Categoria: Clubes e Títulos

  • Banfield campeão argentino em 2009: o único título do Taladro

    Banfield campeão argentino em 2009: o único título do Taladro

    O Banfield campeão argentino em 2009 tinha no elenco um jovem James Rodríguez, ao lado de Erviti, Santiago Silva e Battion.

    Christian Luchetti, James Rodríguez, Sebastián Méndez, Roberto Battion, Julio Barraza e Víctor López; Marcelo Quinteros, Santiago Silva, Sebastián Fernández, Walter Erviti e Marcelo Bustamante, na Bombonera, em 13-12-09

    Contando na época com o jovem James Rodríguez, artilheiro da Copa 2014, o Banfield venceu a elite pela primeira vez há exatos dez anos, naquele 13 de dezembro de 2009. Corrigia pendência mais que centenária: fundado em 1896, é mais antigo que a ampla maioria dos concorrentes, incluindo os chamados cinco grandes (Boca, River, Racing, Independiente e San Lorenzo). O Taladro (“Broca”, em castelhano) fez campanha primorosa, com a primeira das duas derrotas vinda só a 4 rodadas do fim. A outra veio justo no jogo que garantiu a taça, tamanha a boa regularidade do elenco. Aquele Apertura 2009 foi o primeiro campeonato totalmente coberto pelo Futebol Portenho e resgataremos matérias feitas na época.

    James é hoje o nome mais conhecido daquela inédita conquista, mas ainda mais importante e artilheiro foi outro estrangeiro, o uruguaio Santiago Silva. Emprestado pelo Vélez, o carequinha explodiu de vez no futebol argentino e na própria carreira, por mais que tenha pecha de triunfar só em clubes de menos porte. Foi artilheiro do campeonato e imediatamente buscado de volta pelo Vélez, onde manteria a boa fase adquirida primeiro no Gimnasia LP e confirmada no Banfield após fracassos diversos do qual o mais notório foi pelo Corinthians, em 2002. Eles e outro uruguaio, Sebastián Fernández, marcaram 20 dos 25 gols da campanha campeã. Mas foi Fernández e não Silva quem acabaria convocado à Copa 2010.

    Santiago Silva, inclusive, viria a ser o único campeão na dupla do Sul da Grande Buenos Aires, após vencer a Sul-Americana 2013 pelo rival banfileño, o Lanús, “traição” que não impediu que ainda regressasse aos alviverdes posteriormente. Outro careca importante e que chegara para aquela campanha foi Sebastián Méndez, que também teve passagens boas e campeãs em outra rivalidade, Vélez x San Lorenzo. El Gallego, atual assistente técnico de Maradona no Gimnasia LP, despediu-se ali do futebol após jogar todas as partidas do Apertura e coordenar a defesa menos vazada do torneio. Ele, Silva e outros reforços baratos vieram graças à venda do artilheiro Darío Cvitanich ao Ajax.

    Já o técnico era um velho conhecido nos arredores do Estádio Florencio Sola: Julio César Falcioni já havia treinado bem o clube no início da década, levando-o pela primeira vez à Libertadores. Foi em 2005 e o modesto Taladro só caiu nas quartas-de-final. Foi ainda credenciado pelo título que Falcioni assumiria o Boca, já em 2011. Foi o treinador derrotado pelo Corinthians na final da Libertadores 2012, com os auriazuis tendo consigo também o mesmo Santiago Silva e outro titular da campanha alviverde campeã de 2009, o lateral Walter Erviti.

    Historicamente, o Banfield é uma equipe repleta de rebaixamentos: 1917, 1944, 1954 (voltou só em 1963), 1972, 1978 (só voltou em 1987), 1988 (voltou só em 1994), 1997 e 2012. Por outro lado, é o único clube que permanecera inicialmente amador após a implantação do campeonato profissional, em 1931, a tornar-se tradicional na elite, ainda que desde que passara ao profissionalismo só venha a ter conseguido dez anos seguidos na primeira divisão já no século XXI – foi entre 2001 e 2012.

    Tempos em que James Rodríguez amarrava a chuteira de Santiago Silva…

    Com esse histórico, não surpreende que o clube estivesse pouco habituado a lutar por títulos. Até o fim do século XX, a taça da elite se aproximara só em outras três ocasiões: ainda nos campeonatos amadores pós-1931, ficou a dois pontos do campeão Dock Sud em 1933 e a três do vencedor Estudiantil Porteño em 1934. No profissionalismo, o cheiro de um troféu só foi sentido em 1951: ele terminou na dianteira igualado em pontos com o então bicampeão Racing, que lutava para ser o primeiro clube tri seguido na era profissional. Já o Taladro poderia ser o primeiro clube fora dos cinco grandes a ser campeão na nova era. Em outros países, o título seria alviverde, que tinha uma vitória a mais e melhor média de gols, mas na Argentina impera que deve-se jogar partidas-desempate.

    Os banfileños afirmam que houve virada de mesa para forçar aquilo, sustentando que o tira-teima só entrou no regulamento já na reta final do campeonato. E deu Racing, 1-0, sobre o elenco onde brilhava o futuro ídolo são-paulino Gustavo Albella. Apenas três anos depois, o vice foi rebaixado e voltaria à sina de campanhas modestas e outros descensos. E aquela temporada 2009-10 começou com esta sendo a preocupação original no clube. Após se acostumar a ficar entre os quatro primeiros entre 2003 e 2005, o rendimento caiu com as saídas de Falcioni, Daniel Bilos e Rodrigo Palacio. Exceto no bom Apertura 2008, em que a 3ª colocação foi ofuscada pelo primeiro título do rival Lanús, o Banfield não vinha superando o 11º lugar. Encerrara a temporada anterior com promedios na última posição acima da zona de descenso.

    Daí que aquela campanha foi uma gratíssima surpresa, iniciada com um 2-0 em um River apagado mesmo com Ortega e o atual técnico Gallardo juntos. Simbolicamente, o primeiro gol veio no primeiro minuto e foi marcado por Santiago Silva. A seguir, empatou em 1-1 fora de casa com o Argentinos Jrs em jogo onde atuou melhor organizado e teve mais chances de golContra o Chacarita, Silva marcou seu terceiro gol em três jogos, desta vez de falta, garantindo vitória por 1-0, confirmando o Banfield na liderança. Ainda assim, por conta da má fase, desdenhávamos tanto dele como de outro líder do momento, o Rosario Central: até escrevemos que estariam para cavalos paraguaios.

    Mas o Banfield seguiu com bons resultados, e Silva fazendo seus gols. O jogo seguinte foi o clássico com o Lanús, na casa adversária. Silva somou 5 gols em 4 jogos ao marcar os 2 da vitória de virada por 2-1. A seguir, também fora de casa, veio o confronto contra o próprio Rosario Central, então líder com 100% de aproveitamento, mas que amargou um 0-0. Se o Central era o líder, foi seu rival quem acabou concorrendo com o futuro campeão pelo título: o Newell’s abriu o placar no Florencio Sola, mas os alviverdes venceram com virada-relâmpago. Ali brilhou James Rodríguez, que sofreu pênalti convertido por Silva e marcou o outro. Àquela altura, a liderança era disputada com Vélez e Estudiantes: o Rosario Central paralelamente perdia seu segundo jogo seguido e se distanciava.

    Depois veio o jogo contra o Atlético Tucumán, 1-1 em casa com Silva salvando os alviverdes ao marcar a 15 minutos do fim. Como o Estudiantes empatou e o Vélez também, o sonho do título inédito ficou aceso. O San Lorenzo também se aproveitou e assumiu a liderança. Pior para o Banfield, que, com com Silva tendo dia de vilão ao perder pênalti, só empatou com o Arsenal. Mas, em um torneio embolado até então (o Argentinos Jrs poderia terminar a rodada como líderbem como Colón e San Lorenzo), no jogo seguinte o Taladro se igualou ao Estudiantes na liderança,com um 3-0 com dois de Silva e um de James Rodríguez no Godoy Cruz.

    As emoções de Falcioni e Méndez (que ali se despediu da carreira de jogador) na Bombonera

    A rodada seguinte foi por alguns momentos liderada pelo Colón, que teria jogadores na seleção na Copa 2010 (e faria do ídolo Esteban Fuertes o mais velho estreante na Albiceleste, naquele 2009), e pelo Estudiantes. O Banfield foi a La Plata e ganhou do Gimnasia por 1-0, gol de cabeça do onipresente Silva. Mas ainda desconfiávamos: sugerimos que o time estava mais perto da Libertadores do que da taça. Até o Independiente chegava perto: naquela rodada, inaugurou o estádio Libertadores de América e ficou a 3 pontos da liderança.

    De fato, ao fim de outubro dizíamos que “não existe tempo para respirar no Apertura”. Em um dia, o Vélez vencia e ficava na frente, no outro o San Lorenzo do recém-recontratado Romagnoli perdia a chance de ficar na liderança isolada. No outro a ponta ficava com o Banfield ao vencer por 2-1 o Estudiantes em final antecipada, gols de Silva e Erviti, com Verón descontando em um golaço. E no seguinte era o Newell’s que ficava na frente.

    O técnico Falcioni seguia acreditando no título alviverde, mas ao mesmo tempo era contestado: ao vencer fora de casa o San Lorenzo por 1-0, gol de outro uruguaio, Sebastián Fernández, foi rotulado de “sortudo” por Diego Simeone, então técnico do oponente, enquanto Romagnoli criticava a postura defensiva alviverde e dizia que não via o adversário como campeão. O atacante José Sand, ex-Lanús, dizia que o mérito é dos jogadores e não de Falcioni. Àquela altura, a seis rodadas do fim, o Banfield era o único invicto.

    Mas o Newell’s fazia história com cinco vitórias seguidas e ameaçava. O clube rosarino era treinado pelo ex-zagueiro Roberto Sensini e tinha em outro defensor seu grande líder, ninguém menos que o veterano Rolando Schiavi, que também estreou na seleção naquele ano, só atrás de Fuertes entre os mais velhos. Assim, o zagueiro banfileño Sebastián Méndez pregava cautela. A resposta às críticas veio com um 3-0 no Vélez, detentor do título. Cristian García brilhou marcando dois, o outro foi de James.

    A seguir veio o Independiente, que acreditava no título e ainda não havia perdido em seu novo estádio. Coube ao Banfield a honra de desfazer isso, em outra virada por 2-1, com Silva marcando o da vitória e praticamente tirando o oponente do páreoO outrora líder Rosario Central também dava adeus ao empatar seu jogo. Mas ainda foi determinante: no jogo seguinte, empatou o clássico com o Newell’s e alimentou os sonhos do Banfield, por mais que Falcioni dissesse que nada estava ganho. E não estava mesmo: Silva marcou, mas o Racing, de campanha pobre e esnobado por Lothar Matthäus (sondado como técnico), surpreendeu e venceu no Florencio Sola.

    A multidão do Taladro celebrando à distância o título inédito, no Florencio Sola

    Aí, foi a vez de Falcioni dizer que nada estava perdido e de Sensini declarar que estava tudo em aberto. O Banfield venceu o Huracán por 1-0, com Silva marcando e comemorando com toda a raiva do mundo para espantar o nervosismo e retomar a liderança isolada para o Taladro, pois o Newell’s em seguida perdeu dentro de Rosario para o Arsenal. Assim, o Banfield poderia ser campeão na penúltima rodada se vencesse e o concorrente perdesse. Havia ambiente a favor: jogaria em casa e isso acarretou em fila quilométrica nas suas bilheterias para duelo com o fraco Tigre. Já o Newell’s jogaria fora, contra o Gimnasia LP. 35 mil lotaram o Florencio Sola para ver o 1-0 do líder, mas o Newell’s venceu também e adiou a festa.

    O último compromisso banfileño seria com o Boca na Bombonera. Falcioni já se sentia confortável para disparar contra “campanha anti-Banfield” que circulava, em parte porque o gol no Tigre foi em impedimento e impediu que Banfield e Newell’s chegassem empatados à última rodada. O Boca, sem chances de nada no torneio, também fez jogo duro, mantendo titulares e só liberando 4.500 ingressos a torcedores visitantes. Enquanto isso, um site não-oficial de torcedores do líder se enchia de promessas malucas em caso de título.

    A pressão foi demais. Os alviverdes, em dia nervoso, jogaram mal e perderam de 2-0, dois de Palermo. Mas a apreensão logo lhes saiu, seja na Bombonera, seja no Florencio Sola, onde torcedores sem ingresso se reuniram para assistir em telões: o Newell’s, pelo mesmo placar, conseguira perder em casa do San Lorenzo, para o choque do técnico Sensini e violência nas ruas de Rosario. Já do lado campeão, o êxtase do primeiro campeonato teve direito ao lateral Julio Barraza raspar os cabelos (a promessa de Silva, ao contrário, foi deixa-los crescer por um tempo); ao clube sonhar com a volta de Javier Zanetti (que jogara lá antes de rumar à Inter); e com o fanfarrão Falcioni explicando que comemorou  “comendo muitas pizzas e tomando champanhe. Até porque deixamos a virgindade de lado“.

    Mesmo sem Silva, o Banfield foi 5º no torneio seguinte e só foi eliminado nas oitavas-de-final da Libertadors 2010 pelo futuro campeão Internacional, isso pelo critério dos gols fora de casa: vencera na Argentina por 3-1, mas perdeu de 2-0 no Beira-Rio – James Rodríguez havia deslanchado e brigava pela artilharia do torneio, dali sendo vendido ao Porto. Como todo carnaval tem seu fim, um ano depois, no Apertura 2010, veio a 15ª colocação, melhorada apenas com a 8ª no Clausura 2011.

    E então o Taladro teve uma temporada 2011-12 ridícula, terminando em último no Apertura e no Clausura: nem a pontuação de campeão em 2009 o livrou nos promedios calculado entre as três últimas temporadas até 2012 – e ele terminou rebaixado enquanto remanescentes daquele título de meia década atrás decidiam a Libertadores. Segundo um deles, Erviti, não havia segredo no Banfield campeão: “nossa principal virtude é a organização. Quando uma equipe não tem grandes qualidades, o time tem que ser unido e compacto. E é isso que pensamos em fazer sempre”.

  • Newell’s campeão argentino em 2004: o penta rosarino

    Newell’s campeão argentino em 2004: o penta rosarino

    O Newell’s campeão argentino em 2004 conquistou o penta e superou o Rosario Central na contagem de títulos. Ortega e Scocco formavam o ataque.

    O ataque unia o jovem Ignacio Scocco, o veterano Ariel Ortega e chegou a ter até Jardel – ele mesmo, o Super Mário. Ironia: na era dos torneios curtos, o Newell’s vencedor do Apertura 2004 ainda é o campeão com menos gols marcados. Foram 21 em 19 rodadas. Para tanto, precisava-se confiar na defesa e de fato só cinco times sofreram menos gols nessa era, fazendo com que dois beques da Lepra viessem ao futebol brasileiro em breve (Sebá Domínguez ao Corinthians, aguardado como um “novo Gamarra”, e Julián Maidana ao Grêmio). Ainda assim, não faltaram gritos à torcida rojinegra. Ali, enfim, o Ñuls passava o arquirrival em número de títulos argentinos, além de coroar enfim um velho ídolo, o agora técnico Américo Gallego.

    Afinal, El Tolo Gallego, representante leproso na seleção campeã da Copa de 1978, estreara como jogador do clube em 1974, mas justamente já após a conquista do Metropolitano daquele ano. Aquela taça, exatamente a primeira do Newell’s no campeonato argentino, foi garantida em pleno Clásico Rosarino na casa rival, mas o Rosario Central (que já tinha sido campeão duas vezes, e a primeira delas foi após eliminar justo o vizinho na semifinal, em 1971) pôde seguir sorrindo mais. Os canallas ganharam a Argentina em 1980 e também na temporada 1986-87, da qual vieram da segunda divisão para emendar um raríssimo bicampeonato com a elite – e deixar de vice justamente o “inimigo”. O placar de 4-1 na contagem de títulos seria igualado em prazo até curto, em 1992, ao longo da Era Marcelo Bielsa. Ergueram-se os campeonatos da temporada 1987-88, da de 1990-91 e do Clausura 1992.

    O Central devolveu com o único troféu internacional da província, a da Copa Conmebol de 1995. O Newell’s, por sua vez, batera na trave da Libertadores duas vezes, nas finais de 1988 e de 1992. Assim, o título do Apertura 2004 servia como uma reparação de honra à população sangre y luto. E para presentear, ainda que com atraso de um ano, o centenário do clube do Parque Independencia. O time decepcionou e então contratou Gallego, a reestrear em 29 de fevereiro daquele bissexto 2004 (substituindo o técnico do fracassado centenário, Héctor Veira) após trabalhos reconhecidos por River e Independiente. O 6º lugar obtido no Clausura já era a melhor colocação do time em muito tempo; desde um 3º lugar enganoso no Clausura de 1997, o clube custava a terminar até entre os dez primeiros.

    A diretoria tratou de empolgar a torcida, indo buscar Ortega e Jardel (que, a despeito de dois anos recentes ruins na Europa, ainda tinha relativamente fresca a chuteira de ouro de 2002 com o último Sporting campeão português), além do também veterano Rubén Capria, um dos mais talentosos meias jamais aproveitados pela seleção. Também viria o ídolo Damián Manso, regressado de empréstimo junto ao Independiente. E, sem o mesmo ruído, chegou do Libertad o seguro goleiro paraguaio Justo Villar. Assim, 25 mil torcedores compareceram animados na estreia, ainda que Ortega, já instalado na cidade, precisasse assistir da arquibancada – pois o pagamento por ele ainda não havia sido feito. Jardel, sim, jogaria. Foi uma decepção geral. O brasileiro e outros reforços não funcionaram. Um dos poucos jogadores de outros carnavais a se salvar, o prata-da-casa Fernando Belluschi, foi expulso. Naquele 15 de agosto, o Vélez dominou o jogo e venceu por 1-0. Mas nada como um clássico para curar a ferida…

    Jardel na estreia contra o Vélez, que venceu e ironicamente terminou vice. O brasileiro fracassou e a artilharia do elenco ficou dividida entre os 4 gols cada de Borghello e Belluschi

    Entenda-se: em 2004 já havia exatos vinte anos que Rosario não via sequer um vira-casaca em uma das rivalidades mais ferrenhas do mundo – esse tabu ainda se mantém, aliás. O Newell’s não vencia havia seis dérbis e jogaria fora de casa. Scocco começou titular no lugar de Jardel e o brasileiro não recuperaria mais a titularidade da estreia, terminando por ser usado em apenas três partidas na campanha. Quem terminou herói foi outro recém-chegado – o zagueiro Julián Maidana, que já havia sido o protagonista do título do Talleres na Copa Conmebol de 1999 com um gol no último minuto, estreava ali e anotou nos 15 minutos finais o único gol naquela tarde no Gigante de Arroyito em 22 de agosto. Gallego tinha plena consciência da importância da partida, declarando que terminaria demitido se a perdesse. Mas El Tolo, defendendo paternalmente como uma fera seu grupo das críticas (não lhe ajudava uma relação conturbada com a imprensa, autorizada a comparecer apenas uma vez por semana aos treinos; o técnico queria ficar à vontade para intercalar piadas e insultos conforme o necessário), tinha os comandados consigo na mão.

    Em 25 de agosto, a terceira rodada seguida em Rosario rendeu a visita do Huracán da cidade de Tres Arroyos, estreante na elite (enquanto o original, do bairro portenho de Parque de los Patricios, amargava uma estadia na segundona). Após vencer o clássico, a expectativa era de goleada em casa sobre os novatos. Que nada: a partida foi parelha, com o goleiro adversário Pardal sendo a figura do jogo, pegando tudo… até a última. Foi quando Marino acertou com fúria um chute desde o meio da área na trave esquerda para garantir a vitória mínima. Três dias depois, era a vez do duelo rojinegro da província de Santa Fe, visitando-se o Colón. O 0-0 fora de casa poderia em tese não parecer um negócio ruim, especialmente quando o goleiro leproso Justo Villar salvou no último minuto uma boa tentativa de Gandín. Só que o Colón realmente jogou melhor e Gallego parecia não ter encontrado ainda a equipe. Para piorar, o recém-regressado Manso virou baixa para o resto do semestre, ao lesionar seriamente o joelho direito.

    Àquela altura, o Newell’s ainda estava a três pontos dos líderes, Vélez e a dupla Boca & River, mesmo em sexto. Após pausa de duas semanas, o campeonato foi retomado e a 5ª rodada marcou, enfim, a estreia de Ortega, com grana em caixa após a venda de Mauro Rosales ao Ajax no dia 30 de agosto – Rosales havia sido campeão olímpico dois dias antes, e como o futebol nos Jogos de Atenas durou de 11 a 28 de agosto, acabou não participando da campanha. Quanto a Ortega, aquilo serviu ainda de reestreia geral no futebol – El Burrito não atuava havia dezenove meses, decorrentes do litígio com o Fenerbahçe, o que rendeu toda a uma festa de recepção nas arquibancadas. Só que o Banfield se mostrou um visitante indigesto e abriu o placar, com o jovem Rodrigo Palacio (recém-adquirido junto ao Huracán de Tres Arroyos, por sinal). Scocco empatou e os donos da casa buscaram a virada, mas de modo desconexo. A torcida já parecia impaciente com apenas oito pontos logrados em um contexto de cinco rodadas iniciais todas na província.

    Pois foi justamente na primeira viagem a Buenos Aires que a equipe pareceu se acertar, mesmo já desfalcada de Ortega, lesionado. A ausência do astro não impediu um brilhante primeiro tempo, com Belluschi e Germán Ré anotando cada um seu gol. Gols à parte, o elenco fez uma boa apresentação: Belluschi se movimentava, Ariel Rosada cortava, Sebá Domínguez (que após cinco anos de clube acabava de virar o novo capitão) anulava e Capria conduzia. No segundo tempo, Leonardo Pisculichi descontou para o Argentinos Jrs, mas, a despeito de nada menos que três expulsões (de Hugo Iriarte, Luciano Vella e Rosada), o triunfo por 2-1 foi segurado pelos visitantes em La Paternal. A 7ª rodada, enfim, pôde render uma primeira grande ovação em casa, após o time reforçar que não estava para brincadeira. Ainda sem Ortega, Belluschi, Capria, Marino e Iván Borghello atuaram bem em um 3-0 categórico, gols de Borghello, do seu substituto Steinert e de Belluschi sobre o Instituto de Córdoba.

    Ortega saíra do River, mas continuava um nítido rival ao Boca, contra quem fez um de seus melhores jogos. Outra cara conhecida dos brasileiros, Scocco seria o único da campanha a remanescer para o título seguinte, em 2013

    Com o triunfo, o Ñuls voltava a ficar a três pontos da liderança – ocupada justamente pelo próximo adversário, o River. Não deu para igualar-se na ocasião, mas o 2-2 soou bem, dentro do Monumental, olhando-se o copo meio cheio. O meio vazio é que os visitantes conseguiram estar duas vezes à frente do placar. E volta-se ao meio cheio, pois de fato mostraram grande evolução: exibiam segurança, manejo, velocidade, toques e triangulações que resultaram nos gols de Capria e do reserva Marcelo Penta, embora Marcelo Gallardo e Nelson Cuevas buscassem o empate. A liderança, enfim, veio na rodada seguinte. Após um bom tempo em baixa, o Estudiantes, ainda invicto, pintava como uma sensação. O jogo em Rosario foi equilibrado, fazendo a diferença os garotos Marino, Scocco e Belluschi, que sofreu o pênalti a resultar no único gol, convertido por Ortega.

    A liderança motivou uma caravana a de cinco mil leprosos a Sarandí para o jogo com o Arsenal. Ainda sem estar 100% fisicamente, Ortega foi poupado e começou no banco. Foi acionado no decorrer de um jogo feio e forneceu algum melhor trato de bola, mas incapaz de romper o ferrolho dos próprios donos da casa, prevalecendo um 0-0 esquecível. A liderança foi perdida momentaneamente, mas recuperada na rodada seguinte. Parecia auspicioso receber em casa um Racing em crise, para variar – o time de Avellaneda vinha sem ganhar havia sete jogos, incluindo seis derrotas, resultando na renúncia da lenda Ubaldo Fillol como técnico. Mas a Academia fez jogo duro, com os rosarinos se desafogando uma única vez, no gol de Belluschi no minuto 40, em petardo tamanho que furou a própria chuteira. A Lepra se igualava ao Vélez na ponta, curiosamente, com uma ajudinha do rival: o Central batera o Fortín em pleno bairro de Liniers.

    O bom futebol voltou no compromisso seguinte, exibindo-se uma solidez defensiva, um meio dinâmico e um ataque veloz contra o Quilmes. Marino abriu o placar com um golaço, carregando a bola desde a sua própria área até a contrária, e Ortega fechou o placar em 2-0 ao converter um pênalti, pois os donos da casa preferiram depois se poupar ao invés de ampliar. Nada que impedisse um “dale campeón” já audível nas arquibancadas do Coloso del Parque, embora a liderança seguisse compartilhada com o Vélez. Uma primeira chance de se isolar veio já em 31 de outubro; o concorrente já havia perdido na rodada, para o Colón, mas o Ñuls não aproveitou a visita ao frágil Almagro. Em seu último regresso à elite, o Tricolor brigava para não cair e de fato não resistiria, apostando no contra-ataque mesmo em casa. Mas ali venceu por 1-0, em tarde sem maior brilho de Ortega, Capria e Marino.

    Se a derrota não tirava o Newell’s da ponta, ela foi desocupada na rodada seguinte. Em casa, o time sofreu com imprecisão nas jogadas ofensivas e ficou no 0-0 com o Lanús, sendo ultrapassado momentaneamente por aquele Estudiantes do técnico Reinaldo Merlo – El Mostaza já havia tirado em 2001 o Racing de um jejum nacional de 35 anos e parecia apto a quebrar seca de 21 vivida em La Plata. Só que os alvirrubros não saíram de um 0-0 com o Boca na Bombonera e os rosarinos cumpriram papel de candidato em Buenos Aires: Scocco abriu o placar empatado por Barrientos, mas a onze minutos do fim a cabeça de Borghello decretou o 2-1 sobre o San Lorenzo dentro do Nuevo Gasómetro. Pela frente, o antepenúltimo colocado, o Olimpo. Parecia presa fácil para o Coloso. Cientes da inferioridade, porém, os aurinegros de Bahía Blanca se fecharam na defesa. No minuto 45, então, Ortega descarregou seu arsenal de dribles para abrir o placar – foi seu terceiro e último gol na campanha e o único de bola rolando. De trato humilde, se destacou mais como uma referência para permitir que outros brilhassem.

    Maidana festeja seu gol no clássico rosarino dentro do Arroyito, o goleiro Villar e Sebá Domínguez se impõem contra o River em Núñez. Os dois zagueiros viriam ao Brasil

    O belo lance parecia abrir uma festa, mas ela foi aguada aos 17 do segundo tempo, com o empate bahiense através de Páez. Gallego não se conteve: “perdemos meio campeonato”, lamentou. Afinal, o jogo seguinte era uma visita a Bombonera. Por outro lado, o Boca usaria um time misto, focando em sua primeira conquista na Copa Sul-Americana; além disso, com o River ainda no páreo pelo Apertura, pairava a suspeita de que os xeneizes não ofereceriam maior risco. Fato é que, sob grande tarde de Ortega, o Newell’s aplicou um 3-1, com dois de Borghello e outro de Maidana assinalando o placar descontando pelo jovem Mauro Boselli. Gallego, agora, dizia que “ganhamos 80% do campeonato”, com seu time três pontos à frente do Vélez e do Estudiantes. No primeiro treino após o jogo, El Tolo reuniu a todos para, quebrando a tensão, perguntar qual o restaurante escolhido para a tradicional reunião semanal das quartas-feiras. Já não parecia o homem sisudo que impunha multa e disciplina militar quando chegara no início do ano, rendendo-se até a churrascos com os pupilos (ainda que financiados pelas multas cobradas).

    Restavam duas rodadas. Se o Estudiantes estava na briga, era auspicioso saber que ele e o Vélez fariam um confronto direto, que poderia significar uma morte conjunta abraçada, ao passo que o compromisso leproso seria em casa contra o Gimnasia LP. Belluschi, de cabeça, e outra jogada de videogame de Marino realmente sumularam um 2-0 sob a trilha “qué vamo’ a salir campeones!” entoada pelas tribunas do Parque Independencia. Mas Belluschi tratou de pôr os pés no chão: “ainda nos falta um ponto”. Pois o Vélez, em jejum desde 1998, ainda estava vivo ao triunfar dentro de La Plata sobre o Pincha. A animação em Rosario, porém, era total. O jogo derradeiro seria uma visita ao Independiente, cuja torcida é tradicionalmente amiga da Lepra, ligação reforçada após o belo trabalho de Gallego no Rojo campeão argentino (pela última vez, até hoje) do Apertura 2002 – ironicamente, o time de ataque mais positivo na história dos torneios curtos, por sinal.

    Que nada. Após o minuto de silêncio a José Luis Cuciuffo, o campeão mundial com a seleção em 1986 falecido na véspera, de fato se cantaria ao final um “el que no salta es de Racing y Central”. Só que o Independiente (que, curiosamente, também fracassou com a contratação de um brasileiro naquele Apertura – Sérgio Manoel) venceu por 2-0, gols de Jairo Castillo e Federico Insúa sobre a melhor defesa do campeonato: o sóbrio Justo Villar, Maidana, Sebá Domínguez, Ré e Vella sofreram onze gols ao todo, menos apenas que os oito do próprio Newell’s no Clausura 1992, que os sete do Vélez do Clausura 1993, que os oito do Estudiantes do Apertura 2010, que os seis do Boca do Apertura 2011 e que os dez do Lanús de 2016. Ortega quase diminuiu, acertando o travessão em uma falta, mas foi preciso se resumir à secagem: se o Vélez vencesse em casa, forçaria um jogo-extra. Porém, o Arsenal surpreendeu e arrancou um 1-1 em Liniers, inclusive abrindo o placar – a falha de Gastón Sessa no gol de Santiago Hirsig queimaria para sempre o filme do folclórico goleiro perante a torcida do Central, seu ex-clube e onde fora figura querida entre 1997 e 1999.

    Ya se acerca Noche Buena, ya se acerca Navidad, para todos los canallas, el regalo de Papá” e “Qué bonito, qué bonito, la fiesta es en el Parque y el velorio, en Arroyito” já tomavam conta da plateia ensandecida pela ultrapassagem em Rosario. Haveria quem brincasse com o retorno de Maradona de seu tratamento antidrogas em Cuba para passar as festas de fim de ano, sob a versão de que Dieguito viera na verdade comemorar o título do clube que defendera na temporada 1993-94 e que tanto o abraçou a despeito do fiasco esportivo. Nem a esposa de Gallego, torcedora centralista, escapou do marido, a dedicar-lhe a conquista. Com a moral de quem, enfim campeão no clube do coração, também se tornava o segundo técnico campeão argentino por três clubes (após José Yudica, comandante do Quilmes de 1978, do Argentinos Jrs de 1985 e do próprio Newell’s em 1988).

    Jamais campeão como jogador no Newell’s mesmo entrando no time no vitorioso ano de 1974, o agora técnico Gallego pôde ir à forra trinta anos depois
    https://twitter.com/CANOBoficial/status/1204885603638226945
  • Independiente contra o Liverpool: o Mundial de 1984

    Independiente contra o Liverpool: o Mundial de 1984

    O Independiente contra o Liverpool venceu sem imaginar a decadência que viria depois, num clube que nunca mais repetiu o feito.

    Há 35 anos, o Independiente, sem imaginar a decadência que viveria desde então, tornava-se isoladamente o time argentino mais vencedor no mundo. Em uma final entre o Rojo e os Reds (em dia de Submarino Amarelo), o clube de Avellaneda bateu o grande time europeu daqueles tempos, o Liverpool, em um jogo que chamou muita atenção por ser um encontro anglo-argentino apenas dois anos e meio após a Guerra das Malvinas. Não foi o primeiro desses encontros (naquele mesmo ano, em agosto, o Boca enfrentou o Aston Villa no amistoso Torneio Joan Gamper, em Barcelona), mas foi tratado assim e o público japonês conferiu a primeira revanche esportiva dos hermanos.

    Felizmente, a despeito de certa inflamação sensacionalista de parte da imprensa, na maior parte do jogo sobressaiu-se o futebol e não a pancadaria. O próprio Independiente chegou a Tóquio sob clima de tranquilidade, algo escancarado quando o assistente técnico Horacio Cirrincione descascou ainda no avião o salame e o queijo para o churrasco a ser preparado pelo técnico José Omar Pastoriza (maior treinador da história roja). As exaltações se resumiram a um lance aos cinco segundos de jogo, quando o lateral Carlos Enrique derrubou Craig Johnston com uma tesoura (confira a partir de 1min51 do vídeo). “Sim, queria matar os ingleses, para mim era a guerra (…). Nessa manhã contra o Liverpool, o Pato [Pastoriza] me disse o mesmo que me havia dito antes da final da Libertadores contra o Grêmio, no Brasil: ‘se parares o camisa 10, somos campeões’. Era Johnston, o motor do time, jogava pelo meu lado (…). O forte deles era fazer cruzamentos ou chutar de longe. Goyen foi a figura, mas ao (camisa) 10 meti e xinguei para que não se esqueça”.

    A declaração acima é do próprio Enrique, compreensivelmente apelidado de El Loco. Ele estava no exército na época da guerra, embora não tenha ido às ilhas: “saímos as duas equipes juntas ao campo. Eu nem falava inglês, se a mim é difícil o espanhol, haha… mas alguns xingamentos eu sabia, havia perguntado ao Maranga, assim os ingleses me olhavam e eu lhes gritava fuck you y la cajeta de tu madre”. Mas em dado momento o próprio Enrique esqueceu as “cenas lamentáveis” e mostrou categoria sobre o tal Johnston ao dar-lhe um drible de chapéu (39min36 do vídeo ao fim). O time como um todo deixou o turbilhão político de lado e focou-se na bola.

    Monzón, Barberón, o assistente Cirrincione e o técnico Pastoriza preparam-se do jeito correto no avião a Tóquio: salames e mate

    Se o Independiente dera cátedra no Grêmio em pleno Olímpico na final da Libertadores, algo assumido pelos próprios gremistas, com Enrique de fato anulando na bola a Renato Gaúcho, o Liverpool também fora campeão europeu derrotando o anfitrião na final em outro Olímpico: o de Roma, sobre o time de Falcão e Bruno Conti. Mas Enrique tinha razão: a principal jogada inglesa eram os chuveirinhos, com poucas tentativas de infiltrações na defesa seja com toques ou dribles.

    Os britânicos tiveram mais posse de bola e na maior parte do tempo jogaram no campo de defesa argentino, mas não concretizavam chances claras. Em grande dia, a defesa vermelha foi afastando cada tentativa e outro a elogiar o goleiro Carlos Goyen foi o líder Ricardo Bochini (escolha lógica para ser o homem retratado na imagem que abre essa matéria): “os ingleses atiraram uns 30 cruzamentos, mas estávamos tranquilos porque Carlitos os bloqueava com grande facilidade”. A dupla de zaga formada por Hugo Villaverde (tio materno de Papu Gómez, torcedor assumido do clube embora tenha integrado os infantis do Racing) e o capitão Enzo Trossero anulou o galês Ian Rush, artilheiro máximo do Inglesão e do continente (recebeu a chuteira de ouro europeia) naquela temporada.

    Outro exemplo de como as jogadas do Liverpool não se definiam ocorreu até quando eles é que deram drible de chapéu: no fim do primeiro tempo, Wark fez isso em Clausen, mas de nada adiantou: o outro lateral do Independiente bloqueou o escocês com o corpo e a bola saiu pela linha de fundo para Goyen cobrar tiro de meta: veja aos 41min35. El Negro Clausen já havia desarmado limpamente o astro Kenny Dalglish na defesa argentina aos 11min50. Outro fragmento da solidez defensiva coletiva roja aparece também aos 1h09min15s.

    Defesa em ordem: Villaverde (número 2), Clausen (4) e o goleiro Goyén deram poucas brechas ao bigodudo Rush & cia

    Em dia onde a defesa argentina trabalhou mais que o ataque por conta do gol precocemente logrado pelos sul-americanos (em grande tarde em particular para Trossero, além de Goyen), aquele Independiente se mostrava mais estudioso e cauteloso do que de costume em vez da equipe que se habituara a envolver o adversário – Bochini já disse que o time de 1984 era muito mais habilidoso que o supercampeão elenco do início dos anos 70, tetra seguido na Libertadores. O estilo em Tóquio foi tão diferente que “tanto que parecia outro Independiente”, assumiu a cobertura da revista El Gráfico na época.

    Claro que em alguns momentos a defesa falhou. E nisso o adversário ficou devendo. Aos 26min18 do vídeo, Dalglish ficou com o gol livre mas o pé murcho mandou para fora. Aos 1h01min30s, Gillespie também ficou na cara de Goyen, mas faltou-lhe ângulo e força para assustar o uruguaio. Algo parecido se passou aos 1h10min20, com Nicol sem ângulo isolando a bola. Aos 1h14min30, foi a vez de Wark, desmarcado, isolar um bom cruzamento. Rush chegou a reclamar de um pênalti aos 1h24min40, mas o árbitro brasileiro Romualdo Arppi Filho e nem mesmo os próprios colegas deram-lhe atenção.

    Bochini
    Bochini em passes precisos seguidos, em ambos mesmo acossado de perto por britânicos
    Marangoni
    A classe de Marangoni, canetando dois oponentes e lançando de trivela a Barberón

    Mas se a ambição ofensiva roja foi menor, a categoria não. Maior ídolo e campeão do clube, o já trintão Bochini, único remanescente do título mundial anterior, em 1973 (com ele marcando o gol da taça, justamente), cansou-se de dar seus característicos passes e lançamentos preciosos a colegas desmarcados – jogadas que na Argentina acabaram apelidadas de bochinescas. Muitas foram inutilizadas pela defesa do Liverpool não por marcação, mas pela saída mais fácil, a da linha de impedimento. Exemplos não faltam além do gif acima: 5min47, 6min40, 19min26, 30min00, 46min20, 55min00, 57min10, 1h12min50…

    À esquerda, Dalglish apenas observa Marangoni. Ao fim do jogo, aconselhou-o a seguir na Argentina por nela “haver sol”

    El Bocha coordenava um meio-campo luxuoso. Um quadrado mágico com Ricardo Giusti, com Jorge Burruchaga e com Claudio Marangoni, o único do quarteto a ficar de fora da Copa 1986, por pura opção do técnico Carlos Bilardo (pois o volante era ídolo e espelho para ninguém menos que Fernando Redondo, apaixonado torcedor rojo), com quem não se entendia e preferiu Sergio Batista e Marcelo Trobbiani, bons mas sem a mesma habilidade. Marangoni era o Maranga ao qual Enrique se referira como seu “professor” de inglês: havia jogado uma temporada no Sunderland em época onde não era comum a terra da Rainha se abrir a jogadores de fora do império.

    E foi de Marangoni o passe preciso para o gol, aos 8min5s do vídeo. A linha de impedimento britânica falhou e o jovem José Percudani disparou, inalcançável para os lentos Neal e Gillespie, tocando na saída de Grobbelaar. Percudani pouco havia jogado na Libertadores por estar no serviço militar obrigatório e virava o símbolo da conquista, eleito pela Toyota o melhor em campo. Foi uma aposta de Pastoriza no lugar de Sergio Bufarini, que ocupara a vaga na Libertadores. O garoto chegou a desfilar uns dribles aos 13min45s e teria proporcionado outro gol se não fosse fominha aos 1h15min30. Burruchaga também teve boa chance, mas foi apressado ao definir uma chance inesperadamente surgida de um passe errado de Gillespie.

    Autor do gol da Libertadores (e dali a um ano e meio, do gol que valeu a Copa de 1986), Burruchaga passou em branco, mas o garoto Percudani não

    Mas Marangoni também jogou demais e por diversas vezes tentou repetir a jogada do gol: aos 10min40, 53min01, 1h17min20… Tão infernal que as coisas se inverteram aos 17min47: ele, um volante, foi derrubado pelo atacante Rush e não o contrário. O troco viria aos 39min20, com ele deslocando o galês com um drible. Ao fim de um jogo sem incidentes, a ponto de Grobbelaar e Dalglish visitarem o vestiário argentino para retribuir as congratulações de Pastoriza ao colega Joe Fagan, o volante conversou com Dalglish sobre uma oferta do Southampton. E o escocês lhe respondeu: “Claudio, melhor ficares na Argentina que ali tem sol”. Maranga ficou e sua saída do Independiente só veio em 1988, ao Boca, causando grande consternação nos rojos. No breve tempo em que esteve na seleção, enfrentou três vezes o Brasil. Venceu em casa e não perdeu as duas fora.

    Se a política não influenciou na partida, pesou no pós-jogo. Pois, sobre a conquista, Maranga destacou que “não a festejamos. Foi o primeiro choque entre argentinos e ingleses depois da guerra. Enquanto os torcedores se abraçavam, o vestiário estava em silêncio. Havia muita gente lastimada, ou morta, e festejar algo que todos relacionavam com o que havia passado era uma falta de respeito. Ninguém sentia como uma vitória esportiva exclusivamente, o faziam algo nacional, e na realidade não tinha relação”.

    Desde então, o clube precisou de meia década para voltar a ser campeão, em 1989, justamente sobre o Boca de Marangoni no Argentinão. O que já era uma eternidade à torcida, mal acostumada, continuou por outros cinco anos dali: após perderem ainda em 1989 dentro de casa a Supercopa (no troco do novo clube do Maranga), o título seguinte demorou outros cinco anos, em 1994, quando levantou-se o Clausura e em seguida venceu-se a Supercopa no “contra-troco” sobre os auriazuis.

    O capitão Trossero, que ironicamente era assumido torcedor do Racing na juventude…

    Em 1995, vieram coroações na Recopa (contra o Vélez recém-campeão mundia, aliás) e com um bi na Supercopa, essa sobre o centenário Flamengo de Romário no Maracanã, mas desde então veio escassez de vez: novas taças só em 2002, no Apertura de melhor ataque da década; em 2010, com um pálido elenco sofrendo para bater o rebaixado Goiás na Sul-Americana; em em 2017, em novo Maracanazo imposto ao Flamengo com um bom futebol, embora a torcida àquela altura já possuísse cicatrizes de um inédito rebaixamento, em 2013.

    De qualquer maneira, o Independiente tornou-se até 2000 o único clube argentino com dois mundiais, só sendo superado pelo terceiro do Boca, em 2003. O zagueiro Pedro Monzón, que entrou no decorrer da partida para o lugar de Villaverde, resumiu bem o que era jogar no Independiente daquela época pré-PlayStation após ser indagado se temia enfrentar o tão falado Liverpool: “nervos eu não tinha, eu pensava que era o melhor do mundo porque a camiseta era a melhor do mundo”.

    FICHA DA PARTIDA – Independiente: Carlos Goyén, Néstor Clausen, Hugo Villaverde (Pedro Monzón 29/2º), Enzo Trossero e Carlos Enrique, Ricardo Giusti, Claudio Marangoni, Ricardo Bochini e Jorge Burruchaga, José Percudani e Alejandro Barberón. T: José Omar Pastoriza. Liverpool: Bruce Grobbelaar, Phil Neal, Alan Hansen, Gary Gillespie, Alan Kennedy, Craig Johnston, John Wark (Ronnie Whelan 31/2º), Jan Mølby, Steve Nicol, Kenny Dalglish e Ian Rush. T: Joe Fagan. Árbitro: Romualdo Arppi Filho (BRA). Gol: Percudani (6/1º).

    … ergue a Intercontinental enquanto Marangoni levanta a Toyota: semblantes mais serenos que empolgados

  • Talleres na Copa Conmebol: a final insólita de 1999

    Talleres na Copa Conmebol: a final insólita de 1999

    O Talleres na Copa Conmebol venceu a última edição do torneio em uma das decisões continentais mais insólitas da história. Maidana marcou o gol do título.

    Maidana, que jogaria no Grêmio, festeja o gol do título

    Dificilmente se encontrará outra final continental tão insólita como a da última edição da Copa Conmebol. De um lado, um time já eliminado da terceira divisão brasileira. De outro, um decadente clube do interior argentino, que vivia a gangorra entre segunda divisão e campanhas medianas na elite, não mais lembrando o poder que tivera de meados dos anos 70 ao dos anos 80. Melhor para o Talleres, que, com algumas figuras que passariam por clubes brasileiros, alcançou expressão internacional, embora até hoje La T não tenha sido campeã da elite argentina. Já elegemos essa épica vitória de 20 anos atrás entre as dez maiores viradas do futebol argentino, neste outro Especial.

    Naquele fim de 1999, o Brasil decididamente esnobou a Copa Conmebol. No dia da final, os jornais priorizavam a cobertura das semifinais do Brasileirão: o Corinthians já estava na decisão após vencer dois clássicos com o São Paulo e a atenção se voltava ao terceiro jogo entre o Vitória de Tuta e o Atlético de Marques e Guilherme. A Série B vivia seu quadrangular final, com expectativa para o clássico goiano naquele mesmo dia 8, entre o Goiás de Dill e o Vila Nova de Túlio Maravilha. E a Série C também chamava a atenção: um dia depois começaria o seu quadrangular final, com o Fluminense.

    Até havia foco em quem já estava de fora das fases finais dos certames nacionais, o que era o caso do CSA, já eliminado da terceirona. Mas não se tratava exatamente dele, e sim de Flamengo e Palmeiras, que na véspera confirmavam suas passagens à final da Copa Mercosul. O Verdão, dez dias após perder o mundial para o Manchester United, aliás, eliminava o San Lorenzo. O hoje badalado clube do Papa teve que aguentar por dois anos não ter uma única taça continental que fosse, estando atrás até mesmo do Talleres nisso.

    Astudillo, maior artilheiro internacional do clube. O goleirão Cuenca. E o principal desfalque da final: Oliva não jogou, lesionado – imagens da edição especial da El Gráfico dedicada ao centenário tallarin

    Bom, a Copa Conmebol foi criada como espécie de equivalente sul-americano da Copa da UEFA, reunindo os melhores abaixo dos campeões nacionais. E, assim como ela, era só a terceira competição continental em prestígio. Na Europa, a segunda era a Recopa, por sinal também extinta em 1999 e que reunia os vencedores das Copas nacionais. Na América do Sul, era a Supercopa, que reunia os campeões da Libertadores. Como esse torneio acabava excluindo camisas pesadas ainda não campeãs da Libertadores, deu lugar em 1998 à Copa Mercosul, assumidamente caça-níquel, sem critério técnico. A Copa Conmebol, assim, minguava a cada ano e já se sabia de antemão que a edição de 1999 seria a última.

    A Mercosul continuaria até 2001, quando foi substituída pela Copa Sul-Americana, embora esta tenha mais critérios técnicos – semelhantes na proposta exatamente aos da Conmebol. Os brasileiros até enviavam os melhores abaixo do campeão até 1997, em que a final entre Atlético-MG e Lanús foi marcada pela briga generalizada, com o técnico atleticano Emerson Leão levando a pior (veja aqui). Em 1998, os representantes tupiniquins passaram a ser os campeões regionais e assim o Santos, vencedor do Rio-São Paulo de 1997, entrou e acabaria campeão, sobre o Rosario Central. Mas em 1999 nem mesmo a maioria dos campeões regionais topou. Vencedor da Copa Centro-Oeste, o Cruzeiro cedeu a vaga ao Vila Nova. O Grêmio venceu a Copa Sul, mas o vice Paraná é que participou da Conmebol.

    O Santos não quis defender seu título e nenhum outro do Torneio Rio-São Paulo quis participar. 4º colocado no Nordestão, o CSA só adentrou porque o campeão Vitória, o vice Bahia e o 3º colocado Sport também declinaram. A exceção foi o vencedor da Copa Norte, o São Raimundo, no auge de sua história. Os amazonenses e o CSA não tinham nada a ver com a opção dos demais e apesar de percalços logísticos pela inexperiência internacional (“depois de eliminar o Vila Nova nas oitavas, o CSA encarou a primeira viagem internacional de sua história, a Mérida, Venezuela, para enfrentar o Estudiantes. Horrorizada, a diretoria descobriu na semana do jogo que a maioria dos jogadores não tinha passaporte. Um jogador quase foi preso quando se descobriu que não tinha nem certificado de reservista”, relatou a Placar), foram longe, fazendo uma das semifinais e tendo os dois artilheiros daquela edição.

    Antes do CSA, o Talleres visitou o Brasil para pegar o Paraná, ainda pelas quartas-de-final. Retiramos essa e as próximas três imagens da ótima @CulturAlbiazul

    Marcelo Araxá, do São Raimundo, e o falecido Missinho, dos alagoanos, fizeram 4 gols cada e dividiram a artilharia da última Conmebol. Se a dupla do Norte-Nordeste não tinha grande expressão em seu país, o Talleres alcançara-na no seu nos anos 70 e 80, em uma era de ouro do futebol cordobês. Esteve muito perto da taça nacional em 1977, quando tinha três jogadores a mais e vencia o poderoso Independiente por 2-1, mas no fim dramático do jogo sofreu gol que tirou-lhe o títuloLa T ainda assim só cedeu menos jogadores que o River para a seleção argentina campeã mundial pela primeira vez, em 1978. Em 1980, o clube foi incluído no Torneio Metropolitano, uma conquista simbólica, pois o Metro era restrito à Grande Buenos Aires, La Plata e Rosario. Mas a médio prazo foi-lhe a ruína: os cordobeses se davam melhor no enxuto calendário do Torneio Nacional.

    Nos anos 90, os alviazuis já não eram sombra das duas décadas anteriores e foram duas vezes rebaixados. À altura da Conmebol 1999, fazia só um ano que haviam voltado outra vez à elite, ao fim da temporada 1997-98 – aliás, vencendo o rival Belgrano na final da segundona. Do elenco vencedor da Conmebol, Humoller, Ávalos, Lillo, Sotomayor e Pino participaram do amistoso festivo do centenário tallarin, em 2013. Mas houve gente mais destacada: Rodrigo Astudillo, maior artilheiro internacional do futebol cordobês, fundamental ao campeão San Lorenzo justamente na primeira edição na Sul-Americana, em 2002; o goleirão e capitão Mario Cuenca, também campeão da Sul-Americana, mas pelo nanico Arsenal do jovem Papu Gómez em 2007, foram alguns. Já outros passaram pelo futebol brasileiro.

    O xerifão Maidana também seria importante no Newell’s campeão em 2004, mas não repetiu o sucesso no Grêmio em 2006; o atacante Darío Gigena se eternizaria na Ponte Preta pelos três gols em clássico com o Guarani fundamentais para a Macaca não ser rebaixada em 2003; e o técnico era Ricardo Gareca, que treinou o Palmeiras em 2014 com falta de êxito inversamente proporcional ao prestígio angariado à frente da seleção do Peru. Outro ídolo da época era o artilheiro Diego Garay, mas o clube o perdeu às vésperas do torneio ao futebol francês. Isso e o fato de que a vaga na competição seria originalmente do Gimnasia LP, que a desprezou, já dariam tons erráticos à trajetória de La T.

    A estreia, contra o Independiente Petrolero (à esquerda), já teve reviravolta similar à da final – à direita, imagem da partida em Maceió

    E a tônica durante toda a Conmebol foi assim mesmo. A estreia, pelas oitavas-de-final, foi um baile para o Independiente Petrolero. O Talleres teve expulso o experiente Sotomayor (raro tallarin a ter experiência copeira, como beque do Vélez campeão da Libertadores e do Mundial em 1994, além da Supercopa em 1996 e da Recopa em 1997), perdeu gols bobos e levou de 4-1, marcando apenas de pênalti. Só dois titulares daquela partida começariam jogando 15 anos atrás: Humoller e Santos Aguilar. A primeira noite de superação em Córdoba teve público fiel de 35 mil pessoas ansiosas pela estreia internacional do futebol local (os vices do Talleres em 1977 e do Racing de Córdoba em 1980 não lhe renderam vaga na Libertadores, oferecida só aos dois campeões anuais argentinos). Dessa vez, sete dos titulares da final estavam em campo, sobretudo Cuenca, Astudillo e Maidana. A fé cordobesa se fortalecia pelos 3-0 que o clube impusera ao Lanús na mesma semana, pelo Apertura.

    E o resultado realmente se repetiu, apesar de um gol anulado: Silva, cabeceando ao chão cruzamento preciso de Lillo inaugurou o placar logo aos 13 minutos; José Luis Marzo, convertendo pênalti que ele mesmo sofrera (chorado: o goleiro se adiantou e acertou o canto, mas a bola passou-lhe por debaixo do corpo), fez 2-0 aos 37, reoxigenando de vez os argentinos. O segundo tempo foi repleto de chances perdidas até Nicolás Oliva, na grande área, recuar atrás de uma bola mal afastada pela defesa, girar para o chute e acertar um belo gol. Houve novas chances depois, mas o goleiro argentino dos bolivianos, Gustavo Ferlatti, impediu uma goleada maior. O que Ferlatti, ex-goleiro tallarin, não conseguiu foi salvar pênaltis, necessários pois não havia critério do gol fora de casa.

    Todos foram convertendo até Cuenca salvar logo na última cobrança da série inicial o fraco chute de Alberto Illanes no canto esquerdo. Maidana em seguida selou a classificação deslocando Ferlatti para rodopiar a camisa na pista olímpica do então Estádio Chateâu Carreras. “Um prêmio aos colhões”, exaltou-se o narrador cordobês. A seguir, o primeiro capítulo brasileiro, pelas quartas-de-final, contra o Paraná. Dessa vez, o primeiro jogo foi em Córdoba. Apesar das tentativas em meio à chuva forte, como um cabeceio de Maidana na trave e uma bola salva por um paranista perto da linha, ficou-se no 1-0, gol de Silva completando cruzamento rasteiro de Marzo pela esquerda.

    Maidana, Díaz, Cuenca, García, Humoller e Ávalos; Silva, Roth, Astudillo, Gigena e Santos Aguilar: os onze que iniciaram a segunda final

    Os argentinos não se acuaram na Vila Capanema e tiveram bons momentos especialmente na bola parada, mas levaram gol em bate-rebate já aos 29 do segundo tempo. Em nova hora-extra, Cuenca trabalhou bem, salvando logo as duas primeiras cobranças brasileiras, de Patrício no canto esquerdo e, com os pés, a de Flávio Guilherme no meio (logo ele, que improvisado no gol classificara os paranistas em decisão por pênaltis nas oitavas). David Díaz chutou para a fora, mas em seguida César mandou a sua cobrança ao travessão e La T garantiu a classificação já na quarta cobrança, de Oliva deslocando Neneca. Em meio às duas primeiras fases, o Talleres também engatava no Argentinão: após os 3-0 no Lanús, veio o 4-2 fora de casa no Argentinos Jrs, um 3-2 no Vélez e um 4-1 fora de casa no Gimnasia Jujuy.

    A seguir, a parte mais tranquila da campanha, que não deixou de ter seus sustos. A semifinal foi contra o Deportes Concepción, eliminado por um suado 3-2 no placar agregado. Os chilenos chegaram a estar vencendo em Córdoba após cobrança ensaiada de falta, mas no segundo tempo Maidana, completando de primeira cruzamento rasteiro de Pino pela direita, e Oliva em linda cobrança de falta viraram. O travessão impediu duas vezes mais gols cordobeses, em cabeceio de Cristian García e em chute de longa distância de Pino – em noite histórica por isolar Gareca como técnico com mais partidas à frente de La T, superando as 119 de Roberto Saporiti (ex-jogador do Atlético Mineiro, Saporiti era o comandante naquela epopeia reversa de 1977 e depois foi assistente de Menotti na Copa de 1978) e de José Reinaldi (rara figura querida tanto no bairro Jardín como também no rival Belgrano).

    Já fora de casa, Astudillo pareceu tranquilizar os argentinos ao abrir o placar no início do segundo tempo, em belo toque sutil fora da grande área com a canhota para encobrir o goleiro, mas ainda com meia hora para o fim veio o chorado empate em insistentes chutes na pequena área após bola cruzada não interceptada em rara falha de Cuenca e Maidana na campanha. Ainda houve um duplo erro do árbitro, que assinalou uma falta aos chilenos no limite de grande área em lance inexistente que ocorrera dentro. Mas nada se comparou à epopeia da final. O foco tallarin parecia mesmo ser todo na decisão, pois desde aqueles 2-1 no Deportivo Concepción não havia mais vencido: levou em casa de 4-1 do River, empatou no Chile em 1-1, perdeu do Newell’s por 3-1 e, após o jogo em Maceió, perdeu em casa para o Unión por 3-2.

    Ex-jogador do rival Belgrano, Gigena, ídolo da Ponte Preta, desafoga “La T” a 15 minutos do fim e vibra com Astudillo

    Os primeiros 19 minutos do jogo em Alagoas viram logo três gols em noite inspirada de Missinho, que só ali fez três de seus quatro gols no torneio (o primeiro, de calcanhar), e do insinuante Williams Bidé, que deu a assistência ao primeiro gol e sofreu falta que Fábio Magrão converteria para fazer o segundo – curiosamente, o jogador daquele CSA a ganhar mais renome futuro, Souza (com destaque por São Paulo e Grêmio nos anos 2000), era reserva. Santos Aguilar até descontou em canhotaço de fora da área. Mas Missinho reapareceu oportunista aos 38, se antecipando a Cuenca em cruzamento fraco de Bruno Alves. No reinício, Missinho fez 4-1 em falha geral da defesa. Para complicar ainda mais, Silvio Suárez foi expulso.

    Mas o “Sportivo Alagoano”, como o CSA era (e ainda é) retratado na mídia argentina, não matou o jogo e aos 43 do segundo tempo Astudillo concluiu de fora da área com um foguete rebote de jogada bem trabalhada, com a bola batendo no travessão antes de entrar. Gigena, ao vencer no mano-a-mano um arranque, ainda teve chance para diminuir mais depois. Já em Córdoba, o primeiro lance marcante foi aos 4 minutos: Santos Aguilar foi empurrado por Williams, ainda que tenha valorizado na queda. Ao exibir o cartão amarelo, o árbitro foi peitado por Fábio Magrão e mostrou-lhe diretamente o vermelho.

    O CSA, que havia arriscado pouco antes em um chutão de Márcio Pereira espalmado por Cuenca, se retraiu e sua figura passou a ser o goleiro Veloso, como em cabeçada à queima-roupa de Gigena e em outro tiro cara-a-cara, de Santos Aguilar. Mas, aos 39, não teve jeito: Veloso saiu para disputar bola com García, que deu um passe acrobático para Silva completar ao gol vazio. Depois os hermanos começaram a se cansar de perder chances. O cúmulo veio aos 25 minutos: Léo interceptou lançamento curto bobamente com a mão dentro da grande área, mas Pino chutou o pênalti para fora. 

    A taça desfilando com os campeões e nas mãos do jovem técnico Gareca

    Mas a frustração foi amenizada aos 30, com Gigena ganhando de cabeça em escanteio cobrado por Astudillo para encaminhar momentaneamente aos pênaltis – justo Gigena, que em 1996 fora carrasco em Clásico Cordobés no qual, ainda como jogador do rival Belgrano, abrira o placar de um 2-0 que estendera mais um pouco o terrível jejum de 14 anos que acometia La T no dérbi com La B (a seca cairia em alto estilo já no duelo seguinte, um 5-0, mas naquela derrota tornou-se famosa até por motivos supersticiosos, pois os tallarines tentaram espantar o azar usando inutilmente a camisa reserva grená…). As cabeças realmente definiriam tudo: perto do fim, Williams cruzou e o CSA perdeu sua melhor chance no jogo. O castigo veio nos acréscimos, após muita insistência argentina em outro lance de escanteio.

    No lance, Veloso afastou, mas a bola voltou à área e ele e Maidana disputaram a redonda e caíram. Ela ia se encaminhando para fora, mas García impediu na linha de fundo e inverteu para Astudillo. Após quase tropeçar na bola, ele a cruzou novamente à área. O gigante Maidana, segundos após perder a chance do título, erguera o punho para sinalizar a Astudillo. Recebeu e cabeceou certeiro para dar o título a La T, que experimentaria um boom: no Apertura 2000, lutou por seu primeiro título argentino até a última rodada contra o Boca de Carlos Bianchi. Na Mercosul 2001, liderou grupo com Vélez, São Paulo e Peñarol. Enfim estreou na Libertadores na edição 2002. Além disso, simbolicamente, logo no primeiro jogo após o título, saboreou um sensacional 5-4 fora de casa sobre o forte Gimnasia LP da época.

    Porém, o peso das campanhas ruins subsequentes foi tamanho que o clube caiu em 2004 mesmo após um Clausura com pontuação suficiente para lhe devolver ao continente (à Sul-Americana). Até dois rebaixamentos à terceira divisão os cordobeses sofreram antes de um aguardo regresso à elite em 2016, eternizando o ídolo colorado Pablo Guiñazú na memória tallarin. Não menos importante foi o gol do ex-refugo gremista duas décadas atrás.

  • Boca Juniors: a Supercopa conquistada sobre o Independiente

    Boca Juniors: a Supercopa conquistada sobre o Independiente

    O Boca Juniors venceu a Supercopa sobre o Independiente, título que faltava ao clube na vitrine. A decisão foi entre os dois maiores campeões da Libertadores.

    Em 1º de novembro, lembramos os 30 anos sem Natalio Pescia, lateral-esquerdo do Boca que batiza o setor de arquibancada onde se situam os temidos barrabravas de La 12. Pescia se notabilizou em especial pela fidelidade extrema ao clube, o único que defendeu mesmo diante do maior jejum suportado pelos xeneizes até então no campeonato argentino, os dez anos entre 1944 e 1954 – altura em que ele era o único remanescente do título anterior. Essa seca foi superada pela de 1981 a 1992. Mas a torcida se permitiu a alguns desafogos no período. O mais festejado deles, talvez, seja o de 30 anos atrás, já sem Pescia presente. Afinal, era um troféu continental, o mais expressivo levantado entre as Libertadores de 1978 e 2000 (delimitando inclusive onze anos para uma e outra): a Supercopa, lograda fora de casa contra um grande rival daqueles tempos, o Independiente.

    Também ainda nesse mês, lembramos os 65 anos de um ídolo comum às duas torcidas, o classudo volante Claudio Marangoni. Ele trocara um pelo outro exatamente em 1988, virando persona non grata por um tempo. Em 2007, contextualizara como estavam as rixas entre a torcida azul y oro e a roja: “o Independiente era a minha casa. A realidade é que a equipe começou a envelhecer, e tanto a mim como aos dirigentes convinha começar a fazer algumas mudanças. O que ocorre é que os dirigentes ocultaram isso, e disseram em off: ‘te vendemos, mas o custo político você paga’. Antes o Independiente não era somente uma grande equipe, e sim também uma grande instituição como é hoje o Boca. Hoje o Independiente é uma equipe de futebol e nada mais”.

    O campeonato argentino de 1986-87 ficara eternizado por ver o Rosario Central campeão (mesmo vindo da segunda divisão, em raríssimo bicampeonato com a primeira) e o rival Newell’s, de vice. Só que Boca e Independiente também estiveram no páreo. Na reta final, os auriazuis perderam as chances de título exatamente em um 3-2 sofrido diante do rival na penúltima rodada, em gol de José Percudani após Marangoni concluir uma jogadaça individual e servir-lhe uma generosa assistência. Percudani, por sua vez, já era herói desde que marcara o único gol do segundo e último Mundial do Rojo, em 1984, mas aquele gol de 1988 não ficou muito atrás no contexto da época: ele viria a dizer que costuma ser felicitado três vezes ao ano – no próprio aniversário, no aniversário daquele Mundial e quando se lembram desse elétrico duelo que acabou de nada valendo a ambos. Como se não bastasse, o Independiente também levou a melhor sobre o Boca na final da liguilla, com Maranga marcando no 4-3 agregado, e o volante ainda anotaria dois gols em um movimentado 3-3 pela temporada 1987-88.

    O mercado argentino da temporada 1988-89 então foi marcado pelas “traições”. Miguel Ángel Ludueña havia acabado de conquistar pelo Racing a edição inaugural da Supercopa, mas, sem acertar a renovação de contrato, não teve pudor em permanecer em Avellaneda como reforço do Independiente. Que, por sua vez, via Marangoni e também o ponta Alejandro Barberón migrarem ao Boca, que desde janeiro de 1988 já estava sob comando do mito José Omar Pastoriza – o maior técnico da história do Rojo, comandante dos títulos internacionais de 1984 em especial. Como se não bastasse, o ídolo-mor Ricardo Bochini já havia sido seriamente sondado no início de 1988 pelos xeneizes. Marangoni soltou o verbo naquela mesma entrevista: “Bochini nunca escolheu ficar exclusivamente no Independiente. Se tivesse uma oferta da Juventus, teria ido. Agora, se o torcedor do Independiente quer se enganar e fantasiar com o que ele sentia pela camiseta do clube, está bem”.

    A bola entrando nas redes do Grêmio nos lances de Marangoni e Cuciuffo (o caído à direita)

    O próprio Bocha não negou que a disposição em sair existiu, em 2009: “nesse momento, eu tinha problemas com [o técnico Jorge] Indio Solari, e Pedro Iso, o presidente, preferia o técnico. No fim, tudo se ajeitou”. Além do Maranga e de Barberón, Pastoriza pediu e foi atendido quanto aos reforços do zagueiro Juan Simón junto ao Monaco, do atacante Walter Perazzo junto ao San Lorenzo, de Pablo Erbín (vindo do River) e da promessa velezana Carlos Navarro Montoya para o gol. Além disso, voltava da França o velho ídolo Carlos Tapia, recordista de passagens pelo clube e vencedor da Copa de 1986. Começou o campeonato de 1988-89. O Boca estreou com uma surpreendente derrota em casa para o nanico Deportivo Armenio, em falha do veteraníssimo goleiro Hugo Gatti, que estava prestes a virar o recordista de jogos pelo time. Pastoriza não teve qualquer sensibilidade quanto a isso e Gatti não voltaria mais a ser usado, dando lugar a Navarro Montoya – que estreou com estrela, em triunfo de 2-0 em Superclásico dentro do Monumental sobre um estrelado River treinado por César Menotti.

    Ao fim do primeiro turno, mesmo chegando a sofrer um infame 6-1 do San Martín de Tucumán dentro da Bombonera, o Boca liderava, igualado com o Racing. Mas, enquanto o outro time de Avellaneda decaiu vertiginosamente no segundo, os auriazuis seguiram no páreo, agora contra o Rojo. Em dezembro de 1988, o clube chorou a perda de Alberto Jacinto Armando, seu mais longevo presidente (1960-80, ele dá nome oficial à Bombonera) e a do velho ídolo Ernesto Lazzatti (foram 14 anos de Boca) para em janeiro de 1989 chegar a deter cinco pontos de vantagem na liderança. O título parecia na mão após um triunfo com gol no minuto final de Alfredo Graciani sobre o Estudiantes, mas na rodada seguinte, a 29ª, o time perdeu a ponta no duelo direto com o Independiente. A corrida seguiu mas os bosteros não recuperaram mais a dianteira, que permaneceu em favor do Rojo até o fim. Nem mesmo a liguilla pre-Libertadores serviu de consolação: em agosto, o Boca levou a pior no Superclásico que serviu de semifinal, mesmo contando com a expulsão de Daniel Passarella, no que terminou sendo a agridoce partida de despedida do zagueirão.

    Bom, a liguilla era um torneio em mata-mata pós-campeonato que mantinha na ativa normalmente os oito clubes abaixo do campeão, dando vaga na Libertadores (que não ficava automaticamente com o vice). Fazia inclusive o vencedor se dar ao direito de volta olímpica. Instituída na temporada 1985-86, ela representara a grande alegria xeneize na década até então: logo na primeira edição, os auriazuis conseguiram uma façanha memorável. No jogo de ida da decisão, perderam em casa para o Newell’s, um 2-0 com dois gols de Gerardo Tata Martino. Em Rosario, o adversário abriu 1-0 e os visitantes sofreram a expulsão de Enrique Hrabina. Mas, na meia hora final, o Boca conseguiu um inesperado 4-1. Sem gol qualificado, o 3-1, já incrível, forçaria pênaltis, quando nos instantes finais o quarto saiu.

    Só que de pouco adiantou: na Libertadores de 1986, o time caiu na primeira fase e viu o arquirrival River avançar no mesmo grupo e, adiante, obter seu primeiro título. A liguilla de 1986 era, de todo modo, a alegria solitária que havia desde o maradoniano Metropolitano de 1981. Só que o dinheiro em dólar gasto no astro gerou uma bola de neve nas dívidas com a repentina valorização da moeda ianque em 240%, em crise econômica nacional majorada pelo insucesso nas Malvinas. Nem a saída de Dieguito ao Barcelona ajudou a sanar a situação. Em 1984, o Boca esteve muito perto da própria extinção, também sofrendo simbolicamente a pior goleada de sua história (9-1 para o Barcelona no Troféu Joan Gamper). Oscar Ruggeri e Ricardo Gareca não estiveram no vexame por servirem a seleção, mas ambos, oásis de talento no time, forçaram uma saída para nada menos que o River no início de 1985.

    Os heróis de 30 anos atrás: Navarro Montoya voa para espalmar a bola de Artime (ela ainda bateria na trave) enquanto Giunta segura a taça

    Assim, em 1989 o Boca completava oito anos sem qualquer título oficial – o período de 1944-54 ao menos rendera uma Copa Británica, de caráter oficial na época, e duas Copas Fraternidad, em tempos de mais valorização de torneios amistosos. Foi sob essa seca que o time começou a temporada 1989-90, já com Carlos Aimar substituindo Pastoriza desde 25 de junho. Víctor Marchesini vinha do Ferro, José Daniel Ponce era adquirido junto ao Junior de Barranquilla, Julio Gaona saía do Deportivo Español e Raúl César, do Estudiantes de Buenos Aires, ao passo que o Godoy Cruz emprestava Carlos Moya e Hernán Almeida.

    Mas os reforços que mais duraram foram os de Esteban Pogany junto ao San Lorenzo, nem que fosse para amargar anos e anos de banco para Navarro Montoyta; e o brigador Blas Giunta, que veio do Real Murcia para ser a parte destrutiva da dupla de volantes com Marangoni. Na via oposta, deixavam a Casa Amarilla o ídolo Hugo Gatti, bem como o volante Adrián Domenech. Aimar começou seu trabalho com uma excursão pelo Japão e por Los Angeles, com ele e os titulares voltando à Argentina com a temporada 1989-90 em pleno andamento. Os dois jogos iniciais foram adiados, com o time estreando já na 3ª rodada, perdendo de 1-0 para o Deportivo Español. Sobreveio então um 1-1 com o Vélez pela 4ª e depois o compromisso adiado da 2ª: um Superclásico vencido pela contagem mínima, gol de cabeça do saudoso José Luis Cuciuffo.

    O triunfo não serviu muito para engrenar o time no campeonato, ainda que não voltasse a perder desde a estreia até a 13ª rodada, já na altura de 29 de outubro (o Platense venceu de 1-0 dentro da Bombonera). Àquela altura, havia escusa: o Boca estreara na Supercopa nas datas de 19 e 26 daquele mês, em duelos caseiros contra o Racing, pelas quartas-de-final de uma competição toda em mata-mata. Ela começava ainda nas oitavas, mas a Academia, como detentora do título, foi contemplada com a inclusão na fase seguinte. O restante dos participantes estava em número ímpar e no sorteio o Boca foi favorecido a também começar na segunda fase. O jogo de ida foi na Bombonera, sem sair do 0-0. Mas no Cilindro os visitantes se sobressaíram: Ponce abriu o marcador de pênalti logo aos 5 minutos. Néstor Fabbri até igualou aos 14, mas outro certeiro cabeceio de Cuciuffo em um escanteio deu números finais ao jogo ainda aos 15 do segundo tempo.

    O Boca então empatou em 2-2 fora de casa com o San Lorenzo pela 14ª rodada para, em 8 de novembro, visitar o Grêmio recém-campeão da primeira Copa do Brasil, mas incapaz de marcar algum gol no Olímpico; colhendo o 0-0 em Porto Alegre, o Boca emendou novo 0-0, agora pela liga nacional (contra o Talleres, em casa), para receber os gaúchos em 16 de novembro. Com 24 minutos de jogo, o placar já exibiria o resultado final de 2-0. Aos 15, Marangoni acertou no ângulo de Mazarópi um chutaço de fora da área em bola afastada pela defesa tricolor – com direito a um feliz cumpleaños das arquibancadas pelo seu 35º aniversário no dia seguinte. Depois, Cuciuffo fez valer seu ótimo jogo aéreo para cabecear um longo lateral levantado na área. Em um tiro-curto de 40 dias, o clube já se via à espreita de um título oficial. Pela frente, o Independiente, que vinha de eliminar no placar agregado o Santos por 4-1, o Atlético Nacional (campeão da Libertadores meses antes) por 4-2 e o Argentinos Jrs (que tirara Flamengo e Cruzeiro) por 3-1.

    O lance do desafogo: um chute cru no meio do gol, mas efetivo, desferido por Giunta

    Em 19 de novembro, novo empate seguido no campeonato argentino, em 1-1 em visita ao Racing. Três dias depois, a Bombonera recebeu o outro time de Avellaneda. O grito de campeão precisou ficar entalado, pois a experiência copeira maior do Rojo prevaleceu, segurando o 0-0 a despeito de ótimos trinta minutos exibidos pelos donos da casa ao longo do segundo tempo. Até então, a campanha morna no campeonato argentino ainda vinha empregando os titulares, mas Cai Aimar não teve dúvidas no dia 22: os reservas entraram em campo na Bombonera para receber o Gimnasia, incluindo o goleiro Pogany (que se acostumaria a ser banco mesmo em jogos assim). O time de La Plata abriu 3-1 e terminou vencendo mesmo por 3-2. Três dias mais tarde, afinal, viria a noite mais cara aos xeneizes em quase dez anos. Ao Independiente, era a chance de encerrar jejum internacional de cinco anos, tempo demais a uma torcida mal acostumada.

    Assim, 60 mil pessoas encheram a Doble Visera. Foi a vez dos auriazuis darem algum troco, empregando uma firme defesa que só sofrera um gol até então na campanha, reforçada por uma meiúca não menos combativa com Giunta e Marangoni. Quando acionado, o (contra)ataque tinha na velocidade de Graciani um perigo constante. Mesmo as substituições feitas por Aimar não foram retranqueiras, ao trocar já aos 20 do segundo tempo Graciani por Walter Pico e aos 31 colocar Sergio Berti no lugar de Perazzo. Se nos anos 90 ambos se firmaram como volantes, na época ainda eram jogadores ofensivos. La Bruja Berti, inclusive, viria a ser um raríssimo campeão continental pela dupla principal do país, ao vencer pelo River a Libertadores de 1996 e a própria Supercopa em 1997.

    O ídolo Bochini, lesionado e ausente de todo o jogo de ida, só foi colocado em campo na meia hora final. Mas nem El Bocha evitou que o 0-0 se repetisse em Avellaneda. Tampouco o ingresso de Luis Fabián Artime faltando cinco minutos, no lugar de Carlos Alfaro Moreno. Luifa tinha o peso do sobrenome do pai, o superartilheiro Luis Artime, que mesmo sempre tendo coração racinguista brilhara no Rojo (e no River, e no Palmeiras, e no Nacional e, claro, na seleção…) nos anos 60 como uma espécie de Gerd Müller argentino. Estavam forçados os pênaltis. Que terminariam cruéis a esse lado.

    O Boca abriu os trabalhos com Ponce. Osvaldo Bianco. Marchesini. Ricardo Altamirano. Diego Latorre. Rubén Insúa. Ivar Stafuza: todos os chutadores vinham convertendo. Até chegar na vez do Luifa Artime, na quarta cobrança da casa. Ele buscou o canto esquerdo de Navarro Montoya, mas El Mono voou bem e espalmou uma bola que ainda bateu na trave antes de voltar ao gramado. Restava ao Boca fechar o caixão e a cobrança recaiu precisamente no jogador mais reconhecido pelos colhões, ressaltados em cânticos a si desde os tempos em que defendia o San Lorenzo: El Huevo Giunta. Fiel a seu estilo sem sutilezas, ele acertou uma efetiva bomba no meio do gol enquanto o goleiro uruguaio Eduardo Pereira escolhia pular no canto esquerdo. O Artime filho (crueldade: o pai faria aniversário cinco dias depois…) também não vingaria pelo San Lorenzo e precisou reconstruir a carreira no Belgrano, vindo a se sobressair como o maior artilheiro do time cordobês.

    Os campeões só jogaram mais duas vezes em 1989 pelo campeonato, com mais dois empates seguidos. O time conseguiu uma sequência razoável após a pausa de verão, saltando para um terceiro lugar embora não chegasse a brigar pelo título. Estava satisfeito também com a obtenção da Recopa, em março de 1990, em jogo-único com o Atlético Nacional em Miami. Seria a sina do clube até finalizar o incômodo jejum doméstico em dezembro de 1992: festejar essas Copas menores da Conmebol, o que incluiu até a primeira Copa Master, já em maio de 1992, torneio de apenas três edições esparsas a reunir os vencedores da Supercopa – que por sua vez era o torneio que reunia os vencedores da Libertadores.

    Como campeão da Copa Master e com o jejum argentino já finalizado, ainda levantou-se em 1993 a primeira Copa Ouro, um quadrangular que envolvia os vencedores de 1992 da Libertadores, da Supercopa, da Copa Conmebol e da Master. Caráter caça-níquel à parte, esses troféus começaram a pesar para fazer os xeneizes se apropriarem gradualmente da alcunha tão cara ao lado derrotado há 30 anos – o de novo Rey de Copas da Argentina. Tardaria, mas a revanche do monarca original viria, na final de 1994 da Supercopa. É outra história já contada nesse mês de novembro, nesse outro Especial.

    O técnico Aimar extravasa na Doble Visera. Repetiu o figurino em Miami, erguendo à direita a Recopa entre Soñora, Latorre e Moya