A despedida de Maradona homenageou alguém que não colonizou a terra nem comandou a independência, e ainda assim virou o maior argentino.
Ele nem estava por aqui quando esta terra foi colonizada. Nem foi ele o general da independência há mais de 200 anos. Não criou o tango, o assado com vinho, nem mesmo o futebol. Maradona, no entanto, é o maior da Argentina. É o maior personagem do futebol. De todos os tempos. Hoje, nem Messi, nem Gardel, nem as Mães de Maio e nem o Papa Francisco discordam, pois estão tristes, estejam onde estiverem.
Tudo que envolve Maradonapode não ser racional, mas sempre toca a alma. No meu coração, podem jogar números de todos os lados, mas nenhum deles tira Don Diego do topo do olimpo. Qualquer deus grego, aliás, perde para o que D10S fez no México, em 86. Não ganhou sozinho, mas fez parecer com que um homem só pudesse fazer justiça aos rivais ingleses, e embalar nas mãos a Argentina inteira ao levar aquela Copa do Mundo.
Não começou no Boca Juniors, nem foi lá onde demonstrou o auge de sua genialidade. Mas de lá ganhou o mundo, e ajudou o mundo a se apaixonar mais pelo Boca. Voltou quando viu que era tempo de parar, para se tornar o maior torcedor dentro da melhor torcida do planeta. Tinha até seu próprio cantinho na Bombonera, estádio que mereceria receber um funeral grandioso, não fosse esse vírus maldito.
Aceitamos dividir a idolatria com outras torcidas, outros países. A Itália vem à mente imediatamente. Ninguém maior vestiu a camisa do Napoli. O Barcelona também pode entrar na turma, embora eles tenham outros craques a quem amar, o próprio Messi incluso. Claro, obrigado ao Argentinos Juniors, Bicho que abriu espaço para os primeiros goles y gambetas.
Mas nem sempre as emoções causadas por Maradona são de alegria, mesmo quando se trata de futebol. O Futebol Portenho sabe bem o quanto ele frustrou os torcedores (eu principalmente) com sua aventura de técnico da Selección. Tivemos o alívio e o abraço em Jesús Dátolo na classificação para a Copa de 2010, mas quando chegamos na África do Sul, doeu ver um time sem rumo cair goleada pela Alemanha.
Só que nenhuma dessas angústias é maior do que a tristeza da morte do maior ídolo de todos. Algumas vezes ele nos preocupava no hospital, e já esteve perto de nos deixar antes. Mas ver ele recuperado trazia os sorrisos de volta. Superou o vício pela cocaína, voltava a trabalhar e encantar. Driblou a morte. Até hoje. Logo o homem que emociona a todos foi traído pelo próprio coração.
Aliás, nada disso. Seguirá driblando a morte para sempre. Diego Armando Maradona vive eterno na mente de todos no universo, e nos corações de quem o ama. De quem agradece por tudo. Do futebol à política, com sua consciência de justiça social. Merecia mais do que 60 anos, e nós precisávamos de mais tempo com ele. Eu mesmo nem tive a honra de entrevistá-lo, mas não esqueço que o vi jogar, na Bombonera e aqui em Brasília (showbol, mas tanto faz).
Hoje, no céu, Deus recebe D10S. QEPD Diego Armando Maradona. Muita força para a família, e também muito obrigado.
As histórias de Maradona foram reunidas na quarta-feira em que ele morreu, quase um mês depois de completar 60 anos.
A morte de Diego Armando Maradona nesta quarta-feira (25/11), quase um mês depois de completar 60 anos de vida, pegou todos de surpresa. Para nós, que acompanhamos o futebol argentino, não é nada fácil falar sobre o tema. Escrever um memorial sobre Diego Maradona neste momento é praticamente impensável. Por isso, separamos algumas matérias especiais sobre o tema que fizemos ao longo destes 11 anos de site. Escolhemos o religioso número de 33, que também significa uma média de quase três por ano.
Não poderíamos deixar de fazê-lo. Nossa logomarca é justamente com uma das imagens mais icônicas do atleta, durante a Copa do Mundo de 1986, quando ele conquistou o último título Mundial da Seleção Argentina. Confira, em ordem cronológica, as principais matérias especiais que fizemos sobre o maior jogador argentino de todos os tempos (e, por que não, o maior de todos os tempos – pelo menos hoje).
Estreia profissional de Diego Maradona pelo Argentinos Jrs
O talento já era conhecido demais para ficar restrito às canteras do Argentinos Jrs. Faltando dez dias para seu 16º aniversário, Diego Armando Maradona foi presenteado com a estreia em um jogo adulto de futebol ao entrar no segundo tempo, na única data festiva que os argentinos registram do tenebroso 1976. (Clique AQUI e leia a matéria completa)
Estreia de Maradona pela Seleção Argentina, aos 16 anos de idade
Maradona foi mesmo um fenômeno. Estreou no futebol adulto com 15 anos e na seleção com 16, partida esta que completa hoje 40 anos. Só não igualou Pelé como campeão mundial aos 17 por “culpa” de César Menotti, ainda assim o melhor técnico que tivera na opinião do próprio Dieguito. O jogo foi um 5-1 sobre a Hungria, em La Bombonera. (Veja mais AQUI)
O primeiro título pela Argentina com a seleção Sub-20
Nenhuma seleção foi tantas vezes campeã mundial de juniores quanto a Argentina. Uma tradição que se iniciou simbolicamente com Maradona sendo o grande astro. O título veio sobre a campeã anterior, a União Soviética, em um 3-1 com gol dele e do outro grande destaque argentino, Ramón Díaz, artilheiro da edição 1979 do mundial. Antes de se tornar o desbocado técnico mais vezes vitorioso do seu River, treinado novamente por ele até o título no último semestre, El Pelado Díaz era tímido, mas um poderoso atacante. (Leia TUDO aqui)
Quando Maradona humilhou o Boca Juniors
Se nas últimas décadas Maradona se mostrou fervoroso torcedor do Boca, nos anos 70 se declarava simpático ao Independiente. Enfrentar o Boca não era problema: apenas três dias depois de completar somente 17 anos, El Diez fez os dois gols da vitória por 2-1 dentro da Bombonera contra o elenco recém-campeão da Libertadores (a primeira dos xeneizes). (Confira a matéria completa AQUI)
A despedida de Diego Maradona do Argentinos Jrs
Precisamente às 10h49 de 20 de fevereiro de 1981, foi a vez de surgir em La Bombonera trajando novas cores, o azul e dourado de seu novo clube, o Boca. A transferência foi simbolizada naquele amistoso no qual o craque defendeu ambas as equipes. A passagem estampou a capa da revista El Gráfico, cujo conteúdo teve palavras do próprio Dieguito. (Clique AQUI e saiba mais sobre)
O primeiro superclássico de Diego Maradona
Maradona vestia a azul y oro havia pouco menos de dois meses, desde um amistoso com o Argentinos Jrs no qual atuara um tempo por cada um para simbolizar a passagem. Dois dias depois, começara o Torneio Metropolitano, que consagraria para sempre a relação entre Dieguito e Boca, idolatria angariada desde cedo: o craque logo marcara dois gols em um categórico 4-1 sobre o forte Talleres da época – o clube cordobês só tivera menos jogadores que o River na vitoriosa Copa de 1978. (Saiba mais)
Quando Maradona foi campeão argentino pela primeira vez
Estatisticamente, o título do Metropolitano de 1981 já seria especial. Foi a única taça argentina que o Boca levou entre 1976 e 1992, e uma das duas entre 1976 e 1998. Um dado ofuscado pela faceta mais famosa da conquista, a única não-individual que Diego Armando Maradona conseguiu no futebol argentino. Dieguito chegara em fevereiro e justificou toda a comoção causada. O Boca passou a ser “um time de briga, talento e Maradona”, nas palavras da Placar lançada após aquele 15 de agosto de 1981. (Veja a matéria completa AQUI)
O duelo com Kempes no campeonato de 1981
Um é o herói do título de 1978, outro do de 1986. Um é semideus no Rosario Central, outro é folclore no Newell’s. Embora nada inimigos fora dos campos, Mario Kempes e Diego Maradona estiveram separados também na principal rivalidade do país. O ano de 1981 foi mágico ao ter um cada na dupla Boca e River, com ambos sendo campeões com as estrelas como protagonistas. (Saiba TUDO sobre esta história AQUI)
A primeira Copa do Mundo de Maradona em 1982
Não pôde ser em 1978. Foi em 13 de junho de 1982 o dia em que o mais celebrado jogador argentino experimentou a primeira de suas 21 partidas mundialistas. Trinta anos atrás, uma Copa que lhe terminaria amarga já começava do mesmo jeito, mesmo em uma equipe que combinava o bom time vencedor quatro anos antes com as promessas consistidas nele e em Ramón Díaz, campeões do mundial sub-20 de 1979. Leia mais
Primeiro jogo de Maradona na Copa do Mundo de 1986
Logo após a dura eliminação na Copa de 1982, a AFA decidiu fazer uma reformulação completa na seleção argentina. Cesar Luis Menotti, técnico campeão da Copa de 1978, foi apontado pela imprensa e por boa parte dos torcedores como o grande culpado por não ter conseguido levar a equipe ao bi-campeonato. Menotti havia mantido a base do time vencedor e incluído os jovens Ramón Díaz e Diego Maradona, que foram campeões mundiais juvenis em 1979. Confira o texto completo
Primeiro gol de Maradona no Mundial do México
Argentina e Itália pelo mundial de 1986. Naquele dia, as seleções que haviam vencido as duas copas do mundo anteriores empataram por 1 a 1. Os gols foram marcados por Altobelli e Maradona. O dez argentino marcava ali o primeiro de seus gols naquele mundial que o consagrou. Leia mais
A partida icônica contra a Inglaterra na Copa de 1986
Diego recebe a bola de Hector Enrique ainda em seu campo e se livra em um único giro de dois marcadores, deixando para trás Peter Reid e Peter Beardsley. Avança pela direita com a bola colada no pé esquerdo e corta para dentro deixando o camisa seis, Terry Butcher, e logo em seguida em velocidade parte para a área deixando Terry Fenwyck para trás. Butcher ainda tenta parar Maradona, que corta Peter Shilton e toca para o fundo da rede. Estava feita a mais bela pintura de arte de todos os Mundiais, com a assinatura de Diego Armando Maradona. Leia mais
La mano de Dios
Jogo histórico do futebol, da Copa do Mundo e, por que não?, dentre todos os esportes, o Argentina 2-1 Inglaterra faz hoje trinta anos. O contexto das Malvinas e o gols maradonianos de mão e do século são conhecidíssimos; preferimos relembrar dois detalhes menos recordados daquela partida. Um dificilmente ocorreria em tempos de “padrão FIFA”: a camisa vencedora era “semipirata”. Já a “nuca de Deus” influiu tanto quanto a “mão de Deus”, mas evitando um gol ao invés de marca-lo. Tudo embalado na terra adversária pelo disco sugestivamente chamado The Queen is Dead, lançado pelos Smiths na segunda-feira daquela semana – o jogo caiu no sábado seguinte. Leia Mais
Heroico como contra os ingleses na semifinal da Copa
Depois de passar pela Inglaterra nas quartas-de-final, a Argentina enfrentaria o surpreendente selecionado belga, os Diabos Vermelhos do chamado “pântano europeu que virou jardim”. A Albiceleste vinha forte para o confronto, determinada, confiante, mas seu adversário poderia lhe pregar uma peça, assim como o fez contra outros gigantes daquele torneio. Antes, portanto, de centrarmos nossa análise no jogo em si, com ênfase na Albiceleste, convém falarmos um pouco da Bélgica. Leia Mais
Seu primeiro e único título Mundial
O esperado dia chegou. No dia 29 de junho de 1986 o Estádio Azteca recebeu mais de 114.000 pessoas para conhecer o novo campeão mundial de futebol. De um lado, a Alemanha (à época ainda Alemanha Ocidental) chegava novamente à final da Copa ao derrotar uma extenuada França por 2 a 0. De outro, a Argentina, que comandada por Maradona em outra atuação mágica, venceu a Bélgica pelo mesmo placar. Confira tudo AQUIO
Maradona nunca jogou a Libertadores, diferentemente de seus irmãos
Torneio clubístico dos mais valiosos aos argentinos, a Libertadores nunca contou sequer com uma participação do ícone máximo do futebol hermano. Seja (ainda…) Lionel Messi, seja Diego Armando Maradona. O mais incrível é que o sobrenome Maradona não deixou de entrar sim em campo por La Copa. Foi por três vezes, mas envergado por dois irmãos de Dieguito. Não por acaso, ambos na edição de 1986, após El Diez ter virado Dios na Copa do Mundo. Hora de relembrar Hugo e Raúl. Saiba mais
Primeiro título italiano do Napoli
O ano de 1986 é mesmo um divisor na carreira de Maradona. Até lá, um craque entre tantos formidáveis da época, pulverizando recordes de artilharia na Argentina (ainda insuperáveis cinco vezes, todas antes dos 20 anos) mesmo no modesto Argentinos Jrs. O que deveria ser o ápice, a conquista da Copa do Mundo, foi na verdade apenas o ponto inicial de um reinado. Na temporada que se seguiu ao mundial, veio a mais mágica temporada na Europa – ou Ma-Gi-Ca, o trio napolitano formado por Maradona, Bruno Giordano e Daniel Carnevale. Seu Napoli não só conseguiu o primeiro scudetto (o primeiro também do empobrecido Sul italiano), há exatos trinta anos, como dali a um mês ainda faria a dobradinha com a Copa da Itália. Saiba mais
Título europeu do Napoli e de Maradona
Um time napolitano que vive de metáforas, de ironias e de sua história. Ali, ele conquistou a Europa como sempre sonhou, um time invejável liderado por Diego Maradona que tinha a missão de ganhar a segunda competição mais importante da Europa pela primeira vez. Clique AQUI e leia a matéria completa
O vice-campeonato doloroso na Copa de 1990
Maradona poderia ter sido ainda mais lenda do que é e melhor comparável a Pelé se aquele título viesse para sua Argentina em frangalhos como o tornozelo dele. Mas, verdade seja dita, a vitória nunca esteve perto naquele dia. Veja mais AQUI
O retorno de Diego Maradona ao Boca Junios
Maradona logo recebeu a braçadeira de capitão, mas não rendeu tanto, e, ao fim da temporada 1992-93, deixou a equipe, não sem outra polêmica extracampo: resolvera voltar à Argentina ao descobrir que os dirigentes sevillistas haviam contratado detetives para monitorá-lo. Confira mais clicando AQUI
A memorável passagem de Diego Maradona pelo Newell’s
Maradona se tornava parte da religião para meia Rosario. Ou, segundo declaração dele em 2013, para “75%” de Rosario. No time que revelou Batistuta e pelo qual bate o coração de Messi, Dieguito estreava: o Newell’s Old Boys, que ainda tinha fresco o melhor período de sua história, compreendido entre 1988 e 1992, anos de duas finais de Libertadores dos rubronegros. Veja mais
Quando Maradona jogou a repescagem da Copa do Mundo
Em meados de 1993, a Argentina tinha, desde 1991, a melhor seleção do mundo: bi continental seguida (a Copa América não era vencida desde 1959) em 1991 e 1993 e vencedora da Copa das Confederações de 1992, chegou a ter um recorde de 32 jogos seguidos de invencibilidade – a Espanha atual parou nos 29. Detalhe: Caniggia e, principalmente, Maradona não vinham sendo usados, ambos por detecção de cocaína. Quem imaginaria que seriam até hoje os últimos títulos da seleção principal? Confira
A última partida de Maradona em Copas do Mundo
Por dois meses, houve a sensação de que ele não iria à Copa. Mas voltou à seleção em 20 de abril, no amistoso com o Marrocos, marcando gol. Ainda considerado oficialmente jogador do Newell’s, foi convocado, jogando todos os amistosos subsequentes. Na época, era mais fácil crer que o ritmo de título mundial a cada oito anos inaugurado em 1978 seria mantido, igualando-se ao tri de Brasil, Alemanha e Itália, e não que um criticado Brasil quebraria um jejum de 24 anos. Ainda mais com as duas primeiras exibições da Albiceleste na Copa. Na estreia, Batistuta, em sua estreia em Copas, fez três nos 4-0 na Grécia. Feito ofuscado porque Maradona marcou o outro, rugindo em célebre comemoração. Veja mais
O início como treinador: Deportivo Mandiyú
Aqueles que acompanham o futebol argentino há muito tempo têm na memória a imagem de times históricos, que hoje quase ninguém sabe onde eles estão. Nesse grupo destacam-se o Chaco For Ever, Central Córdoba de Santiago del Estero, Guaraní Antonio Franco, entre outros. Um deles chama a atenção como poucos: o Deportivo Mandiyú, de Corrientes. E um fato marcante é verdadeiro divisor de águas na história do Algodonero: a conquista da B Nacional de 1987/88 e o consequente acesso à elite argentina. Confira TUDO sobre
Quando Maradona jogou e treinou o Racing
Apesar da imagem de torcedor fervoroso do Boca, Maradona se dizia torcedor do Independiente nos anos 70, algo pouco reverberado fora da Argentina. Há exatos 20 anos, porém, ele estreava no comando do arquirrival, estreando justo em clássico de Avellaneda – ainda que em um 0-0 amistoso por torneio de verão naquele 14 de janeiro de 1995. No embalo da contratação de impacto, era divulgado que a filha Giannina já simpatizava com o Racing. Saiba mais a respeito
A volta oficial de Maradona ao Boca Juniors
O retorno de Dieguito ao time do coração veio a exatamente um mês do 35º aniversário do craque, e precisamente no dia em que terminava a suspensão de 15 meses imposta pela FIFA pelo doping na Copa 1994. Ídolo incontestável pelo que produzira em pouco mais de um ano nos auriazuis, entre 1981-82, Maradona teve bons momentos, mas nada que lembrasse-o como fora de série. Não se livrou dos problemas e polêmicas cada vez mais atrelados à sua trajetória nos anos anteriores, nem conseguiu títulos. Se entre 1981-82 Diego havia feito 46 gols em 69 jogos (atuando os 90 minutos de 65 deles) no clube do coração, de 1995-97 foram 41 jogos (só 19 completos) e 9 gols: dois de bola rolando, dois de falta e o resto de penal. Hora de relembrar os tristes anos finais de sua carreira. Veja mais
Superclássico do Beijo em Caniggia
“Aquele beijo” virou um episódio à parte. Mas o Superclásico de 14 de julho de 1996 foi muito mais que o “amasso” entre Maradona e Caniggia, para usarmos o termo que Paulo Vinícius Coelho utilizou em reportagem da época para a Placar. Foi o primeiro encontro entre a dupla principal após o River ter vencido a Libertadores cerca de três semanas antes, na época igualando ambos com duas conquistas cada em La Copa. Só isso já bastaria para ferver de forma extra o encontro. Mas o Boca também lutava pela liderança. E pôde sorrir por semanas, pois o campeonato, após aquela rodada, foi pausado até agosto para as Olimpíadas. Além disso, foi a última vez que um Super não-amistoso teve hat trick – justamente o primeiro logrado pelo protagonista Caniggia! Confira esta história clicando AQUI
O retorno ao futebol, em 1997
Os jornais do mundo todo puderam destacar em 10 de julho de 1997 uma ressurreição divina, ao menos para os fiéis da Igreja Maradoniana: Diego Maradona, na véspera, havia voltado a jogar futebol, e voltado ao seu Boca, após quase um ano parado. E voltado vencendo. E marcando gol. Saiba mais
O último gol de Maradona como profissional
A data de 14 de setembro de 1997 poderia ter ficado na história do Boca como o aniversário de vinte anos de sua primeira Libertadores, o que ofuscaria as lembranças de uma vitória de 2-1 sobre o Newell’s, especialmente pela partida não integrar uma campanha campeã. Mas com o tempo, esse jogo também ganhou contornos históricos. Em um mês e meio, passou a ser conhecido como o jogo do último gol da carreira de Maradona. Alguns anos depois, um adendo, conforme crescia a idolatria em torno de Guillermo Barros Schelotto. Aquela foi sua estreia no clube. Com direito a marcar o gol da vitória. Veja a matéria na íntegra
O único jogo em competições continentais da Conmebol
Maradona jamais jogou a Libertadores. O sobrenome figurou na competição, mas ironicamente por intermédio de seus dois irmãos, Hugo e Raúl – ambos a jogaram em 1986, respectivamente pelos clubes maradonianos Argentinos Jrs e Boca, e, também não por acaso, logo após Dieguito virar divindade em função da Copa do Mundo daquele ano. Um dos maiores craques da história só disputou em seu continente uma única partida em competição continental de clubes. Ou melhor, meia partida. A penúltima da carreira. Veja mais
Despedida dos campos de Maradona contra o River Plate
“Por sorte ou por desgraça, a oportunidade de exercitar este hábito se apresenta corriqueiramente. É que falar dele, entre argentinos, é quase um de nossos esportes nacionais. Para elevá-lo até a estratosfera , ou para condená-lo ao fogo perpétuo dos infernos, os argentinos gostamos, ao que parece, de convocar seu nome e sua memória”. Confira tudo sobre clicando AQUI
A história sobre perda do pai, ameaça que o fizera aposentar-se em 1997
Diego Armando Maradona sofreu em novembro de 2011 a perda de Dalma Salvadora Franco, Doña Tota, sua mãe. Em 2015 foi a vez de seu pai, também chamado Diego Maradona, partir, aos 87 anos, deixando órfãos El Diez e outros sete filhos, dos quais Hugo e Raúl também foram jogadores – como o irmão célebre, o primeiro foi ex-Argentinos Jrs e o segundo foi ex-Boca. Veja TUDO sobre
Quando Maradona jogou pelo Bayern Munique, roubando protagonismo da despedida de Matthäus
Maradona quase morreu ainda em janeiro de 2000. Recuperou-se a tempo de ser o único que Matthäus abraçou antes do pontapé inicial do jogo de despedida do alemão, que quanto aos outros convidados limitou-se a apertar as mãos. Naquele ano, ele ainda trabalharia no Almagro, o clube argentino esquecido da sua vida. Mas é nessa matéria da festa em Munique que recordamos as outras ocasiões que renderam partidas de Maradona por clubes alheios aos quais defendeu oficialmente, do Lanús da cidade natal ao Tottenham. Veja TUDO sobre. Mais abaixo, uma prévia:
Esse vídeo é uma pérola. Maradona havia quase morrido ainda em 2000, mas recuperou-se a tempo de roubar o protagonismo de Matthäus no jogo-despedida do alemão. Foi até o único abraçado por ele, que só apertou a mão dos outros convidados: https://t.co/dwpua6h9NN
Colega de Diego em 1986, Valdano, o craque apelidado de "El Filósofo", já declarou sobre o jogo-despedida de Maradona em 2001 que “me comoveu. Essa partida sozinha daria para escrever um livro sobre sociologia argentina”.
Héctor Cúper ficou marcado pelos vice-campeonatos, mas seu grande momento foi vencer a Copa Conmebol de 1996 pelo Lanús.
Seu grande momento como técnico: vencendo pelo Lanús a Copa Conmebol de 1996
Os chamativos vice-campeonatos que tanto marcaram o Héctor Raúl Cúper treinador podem afastar a metáfora do “toque de Midas”. Mas se a literalidade não pôde se aplicar em duas finais de Liga dos Campeões, na Serie A ou na Copa Africana de Nações, até os detratores reconhecem: o argentino sempre soube elevar (e muito) o patamar de times menores ou de gigantes adormecidos. Ontem completou 65 anos um mestre que já teve seus títulos sim senhor. História que merece destacar especialmente as partes menos conhecidas, no futebol argentino, o mesmo que há 23 anos está desfalcado desse personagem.
Nascido no interior santafesino em Chabás, seu sobrenome incomum é uma corruptela à ortografia castelhana da pronúncia do sobrenome inglês Cooper, herdado de antepassados irlandeses. Ao menos é um esclarecimento feito pelo The Guardian em 2017 ainda ausente na publicação, em 2010, do livro Quién es Quién en la Selección Argentina – que, por outro lado, deixou essa sucinta descrição sobre o ex-zagueiro: “era um defensor de muita firmeza, não veemente, mas seguro, capaz no jogo aéreo, sobretudo em sua própria área. Mas sua principal virtude era a ordem tática que tinha: um verdadeiro treinador dentro do campo de jogo, o que se aprofundou com o passar dos anos. Por isso não estranhou-se que, uma vez aposentado, se dedicasse à direção técnica”.
Eis, enfim, os capítulos de Cúper no futebol argentino:
No auge do Ferro Carril Oeste
Cúper foi profissionalizado pelo Ferro Carril Oeste, estreando no time adulto em 7 de março de 1976 para o primeiro dos 463 jogos oficiais que o livro Ferro 100 Años atribuiu-lhe. A equipe, como estava rotineiro, brigou para não cair no Metropolitano. E, ainda que tenha melhorado sensivelmente no Torneio Nacional (em 3º na chave), não escapou da degola em 1977, onde só foi vencer a partir da 12ª rodada. Cúper, ainda assim, interessou ao Independiente Rivadavia para a disputa do Torneio Nacional daquele ano, reforçando pontualmente o clube de Mendoza – que fez bonito, diga-se, dividindo a pontuação de 2º lugar no Grupo A com o gigante San Lorenzo, embora a vaga única nos mata-matas só coubesse ao líder Newell’s. Foi pelos mendoncinos, inclusive, que o zagueiro sentiu o gosto do gol pelas primeiras duas vezes, vazando Gimnasia LP e o próprio Newell’s.
A estadia verdolaga na Primera B durou somente um ano. Mas embora a estatística aponte somente três derrotas na segundona de 1978, a campanha foi mais emocionante na prática. Em uma das derrotas, na 23ª rodada (para o Nueva Chicago), os cartolas preferiram demitir o técnico Ricardo Trigili. Carmelo Faraone assumiu para conduzir a caçada ao líder Almirante Brown para os onze jogos restantes e fez-se o milagre; cinco vitórias e dois empates colocaram o FCO a dois pontos dos aurinegros a quatro rodadas do fim, quando então venceram fora de casa o confronto direto. Novas vitórias seguidas, contra Almagro e Los Andes, asseguraram então o título ainda na penúltima rodada. Cúper, presente em 27 jogos e até três gols marcados, já estava firmado entre os titulares.
Oscar Garré, Cúper, Adolfino Cañete, Victorio Crocco, Alberto Márcico e Mario Gómez: o Ferro pedindo passagem
O Ferro reapareceu na elite no Metropolitano de 1979 com uma campanha segura (seis vitórias, sete empates, cinco derrotas) contra nova queda antes de novo 3º lugar no Torneio Nacional. A tônica foi similar para 1980, com o 11º no Metro sendo sucedido por outro 3º lugar no Nacional. O treinador Mario Griguol chegou e, como uma raposa resultadista como autêntico discípulo de um mestre que vitaminava equipes pequenas feito Victorio Spinetto, soube elevar o patamar daquele elenco. Em 1981, o clube, que nunca havia chegado a um vice-campeonato sequer na primeira divisão, foi vice dos dois torneios anuais – e para o Boca de Maradona (e por um mísero ponto) e para o River de Kempes, nada mais. Corrida embalada por um recorde ainda vigente no campeonato argentino de jogos sem tomar gols, mais de mil minutos em que o goleiro Carlos Barisio personificou uma fama de todo o sólido setor defensivoverdolaga, antes do gostinho de eliminar nas semifinais do Nacional o rival Vélez nos Clásicos del Oeste mais expressivos.
Presságio do inédito título que não escapou na competição seguinte, com o bairro de Caballito, mesmo desfalcado do ídolo brasileiro Rodrigues Neto, festejando em 1982 o Torneio Nacional, que passara ao primeiro semestre. E de modo invicto, algo só logrado por duas vezes em cinquenta anos de profissionalismo no futebol argentino. Ficou a fama de um jogo chato de assistir, embora muito se deva ao inconformismo da torcida dos cinco grandes contra aquele elenco onde tanto Cúper como sua dupla Juan Rocchia armavam jogo desde a zaga ao invés de se resumirem a chutões ou à cera – e reforçavam o perigo ofensivo na bola parada, aproveitando a boa impulsão para converterem alguns golzinhos de cabeça ou contribuírem como pivôs aos atacantes “de ofício”.
Em contrapartida, a marcação começava pelos próprios atacantes, com Cúper sendo apontado como o jogador da linha que menos precisava correr em campo: ele dava as ordens de posicionamento aos colegas mais avançados e ficava como uma barreira final antes do goleiro. Os tais “chatos do Ferro” respondiam com um 4-0 no clássico com o Vélez (com gol de Cúper), um 4-0 no Independiente e oito gols somados, incluindo um cabezazo de Cúper, no forte Talleres da época (4-0 em casa e 4-4 em Córdoba, pelas semifinais). O zagueiro esteve em todas as 22 partidas da campanha, registrando ainda aqueles dois gols.
Em 1983, Cúper viveu a curiosa situação de ser o artilheiro do seu elenco em algum torneio, registrando quatro gols no Nacional – o time caiu já no primeiro mata-mata e também morreu na fase de grupos de sua primeira Libertadores (tempos em que só o líder avançava, posição que ficou com o Estudiantes), mas disputou a taça do Metropolitano até a rodada final, distando a dois pontos do campeão Independiente. Nesse embalo foi que ele fez seus únicos jogos pela seleção argentina: a passagem pela Albiceleste se resumiria a doze dias de janeiro de 1984, na Copa Nehru, duelando na indiana Calcutá contra Romênia (1-0), a seleção da casa (1-0), Polônia (1-1, quando quatro jogadores do Ferro atuaram juntos pela Argentina, recorde histórico), China (derrota de 1-0) e Hungria (3-0). Ficou nisso. A zebraça contra os chineses parece ter pesado e o zagueiro não foi mais usado por Carlos Bilardo.
Mas o consolo viria imediatamente. Em 1984, o time de Caballito, mesmo desfalcado dessa vez do aposentado Gerónimo Saccardi (talvez o ídolo máximo de sua história), voltou a erguer o Nacional, superando inclusive por nove anos o número de títulos do rival Vélez. Esfarelou as críticas ao “jogo chato” ao impor dentro do Monumental um 3-0 sobre o River – nos primeiros 35 minutos, em recital regido pelo craque Alberto Márcico. Mesmo com contrato vencido sem um acerto de renovação, e sem integrar a pré-temporada por conta da seleção, Cúper liderou o número de partidas da campanha (14, com um gol) e por bem pouco não foi bicampeão no mesmo ano: o Ferro disputou o Metropolitano até a rodada final com o Argentinos Jrs. Os colorados seriam o asa-negra também na Libertadores de 1985, assegurando em jogo-extra a única vaga na segunda fase após a dupla argentina dividir a liderança, prevalecendo sobre Vasco e Fluminense.
Cúper recebendo de Julio Grondona a taça de campeão argentino de 1984, segundo e último título do Ferro na elite
Em paralelo, o Ferro ainda fez papel digno no Torneio Nacional de 1985, onde só perdeu duas vezes, e no campeonato “europeu” implantado pela AFA com a temporada 1985-86: foi 6º lugar, posição repetida na temporada 1986-87. Em ambas, o time também avançou até as semifinais da liguilla pre-Libertadores. Mas a saída de Griguol para o River fez-se sentir no campeonato de 1987-88, com os verdolagas despencando para 14º e piorando no de 1988-89, embora fossem em paralelo premiados até pela UNESCO diante do sucesso poliesportivo. Mas no futebol já viravam os antepenúltimos, com Cúper permanecendo somente na metade inicial da péssima campanha. Ainda em 27 de janeiro de 1989, ele estreava pelo Huracán, reforçando-o junto com Oscar Garré, o único representante verdolaga na seleção de 1986.
Desatolando o Huracán
O Globito vinha na contramão histórica do Ferro, que era um time pequeno a ascender nos anos 80 enquanto o conjunto do bairro de Parque de los Patricios era um gigante cada vez mais adormecido, rebaixado pela primeira vez em 1986 sem que conseguisse voltar de imediato à elite. Cúper foi pé-quente na estreia como quemero, um 2-0 no Tigre, mas o acesso ainda bateria na trave na temporada 1988-89 da Primera B. Na temporada regular, o Huracán ficou em 5º, caindo diante do Colón no segundo mata-mata pela segunda vaga de acesso. Para a da 1989-90, não houve margens para os mata-matas: La Quemagarantiu antecipadamente um título quase sem concorrentes, terminando sete pontos acima do segundo colocado (o Quilmes), quando vitórias ainda valiam dois pontos e não três.
Mesmo já veterano, Cúper era a grande referência do plantel junto ao treinador Carlos Babington e ao artilheiro Antonio Mohamed. E estendeu a carreira por mais duas temporadas, com o Globo inicialmente focado em criar gordura contra o promedio para evitar nova queda e se contentando com campanhas de meio de tabela; a melhor foi um 5º lugar no Apertura 1992, já na temporada final do Cúper jogador. Ele seguiu em Parque Patricios e foi promovido a técnico em 11 de dezembro de 1993, substituindo Enzo Trossero. O Platense sapecou um 5-0 que parecia um presságio dos piores para a nova carreira. Mas dali até o fim daquele Apertura 1993, só finalizado já em março de 1994, os ex-colegas e agora comandados não voltaram a perder. Para ele, a receita era simples: “é preciso marcar os 11 quando se perde a bola, e jogar os 11 quando a recuperamos. Isso sim, sempre em zona. Sou um fanático desse sistema de marcação”.
O Clausura 1994 começou sem que o Huracán de Cúper empolgasse, chegando a ocupar a 15ª colocação antes de uma recuperação espetacular alçar voo ao Globo. Com direito a um 2-1 no clássico com o San Lorenzo, em um mês um elenco operário, sem maiores revelações duradouras, já liderava o certame junto a Independiente, Banfield e Belgrano. O treinador buscava conter empolgações: “devemos manter a cabeça fria. Falar agora de ganhar o campeonato é prematuro”, declarou ao fim da 13ª rodada, antes do torneio se paralisar em função da Copa do Mundo. A pausa não conteve o embalo e o time soube chegar à rodada final como líder isolado, mas calhando de realizar nela o confronto direto fora de casa contra o Independiente, um ponto atrás.
Um Cúper já grisalho ainda como jogador do Huracán e na quebra de braço como técnico com Miguel Brindisi, antes da rodada final do Clausura 1994: primeiro vice traumático da nova carreira
Desde o vice no Metropolitano de 1976, quando Cúper começava a carreira de jogador, dezoito anos antes, os quemeros não disputavam para valer um campeonato. E desde aquele Clausura 1994, só no Clausura de 2009 viria outra campanha no páreo pela taça. Em 1994, o Independiente, que tinha no gol e no cargo de técnico dois torcedores do Huracán (respectivamente Luis Islas e Miguel Brindisi, antigo emblema setentista do clube) não deu chances e surrou por 4-0. “Um dos dois tinha que ganhar e ganhou o melhor”, resignou-se Cúper, em deferência ao timaço oponente que dali a três meses ergueria também a Supercopa.
O anticlímax ante tanta expectativa foi grande demais e o time despencou para 14º no Apertura 1994 e para penúltimo no Clausura 1995 – precisando ainda ver o rival San Lorenzo encerrar ali um jejum similar na primeira divisão (eram 21 anos dos azulgranas contra 22 anos de estiagem huracanense, não resolvida até hoje). Cúper precisou descer degraus e foi a um ambiente sem pressões, ainda que longe da infra-estrutura de boa fama moderna: o Lanús, após passar até pela terceirona nos anos 80, vinha buscando se sedimentar na elite após um início io-iô na década noventista.
Lanús, a Cúperativa, o infinto e aquém
O resto é a história mais conhecida internacionalmente. Pois foi exatamente a partir do trabalho nos grenás que Cúper criou fama para além do futebol argentino. Sem as pressões do Huracán, elevou o patamar de outro elenco operário (onde só o goleirão Carlos Roa ganharia maior reconhecimento): o Granate virou a Cúperativa ao inicialmente chegar ao 3º lugar do Apertura 1995, com a mesma pontuação do vice Racing, e repetir o pódio nos dois torneios argentinos seguintes.
3º colocado no Clausura 1996, o Lanús voltou a ter a mesma pontuação do vice no Apertura seguinte enquanto em paralelo avançava pela América. Bolívar e Guaraní foram abatidos sem maiores sustos antes de as semifinais da Copa Conmebol reservarem duelos caseiros contra o próprio detentor do título, o Rosario Central – cujo Gigante de Arroyito fervera o Atlético Mineiro, surrado por 4-0 na final de 1995. O mesmo palco, contudo, viu festa visitante por 3-1 em 1996. Noite mais categórica da conquista da Copa Conmebol, assegurada em plena Bogotá contra o Santa Fe.
Levar para La Fortaleza um título continental antes mesmo do primeiro título argentino lanusense (que tardaria até 2007) era o chamariz necessário para um convite europeu, ainda que de um nanico feito o Real Mallorca. Cúper deixou no Lanús a base para que os ex-pupilos, já sob Oscar Garré, chegassem em 1997 a nova final seguida de Copa Conmebol, mas não se furtou de semestre a semestre povoar as Baleares com velhos comandados. Roa, o armador Ariel Ibagaza, o volante Gustavo Siviero e os atacantes Oscar Mena e Ariel López iriam todos para o arquipélago, que já na temporada 1997-98 celebrava sua melhor temporada – um 5º lugar em La Liga, colocação mais alta que os insulares já haviam alcançado, e vice na Copa do Rei para o Barcelona.
Cúper com a taça da Copa Conmebol
Roa pegou pênaltis de Rivaldo e Figo, mas não impediu o dissabor. A dobradinha dos catalães, vencedores também do campeonato, não inviabilizou a realização da Supercopa da Espanha, a marcar um reencontro deles com o Mallorca. Dessa vez, deu Cúper, com vitórias tanto nas ilhas como no Camp Nou. E, herdando do Barça a vaga na Recopa Europeia de 1998-99, aquele elenco recheado de argentinos iria longe. E, após despacharem o Chelsea nas semifinais, só outros argentinos foram capazes de brecar a Cúperativa: os da Lazio, ainda assim campeã somente a dez minutos do fim. Caindo para cima, o treinador terminou a temporada requisitado pelo Valencia.
Na frente dos Ches, Cúper conseguiu na abertura da temporada 1999-2000 um novo título na Supercopa da Espanha contra o Barcelona, em outro plantel marcado pela panelinha argentina. Contra o Real Madrid é que não foi possível ser páreo, mas já em uma inédita decisão da Liga dos Campeões para os Morcegos. Que, sob aquele treinador, seriam capazes de voltar à mesma decisão já na temporada seguinte. O problema foi perdê-la para o Bayern Munique. Nada que impedisse que Cúper acabasse subindo mais um degrau, requisitado pela Internazionale.
Foi em Milão, porém, que a sina de vice pareceu impregnar-se de vez em uma carreira promissora. Em jejum na Serie A desde 1989, a Inter parecia resolver a sina naquela temporada, liderando a maior parte do torneio embora precisasse conviver com a recuperação do astro Ronaldo. Sem confiar que o Fenômeno estivesse já na plenitude, o argentino não arriscou tanto e acabaria levando a pior. Derrotado na rodada final, viu o scudetto ir de bandeja para a arquirrival Juventus enquanto a Roma também ultrapassava os milaneses – e o brasileiro reforçar os questionamentos ao treinador após a estupenda Copa do Mundo e sentir-se moralizado para exigir ao presidente Moratti e saída do desafeto.
Na quebra de braço, o argentino venceu. Mas a temporada pós-Copa foi a última em que ele teve um trabalho de relevo, mesmo com Ronaldo de malas para o Real Madrid. Vice da Serie A, mas agora a distante sete pontos da Juventus, a praia que os nerazzurri morreram na margem já foi a da Liga dos Campeões. O desgosto foi ainda maior em ver o troféu ser decidida pelos rivais Juventus e Milan, que classificou-se no clássico milanês pelas semifinais graças ao regulamento (foram dois empates no San Siro, mas com a igualdade com gols ocorrendo sob mando interista).
Cúper acabou sacado ainda nos primeiros meses da temporada 2003-04, voltando a um Mallorca de portas abertas ao ídolo, mas sem conseguir engrenar no retorno às Baleares e seguindo a carreira por equipes menores, alterando-se entre novos vices (com o Aris na Copa da Grécia) e até um rebaixamento (sendo um dos técnicos do malfadado Parma de 2008-09) antes de recuperar a imagem treinando o Egito – conseguindo tanto devolver os Faraós à Copa do Mundo após quase trinta anos como também amargar um enésimo vice-campeonato, na Copa Africana de Nações de 2017. O último trabalho foi com o Uzbequistão na caminhada para a Copa de 2022, mas uma derrota para a Palestina o tirou do cargo ainda em 2019.
Atilio Demaría contraria a crença de que Luis Monti foi o único a disputar finais de Copa por dois países.
Luis Monti costuma ser sempre relembrado como único jogador a disputar finais de Copa do Mundo por países diferentes, perdendo pela Argentina natal a de 1930 e vencendo pela Itália de adoção a de 1934. O recorde é mesmo exclusivo desse volante no tocante às finais do torneio, mas ainda houve outro jogador com quem compartilha na competição a marca de campeão e vice por seleções distintas: Atilio José Demaría o acompanhou exatamente nas mesmas edições, embora só tenha figurado em uma partida de cada uma delas e nunca nas decisões – apesar da habilidade notabilizada pelo bom drible e precisão nos lançamentos, ainda que fosse mais de entregar a bola com passes curtos. Um dos maiores artilheiros da Internazionale no clássico com o Milan merece ser relembrado especialmente hoje, nos 30 anos de seu falecimento.
Era filho de dois italianos: o pai era Antonio De Maria, piemontês de Crescentino que emigrou aos 18 anos de idade, em 1895, para tornar-se operário em Lomas de Zamora, ao sul da Grande Buenos Aires; e a mãe era Albina Meola (ou Meda, segundo outras fontes), sete anos mais moça que o marido. Quando Atilio nasceu, o casal já morava no número 333 da rua Castillo, em uma zona chamada Villa Alvear, situada entre os bairros de Almagro, Palermo, Caballito e Chacarita, próximo da fina zona norte da capital federal. Mas não tardaram a se instalar em Haedo, cidade ao oeste de Grande Buenos Aires onde Atilio cresceria e voltaria a radicar-se após parar definitivamente de jogar, nela falecendo naquele 11 de novembro de 1990. Quase vizinha, a cidade de Ciudadela abrigava o Ciudadela Juniors, com Demaría ingressando nos juvenis desse clube em 1925. Outro time de Ciudadela era o Estudiantil Porteño, já com relativa solidez na elite argentina.
Demaría integrou uma camada histórica do Estudiantil Porteño, fomentada pelo olheiro Enrique Mariani, antigo reserva do River campeão de 1908 da segunda divisão. Com os principais clubes argentinos já se preocupando ainda no amadorismo em formar diversas categorias de base, com equipes sub-20, sub-19, sub-18 e sub-17 (havendo campeonatos argentinos próprios para cada uma delas), Mariani foi além ao criar a equipe sub-16. Foi primeiramente nela que Demaría chegou ao clube. Em 1927, o Estudiantil venceu o campeonato sub-17, com um quinteto ofensivo que gradualmente chegaria por completo ao time principal: Juan Pedevilla, Pedro Martínez, Josué De Marco, Demaría e José Morra. Nem mesmo o célebre quinteto ofensivo de La Máquina do River dos anos 40 conseguiu algo assim – o miolo formado por José Manuel Moreno, Adolfo Pedernera e Ángel Labruna ascendeu desde a equipe sub-17, mas os ponteiros Juan Carlos Muñoz e Félix Loustau já começaram em degraus superiores.
No Estudiantil Porteño de 1927, quando firmou-se na titularidade do clube de Ciudadela. Primeiro em pé, seu colega Abel Picabéa foi técnico no Santos, Palmeiras e Vasco, dentre diversos outros times brasileiros
Inicialmente deslocado para a ponta-esquerda, onde seus dribles seriam mais úteis, ele já havia àquela altura estreado na equipe principal; figurou em três partidas do campeonato de 1926. Ele, que preferia jogar na meia-esquerda, conquistou esse posto após fugir da ponta em um jogo juvenil contra o River e marcar cinco gols vindo pelo meio. Em 1927, já se alternava mais vezes entre as várias categorias juvenis e o time adulto (chegando a ocasionalmente disputar duas partidas inteiras em cada dia do fim de semana, uma de manhã e outra à tarde), pelo qual já registrou 27 jogos e oito gols. Em 1928, foram 35 partidas e nove gols pela equipe principal. Se o time adulto ainda falhava em ir longe, os elencos de base eram dos mais vitoriosos, com conquistas seguidas nos torneios sub-19, sub-18 e sub-17. Assim, em 5 de novembro de 1928 o jovem estreou pela seleção, ainda que improvisado na meia-direita. Foi em amistoso não-oficial de 1-1 contra o Boca.
Em 1929, Demaría esteve um jogo pela seleção B contra o America-RJ em 9 de março, com o campeonato argentino de 1928 ainda em andamento. Em 22 de junho, ele e seu Estudiantil Porteño caíram por honrosos 3-2 em amistoso contra o Chelsea, que visitava a América do Sul. No mês seguinte, um primeiro intercâmbio com o futebol italiano: quem visitava agora eram os dois últimos campeões da Velha Bota – Torino e Bologna, que requisitou cinco jogadores do Estudiantil para duelo com o Independiente em 31 de agosto. O campeonato argentino próprio de 1929 ocupou basicamente o segundo semestre e nele a equipe de Ciudadela fez a melhor campanha de sua história até então; foi um quarto lugar do grupo de 17 times, ainda que pelo regulamento só os líderes das duas chaves seguiriam adiante, para travarem a grande final. Demaría marcou nove gols em quatorze jogos. A taça, levantada apenas em fevereiro de 1930, ficaria com o Gimnasia LP, em seu único título argentino até hoje.
Apesar da pouca assiduidade na seleção, Demaría estava credenciado a figurar na convocação à Copa do Mundo. No Mundial, contudo, calhou de concorrer pela vaga de meia-esquerda justamente com o capitão da Albiceleste, Manuel Ferreira, e só foi usado uma única vez: Ferreira precisou voltar rapidamente a Buenos Aires para fazer uma prova de seu curso universitário (!) e seu reserva esteve nos 6-3 sobre o México, o segundo jogo da campanha. Humilde, o reserva reconheceu que não fez uma boa partida, já em depoimento dado em 30 de novembro de 1949 à revista La Cancha. Na mesma matéria, revelou que ainda em 1930 recebeu uma oferta generosa do Genoa, então o mais vencedor clube italiano, e que na mesma janela levara o próprio artilheiro do Mundial, Guillermo Stábile. Apesar do sentido desfalque de forças europeias na Copa, a qualidade do futebol argentino já era reconhecida na Itália seja pelo desempenho na Europa na campanha de prata nas Olimpíadas de 1928 ou pelos vinte anos que já havia de emprego de argentinos na própria seleção italiana.
Argentina antes de seu segundo jogo na Copa de 1930, contra o México, única partida de Demaría na campanha: o técnico Olázar, Peucelle, Orlandini, Zumelzú, Paternoster, Spadaro e Della Torre (que jogaria no America-RJ!); Varallo, Stábile, Bosio, Demaría e Chividini
Demaría esteve tentado a fechar com o Genoa, mas para ele pesava mais a palavra que já havia dado aos dirigentes do Gimnasia: ainda como mais recente campeão argentino, o time de La Plata se presenteou com uma excursão à Europa, na qual contou com diversos reforços emprestados pontualmente por outros clubes. A viagem ficou marcada por fazer o hoje sofrido Lobo ser a primeira equipe estrangeira a vencer em solo espanhol tanto o Real Madrid como o Barcelona. Demaría forneceu uma assistência para abrir o placar nos 3-2 contra os madrilenhos em Chamartín e forçou o rebote que propiciou o empate prévio à virada de 2-1 sobre os catalães em Les Corts. O meia deixaria gols no 1-0 sobre o Benfica e na abertura dos 3-1 sobre um Sparta Praga que era potência europeia, gerando a manchete “tango argentino” na imprensa tcheca; e, embora não tenha marcado gols no 2-2 contra o Napoli, foi qualificado pelo jornal romano Il Littoriale como um “autêntico fora de série”.
Demaría somou oito gols na excursão (o último, no 2-2 com um combinado Vasco-America no Rio de Janeiro, já no regresso), sendo o terceiro máximo artilheiro dela, abaixo dos onze de José Minella e dos dez de Ismael Morgada. A turnê rendeu ainda um primeiro contato direto com a Internazionale (ou Ambrosiana, como o clube chamava-se na época) e seu astro Giuseppe Meazza, contra quem os platenses buscaram um 3-3 após derrota parcial de 3-1. Ainda segundo a reportagem de 1949 do La Cancha, um primeiro clube italiano a lhe sondar após a excursão foi o Livorno: “era também uma boa oferta, mas como a do Genoa havia sido melhor, pedi mais. Consequência: tive de esperar que o emissário telegrafasse ao clube, e que lhe chegasse a resposta. Total, nada. Não fizemos acordo”. A volta do Gimnasia à Argentina se deu em um momento de ebulição; o time esteve entre os dezoito rebeldes que naquele 1931, descontentes com a divisão igualitária de renda com clubes de duelos pouco atrativos financeiramente, romperam com a federação já com o torneio em andamento.
Os dezoito criaram então uma liga própria que, atraindo maior atenção de público e mídia, também escancarou de vez um profissionalismo já praticado sob vista grossa desde os anos 20. O Estudiantil Porteño foi descartado pelo movimento. Nisso, o San Lorenzo fez uma oferta ao meia, que recusou “porque não estava convencido totalmente de que teria de continuar minha carreira aqui. Primeiro, porque me havia forjado sonhos, e segundo por uma razão de amor próprio. Tinha que jogar na Itália!”. Deixado de fora da liga rebelde, o Estudiantil remanesceu no desfalcado torneio oficial, que recomeçou do zero, anulando-se as partidas prévias. Demaría entrou em campo nas duas primeiras rodadas desse reinício, em 28 de junho (vitória fora de casa por 2-1 sobre o Colegiales) e em 5 de julho (4-3 sobre o Barracas Central). Nesse contexto, ele disputou mais dois jogos pela Argentina, cuja seleção reconhecida pela FIFA se resumiria aos amadores até a federação oficial se render aos fatos e deixar-se absorver pela profissional em 1935. Ambos foram contra o Paraguai: 1-1 em 4 de julho e 3-1 em 9 de julho, em Buenos Aires, pelo troféu binacional Copa Chevallier Boutell.
No Gimnasia LP em plena neve alemã, na celebrada excursão de 1931. O goleiro Bottaso também esteve na Copa de 1930 e Arrillaga passaria pelo Fluminense
O Gimnasia então reapareceu, oferecendo oito mil pesos e salário de trezentos para que Demaría voltasse a La Plata. Inicialmente resignado com a ausência de novas ofertas italianas, Demaría assinou contrato no sábado de 11 de julho para no dia seguinte já estar em campo no 2-2 contra o San Lorenzo pela oitava rodada da liga profissional. Na volta para casa naquele domingo, deparou-se com representantes da Ambrosiana-Inter, detentora do título italiano de 1930-31. Levaram 40 mil liras para acelerar o trâmite entre compra do passe e despesas de deslocamento. Na segunda-feira seguinte, o jogador foi à sede alviazul devolver os oito mil pesos e expor seus anseios. Em gesto admirável, o presidente gimnasista Arbitti aceitou de bom grado rescindir o contrato recém-assinado com o astro. “Então telefonei desde La Plata e disse à minha namorada que preparasse as coisas para nosso casamento”. Com isso, apesar da boa imagem deixada no Bosque em função da excursão europeia, oficialmente o meia só tem um único jogo contado nas estatísticas triperas.
Então veio um susto: na escala naval em Montevidéu, ninguém menos que Héctor Scarone subiu ao barco. Era o grande craque uruguaio dos anos 20 (presente no ciclo do bi olímpico com a Copa de 1930 pela Celeste), já tendo passado pelo Barcelona. E Demaría então descobriu que aquele astro havia sido igualmente importado pela Inter, ficando nervoso se conseguiria ter algum lugar no novo clube. Scarone havia sido contratado por 15 mil liras e o argentino, por 20 mil (para receber ainda 2 mil de salário mensal), em informação dada pelo La Cancha em edição de 18 de fevereiro de 1933. O que explicaria essa discrepância seria a sensação de escassez advinda do profissionalismo instalado em 1931 na Argentina, e que ainda tardaria mais um ano para se escancarar no Uruguai.
É o que sustentou Zachary Bigalke em sua dissertação de mestrado para a Universidade do Oregon (“If they can die for Italy, they can play for Italy!“), que contextualizou duas notas de agosto de 1931 de Il Littoriale: uma destacando que nem Scarone e nem Demaría pareciam ter muita fluência em italiano, embora fossem ambos filhos de imigrantes; e outra destacando que o profissionalismo argentino já encarecia novas contratações portenhas, noticiando que o racinguista Vicente Del Giúdice até encerrara suas negociações com clubes italianos ao ficar satisfeito com o pagamento que receberia em Avellaneda. Se Scarone estava paradoxalmente mais barato, a chegada conjunta de ambos à Itália não deixou dúvidas de que o uruguaio era o reforço mais esperado pelos milaneses. “Apesar disso, tive sorte. Meazza, desde o primeiro momento, simpatizou comigo. Me animou e ajudou o quanto pôde”, explicou Demaría naquela nota de 1949.
Jornais de Viena e Praga destacando o Gimnasia e Demaría na excursão platense de 1931: “tango argentino”, noticiaram os tchecos sobre o baile de 3-1 aberto pelo meia sobre o poderoso Sparta
Ainda naquela nota, também detalhou que, no amistoso que testaria a estreia do argentino, Meazza logo propôs-lhe uma troca de passes em velocidade até que o chute a gol coubesse a quem estivesse melhor posicionado. Na segunda vez que seguiram esse plano, Demaría marcou seu primeiro gol como nerazzurro, “forte e alto”, e nos primeiros dez minutos já havia marcado também uma segunda vez. A segunda partida amistosa, em 6 de setembro, foi contra o Real Madrid. Para tanto, novos conselhos de Meazza: “durante um dos treinos, me explicou como tinha que fazer para assinalar gols em [Ricardo] Zamora. E como talvez notasse em mim algo de incredulidade, me tomou por um braço e me conduziu até um extremo da área. ‘O lugar é esse’, me indicou. ‘É preciso chutar de lado… mas não te preocupes, eu o farei primeiro. Veja como faço eu e depois faça você’”. Guarnecidos por aquele lendário Zamora, os espanhóis venceram dentro da Arena Cívica de Milão por 3-2, mas de fato os gols da casa saíram primeiro com Meazza e depois com Demaría.
Na primeira rodada da Serie A de 1931-32, em 20 de setembro, o argentino já estava entre os titulares da Inter. Inclusive, não se inibiu em um primeiro duelo com o time mais argentino da Itália, uma Juventus que, com diversos hermanos, rumaria a um inédito pentacampeonato – fez um dos gols interistas de honra em derrota de 6-2 no que ainda não era um Derby d’Italia, rivalidade fomentada só a partir dos anos 60. Sua nova equipe ficou apenas em sexto enquanto o Estudiantil Porteño, sem o astro no restante do torneio amador de 1931, seria justamente o seu campeão, embora não escapasse da atrofia tão comum a outros times deixados de fora da liga rebelde (ainda existe como clube social, mas se desvincularia da AFA em 1939, abandonando o futebol competitivo).
Mas os oito gols em 32 jogos do argentino pareceram bem promissores em Milão: para a temporada seguinte, os cartolas lhe mimaram contratando o irmão Félix Demaría, que viraria o “Demaria II”. O caçula não triunfaria, em contraste com o sucesso de Atilio – ou melhor, de Attilio, grafia italianizada que seu nome adotaria com a dupla cidadania enquanto a do sobrenome perdia o acento. Após doze meses regulamentares e já tendo até um filho nascido em solo italiano, Ezio, “Demaria I” estava apto para estrear pela própria seleção italiana. O jogo seria em Milão e para jogar ele suportou até a dor de um tornozelo inflamado, tamanha que precisou do auxílio da esposa para descer as escadas de casa e entrar no carro. A Azzurra bateu por 4-2 sobre a Hungria em 27 de novembro de 1932, partida que também marcou a estreia de Luis Monti pela Itália, inclusive.
Com a camisa da Inter de Milão, clube com o qual mais se identificou: entre os maiores goleadores do clássico com o Milan
Mas Demaría só faria uma segunda partida já em plena Copa do Mundo de 1934. Foi convocado credenciado pelas boas cifras: na temporada 1932-33 foram 30 jogos e treze gols, incluindo dois em 5-4 no clássico com o Milan no primeiro turno e outro em 3-1 de virada no segundo; na de 1933-34 foram 34 jogos e doze gols – pacote que incluiu outro no Milan, batido de virada por 2-1, embora o que entrasse para a história fosse o 9-0 no Casale com um hat trick dele e outro do parceiro Meazza; só em 2017 é que (com os argentinos Banega e Icardi) o clube comemoraria duas tripletas juntas, no 7-1 sobre a Atalanta.
Naquelas duas temporadas, a Inter foi bivice da poderosa Juventus e em 1933 o argentino brilhou ainda em outra campanha vice-campeã, a da Copa Mitropa, o principal torneio clubístico europeu de então. Em reencontro com o forte Sparta Praga do atacante Oldřich Nejedlý, futuro artilheiro e vice com seu país no Mundial de 1934, anotou quatro gols no placar agregado de 6-3 nas semifinais. Para a Copa do Mundo, a Itália tratou de fortalecer-se com os melhores estrangeiros de sangue italiano à disposição, chamando o brasileiro “Filó” Guarisi e os hermanos Monti, Demaría, Raimundo Orsi (ponta da poderosa Juventus) e Enrique Guaita (artilheiro na Roma), ao passo que a Albiceleste ainda se limitava a chamar apenas amadores – enviando um elenco enganoso da real qualidade disponível nos campos argentinos.
É que os clubes profissionais, ainda sem chancela oficial da FIFA, temiam com isso perder de graça destaques que fossem eventualmente seduzidos para permanecer na Itália e não liberaram seus astros. Dentre os amadores que foram à Copa do Mundo, houve de fato um do Estudiantil Porteño que acabou logo contratado pela Inter também: Alfredo Devincenzi, autor de um dos gols sobre a Suécia. “Quando fiquei sabendo, me deu um nó na garganta. A Argentina estaria representada por garotos sem nenhuma experiência. Então me aproximei de Pozzo [treinador da Itália] e lhe disse claramente que eu não estava disposto a jogar contra meus compatriotas. Que se chegassem à final, não contasse comigo”, afirmaria Demaría na reportagem de 1949.
Ambrosiana-Inter em 1933: Félix Demaría, Paolo Agosteo, Alfredo Pitto, Vinicio Viani, Carlo Ceresoli, Pietro Serantoni, Giuseppe Meazza, Atilio Demaría, Virgilio Levratto, Armando Castellazzi e Luigi Allemandi. Demaría e Allemandi venceram a Copa de 1934, Ceresoli e Serantoni ganharam a de 1938 e Meazza, ambas
A Argentina, que levou ainda outro ex-colega de Estudiantil Porteño, Juan Pedevilla, fez sua pior Copa, caindo logo naquele duelo inicial com os suecos. Mas Demaría, novamente, só foi usado uma vez numa Copa: foi no jogo-desempate contra a Espanha, pelas quartas-de-final, na vaga que foi de Giovanni Ferrari (o único outro além de Meazza a ser titular em 1934 e 1938) no restante do torneio. O duelo anterior, um extenuante empate com prorrogação, havia sido apenas 24 horas antes e com isso o técnico Vittorio Pozzo precisou usar uma equipe mista.
Na temporada pós-Copa, Demaría anotou dez gols em trinta jogos na Serie A; quatro saíram em uma só partida, 6-1 sobre o Sampierdarenese (um dos times que formariam a Sampdoria em 1946), outro veio em vitória sobre o Milan por 2-0. Os milaneses foram trivices, amargando, tal como na temporada 1933-34, uma derrota na rodada final que encerrou o sonho do scudetto. O título em 1935 para Demaría viria novamente com a seleção, vencedora da Copa Internacional, uma precursora da Eurocopa. Ele esteve em três jogos da Azzurra naquele ano, em campanha contra Áustria, Tchecoslováquia e Hungria. Em paralelo, a convocação ao Exército de Mussolini na invasão à Abissínia (atual Etiópia) afugentou estrelas argentinas, incluindo recém-campeões mundiais, e mesmo europeias. Demaría, por seu lado, aceitou renovar por mais uma temporada, disputando 29 partidas da Serie A de 1935-36 e deixando sete gols (realizando ainda três jogos pela Itália em 1936, em amistosos contra Suíça, Áustria e Hungria, com dois gols marcados). Semifinalista da Copa Mitropa, a Inter ficou só em quarto na Serie A, e ele enfim voltou à Argentina, sob versões discrepantes.
A Itália com quatro argentinos para o jogo-desempate contra a Espanha, única partida de Demaría na Copa de 1934: o técnico Pozzo, Combi, Ferraris IV, Allemandi, Monti e Guaita; Bertolini, Orsi, Monzeglio, Meazza, Borel e Demaría
A retrospectiva de sua carreira ao La Cancha em 1949 menciona que ele, tendo apalavrado o retorno à Argentina com os cartolas interistas, terminou ludibriado ao ser retido no porto e separado de sua família, que seguiu viagem naval – levando-o ao extremo de pegar às escondidas um voo a Berlim e de lá cruzar o Atlântico em um zepelim. Já a dissertação de mestrado no Oregon sustenta que Demaría não teria voltado como desertor e sim exatamente para evitar isto, pois seu serviço militar obrigatório no exército argentino era uma pendência. Fato é que sua estadia no Independiente não foi exitosa: só atuou em três jogos oficiais, estreando em 30 de agosto de 1936 contra Platense, deixando sobre o San Lorenzo seu único gol pelo Rojo e por fim pegando o Vélez. Insatisfeito consigo próprio, ele mesmo teria pedido para jogar pela equipe B, com a qual fez outras cinco partidas, com dois gols, no campeonato da categoria. O La Cancha de 1949, porém, afirma que outra motivação para não fazer mais jogos teria sido uma reclamação formal da Inter perante a FIFA causar receio em Avellaneda em possível perda de pontos nos tribunais.
O Estudiantil Porteño não teve esse receio e acertou o regresso do antigo ídolo para 1937, o ano em que os times deixados de fora da liga rebelde de 1931 foram admitidos no profissionalismo, inscritos na segunda divisão. Demaría reencontrou em Ciudadela velhos colegas em Martínez, Devincenzi (regressado da Inter também), Pedevilla, Juan Betinotti e outros. Embora o campeão e único time a subir viesse a ser o Almagro, Demaría foi eleito o principal destaque da segundona; foram nove gols em dezesseis jogos, com o campeão mundial terminando inclusive por ser convidado no início de 1938 para testes no poderoso Nacional. Figurou no elenco que, em ríspidas partidas de verão, faturou o Torneio Noturno, um dos antecessores da Libertadores. Mas ainda que o argentino só aparecesse na campanha para os duelos contra Boca e River, ambos já após a taça se garantir (os tricolores inclusive perderam ambos), sua contratação ficaria insustentável diante da intransigência da Inter em liberar-lhe o passe. Curiosamente, outro reforço dos tricolores era um Atilio também, argentino que viraria o maior artilheiro do Nacional, do futebol uruguaio e do Superclásico de lá.
De um lado, aquela nota de 1949 de La Cancha registrou que os italianos souberam vencer Demaría pelo cansaço, mas nela ele também assumiria que se arrependia de ter perdido a chance de vencer a Copa de 1938 pela Azzurra. Ele enfim voltou à Itália para a temporada de 1938-39, na contramão de compatriotas que buscavam fugir do belicoso clima europeu. Sem retaliações, a Inter lhe tornou até o capitão e cobrador de pênaltis do elenco, enquanto a seleção promoveu a reestreia do argentino já em 20 de novembro de 1938, em 2-0 sobre a Suíça. Em dezembro, ele esteve no 1-0 sobre a França. Trégua premiada: na temporada 1938-39, embora só contasse três gols (um deles, em 5-0 na Juventus) em 23 jogos na campanha de bronze na Serie A, Demaría conseguiu seu primeiro título no calcio, erguendo como titular a primeira Copa da Itália nerazzurra.
A mancha política: Combi, Meazza, os argentinos Orsi, Guaita e Monti, Bertolini, Monzeglio, o brasileiro Filó (de macacão) e Demaría (idem) fazem a saudação fascista na Copa de 1934. À direita, o argentino com uniforme militar italiano na Segunda Guerra
Com a Segunda Guerra Mundial já estourada, o futebol italiano seguiu normalmente enquanto o conflito não se agravava na Itália. E nesse contexto o time de Milão ganhou a Serie A de 1939-40, já com o argentino aparecendo melhor nas estatísticas: doze gols (incluindo um em 3-1 no Milan) em 29 jogos. Foi também ao longo da temporada do scudetto que ele fez suas últimas partidas pela Itália, em amistosos contra a neutra Suíça e as “amigas” Alemanha e Romênia – com um gol, de pênalti, na derrota de 5-2 em Berlim para a seleção da casa, reforçada desde o Anschluss pela talentosa geração austríaca (três gols foram de Franz Binder, do futebol vienense). Em depoimento que daria já em 1944 ao La Cancha, o jornalista Pedro Luis Rossi diria que, ao ver em 1940 o polivalente craque são-paulino Antonio Sastre desempenhar-se no Independiente, recordava-se do que já havia visto de Demaría na Itália. Destacou inclusive uma tarde contra a Lazio onde os três gols de Meazza surgiram todos de assistências do hermano. Mas mesmo com as batalhas ainda distantes de Milão, o argentino contextualizou ao La Cancha em 1949 que era impossível viver com normalidade.
A própria idade elevada e a convocação em 1941 às forças armadas também foram gradualmente diminuindo os números de Demaría: na temporada de vice para o Bologna em 1940-41, foram seis gols em 29 jogos, diminuídos respectivamente para três e 22 no medíocre 12º lugar de 1941-42 – quando, em paralelo, a loja que empreendia em Milão virou ruínas após um bombardeio. A ironia é que Demaría estava alistado ao corpo militar italiano dos bombeiros, voltados exatamente no socorro contra incêndios decorrentes das bombas. Se os ítalo-forasteiros, segundo ele, eram protegidos de serem alocados na linha de frente, ele teria outro episódio onde safou-se ao acaso de uma bomba, já durante um turno noturno em que fazia guarda: “à meia-noite, quando sozinho e deixando vagar os pensamentos me encontrava abstraído, me sobressaltei ao escutar a estridência das sirenes de alarme. E me assustei, confesso. No mesmo instante, começaram a cair as bombas. Estrondo, fumaça, terra, destruição, um verdadeiro inferno! Não sei quanto tempo durou aquilo. Para mim, mais de um século…”.
O depoimento prosseguiu com essas palavras: “ao fim, quando novamente recobrei a calma, observei que a única coisa que ficava em pé era o muro de trás ao qual me havia defendido, um verdadeiro milagre! Apesar de tudo, eu considerava aquilo um trabalho provisório. Confiava que as coisas não haveriam de prolongar-se muito mais. Não sei por que, mas confiava”. A temporada do 4º lugar de 1942-43 foi a última da Serie A durante a Guerra. E a última do argentino na Inter; ele só atuou em dez partidas, marcando duas vezes. O regista despediu-se em derrota de 2-1 para o Vincenza em 11 de abril de 1943. Ao todo, foram 86 gols em 295 partidas oficiais contabilizadas no arquivo estatístico interista.
No Independiente de 1936: Juan Corazzo (avô de Diego Forlán), Fermín Lecea, Fernando Bello, Sabino Coletta (que jogaria no Flamengo), Luis Franzolini e Mario Catuogno; Raimundo Orsi (colega de Demaría na Copa de 1934 e outro futuro flamenguista), Luis Mata, Arsenio Erico, Demaría e José Zorrilla
Ele segue como o argentino que mais marcou gols no clássico com o Milan: foram seis no Derby della Madonnina e em seu tempo chegou inclusive a ser o terceiro maior goleador geral do duelo, abaixo de Meazza e do belga Louis Van Hege, embora hoje divida o sétimo lugar nesse ranking com diversos outros – incluindo o também argentino Diego Milito e Sandro Mazzola, outros ícones da torcida nerazzurra.
A suspensão do campeonato não significou, contudo, que o futebol cessasse na prática: torneios de guerra, embora não reconhecidos modernamente pela federação, mantiveram os clubes em atividade na época. Nisso a Inter inclusive deu passe livre para Demaría fechar com o Novara em 1944. Com o fim do conflito no ano seguinte, ele já estava à beira dos 36 anos, considerando-se com as chuteiras penduradas. Quando o Legnano contratou-o para a disputa da terceira divisão italiana (em negócio intermediado por outro argentino, Hugo Lamanna, ex-Vasco, Independiente e Atalanta), foi para ser treinador. Foi uma surra de 7-0 na estreia e a percepção de que não havia um líder em campo que lhe fizeram oferecer-se a ser jogador-treinador. Na nova função, começou empatando com o Como antes de engatar uma invencibilidade de treze partidas seguidas na Serie B-C. A arrancada levou o clube a um quarto lugar, a dois pontos do suposto acesso. Quando a Serie B foi retomada oficialmente na temporada 1946-47, aquela campanha, ainda válida por um torneio de guerra, terminou suficiente para a equipe ser alocada administrativamente na segundona.
Demaría seguiria na Serie B já como jogador do Cosenza, registrando 31 jogos e seis gols na temporada 1946-47, na luta contra a queda; e respectivamente treze e um na seguinte, onde nem o 10º lugar entre dezoito times impediu o descenso. Ele não se demorou muito mais na Itália pós-guerra; seu retorno à terra natal após praticamente 17 anos fora foi bastante destacada e ele foi procurado a comentar sobre o sistema, revolução tática então em voga no calcio: “é o triunfo da disciplina, do método e de uma tática. Zagueiros marcando os pontas e o volante no centro, recuado. Os laterais, adiante, contra os meias-armadores. O quadro atacante, assim, com sete homens. É assombroso como o Torino o pratica, onde ninguém se move um metro a mais de onde deve estar. Vi jogar vários quadros argentinos ultimamente. Tomemos o exemplo do River, para falar de campeão com campeão. Minha opinião é de que o Torino pode ganhar-lhe. O River lhe poderia fazer gol unicamente pela velocidade fantástica de Di Stéfano. Aqui, as táticas são menos rigorosas, assim como é menos rigoroso o controle do jogador durante a semana”.
Como técnico, Demaría (de camisa branca) não teve estrela: seu Rosario Central foi rebaixado em 1950. E ele caiu também em 1951, com o Gimnasia
Infelizmente, o tira-teima entre River e Toro ficaria para jogos beneficentes após a tragédia de Superga. E, apesar do aparente conhecimento tático, Demaría não chegou a desenvolver carreira de treinador digna de nota; foi o comandante do Rosario Central no grosso da temporada do segundo rebaixamento canalla, em 1950; esteve à frente do Gimnasia como um bombeiro no rebaixamento tripero em 1951, sucedendo o demitido Roberto Scarone; e no Almirante Brown em outra luta contra a queda, na segundona argentina de 1973. Também trabalhou nas escolinhas do Estudiantil Porteño.
Naquele novembro de 1990, já era um dos últimos remanescentes vivos da seleção argentina de 1930 e da italiana de 1934: os ex-colegas Carlos Peucelle e Mario Pizziolo partiram ambos ainda em abril e o artilheiro Angelo Schiavio, em setembro. Aquele ano ainda perderia Rodolfo Orlandini na véspera de natal antes que Mario Evaristo, Guido Masetti, Felice Borel (todos falecidos em 1993) e por fim Francisco Varallo (em 2010, com cem anos de idade) se tornassem os sobreviventes finais.
Dos demais colegas argentinos de Azzurra, seu coração era o último que ainda pôde bater de modo dividido naquelas tensas semifinais da Copa do Mundo em Nápoles. Em 2014, quando os especialistas da Calciopédia elegeram os maiores argentinos do futebol italiano, Demaría foi considerado o 24º do ranking, à frente de nomes exitosos recentes por lá mais famosos, a exemplo de Ramón Díaz, Julio Cruz, Claudio López, Carlos Tévez, Gonzalo Higuaín e Nicolás Burdisso, dentre outros.
Muito do material que serviu de fonte a essa matéria foi fornecido pela Entre Tiempos, única livraria de futebol em Buenos Aires, tocada pelo historiador Esteban Bekerman. Conheça-a!
Demaría aparece nesses registros dos anos 40 com os símbolos da Itália bi mundial: Meazza (antes do primeiro clássico de Milão que o amigo disputou pelo rival Milan) e Silvio Piola, da Lazio
Juan José López encerrou a carreira de jogador no River em 1981, e menos de dez anos separaram a idolatria do trauma do rebaixamento.
Em 1981, seu último ano no River. Foto de jogo contra o Talleres, onde seria ídolo como jogador e técnico
Nem dez anos se passaram e a diferença é brutal no River em comparação ao time rebaixado em 2011, uma desventura que detalhamos nessa outra nota. E também brutal é resumir Juan José López ao azarado treinador que calhou de estar no lugar errado na hora errada. Pois, por mais que mesmo antes da tragédia houvesse em Núñez quem ainda torcesse o nariz a Jota Jota por ter defendido o Boca (como nos trinta segundos finais dos arroubos viralizados do Tano Pasman), aquele ex-volante sempre permaneceu figurando em qualquer lista de maiores ídolos do River – talvez seu maior camisa 8. E não só: o próprio algoz Belgrano já tinha antes de 2011 capítulos felizes tendo em El Negro um aliado de verdade, apesar de sua imagem se ligar muito bem também nos rivais Talleres e Instituto. Hora de relembrar quem, sendo um dos poucos volantes com mais de cem gols no futebol (só pelo River foram 84, seis deles em Superclásicos), ainda participou do assombroso título do Argentinos Jrs na Libertadores.
Mais de dez anos de River
A ligação com o River vem desde a infância. Os pais eram cordobeses, mas tinham no Millo o time do coração, a ponto de irem ainda como namorados ao Monumental assistir La Máquina, o timaço dos anos 40: “Sócrates, meu velho, sempre disse que ia ter um filho varão, que ia se chamar Juan José e que jogaria no River. E tudo aconteceu, até joguei na mesma posição que seu ídolo, [José Manuel] Moreno. Muitos pais alimentam sonhos com seus filhos e não podem cumpri-los, mas meu velho pôde, embora não chegou a me ver campeão porque faleceu de um aneurisma em 1974”. A explicação acima foi dada pelo antigo craque em entrevista à El Gráfico ainda em 2004, de onde tiramos a maioria das aspas dessa nota.
Sobre o lado torcedor da mãe, comentou que “sempre me chamou a atenção como brilhavam as pernas de Moreno e me contava que ele colocava vaselina. E eu copiei o hábito: nunca me massageei no River, sempre pus vaselina. Todos esses sonhos de River me transmitiram meus velhos, por isso eu troco a seleção pelo River”. Mas alimentar o sonho paterno não foi fácil: El Negro (apelido comum na Argentina mesmo quando a pele relativamente escura parece mais herança indígena, como no caso dele, do que propriamente africana) nasceu em Ciudadela e cresceu no extremo sul da Grande Buenos Aires, em Guernica (por recomendação médica a um problema que afetou os brônquios do garotinho após a família ter se mudado inicialmente para… o bairro de La Boca), enquanto o Monumental se situa no extremo norte da capital. O Racing era consideravelmente mais próximo e Jota Jota foi inclusive primeiramente aprovado por lá.
“Mas Palomino, o delegado do River, tinha uma irmã em Guernica. E ela sabia de todo o sonho do meu pai. Então, Palomino veio à minha casa, me pediu para eu fazer embaixadinhas e me deu a citação. Ainda a tenho bem guardada”. As embaixadinhas eram uma habilidade estimulada pelo pai, que lhe dava 10 centavos a cada uma que o filho conseguisse acumular – além de lhe forçar desde os 3 anos a chutar com as duas pernas e lhe impor disciplina de atleta desde os 13. A viagem até a escolinha riverplatense era mesmo “muito dura: duas horas de ida e duas de volta. Uma hora do trem Guernica-Constitución, metrô até Retiro, trem até Barrancas e daí, se tivesse grana, pegava o ônibus até o clube. Se não, guardava as moedinhas para uma coca e uma porção de pizza”. López declarou ainda que, curiosamente, chegou ao clube no mesmo dia que seu futuro parceiro na volância, Reinaldo Merlo: “com nove anos, e os dois de centroavante. Depois [Carlos] Peucelle nos trocou de posições. Dizia que tinha muito pique e que correndo desde trás ia andar melhor. Um monstro, Peucelle, mestres como ele se perderam”.
Jota Jota ainda verde no River de Didi e já experiente com o mentor Ángel Labruna
Bem, Peucelle fora um antigo craque da Copa de 1930 e que já havia descoberto Di Stéfano. E, inicialmente incrédulo naquele baixinho, foi mesmo sábio. O livro Quién es Quién en la Selección Argentina qualificaria López como “um jogador notável, moderno, refinado, com um desdobramento que hoje seria chamado ida y vuelta“. Ou seja, Jota Jota era o chamado box-to-box, no jargão inglês cada vez mais em uso no Brasil. E de fato, a meia cancha com os “Três Mosqueteiros” do River veria Merlo ser o destrutor, Norberto Alonso ser o construtor e López, “o que corria”, não se inibindo de arriscar seus chutes ou dar assistências diretas quando aparecia no ataque: ainda segundo o livro, era um volante dotado de “bom arremate desde longa distância, profundidade e gol, solidariedade combativa e muito técnico”. A parceria com Merlo criaria em López o hábito até de só conseguir dormir de luz acesa, após o colega ter destruído uma televisão situada entre as camas na concentração ao acordar subitamente de um pesadelo. Mas ela demoraria para ser vista nos gramados:
“Eu não jogava nunca, e todos os verões ia com meus amigos, pelas costas do meu velho, me testar em outros clubes: Banfield, Temperley, Lanús, Racing. E em todos, ficava. Nessas épocas, os delegados caminhavam muito, iam às casas, mas meu velho sempre os expulsava cagando, porque eu estava inscrito no River. Meu velho até teve que armar uma liga em Guernica para que eu jogasse aos domingos, porque aos sábados no River era reserva do reserva”. Ainda segundo a entrevista, a única lembrança que ele tem de chorar por futebol foi naquele contexto, quando imaginava que jogaria diante do atraso do titular, que acabou chegando a tempo. “Disse que não voltaria mais. Aí apareceu Casal, um delegado, ainda o estou vendo: me disse que não reagisse tremendamente, que eu tinha condições. E voltei”. Apenas com 17 anos é que começou a ser usado, a partir da chegada do ex-zagueiro millonario Vladislao Cap ao cargo de técnico juvenil. Aos 18, “estava Ángel [Labruna] e comecei a jogar no time sub-19. Em 1969, Ángel já queria me fazer estrear, mas estava Daniel, seu filho [precocemente morto pela leucemia], que jogava uma barbaridade”.
A estreia no time adulto, em 3 de novembro de 1970 (2-1 sobre o Gimnasia de Mendoza), veio já sob o sucessor de Labruna, o brasileiro Didi, notabilizando por bancar a promissora garotada juvenil: “me deixou ensinamentos: a pegar na bola, como para-la com o peito, como te desprender rápido”. E foi já naquele ano que Juan José virou o famoso Jota Jota, apelido criado pelo midiático locutor José María Muñoz (“hoje ninguém me chama por meu nome e até quando falo por telefone tenho que me apresentar como Jota Jota”). Embora promovido em 1970, o garoto ainda era formalmente um juvenil quando atuou na partida que mais desfrutou segundo o próprio: “o 3-1 no Boca, no estádio do Racing, pelo Nacional de 1971. A greve [dos jogadores profissionais] acabara, o Boca jogou com seus titulares, e Didi [por pressão dos próprios cartolas, é verdade] manteve os amadores. Além disso, como havia uma briga de fundo pela greve, nos pegavam para matar”. El Negro marcou o segundo gol daquela vitória histórica, retratada poeticamente pela El Gráfico sob os dizeres “os garotos do River… os duendes, as fadas, os magos… pena que Walt Disney não estava!”.
López, inclusive, já se dera ao luxo de marcar nos dois Superclásicos do Metropolitano de 1971 (2-1 e 3-3, com o gol no triunfo sendo inclusive o primeiro dele pelo time principal), e fechou o ano com doze gols, ótimos números a um volante. O problema é que Didi, mesmo elogiado pelo jogo vistoso (“ainda hoje me pergunto que teria ocorrido com Alonso, comigo e com tantos outros garotos se ao estrearem na primeira divisão outro técnico nos tivesse cultivado primeiro a obrigação de ganhar antes de dar uma caneta ou de marcar antes de ensaiar um drible… nos teria cortado as asas. Por isso, sempre estarei grato a Didi, quem me deixou ter uma ‘irresponsabilidade’ que me fez muito bem. Labruna, depois, me obrigou a adaptar-me a outra maneira de funcionar. E Ángel esteve bem porque eu já havia deixado de ser garoto. De todos os modos, eu se tivesse um buraquinho ia jogar no ataque. Nesse sentido, Labruna nunca me proibiu nada. Me dizia que eu tinha físico para jogar os 90 minutos em um ritmo intenso e que aproveitasse essa circunstância. Esse respaldo me serviu muito”, contou ao livro do centenário do River), falhava em obter resultados.
River campeão em 1975 após dezoito anos: Héctor Ártico, Carlos Pintos, Alejandro Sabella, Daniel Crespo, Reinaldo Merlo, Ubaldo Fillol, Hugo Pena, Roberto Carrizo, Carlos Avanzi e Alberto Vivalda; José Reinaldi, Juan José López, Pedro González, Pablo Comelles, Oscar Más, Roberto Perfumo, Miguel Raimondo e Carlos Salinas; Héctor López, Carlos Morete, Luis Landaburu, Norberto Alonso, Pedro Bareiro e Daniel Lonardi
O time até chegou a liderar aquele Nacional de 1971, mas perdeu gás e ficou de fora dos mata-matas. Nos outros torneios, o River de Didi nunca brigou seriamente pelo campeonato e o brasileiro acabou demitido em uma sucessão de goleadas no Metropolitano de 1972, inclusive para o Boca. E o técnico seguinte à sua saída, Juan Urriolabeitía, já pôs o time de cara na final do Torneio Nacional de 1972 – a contar inclusive com outro Superclásico especial, onde o Boca virou um 2-0 para 4-2 mas terminou perdendo de 5-4. Na campanha, goleadas notáveis: 7-2 no Independiente campeão da Libertadores, 8-0 no Independiente de Trelew e 7-1 no Bartolomé Mitre… Juan José já estava firmado entre os titulares e foi no embalo dessa campanha que ele estreou pela seleção, em 11 de outubro de 1972, uma derrota para a Espanha no Santiago Bernabéu pela amistosa “Copa Hispanidad”. Mas em dezembro a taça acabou perdida já na prorrogação em jogo único contra um San Lorenzo que vivia seus anos dourados.
Em 1973, veio novo vice no Torneio Nacional, para o Rosario Central, e dois jogos não-oficiais de López pela Argentina, pela chamada “seleção fantasma” (5-1 no Sarmiento de Junín em 29 de julho e derrota de 2-1 para o Huracán de Corrientes em 13 de setembro). O treinador era Omar Sívori, que topou o trabalho apenas até o fim das eliminatórias – foi sucedido então por um desorganizado triunvirato de Víctor Rodríguez, Vladislao Cap e José Varacka que terminou por alterar o time-base e esquecer López (que admitiu ser um fominha em seus primeiros anos até compreender que era mais “útil tocando rápido”, se estabilizando apenas em 1975) da convocação à Copa do Mundo. Até porque em 1974 o River teve mesmo um ano mais apático, enquanto o país se encantava com a quarta colocação da surpresa Talleres no Torneio Nacional. O técnico tallarinera Labruna, logo requisitado para voltar a Núñez.
Àquela altura, López já residia em Buenos Aires, diante do desejo materno em não voltar mais a Guernica após a perda do patriarca (e o volante viraria pai da própria mãe a ponto de só casar-se aos 47 anos…). E voltou à seleção em novembro, para novo triunfo de 2-0 em Santiago sobre o Chile pela Copa Carlos Dittborn, inclusive marcando um gol, e um 4-2 não-oficial em jogo-treino contra o Lanús. Sua venda junto da de Merlo ao Independiente multicampeão da Libertadores era falada, mas o negócio aparentemente vantajoso não era desejado pelo craque – que foi falar pessoalmente com Labruna. No fim, o troca-troca entre os clubes se resumiu ao goleiro José Pérez pelo volante Miguel Ángel Raimondo, que roubaria a titularidade apenas de Merlo na maior parte do redentor Torneio Metropolitano de 1975: “o River de 1975 não se pode comparar com nada pela pressão com que jogávamos. Houve histórias de bruxarias, psicólogos, de tudo. Essa pressão ninguém nunca teve na história. Os dos outros clubes te chamavam de galinha, então nos agarrávamos a socos em todos os lados. O importante era brigar”.
Ironicamente, se Jota Jota e outros protagonistas tiveram suas primeiras chances graças à greve das estrelas em 1971, em 1975 a greve que estourou já os envolveu a ponto de o aguardado desjejum de dezoito anos se sacramentar exatamente na rodada em que o River usou juvenis: “assim de esquentado escutei a partida pelo rádio e fui dormir. Por isso, desfrutei mais o Nacional que o Metro”. O fim da seca, de fato, veio em dose dupla: meses depois, o River ergueu também o Nacional de 1975, com direito a gol do título no minuto final. El Negro contribuiu com oito gols entre as duas campanhas e, em um ano marcado pelos testes de jogadores do interior na seleção pelo novo técnico César Menotti, voltou à Albiceleste para dois jogos não-oficiais em fevereiro de 1976: 3-0 no Kimberley de Mar del Plata, com ele abrindo o placar em seu único gol pela Argentina, e 3-1 no Excursionistas de Tandil.
Injustiçado na seleção (só duas partidas oficiais e um punhado de jogos-treino), López seguiu intocável como um dos Três Mosqueteiros do meio-campo do River (Alonso, Merlo e ele) pelo menos até 1980
O River seguiria o ano avançando rumo às finais da Libertadores. López inclusive marcou o único gol do triunfo dentro de Avellaneda contra o multicampeão Independiente, a forçar um jogo-extra pela vaga na decisão contra o Cruzeiro – na qual também marcaria o primeiro gol argentino na vitória de 2-1 no segundo jogo, embora também terminasse expulso nessa partida, sendo um dos sentidos desfalques da finalíssima. Menotti não teria sido compreensivo com um pedido de dispensa para enfoque no torneio e abdicou de um jogador que já era ídolo nacional. Para o azar de Jota Jota, pintaram para sua posição nomes com Osvaldo Ardiles e também Omar Larrosa, que acabaram indo à Copa do Mundo de 1978 – mesmo que sob muitas cornetas de público e mídia até o título revisionar-lhes a imagem. Na entrevista, López reconheceu que um de seus erros foi não ter buscado uma nova conversa com Menotti a tempo. “O que digo é que eu nunca renunciei à seleção”, jurou. O passo pela seleção se resumiria a apenas dois jogos oficiais.
Ainda em 1976, veio um desgosto que para o volante superou o vice na Libertadores: a perda do Torneio Nacional, na única final que Boca e River travaram na história até o movimentado 2018. Especialmente porque López quase foi o herói, quando um toque sutil de fora da área esteve a ponto de encobrir o goleiro Hugo Gatti – que qualificaria mesmo o salto que impediu o golaço como sua maior defesa. “Como sabia que Gatti se adiantava, chutei desde o meio-campo. Ia no ângulo, mas a tirou. Depois, como colegas no Boca, me comentou: ‘foi a vez que mais me doeu o corpo quando saltei’. ‘Se nunca saltavas, idiota’, lhe disse. ‘O que querias? Era uma final’”. O River ainda cairia para o Boca na fase de grupos da Libertadores de 1977, onde só o líder avançava. Para piorar, nela o rival seria, pela primeira vez, campeão.
Núñez não tardou a se recuperar, vencendo um torneio nivelado por alto como foi o Metropolitano de 1977 (a liderança isolada só viria já na 27ª rodada, havendo gostinho de revanche ao virar sobre o Boca na Bombonera no finzinho da penúltima para pôr uma mão na taça) e acabando por ser a base da seleção que venceria a Copa do Mundo mesmo disputando o Nacional de 1977 sob excessivo relaxamento pós-taça. Jota Jota inclusive marcou ótimos treze gols ao longo daquele ano, mas não foi o suficiente para aparecer sequer na pré-convocação e a coroação de Menotti e seus protegidos manteve o astro de vez afastado da Albiceleste. Ironicamente, em 1978 o River terminaria o ano a ver navios: muito desfalcado, esteve longe da briga pelo Metropolitano. Na Libertadores, até chegou ao triangular-semifinal, com López marcando inclusive o gol do duelo contra o Atlético Mineiro no Monumental. Mas outra vez o Boca apareceu no caminho para prevalecer, rumando ao bicampeonato.
Com os campeões mundiais de volta aos titulares, o River avançou à final do Torneio Nacional, mas levou a pior contra o Independiente. O ano de 1979, ao contrário, foi glorioso desde a primeira rodada, um 5-2 no Huracán. Tal como em 1975, o River venceu tanto o Torneio Metropolitano (com troco nas semifinais sobre o Independiente, batido nos dois jogos, antes de passar por cima do Vélez com um 5-1 na decisão) como o Nacional. Além de voltar a marcar no Superclásico (1-1, em La Bombonera), El Negro notabilizou-se especialmente nas quartas do Nacional, marcando o único gol no jogo de volta contra o Vélez, forçando a decisão por pênaltis. Nas semis, o time impôs um 7-1 agregado no Rosario Central. Foram ao todo dez gols de López entre as campanhas, mas a história que mais gosta de contar é de uma das inúmeras superstições de Labruna, antes da final:
Capas da El Gráfico de novembro de 1981 e março de 1983 registrando seu último Superclássico pelo River e seu primeiro pelo Boca. Até marcou um golaço do meio-campo naquele dia contra Maradona e venceu o dia em que foi colega de Ricardo Gareca (outro vira-casaca dos mais polêmicos do dérbi)
“Vínhamos no ônibus, El Pato [Fillol] me trouxe uma gravata, me disse que era de outro, e eu a joguei pela janela. Quando chegamos em Paraná, Ángel começou a gritar ‘a gravata, filhos da puta, não me façam essas brincadeiras com a gravata, que sabem o que significa para mim’. A bagunça que armou! Eu me lembrava de que a havia jogado assim que saímos do túnel, então fomos com El Beto [Alonso] de táxi e a encontramos”. O bicampeonato contra a surpresa Unión viraria um tri no Metropolitano de 1980, garantido com rodadas de antecedência (9 pontos de vantagem em tempos onde vitórias valiam 2 e não 3, com um 5-2 sobre o Boca na Bombonera incluso) para apaziguar uma eliminação ainda na fase de grupos na Libertadores. Em 1981, o Millo voltou a cair na fase de grupos, mas não pôde se socorrer no desempenho caseiro; caíra no Nacional de 1980 ainda no primeiro mata-mata e esteve longe de acompanhar o ritmo do Boca maradoniano no Metropolitano de 1981.
A própria torcida, esvaziando o Monumental, se punha contra os dinossauros, a começar por Labruna, demitido sem cerimônias e reposto por Di Stéfano. Em uma campanha ainda acidentada, o River se recuperou vencendo ainda em 1981 o Torneio Nacional, com López conseguindo fazer o golaço de quarenta metros no Boca que não pudera em 1976 – seu gol favorito segundo aquela entrevista, em um empate em 2-2. Mas El Negro, malquisto pela presidência, terminaria sendo outro expulso de Núñez pelos fundos, recebendo passe livre. Foram só sete partidas em vinte da campanha a quem antes buscava jogar mesmo sob infiltrações. Reforços para aquele campeonato, Américo Gallego, Julio Olarticoechea e Enzo Bulleri já tomavam mais a conta de meia cancha riverplatense. Alonso iria ao Vélez e só Merlo seguiria. O parceiro lhe teria dito ao ficar sabendo dessas saídas: “Negro, o que faço agora? Te juro que não deixo entrar ninguém no quarto da concentração. Não vou permitir que ninguém use tua cama”, em outro registro do livro do centenário millonario…
Um veterano de qualidade em camisas rivaise no nanico campeão da América
O Talleres, que já havia aberto as portas para Labruna, virou refúgio para outras antigas caras millonarias, a exemplo dos atacantes Carlos Morete, José Reinaldi, Pedro Coudannes, Pedro González, Juan Carlos Heredia e do defensor Héctor Ártico. Labruna inclusive motivou a todos antes de um duelo contra o Boca de que aquilo seria praticamente um Superclásico: Morete marcou três e López, outro, em um recordado 4-0 sobre o velho arquirrival no Torneio Nacional de 1982 (além do Boca, o Racing também levou de 4-0, destacando-se ainda o 8-2 sobre o Mariano Moreno), onde La T só parou nas semifinais, mesmo desfalcado em todo o torneio de três craques concentrados com a seleção para a Copa do Mundo – o goleiro Héctor Baley, o zagueiro Luis Galván e o armador José Daniel Valencia. “Graças a Ángel, encontrei o afeto que precisava em um momento muito ruim, depois de me expulsarem do River”, admitiu.
O astro deixou mesmo uma boa recordação como jogador tallarin, descrita pelo longevo jornal cordobês La Voz del Interior como a de “um volante técnico como poucos e de uma inteligência superior”, capaz de registrar ainda bons oito gols em 38 jogos. Labruna seguiria ao Argentinos Jrs e Jota Jota inicialmente buscou segui-lo, mas não se deu. O destino seria justamente o Boca, que na mesma janela contratou outros três ex-colegas de River: o goleiro Carlos Barisio, o defensor Pablo Comelles e o meia Osvaldo Pérez. Naquela entrevista, López não se dizia arrependido. “O destino te leva a tomar decisões. E eu vinha muito golpeado. Quando fechei o negócio com o Boca, veio [o treinador Roberto] Saporiti me buscar para o Loma Negra: me davam o dobro do Boca e em mãos, mas era tarde. Eu sempre disse que era River. Me lembro que El Abuelo [chefão da torcida La 12 na época] me falou: ‘Negro, te bancamos até a morte porque falaste na cara’”.
No Talleres semifinalista de 1982, repleto de antiga gente do River (Héctor Ártico, Victorio Ocaño, César Mendoza, Miguel Oviedo, Oscar Cámara, Rafael Pavón; Pedro González, Juan José López, Carlos Morete, Pedro Coudannes, José Reinaldi), e no Argentinos Jrs campeão da Libertadores de 1985
O Boca de 1983 até começou bem. O Torneio Nacional, agora realizado no primeiro semestre, viu o time chegar aos mata-matas e perder com drama a vaga nas quartas-de-final: vencia por 2-0 o Argentinos Jrs de Labruna até os dez minutos finais, quando sofreu o empate e levou a pior nos pênaltis. No Torneio Metropolitano, os xeneizes já foram mais inconsistentes e ainda foram punidos de usarem La Bombonera por diversos jogos após um rojão da casa atingir acidentalmente e matar o torcedor racinguista Roberto Basile. Jota Jota e colegas até saborearam triunfos nos dois Superclásicos, mas a pobre campanha, seja sob o comando do demitido Carmelo Faraone ou do sucessor Miguel Ángel López, fez o ano ser mais lembrado pela primeira camisa patrocinada do Boca, estampando os Vinos Maravilla, do que por uma maravilha de verdade – além do sétimo lugar já ser medíocre, o time teve a pior defesa do Metro, o que foi compensado pelo ataque tão bem municiado pelo reforço.
O site estatístico HistoriaDeBocarecorda que foram no geral 44 jogos e sete gols de López pelo Boca, onde mostrou-se “estrategista, hábil, inteligente, armador de jogadas” e foi “respeitado pelos torcedores apesar de seu passado no River”, mostrando “bom nível”, aportando “toda sua experiência”. Ante o caos institucional que deixaria o Boca a um triz da própria extinção em 1984 (na rodada final, já foi preciso o uso de juvenis por uma greve dos titulares), o volante enfim cavou a transferência ao Argentinos na virada de ano, embora o mestre Labruna já houvesse falecido ainda em 1983. Foi ao clube do bairro de La Paternal já como uma opção válida de banco, mas não deixou de fazer história: exatamente em 1984, o Bicho ganhou seu primeiro campeonato argentino, faturando o Metropolitano.
López esteve em 14 das 36 partidas da campanha histórica, com um gol – justamente sobre o River, em derrota de 2-1 no Monumental. “Ganhou o trabalho de todos. Me fez lembrar o River de 1975, quando arrancamos com Labruna e nos metemos todos na mesma coisa. Esse Argentinos teve a combinação justa: garotos jovens e um grupo de rapazes já experientes para respalda-los. Por isso, embora não tenha entrado, sou o cara mais feliz do mundo”, exaltou na época o jogador mais veterano do elenco. Iluminado, o Argentinos emendaria o bicampeonato com o Torneio Nacional de 1985, onde López apareceu sobretudo com dois gols em triunfo dentro de Córdoba por 4-2 sobre um forte Belgrano. Também foi certeiro nas duas decisões por pênaltis necessárias nas finais contra o Vélez.
Já classificado à Libertadores de 1985 como campeão em 1984, o clube não fez por menos, faturando-a também um mês depois da volta olímpica caseira e a uma semana do aniversário de 35 anos do ilustre reserva, que já começava a se incomodar em ser usado só nos nos últimos minutos (nas três finais, só foi acionado aos 43 do segundo tempo da segunda delas): “uma vez, contra o Vasco [na fase de grupos daquela Libertadores], me fez entrar no final. Os bancos de reservas estão atrás dos gols. Quando cheguei ao meio-campo, o jogo terminou. Queria mata-lo”, confessou na entrevista de 2004 sobre o técnico José Yudica. No Mundial Interclubes, contra a Juventus, Jota Jota foi acionado no antepenúltimo minuto da prorrogação apenas para se habilitar à decisão por pênaltis. “Três graus abaixo de zero e chuvinha, a água nos chegava acima dos tornozelos. Tinha os pés congelados. Entrei e fiz, mas nunca me inteirei que havia chutado a bola. Não a senti”, relatou. .
Após ser vira-casaca por Boca e River, López pendurou as chuteiras no rival do Talleres, o Belgrano campeão do interior em 1986: Ariel Ghielmetti, Juan Reyna, Alejandro Chiera, Sergio Céliz, Juan José López (ao lado, na festa dos trinta anos, em 2016) e Juan Ramos; José Villarreal, Ariel Ramonda, Abel Blasón, Edgardo Parmiggiani e Jorge Vázquez
Apesar da conversão, seus colegas falharam mais que os da Juventus e o Argentinos perdeu um troféu que parecia seu até os sete minutos finais do tempo normal. Para 1986, ele foi buscar mais minutos em um retorno a Córdoba, agora para defender o Belgrano. Por não fazer tanto sucesso no Torneio Nacional, La B era o único gigante cordobês ausente da liga argentina, que já abrigava o Talleres e até os vizinhos Instituto e Racing de Córdoba. Com o fim do Torneio Nacional, a AFA nacionalizaria o antigo Metropolitano, mas a partir de sua segunda divisão, promovendo no primeiro semestre de 1986 um torneio entre clubes do interior para definir os qualificados à Primera B da temporada 1986-87. O Belgrano fez disso uma limonada e foi o campeão, batendo em 20 de abril o Olimpo de Bahía Blanca na decisão para se orgulhar de ser oficialmente o único time da província campeão de um torneio da AFA – especialmente porque Talleres (1977) e Racing (1980) foram no máximo vice-campeões do antigo Nacional.
O Torneio do Interior, que faria até Maradona vestir a camisa belgranense em jogo festivo logo após a Copa do Mundo, ainda qualificava os celestes à liguilla pre-Libertadores de 1986-87, foi a glória final a uma carreira de jogador vitoriosa, ainda estendida um pouco para a disputa da segundona de 1986-87 – e embora nela o mesmo jornal cordobês La Voz del Interior já recordasse que a participação de Jota Jota ficaria mais frequente no banco de Julio Villagra e José Villarreal (depois jogador de seleção por Boca e River), também destacou que a impressão que ficara do volante foi a de alguém de 36 anos “com talento intacto” como “peça-chave” naquele título invicto. Os colegas triscaram o acesso, mas perderam a segunda vaga à elite em uma decisão com o Banfield e, sem embalo, cairiam na liguilla logo no primeiro duelo, contra o Newell’s, a encerrar uma invencibilidade de 40 jogos.
Ao todo, foram 54 jogos e quatro gols do Negro pelo time do bairro cordobês de Alberdi. Ele ainda despendurou as chuteiras em 1989, na segunda edição da Copa Pelé, embora a Argentina passasse longe de repetir o título de 1987.
Como treinador, um homem de história(s) por toda Córdoba
López sequer se via como técnico e até negou oferta de Maradona (de quem viraria amigo por serem empresariados pelo mesmo agente) em fazer um curso na Itália em 1987. Mas na volta dessa viagem, já refletia. “Por sorte, me convenceram”, confessou. Um primeiro trabalho se deu em Mendoza, no Independiente Rivadavia. E o primeiro clube de relativo holofote foi o Racing de Córdoba em 1990, pouco após o time do bairro cordobês de Nueva Italia ser rebaixado da primeira divisão. Ainda verde, Jota Jota não o desatolou de lá e seguiu alguns anos como auxiliar de alguém mais rodado na segunda maior cidade argentina, Pedro Marchetta. Trabalhou com ele nas comissões técnicas do Rosario Central entre 1994 e 1995, na do Racing de Avellaneda em 1995 e na do Belgrano em 1996, ocasionalmente figurando em algumas súmulas como técnico interino nesses dois últimos clubes.
Ele retomou a carreira solo de técnico em seu quarto clube cordobês, o Instituto (tradicional rival do Racing de Nueva Italia, aliás), em 1998. Indagado naquela entrevista à El Gráfico sobre como fazia para sobreviver em Córdoba, foi honesto: “nunca tive uma identificação muito grande com nenhum. O romantismo pelo futebol eu tenho, porque eu amo o futebol. O que não tenho é a paixão do torcedor pela camisa. E jamais me gritaram de mercenário”. Fez um grande trabalho na metade inicial da temporada 1998-99 da segundona, colocando o Instituto na liderança, mas dívidas salariais fizeram com que deixasse abruptamente os alvirrubros – que terminaram mesmo campeões, embora Ernesto Corti já fosse o técnico da equipe armada pelo antecessor. López rumou a Santa Fe para trabalhar no Unión (figurando também, em dupla com Merlo, como técnico de uma das escalações festivas do jogo de times veteranos promovidos pelo River na festa do “campeão do século”, em dezembro), mas foi prontamente resgatado pelos cartolas de La Gloria em 2000.
Em dois ciclos no Instituto de Córdoba, López (que já havia treinado o rival Racing) tanto bancou um acesso à elite, em 1999, como abandonou o barco em 2000 para ir a outro rival. O trabalho excelente nos números frios deixou amor e ódio entre os alvirrubros
Pudera: os 15 jogos de invencibilidade contínua sob o comando dele em 1998 foram a maior sequência invicta do clube em qualquer divisão argentina no século XX. De modo promissor, em janeiro de 2000 El Negrocomandou um 5-1 dentro do Uruguai em amistoso contra o Nacional, na única partida que o Instituto realizou no exterior em toda a história. E a salvação ao time do bairro de Alta Córdoba parecia vir, com direito a um triunfo ressonante, já em 11 de junho, de um mentiroso 2-0 no último clássico com o Belgrano válido pela elite argentina – ainda que López festejasse de modo contido por ter batido o clube então treinado pelo amigo Reinaldo Merlo. Em campo, a queda até teria sido evitada, mas uma perda de pontos após um torcedor atingir o árbitro com serpentina jogaria o Instituto (que, é verdade, não fez o dever de casa contra o Vélez na penúltima rodada e nem ganhou do já rebaixado Gimnasia de Jujuy na última) para a repescagem. O que a torcida não perdoou no treinador, contudo, foi outra coisa.
Em plena luta contra a queda, ele começou a negociar com o rival Talleres. Seria Arsenio Benítez o técnico alvirrubro nas tumultuadas repescagens com o Almagro, que acabaria prevalecendo em meio à fúria vândala dos rebaixados por Córdoba. López segue visto como traidor para parte da hinchada institutuense ainda que haja entre os ex-comandados no Instituto quem o colocasse como treinador do time alvirrubro dos sonhos, e algo parecido também viria a se dar no Talleres, onde o ícone Julián Maidana só colocou à frente de Jota Jota o treinador vencedor da Copa Conmebol de 1999, Ricardo Gareca. Sem falsa modéstia, López destacaria nesse 2020 que a participação na Conmebol de 1999 só ocorrera mediante convite, tendo sido ele o único treinador a realmente classificar La T a torneios continentais.
No Apertura da temporada 2000-01, o Talleres lutou pelo título até a rodada final, em corrida contra a dupla principal do país. Não que a campanha rendesse mares de rosas: López brigara contra a imprensa cordobesa, explicando à El Gráfico em 2004 que “creio que tinham que ter apoiado mais a equipe que brigou mano a mano o torneio com River e Boca como Robin Hood”. A derrota na rodada final derrubou o clube do bairro Jardín para o quarto lugar, mas foi suficiente para classifica-lo pela primeira vez à Libertadores, já para a edição 2002, e também para a Copa Mercosul que ocorreu ainda em 2001. Mas ele deixaria o time bem antes dos dois torneios. Recusando o San Lorenzo no início de 2001 para cumprir o contrato com os cordobeses, não o viu ser renovado por desacerto salarial. Jota Jota seguiria como técnico do Rosario Central, caindo ainda em 2001: “acreditava que lograria armar um projeto sério, mas não houve apoio dos diretores. Não nos davam as coisas básicas e tive que sair após 13 jogos”, resumiu à El Gráfico.
Os rosarinos, que já vinham de um último lugar no Clausura 2001, ficaram só em 16º de 20 times no Apertura 2001. Mas o Unión, com promedios ainda mais complicados, voltou a apostar em López para a temporada 2002-03. O Tatengue acabou caindo mesmo. López procurou contextualizar: “agarramos o Unión na metade do rio. Eu confiei naquele plantel do Unión, mas não nos esqueçamos que estivemos 26 dias sem treinar pela inundação. Havia familiares dos jogadores que viviam nos tetos das casas e jogadores isolados que não podiam vir. Se renunciasse duas rodadas antes do final, não comia o rebaixamento, mas como sou respeitoso com compromissos, não o fiz. Tem que respaldar o jogador nas boas e nas ruins, e se saísse antes os estaria traindo”. Enquanto isso, o Talleres, focando excessivamente nos torneios internacionais de 2001 e 2002, se desleixou demais na liga argentina e também começou a se afundar nos promedios.
No Talleres, lutou duas vezes pelo título argentino e levou o time à Copa Mercosul 2001, à Libertadores 2002 e (em campo) à Sul-Americana 2004. Só o promedio dos antecessores pôde rebaixa-lo injustamente ao mesmo tempo, em 2004
Já com uma imagem de técnico bombeiro contra quedas (“são as possibilidades que me vieram, não é que descartei outras”), López foi recontratado por La T em 2004. E voltou a fazer um grande trabalho por lá. No Clausura da temporada 2003-04, começou as sete primeiras rodadas com seis vitórias e um empate. Novamente, o bairro Jardín brigou contra Boca e River pelo título, embora ao fim da antepenúltima rodada só a dupla pesada seguisse com chances. A grande campanha teria novamente classificado os tallarines a um torneio continental, para a Sul-Americana a ocorrer no segundo semestre de 2004. O problema é que até aquele Clausura o promedio era baixíssimo. A queda direta pôde ser evitada, mas não a necessidade de encarar a repescagem, contra o Argentinos Jrs. O regulamento argentino tirou essa vaga sul-americana e, na repescagem, deu Argentinos.
Em 2020, López ainda vociferava contra os cartolas alviazuis: “a situação ficou tensa porque estávamos perto de cumprir o objetivo, sentíamos que podíamos ganhar do Argentinos, mas a diretoria não nos respaldou e o plantel se sentiu abandonado. Tivemos muitos problemas na prévia do jogo com o Argentinos, havia problemas com o presidente, os garotos queriam receber. Os dirigentes me complicaram a tranquilidade do grupo”. Na época, El Negro até caiu para cima: trabalhou na Libertadores de 2005 como técnico do Libertad. Mas a equipe paraguaia seria lanterna de seu grupo e o argentino fritou-se ainda mais com o medíocre sétimo lugar no Apertura, não durando até a segunda rodada do Clausura.
Ainda em 2004, ele já se resignava para a El Gráfico que era descrente de que um dia trabalharia no River: “que digam que não tenho condições de treinar o River, posso aceitar, mas que digam que não posso porque pus a camisa do Boca seria subestimar a inteligência do torcedor do River”. De fato, após o papelão no Libertad Jota Jota teve quase meia década sabática, forçada ou não. Até que em dezembro de 2009 acertou-se a tardia reconciliação: o ex-colega Passarella, na presidência millonaria, convidou-o para treinar o time sub-20. O resto é a história conhecida: o antigo ídolo assumiu interinamente a equipe principal após a demissão de Ángel Cappa no fim do Apertura 2010. E o filme de 2004 se repetiu. Embora parecesse inédito ao restante do mundo, na parte mais conhecida da vida de López.
O Millo, em campo, teria até vaga na Sul-Americana de 2011, com o trabalho de López no Clausura 2011 dando até ilusões de luta pelo título antes da reta final. Mas os promedios ruins herdados dos antecessores forçou outra vez uma repescagem no caminho. E nela o Belgrano não teria piedade do caos institucional espalhado por Núñez (amargura e passado rival que não impediram que López estivesse nas comemorações celestes de 30 anos da conquista de 1986, em 2016). A inescapável mancha pesou até nos clubes seguintes que sondaram Juan José López: uma sondagem pelo quinto grande cordobês, o General Paz Juniors, até foi feita em 2012, mas sem acordo com um time de quarta divisão. Os trabalhos seguintes se resumiram a cenários de pouco relevo por San Martín de Tucumán em 2014 e Juventud Antoniana de Salta em 2016, ambos na terceirona. Uma pena.
Em 2017, esse personagem foi eleito pelo Futebol Portenho como o quinto em um ranking dos corajosos que melhor êxito tiveram trabalhando em times rivais no futebol argentino.
A injusta imagem mais conhecida de Juan José López no exterior: quando seu River caiu contra o Belgrano, em 2011, mesmo com campanha de classificação à Sul-Americana. Outra vez, o péssimo promedio herdado dos antecessores atrapalhou