O Racing campeão argentino em 1949 encerrou 24 anos sem títulos na elite e deu a largada para o primeiro tricampeonato do profissionalismo.
O técnico Guillermo Stábile, Ernesto Gutiérrez, Higinio García, Antonio Rodríguez, Saúl Ongaro, Nicolás Palma e Juan Fonda; Juan Carlos Salvini, Norberto Méndez, Rubén Bravo, Llamil Simes e Ezra Sued
“O passado volta. A história se repete. Os muchachos de hoje se unem em um estreito abraço com os muchachos de ontem para celebrar jubilosos o triunfo que une farda que é tradição e relíquia, que é visão de otimismo e expressão de progresso: a farda celeste y blanca do Racing Club. É nome que se pronuncia com carinhoso respeito, quando não com juvenil entusiasmo ou com sotaque nostálgico. O Racing Club é um conceito antes de um simples nome. Quem esteja à margem de bandeiras e tenha vivido a trajetória do futebol nosso tem que alegrar-se espontaneamente por esta magnífica vitória do Racing no campeonato de 1949. E temos de celebrar, ademais, o que neste triunfo há de recuperação, o que se demonstra em capacidade de luta, em riqueza de espírito. As centenas de milhares de aficionados do futebol que formam a legião de simpatizantes do Racing Club, espalhados por todos os âmbitos do país, são iguais em sua índole aos de todos os outros clubes, mas se distinguiam particularmente por seu apego ao passado. Era preciso que se ‘atualizassem’, e para isso resultava imprescindível a máxima conquista, a que dá renome e força”.
Assim começava o sensível relato da El Gráfico na edição pós-jogo de partida encerrada após semanas, literalmente. Celebrava um clube que sempre pôde orgulhar-se, ao menos, em ser um pioneiro. O Racing, afinal, foi a primeira equipe “latina” a ser campeã argentina, em 1913, encerrando duas décadas de conquistas exclusivas de clubes da comunidade britânica. Como se não bastasse, seis títulos vieram em sequência àquele, em um hepta seguido. Primeiro clube argentino campeão mundial (em 1967) e da Supercopa (em 1988), o time de Avellaneda jamais esteve perto de ser sequer igualado quanto ao hepta: o máximo que houve desde então foram tricampeonatos seguidos. Pois coube a La Academia lograr o primeiro deles após aquele ciclo. Também foi, inclusive, o primeiro tri do profissionalismo, em largada de onze minutos iniciada há 70 anos. E que de quebra encerrava um largo jejum.
Após o hepta de 1913-19, o clube ainda foi campeão em 1921 e em 1925 no amadorismo – que àquela altura, a bem da verdade, já era “marrom”, a ponto de seu astro Natalio Pertinetti (único remanescente do hepta a ir a uma Copa do Mundo, em 1930) se permitir a recusar o Real Madrid. Os nove títulos faziam do Racing a equipe em atividade mais vezes campeã e, não por acaso, o clube mais popular do país juntamente com o Boca. Mas então, com o envelhecimento do elenco de 1925, sobreveio uma estiagem. A equipe até ficou a um ponto do título em 1932, mas nem a aparição fulgurante do superartilheiro Evaristo Barrera (dono de incríveis 136 gols em 142 jogos) pouco após aquela campanha deu jeito.
Um dos primeiros resultados maiúsculos da campanha: 5-2 no clássico com o Independiente dentro da casa rival
O Racing começava uma sina: a de depender de ciclos pontuais de astros alinhados que propiciavam algumas alegrias em curto período, pois imperava institucionalmente sérios problemas de (des)organização administrativa. Seria assim com a mesma espinha dorsal campeã em 1958 e em 1961; com El Equipo de José campeão de tudo no biênio 1966-67 e que se manteve no páreo por mais dois anos; com a equipe vencedora da Supercopa e que dava pinta de título na temporada 1988-89; e com o elenco vice da Supercopa de 1992, com muitos remanescentes a um ponto do título do Apertura 1992; ou com os vices do Apertura 1995 que ficaram até as semifinais da Libertadores de 1997. Já havia sido assim com os tricampeões de 1949-51.
A campanha de 1932 vinha sendo a única em que o clube lutou seriamente pelo título desde 1925. Nas outras vezes em que terminou no pódio, a distância ao líder era excessiva. Isso quando conseguia: ficou comum o time terminar abaixo dos cinco primeiros, por vezes beirando a metade da tabela. Algo grave em uma liga onde os grandes eram cinco – ele, o rival Independiente, o San Lorenzo e a dupla Boca e River, que cooptara muitos torcedores a partir de títulos e investimentos em astros a partir dos anos 30. O ano de 1948, então, parecia dar jeito na seca que perdurava desde 1925. Foi, inclusive, o ano de chegada de muitas peças-chave do tri.
O beque direito Higinio García na verdade voltava após três anos, passando por Atlanta em 1946 e pelo Tigre em 1947 para tornar-se então o recordista de presenças no ciclo do tri (foram 99 jogos). De caras novas à torcida, chegaram em 1948 o goleiro Antonio Rodríguez, brilhante no Lanús após não ter espaço no River, seu clube de formação; o adolescente Manuel Blanco, de 18 anos, aparecia como sombra ao titular Rubén Bravo para ficar até 1957; e do Huracán vinha um formidável trio: o ponta-direita Juan Carlos Salvini e a dupla de meias Llamil Simes e Norberto Méndez, que àquela altura já era o maior artilheiro das Copa América, com 17 gols ao longo do tri de 1945-46-47 da Albiceleste. Salvini, inclusive, figurou na edição de 1946.
O lance eternizado como gol histórico, do caído Galgiardo sobre Carrizo e o River, no Monumental
Já Simes entraria para a história também como autor do primeiro gol do Cilindro racinguista, inaugurado já em 1951. Eis aí outra façanha daquele título de 70 anos atrás: com a reforma de seu estádio, La Acadé mandou suas partidas sobretudo na quase vizinha Bombonera ou no Gasómetro sanlorencista. Quem já estava no clube desde antes eram, sobretudo, o citado Rubén Bravo (maestro de 88 gols em 149 jogos em estadia de 1946-52, ainda que não tenha honrado a fama no Botafogo depois); o veterano lateral Saúl Óngaro, reserva da seleção campeã de 1946; e três reservas da campeã de 1947: o ponta-esquerda Ezra Sued e os defensores Nicolás Palma e Ernesto Gutiérrez; e o próprio técnico da seleção, Guillermo Stábile, a se alternar nas duas funções.
Em 1948, esses nomes recolocavam o Racing no páreo por um título, impressão reforçada quando o concorrente River (da revelação Di Stéfano) começou a decair. Começaram com um 4-1 sobre o Boca dentro da Bombonera, dois de Simes e dois de Bravo. Ainda no primeiro turno, vieram um 4-0 no Lanús, um 3-0 no Gimnasia LP, um 5-2 no Rosario Central, um 3-2 no Clásico de Avellaneda dentro da casa do Independiente, um 4-0 no Platense, um 6-2 fora de casa sobre o Banfield e um 3-1 no San Lorenzo. Tudo parecia bem até as cinco rodadas finais, altura em que o time já havia também ganho de 6-3 do Tigre, por 2-1 sobre o concorrente River e por 4-1 sobre o Huracán do craque Adolfo Pedernera – o maior da história, para Di Stéfano. O Racing era o líder quando então sobreveio a famosa greve de jogadores.
Sem seus astros, o time então levou de 6-2 do Rosario Central, perdeu o dérbi com o Independiente e só empatou em 1-1 com o Platense. Nas duas rodadas que restavam, preferiu o W.O. e foi punido com quatro pontos a menos na tabela. Quem se deu bem com o imbróglio generalizado foi justamente o rival. O Independiente, que vinha à espreita, ganhando de 4-3 do River dentro do Monumental na última rodada antes da greve, teve melhor sorte com o quadro de amadores que o representou nas rodadas seguintes; só foi derrotado na rodada final, após garantir na penúltima a taça, e encerrou seu próprio jejum (dez anos).
A surra de 6-1 no San Lorenzo, calando críticas após a suspensão do jogo contra o Boca
O campeonato de 1949 começou em abril, com a greve aparentemente solucionada, com a instituição de um salário mínimo à categoria dos jogadores. Não era o único pleito do sindicato, mas mesmo essa concessão veio tarde. No decorrer do torneio, muitos astros rumaram ao exterior, em especial às ligas mais atrativas do mundo na época: a italiana e a do Eldorado Colombiano. Isso naturalmente enfraqueceu as camisas mais pesadas, com o Huracán (perdendo Pedernera para o Millonarios) e o Boca (perdendo o artilheiro Mario Boyé ao Genoa) brigando até a rodada final pela primeira vez contra o rebaixamento enquanto o campeão Independiente despencava para nono após Mario Fernández rumar ao Santa Fe enquanto o Deportivo Cali cooptava Oscar Sastre, Camilo Cerviño – os três haviam participado da vitoriosa Copa América de 1947.
O River viu Di Stéfano, o ponta Hugo Reyes e o xerife Néstor Rossi acompanharem Pedernera no Millonarios enquanto o malabarista José Manuel Moreno preferiu levar a Universidad Católica a seu primeiro título chileno naquele 1949. Mas o time de Núñez seguia com remanescentes respeitáveis, sobretudo com o goleiro Amadeo Carrizo, enfim firmado na titularidade, e com os experientes Ángel Labruna e Félix Loustau como atacantes remanescentes da saudosa La Máquina que encantava no início da década. O Millo seria o grande concorrente à Academia, que, se derrapara com os amadores no fim de 1948, soubera reter suas figuras (o San Lorenzo, por exemplo, perdera René Pontoni, ídolo do Papa, ao Santa Fe; seu então maior artilheiro, Rinaldo Martino, à Juventus; e o classudo zagueirão Oscar Basso faria escala Internazionale antes de brilhar no Botafogo). Assim, em um campeonato avaliado de nível técnico geral medíocre, times pequenos se destacaram e o gigante sem desfalques se sobressaiu com tranquilidade.
Afinal, além de manter suas peças, o Racing pôde até receber de volta o beque esquerdo José García Pérez, que voltava de uma experiência no Tigre após já ter defendido a equipe de Avellaneda de 1942 a 1946. A única cara realmente nova era a de Alberto Rastelli, defensor que reforçou o Racing com o torneio já em andamento. Homem do trabalho sujo, chegou inclusive temeroso de sua recepção após ter distribuído patadas nos futuros colegas em jogo prévio, quando ainda defendia o Gimnasia. Até lá, La Acadé vinha de somente duas derrotas nas dez primeiras rodadas – uma delas, para o próprio River (3-0 na “Bombonera racinguista”), já na quinta rodada. Por outro lado, soube aplicar um 4-2 no Huracán, com El Turco Simes fazendo valer por quatro vezes a lei do ex, enquanto o comparsa Turco Sued (o bom entrosamento de ambos na esquerda geraria lendas de que ambos até conversariam em árabe, o que não era bem verdade; Sued era inclusive judeu) anotava o do triunfo mínimo sobre o Vélez em Liners.
O desespero do Boca com a anulação do seu gol há 70 anos
Mas foi a partir da 9ª rodada que o elenco engrenou, emendando uma sequência de resultados sonoros: 6-1 no Lanús, 5-2 sobre o Independiente na casa rival, 6-2 no Boca (com Simes anotando outra vez quatro gols), 3-1 fora de casa no San Lorenzo e 4-0 (três de Simes) no Ferro Carril Oeste. A série foi interrompida com uma derrota de 2-0 para a grande surpresa do campeonato, o Platense, 3º colocado no certame – e que logo perderia o goleirão Julio Cozzi (titular da Argentina campeã continental de 1947) e o maestro Antonio Báez para o mesmo Millonarios de Di Stéfano e Pedernera. A Academia tratou de retomar a fase, impondo um 4-1 no Rosario Central e um 5-1 em La Plata sobre o Estudiantes, fechando um ótimo primeiro turno com uma vitória mínima sobre o Atlanta.
Placares mais modestos seriam a tônica do segundo turno: 2-1 no Banfield, clube do artilheiro do campeonato, o mesmo Juan José Pizzuti (autor do gol banfileño ali) que posteriormente se tornaria a maior figura racinguista da história; 1-0 fora de casa sobre o Huracán, em nova lei do ex aplicada por Simes; 1-1 com o Tigre; um ponto já fora de curva com um 4-1 no Vélez para a rotina voltar na 22ª rodada. Rotina de placar magro, pois o que o Racing conseguiu foi o ineditismo de uma vitória sobre o concorrente direto River dentro do Monumental. Julio Gagliardo, de peixinho, foi o homem que vazou Carrizo na ocasião, tão importante (o Millo lideraria se vencesse, atraindo para o jogo até o casal Perón) que mandaria confeccionar cartões de si exaltando-se como “Julio Gagliardo, autor do gol histórico”. Rubén Bravo, por sua vez, foi o homem da rodada seguinte, anotando os três gols no 3-1 sobre o Newell’s, o 5º colocado.
O líder então fraquejou, perdendo como mandante para o Chacarita (2-1) e sem bater o Lanús (2-2), mas já pôde triscar na taça na 27ª rodada. Foi quando Salvini, Simes e El Tucho Méndez assinaram na Bombonera um 3-0 no clássico com o Independiente. A Academia voltaria a La Boca na rodada seguinte, agora para enfrentar os donos da casa, em 30 de outubro. Francisco Campana pôs os xeneizes na frente aos 18 minutos. Aos três do segundo tempo, Méndez empatou. Faltando onze minutos, Bravo virou, desencadeando uma confusão generalizada: para a desesperada torcida da casa, El Turco Sued fornecera em impedimento a assistência. O jogo foi interrompido e os pontos em disputa foram sobrestados. E o Racing tratou de mostrar que não precisava de ajuda do apito: De volta à Bombonera em 6 de novembro para enfrentar o San Lorenzo, exibiu um show de Méndez e Simes diante do antigo rival dos tempos de Huracán – El Tucho marcou três e El Turco, outros dois, com Sued completando os 6-1. Em 13 de novembro, foi a vez de um 3-1 fora de casa no Ferro para no dia 20 ser a vez de receber aquele forte Platense.
A volta olímpica na Bombonera após um jogo de onze minutos contra o Boca
Pedra no sapato da Academia, o clube marrom igualou em 2-2, com gols de Báez e Santiago Vernazza enquanto Sued e Salvini anotaram os dos líderes. A rodada seguinte ocorreria no dia 27, contra o Rosario Central, mas em 23 de novembro o Racing já voltava a campo. Era preciso jogar aqueles onze minutos finais que faltavam da partida contra o Boca. O polêmico gol de Bravo estava convalidado e os donos da casa atacaram freneticamente no parco tempo. Até conseguiram um empate mediante Juan José Ferraro, mas a arbitragem do inglês Maddison esfriou tudo ao considerar faltosa a sua dividida com o rebote do goleiro Rodríguez – gerando algumas cenas lamentáveis, que não impediram que as arquibancadas terminassem aplaudindo ao fim a efetivação da vitória racinguista por 2-1. Com essa confirmação, abriu-se sete pontos de vantagem já insuperáveis com três rodadas para se disputar (na época, a vitória ainda valia dois).
As anotações da El Gráfico após o jogo também foram proféticas: “tudo isso pensando na possibilidade de que o Racing de 1950 seja ainda melhor que este de 1949, (…) as perspectivas que se apresentam são magníficas. Isso é importante: o Racing só está começando, é um team que se formou no ano passado. É uma máquina que tem que andar muito mais porque está ajustando-se. Considerando a bondade do material que a compõe, lógico é admitir que seu funcionamento irá aumentar. Se olharmos ao redor, as perspectivas do Racing são todavia mais lisonjeiras. Justo é assinalar no caso particular do Racing o acerto que teve nas aquisições, a decisão para resolver sim dilações o que convinha, e a certeira visão com que afrontou a crise da greve e reparou suas consequências sem prejuízo algum. O mesmo critério governou para escapar do perigo que significou o êxodo de jogadores, tão sentido por outros clubes e felizmente salvo pelo Racing. Já se vê bem, como dizia Stábile na charla que teve conosco, que não foi só a equipe no campo que andou bem. Poderia dizer-se que a boa marcha do team sobre o gramado não foi senão o reflexo – a dobragem – da regularidade e harmonia com que funcionou a complexa maquinaria que é a instituição. Lograda essa valiosa e difícil homogeneidade, o futuro se apresenta realmente propício para os racingusitas. Por isso, dizemos no título que só está começando”.
De início, a ressaca pelo fim dos 24 anos foi tamanha que os campeões perderam os dois jogos seguintes (no primeiro, uma surra de 4-1 para o Central), algo ainda inédito na campanha. Mesmo assim, conservou-se uma vantagem de seis pontos para o vice River ao fim do torneio, com o interesse racinguista subsistindo na briga de Simes pela artilharia – ele anotou o gol de honra contra o Central e outro na rodada final, em 2-0 sobre o Atlanta, mas ficou um gol abaixo do banfileño Pizzuti. Mas estava formada a espinha-dorsal do time campeão com sobras também em 1950 (oito pontos de vantagem contra um renascido Boca reforçado com José Manuel Moreno), com o acréscimo pontual de Mario Boyé na posição de Salvini; e que em 1951 (com a grande alteração sendo Juan Carlos Giménez no posto de Óngaro) já dividia a Argentina contra si, com o concorrente Banfield reunindo a seu favor, sem êxito, as torcidas rivais já cansadas do domínio blanquiceleste. O título de 1949 serviu ainda para uma última alegria em vida ao ídolo Alberto Ohaco, oito vezes campeão argentino com o time no amadorismo, com o título de 1921 somado à presença no hepta inteiro. Considerada a maior figura racinguista nos primeiros 50 anos, ele faleceria em janeiro de 1950.
O ciclo do tri de 1949-51 ainda subsistiu com dois vices seguidos em 1952 e 1953, antes da tônica medíocre voltar até o título de 1958 – já sem qualquer remanescente dos primeiros tricampeões profissionais da Argentina.
À esquerda, outro ângulo da imagem anterior. À direita, Salvini (camisa 7) ergue Méndez, seu compadre desde os tempos de Huracán. É o fim de jejum de praticamente duas décadas e meia… e o início de um tricampeonato
As origens na antiga Tchecoslováquia ganharam destaque com Holan, que comemorou a Sul-Americana de 2017 pelo Independiente.
Holan celebra a Sul-Americana de 2017 para o seu Independiente
Foi um dominó. Em 9 de novembro de 1989, caiu o Muro de Berlim, gatilho para nosso Especial sobre os teuto-argentinos do futebol, no sábado retrasado. Oito dias depois, uma repressão policial a estudantes em Praga desencadeou a pacifista Revolução de Veludo. Um bom gatilho para a vez de lembrar os nomes do futebol argentino provenientes da antiga Tchecoslováquia – terra que teve seu peso na história dos hermanos.
Afinal, a pior derrota da Argentina foi para aquele país, na Copa de 1958. Maior potência histórica da América do Sul, a Albiceleste, por diversos fatores extracampo, se recusara a jogar até as eliminatórias dos mundiais de 1938, 1950 e 1954 – e já havia enviado para a de 1934 uma equipe obscura ao invés dos principais jogadores do país, profissionalizados em uma liga rebelde enquanto a associação oficial para a FIFA permanecia oficialmente amadora. Na vez do Mundial da Suécia, os argentinos enfim voltavam a se fazer “realmente” presentes desde 1930 e chegaram confiantes. Então sofreram o 6-1 para os comunistas. Até hoje, essa derrota só foi igualada pelo mesmo placar aplicado na altitude de La Paz pela Bolívia em 2009; e pela Espanha em 2018.
Base da seleção após um tri seguido de 1955 a 1957, o River foi diretamente afetado pelo vexame. O time de Núñez entraria em seu maior jejum, só quebrado em 1975. O mais afetado foi um mito: Amadeo Carrizo era o goleiro e o trauma na recepção em Buenos Aires sob chuva de objetos foi tanto que ele se recusou a voltar a Mundiais e a outras convocações. Embora seja comumente visto como o maior arqueiro que a Argentina já teve, mal somou duas dezenas de jogos pela seleção em decorrência disso, mesmo que ainda jogasse esporadicamente por seu país até 1964. Já outros nomes consagrados tiveram seu ciclo encerrado definitivamente ali, a exemplo de Ángel Labruna e do treinador Guillermo Stábile, há cerca de vinte anos no cargo. Nasceu também uma crescente preocupação resultadista e defensiva a marcar o futebol nacional na década seguinte, em detrimento do enfoque em espetáculos.
O curioso é que o chamado “desastre da Suécia” foi justamente o único revés da Argentina no duelo contra tchecos e eslovacos. Houve quem atribuísse o vexame ao desconhecimento dos argentinos sobre o futebol europeu, após anos ilhados em duelos sul-americanos e longe das Copas, uma falácia; desde os anos 50, a Inglaterra (três vezes), Espanha, Portugal, Itália (duas vezes cada) e Irlanda já haviam enfrentado a Albiceleste, além da própria Tchecoslováquia – derrotada em outubro 1956 com um 1-0 no estádio do San Lorenzo. O que é verdade é que em um ano e meio os dois times mudaram muito: do lado europeu, só Ladislav Novák, Jaroslav Borovička e o astro Josef Masopust estiveram nos dois jogos.
Já dos vencedores, não iriam à Suécia o goleiro Rogelio Domínguez, o atacante Antonio Angelillo (autor do gol), os meias Ernesto Grillo e Omar Sívori, os pontas Ernesto Cucchiaroni e Rodolfo Micheli, além de Héctor Guidi, Norberto Conde e Adolfo Benegas. Exceto os quatro últimos, os demais já estavam todos no futebol europeu na temporada 1957-58 (o Real Madrid e Domínguez e o Milan de Grillo e Cucchiaroni inclusive fizeram a final da Liga dos Campeões) e não se convocava quem atuasse no exterior na época.
Agüero comemora na final do Mundial sub-20 de 2007, o último vencido pela Argentina
Em junho de 1961, veio um 3-3 em reencontro em Brno. O craque Omar Corbatta era o único em campo nos 6-1 (foi dele o gol de honra) a remanescer. Reserva em 1958, José Sanfilippo marcou dois e outro grande goleador, Luis Artime, buscou o terceiro empate. Masopust e Novák também estiveram nesse terceiro jogo, embora além deles só Ján Popluhár fosse outra cara de 1958.
Posteriormente, vieram encontros anuais entre outubro de 1980 e março de 1982, no ciclo de amistosos preparados por César Menotti para uma seleção já qualificada de antemão à Copa de 1982 como detentora do título anterior. Em 1980 e em 1981, o Monumental viu um 1-0 (gol de Roberto Díaz, maior artilheiro do Racing nos últimos 40 anos) e um 1-1 (gol de Américo Gallego) e Mar del Plata recebeu um 0-0 em 1982. Após a separação do país, só houve entre seleções principais um amistoso com a Eslováquia em 1995: 6-0 em Mendoza, com Gabriel Batistuta e Marcelo Gallardo anotando dois gols cada em placar fechado por Javier Zanetti e Diego Simeone.
Contra os tchecos um amistoso em março de 2010 chegou a ser agendado, mas o adversário trocou a Argentina pelo Brasil. As duas nações fizeram a final do último Mundial sub-20 vencido pela Albiceleste, em 2007, após terem duelado também na fase de grupos (0-0). Sergio Agüero e Mauro Zárate, que nunca jogou pela equipe principal, fizeram os gols da virada de 2-1 na decisão em Toronto.
Por fim, eis alguns dos nomes mais chamativos – a lista, como tantas outras, é assumidamente especulativa, exceto em três nomes. Ao lado, a grafia original.
Arturo Rodenak (Rodenák): nascido em La Plata, ingressou no time adulto do Gimnasia ainda adolescente, embora só em 1951 tenha sido usado mais regularmente que outros goleiros – naquele ano, defendeu a seleção nos primeiros Jogos Pan-Americanos. Terminou por desenvolver a carreira no Chile, especialmente no Rangers de Talca (também como treinador), cidade onde faleceria em 2012.
José Varacka (Varačka): filho de um casal eslovaco, embora acabasse apelidado de El Polaco mesmo, ele esteve naqueles 6-1 e chegou a ser cumprimentado de modo especial pelos “primos”. Também chamado de El Puchero, trabalhou em nada menos que em quatro dos cinco grandes argentinos. Foi ídolo de Independiente (onde atuou com um irmão, Emilio) e River, pendurando as chuteiras no San Lorenzo antes de treinar o Boca – e o rival sanlorencista, o Huracán. Presente também na Copa de 1966, Varacka teve uma carreira incrivelmente marcada pelo azar, convivendo com os maiores jejuns de Independiente (1948-60) e River (1957-75), para onde mudou-se justamente no ano em que o ex-clube encerrou a seca. Por outro lado, o volante foi o único presente nos dois jogos que marcaram uma longa invencibilidade do Real Madrid de Di Stéfano em casa contra estrangeiros: o 6-0 do Rojo em 1953 e o 3-2 do Millo em 1961. Treinou ainda a seleção na Copa de 1974 e o primeiro título colombiano do Junior de Barranquilla, em 1977 – embora não ficasse até a reta final… já dedicamos a Varacka este Especial.
Rodenak, Varacka e Rudzky
Christian Rudzky (Rudzký): nascido na Tchecoslováquia em 1946, imigrou à Argentina já com 14 anos, a tempo de ficar fluente em espanhol com perfeito sotaque portenho ao mesmo tempo em que viria a ser o primeiro europeu a ganhar a Libertadores. Volante revelado no Deportivo Español, integrou o Estudiantes campeão de 1969 e 1970 como uma opção de banco, mas até deixou dois golzinhos em La Copa: no 3-1 em Santiago sobre a Universidad Católica pelas semifinais de 1969; e no 2-1 em casa sobre a Unión Española pelo triangular-semifinal de 1971, quando o clube de La Plata ficou no vice-campeonato. Curiosamente, também era apelidado de El Polaco. Chegou a naturalizar-se para defender a seleção argentina juvenil e, com isso, virou também o primeiro hermano a jogar na Bundesliga: ainda em 1971, rumou ao Hannover 96.
Enrique Hrabina: curiosamente foi apelidado de El Ruso ou de El Vikingo mesmo, foi um lateral esforçado no Atlanta (venceu a segunda divisão de 1983, rendendo a última temporada deste clube na elite), no San Lorenzo e em especial no Boca, seu clube entre 1985 e 1991. Compensava a deficiência técnica com a garra tão exigida pela torcida e foi um dos xodós das vacas magras do clube no liga argentina. Se nunca pôde vence-la, Hrabina pôde dar voltas olímpicas simbólicas no período: liguilla 1986 (não é exatamente um título, mas o time, com um a menos, arrancou na decisão um 4-1 dentro de Rosario sobre o Newell’s, revertendo derrota de 2-0 sofrida na Bombonera), Supercopa 1989 (o primeiro troféu oficial desde o maradoniano Metropolitano 1981) e Recopa 1990. Em 2011, a revista El Gráfico lhe colocou entre os cem maiores ídolos xeneizes.
Frank Kudelka (Kudělka): atual treinador da Universidad de Chile após fazer carreira basicamente no interior argentino, à exceção do ciclo de 2013-14 no Huracán. Por este clube, teve o mérito de dirigi-lo na maior parte da campanha campeã da Copa Argentina daquela temporada, classificando-o às semifinais. Contudo, os ruins resultados paralelos na segunda divisão resultaram na sua saída, acabando por ser Néstor Apuzzo o treinador que deu a volta olímpica na Copa (com Apuzzo, o time também se reergueu na segundona e pôde subir, diga-se). Os títulos de Kudelka vieram nas divisões inferiores do interior: 4ª divisão de 2007 com o Libertad de Sunchales; 3ª divisão de 2009 com o Boca Unidos e de 2015 com o Talleres; e 2ª divisão de 2016 com o mesmo Talleres, devolvendo-o à elite após quinze anos. Ainda como treinador tallarin, Kudelka foi eleito o melhor técnico da temporada argentina de 2017-18.
Hrabina no Boca oitentista, Kudelka no Huracán em 2014
Germán Voboril (Vobořil): presente na seleção campeã mundial sub-20 de 2007 sobre os tchecos, esse lateral-esquerdo é um raríssimo campeão em comum por San Lorenzo (Clausura 2007 e Libertadores 2014, embora nunca se firmasse) e Racing (Transición 2014).
Tomás Conechny (Konečný): artilheiro da seleção no mundial sub-17 de 2015 e presente no mundial sub-20 de 2017, foi outro a não se firmar no time adulto do San Lorenzo. Integrou em 2018 a leva de argentinos atraídos pela MLS, defendendo o Portland Timbers.
Gonzalo Rehak (Rehák): goleiro comandado pelo nome abaixo no Independiente campeão da Sul-Americana de 2017, ainda não pôde firmar-se, seja à sombra de Damián Albil ou de Martín Campaña. Foi titular no marcante 1-0 em Clásico de Avellaneda em pleno Cilindro, em que o Racing perdeu mesmo atuando com um jogador a mais na maior parte de um dérbi… e mesmo que os visitantes utilizassem basicamente uma equipe reserva, poupando-se para o jogo de volta das semifinais daquela Sul-Americana, dali a três dias.
Ariel Holan (Holaň): talvez o nome que mais dispense apresentações na lista (embora tenha feições já mais indígenas do que eslavas). Seja pela carreira singular, deixando o hóquei sobre grama para ser assistente em diversas comissões técnicas de futebol a partir de 2003; seja pelos trabalhos reconhecidos que teve como técnico, função assumida primeiramente no Defensa y Justicia em 2015, classificando o time de Florencio Varela pela primeira vez a uma Copa Sul-Americana; seja pelo título nesse torneio com o seu Independiente do coração em 2017, empregando um belo futebol ao gosto exigente do paladar rojo para coroar-se dentro do Maracanã contra o Flamengo – embora os resultados não se repetissem depois, em ciclo marcado também pela incomum coragem contra os barrabravas. Na edição final da revista El Gráfico, em janeiro de 2018, Holan mencionou que seu pai chamava-se Jaroslav e viera diretamente da Tchecoslováquia.
Voboril com a taça do Racing em 2014, Conechny na seleção sub-17 e Rehak com a Sul-Americana de 2017
A primeira Supercopa do Independiente foi comemorada por Islas, Serrizuela, Usuriaga e Arzeno como a taça que faltava.
Islas, Serrizuela (quase encoberto pela pesada Supercopa), Usuriaga e Arzeno celebram “a taça que faltava”
Por Caio Brandão e Leandro Paulo Bernardo
Todos sabem que o Independiente é o maior vencedor da Libertadores. Mas o Rojo não se limitou a isso: é também o maior vencedor justamente do torneio que reunia somente os campeões da Libertadores – a Supercopa, disputada de 1988 a 1997 e cujo retorno vem sendo ventilado pela Conmebol para definir vagas no Mundial de Clubes expandido. Único time argentino bi (e bi seguido) dessa outra competição, a equipe de Avellaneda tinha doses extras para as comemorações da primeira vez, há 25 anos. Mantinha, inclusive, uma escrita de sempre ser campeão continental em anos finalizados em 4.
Para começar, a Supercopa já havia premiado o arquirrival Racing, logo na primeira delas, em 1988. O Independiente respondeu chegando à final já da edição seguinte, mas terminou amargando em plena Doble Visera o vice para um Boca que vinha em jejum havia oito anos. E aí houve outro gostinho especial, o da revanche, pois os xeneizes do técnico César Menotti foram os derrotados naquela decisão de 1994. Já na sétima edição, era o único torneio já disputado pelo Independiente que seguia de fora da galeria, tornando-se uma obsessão para quem, afinal, já se declarava como El Rey de Copas. Sentimento majorado pelo clube, nas demais edições, quase sempre ter sido eliminado por finalistas, exceto em 1991. Mas em 1994 aquele Independiente já vinha bem embalado. Em 27 de agosto, obteve o Clausura, seu primeiro título desde a aposentadoria do ídolo-mor da instituição, Ricardo Bochini – encerrando ainda um jejum de cinco anos, tempo demais para uma torcida mal acostumada com glórias pelas três décadas anteriores.
Embora sempre estivesse no páreo pelo Clausura, o Rojo só veio a calibrar seu time-base na reta final. Afinal, as três rodadas finais renderam um 4-0 no Banfield, um 5-1 de virada dentro de La Plata sobre o interessante Gimnasia da época e outro 4-0, no confronto direto casualmente agendado para a rodada final com o então líder Huracán do técnico Héctor Cúper (ultrapassando assim o Globo em um ponto e ficando com a taça).
Prólogo: a uma semana do início da Supercopa, o Independiente encerrou jejum de 11 anos (!) contra o Racing. Imagens do gol que o racinguista Hugo Pérez (entre Rambert e Cagna) não comemorou e da profética capa pós-jogo da El Gráfico, com Gustavo López
O Brasil teria o gostinho de acompanhar o embalo graças à aposta da Bandeirantes naquela competição rápida, de bons jogos e só com times de tradição, com o então canal do esporte empolgado pela final anterior (entre Flamengo e São Paulo) e pela magnífica campanha do Cruzeiro na edição de 1992. Todos os times brasileiros teriam seus jogos transmitidos. E três deles calharam de visitar Avellaneda em sequência…
Os titulares engrenados no fim do Clausura foram mantidos na estreia da Supercopa, iniciada já sob mata-matas: Luis Islas, Néstor Craviotto, Pablo Rotchen, José Serrizuela e Guillermo Ríos; Diego Cagna, Hugo Pérez e Daniel Garnero; Gustavo López, Alveiro Usuriaga e Sebastián Rambert era o time-base consagrado na reta final do Clausura e foi reescalados cerca de duas semanas depois do título nacional, para o primeiro compromisso no exterior; em 8 de setembro, eles visitaram no lamaçal da Vila Belmiro um Santos que tinha outro carma na competição – o de sempre cair logo no primeiro mata-mata.
Abaixo, o plantel inteiro, já com o imenso troféu da Supercopa ostentado ao centro: Domingo Acevey, Fernando Cassano, Fabio Lenguita, Diego Cagna, José Serrizuela, Ángel Morales, Hugo Pérez, Daniel Vidal, Juan Carlos Ramírez, Raúl Cascini, Néstor Craviotto e Guillermo Ríos; massagista Félix Cerussi, fisioterapeuta Jorge Fernández, Daniel Garnero, Sebastián Rambert, auxiliar técnico José Mitrovich, preparador físico León Martínez, técnico Miguel Ángel Brindisi, auxiliar técnico Carlos Squeo, Walter Parodi, Pablo Rotchen, roupeiro Lorenzo Gambeta, médico Juan Olivera e massagista Rubén Chaparro; fisioterapeuta Raúl Alomar, Jorge Gordillo, Gustavo López, Edgardo Arnaudo, Luis Islas, Carlos Luis Morales, Gerardo Mejide, Claudio Arzeno, Alveiro Usuriaga e roupeiro Francisco Touriño.
Curiosamente, muitos daí jogaram no Racing antes (casos de Pérez, de Parodi, ambos ironicamente torcedores racinguistas declarados; do técnico Brindisi; e do seu assistente Squeo, ídolo no rival) ou depois, casos de Serrizuela e Ángel Morales. Brindisi ainda teria novos ciclos de técnico em ambos
Treinado por Serginho Chulapa, o Peixe tinha como camisa 10 não ainda o messias Giovanni (que só estrearia em outubro no clube) e sim, curiosamente, o “craque Neto” para municiar o trio ofensivo Macedo, Guga e Paulinho Kobayashi. Para o Independiente, mais chamativo não era o 10 e sim “o filho do 10”, o goleiro Edinho. Foram momentos infelizes para o zagueirão Pablo Rotchen. Ao tentar afastar uma bola que não oferecia maior perigo, ele fez o gol contra da derrota de 1-0. E três dias depois, no duelo com o Ferro Carril Oeste pela segunda rodada do Apertura, lesionou-se gravemente. Sua saída seria a única mudança para a equipe base encontrada no fim do vitorioso Clausura; seu lugar seria ocupado por ElPolaco Arzeno.
Ainda antes do jogo de volta, o Independiente já pôde comemorar enormemente. A terceira rodada do Apertura, em 18 de setembro, foi marcada pelo Clásico de Avellaneda. A torcida vermelha ainda precisava se ater ao delicioso dérbi de 1983 no qual terminaram campeões argentinos sobre o rebaixado rival, pois desde então simplesmente não vinham mais conseguindo vencê-lo. Ainda que os dérbis só fossem retomados em 1986 (pois o Racing não soubera subir de primeira, apenas em 1985) e registrassem a bem da verdade mais empates do que triunfos da Academia, o tabu incomodava. Incluíra até um capítulo na própria Supercopa, em 1992, nos únicos duelos continentais da rivalidade – vencidos pelo Racing graças a um gol de mão, de Claudio García (em outro papel invertido, o Rojo quase empatou com um chute do meio-campo… do goleiro Islas). No 2-2 arrancado no fim pelo rival dentro da Doble Visera no Clausura, os alvicelestes tiraram outra casquinha, com um aviãozinho sobrevoando a cancha para exibir uma faixa com os dizeres de “Rojo amargo, onze anos sem ganhar”.
A capa da revista El Gráfico de 20 de setembro, dois dias após a partida, acabaria profética para a Supercopa. O letreiro da manchete era “El Año Rojo”. Pois, após levantar o Clausura, a seca no clássico acabou em alto estilo menos de um mês após a conquista do Clausura. Dentro do Cilindro racinguista, os visitantes ganharam de 2-0, com direito a gol de Hugo Pérez, um dos mais polêmicos vira-casacas em Avellaneda – pois sempre se dizia torcedor do seu ex-clube e mantinha firmemente tais declarações, sabendo, porém, deixar o clubismo em casa para se dedicar por completo pela camisa rival (pela qual torcem seus pais) ao longo dos 90 minutos. El Perico, inclusive, não comemorou após converter seu gol de pênalti. Sua presença no Clausura de 1994 já havia feito dele o último campeão pelas duas forças de Avellaneda até a vez de Nery Domínguez nesse 2019. Com a Supercopa, tornou-se um raríssimo (e ainda último) a conseguir isso internacionalmente; reserva na própria conquista rival em 1988, juntou-se a apenas Miguel Ángel Mori, vencedor das Libertadores de 1964, 1965 e 1967, e Humberto Maschio, colega de Mori em 1967 que viria a treinar o Independiente na de 1973. Não que Pérez se limitasse a essas estatísticas: assim como o goleirão Islas, o volante de bom passe e ótima mira em bolas paradas havia representado a Argentina no Mundial dos EUA mesmo antes de sagrar-se campeão do Clausura.
Carrasco dos brasileiros, Usuriaga já driblou Edinho para marcar o segundo no Santos; e apareceu livre e oportunista para abrir o placar contra Danrlei e Dida nesses lances
Já Craviotto estivera na vitoriosa Copa América de 1993, Serrizuela fora titular na final do Mundial de 1990 e Cagna já havia sido contemplado com jogos pela Albiceleste ainda como jogador do Argentinos Jrs. Quatro dias após desengasgar contra os vizinhos, o energizado Rey de Copas manteve uma freguesia em família: em 1964, Pelé e colegas haviam levado de 5-1 em amistoso que inaugurava a nova iluminação noturna da Doble Visera, meses antes dos praianos (desfalcados do Rei, é verdade) sucumbirem nas semifinais da primeira Libertadores ganha pelos argentinos. A diferença de gols foi “respeitada” trinta anos depois, com um quê de sorte de campeão. Porque foi justamente o substituto do lesionado Rotchen, Arzeno, quem usou a cabeça para abrir aos 21 minutos, em lançamento de López após escanteio curto, um 4-0. Goleada completada por Usuriaga (seis minutos depois, recebendo livre de Garnero, driblando Edinho e sabendo guardar mesmo sem maior ângulo), Rambert (aos 22 do segundo tempo: Usuriaga ciscou entre três santistas e a bola sobrou ao colega, que girou e chutou prensado. A bola resvalou na zaga praiana e encobriu Edinho) e Pérez (em cobrança furiosa de pênalti aos 45, após ele mesmo ter sido derrubado pelo filho de Pelé).
O 4-0 foi, assim, a primeira explosão apoteótica a nível continental daquele timaço. Em 8 de outubro, nova visita ao Brasil, para enfrentar o Grêmio. O time de Scolari ainda era substancialmente diferente do elenco-base que levantaria a Libertadores dali a cerca de um semestre. O xerife Catalino Rivarola ainda estava no próprio futebol argentino (no Talleres), por sinal, e seu compatriota Francisco Arce seguia na terra natal; já a dupla ofensiva de Jardel com Paulo Nunes jogava em baixa no Rio de Janeiro, antecedidos na ocasião por Carlinhos com Fabinho. Danrlei, Roger “Legado”, Carlos Miguel e Arilson eram o terço já presente em um time que, por outro lado, já havia provado seu copeirismo em 1994 ao erguer em agosto a Copa do Brasil. O Tricolor, inclusive, impedira um novo Clásico de Avellaneda continental ao eliminar o Racing na fase prévia. Ainda assim, os brasileiros precisaram arrancar um empate na própria casa, embora parecessem melhores, mesmo que Perico Pérez forçasse Danrlei a grande defesa em uma falta. Mas, em dia inspirado, o elegante Garnero (tido como sucessor do maestro Bochini) soube cadenciar o meio. Em momento em que o Grêmio dominava, chegando até a acertar duas vezes a trave de Islas (com Carlos Miguel no primeiro tempo e Carlinhos no segundo), o camisa 10 achou Rambert, que com um giro de corpo se livrou da marcação do capitão Luciano, desequilibrando-o, e fuzilou Danrlei, já aos 37 do segundo tempo.
Vieram então minutos finais movimentados. Ayupe, de falta na meia-lua, empatou aos 41, com a bola ainda acertando a trave esquerda antes de entrar. E houve tempo para Luciano ser expulso com o segundo amarelo no minuto 45 ao soltar o pé no joelho de Rambert, não tolerando um novo drible do Pascualito. Apenas um dia depois, o Independiente precisou ir a campo pelo Apertura para pegar o River. Os reservas caíram por 2-1 para que os titulares estivessem aptos a, já no dia 12, reencontrarem os gaúchos, que apresentaram em Emerson outro futuro nome conhecido entre os titulares. Não foi o bastante para evitar um baile argentino, com o 2-0 anotado pelo infernal Usuriaga (que se mostraria um carrasco contínuo dos brasileiros naquela campanha) e pelo classudo Gustavito López soando mentiroso. Os gols saíram no minuto 32 de cada tempo – no primeiro, El Palomo aproveitou livre quase na pequena área uma bola alçada de peixinho por Arzeno; no segundo, López, craque da partida (correu, marcou, deu passes milimétricos…) recebeu de Garnero pela esquerda e de primeira soltou a canhota para acertar um golaço no ângulo para carimbar o avanço às semifinais. No dia 16, o Rojo fez então sua última grande exibição no Apertura, ganhando de 4-0 do Gimnasia de Jujuy. Na rodada seguinte, direcionando o foco somente no cenário continental, já levariam de 3-0 do Banfield de Javier Zanetti.
O aviãozinho e fúria de Rambert contra o Boca. Essas imagens ainda são do gol do jogo de ida. Também aparecem Cagna, Gareca (na imagem esquerda), Garnero e Gustavo López (direita)
Afinal, a terceira visita seguida ao Brasil, em 19 de outubro, pareceria à primeira vista pouco auspiciosa, sob derrota de 1-0 assinalada já com sete minutos em golaço de Edenilson para o Cruzeiro, deixando dois argentinos na saudade para ganhar ângulo e atirar. A Raposa já havia participado de três finais de Supercopa e vencido duas, mantendo no elenco velhos heróis da competição, a exemplo de Mário Tilico e Roberto Gaúcho – sendo comandada ainda pelo ídolo setentista Palhinha. O embate entre a equipe mais copeira do torneio e aqueles argentinos de belo futebol prevaleceu para a paulistana Bandeirantes ao invés da semifinal que envolvia São Paulo e Boca. O placar magro escondeu um bom jogo dos visitantes, com Rambert, Usuriaga e Garnero forçando boas defesas de Dida, a ponto do ídolo Tostão comentar ao fim do jogo que “o Cruzeiro vai para a Argentina com uma vantagem muito pequena”. De fato, dali a uma semana, nem Dida pôde evitar repetição integral do roteiro aplicado no Santos. Usuriaga (cabeceando livre aos 37 do primeiro tempo um escanteio curto originado de uma conclusão sua espalmada pelo goleirão baiano), Rambert (aos 16 do segundo, tendo tempo de dominar antes de concluir na sobra de outro escanteio curto), novamente Usuriaga (aos 23, recebendo livre de López mas sabendo livrar-se da pronta marcação de Nonato com uma pausa, antes de colocar nas redes com um lindo toque sutil de canhota desde a linha da grande área) e Serrizuela (livre aos 36 após López atrair para si três marcadores) sumularam outro 4-0.
Um 4-0 mentiroso. Ainda que Islas mandasse para escanteio uma boa tentativa de longa distância de Roberto Gaúcho (já com 3-0), o travessão já havia evitado um gol de Craviotto e Rambert fora fominha em outros dois lances com o jogo em 1-0. O “Brasileirão particular” do Independiente terminou ali. Com a queda do São Paulo para o Boca, a Bandeirantes, apesar até de duas cartas do autor Leandro Paulo Bernardo, não se animou em transmitir a “final argentina”, muito embora o adversário houvesse entortado também o Peñarol e nada menos que o grande rival River (nos pênaltis) nos mata-matas prévios. Boca e Independiente já tinham duelo marcado para 29 de novembro no Apertura. Foi precisamente nessa mesma data que os xeneizes, meia década antes, festejaram na casa adversária a Supercopa de 1989. Em 1994, os auriazuis até goleariam por 4-1 mesmo dentro da Doble Visera; uma forra de pouca valia histórica: porque, em 3 de novembro, o clube bem treinado por Miguel Ángel Brindisi (justamente um antigo ídolo boquense como dupla dinâmica de Maradona na conquista do Metropolitano de 1981) soube segurar um desenrolar ligeiramente favorável ao adversário no primeiro tempo da visita à Bombonera. O uruguaio Sergio Martínez abriu o marcador aos 25 minutos, mas Pérez e Cagna puderam conter mais armações dos meias adversários Alberto Márcico, Alejandro Mancuso (ele mesmo) e Roberto Acuña – curiosamente, um nativo de Avellaneda que já defendia a seleção paraguaia naquela altura antes de desembarcar no próprio Independiente em 1995.
A doze minutos do fim, Rambert desviou com a cabeça para empatar. O jogo derradeiro então se deu no dia 9, sob o efeito de uma tragédia. Jorge Vázquez, ex-Boca e Vélez, havia falecido em acidente de carro na véspera. El Gallego havia sido colega de Ricardo Gareca nesses dois clubes e empresariava o agora atacante veterano que o Independiente dispunha como opção de banco. El Tigre fora usado por volta dos 20 minutos finais nos três jogos anteriores da Supercopa (e na estreia), mas não se recuperou da morte do grande amigo. Ficaria toda a segunda final no banco e optou por jogar só mais uma vez na carreira, no compromisso seguinte do clube no Apertura, retirando-se às lágrimas. Foi o lado triste da “grande final que o futebol argentino se devia e nos devia”, nas palavras da El Gráfico sobre “uma final a puro futebol. Vibrante, emotiva, com duas equipes que iam para frente, a jogar pela vitória com armas limpas, nobres, generosas, de forte atração visual, de indubitável riqueza estética, tratando cada um de prevalecer por ser melhor que o oponente”. Após Vázquez ser homenageado com um minuto de silêncio na Doble Visera lotada em plena tarde de uma quarta-feira útil na Argentina, o Boca foi novamente melhor no primeiro tempo.
O sensacional gol do jogo da volta, com Rambert voando à frente de Gamboa, Fabbri e do camisa 8 Mancuso para encobrir Navarro Montoya
Com outras palavras da El Gráfico, “houve um vencedor: o Independiente. Que venceu com esforço, obrigado a deixar tudo no campo, exigido a fundo por um bravo adversário. Um triunfador acostumado a viver essas alegrias porque está preparado para afrontar e resolver esse tipo de exigências. Houve um vencido: o Boca. Que saiu aplaudido porque também havia deixado farrapos de dignidade, de orgulho, de atitude protagonista definida e de intenções futebolísticas elevadas. Entregou tudo: inteligência e fervor, determinação e jogo. Não lhe bastou. Porque o futebol se define de distintas maneiras, nunca repetidas, sempre inéditas, às vezes surpreendentes e muitas vezes impensadas”. Isso porque, no primeiro tempo, Islas foi se mostrando a figura contra outra boa tarde do Manteca Martínez. E mesmo quando o goleiro não encontrou a bola, El Polaco Arzeno apareceu para impedir que ela entrasse. No início do segundo, a casa respondeu. Aos 6, Rambert tabelou com Usuriaga e deixou Carlos Navarro Montoya no caminho, mas perdeu. Quatro minutos depois, então, o Pascualito usou outro método, logrando o que Rodrigo Palacio não pôde em 2014.
Amigo de infância de Rambert, Gustavito López forneceu-lhe em profundidade um generoso passe de primeira para colocar-lhe livre na cara de Navarro Montoya. Em pleno voo, Rambert desviou com um toque sutil para encobrir-lhe magistralmente e decolar o característico aviãozinho. Um gol que inclusive era bastante parecido ao primeiro “gol da América” anotado pelo Rojo, na decisão da Libertadores de trinta anos antes. Começou então o melhor momento dos mandantes: “o Independiente seguiu golpeando sobre a ferida aberta na alma boquense, para não deixa-la cicatrizar. Foram sete, oito minutos nos quais Rambert foi um inferno para quem, como Fabbri ou Mac Allister, haviam jogado um partido impecável”. O técnico Brindisi, ao meio da etapa complementar, então, preferiu a cautela, colocando Alfredo Cascini (anos mais tarde convertido no homem que acertou o pênalti a dar o último Mundial do próprio Boca e do futebol argentino, em 2003, como colega de Cagna) no lugar de Usuriaga. Menotti acionou mais atacantes, mas o jogo terminaria com “o Independiente indo buscar o segundo gol, contra-atacando com frieza e justeza, mas sem definir bem o momento de apontar e disparar. Gustavo López denunciava problemas em seu tornozelo esquerdo. Garnero não estava em sua tarde mais inspirada. Mas Rambert, Cagna e Luli Ríos mantinham seu alto nível de rendimento. E o Boca ia caindo, envolto na impotência e no desânimo. Havia lutado muito”.
A missão visitante complicou-se de vez com a expulsão de Rubén da Silva aos 44 minutos, por reclamação, sendo avaliado como o pior em campo. Já sobre os melhores, a El Gráfico resumiu bem: “dois jogadores terminaram com o trabalhoso tecido de todo um conjunto: Luis Alberto Islas, imbatível na defesa do arco do Independiente; Sebastián Rambert, em outra demonstração de sua explosiva personalidade de atacante ao qual não se pode dar um metro de luz nem um segundo de respiro porque sua contundência é facilmente mortal. Um em cada extremo do campo marcaram a luz de diferença que separou a alegria vermelha da decepção boquense”. Não era exagero: uma semana depois, Rambert (filho de um ex-jogador da seleção francesa e sobrinho de um reserva, curiosamente, do Racing campeão da Libertadores de 1967) já estreava pela seleção, precisamente na primeira partida do ciclo do técnico Daniel Passarella, e abria o placar desse ciclo em um 3-0 sobre o Chile dentro de Santiago.
Garnero, o técnico Brindisi e Cagna no túnel. Usuriaga, Hugo Pérez, Gustavo López e Cascini ainda com a galera
Pascualito reforçava a impressão de quem parecia ser um atacante certo para a Argentina para o Mundial da França, com alguma expectativa de revanche familiar: afinal, seu já falecido pai Ángel Rambert marcara o gol que classificara os Bleus à Copa de 1966, mas uma lesão terminou por corta-lo da convocação em que figuraram os argentinos Néstor Combín e Héctor de Bourgoing. O filho logo seria contratado pela Internazionale, apresentado juntamente com Javier Zanetti como estrela principal ao invés do defensor, e ainda faria alguma histórica como último jogador a trocar diretamente o Boca pelo River ou vice-versa (após passar ser xeneize na temporada 1996-97, voltaria a vencer a Supercopa, no fim de 1997, já como millonario). Mas o artilheiro da Supercopa de 1994 deixaria de ser o mesmo em breve, desaparecendo da seleção ainda em 1995 em decorrência das lesões que impediram voos do seus aviãozinhos em Milão. Ficou a memória de quem simbolizou o Independiente em um debate promovido pela El Gráfico, a reunir os clubes argentinos campeões no ano, cada um com duas taças: o River faturara o Apertura 1993 (só finalizado em março de 1994) e, em dezembro, teve no Apertura 1994 como único título argentino invicto de sua história. E o Vélez, como se sabe, levantou sua Libertadores e seu Mundial.
A conclusão da revista? O Fortín era melhor na defesa graças a Chilavert enquanto a dupla Ortega e Francescoli davam alguma vantagem ao Millo no ataque. Já o vencedor do Clausura e da Supercopa sobrava no meio, sem deixar a desejar na frente: “sobretudo quando pôde integrar com o implante incansável de Diego Cagna para desdobrar-se na defesa e ataque, o sentido de posicionamento e a pegada do Perico Pérez para distribuir balões, a clarividência de Daniel Garnero para armar ataques, meter passes-gol e chegar à definição e a habilidade imaginativa de Gustavo López para desequilibrar partindo do meio-campo com chegada ao fundo na ofensiva. Esse quarteto, de forte sotaque ofensivo, recebeu invariavelmente o respaldo próximo de José Serrizuela, para manter sua zona sob controle. Quando Brindisi posicionou Rambert junto ao colombiano Alveiro Usuriaga, o Independiente logrou uma contundência e ao mesmo tempo uma variedade de chegada atacante muito difícil de superar. Enquanto teve em suas filas Ricardo Gareca, ficou a valiosa alternativa de fazê-lo entrar para posiciona-lo junto de Usuriaga enquanto Rambert recuava para volantear”.
O Rojo também levou a melhor no quesito “riqueza técnica”, algo caro para uma torcida tão exigente de futebol vistoso: “tanto em ductilidade de manejo, através de Gustavo López, Daniel Garnero, Perico Pérez, quanto em certeza de pegada, considerando a justeza entre eles três e a que demonstram igualmente Cagna ou Usuriaga na entrega ou na definição. O River se aproximou com Ariel Arnaldo Ortega, Sergio Berti e Enzo Francescoli, mas esteve um degrau abaixo”. Outros temperos extras na conquista? Ali o Rey de Copas encerrou seu maior jejum internacional até então (dez anos) e honrou a alcunha, igualando-se ao poderoso Milan da época como clube com mais troféus internacionais no mundo. Os italianos pareciam capazes de se isolarem novamente em dezembro, mas o Vélez impediria. Quem se isolaria seria o Rojo de Avellaneda mesmo, ao bater o próprio Vélez na Recopa Sul-Americana travada no primeiro semestre de 1995, no canto do cisne daquele elenco de 25 anos atrás. Já o bi na Supercopa viria sobre um centenário Flamengo dentro do Maracanã, mas após todo um desmanche de um dos melhores times que o mundo teve naquele segundo semestre de 1994. Passagem de um ano já retratada nesse outro Especial.
Usuriaga, Islas e Garnero de pé, Gustavo López e Rambert agachados. Só López ficaria para o bi em 1995, enquanto em 1994 o amigo Rambert simbolizou o Rojo em reunião com Omar Asad (Vélez) e Roberto Ayala (River) no debate do melhor time argentino do ano. A conclusão foi “enquanto discutimos, celebremos as campanhas dos três. São dessa terra, nossos, e deram brilho ao futebol nativo”.
Os argentinos de origem alemã no futebol são herança de uma imigração significativa. Walter Kannemann foi o primeiro que a seleção importou do Grêmio.
Walter Kannemann foi o primeiro que a seleção argentina importou do Grêmio – por sinal, um clube cujos primórdios foram fomentados pela comunidade alemã
A data de 9 de novembro de 1989, há exatos trinta anos, marcou o século XX. Exatos 51 anos depois da trágica Kristallnacht (e cerca de 66 depois do Putsch da cervejaria), a preceder a carnificina-mor na guerra que terminou dividindo a Alemanha, era a vez de celebrar a queda do infame Muro de Berlim. Sob esse gatilho, vale relembrar os numerosos jogadores argentinos com ancestrais alemães, no sentindo abrangente do termo, sem descartar os possivelmente provenientes pelo caminho entre a Áustria e o velho Império Russo (cujos chamados “alemães do Volga” também emigraram em peso à Argentina), a título de exemplo.
A lista abaixo é (salvo casos expressos especificados na descrição) assumidamente especulativa, tal como matérias similares a escoceses, a irlandeses, a ingleses, a franceses, a húngaros, a bascos, a catalães, a galego-portugueses, a croatas, a árabes e até aos diversos povos da antiga União Soviética – região que, além dos tais alemães do Volga, também continha ancestrais de alguns outros sobrenomes germânicos do futebol argentino, de judeus asquenazes (emigrados em demasia tamanha dos pogrons que a expressão El Ruso tornou-se comum na Argentina para designar judeus); para eles, já dedicamos este Especial próprio. Como com todos esses povos, os alemães não deixarem de se miscigenar com nativos, podendo-se notar na lista uma boa variedade de jogadores com fenótipo mais indígena do que “ariano”, especialmente nos que atuaram dos anos 60 em diante (basta um Google Imagens nos Leeb ou em Fischer, Albrecht, Dreyer, Houseman, Müller, Goltz, Kranevitter…). Uma ironia histórica quando se sabe da triste acolhida que criminosos nazistas tiveram no mesmo país que tanto abrigou de igual modo a judeus e Oskar Schindler.
Se o vizinho Uruguai teve no extinto Deutscher (depois Teutonia e por fim Montevideo) um dos clubes fundadores de seu campeonato, na Argentina o clube mais proeminente com alguma influência alemã nos primórdios é o Newell’s, cujas cores negra, vermelha e branca remontam à antiga bandeira do Império Alemão – pátria natal de Anna Jockinsen, esposa do educador britânico Isaac Newell homenageado no nome.
Atualização em 25-03-2021: nesse dia, pela primeira vez um argentino defendeu uma seleção alemã, com a estreia do cordobês Mateo Klimowicz pela equipe sub-21 da Mannschaft. Ironicamente, esse meia-atacante não tem origens germânicas e sim polaco-ucranianas, mas herdou a cidadania alemã que seu pai, o ex-atacante Diego Klimowicz, adquiriu por tempo de residência contínua entre Wolfsburg, Dortmund e Bochum.
Vamos, enfim, a alguns nomes chamativos do futebol argentino, alguns provavelmente já narrados pelo locutor Mariano Closs, sinônimo de transmissões da Libertadores:
Leopoldo Bard: foi sócio-fundador do River, seu primeiro presidente e jogou nos primeiros elencos do clube. Falamos mais dele neste Especial que atesta que o River, como o Atlanta, também completa 110 anos em 2014 (a versão oficial diz que isso ocorreu três anos atrás). Possuía origem judaico-alemã.
Gottlob Weiss: veloz ponta-direita do Alumni, o bicho-papão do futebol argentino na primeira década do século XX. Até hoje, só os cinco grandes (Boca, River, Racing, Independiente e San Lorenzo) superaram os dez títulos dos alvirrubros que inspiraram o uniforme do Estudiantes. Weiss participou dos primórdios da seleção, em trajetória que durou de 1903 a 1910, iniciada ainda como jogador do Barracas Athletic. Seu filho Haroldo teve certo renome no tênis nos anos 40 e 50, casando-se com outra tenista prestigiada: Mary Terán de Weiss, afinal, nomeia a quadra usada pela delegação nacional nos jogos em casa da Copa Davis (recebendo em 2018 também as Olimpíadas da Juventude), homenagem póstuma a quem suicidou-se após severos boicotes a todos os esportistas com imagem atrelada a Perón.
Marius Hiller: único a defender as seleções de Alemanha e Argentina e um dos dois únicos no futebol a jogar antes por uma seleção europeia e depois em uma sul-americana (a nível de seleções principais); o outro foi o ítalo-uruguaio Roberto Porta. Nascido próximo a Stuttgart, jogou três vezes pela Mannschaft entre 1910-11 antes de emigrar à Argentina. Artilheiro do campeonato argentino de 1916 em um dos últimos torneios de futebol disputados pelo seu Gimnasia y Esgrima de Buenos Aires, foi então usado duas vezes oficialmente pela Albiceleste. Uma delas rendeu um recorde no clássico com o Uruguai, abatido por 7-2. Em dois jogos, o alemão anotou quatro gols, tendo junto da lenda Guillermo Stábile (de oito gols em quatro jogos, todos na Copa de 1930) a melhor média absoluta da história da Argentina! Passaria ainda por All Boys e River e se radicaria no país, falecendo em Buenos Aires em 1964.
Adolfo Heisinger: nascido em Tigre em 30 de maio de 1898 e falecido lá em 31 de outubro de 1976, El Alemán conciliava os esportes náuticos tão populares naquela zona como, é claro, o futebol como um hábil e bastante veloz ponta-direita do clube de mesmo nome – ainda sediado naquela cidade antes de mudar-se em 1935 para a de Victoria. O Tigre foi seu único time em uma trajetória dilatada no amadorismo argentino, em ligação que permaneceu como técnico, dirigente e depois como caseiro do estádio. Pôde estrear na seleção quando ainda tinha 18 anos, em plena edição inaugural da Copa América, em 1916.
Ernesto Kiessel:El Alemán teve uma das mais meteóricas histórias de superação na Argentina. A primeira partida oficial desse goleiro histórico do Huracán foi no campeonato argentino de 1919: levou de 7-0 do Boca, mas já em fevereiro de 1920 fazia sua primeira e única aparição na seleção (e sem sofrer gols, vencendo por 1-0 um amistoso com o Uruguai), algo ainda inédito a um goleiro huracanense. Defenderia o arco do Globo até 1923, participando dos dois primeiros títulos argentinos do time do bairro de Parque de los Patricios.
Weiss no Alumni. O alemão Hiller pela seleção argentina. Heisinger, o faz-tudo do Tigre. E o goleiro Kiessel, do primeiro Huracán campeão
Heinrich Theelen: oficialmente, é o único alemão a jogar profissionalmente na Argentina (Hiller o fez no amadorismo). Marinheiro sobrevivente da batalha do Rio da Prata, a primeira grande batalha naval da Segunda Guerra Mundial (ainda em 1939), ele e diversos colegas aportaram primeiramente em Montevidéu enquanto seu navio Graf Spee era afundado pelos britânicos. Com passagem pela base do Borussia Mönchengladbach, não perdeu tempo e se alistou no Unión, que faria sua estreia na liga argentina exatamente em 1940 (na segunda divisão), após toda uma história restrita à liga municipal da Santa Fe – cujas estações de trem receberam 200 alemães só em 29 de março daquele ano, alguns possivelmente ancestrais de outros nomes do futebol santafesino nessa lista. Fez seu primeiro jogo inclusive em amistoso contra o River. Seu nome foi até castelhanizado para Enrique Thellen (com dois L ao invés de E), mas a dura barreira linguística e uma lesão inoportuna impediram que somasse mais de um único jogo oficial, justamente o primeiro do Tatengue na liga argentina. Embora tenha falecido em Colônia, na Alemanha Ocidental, em 1973, havia se radicado na Argentina (inclusive tendo um filho exatamente em 1945), trazendo após a guerra sua família para morar no novo país, onde residiu em diversas províncias.
Juan Hohberg: filho de um estancieiro alemão que se fincara em Córdoba, ele cresceu em Rosario após a precoce perda paterna, começando no Central Córdoba (clube rosarino, apesar do nome) antes de despontar no Rosario Central. Foi importado em 1948 pelo Peñarol, onde se consagrou pelos doze anos seguintes, despedindo-se dos aurinegros pouco após levantar a primeira edição da Libertadores, em 1960. Sem poder ser naturalizado a tempo pelo Uruguai para a Copa de 1950, pôde ser aproveitado pela Celeste na de 1954 – protagonizando seu momento mais célebre, ao marcar dois gols que forçaram prorrogação contra a temível Hungria, emoção que até lhe desacordou após um infarto (!). Já dedicamos este Especial a El Verdugo. Ele se estabeleceu depois no Peru, onde faleceu e cuja seleção foi defendida por um neto, Alejandro Hohberg, de feições já mais incas do que teutônicas.
Ángel Schandlein: volante ou lateral que, revelado no Boca, teve seus melhores momentos no Gimnasia LP dos anos 50. Pelo time de La Plata, serviu a seleção especialmente no primeiro semestre de 1957, quando foi titular na seleção vencedora da Copa América. Antes, em 1956, El Pocho já havia participado da primeira vitória da Albiceleste sobre o Brasil dentro do Maracanã. Estenderia depois a carreira pelo México, ganhando as Copas de 1964 e 1965 pelo América.
Juan Carlos Schneider: volante ou lateral de boa aplicação defensiva e repasse de bola ao ataque, calhou de pegar logo os três primeiros anos de jejum que o River vivenciaria – defendeu a Banda Roja de 1958 a 1961, jogando no período uma vez oficialmente pela seleção (em um 4-0 sobre o rival Uruguai na Taça do Atlântico de 1960). Se destacaria ainda no Huracán e no Platense, seus clubes seguintes.
O alemão Theelen no Unión. Hohberg pela seleção uruguaia na Copa de 1954. Schandlein pela Argentina campeã da América de 1957. Schneider no River
Ramón Müller: volante formado no Newell’s, desenvolveu a carreira adulta na França, integrando entre 1963 e 1966 os dois primeiros títulos franceses do Nantes – e também a primeira final desse clube na Copa da França e um título também na Copa da Liga Francesa. O meia Oscar Müller, seu filho, acabaria criado entre os canários e venceu três vezes a Ligue 1, além da primeira Copa da França do clube, entre 1977 e 1983.
Félix Leeb:El Gato era daqueles atacantes instáveis. Teve seus momentos no San Lorenzo, onde esteve de 1960 a 1962 sem conseguir se firmar, sendo repassado em 1963 ao Estudiantes. Ainda defenderia o Racing, além de camisas menores, sendo lembrado com carinho em especial no Quilmes do fim dos anos 60 – no elenco cervecero que tinha os jovens Ubaldo Fillol, Ricardo Villa (ambos campeões da Copa de 1978) e Juan Carlos Touriño, que defenderia Real Madrid e seleção espanhola.
José Rafael Albrecht:um dos maiores zagueiros-artilheiros do futebol a nível mundial, simplesmente, especialmente nas bolas paradas. Um dos seus gols catalogados foi anotado na final da última edição da Copa da República, a de 1959 (finalizada só em 30 de janeiro de 1960), entre os clubes campeões regionais, ignorados pelo campeonato argentino – que, apesar do nome, se restringia de modo oficial à Grande Buenos Aires, La Plata e Rosario. Seu Atlético Tucumán terminou campeão e Albrecht seguiria carreira inicialmente no Estudiantes, indo à Copa de 1962. Mas seria no San Lorenzo (que para tê-lo trocou-o justamente por Leeb, além de Carlos Cabrera) onde El Tucumano se consagraria. Esteve como azulgrana na Copa de 1966 e seria uma das figurantes do histórico título de 1968, na primeira vez em que um clube venceu de modo invicto um campeonato argentino no profissionalismo.
Roberto Telch: os cabelos cacheados lhe renderam o apelido de La Oveja (“A Ovelha”). Inicialmente um dos pontas do irreverente elenco do San Lorenzo apelidado de Los Carasucias (o outro era Narciso Doval, depois ídolo da dupla Fla-Flu), gradualmente foi recuado como um grande volante. Telch foi primeiramente o surpreendente talismã do título mais expressivo que a seleção teve até 1978, o da Copa das Nações em 1964, ao anotar dois gols em um 3-0 sobre Pelé & cia no Pacaembu. Depois, tornou-se um dos quatro profissionais com mais títulos pelo Ciclón, participando das quatro taças argentinas erguidas entre 1968 e 1974, ano em que esteve na Copa do Mundo da Alemanha. Também passaria pela dupla de Santa Fe no final da carreira, com brilho especial no Unión. Já dedicamos este Especial póstumo a Telch.
Rodolfo Fischer: colega dos dois acima naquele San Lorenzo de 1968, El Lobo era de fato filho de um teuto-brasileiro que possuía fazenda na fronteiriça província de Misiones, e o fenótipo indígena também escondia origem russo-polonesa pelo lado materno. Era o goleador daquele elenco apelidado de Los Matadores e também participou de parte do título do Metropolitano de 1972, antes de rumar ao Botafogo para anotar dois gols naqueles 6-0 no Flamengo pelo Brasileirão. Vendido aos cariocas durante a Taça Independência, tornou-se o primeiro utilizado pela seleção como jogador de uma equipe estrangeira. Mas a médio prazo isso tirou-lhe do radar e, apesar do brilho como botafoguense (e depois no Vitória), acabaria esquecido na convocação para a Copa de 1974. Segue como terceiro maior artilheiro do time do Papa, a apenas um gol do segundo, Rinaldo Martino. Já dedicamos este Especial a Fischer.
Antonio Rosl: grande ídolo no Gimnasia LP, elegemos esse zagueiro para o time dos sonhos do Lobo. Filho de um imigrante alemão, Rosl esteve na própria campanha que, ao lutar seriamente pelo título argentino de 1963, rendeu esse apelido ao clube. E o lateral soube chegar à Copa de 1966 mesmo passando a conviver com lutas contra o rebaixamento. Ainda como tripero, participou do vice na Copa América de 1967. Dali foi incorporado pelo San Lorenzo e de imediato cavou titularidade no histórico elenco de 1968. Também esteve em outro ano especialmente recordado, o de 1972, quando os cuervos se tornaram o primeiro time no país a faturar tanto o Torneio Metropolitano como o Nacional. Com a seleção, ele chegou a vencer a própria Alemanha Ocidental em Munique em fevereiro de 1973, mas foi esquecido nas eliminatórias e na convocação ao mundial de 1974.
Leeb pai no Quilmes e o San Lorenzo de 1968, com Albrecht (2º em pé), Rosl (4º), Telch (5º) e Fischer (2º agachado)
Enrique Wolff: revelado no Racing em 1967, ainda que sem integrar o elenco campeão da Libertadores e do Mundial, Quique brilharia em Avellaneda e também no River, a despeito de jamais se dar ao gosto de levantar troféus por algum. Capitão da Argentina na Copa de 1974, deixaria para ser campeão no Real Madrid, onde foi ídolo na metade final dos anos 70 antes de ser colega do jovem Maradona no Argentinos Jrs. Encerrada a carreira, graduou-se em jornalismo e virou um dos âncoras esportivos mais prestigiados da Argentina. Já dedicamos este Especial a Wolff.
Hugo Dreyer: queimado no River após uma expulsão precoce influenciar na goleada millonaria contra o nanico Chacarita na final do Metropolitano de 1969 (pois o time de Núñez chegava ao 12º ano de jejum, e seriam 18…), teve sua forra do futebol paranaense. Ídolo no Coritiba, cujo apelido de Coxa-Branca deve-se ao “quase-xará” Hans Breyer, ele rodaria pelo rival Athletico e também por Colorado e Londrina, dentre outros. Radicou-se no Estado.
Horacio Neumann: outro presente naquela final entre River e Chacarita, com desempenho diametralmente oposto. Afinal, não só esteve no lado campeão: foi em falta sobre ele que Dreyer foi expulso (ainda que a decisão da arbitragem tenha sido criticada com excessivamente rigorosa); e, sobretudo, foram de Neumann dois dos gols dos funebreros naquela goleada, incluindo os dois primeiros dos tricolores na decisão, abrindo a torneira. Viria a jogar no próprio futebol alemão quando a Bundesliga ainda era inóspita a argentinos, embora o ponta mal entrasse em campo pelo Colônia na estadia de 1972-75.
Mario Kempes: dispensa apresentações. El Matador tinha mais fenótipo italiano (seu outro sobrenome é Chiodi), mas deve o sobrenome, relacionado tanto ao campesinato como a um lutador (Kämpf, palavra alemã das mais conhecidas, ainda que por motivos sombrios, seria um cognato), a um antepassado alemão. No fim da carreira, foi protagonista em feitos de pequenos clube de Áustria. Destacamos isso no Especial que dedicamos ao artilheiro do Mundial de 1978.
René Houseman: colega de Kempes na seleção em 1974 e 1978, El Loco seria neto de um alemão supostamente registrado na Argentina com grafia à inglesa – o sobrenome, pronunciado pelos hermanos do jeito castelhano mesmo (ele sempre foi “Ôusseman” nas locuções), teria em Hausmann seu equivalente no idioma de Goethe. Ponta endiabrado, já estreava na seleção seis meses após ser campeão da terceira divisão (pelo Defensores de Belgrano), reconhecimento meteórico jamais visto antes ou depois – afinal, àquela altura já brilhava no encantador Huracán campeão de 1973. Grande figura da Albiceleste na Copa de 1974, é quem mais a representou como huracanense. Daqueles jogadores cujo carisma o blindava até para torcedores adversários, já estava em etilicamente decadente quando deixou seu gol no polêmico 6-0 no Peru ou quando participou da última Libertadores vencida pelo Independiente, em 1984. Dedicamos este Especial póstumo a Houseman.
Wolff na seleção, Dreyer no Coritiba, Neumann no Chacarita e Kempes (à esquerda) com Houseman (à direita) na seleção
Oscar Regenhardt: um dos maiores ídolos do Unión. Afinal, o time alvirrubro de Santa Fe foi sua única equipe na Argentina. O aguerrido beque figurou no auge do time alvirrubro de Santa Fe, 4º colocado no Metropolitano de 1975 e vice no Nacional de 1979. Sua primeira passagem durou de 1975 a 1982, encerrada com uma importação pelo Málaga, onde chegou a ser eleito o melhor estrangeiro de La Liga em 1984. Ainda teve um breve retorno ao Tatengue na temporada 1986-87.
Ángel Tulio Zof: seus pais eram italianos, mas da região de Friuli (onde nasceu o quase xará Dino Zoff), vizinha à Áustria, a quem algumas áreas já pertenceram no passado. Ex-jogador sem maior relevo nacional pelo Rosario Central, começou a carreira de técnico justamente no rival Newell’s. Mas com o tempo virou a maior figura canalla na função. Afinal, era o comandante à frente das três últimas conquistas auriazuis no século XX: o Nacional de 1980, o campeonato de 1986-87 (deixando de vice o próprio Newell’s, ultrapassado por um elenco que acabava de vencer a segunda divisão) e a épica Copa Conmebol de 1995, devolvendo um 4-0 do Atlético Mineiro para superar nos pênaltis a disputa com Taffarel. Já dedicamos este Especial póstumo ao maior técnico do Central.
Rodolfo Zimmermann: após passar quase todos os anos 70 no Colón, chegou em 1979 ao Independiente, defendendo o Rojo até 1984 – embora já fosse mais uma opção de banco para os laterais Néstor Clausen (de origem suíça, El Negro Clausen já foi abordado nesse Especial referente aos helvéticos) e Carlos Enrique no elenco campeão de tudo entre 1983 e 1984. No período, foi cedido em 1982 para o Huracán e defendeu ainda o Blooming na Bolívia (1985-86) e o Ferro Carril Oeste de General Pico nas divisões inferiores.
Jorge Theiler: ídolo histórico no Newell’s, que o profissionalizou em 1983 para formar uma celebrada dupla de zaga com Jorge Pautasso. Não se limitava a defender, marcando volta a meia alguns gols. Foram 17 em 240 jogos, o suficiente para fazer dele o maior zagueiro-artilheiro da Lepra no século XX (era o maior até ser superado por Rolando Schiavi). Ficou até 1990, tendo papel especial no desafogo da conquista argentina de 1987-88, resposta imediata ao traumático vice para o arquirrival na temporada anterior, bem como na campanha finalista da Libertadores meses depois. Leproso fanático, inda teve uma segunda passagem em 1993 para encerrar a carreira.
Regenhardt no Unión antes de ser premiado na Espanha. O técnico Zof e os defensores Zimmermann e Theiler, campeões respectivamente no Rosario Central, Independiente e Newell’s
Carlos Leeb: filho de Félix Leeb, ex-jogador do Racing, Carlos profissionalizou-se justamente no Independiente, em 1987. El Gatito até participou do título argentino de 1988-90 mas nunca se firmou, rondando então por algumas outras camisas vestidas pelo pai: isso se deu no Estudiantes, no Chacarita, Banfield e Ferro Carril Oeste. Sua melhor fase se deu no Chaca e no Taladro: foram cinco anos em cada (1992-97 e 1997-2002, respectivamente), com média rondando o meio gol por jogo. Ganhou títulos de acesso em ambos e também no Ferro.
Gabriel Schürrer: revelado em 1989 no Atlético de Rafaela, tornou-se um símbolo no Lanús, que o contratou já no ano seguinte. Não evitou o rebaixamento na temporada de estreia, mas participou ativamente da ascensão sólida dos grenás. Calhou de sair em 1996 ainda antes da vitoriosa campanha na Copa Conmebol, sem deixar de vivenciar outras campanhas festejadas: após subir de imediato à elite em 1993, esteve nos bons Aperturas de 1993 (a dois pontos do título, ainda inédito para o clube àquela altura) e de 1995 e no Clausura 1996 (bronze em ambos), permeados com sua inclusão na seleção que participou da Copa América de 1995. Vendido ao futebol espanhol, ali esteve no único título do Deportivo La Coruña em La Liga, em 2000, e quase obteve a taça na temporada 2002-03 com a Real Sociedad. Teve um início promissor como técnico no seu Lanús, onde trabalhou de 2010-12, embora não decolasse em outros clubes posteriores.
Daniel Kesman: zagueiro de bom jogo aéreo, defensiva e ofensivamente, marcou época no Talleres, defendido entre 1989 e 1995. Embora não tenha evitado o primeiro rebaixamento da equipe cordobesa, em 1993, permaneceu para a glória imediata: marcou um gol decisivo no 3-1 para La T na segunda final pelo acesso da temporada seguinte, em pleno clássico local com o Instituto, devolvendo os alviazuis à elite.
Alejandro Kenig: atacante rápido e potente que foi colega de Kesman no Talleres, entre 1990 e 1993. Não foi a melhor fase do clube, a ponto de ele conseguir ser lembrado com destaque anotando 19 gols em 66 jogos oficiais.
Horacio Humoller: foram oito anos de Unión, divididos em duas passagens, de 1985-90 e 2002-03. O grande momento foi o acesso à elite na temporada 1988-89, garantindo em pleno Clásico Santafesino que serviu de duelo direto a ambos pela vaga, devolvendo o Tatengue à elite apenas uma temporada após o rebaixamento alvirrubro. El Alemán também se destacou no Talleres. Foram cinco anos em Córdoba, a incluir no currículo outro clássico convertido em final pela vaga na elite (contra o Belgrano, na temporada 1997-98), o título da Copa Conmebol de 1999 e o 4º lugar na tabela somada da temporada 2000-01 – que rendeu a La T sua primeira participação na Libertadores, para 2002.
Leeb filho no Banfield, Schürrer no Lanús e três do Talleres: Kesman (em pé), Kenig (agachado) e Humoller
Juan Esnáider: se Houseman teve o sobrenome grafado à inglesa na imigração, o antepassado desse atacante dos anos 90 teve à espanhola. Era Schneider (“alfaiate”) a grafia original. Juanito teve estatísticas curiosas: revelado no Ferro Carril Oeste, defendeu três vezes a Argentina, uma por cada clube diferente na Espanha – país onde brilhou primeiramente no Real Zaragoza campeão da Recopa Europeia de 1994-95, valendo-lhe uma transferência ao Real Madrid. Não vingou como merengue, mas através da capital estreou na Albiceleste. Rumou diretamente ao Atlético de Madrid, onde também ficou por uma só temporada, mas de melhor desempenho individual. Sua terceira aparição pela Argentina já se deu outra pelo Espanyol. Só faltou-lhe o Barcelona para “fechar o círculo”, mas não virou tanto a casaca. Ainda vestiu sem vingar as camisas do Porto, Juventus e River. A concorrência dura com Batistuta e Crespo e má fama quanto a seu temperamento o privaram de um lugar na Copa de 1998.
Federico Lussenhoff: raçudo lateral que sabia marcar e se projetar ao ataque, El Colorado (é ruivo), ao longo de uma carreira de quase vinte anos, chegou a passar por San Lorenzo e River. Mas destacou-se especialmente no Rosario Central, onde era titularíssimo na conquista da Copa Conmebol de 1995, no extinto Toros Neza que vivia no páreo da liga mexicana e no Real Mallorca vencedor da Copa do Rei em 2003. Mesmo a torcida do San Lorenzo lembra com carinho dele: além da entrega de sempre, marcou 9 gols em 61 jogos, ótimos números a um lateral (especialmente ao incluir entre as vítimas o rival Huracán), e sua venda ao Tenerife adicionou 5 milhões de dólares no cenário de crise nacional já sentida em 1998.
Patricio Graff: era o outro lateral daquele Rosario Central vencedor da Copa Conmebol. Foi logo importado pelo Feyenoord, onde sua estadia de quatro anos incluiu a última liga holandesa levantada em Roterdã até a temporada 2017-18, ainda que já não fosse peça-chave.
Víctor Müller: um ídolo do Colón noventista, daqueles atacantes apreciados no elenco mais pelo bom papel de pivô para um colega de área do que pela média de gols – foram 19 em 89 jogos pelo Sabalero. Ainda assim, deu-se ao gosto de vitimar tanto Boca como o River em vitórias na temporada 1995-96, que marcava o retorno do time de Santa Fe à elite após quatorze anos. Müller era um recém-chegado da terceira divisão do interior, onde se destacava no Patronato de Paraná, e não só ajudou ativamente a afastar os prognósticos de rebaixamento imediato como vivenciou a campanha que colocou os rubro-negros pela primeira vez em uma Libertadores (com o vice no Clausura 1997).
Claudio Graf:El Torito jogou em diversos clubes argentinos, sendo um atacante com bom número de gols por Colón (2000-02) e Lanús (2004-07), além de, ainda nos anos 90, defender em Avellaneda tanto o Racing como o Independiente. Também foi vira-casaca no Sul da Grande Buenos Aires, pois passara pelo Banfield (rival do Lanús) em 1995.
Esnáider, que jogou na dupla de Madrid. Graff e Lussenhoff em pé pelo Rosario Central antes da final da Conmebol de 1995. Müller no Colón e Graf, que jogou na dupla de Avellaneda
Gabriel Heinze:El Gringo (apelido que na Argentina tem mais sentido de camponês/interiorano do que de estrangeiro) foi um zagueiro notabilizado mais pela raça e entrega do que propriamente pela técnica. Mas o beque revelado no Newell’s soube ter um currículo respeitável de quem representou a Argentina como jogador de Manchester United, Real Madrid e da dupla rival francesa Paris Saint-Germain e Olympique de Marselha. Ainda deu-se ao gosto de vivenciar com seu Newell’s uma campanha quase finalista da Libertadores, em 2013. Outro exemplo de sobrenome pronunciado à espanhola, variando entre “Êinse” e “Rêinse” ao invés da leitura original em “Ráintz”.
Gabriel Loeschbor: lateral convertido em talismã na história do Racing, ao anotar o gol que encerrou sofrimento de 35 anos da Academia no campeonato argentino, no Apertura 2001. Poucos se lembram que vinha do Rosario Central e passaria ainda por San Lorenzo e River. Um irmão caçula, Emanuel Loeschbor, atua desde 2012 na liga mexicana, naturalizando-se.
Aldo Duscher: seus antepassados eram austríacos. Revelado juntamente com Heinze no Newell’s, esteve na reconquista portuguesa do Sporting Lisboa após dezoito anos (jejum que está para ser igualado pelo atual), em 2000. Mas foi pelos últimos anos de potência do Deportivo La Coruña que ele enfim chegou à seleção, embora seja mais lembrado por fraturar David Beckham e colocar em risco a participação do popstar inglês na Copa de 2002.
Germán Lux: formado na elogiada escola de goleiros do River, teve seu talento reconhecido pela seleção em 2005, quando foi o titular na Copa das Confederações após a campanha semifinalista da Libertadores. Em 2006, veio o inferno: suicídio de um irmão, ausência surpreendente na convocação à Copa do Mundo e perda da titularidade para Juan Pablo Carrizo. Ele voltou ao River após dez anos, em 2017 (após uma estadia particularmente longa no Deportivo La Coruña), mas foi precisamente um dos pontos falhos do Millo, dando lugar ao festejado Franco Armani no início de 2018.
Santiago Hirsig: ruína em um, glória no outro. Ponta ou meia, Hirsig viveu o rebaixamento do Huracán em 2003 e o título com o rival San Lorenzo no Clausura 2007 (único troféu azulgrana entre 2002 e 2013). Entre um e outro, destacou-se no Arsenal, ficando marcado pelo gol que atrapalhou as pretensões de título do Vélez no Apertura 2004.
O goleiro Lux e o camisa 6 Heinze em pé pela Argentina. Duscher ainda na seleção juvenil. Loeschbor comemora seu gol do título pelo Racing de 2001. Hirsig no San Lorenzo campeão de 2007
Matías Fritzler: meia com dez anos de Lanús, divididos em três passagens diferentes e com o primeiro título argentino do clube (Apertura 2007) no currículo.
Paolo Goltz: uma das promessas do belo Huracán quase campeão de 2009, chegando brevemente à seleção na época, sobressaiu-se também no Lanús campeão da Sul-Americana de 2013 antes de ser titular do Boca vice da Libertadores passada.
Sebastián Prediger: volante com momentos de brilhantismo no Colón na temporada 2008-09, rendendo transferência ao Porto e convocação à seleção de Maradona, embora não tenha dado o salto esperado. Isso incluiu uma passagem de poucos jogos também no Boca e com nenhum pelo Cruzeiro antes de recomeçar no Sabalero em 2011, sob empréstimo dos portugueses.
Walter Kannemann: dispensa apresentações no Brasil. Não são poucos os que consideram sua dupla com Geromel como a maior dupla de zaga da história do Grêmio. Foi como tricolor campeão da Libertadores de 2017 que ele tornou-se o primeiro jogador do clube a ser aproveitado pela seleção, embora já houvesse participado da histórica conquista inédita do San Lorenzo em La Copa, em 2014 – coroando a redenção de quem seguia no clube desde o quase-rebaixamento de 2012.
Matías Kranevitter: volante do River que reconquistou o continente após dezessete anos, participando da Sul-Americana de 2014 e da Libertadores de 2015 (terminando eleito para o time desse torneio), ano de sua estreia na seleção e de sua venda ao futebol europeu.
Marcelo Weigandt, Adolfo Gaich e Benjamín Rollheiser: nomes profissionalizados desde o último ano, após passagens pelas seleções de base – Weigandt no Boca, Gaich no San Lorenzo (estreando em setembro pela seleção principal) e Rollheiser no River.
Goltz e Fritzler (ambos em pé) no Lanús. Prediger no Colón. Kranevitter no River e Weigandt no Boca
O Vélez na Libertadores de 1994 conquistou a taça no Morumbi, batendo o São Paulo bicampeão. Chilavert defendeu o pênalti decisivo.
Roberto Trotta, Marcelo Gómez, Mauricio Pellegrino, Héctor Almandoz, José Luis Chilavert, Flavio Zandoná e José Basualdo; Christian Bassedas, José Flores, Omar Asad e Raúl Cardozo
Já contamos quando os pênaltis em uma final de Libertadores em vermelho, preto e branco praticamente encerram o ciclo no Newell’s de Bielsa para lançar a fase mais brilhante do São Paulo. Esse período glorioso dos comandados de Telê Santana se encerrou com roteiro parecido há exatos 20 anos: perdeu fora de casa por 1-0, devolveu o placar no Morumbi e foi aos penais, frente a um clube argentino que lutava para sair do médio porte. E em 31 de agosto de 1994 foi a vez dessa parte da história sorrir. A história de um gigante dos hoje tão cultuados anos 90, o Vélez Sarsfield.
Se as conquistas em série naquela década, retomadas sob o comando técnico de Ricardo Gareca (2009-13), tornaram o Fortín tão prestigiado, na época era um clube de só dois títulos argentinos (mesma quantidade do rival Ferro Carril Oeste, hoje sumido) em vez dos dez atuais – e que acabava de sair de uma fila de 25 anos. Seu primeiro título argentino foi em 1968, com Carlos Bianchi sendo uma jovem promessa a atacante. La V Azulada seguiu forte até o início dos anos 70, mas as taças não vieram mais. Passou a entrar na contramão de sua tradicional receita, que era aproveitar os jogadores da base, algo natural para um clube de apelo restrito basicamente a seu bairro de Liniers e arredores – herança da gestão longeva de José Amalfitani, presidente austero que priorizava sócios, fazendo do Vélez um dos clubes sociais mais atrativos da capital federal, do que o departamento de futebol.
Nos anos 80, o Vélez buscou voltar às cabeças contratando medalhões: Omar Larrosa, Daniel Killer e Norberto Alonso, todos campeões da Copa 1978, não tiveram êxito, assim como outros que, embora não tenham jogado a Copa, fizeram parte da seleção pouco antes do mundial (casos dos defensores Osvaldo Piazza e Vicente Pernía, pai do ex-seleção espanhola Mariano Pernía). Na virada para os anos 90, essas tentativas prosseguiram, com outro campeão de 1978, o goleiro Ubaldo Fillol, vindo se aposentar em Liniers.
Cenas da estreia, em que o Vélez, mesmo em casa, foi inferior ao Boca. Mas ao fim, o gigante vizinho seria lanterna e os azarões, os líderes. À direita, Esteban González, que trocou de clube ao fim das oitavas-de-final
Bianchi regressou como técnico no início de 1993, mesmo precisando deixar a família na França, com apenas a esposa Margarita fazendo a longa ponte aérea. Ainda misturando involuntariamente espanhol rio-platense com o francês com o qual estava há anos acostumado, o novo treinador recebeu um mimo raro para a época: um contrato de 3 anos que lhe deu tranquilidade para retomar a fórmula original em aproveitar as revelações das categorias inferiores misturadas com compras baratas.
El Virrey explicaria: “quando entrei em contato com a gente do Vélez, o primeiro que lhes disse é que minha inquietude era poder trabalhar a longo prazo com um projeto que emoldure o seguimento do jogador desde as divisões inferiores. Porque, por exemplo, um marcador de ponta ou certos postos, o clube os tem que formar e não sair a busca-los afora. O Vélez tem divisões inferiores muito boas e não tem que investir somas de dinheiro nestes postos”. De fato, dos treze que entraram em campo no Morumbi há duas décadas, só quatro não se iniciaram na base velezana: nenhum campeão de Libertadores usou tantos pratas-da-casa no jogo do título – nove, que viram dez se considerarmos o técnico.
Antes de marcar o gol argentino na final, contra o São Paulo, Omar Asad vazara também o Palmeiras. O “Turco” também deixou o dele contra o Cruzeiro
As exceções eram o lateral Roberto Trotta, ex-Estudiantes e o zagueiro Flavio Zandoná, ex-San Lorenzo, nomes baratos, e outros com mais renome, mas em baixa: o volante José Basualdo havia ido à Copa 1990 e chegou após passagem não muito frutífera no Racing. Em Liniers, foi exatamente com Bianchi que El Pepe deixou de cumprir obrigações só defensivas e ganhou liberdade para se distribuir mais. Acabaria voltando à seleção e indo à Copa 1994. O outro era o jogador mais decisivo da história do Vélez.
Bianchi não tinha o que fazer em relação ao titular entre as traves: “não me perguntes o nome dos outros 4, porque não os sei, mas estou certo de que hoje Chilavert está entre os 5 melhores do mundo”. O goleirão paraguaio havia feito sucesso no San Lorenzo e fora adquirido do Real Zaragoza, que o reprimira: Chila, que adorava tentar seus gols, fora proibido de chutar penalidades após comemorar demais um gol seu e, no reinício da partida, sofrer um do meio de campo por conta das metas ainda estarem sem ele de volta. Após ser o herói principal naquela Libertadores, enfim pôde marcar seu primeiro gol de falta pelo Vélez, em outubro de 1994, mas só começaria a se consagrar como goleiro-artilheiro a partir de 1996.
Na conquista continental, Chilavert ainda se resumiria a mostrar seu (imenso) talento apenas entre as traves. Seria o bastante. A fanfarronice dele era perdoada com a fome de glória de um verdadeiro “líder positivo”, para usar a expressão empregada por Bianchi – cujo cuidado com os egressos da base também importava em limar a influência perigosa de quem sinalizasse a mínima mistura de estrelismo com acomodação. Assim, o técnico aprovou a negociação dos veteranos Gareca e Ruggeri, bem como do prata-da-casa Alejandro Mancuso, também visto sob declínio.
Decisões por pênaltis virando rotina e dando casca para o Morumbi: fotos contra Defensor (esquerda) e Junior (direita)
Os frutos foram colhidos imediatamente: logo no primeiro torneio sob Bianchi e já sem os astros renegados, veio a conquista do Clausura 1993, encerrando jejum de 25 anos. “Esse vestiário era terrível, todos vencedores. (…) Havia muito temperamento, muita raça, por isso é mais meritório ainda o careca, que havia que manejar esses leões”, declarou sobre Bianchi o corpulento atacante Omar Asad, outro homem decisivo: foi quem fez o gol da vitória sobre o São Paulo no jogo de ida.
Contra o descrédito geral, havia mesmo muita autoconfiança entre o plantel. Era preciso: afinal, La Copa começou em um grupo duríssimo com Boca, o grande Palmeiras da época e o Cruzeiro. Ainda que três se classificassem, o palpite geral era de que a lanterna sobraria aos novatos. A ponto de o empate em casa contra o Boca, na primeira rodada, ser até comemorado como trunfo: era 13 de fevereiro e os auriazuis, com mais ritmo de jogo por terem participado dos tradicionais torneios de verão, abriram o placar em pleno Liniers.
“Quase nos ganham”, admitiria Bianchi. A nove minutos do fim, então, veio um golaço de José Turu Flores, atacante que sabia unir habilidade e potência como poucos: encobriu desde o ângulo esquerdo da grande área Carlos Navarro Montoya com um toque sutil endereçando a bola no ângulo oposto. O jogo seguinte só se daria em 9 de março e, até lá, o Fortín já vinha com melhor fôlego: o Apertura 1993 havia se interrompido em dezembro, deixando-se as quatro rodadas finais entre fevereiro e março de 1994 – com o Vélez, inclusive, disputando o título. Perdeu de 1-0 para o Mandiyú em 26 de fevereiro e, em casa, ficou no 1-1 com o Rosario Central em 9 de março. Bianchi, para incredulidade geral (sem esses pontos, o Vélez veria o River ser campeão por um pontinho a mais), apostava demais na Libertadores.
Valderrama e seu Junior de Barranquilla: adversário visto como mais indigesto na campanha
Enfim veio a segunda rodada da Libertadores e o treinador, admitiria, sentiu um balde de água fria na confiança quando o fenômeno Ronaldo abriu com apenas 20 segundos o placar para o Cruzeiro no Mineirão. Asad, então, começou sua rotina de carrasco de brasileiros, trazendo o 1-1 de Belo Horizonte ao driblar em velocidade Dida antes de concluir quase sem ângulo pela direita aos 43 do primeiro tempo. A imagem deixada era boa, mas o time sentia o desfalque do volante Walter Pico, vendido para fazer bom caixa. “Testamos substitui-lo primeiro com Rentera e depois com Camps. Até que tentamos com Compagnucci. Lhe demos obrigação de marcação e liberamos Bassedas. Aí encontramos o mecanismo perdido”, explicaria Bianchi.
Asad também marcaria nos três jogos seguintes – primeiramente, um cabeceio de costas entre Biro e Cléber sobre o Palmeiras, aos 14 minutos sobre o time que havia acabado de golear o Boca por 6-1 e cuja derrota em Liniers por 1-0 seria enganosa: “poderia ser, tranquilamente, 3-0. Nessa noite, tudo nos dava certo. O Turco Asad fez o gol, da cabeça, e depois perdemos uns sete mais”. Para o reencontro contra o Boca, o Fortín já tinha a classificação no horizonte, mas – como ressaltaria Bianchi – vencer o vizinho renderia uma liderança valiosa, permitindo-lhe escapar de novos brasileiros até uma hipotética decisão.
O treinador soube jogar com a pressão em cima do time treinado por César Menotti e apostou nos contra-ataques. Asad, em toque colocado cara a cara com Navarro Montoya aos 2 minutos do segundo tempo, fez o primeiro dos visitantes na Bombonera. Nos quinze minutos finais, contudo, os velezanos precisaram se virar com um a menos, pelo vermelho de Compagnucci. Nas palavras de Bianchi, “e assim foi, quase nos acréscimos, quando eles nos rodeavam o rancho, saímos rapidamente pelo Negro Gómez, cruzou ao Pepe [Basualdo] e veio a definição com uma frieza repugnante. Antes dessa partida, havia prometido aos volantes seis garrafas de champanhe francês se um deles metesse um gol. As paguei com gosto”.
Imprensa brasileira reconhecendo irregularidade a favor do São Paulo nos 4-3 sobre a Unión Española. Registros da Folha de S.Paulo, Tribuna da Imprensa e Jornal do Commercio
No 2-0 no Cruzeiro em casa, o capitão Trotta abriu o marcador aos 14 minutos com um pênalti indefensável até para Dida, forte e no alto, antes do Turco Asad galopar em contra-ataque para desferir chute cruzado aos 29 e exibir novamente sua característica dancinha. Aos 37, Raúl Cardozo foi expulso, mas os argentinos souberam manter o resultado, que garantia de vez a liderança por antecipação. Assim, o pessoal de Liniers enviou seus reservas na derrota de 4-1 para o Palmeiras, com Roberto Pompei descontando em golaço de falta já após a expulsão de Esteban González. Mas Libertadores só começa nas oitavas, como pregaria outro pupilo de Bianchi, o ainda impúbere Riquelme. E ali Chilavert começou a brilhar, ao passo que no Clausura 1994 (desenrolado de março a agosto) o futuro campeão da América se desleixava propositalmente (a ponto de perder até o clássico com o Ferro Carril Oeste), terminando entre os três últimos, embora sob a tranquilidade do bom promedio.
O líder do grupo da morte teve vida mais complicada do que poderia supor contra o Defensor, contra quem Bianchi queria vitória mesmo dentro de Montevidéu, para prevenir um adversário retrancado demais em Liniers. De carrinho, o zagueiro Héctor Almandoz até abriu o placar, “mas depois nos desordenamos e nos igualaram. A revanche se deu tal como eu havia pensado. Eles trataram de se refugiar atrás, tentando só alguma réplica. Nós não tivemos uma de nossas melhores noites”, escreveria o próprio Bianchi. Ficou-se no 0-0 em Buenos Aires, forçando uma decisão por pênaltis. Chilavert pegou a a penúltima cobrança uruguaia, de Guillermo Almada, mas Esteban González, artilheiro do título argentino de 1993, perdeu a chance de classificar os colegas na última – e, com soberba já desaprovada do Bianchi, El Gallego logo terminaria negociado com o San Lorenzo, que em troca cedeu o beque Zandoná, desejado para suprir uma inoportuna lesão no cão de caça que era Almandoz.
Chilavert logo compensou a cobrança desperdiçada de González ao pegar também o chute visitante seguinte, de Rubén dos Santos. Turu Flores, ordenado a não fazer gracinhas (“era capaz de chutar de letra e não estávamos para sustos”, cornetou Bianchi), selou a classificação. A vida seria mais fácil contra o Minervén, após pausa de três meses: 0-0 na Venezuela e 2-0 em casa, em chute de fúria do Turu Flores na cara do gol aos 40 minutos, onde a bola ainda bateu no travessão antes de entrar, e do parceiro Asad aproveitando aos 16 do segundo tempo o rebote de um pênalti desperdiçado por Trotta – comemorando dessa vez à la Bebeto, simulando embalar seu recém-nascido filho Yamil, que também viria a defender o Fortín (ainda que sem êxito).
Sobre São Paulo x Olimpia: mais à esquerda, relatos de O Pioneiro (acima) e Folha de Hoje (abaixo). Ao centro, dois relatos do Jornal dos Sports. À direita e na chamada superior, as ironias de Zagallo ao Jornal do Commercio
Quem não teve a mesma tranquilidade naquela fase foi o São Paulo, contra uma cascuda Unión Española. O empate em 1-1 em Santiago pareceu fazer os tricolores esnobarem os chilenos no Morumbi, onde ganharam por um sufocante 4-3… no qual abriram o placar irregularmente. No lance, Palhinha fez um golaço por cobertura, mas após usar as mãos para dominar a bola, algo observado na narração do próprio Galvão Bueno e apontado também pela Folha de S.Paulo (“com um toque de mão –não marcado pelo juiz–, ele passou por Lucca e encobriu o goleiro Rabajda”), bem como pela Tribuna da Imprensa (“um gol ilegal. Palhinha, aproveitando passe de cabeça de Müller, levou vantagem sobre o zagueiro chileno colocando a mão na bola”), pelo Jornal do Commercio (“Palhinha disputou com González e pareceu levar vantagem com as mãos”) e ainda pelo Jornal dos Sports (“Palhinha recebeu lançamento, trombou com um zagueiro (neste lance pareceu que havia colocado a mão na bola”, avançou e chutou forte”).
Quanto ao Vélez, o grande teste veio mesmo na semifinal. Os colombianos tinham uma geração de ouro na década, ou de prata: o Atlético Nacional seria o vice para o Grêmio na Libertadores 1995; o América de Cali, para o River na de 1996; e o Deportivo Cali, para o Palmeiras em 1999. O principal expoente cafetero, Carlos Valderrama, não só estava naquele time do Junior como foi tietado pelos próprios velezanos ao ser casualmente encontrado no dia seguinte ao jogo, em um shopping por lá – segundo confissão feita em 2010 por Bassedas, que também ressaltou a obviedade de que Bianchi não ficara sabendo na época.
Em Barranquilla, o oponente Iván Valenciano vazou duas vezes Chilavert antes de meia hora de jogo, mas Flores soube insinuar-se na zaga colombiana e descontar aos 21 do segundo tempo. Asad ainda teria gol anulado, corroborando a impressão de derrota injusta. Mordidos, os argentinos, em apenas doze minutos, abriram 2-0 em casa: no primeiro, com o talentoso volante Christian Bassedas cabeceando no canto um cruzamento preciso de Pompei; depois com a habilidade de Flores – na jogada, Cardozo lançara Asad, que na área ajeitou de cabeça para o colega ter tempo de, na frente do goleiro, dominar com uma coxa e chutar com a outra perna. Mas o Fortín não liquidou (“criamos doze situações claras, não entrou nenhuma!”, suspiraria Bianchi)… e Valenciano, de tiro livre, voltou a vaza-los. O novo 2-1, agora para os argentinos, forçou nova disputa por pênaltis, onde os fortineros iam decisivamente se aprimorando. Mas não sem enorme susto, outra vez. Pois, em uma das noites mais emocionantes já presenciadas no estádio José Amalfitani, o Vélez esteve muito perto da eliminação.
Todos de ambos os times foram convertendo: Trotta, Valenciano, Chilavert, Mendoza, Zandoná, Valderrama, Pompei e Mackenzie. Na quinta e última cobrança da casa na série inicial, o herói Turu Flores teve seu arremate no lado direito espalmado por José Pazo. Se o Junior convertesse, eliminava o Fortín em pleno Liniers. Os vídeos do Youtube (acima, um) só mostram os instantes das cobranças e não os 3 minutos de silêncio nas tribunas e apreensão que se passaram entre o erro de Flores e a cobrança colombiana seguinte, com discussões entre Chilavert, o árbitro e o técnico adversário. O paraguaio não se abateu, foi na mesma direção e encaixou a cobrança de Héctor Méndez, não soltando a bola nem para beija-la e explodir a euforia velezana, forçando às cobranças alternadas. Basualdo, no meio do gol, não comprometeu.
A responsabilidade se voltou contra os colombianos e Ronald Valderrama, irmão de Carlos, acertou a trave direita – Chila fora naquela mesma direção. E o Vélez, que até dois anos antes lutava pelo meio da tabela, estava meteoriamente em uma final de Libertadores. Segundo Bianchi, nesse dia “Chilavert foi maior do que nunca. Pensei no injusto que era o futebol se nos eliminasse essa equipe: nas duas partidas, havíamos demonstrado ser mais (time) do que eles. O silêncio era absoluto, o pessimismo se palpava com a mão. Estávamos todos mortos… menos Chilavert. Se atirou à sua direita e deteve o disparo de Méndez. Aí soube que ganharíamos. Entrávamos na história grande pela porta grande”.
A final era uma realidade, mas pela frente haveria o campeão das duas últimas edições. Mas que vinha sob certo declínio. Uma declaração de Telê Santana de que “este Vélez é uma das piores equipes da Copa. Muito pior do que Unión Española ou Olimpia. Ganharemos por 3 ou 4 gols de diferença” surpreendeu a própria imprensa argentina. Na edição pós-título, a revista El Gráfico assim apurou: “raro de Telê, uma pessoa não muito afeita a frases explosivas. Mas os jornalistas paulistas descobriram um conceito do treinador em seu círculo de confiança. Através dessas frases, tratou de motivar estes jogadores. Este São Paulo é o pior dos últimos 5 anos…”. Bianchi não perdeu tempo a usou como igual motivação, tratando de obter diversas fotocópias das palavras atribuídas ao mestre brasileiro.
Outro ângulo do gol da América no jogo de ida em Liniers, nesse arremate de Asad
Com efeito, em suas semifinais, contra o Olimpia, o outro finalista precisara de novo auxílio arbitral. Curiosamente, em outro lance envolvendo Palhinha, que cavou um pênalti para poder arrancar o gol do empate no Morumbi, no qual os tricolores conseguiriam posterior vitória de virada. A hemeroteca digital da Biblioteca Nacional permite colher registros de O Pioneiro (“o São Paulo empatou com um pênalti inexistente”), de Folha de Hoje (“o árbitro uruguaio, Jorge Nieves, errou marcando pênalti em favor dos são-paulinos. O zagueiro paraguaio carrinhou a bola e na extensão do lance, a queda de Palhinha”) e do Jornal dos Sports (“aos 37 minutos, Ramírez de um carrinho (na bola), Palhinha caiu e o juiz deu pênalti, que o próprio apoiador cobrou e marcou” e, em análise à parte, Palhinha “cavou bem o pênalti, que converteu, e deu tranquilidade à equipe para virar a partida”).
Na transmissão televisiva global, até Arnaldo Cézar Coelho vociferou: “não foi nada, o Palhinha se jogou! Cavou o pênalti, que não houve! O juiz se acovardou” e o próprio jogador reconheceu, na entrevista pós-jogo à emissora, que “eu acho que não foi pênalti, porque na hora que eu vi que o rapaz ia dar o carrinho eu só tirei a bola dele e joguei o corpo, aí o juiz caiu”. Mas Galvão Bueno aplaudiu a bola na rede: “é o mérito do Palhinha, malandro, cavou o pênalti. Com categoria, bateu e saiu para o abraço”.
Em Assunção, a equipe de Telê perdeu de 1-0, mas teve o mérito de segurar o abafa paraguaio e de, mesmo desperdiçando primeiro uma cobrança na decisão por pênaltis (com Palhinha, por sinal), virar o marcador. Zagallo, ao Jornal do Commercio, aproveitou para desentalar críticas ao suposto futebol “feio” da seleção recém-tetracampeã comumente feitas por partidários de Telê Santana: “A seleção teve um padrão de jogo mais bonito. Às vezes, não se pode jogar como se pensa. O São Paulo atuou muito fechado e passou um grande sufoco. No futebol atual, é difícil falar em beleza. A realidade é muito diferente da utopia”.
Raúl Gámez como barrabrava enfrentando os hooligans em 1986. Em 1994, era cartola do Vélez e teria intimidado o juiz no Morumbi
No bairro de Liniers, embora sofresse um gol de Müller anulado (“corretamente”, avaliou o Jornal do Brasil) por impedimento no início, La V Azulada não tomou conhecimento das listras verticais tricolores em Buenos Aires. Em contra-ataque, Cardozo lançou a Pompei, que cruzou pela esquerda ao centro da área. A bola não parecia perigosa, mas a zaga são-paulina se atrapalhou no corte e praticamente forneceu assistência ao oportunista Turco Asad (que já havia colocado nas redes por cima do travessão uma tentativa de meia bicicleta), livre com tempo para ainda dominar a bola antes de soltar um tiro cruzado para deslocar Zetti aos 35 minutos – e vitimar pela terceira vez um clube brasileiro na competição. Já o segundo tempo foi morno. O São Paulo não jogou bem e se satisfez com a derrota mínima.
Os argentinos também se preocuparam mais em manter a vantagem do que ampliá-la, mas foram reconhecidos por Telê Santana: “o Vélez venceu a primeira com todos os méritos. Não podemos repetir os erros do jogo anterior”. Ao Jornal dos Sports, o mestre tampouco teve pudor de atribuir o mau resultado aos pupilos: “qualquer explicação deve ser pedida aos jogadores. Só o Zetti se salvou”. Mas a derrota não arrefeceu os pachecos: o Jornal do Brasil não se inibiu em escrever que “se o Independiente, campeão argentino, não é adversário para o São Paulo, calculem o Vélez, penúltimo [sic] colocado. Que venha o Milan”, em alusão ao campeão europeu de 1994. Público e crítica da Argentina tampouco estavam satisfeitos: “a mínima diferença alcançada no encontro de ida havia regado de pessimismo os 40 mil torcedores do Vélez, que só despediram com tímidos aplausos seus jogadores. O descontentamento do plantel com o que eles interpretaram como pouco reconhecimento à campanha realizada se converteu em outra fonte geradora de motivação”, reconheceu a revista El Gráfico.
Bianchi detalharia em outra edição especial da revista, após o título mundial, relembrando sobre o jogo de ida contra o São Paulo que “a prioridade absoluta era ganhar. Por qualquer margem. Isso da diferença de gol era secundário. Primeiros ganhemos, depois pensemos nos gols. Eles sentiam nosso pressing e estavam afixados no fundo. Não podiam sair: quase todas as jogadas arrebentavam a tribuna. Não parecia o São Paulo bicampeão do mundo. Claro, insistimos, insistimos, mas não pudemos meter outro gol. Por isso, quando faltavam 15 minutos, colocamos a partida no freezer. Preferimos assegurar a vitória e não arriscar. Qualquer coisa, menos sofrer um empate. O pessoal notou essa atitude e nos despediu friamente. Creio que não merecíamos, não pensavam que o fundamental já se havia conseguido. Nessa noite fui conformado com o resultado, embora muito triste com a reação do pessoal”.
A solidão dos expulsos Cardozo (agachado, rezando) e Bianchi, acompanhados pelo cartola Gámez (de paletó e gravata) e do goleiro reserva Docabo enquanto os pênaltis começavam. À direita, comemoração do treinador junto com bigodudo médico Ricardo Coppolecchia e com o lesionado Sotomayor
Ao longo da semana Bianchi teve a cautela de fazer treinos com as linhas de campo do estádio velezano ampliadas para as mesmas dimensões do Morumbi, maiores. Mas sofreu um golpe duro: o beque Víctor Sotomayor sentiu o menisco esquerdo e ficaria de fora da revanche. Vale transcrever novas palavras da El Gráfico pós-Libertadores: “os rostos mudaram. O que vinha sobre trilhos descarrilou. O cordobês era um homem de poucas palavras, mas com um grande reconhecimento da parte de seus companheiros. Na defesa do Vélez, era praticamente insubstituível: sua velocidade mental e física para os choques e seu aporte no cabeceio são argumentos mais que respeitáveis. No lado humano, uma anedota o pinta de corpo inteiro. Mimado por todo o plantel e integrante da delegação que viajou ao Brasil, se aproximou de um dirigente e lhe sussurrou ao ouvido: ‘não sei se me dou um tiro, irmão. Estive sempre e venho ficar de fora justo agora…’. Quando o dirigente girou a cabeça, notou as lágrimas que escorriam nas bochechas do defensor. Descartado Sotomayor, Bianchi optou rapidamente por incluir cinco defensores no esquema titular. Pellegrino era o substituto do cordobês e Almandoz, que vinha com uma partida e meia após uma artroscopia, retomou a titularidade. O tema era saber por quem entrava”.
O desenho defensivo era claro: Trotta livre no fundo, Almandoz e Pellegrino adiantados aos pontas, Zandoná tapando o setor direito, Cardozo pressionando Cafu. A indecisão de Bianchi era mais à frente, entre barrar da titularidade o meia Roberto Pompei ou o habilidoso tanque Turu Flores: “com aquele assegurava uma maior presença no meio e saída pela lateral-esquerda. Com o Turu, podia apostar em alguma genialidade. (…). Optou por relegar Pompei. A explicação era simples: ‘eles não vão sair loucamente. Tocam, tocam, chegam cinco vezes e fazem dois gols. Talvez se metermos algum susto de entrada vão pensar melhor, sem arriscar tanto”, analisou a El Gráfico. El Virrey já buscava de antemão consolar quem ficasse de fora. Nas palavras do próprio técnico, “aqui são doze jogadores. Um vai sair. Mas lhes digo uma coisa: esse que sai, no segundo tempo vai nos fazer ganhar a partida”. Não seria exatamente no segundo tempo, mas as palavras seriam ainda assim proféticas…
Com a confiança maior dos brasileiros (a El Gráfico pós-título reconheceu que até o experiente José Basualdo, “um lutador com duas Copas do Mundo nas costas”, não pôde “pregar o olho na noite da terça-feira”, véspera do último jogo), o Morumbi teve uma centena de milhares de espectadores naquele 31 de agosto de 1994. Chilavert era quem mais transparecia confiança: “vamos nessa, que são uns galinhas”, bradava no túnel de acesso ao gramado. O Vélez, assumidamente, buscava defender-se, e foi muito bem: os tricolores dominaram o jogo ofensivamente, mas não achavam espaço para concluir bem. Precisaram de autossabotagem de Almandoz, cujo braço buscou a cara de Euller na grande área, em pênalti claro assinalado pelo uruguaio Ernesto Filippi e prontamente convertido por Müller, aos 32 minutos.
Carma ou não, Chilavert salvou o pênalti justamente de Palhinha. À direita, coluna do Jornal do Brasil enfatizando como o São Paulo “foi o grande beneficiado” pela arbitragem nas fases anteriores da Libertadores
O que teria enfurecido verdadeiramente os visitantes seria algum excesso de cartões amarelos da parte de Filippi no primeiro tempo. “Quando o árbitro começou tirando três amarelos, quis morrer. Isso condiciona a equipe. Me parece que Filippi foi muito parcial”, desabafou o jornalista Jorge Guinzburg. Então vice-presidente velezano, Raúl Gámez, antigo barrabrava do clube nos anos 70 e que não tivera medo de ir às vias de fato contra os hooligans nas arquibancadas de Argentina x Inglaterra na Copa 1986, tinha desde os tempos de mero espectador o apelido de El Pistola. Convertido em cartola, então, gritou em alto e bom som no intervalo enquanto o juiz se dirigia ao vestiário: “nunca havia visto um uruguaio cagão, Filippi. Você é o primeiro!”, no que o árbitro teria respondido: “agora no segundo tempo vais ver se tenho colhões ou não”.
As aspas acima são todas da El Gráfico pós-título, que assumiu que na etapa complementar “não puniram o Vélez uma claríssima mão de Gómez na área. Filippi não a viu ou agiu motivado por aquele entrevero com Gámez?”. Mas até mesmo o Jornal do Brasil não perdoou o próprio São Paulo: já havia destacado os muitos passes errados e atuações de “piores dias” de Müller e Euller no jogo de ida e criticou a não-titularidade de Juninho Paulista no da volta (ele entrou já nos quinze minutos finais, no lugar do lateral Vítor, única substituição de Telê), registrando ainda que “quanto às queixas da arbitragem, gostaria de lembrar que nos jogos anteriores o São Paulo foi o grande beneficiado”.
Do lado brasileiro, a partir de determinado momento a armação de jogadas pelo meio deu lugar ao desespero dos chuveirinhos, tamanha a concentração defensiva dos argentinos – ou “mesquinharia” defensiva, na crítica de Telê prontamente contra-atacada por Bianchi. Vale transcrever a aula do Virrey, um técnico não exatamente retranqueiro, mas que sabia fechar a casinha quando o contexto pedia… e deixou lição que lembra o ônibus que Mourinho pontualmente se viu necessitado de estacionar naquele Barcelona x Internazionale pelas semifinais europeias de 2010: “alguns falam da obrigação de jogar um futebol que faça o povo feliz. Me parece bem. Eu trabalho para o Vélez. Portanto, tenho que procurar que o povo do Vélez se sinta feliz. No Morumbi, conseguimos que o São Paulo jogasse como queríamos nós e não como queriam eles. Isso não dizem. E não sabem que nas condições que estávamos, não podíamos ganha-lo nunca. Por isso o Vélez não jogou de igual para igual. O fez da melhor maneira que podia fazer naquela noite”.
Chilavert vibra com seu gol na decisão por pênaltis, Bianchi e Bassedas seguram a taça
O relato, dado na mesma edição pós-título da El Gráfico, então prosseguiu explicando os motivos para a tática defensivista: “três dias antes de uma partida tão decisiva, uma lesão nos ligamentos do joelho deixou de fora Sotomayor, que é o homem mais rápido que tenho na linha de fundo. Marcelo Gómez jogou anestesiado por causa de uma torsão no tornozelo. Basualdo entrou com uma contratura muscular e teve que sair, e Almandoz acabava de jogar sua terceira partida depois de uma inatividade de três meses. Nessas condições e sua casa, saímos para enfrentar o campeão do mundo”. De fato, o veterano Basualdo aguentou até os 10 minutos do segundo tempo, quando então deu lugar ao talismã Tito Pompei.
Bianchi então concluiu: “além disso, os que falam não viram como o São Paulo jogou suas partidas de mandante. Ganhou da Unión Española de 4-3. Como ganhou, poderia ter perdido. Não dominou o Olimpia nunca e precisou que lhe presenteassem um pênalti. Com o Palmeiras, chegou ao outro arco em cinco oportunidades. O que tudo isso me dizia? Que o São Paulo é muito perigoso quando encontra ou lhe dão espaços. Baseia seu ataque em jogadas rápidas porque tem jogadores muito levezinhos como Cafu, Palhinha, Axel, Euller e Müller. Nenhum deles chega aos 80 quilos de peso, por isso são rápidos, precisam de espaços. No Vélez nunca puderam entrar por baixo e terminaram atirando bolas por cima, que era o que nós queríamos. Por isso, aceito as críticas mas não as compartilho. Eu vi Beckenbauer dar chutão quando era necessário. E vi grandes craques bater sem piedade no atacante contrário”.
Na mesma ocasião em 2010 na qual revelou ter corrido para se fotografar com Valderrama, Bassedas foi enfático: “o (elenco) da Libertadores de 1994 reflete como nenhum a identidade do Vélez”, algo já notado na El Gráfico pelo seu longevo redator Juvenal em 1995, onde ele comparava os clubes argentinos campeões no ano; a nota avaliava, além do Fortín, também o River (Apertura 1993, só finalizado em março de 1994, e Apertura 1994) e o Independiente (Clausura e Supercopa). No quesito “fibra combativa”, entendeu-se que prevaleceram os campeões da Libertadores: “os três souberam jogar e quando foi necessário meter, não ficaram atrás. Porém, nessa matéria o Vélez foi um expoente de garra excepcional. Nesses jogos decisivos, em que não se pode perder de nenhuma maneira, ainda jogando mal, demonstrou ser um autêntico herdeiro da estirpe batalhadora e brava daquele arquétipo do Fortín que se chamou Victorio Spinetto”, em referência ao mais longevo comandante velezano, o treinador que tirou da segunda divisão em 1943 um time à beira da extinção.
Com 30 anos recém-completados, Chilavert iniciaria sua melhor fase. A fama internacional criada com a Libertadores pesaria para fazê-lo ser em 1995 pela primeira vez eleito o melhor goleiro do mundo, algo que só ele conseguiu atuando na América do Sul
Essa postura só fez aumentar após a expulsão de Raúl Cardozo, El Pacha, figura mais antiga no elenco (defendeu ininterruptamente o Fortín desde a fase mediana, em 1986, até 1999), por jogo brusco aos 19 minutos do segundo tempo. Segundo Asad, o medo maior não veio quando Müller empatou o placar agregado, de pênalti, ainda no primeiro tempo, e sim nesse cartão vermelho: “nos cagamos quando expulsaram o Pacha e faltavam 30 minutos. Bianchi tirou o Turu e eu tive que correr de um lado para o outro: era uma guerra de empurrões, cotoveladas, pisadas”, explicou El Turco. A rigor, quem ordenou a substituição de um pouco inspirado Turu Flores (embor craque, o atacante foi considerado o pior velezano naquele jogo, levando nota 4) foi o assistente Carlos Ischia: é que o próprio Bianchi, por reclamações pela expulsão de Cardozo, foi expulso também, aos 20 minutos. Flores deu lugar a Claudio Husaín já formalmente no minuto 22.
Segundo o próprio Bianchi, as palavras exatas dirigidas a Filippi para que acabasse expulso teriam sido “que não apitasse como seu compatriota Nieves, que três semanas atrás inventou um pênalti para que o São Paulo pudesse ganhar do Olimpia. Por isso me expulsou. Fiquei no túnel que leva ao gramado, mas uma grade me impedia de me aproximar do campo do jogo. Ali estava Gustavo Cima, trabalhando para a Rádio Continental. Lhe pedi os auriculares e passei os últimos 20 minutos mastigando a transmissão e olhando o piso. Quando faltavam 12 minutos, pedi para Cima um papel e escrevi os nomes que tinham que chutar caso se chegasse à definição por pênaltis. Coloquei Trotta, Chilavert, Zandoná, Almandoz e Pompei, nessa ordem. Se necessário, Pellegrino seria o sexto a chutar. Quando terminou a partida, chegaram Ischia e o doutor Coppolecchia chorava para buscar a lista. Coppolecchia chorava. Raúl Gámez apareceu no túnel quando faltava muito pouco”.
O 1-0 prevaleceu e os argentinos, bastante confiantes em Chilavert, comemoraram desde logo – até mesmo Bianchi, em sua solidão: “sentia uma confiança enorme. Chilavert, seguramente, estava encantado de ser o centro das atenções. Ele cresce nessas ocasiões. E eu tinha uma fé cega nele”. Mais supersticioso, o goleiro reserva Juan Carlos Docabo deixou o gramado para juntar-se ao expulso treinador (“contra o Defensor e o Junior eu estava a seu lado. Quer que eu fique aqui?”, no que foi autorizado a permanecer do outro lado da grade). Chila pegou “só” um tiro, justamente de Palhinha, o primeiro tricolor a bater, logo após Trotta ter iniciado a série convertendo o seu. Na sequência, o próprio paraguaio também acertou a sua cobrança. Ninguém mais errava: André Luiz, Zandoná, Euller, Almandoz e Gilmar antecederam a quinta cobrança argentina, a de Pompei. O reserva que, segundo aquela profecia de Bianchi, daria o título…
Entre Bassedas e Cardozo, Asad beija a taça. O talismã Pompei, deitado no gramado, exibe às lágrimas a medalha. Husaín (o outro ao lado de Bassedas) e Basualdo (deitado, sem camisa) foram os jogadores que iriam a Copas do Mundo
O jogador detalharia: “pensei em atirar devagarzinho em um canto. Mas quando girei a cabeça e vi meus companheiros rezando, decidi pegar forte e para cima”. Ausente da reconquista argentina de 1993 por estar emprestado ao modesto Talleres de Escalada, regressara à casa por ordem de Bianchi e acertou um belo chute em que a bola ainda roçou o travessão antes de entrar. “Então, por um instante, o Portão 18 se converteu na porta giratória da [Avenida] Juan B. Justo, a Rua Nelson Hungria na Avenida Rivadavia, o inexpugnável Morumbi no querido Amalfitani… uma parte de Liniers fazia escala em São Paulo”.
Por ter sido expulso, Bianchi precisou dar uma volta olímpica particular, junto ao cartola Juan Carlos González, justamente o primeiro dirigente a convida-lo nos fins de 1992 a sair do conforto francês para treinar o Vélez. Mas, segundo Chilavert, haveria ainda mais festa: “se não fores, perderás ver o Vélez campeão do mundo”, diria ao referido jornalista Jorge Guinzburg, torcedor fortinero assumido que acabaria de fato autorizado pelos campeões a dar a volta olímpica com eles em Tóquio. Nada sutil, o goleiro daria em 2007 opinião condizente também àquela declaração de Bassedas e daquela avaliação da El Gráfico: “foi épico. O motorista nos levou por onde estava a torcida organizada do São Paulo e nos atiravam de tudo, mas esse time do Vélez podia ter jogado no Vietnã em guerra que saía estufando o peito”.
Bianchi tampouco estava conformado com o título no Morumbi, já tratando de “prosseguir o caminho iniciado. O futebol é um eterno recomeçar e um eterno reconfirmar” foram suas palavras assim que os ânimos se acalmaram. No calor do momento, emocionado ao ouvir através da Rádio Continental as lágrimas da filha Brenda (“ficou em Paris porque já começaram as aulas”), ele, ainda misturando castelhano com o francês que tão habitualmente usava nos antes, vociferava: “da América, da América, merde. Essa equipe tem colhões, papai. Agora começa o que eu realmente gosto. Vamos a Tóquio, merde!”.
Os nomes, se a legenda da imagem estiver ilegível: Carlos Compagnucci, Marcelo Herrera, Roberto Trotta, Flavio Zandoná, José Basualdo, Víctor Sotomayor, Omar Asad, Roberto Pompei, Walter Verón e Cristian Acevedo; massagista Roberto Molina, médico Carlos Damiano, Fabián Fernández, Sandro Guzmán, Claudio Husaín, Fernando Pandolfi, Juan Carlos Docabo, Federico Domínguez, Christian Bassedas, Guillermo Morigi, José Luis Chilavert, Mauricio Pellegrino e fisioterapeuta Carlos Leoni; José Luis Sánchez, Raúl Cardozo, Martín Posse, assistente Carlos Ischia, técnico Carlos Bianchi, preparador físico Julio Santella, Héctor Almandoz, José Oscar Flores e Marcelo Gómez