Categoria: Clubes e Títulos

  • Independiente 1994: o título conquistado após a era Bochini

    Independiente 1994: o título conquistado após a era Bochini

    O Independiente campeão em 1994 tinha Garnero, considerado um dos sucessores de Bochini, disputando bola com o ex-racinguista Marini.

    Garnero disputa com o ex-racinguista Marini há 25 anos: considerado um dos sucessores do ídolo-mor Bochini nos anos 90

    Uma espécie de Iniesta argentino pela discrição extracampo e pela extrema classe e passes milimétricos dentro dele (e também pela calvície precoce), Ricardo Bochini é o maior nome na riquíssima história do Independiente, time que defendeu entre 1972 e 1991. Trajetória que poderia ser maior, pois El Bocha continuava letal até precisar parar de jogar após séria lesão. Na Era Bochini, o Rojo teve suas entressafras, mas sem chegar nos cinco anos completos que acometia a mal acostumada torcida até 28 de agosto de 1994. Foi quando um elenco jovem empurrado por nada menos que dois sucessores do ídolo trouxe o título argentino de volta a Avellaneda com uma campanha ao gosto do chamado paladar negro (gíria argentina para a exigência por um futebol vistoso) da metade vermelha da cidade, em verdadeira “final” contra um Huracán ascendente – sem nada lembrar o duelo que vinte anos depois fariam pela última vaga de acesso na segunda divisão.

    Essa é uma forma de começar um texto sobre a definição do Clausura 1994. A outra é destacar o incrível azar do lado derrotado, um aplicado elenco do Huracán a protagonizar a melhor campanha quemera entre os vice-campeonatos de 1976 e 2007. Ainda visto como sexto grande nos anos 80, o time teve essa aura questionada primeiramente com um tempo relativamente longo na segundona, entre 1986 e 1990. Subiu tendo como firme zagueiro um veterano chamado Héctor Cúper. Já como técnico, seria ele o nome mais conhecido na campanha de 1994, extraindo o melhor de gente que não se sobressaiu tanto na carreira depois, com alguma exceção a Hugo Morales. A sofrida torcida do bairro de Parque de los Patricios, porém, acabaria apunhalada por dois filhos da área. O goleiro do Independiente era um confesso torcedor huracanense, Luis Islas. E o treinador era um mito no Globo: Miguel Ángel Brindisi.

    Brindisi, antes de ser o grande parceiro de Maradona no Boca campeão de 1981 (há quem diga que Miguelito, mesmo veterano, teria sido ainda mais decisivo do que Dieguito), havia sido um dos pilares do grande momento do Huracán nos anos 70, liderando o belo elenco que desfez em 1973 um jejum de 45 anos – além de obter outros três pódios na década, onde o meia-atacante chegou a deter o recorde de jogos pela seleção argentina. No fim da carreira, chegou a defender o Racing na segunda divisão, o que não impedira o arquirrival de contrata-lo em 1994.

    Final respeitosa: os técnicos Cúper e Brindisi fizeram poses amistosas, assim como Gustavo López e Hugo Pérez sorriam tentando manter no chão o balão do Huracán (em trocadilho com o distintivo huracanense) pilotado por Pelletti, Hugo Morales e Delgado

    Afinal, no ano de 1993 o Rojo fora treinado por Pedro Marchetta, não só ex-técnico mas também um assumido torcedor racinguista, tal como o cabeça-de-área Hugo Pérez (que foi até o início desse 2019 o último campeão nos dois rivais, quando foi então sucedido por Nery Domínguez). Sob Marchetta, o time fora em 1993 vice no Clausura e ficara a dois pontos de ganhar o Apertura, emendando 22 jogos de invencibilidade. Só que a sequência sob Marchetta era um tanto enganosa: 15 daqueles jogos foram igualdades que tachavam seu elenco de Deportivo Empate. Ele também não solucionou um jejum no Clásico de Avellaneda que o Racing impunha desde que retornara em 1985 à elite: a Academia simplesmente não perdia e inclusive vencera o rival no Apertura 1993, onde foi o lado blanquiceleste da cidade quem realmente triscou o título. 

    O Racing liderava o Apertura 1993 na reta final com relativa gordura, conseguindo terminar só um ponto abaixo do campeão River mesmo obtendo só uma vitória nos cinco jogos finais – que incluíram um 6-0 sofridos para o Boca, em derrocada iniciada com um esdrúxulo 2-2 com o Ferro Carril Oeste; o adversário perdia por 2-0 já em fevereiro de 1994 (era a rodada que retomava o campeonato após pausa em dezembro), mas conseguiu empatar ao ficar com um homem a mais, após o racinguista Mariano Dalla Líbera levar o segundo amarelo e ser expulso justamente na comemoração do segundo gol do então líder, por tirar a camisa…

    Como treinador, o logro de maior repercussão de Brindisi fora o vice na Libertadores 1990 com o Barcelona de Guayaquil. Sem ainda renome no grande público argentino, veio para as quatro rodadas finais do Apertura e a rigor não mudou tanto a rotina: foram três empates ali e a campanha que prevaleceu no Clausura 1994 teve oito vitórias e dez empates, além de uma única derrota. O Huracán, por sua vez, venceu dez vezes, mas perdeu quatro. Ainda assim, seria o campeão se já valesse o sistema de três pontos por vitória, ao invés de dois; a mudança, implementada na Copa do Mundo de 1994, só valeria na Argentina a partir da temporada 1995-96.

    O veterano Gareca, à direita, fez o primeiro e o último gol da campanha: comemora o 1-0 sobre o River do caído goleiro Goycochea, na 2ª rodada

    Eis outra desventura aos quemeros, que, se podiam ainda se consolar em ver o rival San Lorenzo padecendo de jejum semelhante (os azulgranas, além de rebaixados pela primeira vez antes dos vizinhos, em 1981, não eram campeões da elite desde 1974; o jejum huracanense data de 1973, até hoje), viam a dupla rosarina Newell’s e Rosario Central criar a partir dos anos 80 bons argumentos para questionar o rótulo histórico de sexto grande dado ao Globo. Seriam depois acompanhados pelo Vélez – que três dias depois daquele 28 de agosto faturaria a sua Libertadores.

    Do lado do Independiente, com a saída ainda em fevereiro tanto do atacante Carlos Alfaro Moreno como do volante Rubén Insúa, o único remanescente do título anterior do clube, na temporada 1988-89, era o de Guillermo Luli Ríos, presente no clube entre 1984 e 1998, e que por pouco não fica de fora; sob Marchetta, estava escanteado, treinando no time B. Sob Brindisi, compôs na lateral-esquerda a defesa organizada com Islas no gol do clube e da seleção argentina, Néstor Craviotto (presente com Islas na Copa América de 1993, ainda o último título da seleção principal) na outra lateral e Pablo Rotchen e José Serrizuela (titular da Albiceleste na final da Copa de 1990) no miolo de zaga.

    Perico Pérez, titular com Islas na Copa de 1994, compunha com o jovem Diego Cagna a dupla de volantes que repassavam a bola ao elegante armador Daniel Garnero, um dos homens vistos como o Bochini dos anos 90. O outro era o promissor Gustavo López, escalado como ponta-direita por Brindisi (que assim procurava poupar-lhe do vaivém do meio-campo, pois López voltava de lesão séria) em tridente fechado com o parceiro de infância Sebastián Rambert na outra ponta e o carismático colombiano Alveiro Usuriaga como centroavante. Outra opção de ataque era o veterano Ricardo Gareca. Afinal, o ídolo Jorge Burruchaga, treinando no clube desde o início do ano, não conseguiria o sonhado efeito suspensivo contra o banimento imposto no escândalo de suborno que também rebaixara nos tribunais o Olympique de Marselha.

    Os grandes momentos do Huracán no Clausura: vencendo o clássico com o San Lorenzo (na imagem, o artilheiro Pelletti), arrancando a suada vitória sobre o Deportivo Mandiyú (rendendo essa capa com Pelletti, Flores, Váttimos, Marini e Delgado) e praticamente tirando o Central do páreo (lance do gol de Pelletti)

    Já a escalação do Huracán usada em 28 de agosto reforça o peso de Cúper (em seu primeiro vice-campeonato como técnico, estigma que nunca o deixaria…) na boa fase: Marcos Gutiérrez, Antonio Váttimos, Pedro Barrios, César Couceiro e Hugo Corbalán; Claudio Marini, Rogger Morales, Víctor Delgado e Hugo Morales; Rodolfo Flores e Walter Pelletti. Como reserva mais notável, o colombiano Jorge Cruz-Cruz (repetido mesmo), listado entre os cem maiores ídolos quemeros na publicação elaborada pelo Clarín para o centenário huracanense, em 1998, em seção que inclui também os nomes do jovem mas seguro goleiro Gutiérrez; do hábil camisa 10 Delgado, único titular ali e na campanha campeã da segundona em 1990; do promissor Hugo Morales, que representaria a seleção nas Olimpíadas de 1996; e da dupla uruguaia Barrios e Pelletti, respectivamente o maior zagueiro-artilheiro (Barrios inclusive foi eleito pelo Futebol Portenho para o time dos sonhos do clube, em 2018) e o estrangeiro com mais gols pelo Globito.

    O forte do conjunto era a defesa e sua sólida marcação por zona. Mas, ironicamente, a Era Cúper começara com um 5-0 sofrido diante do Platense ainda pelo Apertura 1993, já pela 14ª rodada. O time, porém, conseguiu terminar invicto nos cinco jogos restantes, quatro deles já após a pausa que interrompeu o torneio entre dezembro de 1993 e fevereiro de 1994 – o Apertura só terminaria em 19 de março e já em 25 de março começou o Clausura 1994. Cúper só teve um reforço, do ex-racinguista Marini, dispensando Gabriel Amato para abater uma dívida com o Independiente.

    A pausa e posterior invencibilidade poderiam indicar uma reestruturação ao Huracán, mas o que se viu no início do Clausura foi uma equipe sem pinta de campeã. Ao fim da 7ª rodada, era só a 15ª colocada, com três derrotas, dois empates e duas derrotas. Somava seis pontos, mas ninguém havia disparado. Os líderes, com dez pontos, eram Belgrano, o Platense do adolescente David Trezeguet e um Independiente ainda invicto, mas que só tinha uma vitória a mais. E recuperado de uma sequência de três empates nas rodadas iniciais, que colocavam em dúvida o real poderio do futuro campeão. Sobreveio então a grande reação que catapultou La Quema à liderança: 1-0 no Ferro, 3-2 fora de casa no Lanús, 1-0 no Racing, 3-1 no Estudiantes em La Plata e 2-1 em clássico com o San Lorenzo que cheirava a empate em Parque de los Patricios.

    Rambert estampou uma capa em maio da El Gráfico, Usuriaga foi o protagonista óbvio após o 4-0 no Banfield e Gustavo López fez o gol rojo em La Bombonera na antepenúltima rodada

    No dérbi de bairro, Flores abriu aos 15 minutos o marcador com um cabeceio, em primeiro tempo marcado pelo jogo conduzido pela dupla Delgado e Hugo Morales no meio, com a marcação firme de Rogger Morales e Marini na retaguarda. Mas aos 39 o rival Claudio Netto empatou de pênalti, levando os visitantes a dominarem no segundo tempo até Barrios converter faltando dez minutos outro pênalti, mas para dar a vitória aos donos da casa. “Só quando vi as pessoas festejarem tive consciência do que significava”, declararia o beque. A vitória no dérbi já colocava os quemeros na liderança, com o Independiente e o Belgrano seguindo juntos no páreo, agora acompanhados pelo Banfield do jovem Javier Zanetti. O Rojo vinha de outra momentânea má fase: na 8ª rodada, deixou escapar nos quinze minutos finais a vitória de virada que encerraria o jejum contra o Racing (o 2-2 em Avellaneda chegara a ser precedido com um pequeno avião puxando uma faixa com os dizeres “Rojo amargo, 11 anos sem ganhar”).

    Na 9ª, o Rojo, promovendo o regresso definitivo de Gustavito López, também sofreu nos minutos finais outro empate (aos 37 do segundo tempo, gol do jovem Martín Palermo), contra um time do Estudiantes que terminaria rebaixado e em seguida sofreu sua única derrota, um 3-2 contra o San Lorenzo tumultuado: dois jogadores foram expulsos para cada lado – Serrizuela e Rotchen para os mandantes, Roberto Monserrat e Néstor Lorenzo para os visitantes; Cagna perdeu pênalti aos 44 do primeiro tempo, com o jogo em 1-1; o Ciclón fez 2-1 no segundo tempo e Usuriaga pôde empatar aos 40 minutos, mas aos 45 houve tempo para Roberto García dar a vitória ao conjunto azulgrana. Porém, o Independiente venceu os dois jogos seguintes, por 2-0 em visita ao Deportivo Espãnol (resultado que devolveu a liderança para Avellaneda) e por 2-1 sobre o forte Platense daquele momento, com emoção: Rambert e Garnero anotaram nos minutos 76 e 86, respectivamente.

    Independiente e Huracán então empataram as partidas que tiveram antes da pausa que o campeonato fez para a Copa do Mundo, em meados de junho. Estavam igualados na liderança de um torneio embolado: River, Rosario Central, Banfield e Belgrano vinham um ponto atrás, com San Lorenzo e Platense tendo outro ponto a menos. O Rojo tratou de manter a forma com amistosos até pelo Japão (além de jogos contra o Napoli no estádio do Vélez e a Roma em Mar del Plata, ambos pela “Copa Carlos Saúl Menem”, vencida pelos argentinos), e quando o torneio foi retomado, em 27 de julho, parecia com problemas: Perico Pérez era visto como sem ritmo e não escondia a insatisfação ao ver Raúl Cascini começar o semestre na titularidade, Rotchen pegaria dois jogos de gancho ao acumular oito amarelos e Gareca estava lesionado no tendão de aquiles.

    Assumido torcedor (e ex-jogador) do rival Racing, Walter Parodi deixa o clubismo em casa em sua noite de talismã: dois gols para empatar o 2-0 aberto pelo Rosario Central

    Recomeçou o torneio em duelo direto com o Central (treinado por… Pedro Marchetta) e empatou o terceiro jogo seguido, mas saiu no lucro: perdia de 2-0 e o reserva Walter Parodi teve sua noite de talismã, substituindo o lateral Craviotto para marcar os dois gols da igualdade, cabeceando bola levantada por López e aproveitando a sobra de um cabeceio furado de Garnero em cruzamento de Cagna. Cascini foi expulso e Pérez retomaria sua vaga. Menos mal para Brindisi e colegas que simplesmente todos os concorrentes empataram também. Na rodada seguinte, porém, os de Avellaneda não passaram de um 0-0 com o Argentinos Jrs, que vinha mandando seus jogos em Mendoza (!) por acordo com patrocinadores que reforçavam o Bicho com jogadores como Faryd Mondragón, Roberto Acuña ou Gabriel Cedrés. O único ponto alto da partida foi um cabeceio de Rambert no travessão.

    Um dia depois, o Huracán se isolou na liderança ao arrancar em Corrientes um 3-2 sobre o cascudo time do Deportivo Mandiyú, com gol de falta de Pelletti aos 44 do segundo tempo; o Rojo foi ainda igualado pelo Central, que soubera bater por 2-0 dentro de La Plata um time interessante do Gimnasia, campeão em janeiro da Copa Centenário. Por fora corria o San Lorenzo, com dois pontos a menos que seu grande rival após vencer por 2-0 o Gimnasia de Salta com dois gols do ídolo brasileiro Silas. Mesmo em uma semana com Cascini e Parodi sentindo contraturas e Gareca treinando à parte por tendinite, além de outros desfalques por suspensão, o Independiente desencantou. Brindisi encontrara enfim a formação titular, que rendeu um sonoro 4-0 no Banfield, ainda aspirante ao título ao começar a rodada a três pontos do líder.

    Zanetti estava suspenso e o Taladro foi presa fácil em goleada que marcou uma reconciliação de Usuriaga e Pérez com Brindisi; ambos não vinham jogando e abriram e fecharam a goleada, com o volante fazendo questão de comemorar seu golaço (um petardo de fora da área após Ángel Comizzo bater roupa) abraçando o treinador. O colombiano, que batera colocado entre dois zagueiros, também deu a assistência aos outros dois gols, cruzando pela direita para Rambert gingar e colocar no canto e pela direita para López emendar trombando. Essa partida marca o deslanche de Usuriaga na Argentina e do próprio Rojo, que ainda não havia marcado mais de dois gols em uma só partida no Clausura e logo se acostumaria a golear.

    Pelletti celebra seu gol no Banfield na penúltima rodada no que poderia ser a imagem do título, pois àquela altura o Huracán era campeão antecipado. Mas em La Plata o veterano “Luli” Ríos (entre Rotchen e Garnero) iniciou a virada de 5-1 sobre o Gimnasia e manteve o Independiente no páreo

    O Huracán, do seu lado, seguia líder absoluto ao ganhar depois o duelo direto com o Central, gol de Pelletti. Na antepenúltima rodada, isso se inverteria: o Globo jogou antes e evitou a derrota com gol de Couceiro no penúltimo minuto, em 2-2 na “casa” do Argentinos Jrs em Mendoza. Poderia ser igualado pelos de Avellaneda se estes vencessem o Boca, e na época os auriazuis eram fregueses: os diablos tinham quatro vitórias a mais que os xeneizes no duelo. Em La Bombonera, Gustavito López, habilitado por belo enfileiramento de Cagna, não desperdiçou cara a cara com Carlos Navarro Montoya para abrir o placar, que seria maior se Usuriaga não acertasse a trave após driblar El Mono, em tarde onde os visitantes jogarem bem melhor. Mas, faltando 15 minutos, sofreram o empate em lance de azar: Islas espalmou, a bola resvalou na própria zaga e voltou para Sergio Martínez, sozinho e sem impedimento pela “assistência” involuntária, abaixar a cabeça para marcar no gol vazio.

    Assim, o Huracán logrou chances de título por antecipação na penúltima rodada. Era preciso que o Globo ganhasse e o Rojo caísse em La Plata para um o Gimnasia, com torcida (em êxtase pelo rebaixamento do Estudiantes na véspera) historicamente aliada à do Racing e treinado pelo velho ídolo racinguista Roberto Perfumo. E era o que acontecia no intervalo. No Bosque platense, uma bomba de Guillermo Barros Schelotto dava a vitória aos alviazuis e em Parque de los Patricios os uruguaios Pelletti e Delgado provocavam a euforia quemera com um 2-0 no Banfield.

    O 2-0 huracanense se manteve, mas os comandados de Brindisi aguaram a queima na Quema: Ríos (em golaço de fora da área, soltando de primeira a bola afastada pela defesa), Pérez (de pênalti que rendera a expulsão do oponente Guillermo Sanguinetti, que usara a mão para impedir gol de Garnero), Rambert (tocando para o gol vazio a bola recuada por Usuriaga, que atraíra o goleiro à trave esquerda) e duas vezes Usuriaga assinalaram uma virada inapelável de 5-1. El Palomo teve para si atribuído um gol contra de Darío Ortiz e fechou a conta com classe: tocou de calcanhar para Cagna, recebeu dele de volta e concluiu um toque sutil colocado na gaveta, mantendo o Independiente um ponto atrás do líder; o Central, ao ser derrotado pelo River, deixou o páreo. Por coincidência, a rodada final renderia justamente o confronto direto. A favor do time de Avellaneda, o fator casa. A favor da surpresa do torneio, o embalo de que não perdia desde aquela 7ª rodada e a prerrogativa de jogar pelo empate.

    O gol mais bonito de 28 de agosto de 1994 foi o segundo, em falta cobrada com maestria pelo camisa 10 Garnero. À direita, o goleiro Islas e o técnico Brindisi, ambos torcedores huracanenses assumidos, não deixam qualquer “tipo de dúvida” a profissionalismo

    “Esse é um plantel muito especial. Veja que a maioria são garotos e além disso não existe nenhuma estrela. Somos humildes”, destacava o goleiro Gutiérrez, descartando qualquer oba-oba dos visitantes. De fato, nenhum jogador do Huracán estava no pódio da artilharia do campeonato, dividida entre Hernán Crespo (River) e Marcelo Espina (Platense e primeiro sucessor de Maradona com a camisa 10 da Argentina), com onze gols cada – Sergio Martínez, do Boca, e Claudio Spontón, também do Platense, assinalaram oito e Rubén Capria, do rebaixado Estudiantes, fez sete. Note-se assim que também não havia ninguém do Independiente nessa tabela; o Rojo era outro time que sabia balancear coletivamente suas peças, a ponto dos dois primeiros lances de perigo serem proporcionados pelo volante Perico Pérez – primeiro, em falta espalmada por cima do travessão por Gutiérrez, e depois uma bomba rasante de fora da área, rebatida para conclusão que passou perto desferida por Rambert em chute cruzado.

    O placar foi aberto aos 18 minutos, com assistência de Gustavito López em cruzamento rasteiro, antevendo a infiltração que o velho compadre Pascualito Rambert protagonizou para emendar entre a zaga adversária – concluindo bela jogada tramada desde o meio pelos pés do Palomo Usuriaga, Pérez, Cagna, novamente Usuriaga, Rambert e Garnero até chegar em López pela esquerda. O técnico Brindisi, contido, sequer sorriu; ele declararia que não chegou exatamente a sofrer e que se sentiu “feliz por alcançar o campeonato”, sem esconder ter sido cobrado pelas amizades próximas, “mas sempre souberam me entender porque os conheço desde os 10 anos. Eles queriam que o Huracán ganhasse, mas sabiam que o amigo precisava desse título”. Dany Garnero, em magistral folha-seca, anotou o 2-0.

    Ainda no jogo, o Huracán quase diminuiu. Sempre perigoso na bola parada, Barrios soltou um míssil rasante que furou a barreira de uma falta, mas Islas conteve no reflexo. O goleirão confessaria: “não era a final que eu queria jogar, porque sou torcedor do Huracán. Apesar disso, ali quis ganha-lo, e lhe ganhei”. O primeiro tempo terminou no 2-0. O terceiro começou com Luli Ríos recolocando no ataque a bola que chegou de um tiro de meta de Gutiérrez. López pegou, triangulou com o parceiro Rambert (pronunciando “Râmbert” pelos argentinos e não “Rambér” como ordenaria o idioma de suas origens francesas) e cruzou no limite da linha de fundo para o amigo mergulhar desajeitado, mas com sorte: seu cabeceio resvalou no adversário César Couceiro e a bola terminou tomando mansamente o caminho do gol.

    Cagna no lance de seu gol no clássico com o Racing, onde o empate pareceu lhe fazer perder os cabelos: à direita, erguido junto com Rotchen e López na festa do título

    Posteriormente, Barrios impediu sobre a linha que Rambert anotasse seu terceiro gol; Garnero deixara no chão com um drible seco um quemero e colocara Pascualito na cara de Gutiérrez, que foi driblado, mas o atacante perdera ângulo. Entregue, o Huracán ainda teve Pelletti expulso pelo segundo amarelo após carrinho traseiro em Rambert, que havia recebido livre um passe verdadeiramente bochinesco de López para partir ao gol. O quarto gol tardou, mas veio. E de outro alguém com passado relacionado ao Huracán. Ao contrário de Brindisi ou Islas, Ricardo Gareca nunca fora torcedor huracanense, longe disso. Hincha doente do Vélez, foi um entre tantos espectadores frustrados em 1971, quando La V Azulada, então líder na rodada final, perdeu em casa de virada para um instável Huracán, ficando no vice (justamente para o Independiente).

    “Lembro que o Huracán não tinha nada a perder nessa tarde e que o Vélez antecipou o festejo do campeonato, já tinha toda a festa armada. Isso é complicado. E não me esqueço mais de como as pessoas rasgavam os carnês de sócios. É uma imagem muito forte”, relataria El Tigre em 2009, semanas após uma vingança já como técnico velezano campeão exatamente em duelo direto contra um Huracán que chegara líder na rodada final para visitar o vice-líder – tal como em 1994. Há 25 anos, Gareca, ainda jogador (saíra do banco para substituir Rambert), teve seu troco pessoal. Lançado por Garnero, Cagna cruzou desde a ponta-esquerda para o próprio Garnero ajeitar de cabeça para o veterano fuzilar.

    “Um dos dois tinha que ganhar e ganhou o melhor”, resignou-se o técnico Cúper. Em 2 de setembro já começava o Apertura 1994. Na primeira rodada, seus jogadores adentraram em campo com uma camisa extra, na mão, para lançarem à torcida, em reconhecimento ao apoio na campanha que mais vencera no Clausura – e que paradoxalmente terminou em segundo para a equipe que de fato teve o melhor ataque e melhor defesa. O Globo ganhou por 3-1 do Deportivo Mandiyú, vencendo também nas duas rodadas seguintes, mas desandou na 7ª rodada após um simbólico 4-1 sofrido diante do Vélez.

    Parceria de infância: no time infantil à esquerda, Rambert é o loirinho agachado e Gustavo López segura a bola (o treinador é seu pai). Em 1994, celebraram o primeiro título com adultos, com Garnero ao meio

    Nada terminaria como antes: cairia para 14º no Apertura e Cúper se mandaria para o Lanús, levando Hugo Morales juntos para a chamada Cúperativa levar os grenás à conquista da Copa Conmebol de 1996 enquanto o ex-clube iniciava uma série de temporadas ruins que, salvo a de 1995-96, seria marcada por campanhas nos últimos lugares até cair (com Islas de goleiro pelo time do coração, enfim) em 1999. Já no Clausura 1995, o Huracán seria o penúltimo enquanto via o rival San Lorenzo encerrar jejum de 21 anos, sob o trabalho técnico de um outrora torcedor huracanense chamado Héctor Veira.

    Em paralelo à queda dos vice-campeões, o Independiente vivenciava seu único período de conquistas contínuas desde o fim da Era Bochini: três meses depois da reconquista nacional (ainda a penúltima do Rojo, sucedida só pelo elenco de Gabriel Milito e Pablo Guiñazú em 2002, e que inclusive igualou-o na época ao rival Racing na contagem geral, incluindo o amadorismo), Brindisi e comandados levantaram o título internacional que mais faltava ao Rey de Copas, a Supercopa Libertadores.

    Em abril de 1995, então, foi a vez da única Recopa vencida pelo clube – que, mesmo sob desmanche do elenco vencedor há 25 anos (incluindo os quemeros Brindisi e Islas, que deram lugar a Miguel Ángel López e Faryd Mondragón, respectivamente) e primando mais pelo pragmatismo do que belo jogo bonito, ainda foi copeiro diante do centenário Flamengo no bi da Supercopa, em dezembro de 1995; só aí encerrou-se uma era fugaz, mas suficientemente intensa para sedimentar alguns dos maiores ídolos em Avellaneda, e atrofia ainda sentida em Parque de los Patricios.

    Para mais detalhes, recomendamos seguir a conta @1994Campeon no twitter, que procura relembrar cada dia-a-dia do Independiente de 1994 desde os acontecimentos de julho

    Islas, Rotchen, Ríos, Pérez, Serrizuela e Craviotto; López, Cagna, Usuriaga, Garnero e Rambert. O onze titular só foi sedimentado na reta final do Clausura e dali a três meses seria campeão também continental
  • Independiente na primeira Libertadores e o início da dinastia

    Independiente na primeira Libertadores e o início da dinastia

    O Independiente na primeira Libertadores conquistou em 1964 a taça inaugural de um clube argentino. Foi o começo da dinastia de sete títulos continentais.

    Essa comemoração foi posterior, na verdade, após a vitória no jogo de ida do Mundial de 1964, passando a simbolizar a conquista continental. Decaria (de terno, atrás), Bernao, D’Ascenzo (de terno, à esquerda), Maldonado (de cavanhaque), Rodríguez, Toriani (de camisa azul), Ferreiro e Santoro (de amarelo) são os jogadores presentes

    O ano de 1994 encerrou uma longeva tradição. Pela primeira vez, o maior campeão da Libertadores não estaria na final do torneio em um ano encerrado em 4. Na realidade, sequer o disputou há 25 anos. A lacuna foi relativamente compensada em novembro, quando o Independiente faturou sua primeira Supercopa. Especialmente pelo lance do título: Sebastián Rambert foi habilitado por um compadre desde a infância pré-juvenis rojos, Gustavo López, e em pleno ar encobriu Carlos Navarro Montoya para assinalar o único gol do jogo da volta após empate na ida. Aos mais velhos, foi um rigoroso replay do primeiro “gol da América” ao time de Avellaneda (e do futebol argentino), anotado há exatos 55 anos. História que merece ser relembrada hoje.

    Se o elenco de 1994 tinha Rambert e Gustavito, o de trinta anos antes tinha como velhos conhecidos a dupla Mario Rodríguez e Raúl Savoy. Ambos integraram o Chacarita campeão da segunda divisão em 1959 e quinto colocado na elite em 1962, até então a melhor campanha da história funebrera, reeditando então a parceria na seleção secundária enviada para representar a Argentina na Copa América de 1963, na qual Rodríguez (herói ao continuar jogando contra a campeã e anfitriã Bolívia mesmo fraturando a mandíbula, anotando os dois gols da derrota de 3-2) terminou na artilharia. Foram ambos adquiridos pelo Independiente para 1963, logo se firmando como titulares na campanha campeã argentina (Rodríguez foi inclusive o artilheiro do elenco, com dezesseis gols), retratada neste Especial. Entre um ano e outro, o time-base não sofreu maiores alterações. A mudança mais marcante seria iniciada exatamente para os dois jogos finais.

    Quando a Copa dos Campões (o torneio ainda se chamava assim) começou, o goleiro seguia sendo o galã Osvaldo Toriani, protegido pelo uruguaio Tomás Rolán na zaga esquerda, Roberto Pipo Ferreiro e Jorge Maldonado nas laterais e David Acevedo como volante central. A ausência em relação a 1963 foi o outro zagueiro; Rubén Hacha Brava Navarro se fraturara ainda em abril, mas seguiu de muletas no elenco para dar apoio moral. Sua vaga foi ocupada por Ezequiel Bellavigna nos três primeiros jogos e por Juan Carlos Guzmán nos demais, exceto a primeira final (onde Héctor Zerillo atuou na posição). Destes homens, destaque especial a Ferreiro, que treinou o clube na primeira vez que venceu-se o Mundial, em 1973; e a Maldonado, o capitão presente desde as vacas magras que foram os anos 50 (o Rojo passou pelo seu pior jejum ali, não ganhando nada entre 1948 e 1960) e que se retiraria do Independiente naquele ano.

    O elenco de 1964. A lista de nomes está no segundo parágrafo abaixo; o brasileiro Benny Guagliardi é o antepenúltimo sentado no gramado, da esquerda para a direita

    Era La Chivita Maldonado também quem liderava a característica apresentação dos diablos, posicionando-se à frente dos colegas enfileirados lado a lado para saudar as tribunas. Segundo o uruguaio Ricardo Pavoni, contratado já em 1965 exatamente para substituir Maldonado, o gesto sutil mas poderoso de exibir as palmas das mãos foi idealizado pelo velho capitão “para demonstrar às pessoas que nós temos as mãos limpas”, em resposta a acusações de que teriam entregue a partida final do campeonato de 1963 para o Atlanta (foram derrotados, mas terminaram campeões ainda assim). Parte da imprensa criticava severamente os Rojos e disso surgiu outro gesto dos jogadores, este sugerido por Mario Rodríguez: posariam todos em pé lado a lado para as fotos, ao invés de se dividirem entre agachados e em pé, tudo a fim de complicar o quanto fosse possível o enquadramento para os repórteres fotográficos.

    Ainda assim, houve imagem posada com todos os componentes do elenco campeão, na imagem mais acima – na fila superior, o roupeiro Iriarte, o fisiologista Nilo Bonell, Rubén Navarro, Jorge Maldonado, Osvaldo Toriani, Roberto Ferreiro, José Paflik e o preparador físico Horacio González García; logo abaixo, o roupeiro Pascual Basile, o diretor Miguel Fernández Schnoor, Vicente de la Mata (filho do ídolo de mesmo nome dos anos 30 e 40), David Acevedo, Miguel Ángel Santoro, Miguel Ángel Mori, Héctor Zerillo e massagista Miguel Tiritico; logo abaixo, Raúl Decaria, Ezequiel Bellavigna, Osvaldo Mura, Pedro Prospitti, Hugo Trucchia, Luis Suárez, Juan Carlos Guzmán e o técnico Manuel Giúdice; sentados no chão, Félix Arámbulo, Mario Rodríguez, Osvaldo Burika, Raúl Bernao, o brasileiro Benny Guagliardi, Raúl Savoy e Roberto Santiago.

    Todos deveriam estar em pé lado a lado também naquela saudação, segundo relataria Pavoni ao elenco campeão da Sul-Americana de 2017: “lhes expliquei que se entram trotando, é uma desordem, um passa do outro, não serve. Tem que ir sempre caminhando. Lhes ressaltei que era importante pararem bem na metade do campo, e que o capitão deveria dar dois passos adiante e saudar aos quatro cantos. Que muitos insultariam, outros aplaudiriam, mas assim demonstras que aguentas os xingamentos, que tens personalidade e que vai ao campo adversário para ganhar. A mensagem é que essa camisa pesa”. Camisa que à frente era suada pelo quinteto iniciado com Raúl Bernao na ponta-direita, uma espécie de Garrincha argentino sem o alcoolismo – e também sem o reconhecimento merecido a nível de seleção.

    O protesto em forma de pose fotográfica no Maracanã: Savoy, Rodríguez, Suárez, Mura, Bernao, Maldonado, Acevedo, Ferreiro, Rolán, Guzmán e Toriani complicando a vida dos fotógrados

    Na meia-direita, Osvaldo Mura e Pedro Prospitti (que passaria pelo São Paulo) se revezavam. O centroavante era um Luis Suárez argentino, com os velhos compadres Rodríguez e Savoy preenchendo respectivamente a meia e a ponta esquerdas. A estreia veio em 31 de maio em um torneio ainda enxuto e que, fazendo jus ao nome de Copa dos Campeões, só admitia mesmo os campeões nacionais – a não ser que o detentor da taça continental, também com vaga assegurada, fosse campeão também em seu país; assim, o Bahia, vice brasileiro em 1963, acabou participando (de uma espécie de pré-Libertadores com o campeão da federação mais fraca, a venezuelana) enquanto o campeão sul-americano Santos teria a prerrogativa de estrear já nas semifinais. Os outros três lugares nas semis pertenceriam aos líderes de cada grupo triangular.

    A chave do Independiente tinha Alianza Lima e Millonarios. E os argentinos acabaram não precisando jogar fora de casa. Estrearam em 31 de maio em ritmo de verdadeiro treino, com um 4-0 no Alianza (Savoy aos 5, Rodríguez aos 35 e Rolán aos 40 do primeiro tempo; Suárez aos 42 do segundo). Essa partida se deu exatamente uma semana após a maior tragédia do futebol, em que 328 pessoas perderam a vida em jogo pré-olímpico em Lima entre as seleções dos dois países. Sem outro estádio na capital peruana com condições adequadas ao jogo da volta, o Rojo propôs que a partida fosse mandada em Avellaneda mesmo, no estádio do rival Racing. Os peruanos, treinados pelo brasileiro Jaime de Almeida, toparam e endureceram como se estivessem em casa: abriram o placar aos 34 minutos do primeiro tempo, com Pedro León. Savoy empatou logo aos 42 e virou de pênalti aos 16 do segundo tempo. O lance do pênalti também rendeu a expulsão do zagueiro adversário Manuel Grimaldo. Mas os argentinos não conseguiram eficiência diante da superioridade numérica e acabaram castigados: aos 34, León anotou seu segundo gol e o 2-2 prevaleceu mesmo diante de outra expulsão peruana, já aos 44, de Juan de la Vega.

    O 2-2 com o Alianza também foi a única partida do brasileiro do elenco do Independiente, o meia Benny Guagliardi, na campanha campeã; adquirido junto a uma forte Ferroviária de Araraquara (um de seus colegas na Ferrinha era Dudu, depois histórico parceiro de Ademir da Guia no Palmeiras), foi utilizado como centroavante a partir dos 40 minutos na única ausência de Luis Suárez naquela trajetória; na ocasião, Roberto Santiago começou jogando e terminou substituído pelo brasileiro, cuja transferência não fora insólita; em tempos de mais valor aos Estaduais, outros pequenos times paulistas cederam jogadores ao futebol argentino da época, com o Rosario Central tirando Rodrigues Tatu (jogador da Copa de 1954) do Juventus da Mooca em 1960, Zezé Gambassi chegando ao Lanús após defender o São Bento e o Corinthians de Presidente Prudente em 1961, ano em que o Estudiantes tirou Adamastor do XV de Piracicaba. Mas, sem espaço em Avellaneda, Benny rumaria em 1965 ao Gimnasia LP, onde teve destaque.

    A visita cordial de Pelé ao vestiário do Independiente após a virada argentina no Maracanã. À esquerda, é possível distinguir Maldonado (de cavanhaque) e Ferreiro (que cumprimenta o Rei)

    Três dias depois, em 7 de junho, era a vez de encarar o Millonarios, que também tinha seus brasileiros: o zagueiro Almir da Silva, ex-jogador do Fluminense que se naturalizara e defendera a própria seleção colombiana na Copa América de 1963, o meia Orlando Basílio e o técnico João Avelino, o “71”. Havia ainda o paraguaio Silvio Parodi, de passagens pelo Vasco dos anos 50. O brasileiro Basílio até abriu o placar aos 6 minutos na Doble Visera, mas sobreveio um massacre inaugurado com virada-relâmpago entre os 31 e 33 minutos do primeiro tempo, em gols anotados por Suárez e Rodríguez, respectivamente. Aos 2 do segundo tempo, Suárez fez outro e Savoy matou a partida ao marcar o seu aos 19. Aos 29, Rodríguez marcou seu segundo gol. Ainda assim, os colombianos continuavam representando ameaça real à vaga; eles souberam aproveitar o fato de enfrentar duas vezes em casa os peruanos, tal como os argentinos, e venceram ambas. Àquela altura, o Rojo já reunia um cartel de 37 jogos seguidamente invictos incluindo amistosos, mas ficaria de fora se a série fosse interrompida em Bogotá.

    Nem foi preciso viajar, porém: diferenças surgidas entre a Conmebol e a federação colombiana cancelaram o jogo e deram os pontos aos hermanos. A “vida fácil” acabaria nas semifinais: haviam pela frente o Santos, ainda que sem Pelé do outro lado. O Rei estava machucado e não pôde atuar nas duas partidas. Não só Ele, mas Coutinho e Mengálvio também não estariam lá – e nem Dorval, que passara a maior parte do ano de 1964 emprestado justamente ao Racing. Mas, com todos eles em campo, incluindo Dorval, o Santos já havia enfrentado o Independiente; foi na inauguração da iluminação noturna da Doble Visera, em 1 de fevereiro. Levou de 5-1. E, mesmo sem Pelé, os alvinegros sabiam ser eficientes, pois foi sem seu maior astro que venceram o Milan no Mundial de 1963. Gilmar, Joel Camargo, Dalmo, Zito, Lima, Toninho Guerreiro, Almir Pernambuquinho e Pepe estavam aptos para reencontrar os argentinos em julho e agosto. No Brasil, os praianos resolveram usar o Maracanã em vez da Vila Belmiro ou algum estádio paulistano, medida comum na época e que costumava dar certo.

    Pelé foi visto como opção até o último momento, mas sua coxa não passou na avaliação física. Preparo físico, aliás, era a chave daquele Independiente: o técnico Manuel Giúdice não tinha tática pré-estabelecida e variava a ordem dos jogadores em campo conforme o que via já em jogo nos adversários. Giúdice exigia dos comandados exatamente um bom preparo, coordenado pelo assistente Horacio González García, El Gallego. E isso, naqueles tempos, fez a diferença: “o quadro argentino é muito rápido. Seus jogadores correram o tempo todo, não dando chance ao nosso. Não faço nenhuma restrição ao triunfo do Independiente”, afirmou na época o técnico santista, Lula, ao Jornal do Brasil, que após matérias como “Conspiração subversiva” e “Lealdade à revolução”, mostrou que já naquela época se usava a música “Sí sí señores, yo soy del Rojo, sí sí señores, de corazón, porque este año, de Avellaneda, de Avellaneda, salió el nuevo campeón“, usada nos vestiários pelos argentinos.

    Fotos icônicas das comemorações de Ferreiro no Maracanã e de Prospitti na final em casa

    Por um momento, após Pepe abrir o placar na falta, o Independiente se desesperou, buscando afoito o ataque. O gol de Peixinho, aos 34 minutos, veio no contragolpe e parecia definir as coisas, mas em três minutos veio mais tranquilidade aos argentinos. O reserva Miguel Ángel Mori (que venceria o torneio também pelo rival Racing, em 1967) entrou três minutos depois, substituindo Acevedo, e imediatamente armou a jogada para o primeiro gol rojo, cruzando para Rodríguez diminuir. E antes do fim do primeiro tempo veio o empate: Savoy, Suárez e Bernao trocaram passes diante da defesa santista e e este fez o gol, aos 45 minutos, soltando uma pancada na segunda trave de Gilmar.

    O Jornal do Brasil assinalou contundentemente que “o Santos foi um time medíocre, sem nenhum poder ofensivo e com uma defesa falha do começo ao fim do jogo”, com o jornal reconhecendo que os gols brasileiros se deveram mais à desatenção argentina – registrando-se nesse sentido que “o goleiro Toriani foi quase perfeito, pois falhou apenas no primeiro gol do Santos, quando, apesar da violência do chute e da bola ter passado pela barreira, poderia ter defendido porque a falta foi de longe” e que “Maldonado dominou completamente o seu setor e numa das poucas vezes em que falhou, Peixinho marcou para o Santos”. O segundo tempo foi de domínio dos visitantes, com o gol da virada tardando além do devido, mas saindo em momento fatal, no minuto 45: Savoy, Rodríguez e Suárez trocaram passes e este, em plena noite de aniversário, concluiu chute no qual a bola ainda desviou em Modesto e enganou Gilmar.

    O êxtase argentino não passou despercebido pelo Jornal do Brasil: “ninguém se preocupava com prêmios, pois achavam que a vitória sobre o Santos era o melhor que podiam receber. O assunto será discutido em Buenos Aires. (…) [O reserva José] Paflik, que havia jurado que rasparia a cabeça caso ganhasse do Santos, disse que vai cumprir a promessa”. O festejo histórico nos vestiários, que chegaram a ser visitados por um Pelé sorridente a afável com os adversários, estamparia a capa da edição que a revista argentina El Gráfico lançaria após o título (e não algum lance da final propriamente), e de forma também histórica: foi a primeira vez em que ela resolveu estender a foto para a contracapa também. Ressacados, os rojos perderam para o River pelo campeonato argentino e, enervado, o Santos fez 5-1 no São Paulo na semana que se passou até o jogo da volta.

    A capa que retratou a festa íntima no Macaranã: em pé estão Trucchia (de terno), Mori, Santiago, Rodríguez, Navarro (de terno), Paflik, Decaria (curvado), Guzmán, Maldonado e Suárez; sentados estão Toriani, Bernao, Ferreiro (camisa 4), Savoy, Mura, Santoro e D’Ascenzo

    Em Avellaneda, estariam presentes o técnico do Nacional uruguaio (já classificado à final), o brasileiro Zezé Moreira, e o da Internazionale (campeã europeia), o argentino Helenio Herrera. Embora o árbitro tenha deixado passar uma cotovelada do explosivo Almir Pernambuquinho em Savoy, “os brasileiros foram quase sempre dominados e não tiveram meios de continuar lutando pelo seu terceiro título consecutivo. Mori, que depois foi substituído por Acevedo, e Toninho marcaram os gols do primeiro tempo, cabendo a Mario Rodríguez – o melhor jogador da partida – dar a vitória ao Independiente. Quase no final, Guzmán e Toninho foram expulsos de campo pelo juiz, por terem trocado pontapés”, resumiu o Jornal do Brasil.

    Mori se contundira aos 30 minutos, inverteu de posição com Suárez e acabou presentado com o gol aos 36 (“numa jogada toda ela trabalhada por Mario Rodríguez. O meia bateu dois zagueiros do Santos, driblou Gilmar, foi até a linha de fundo e entregou para Mori com o gol vazio”), mas saiu logo depois. Só que o Santos empatou em dois minutos, voltando a viver na disputa após Toninho girar para chutar cruzamento de Peixinho. Mas no segundo tempo, “aos 19 minutos, Bernao driblou Dalmo, voltou, esperou que o zagueiro brasileiro se recuperasse, driblou-novamente e correu até a linha de fundo, dali cruzando para a pequena área. Gilmar saltou atrasado e Mario Rodríguez, que vinha na corrida, emendou para o fundo do gol”.

    Rodríguez já havia até marcado na partida, mas em lance anulado por impedimento por Arthur Holland, o mesmo árbitro que apitara no Maracanã – coisas esquecidas quando essas semifinais voltaram recentemente à tona sob suspeitas de que Julio Grondona teria subornado a arbitragem. “O resultado que o Independiente conseguiu jamais esteve ameaçado. Pelo contrário, foram os argentinos que estiveram mais e sempre perto do gol. E o restante da partida não teve modificação, o Independiente dominando sempre, mais tranquilo, rápido, seguro em suas jogadas de armação, e o Santos recuado, dominado, lento e sem imaginação”, concluiu o Jornal do Brasil. Restava aos argentinos superarem outro possível campeão inédito: o Nacional ansiava responder ao Peñarol, campeão já duas vezes que emendara cinco títulos uruguaios seguidos no início da década, igualando um orgulho que era exclusivo dos tricolores.

    O gol do título da primeira Libertadores do Independiente, de Rodríguez, e sua incrível semelhança com o lance de Rambert que garantiu trinta anos depois a primeira Supercopa ao clube

    O principal jogador tricolor era inclusive argentino – José Sanfilippo, maior artilheiro da história do San Lorenzo e que já brilhara na própria Libertadores anterior, após marcou os três gols do Boca sobre o Santos na final perdida de 1963 (ele depois defenderia Bangu e Bahia no Brasil). Só que a sorte de campeão soprou novamente ao Independiente: Sanfilippo fraturou-se em amistoso contra o Vasco antes das finais. E o terceiro goleiro rojo, Miguel Ángel Santoro, estreou no torneio pegando tudo – o titular Toriani sentira dores na costela e foi barrado, e Giúdice resolvera escolher o garoto ao invés do reserva imediato Hugo Trucchia. Pepé Santoro se converteria no maior goleiro do clube e só deixaria a titularidade após ser vendido ao futebol espanhol já em 1974, a tempo de vencer também as Libertadores de 1965, 1972 e 1973 (e de ir à Copa do Mundo de 1974).

    Enquanto a Europa assistia naquele mesmo 6 de agosto de 1964 o veterano Alfredo Di Stéfano assinar com o Espanyol após onze anos de Real Madrid, a plateia do Centenário viu um 0-0, com o estreante Santoro mostrando-se a grande figura. Na volta, em 12 de agosto, o artilheiro Rodríguez fez o solitário gol do título após inteligente jogada de Pedro Prospitti, que passara-lhe a bola em área desguarnecida pelo Nacional, entre Edgard Baeza e Emilio Álvarez. Os uruguaios, que tinham consigo um ex-Independiente no defensor Vladas Douksas, vinham se defendendo bem: embora os rojos estivessem mais ofensivos em casa, não vinham conseguindo penetrar a grande área. Rodríguez também foi engenhoso ao receber o passe, tocando a bola com o calcanhar para ela cobrir não só a si próprio mas para tirar do alcance do goleiro Roberto Sosa, aos 35 do primeiro tempo.

    O 1-0 foi o bastante para criar mística copera do futebol argentino: “o do Independiente é exemplar. Tem a virtude de reposicionarmos no mundo. Nos cotiza novamente no mercado internacional. Assinala (…) um caminho a seguir”. Palavras proféticas determinadas na época pela El Gráfico.

    O famoso ritual pré-jogo das mãos levantadas reencenado na festa de vinte anos do título, em 1984: Santoro, Bernao, Guzmán, Acevedo, Santiago, Rodríguez, Mori, Zerrillo, Maldonado, Suárez, Paflik, Rolán, Mura. Ferreiro e De la Mata
    https://twitter.com/Independiente/status/1160990127826640897
    https://twitter.com/DaleRojoMAD/status/1160965660429684737
    https://twitter.com/afa/status/1160921379375603714
    https://twitter.com/historiasdegol_/status/1161052073489784835
  • Independiente 1984 Grêmio: a sétima e última Libertadores

    Independiente 1984 Grêmio: a sétima e última Libertadores

    O Independiente 1984 Grêmio decidiu a sétima e última Libertadores do clube argentino. Foi 1 a 0 no Brasil e zero a zero em Avellaneda.

    O craque Claudio Marangoni em Avellaneda não tirou o zero do placar e nem precisou: na ida no Brasil, foi só 1-0, mas o Independiente acertou três vezes as traves gremistas

    O Grêmio é o único time sul-americano a vencer duas finais continentais sobre o Independiente, pelas Recopas em 1995 e 2018 – no mundo, só La Grande Inter conseguiu algo assim, nos Mundiais de 1964 e 1965. Mas, na decisão mais importante entre o Rojo e o Tricolor, prevaleceu quem já era àquela altura o maior conhecedor da Libertadores (sempre terminou campeão quando foi finalista) mesmo enfrentando o então detentor do título. Soube batê-lo na própria casa, em atuação reverenciada pelos próprios brasileiros que tanto minimizam os méritos de conquistas prévias do clube de Avellaneda, atribuindo-as ao apito. De quebra, o sétimo troféu do dono do estádio Libertadores da América veio com um gol que serviu de prévia ao título da seleção na Copa de 1986.

    Embora aquele elenco de 1983-84 tenha vencido “só” uma Libertadores, já se disse que jogava melhor até que o conjunto tetra seguido de 1972-75. Pensamento que só não é total heresia pois é compartilhado pelo mítico Ricardo Bochini, único que atuou nos dois elencos. É o maior ídolo da rica galeria do clube, um craque idolatrado até por Maradona, que por causa dele se dizia torcedor do Independiente, recepcionando-o nos minutos finais da Copa do Mundo de 1986 com a declaração “venha, maestro, o estávamos esperando”. Para aquele mundial, nada menos que outros dois dos três jogadores que rodeavam El Bocha no meio-campo rojo foram chamados também: Jorge Burruchaga e Ricardo Giusti. O quarto elemento no clube tinha total condições também – era Claudio Marangoni, de técnica mais apurada que as de Sergio Batista (Argentinos Jrs) ou Julio Olarticoechea (Boca), mas com problemas pessoais com o técnico Bilardo.

    Como Bochini, Maranga também cravou que a melhor equipe que integrou foi a do Independiente de 1984, enquanto que o saudoso técnico José Omar Pastoriza, ele próprio campeão da Libertadores como jogador do clube em 1972 e morto em 2004 em pleno exercício do mesmo cargo no Rojo, reconheceu que aquele foi o melhor plantel que treinou: “tinham ganas, força, vontade, inteligência, o manejo. Tinham tudo”. El Gringo Giusti, jogador do Independiente mais vezes usado pela seleção, não teve dúvidas ao cravar seu melhor jogo pelo time: “a final da Libertadores contra o Grêmio em Porto Alegre: ganhamos de 1-0, mas foi um baile”.

    O maestro Bochini, a sólida dupla de zaga Villaverde e Trossero e o homem que anulou Renato Gaúcho – Carlos Enrique, El Loco

    Naquela época, a Libertadores era duríssima já na fase de grupos. Para começar, só o líder avançava. E não havia “cabeças-de-chave”, fórmula que evita times teoricamente mais fortes de se estropiarem precocemente: os dois representantes de cada país eram unidos no mesmo grupo. Isso simplificava a logística, mas às vezes originava chaves pesadas. Em 1984, o Independiente encarou inicialmente seu grande concorrente na época, o Estudiantes, que o deixara de vice em dois torneios argentinos seguidos: o Metropolitano de 1982 e o Nacional de 1983, conforme falamos aqui. Aquela foi a única boa fase da equipe alvirrubra entre os tempos de tri na Libertadores entre 1968-70 e o renascimento pós-2006 sob Juan Sebastián Verón. Tanto que o técnico que devolvera os pinchas às glórias, Carlos Bilardo, passou a treinar a seleção em 1983

    Em contraponto ao time operário que primava pelo jogo coletivo de 1968-70, aquele Estudiantes de 1982-83 jogava um bom futebol – ainda que soubesse ser aguerrido, como na épica “batalha de La Plata” com o Grêmio na Libertadores anterior. O maestro era Alejandro Sabella, então um meia-armador que nem imaginava que seria técnico da Argentina vice na Copa de 2014. Além dos pincharratas, a fase inicial teve uma dupla paraguaia. Se o Sportivo Luqueño destoava, o outro era o Olimpia, que vinha descobrindo o que é ser um time copeiro: havia derrotado o Boca na final de 1979, encerrando um ciclo de dois títulos seguidos dos auriazuis e se tornando o primeiro clube do Paraguai a ser campeão continental.

    Seriam os alvinegros quem mais complicaram para a festeira torcida roja, em êxtase especial desde o fim do ano anterior, em que sagrara-se campeã vencendo o arquirrival Racing, que ainda por cima caíra para a segundona: veja aqui. As dificuldades já começariam em tese desde o início, pois o Independiente jogou fora de casa as três primeiras partidas. Mas ainda assim começou bem. Arrancou um 1-1 com o Estudiantes (gol de Alejandro Barberón, desde a direita, para aproveitar passe de Ricardo Giusti aos 31 minutos e empatar) enquanto os paraguaios também empatavam entre si, ainda que o lateral Néstor Clausen virasse baixa após um jogo bastante trabalhado. Em Assunção, Jorge Burruchaga marcou aos 42 minutos o único gol do duelo contra o Luqueño de um jovem jovem José Luis Chilavert – já temperamental àquela altura, questionando descontroladamente o juiz brasileiro Romualdo Arppi Filho por validar o lance.

    O grande adversário do Rojo na Libertadores: o Olimpia, antes do sensacional 3-2 argentino em Avellaneda

    Três dias depois, ainda na capital paraguaia, com o árbitro brasileiro sendo Arnaldo Cézar Coelho, veio derrota de 1-0 para o Olimpia. Foi em chute de fora da área de Maciel em noite chuvosa no Defensores del Chaco, sem que as boas tentativas rojas vazassem a lenda Éver Hugo Almeida. Os alvinegros lideravam àquela altura. Após pausa de duas semanas, o Independiente recebeu um retrancadíssimo Luqueño. O bom toque de bola dos argentinos era facilmente afastado. O técnico José Omar Pastoriza primeiramente tentou resolver colocando a partir do intervalo o arisco ponta René Houseman, que mesmo quando vencera a Copa de 1978 já mostrava decadência. Foi uma raríssima partida do Loco (que estava no futebol sul-africano…) pelo clube e sua única naquela campanha. De fato, foi necessário recorrer-se a um tiro de fora da área desferido pelo elegante Claudio Marangoni para abrir o placar, aos 8 minutos.

    Marangoni ainda perderia pênalti no travessão, mas a vitória foi consumada aos 30 em falta cobrada por Sergio Merlini nas redes de Ubaldo González, que jogou aquela partida no lugar de Chilavert. Outras duas semanas depois, a Doble Visera ardeu no embate com o “asa-negra” Estudiantes. O histórico desfavorável recente parecia pesar quando José Daniel Ponce abriu o placar de pênalti aos 35 minutos do primeiro tempo, especialmente porque o Olimpia já havia ganho do Luqueño na rodada e disparado na liderança. O segundo tempo, então, rendeu a primeira grande noite copeira dos campeões na edição de 1984. Uma meia-volta mortal de Barberón tratou de empatar aos 8 minutos e uma cobertura magistral de Burruchaga virou aos 26. Aos 32, o triunfo consumou-se, com novo gol do Burru. Nem um novo pênalti perdido por Marangoni, aos 38, teve peso: aos 40, Bochini assinalou um inapelável 4-1.

    Foi o único jogo vencido por mais de um gol de diferença naquele grupo e seria fundamental adiante. Os de Avellaneda encerraram sua primeira fase recebendo o Olimpia. Como inspiração, homenagearam o velho ídolo Raimundo Orsi, campeão argentino duas vezes nos anos 20 antes de marcar um dos gols do título da Itália na Copa de 1934. Marangoni abriu o placar logo aos dois minutos e tranquilizou os colegas, mas até demais: os paraguaios viraram, com Jorge Guasch igualando ainda aos 17 e Gustavo Benítez anotando o segundo aos 10 do segundo tempo. Foi necessário um pênalti aos 29 para reacender a esperança. Dessa vez, quem chutou foi Burruchaga, convertendo. Nada que fizesse com que a tática desse lugar ao desespero insistente a cada minuto seguinte que se passava. Mas o empenho foi coroado no antepenúltimo minuto.

    Buffarini festeja o gol salvador sobre o Olimpia e Bochini comanda a orquestra em Porto Alegre

    Sergio Buffarini completou a segunda virada da noite ao cabecear cruzamento de Barberón, lançado por Bochini. Ainda era preciso torcer para o Olimpia não golear o Estudiantes no jogo que restava da chave apenas 48 horas depois. Os paraguaios até venceram, mas só por 1-0 (curiosamente, com gol do goleiro Éver Almeida, de pênalti), e se igualaram em pontos. Porém, diferentemente dos anos 70, não haveria jogo-extra: aquele 4-1 no Estudiantes terminou determinante para os rojos levarem a vaga pelos três gols a mais no saldo, rumando a semifinais que na época não eram mata-matas e sim uma nova fase de grupos, desta vez triangulares. O Independiente voltou a ter de encarar fora de casa os dois primeiros jogos. E novamente soube como fazer, empatando ambos para depois vencer tudo em casa.

    Primeiro, levou à Argentina um 1-1 com o forte Nacional uruguaio (gol de Barberón completando grande jogada de José Percudani, futuro herói mundial contra o Liverpool). O grande susto veio dois dias depois, em 2 de junho, e não em campo: o técnico Pastoriza sofreu um infarto e sua função foi assumida interinamente pelo restante da fase pelo assistente Ramón Toribio Adorno. Em 7 de junho, mesmo com Mandinga Percudani expulso para os dezesseis minutos finais, o Rojo segurou empate sem gols em Santiago contra a Universidad Católica. Em 26 de junho, os chilenos foram recebidos em Avellaneda diante da presença do próprio presidente Raúl Alfonsín, primeiro mandatário pós-ditadura e rojo assumido, no estádio – ele deu o pontapé inicial. Buffarini, aos 16, abriu o marcador que Miguel Ángel Neira empataria aos 2 do segundo tempo. Aos 29, brilhou então a estrela de Burruchaga para dar números finais.

    Iluminado como nunca no clube, Burruchaga também faria o único do embate com o Nacional em 4 de julho: “nessa Copa, fiz seis gols. Fiz em quase todas as decisões até a final. E a equipe foi sensacional”. Os dois adversários deveriam enfrentar-se depois, mas a partida nem foi realizada pela falta de necessidade: os resultados não lhes permitiam mais chances matemáticas de irem à final. Só havia pela frente o Grêmio, que, como campeão anterior, pôde entrar já na fase semifinal – um mimo que soube justificar ao, logo de cara, sapecar um 5-1 no Flamengo e, fora de casa, arrancar um 2-0 no outro concorrente, os surpreendentes venezuelanos da Universidad Los Andes. Os cariocas venceram os gaúchos por 3-1, mas a seguir o Grêmio aplicou outra goleada no sul: 6-1 na Universidad. Só não se classificou logo porque o Flamengo chegou aos mesmos 6 pontos.

    O único gol das finais, anotado por Burruchaga. De León já ficara para trás

    O jogo-extra nesse caso, que já não havia na primeira fase, continuava existindo na segunda. A neutra São Paulo recebeu a dupla brasileira, com os gremistas tendo vantagem do empate pelo enorme saldo. Mais longe de casa que os rubronegros, os tricolores cozinharam friamente o 0-0 ao fim de 120 minutos, pois houve prorrogação. Tudo observado em pessoa no Pacaembu pelo técnico rojo Pastoriza, já recuperado do infarto. Cinco dias depois, ocorreria no Olímpico o primeiro jogo final. Teriam os gaúchos a oportunidade de, quem sabe, encher novamente de gols um adversário sabidamente qualificado? Pastoriza rechaçou. Ainda no Brasil, declarou que o Independiente seria ofensivo em Porto Alegre, levando alguns pachecos a pensarem que o técnico ainda estaria sob efeito de sedativos cardíacos.

    Mas El Pato cumpriu a palavra, além de orientar que o rústico lateral Carlos Loco Enrique anulasse Renato Gaúcho, ordem cumprida à risca, segundo declarações de Enrique em 2013 – “Renato: um louco lindo, media 2 metros. Me haviam passado alguns dados, que era meio afeminado, e que lhe chamasse de ‘Pimentel’ ou algo assim. Não sei por que, mas comecei a dizer: ‘Pimental, pedaço de puto’, o gracejava, e o estádio inteiro gritava ‘Re-naaaa-to’. As meninas grudavam pelo vagabundo, uma boa pinta bárbara. Lhe meti uma cotovelada na boca que quase o mato, depois tive que aguentar. Pensas o quê, que eu não levava também?”. À parte esse duelo particular, os argentinos gastaram a bola. A ponto de o capitão Enzo Trossero, embora assumido torcedor do Racing na infância, jamais imaginar que aquela seria a última Libertadores do Rojo.

    Trossero ao menos falaria nesse sentido em 2016: “essas coisas são impossíveis de pensar no momento. O que jogamos nessa final contra o Grêmio no Brasil foi impressionante. Ganhamos de 1-0 e a revista El Gráfico deu várias notas 10. Lhes demos um baile impressionante, três bolas na trave, o gol de Burru…”. Houve mesmo veículos que deram 10 a todos os ganhadores: Trossero e sua dupla Hugo Villaverde (tio materno de Papu Gómez, torcedor assumido do clube embora tenha integrado os infantis do Racing) eram firmes no miolo da defesa e El Negro Clausen anulava o outro ponta gremista, Tarciso; Giusti, Burruchaga e Marangoni recuperavam a bola no meio para repassa-la ao maestro Bochini; Barberón abria espaços na defesa tricolor ao atrai-la às laterais e Buffarini fazia algum trabalho sujo para retardar as subidas de Hugo de León. “Todo o estádio aplaudiu de pé”, recordou Bochini sobre o triunfo argentino presenciado por 75 mil pessoas.

    Marangoni extravasa em Porto Alegre. Ainda foi preciso jogar a partida da volta, com Trossero (ex-torcedor do rival) recebendo a taça em noite protocolar

    Assim, enquanto o resto do mundo via as Olimpíadas de Los Angeles, gaúchos e gauchos praticavam jogo em que “foi tal o domínio que os jogadores do Grêmio terminaram totalmente desmoralizados, impotentes ante o toque desconcertante, ante esse açoite de vai-não-vai, freios e passes ao centímetro em que ninguém falava. (…) Poderia e deveria ser goleada. Terminou em baile. Com o povo do Grêmio paralisado, submetido à humilhação de não encontrar a bola que saíam a buscar” foram as palavras da revista El Gráfico sobre o confronto em Porto Alegre. Mas também vale transcrever o relato da revista brasileira Placar:

    “O Independiente vence pela sétima vez, jogando duro e bonito. (…) É um time todo ajustado para mesclar jogadores de grande efeito com entradas duras nos adversários, os jogadores atiram-se obstinadamente nos lances mais comuns, como se fossem decisivos. Um time que começa muito bem com o goleiro uruguaio Carlos Goyen, de excelentes reflexos, responsável, tanto no Estádio Olímpico de Porto Alegre, quanto em Avellaneda, pelo zero do Grêmio no marcador. A linha de zagueiros é caracteristicamente argentina. Clausen e Enrique são dois laterais rápidos, marcadores implacáveis, que raramente saem ao apoio mas que ‘matam’ as jogadas pelas pontas – Renato e Tarciso que o digam. O miolo de área fica com o gigante ruivo Trossero e o atlético Villaverde, ambos de grande impulsão, imbatíveis pelo alto. O meio-campo, coordenado por Bochini, tem no louro Marangoni um guarda fiel da cabeça da área e municiador insistente do ataque, mais Ricardo Giusti que frequentemente se transforma em ponta-dirieta. Burruchaga, Bufarini e Barberón são os homens de frente. Burruchaga é falso ponta-direita, cujos chutes fortes deram a maioria das vitórias do time na Libertadores, inclusive a de 1-0, contra o Grêmio, em Porto Alegre. (…) Bufarini, só um brigador, abre espaços para Bochini e Giusti. E Barberón, arisco, fecha com bastante frequência para o meio, buscando sempre o chute a gol”.

    O morno 0-0 ocorrido em 27 de julho de 1984 em Avellaneda terminou protocolar. O título fora definido três dias antes, quando Burruchaga foi lançado em velocidade pela ponta-direita por Bochini aos 24 do primeiro tempo e, perseguido por Hugo de León, tocou na saída de João Marcos. Dois anos depois, a jogada se repetiria, mas com Maradona na vaga de Bochini, Hans-Peter Briegel no lugar de De León e Harald Schumacher no de João, no lance que definiu os 3-2 da Argentina sobre a Alemanha Ocidental na final da Copa do Mundo apenas três minutos depois dos germânicos empatarem jogo que perdiam por 2-0.

    Gol de Burruchaga sobre o Grêmio por outro ângulo e seu gol na final de 1986: semelhanças?
  • Estudiantes na Libertadores de 2009: a última do Pincha

    Estudiantes na Libertadores de 2009: a última do Pincha

    O Estudiantes na Libertadores de 2009 conquistou a última taça do Pincha, com Verón liderando o elenco. A decisão foi no Mineirão.

    O líder Verón e o talismã Boselli, hoje no Corinthians, festejam no Mineirão

    Essa nota é uma nova versão desta de autoria de Bárbara Gonçalves publicada em 2014

    Em um “mundo invertido” ao do Pará, em La Plata o time azul marinho é o apelidado de Lobo enquanto a camisa de listras verticais, embora também conhecida pela alcunha Pincharrata (e o diminutivo Pincha), veste o clube também chamado de León. E ontem fez dez anos que essa equipe, após um largo tempo no ostracismo de um monarca exilado como no desenho, voltou a se coroar no continente. De forma bem mais feliz que na produção recém-retomada pela Disney, pai e filho da dinastia estavam vivos para celebrar, com o sexagenário Juan Ramón Verón, o craque do tricampeonato de 1968-70 do Estudiantes, vendo o hoje presidente Juan Sebastián honra-lo para levantar a quarta Libertadores dos platenses alvirrubros.

    Foi uma conquista histórica também para outras estatísticas. O Estudiantes segue como único campeão que veio da fase preliminar da competição. Também teve a terceira campanha mais cheia de jogos (16 ao todo) até o título, e a maior desde 1967. Longa, a campanha para o tetra não foi mesmo fácil. Desde o gol de Ramón Lentini contra o Sporting Cristal na fase preliminar que deu a classificação ao Estudiantes para a fase de grupos ao gol decisivo do hoje corintiano Mauro Boselli sobre o Cruzeiro. A equipe do técnico Alejandro Sabella, que se credenciaria anos depois a ser técnico da Argentina vice mundial (uma das críticas a seu trabalho foi justamente o alto número de jogadores de técnica contestada com quem trabalhara no Estudiantes, mais ou menos como a panelinha corintiana de Tite), se classificou em segundo no grupo 5 – no qual o próprio time futuramente vice-campeão para os argentinos havia terminado na liderança e o vencido por 3-0 em casa.

    Com três vitórias, um empate e duas derrotas na primeira fase, o clube de La Plata partiu para o mata-mata vencendo todas e chegou à final. O Estudiantes, como salientado mais acima, emplacara três Libertadores seguidas, nos anos 68, 69 e 70, com um estilo que ainda divide opiniões: alguns desmerecem as quatro finais seguidas na competição (houve outra em 1971, perdida para o Nacional) e um troféu Intercontinental por serem supostamente fruto de pura violência e antijogo; quando muito, admitem somente Juan Ramón Verón como único craque. Frisamos que aquele time era mais irritantemente astuto do que necessariamente violento, com a má fama devendo-se a elementos isolados – seja na figura de Carlos Bilardo, apontado como o incentivador do jogo sujo em um time eminentemente mais astuto do que violento, seja na polêmica decisão mundial contra o Milan em 1969, a tornar lugar-comum que a má fama daquele elenco se devia à violência e não a um pragmatismo incomum para a época de quem também sabia jogar bem.

    Verón, a Libertadores e outro filho pródigo do Estudiantes: José Luis Calderón, contemporâneo de La Brujita desde os anos 90 até os logros iniciados em 2006

    Tentamos desmistificar essas lendas nos outros grandes capítulos daquele período, desde a conquista da primeira Libertadores, sobre o Palmeiras, passando pela intimação e hostilidades na realidade mais inglesas do que argentinas no mundial vencido sobre o Manchester United, até as conquistas da segunda Libertadores e da terceira, na qual até os críticos se rendiam a quem soube se recompor da péssima imagem daquele Mundial de 1969 ao ser campeão com um futebol reconhecido como limpo na ocasião. Feitos de um time que era considerado pequeno no país até 1967, quando quebrou um oligopólio de 37 anos na Argentina, onde só cinco clubes conseguiam ser campeões: os “cinco grandes” (Boca, River, Racing, Independiente e San Lorenzo).

    Após o tri, de fato, o Estudiantes decaiu. Chegou a brigar contra o rebaixamento mesmo durante o domínio continental. No máximo, brigou pelo título em 1975 e pôde conquista-lo em um bicampeonato em 1982-83, trabalho este que levou Carlos Bilardo, agora técnico, a assumir a seleção. Porém, nova seca viria e incluiria até um rebaixamento em 1994 em meio aos primeiros meses de carreira de Juan Sebastián Verón – e de outra figura presente no elenco de dez anos atrás, José Luis Calderón (além de Martín Palermo). Verón e Calderón estariam juntos na retomada dos títulos, com a incrível reviravolta que proporcionou a conquista do Apertura 2006, em saga com direito até à maior virada no Clásico Platense: o 7-0 sobre o Gimnasia, que até então dominava o dérbi para passar a somar uma única vitória nos duelos subsequentes. Só o já veterano Calderón, ironicamente ex-juvenil e filho de um fanático pelo rival (curiosamente, o avô paterno de Verón também era gimnasista), anotou três.

    A reconquista argentina inicialmente não repercutiu nas competições seguintes. O próprio Calderón rumou momentaneamente ao Arsenal para conquistar a Sul-Americana de 2007 pela surpreendente equipe de Sarandí do jovem Alejandro Papu Gómez. A própria edição seguinte da Sul-Americana veria o Estudiantes chegar à decisão, sem superar o Internacional. Em 2009, além de três anos sem taças, o clube de La Plata já somava 39 anos sem tocar no troféu tão essencial à identidade de quem por muito tempo parecia uma versão argentina do Nottingham Forest – ou seja, com mais glórias internacionais do que domésticas.

    Verón e seu pai, igualmente craque. À direita, ambos homenageados pela Conmebol com miniaturas da Taça Libertadores: são o terceiro e último caso de pais & filhos campeões do torneio

    Felizmente, as quase quatro décadas não foram suficientes para impedir que antigos ídolos pudessem reviver os momentos em que foram protagonistas. Especialmente La Bruja (“A Bruxa”) Juan Ramón Verón. Ele e La Brujita (“A Bruxinha”, claro) Juan Sebastián se tornaram o terceiro e último caso de pais & filhos campeões da Libertadores, após os casos de Roberto e Gustavo Matosas e de Néstor e Jorge Gonçalves, todos pelo Peñarol. “Ele e seus companheiros conquistaram o que tantas vezes sonhamos. É a continuidade de um projeto (…). Imediatamente depois da final, me lembrei de Osvaldo Zubeldía, o criador de toda essa revolução. E graças a esse elenco, agora todos os torcedores do Estudiantes poderão dizer que sabem o que é ganhar uma Libertadores (…). Foi realmente emocionante, porque pudemos voltar a viver sensações que ficaram gravadas no coração há 40 anos”, declarou outro velho guerreiro pincharrata: Bilardo, em referência a Verón filho e ao técnico nos tempos de jogador de El Narigón, o tal Zubeldía.

    Além do jejum de décadas, o Estudiantes, que não saiu do 0-0 em casa no jogo de ida da final apesar do reforço sonoro de 52 mil torcedores no Estádio Único de La Plata, precisaria enfrentar um retrospecto desfavorável a equipes argentinas no Mineirão. De 35 confrontos, os clubes argentinos só saíram vencedores em quatro oportunidades. Os pincharratas conseguiram superar isso naquela noite do dia 15 de julho de 2009, mesmo sofrendo o primeiro gol da noite – em um momento em que o Cruzeiro nem criava muita coisa. Henrique, de fora da área, arriscou e marcou após desvio de Leandro Desábato, “aquele”. Mas Gastón La Gata Fernández conseguiu o empate logo na sequência, na qual o futuro bonde gremista contou com a sorte de um montinho artilheiro tirar a bola do alcance de Fábio para completar um cruzamento baixo de Christian Cellay – em ataque oriundo de lançamento de Verón para a ponta-direita nas costas de Gérson Magrão.

    Foi aí que o primeiro (?) “Mineirazo” começou a se desenhar. As atenções estavam voltadas para Verón, que não pareceu tão vistoso como seu pai. Pelo contrário. Na partida decisiva, bem marcado, apareceu pouco à vista da maioria. No entanto, tomou conta do meio-de-campo, sendo quem mais desarmou naquela noite. Kléber e Wellington Paulista não conseguiam receber a bola de Ramires e Marquinhos Paraná. Verón também armava: de sua canhota sairia também a jogada do gol da virada, em cobrança de escanteio para Mauro Boselli, refugo do Boca, cabecear para dar a vitória por 2-1 para os pinchas.

    A redenção final de Verón: de rebaixado em 1994 no clube tão honrado pelo pai a campeão no torneio que tanto consagrou “o velho”

    Se aproximando o fim, os argentinos administravam totalmente o jogo. O goleiro Mariano Andújar mostrava ser nome forte para a seleção argentina naquela época, tomando o lugar que poderia ter sido do riverplatense Juan Pablo Carrizo na Copa 2010. De outros pincharratas campeões há dez anos, o Mundial da África do Sul contou ainda com Clemente Rodríguez e Verón, é claro – o então reserva Enzo Pérez veio à de 2014 junto com o reserva Federico Fernández. Outro campeão foi o caudilho Rolando Schiavi, que dali a uns meses se tornaria o mais velho estreante na seleção argentina. Rodrigo Braña, Christian Cellay, Mauro Boselli e até Leandro Desábato receberiam chances também, polêmicas da panelinha de Sabella à parte. Sabella, inclusive, apenas começava a ser técnico. Chegara a seu antigo clube naquele mesmo 2009, após anos acompanhando fielmente o amigo Daniel Passarella como assistente, seja no River, na seleção ou no Corinthians.

    O público mineiro se calou, a não ser a parcela alvinegra que construiu uma amizade com a alvirrubra, retribuída com as congratulações pincharratas pela conquista atleticana em 2013. Em 2009, eram cerca de 65 mil espectadores apreensivos com o destino que o jogo tomava. Já os poucos torcedores pinchas que estavam lá faziam sua parte, gritando e alentando sem parar. La Brujita Verón praticamente segurava para não chorar. Mas depois do apito final não conseguiu se controlar, assim como os pinchas que viveram aquele momento. Choro, emoção, arrepio. Os Leones já haviam demonstrado não se assustar com o fator Brasil em uma final: seis meses antes, ainda sob o comando técnico de Leonardo Astrada, haviam vencido o Internacional, no Beira-Rio, pela final da Sul-Americana 2008, mas acabaram perdendo aquele título ao levarem o empate na prorrogação. Pois em 2009 o Estudiantes se tornou a única equipe que, sem vencer em casa, pôde faturar ainda no tempo normal o título de La Copa no campo adversário.

    Epílogo: além de todas as peculiaridades suficientes para engrandecer ainda mais uma conquista saborosa por si só, aquela Libertadores teve um condimento local extra, ofuscando uma das maiores superações do futebol argentino. Pior para a sofrida torcida do Gimnasia LP, que apenas três dias antes, em 12 de julho de 2009, fora à loucura ao escapar do rebaixamento ao lograr após os 45 minutos do segundo tempo os dois gols (ambos de Franco Niell, ex-Figueirense) necessários para o resultado de 3-0 necessário para levar a melhor na repescagem contra o Atlético de Rafaela, em placar inaugurado só aos 27 minutos da segunda etapa – e com o Lobo tendo só nove jogadores. Falamos aqui. Quanto ao Estudiantes, a epopeia de 2009 ofusca que desde então o Pincha só foi campeão mais uma vez, no Apertura 2010. Nada que tire a majestade do seu atual presidente, para Galos e principalmente para Leones.

    Amizade que ficou bilateral: Verón e outros pinchas parabenizam o Atlético pela Libertadores de 2013
  • Chacarita campeão argentino em 1969: a Revolução Tricolor

    Chacarita campeão argentino em 1969: a Revolução Tricolor

    O Chacarita campeão argentino em 1969 conquistou o único título da história do clube. Foi apelidado de Revolução Tricolor.

    Marcos, Puntorero, Recúpero, Orife e Neumann, Petrocelli, Abel Pérez, Poncio, Jorge Gómez, Frassoldati e Bargas

    Dali a duas semanas o homem pisaria na lua e talvez este seja o equivalente do título do Chacarita Juniors no futebol argentino. O título do Estudiantes, dois anos antes, a quebrar o oligopólio dos “cinco grandes” (Boca, River, Racing, Independiente e San Lorenzo), vigente desde 1930, podia ser comparado ao homem no espaço. O Chaca terminou de confirmar que o melhor, mesmo quando pequeno e sem exatamente um timaço memorável, podia ser campeão – sensação já reforçada pelo primeiro título nacional do Vélez, no semestre anterior. Que um time que soubesse superar anos e anos de luta e sacrifício na metade inferior da tabela e se organizasse poderia ter seu dia de lugar ao sol. Superando inclusive dois grandes na reta final para tornar-se “símbolo dos humildes, dos poetas e dos últimos românticos”, na definição do Clarín publicado em 7 de julho de 1969. Na véspera, a Argentina se tornara tricolor.

    Além de superar dois grandes, o Chacarita também reverteu um déficit em sua rivalidade, com o sumido Atlanta: no início daquela década, o rival vencera a Copa Suécia, torneio oficial que a AFA iniciara ainda em 1958 enquanto o campeonato se paralisou por conta da Copa do Mundo, e fazia se intrometia entre os grandes nas primeiras colocações. Já os funebreros (apelido herdado do Cemitério do bairro da Chacarita, o maior da América Latina e onde jazem Gardel e Piazzolla, embora o clube se enderece desde os anos 40 na cidade de San Martín) ficaram simplesmente em último em 1965, 1966 e 1967. Só não caíram por não haver rebaixamento nos dois primeiros e por haver uma repescagem em 1967. O time também jogou a repescagem em 1968, mas já após uma colocação ligeiramente melhor, sob o trabalho de Argentino Geronazzo.

    “Com ele fomos consolidando a identidade de um jogo”, defendeu ontem ao Clarín o capitão Ángel Marcos sobre o trabalho de Geronazzo. Embora o time campeão já fosse treinado desde a primeira rodada de 1969 por Federico Pizarro, antigo ídolo tricolor como jogador, o volante Franco Frassoldati (apelidado de El Tano por ter nascido na Itália) já havia declarado na mesma linha em 2004: “entre Ernesto Duchini e Argentino Geronazzo foram os responsáveis em começar a delinear a equipe a partir de 1967. E creio que havia muitas coisas no ar que eles começaram a unir. Sempre disse que a virtude de um técnico é otimizar o jogador, e aqui conseguiram, porque armaram um time que possuía inteligência, técnica, velocidade, força e muito amor próprio”. Pizarro, inclusive, desligou-se após o penúltimo jogo da primeira fase. Marcos complementou ontem: “seríamos campeões do mesmo jeito se Pizarro seguisse. Mas foi uma decisão do momento, já passou, não vale a pena entrar em detalhes nesta celebração”.

    Petrocelli, García Cambón, Bargas e Marcos reunidos ontem pelo Clarín. À direita, o capitão Marcos na poética capa da El Gráfico sobre aquele título

    Pizarro foi substituído interinamente por Juan Manuel Guerra (depois técnico funebrero nos acessos de 1983 à elite e de 1994 à segunda divisão) antes de Víctor Rodríguez assumir nos dois mata-matas. De fato, a maior parte do time-base foi formada entre 1967 e 1968. Só Frassoldati, o goleiro Eliseo Petrocelli e o zagueiro Ángel Bargas estavam desde antes. As únicas mudanças na equipe titular incorporadas em 1969 foram três: Rodolfo Orife, sem relevo no forte Estudiantes da época; Abel Pérez, desconhecido no Boca; e Juan Carlos Puntorero, ex-Newell’s e sobretudo brilhante no bom momento recente do rival Atlanta, sendo rara figura querida no Clásico de Villa Crespo. Rivalidade cujo maior goleador estava naquele elenco: Carlos García Cambón, promovido dos juvenis funebreros exatamente naquele ano antes de tornar-se a pessoa que mais marcou gols em um único Boca-River. Em 1969, porém, García Cambón não passou de um reserva útil.

    E pensar que o futuro campeão de 1969 ainda começou levando de 7-1 do Lanús na segunda rodada… de fato, não parecia uma grande equipe: só os Ángeles Bargas e Marcos, tricolor desde 1967, iriam à seleção. Outra ironia: Bargas havia sido dispensado pelo Racing quando o lendário Juan José Pizzuti assumiu o time de Avellaneda e não o levou em conta, e anos depois seria Pizzuti o técnico a convoca-lo à Albiceleste. O defensor não teve êxito duradouro pela Argentina, mas fez história: foi ele o primeiro que a seleção usou do futebol europeu, pelo Nantes (que abrigaria o próprio Marcos também) e ele é também o jogador mais vezes usado por ela a partir do Chacarita, 16 vezes. Pôde ir à Copa do Mundo de 1974, onde foi novamente treinado por Víctor Rodríguez e acompanhado por Daniel Carnevali, goleiro titular igualmente revelado nos funebreros e segundo “europeu” na seleção (pelo Las Palmas).

    Já no jogo seguinte, houve uma boa reação, com um 5-0 no Colón. O goleiro Petrocelli esclareceria em 2004 que o 7-1 marcara tanto que, mesmo após já vencer por 3-0 o Colón, “seguíamos atacando porque queríamos mais gols”. Na mesma ocasião, Orife explicou: “a maior virtude dessa equipe foi que havia uma linha de jogo e todos eram fiéis a ela. E uma vez que a equipe começou a funcionar, os resultados vieram sozinhos, e chegamos com uma fé bárbara às semifinais e à final”. Bargas, a seu lado, deu outra visão sobre como os resultados mudaram tanto sob os mesmos (pouco badalados) nomes: “sempre me lembro de uma matéria da El Gráfico que dizia ‘se quer ver bom futebol, vá ver o Chacarita’. E haviam publicado essa nota na metade do campeonato, assim que se via que esse time jogava bem de verdade. Era muito parelho em todas as suas linhas e tivemos a sorte de não ter lesionados. No Chacarita começávamos todos os torneios com a ameaça do descenso, mas nesse ano a sensação era diferente, porque tínhamos muita confiança”. Aí, para Neumann, havia méritos de Pizarro mesmo: “Geronazzo era um estudioso e nos ensinou muitas coisas que uma vez assimiladas foram chave desde o ponto de vista estratégico. E Federico Pizarro era um técnico que nos dava uma confiança bárbara”.

    Na semifinal, o adversário era o Racing recém-campeão mundial reforçado com o artilheiro brasileiro Silva. Ficou a desolação do goleiro Cejas e a festa dos tricolores com a camisa dos vencidos

    Aquele Metropolitano foi dividido em dois grupos, a separar rivalidades: no A, ficaram Boca, Independiente, San Lorenzo, Gimnasia LP, Rosario Central, Banfield e Colón. No B, os respectivos rivais River, Racing, Huracán, Estudiantes, Newell’s, Los Andes e Unión. Completavam o B Argentinos Jrs, Deportivo Morón, Quilmes e Platense. E completavam o A Lanús, Vélez, Atlanta e o Chacarita, única dupla rival junta. Após turno e returno e dois jogos intergrupos normalmente reservados aos clássicos, os dois primeiros de cada grupo fariam semifinais prosseguida de final em jogos únicos. O Chacarita realmente reagiu bem: engatou oito jogos de invencibilidade após o 7-1 para ser o segundo time que mais venceu – 13 vezes em 22 jogos, com destaque especial para um 3-0 no Lanús e duas vitórias magras em trincheiras fora de casa: 1-0 no Colón no Cementerio de Elefantes e no Boca em La Bombonera, onde os visitantes receberam um raro reconhecimento em forma de ovação por parte da torcida da casa. Marcos recordaria que ali sentiram pela primeira vez que poderiam ser campeões.

    No clássico com o Atlanta, o Chaca empatou fora (com García Cambón marcando pela primeira vez no dérbi) e venceu por 1-0 em casa. Mas ao arrefecer nos dois jogos finais com a classificação já assegurada por antecipação, perdeu a liderança do grupo para o Boca. Como consequência, seria preciso encarar o líder da outra chave, que era o Racing. Ainda respirando o auge de 1967, quando venceu Libertadores e Intercontinental, a Academia havia sido justamente quem mais vencera até então, 14 vezes. E tinha o artilheiro do torneio, um brasileiro: Silva “Batuta”, ex-Flamengo e Vasco e que fora à Copa 1966. Silva marcara simplesmente 14 gols em 22 jogos, média altíssima que lhe faria admirado eternamente em Avellaneda mesmo não passando de trinta jogos como racinguista. Como se não bastasse, embora jogassem na neutra Bombonera (que não encheu; houve boatos de suspensão da partida após o assassinato do sindicalista Augusto Vandor), aquele Racing teria a vantagem do empate por ter a melhor campanha.

    Parecia que a igualdade ia prevalecer mesmo. O jogo rumava no 0-0 até que, a quatro minutos do fim, o racinguista Juan Carlos Rulli pôs a mão na bola a um metro da grande área em jogada de Recúpero. Marcos cobrou um virtual escanteio na cabeça do próprio Recúpero emendar no canto esquerdo do goleiro Agustín Cejas, futuro ídolo no Santos de Pelé. E no pouco tempo restante quase os tricolores marcam outro, com Marcos elevando a bola a Orife, que chutou e Cejas salvou com os pés, embora Petrocelli ainda precisasse intervir para impedir que Silva acertasse um tiro livre no ângulo. Já a outra semi foi nada menos que um Superclásico, mas foi bem menos emocionante. No estádio do Racing, um retranqueiro River jogaria pelo empate e se aferrou a manter essa vantagem enquanto o Boca, treinado justamente pelo ex-ídolo rival Alfredo Di Stéfano, não tinha ideias ofensivas apesar de melhores jogadores e de ter goleado por 4-1 o Independiente quatro dias antes. 90 minutos arrastados para trinta intermináveis de prorrogação ficaram no 0-0.

    Festejos da semifinal com o Racing, então o grande time argentino da década: gol da classificação a 4 minutos do fim

    O River se classificou, mas para a grande final ficaria marcado pela ausência de dois jogadores que passariam pelo Brasil nos anos 70. A mais sentida foi a agressividade de Carlos Chamaco Rodríguez, suspenso da decisão ao ser expulso no último minuto da prorrogação da semifinal. A outra foi a do substituto de Rodríguez para a decisão: o jovem Hugo Dreyer, também expulso. Ele passaria pelo futebol paranaense, jogando tanto no Coritiba como pelo Athletico e ainda no Colorado (clube que daria origem ao Paraná em 1989) e Londrina, brilhando sobretudo no Coxa. O River não era campeão desde 1957. O último baluarte dos bons tempos, o veteraníssimo goleiro Amadeo Carrizo, saíra no ano anterior. Sob maior pressão psicológica, o Millo começou a final desencontrado. Logo aos 3, Dreyer havia dado um passe errado. Aos 4, Gutiérrez cometeu falta violenta em Recúpero. O Chacarita, do seu lado, trabalhava tranquilamente a bola e abriu o placar já aos 12 minutos.

    O placar foi aberto em escanteio cobrado por Marcos pela ponta-esquerda. Recúpero cabeceou a bola para baixo ao interior da pequena área e ela encontrou Neumann de costas para o goleiro oponente, Carballo. Cercado também por Miguel López (depois figura no Independiente tetra da Libertadores nos anos 70), Guzmán, Ferreiro e Vieitez, Neumann girou e chutou de direita antes que Carballo chegasse. Só Ferreiro também reagiu, mas para reclamar de impedimento – embora ele próprio fosse quem desse condição legal a Neumann, um homem de cintura e canelas grossas incomuns a um ponteiro. No River, só Oscar Más, o segundo maior artilheiro da história millonaria, dava alguma ameaça ao Chacarita, ganhando sempre de Gómez. Foi em jogada de Más, após Marcos perder a bola (“ninguém me reprovou; éramos um grupo muito unido. Seguimos adiante”, assegurou), que o Millo pôde empatar seis minutos depois.

    Pela esquerda, Más cruzou à grande área. O goleiro Petrocelli resolveu não interceptar bola endereçada ao goleador Daniel Onega, já perseguido por Bargas. Maior artilheiro de uma única Libertadores, Onega não chegou a tempo, mas o colega Trebucq, que também acompanhava a jogada, conseguiu concluir livre com a canhota após seu marcador Frassoldati interromper o ímpeto por imaginar que Onega conseguiria. As possibilidades se equilibravam, mas o River se atrapalhava no último toque com a linha de impedimento bem sincronizada da defesa tricolor. A situação do River piorou aos 30 minutos. Foi quando houve a expulsão de Dreyer por falta em Neumann. Segundo meios da época, o juiz Barreiro exagerou, pois era a primeira falta cometida por Dreyer, que ainda nem tinha amarelo, enquanto outras jogadas mais ríspidas na partida não foram punidas. O Chacarita, que sempre conseguia encontrar alguém desmarcado, cresceu ainda mais com a vantagem numérica. E não tardou para o Tricolor deixar o River incapaz de segurar o empate até o intervalo e rediscutir suas estratégias com alguma calma.

    Cena da final contra o River: 4-1

    Na grande área, Marcos armou de bicicleta, López tentou afastar, mas Neumann buscou a bola e soltou um canhão de canhota, marcando abaixo do travessão seu segundo gol, aos 37 minutos. “Nessa final tive a sorte de fazer dois gols no primeiro tempo. No segundo, pus a minha vida, porque a bola vinha à meia altura, e Guzmán, do River, estava mais perto; mas a busquei com potência e a bola saiu com uma força tremenda”, descreveria ele na festa dos 35 anos da taça, em 2004. Como o pior pode piorar mais ainda, mal começou o segundo tempo e o Chacarita ampliou: lançado em profundidade por Recúpero (acompanhado de perto pela imprensa de sua província natal de San Juan, de onde recebia telegramas de incentivo), Marcos correu de um lado a outro do campo. O capitão deixou Miguel López para trás, driblou um goleiro Carballo que saíra da área para tentar interromper a jogada, parou um pouco para ganhar mais ângulo. Sem temor: “não me apresso. Paro a bola e levanto a cabeça. Não tenho medo que me a roubem. Quase todos os gols que se perdem são pelo desespero em fazê-los”.

    Nisso, López conseguiu se recuperar e tampar a frente de Marcos. Só que López também abriu as pernas e entre elas o capitão funebrero tocou sutilmente, com mais precisão do que força. López caiu sentado para tentar bloquear, mas não impediu o gol mais bonito da tarde, em lance quase maradoniano. “Gol de caneta”, que não freou o ímpeto tricolor por mais gols. Veio o quarto, com Recúpero lançando a bola à esquerda em cobrança de falta, Orife confundindo a defesa do River ao deixar a bola passar – e, antes que chegasse no riverplatense Ferreiro, Frassoldati se antecipou, pegou a bola e tocou na saída de Carballo. E poderia ter vindo um quinto, com tentativa de Recúpero batendo na trave. Entre tantas ironias daquela trajetória, a estatística de que o Chacarita só havia vencido o River oito vezes desde o profissionalismo, em 1931; a última, em 1961. Nos doze jogos seguintes até o de meio século atrás, o Chaca só marcou duas vezes e perdeu onze, empatando o outro… Mas em 6 de julho de 1969 o Chaca não só terminou campeão como foi reconhecido pelo oponente, que atuou com correção mesmo goleado e cujo presidente foi cumprimentar nos vestiários o capitão Marcos.

    Marcos na época gozava uma revanche na própria vida, pois havia se operado de uma úlcera. Ontem, ele assegurou ao Clarín: “fui campeão com o Nantes, na França. E não é a mesma coisa. Ficou como algo incrível porque além de tudo fomos campeões na época do Estudiantes, tão discutido por suas artimanhas, e fizemos jogando um bom futebol”. O Chacarita não chegou a ser um novo Estudiantes (inclusive porque o título do Torneio Metropolitano só passou a classificar à Libertadores em 1973), cujo jogo tático e destrutivo não lembrava o hábil dos tricolores, mas seguiu forte por um tempo: lutou pelos títulos por alguns anos e em 1971 derrotou o Bayern Munique de Beckenbauer, Breitner, Müller e outros por 2-0 no Troféu Joan Gamper, chegando a candidatar-se a “sexto grande” do futebol argentino na época embora logo se acostumasse às divisões de acesso. 25 anos depois, em 1994, já era um time noticiado sob folclore, quando os jogadores precisaram jogar com diferentes camisas emprestadas pelos torcedores presentes. Outros 25 anos depois, a glória de 1969 parece distante como a lua. Será sempre admirada como ela pelas bandas de San Martín.

    Interessado em mais sobre a história funebrera? Recomendamos nossa nota sobre o time dos sonhos do Chacarita.

    Festejos da final com o River: Bargas e Abel Pérez comemoram o título, já com camisas trocadas. O capitão Marcos festeja Neumann, autor de dois gols
    Bargas, Gómez e Poncio comemorando com as camisas trocadas no vestiário, e o talismã Neumann nos 35 anos da conquista, em 2004