sempre presente”. Após a separação, contudo, os relatos dos ex-colegas que lhe encontravam casualmente convergiram para descrever alguém solitário, mal cuidado e que falava coisas sem sentido, inclusive de que tentaria uma carreira na Europa – dando margens à possibilidade de que sua depressão se combinava a uma esquizofrenia.

    O Millonarios vice colombiano de 1984: Miguel Prince, Alberto Vivalda, Nolberto Molina, Manuel Córdoba, Wilmar Cabrera e Germán Morales; Alonso López, Hernando García, Silvano Espíndola, Carlos Valderrama e Arnoldo Iguarán.

    O destino mesmo foi mais de uma internação em clínicas psiquiátricas mais de uma vez. E nem a proximidade do 38º aniversário impediu que, seis dias antes, em 4 de fevereiro de 1994, ele preferisse estacionar calmamente sua moto na estação Vicente López da linha mitre e então atirar-se nos trilhos ao notar a movimentação do trem.

    Ainda demoraria duas semanas para sua ausência ser notada.

    Abaixo, reproduzimos o aconselhamento exposto naquela nota de Saric, criado tocantemente feito pelos amigos da Trivela, que o usaram também na nota que dedicaram ao caso de Morro García:

    Caso você sofra de depressão ou possui algum entrave ligado à saúde mental, procure ajuda. Também o faça se você se sentir depreciado, com a autoestima baixa, desesperançoso com a vida e/ou se isolar das relações sociais. Não hesite em buscar auxílio ou o atendimento com um profissional – por exemplo, no Centro de Atenção Psicossocial (CAPS) de sua cidade ou região, ligado ao SUS, ou mesmo na Unidade Básica de Saúde mais próxima. Você também pode procurar o CVV, o Centro de Valorização da Vida. O canal realiza apoio emocional e prevenção ao suicídio. Através do número 188, atende gratuitamente pessoas que desejam conversar, sob total sigilo.

    O Platense que escapou epicamente da queda em 1986-87: Washington González, Jorge Ávalos, Norberto Callipo, Daniel Rodríguez, Alberto Vivalda, Claudio Larramendi e Fermín Rivero, Miguel Ángel Gambier, Alfredo Rifourcat, José Vieta e Raúl Grimoldi

    O contato também pode ser feito pelo site oficial, por e-mail ou mesmo por Skype. Quando você pede ajuda, você: “é respeitado e levado a sério; tem o seu sofrimento levado em consideração; fala em privacidade com as pessoas sobre você mesmo e sua situação; é escutado; é encorajado a se recuperar”. E se você conhece alguém em uma situação de risco, não deixe de procurar essa pessoa e de oferecer ajuda. O Ministério da Saúde também possui uma página em que orienta como identificar, agir e prevenir o suicídio. Reconheça os sinais, conforme a indicação da Superinteressante e do Ministério da Saúde:

    “Frases ou publicações nas redes sociais que falem de solidão, culpa, apatia, autodepreciação, desejo de vingança ou hostilidade fora do comum; isolamento, não atendendo a telefonemas, interagindo menos nas redes sociais, ficando em casa ou fechadas em seus quartos, reduzindo ou cancelando todas as atividades sociais, principalmente aquelas que costumavam e gostavam de fazer; preocupação com sua própria morte ou falta de esperança, com sentimento de culpa, falta de autoestima e visão negativa de sua vida e futuro; diminuição ou ausência de autocuidado; aumentar o uso de álcool ou drogas, mudanças drásticas de peso, dirigir perigosamente; perguntas sobre métodos letais, como facas, armas ou pílulas; enaltecer e glamorizar a morte; desfazer-se de objetos pessoais e dar adeus”.

    Vale ressaltar que, embora não seja a maioria das pessoas doentes que cogita ceifar a própria vida, os transtornos mentais são um fator de risco ao suicídio. Em compensação, há sempre uma saída. O avanço da medicina ligada à saúde mental é significativo e a atenção dada pelo sistema público de saúde ao tema cresceu nos últimos anos.

    Racing em novembro de 1989: Carlos Olarán, Cosme Zaccanti, Alberto Vivalda, Hugo Pérez, Jorge Acuña e Néstor Fabbri. Osvaldo Escudero (tio do ex-gremista, atleticano, vascaíno…), Hugo Lamadrid, Fernando Lanzidei, Fernando de Llano e Sergio Míguez